quinta-feira, 30 de maio de 2013

A sereia de Gob-ny-ooyl

Fonte: Manx fairy tales, de Sophia Morrison.



A SEREIA DE GOB-NY-OOYL

 Em uma época, vivia no fim de Cornah gill uma família de nome Sayle, e a Sereia que tinha sua moradia acima de Bulgham era amiga deles. Eles sempre estavam em caminhos de sorte e nunca pareciam estarem limitados a nada. É certo que tinham muitas economias e para preencher as probabilidades de tempo livre, faziam potes de lagosta do vimeiro que crescia nas redondezas em abundância, e sempre encontravam compradores. Eles tinham uma vaca e algumas ovelhas, apenas para dar trabalho às mulheres em longas noites de inverno, mas a maioria do seu sustento era obtido no mar.

sábado, 25 de maio de 2013

A visão, dom dos videntes célticos

 O texto a seguir é uma tradução do artigo original "The sight, gift of Celtic seers" do e-book "Land, Sea and Sky". O e-book é uma coletânea de textos de diversos autores, este é de Francine Nicholson, e o texto foi traduzido com a permissão da idealizadora do livro, uma vez que Francine faleceu há um tempo atrás. Há uma versão antiga que já foi traduzida por mim, mas esta é uma versão (re)traduzida e (re)revisada, devido a quantidade de erros encontrados na tradução anterior. Créditos da revisão ao Thiago Oliveira. Clique aqui para baixar o arquivo.

Sobre o texto
 "A visão, dom dos videntes célticos" é uma leitura fundamental para qualquer Druidista que queira seguir o caminho do vidente (fáith). Embora não trate de curas através de ervas - aliás, este é o tema de um outro texto - a autora explora cada método de visão usado pelos antigos celtas, como o conhecido imbas forosnai, o augúrio do osso da ovelha, o frìth, e muitos outros. Francine Nicholson também escreveu sobre a vidente/curandeira mais conhecida dentro do Paganismo gaélico - Biddy Early.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O reinado de Bres

Fonte: Gods and Fighting Men, de Lady Gregory.

O reinado de Bres

 Nuada ganhou a batalha, mas perdeu seu próprio braço nela, cortado por Sreng, e por essa perda, vieram os problemas e o aborrecimento de seu povo.
 Era uma lei entre os Tuatha De Danann que todo rei devia ser um homem de forma perfeita, e após Nuada perder seu braço, ele também perdeu o reinado por conta disso.
 O rei escolhido para ficar em seu lugar foi Bres, o mais belo de todos os seus jovens, pois se cada pessoa quisesse louvar qualquer coisa bonita, seja uma planície, um dún, uma cerveja, uma chama, uma mulher, um homem ou um cavalo, ele diria, “É belo como Bres.” Ele era filho de uma mulher dos Tuatha De Danann, e seu pai, apenas sua mãe sabia quem era.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A luta contra os Fir Bolg

Fonte: Gods and Fighting Men, de Lady Gregory.

Parte I, livro I
A luta contra os Fir Bolg
Imagem de Maria Madalena O'Neill
 
 Foi em uma bruma que os Tuatha de Danann, o povo dos deuses de Dana, ou como alguns os chamam, os Homens de Dea, vieram pelo ar, e do alto ar, para a Irlanda.
 Eles vieram do norte, e lá eles tinham quatro cidades onde travaram suas batalhas pelo conhecimento: a grande Falias, a brilhante Gorias, Finias e a rica Murias que ficava ao sul. Nessas quatro cidades eles tinham quatro sábios que ensinavam a seus jovens a habilidade, o conhecimento e a perfeita sabedoria: Senias em Murias, Arias, o poeta loiro em Finias; Urias da natureza nobre em Gorias e Morias em Falias. Dessas quatro cidades, eles trouxeram seus quatro tesouros: uma Pedra da Virtude de Falias, que foi chamada de Lia Fail, a Pedra do Destino; de Gorias eles trouxeram uma Espada, de Finias, uma Lança da Vitória, e de Murias, o quarto tesouro, o Caldeirão em que ninguém ficaria insaciável.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Celebrando o Bealltainn

Fonte: Site “Tairis: Celebrating Bealltainn”, por Annie Loughlin. Disponível em: <http://www.tairis.co.uk/celebrations/celebrating-bealltainn/>. All content by Annie Loughlin ©2015-2016. 

                As seguintes sugestões dadas aqui foram delineadas com a ideia de que sejam incorporadas em uma estrutura ritualística coerente (em sua maioria). Você não precisa segui-las se não quiser. No geral, essas sugestões tendem a ser usadas em um grupo de pessoas, mas é claro que nem todo mundo quer ou poder fazer isso. Para aqueles que querem usar com um grupo, mas não necessariamente tem a oportunidade de fazer com amigos que sejam politeístas gaélicos, você sempre pode tentar reunir seus amigos ou sua família para compartilhar um banquete, e depois, fazer suas observâncias religiosas privadamente.

               Cabe a você decidir quando celebrar; você pode querer fazer suas observâncias na “própria” véspera de Bealltainn ou pode querer esperar até os sinais sazonais ficarem visíveis (celebrando, por exemplo, quando o espinheiro florescer). Em um grupo, no entanto, pode ser mais conveniente organizar suas celebrações em grupo em uma data marcada que seja conveniente para todos.

Bealltainn


(Esse texto precisa de uma revisão. Caso perceber algum erro de tradução ou frase incompreensível, me envie uma mensagem. A revisão já está sendo providenciada.) 

Fonte: Site Tairis. Festivals: Bealltainn part 1/Bealltainn part 2, por Annie Loughlinn. Disponível em: <http://www.tairis.co.uk/festivals/bealltainn> e <http://www.tairis.co.uk/festivals/bealltainn-part-two>. 
Bealltainn



Introdução

 Bealltainn marca o início do verão e tradicionalmente anunciava o início do pastoreio do gado e das ovelhas na grama fresca das colinas de pastagem; depois de um longo e sombrio inverno passado na maior parte do tempo dentro de casa, o início do verão marcava o início das atividades do lado de fora de casa, vigiando as ovelhas que percorriam as colinas, pastoreando e ordenhando as vacas, fazendo manteiga e queijos, e assim por diante.¹

 O dia era marcado por uma variedade de festividades, tais como a grande procissão para as colinas, o acender de fogueiras (que eram usadas ritualmente para a purificação e proteção do gado e do povo), a decoração de casas com flores e ‘arbustos de Maio’, o cozimento de receitas especiais e a observação de superstições e cerimônias particulares. Uma vez que os laticínios eram vitais para as economias pastorais como a Escócia e Irlanda – especialmente nos meses próximos a colheita – o objetivo das festividades em geral era a proteção e a garantia de um abundante suprimento de leite, manteiga e queijo para o ano vindouro.² Bealltainn também era acompanhado pela renovação de aluguéis entre inquilinos e senhores de terra, o pagamento de dízimas, junto com feiras para garantir o trabalho.³

 Muitos dos ritos também se preocupavam com o reforço e a redefinição de fronteiras – dentro do espaço físico da casa e da fazenda (tais como soleiras, janelas e fronteiras do campo). Essas fronteiras, espaços limiares que não pertencem nem à um lugar nem outro, considerava-se estarem sob a ameaça de forças sobrenaturais que se acreditava estar a solta na véspera de Bealltainn, e sem a proteção apropriada, as bruxas ou espíritos do mal podiam entrar na propriedade e levar consigo a prosperidade e a produção da família.4

 Diferente de hoje em dia, o fracasso das colheitas ou da produção de leite em qualquer comunidade tinha resultados desastrosos; a falha das colheitas, doenças do gado ou escassez de leite podiam ser devastadores. A fome era uma ameaça real e o folclore associado com as atividades cotidianas tais como ordenha, preparação de manteiga e queijo, preparação de bannocks e a tradicional preparação da festa de Bealltainn com um cordeiro macho recentemente morto “sem manchas ou máculas”5 é prova disso.



As primeiras fontes

 Muitas vezes as cerimônias variavam levemente em um nível local, mas em seu núcleo, uma notável coerência pode ser vista entre as descrições das festividades na Irlanda e Escócia a partir das mais antigas referências ao festival até as práticas modernas que restaram. O Sanas Chormaic “O Glossário de Cormac”, é um texto irlandês que data por volta do ano 900 d.C. e contem a mais antiga referência ao festival:

 “Bil vem de Bial, isto é, um deus ídolo, unde beltine, ‘Primeiro de Maio’, ou seja, o fogo de Bel. [...] Bil i obiel I dia idaltoicteg [?] saide conataithe tene ina anmaim i taiti samraid dogves 7 doaightís cethrai eter in da thenid (‘uma fogueira era acesa em seu nome no início de cada verão, e o gado era conduzido entre essas duas fogueiras’). – Ed.6  

 Sobre Belltaine, é dito:    

 “Belltaine, ‘Primeiro de Maio’, isto é, bil-tene, ou seja, fogo afortunado, isto é, as duas grandes fogueiras que os druidas costumavam fazer com grandes encantamentos, e eles conduziam o gado [como uma proteção] entre essas fogueiras para protegê-los contra as doenças de cada ano.”7

 Além do conto do século XI “O Cortejo de Emer”, que menciona Bealltainn como o ‘início do verão’8, uma citação deve ser feita ao texto do século XVII “Life of St. Patrick”, escrita por Muirchú. Conta o texto que Patrício, em suas tentativas de converter o rei pagão Loegaire mac Néill, acende as fogueiras da Páscoa antes de Loegaire acender em Tara, como parte de alguns ritos pagãos que caiam no mesmo dia. Outro texto “Life of Saint Patrick” do século IX nos conta que todas as fogueiras deviam ser extintas e então reacendidas a partir da fogueira de Tara, ecoando com os ritos de Bealltainn, levando alguns estudiosos9 a assumir que o texto se referia ao festival. Francis Byrne vê isso como um esforço dos autores cristãos em deliberadamente juntar os dois festivais – cristão e pagão – em uma tentativa de criar um elegante episódio mostrando o triunfo do Cristianismo e de Patrício.10 No entanto, a Páscoa não cairia tão tarde para se coincidir com Bealltainn, e Binchy conclui (em detalhes melhores que Byrne) que a associação é falsa, incluindo a menção de uma festa que era realizada em Tara nessa época.11



Etimologia

 Como já vimos, o Glossário de Cormac dá o significado do nome como “o fogo de Bel”, relacionando ao deus Baal (dado como Bial no texto).12 Muitos estudiosos argumentam que a etimologia de Bealltainn relacionada a Baal se deve mais ao fato dos escribas estarem mais familiarizados com um deus que é notavelmente encontrado na Bíblia, ao invés de alguma divindade irlandesa, mas há diversas deidades célticas que incorporam o sufixo bel em seu nome, como Belenus da Gália e Beli do País de Gales. Talvez, uma explicação mais provável como Stokes e Macbain sugere no fim do século XIX, é que Bealltainn incorpora as duas palavras: bel, “brilhante”, e teine, “fogo”, ou seja, “fogo brilhante”.13

 Outra etimologia sugere que ao invés de –tene, “fogo”, o segundo elemento da palavra é –dine, que significa gado recém nascido, referindo-se assim aos bezerros que eram sacrificados a Bel.14 Os tratados jurídicos irlandeses se referem a Bealltainn como o início da estação do nascimento de bezerros – Iulgachus Beltaine, ou ‘Parto de Maio’15 – o que poderia dar credibilidade a sugestão, mas com o esmagador ponto ígneo focal das cerimônias dadas pelas mais antigas fontes, a explicação mais óbvia é mais provável de ser a correta.

 Outra última etimologia que tem sido apresentada é de Henri-Marie D’Arbois Juvainille, que sugere que Bealltainn contem a forma genitiva de beltu – “morrendo” – que faria cognato com Giltine, a deusa lituana da morte. Esse argumento poderia, portanto, apoiar o argumento que Bealltainn se refere a uma particular deidade irlandesa, mas isso sugeriria que tal deus presumivelmente teria conotações com a morte, como sua contraparte lituana.16 Como MacCulloch aponta, no entanto, o festival não é sobre a morte, e sim sobre a propiciação da vida e da abundância, lançando dúvidas na teoria de Juvainille.17



A evidência na Escócia



A transumância e as fogueiras na Escócia

 Embora o tempo ainda possa ter um lado imprevisível no início de Maio – especialmente nas partes mais ao norte da Escócia – chegava o momento quando as ovelhas e o gado iam para as colinas para terem vantagens da grama fresca que estava disponível. Existia uma barganha entre o risco de perder algumas cabeças de gado para o mal tempo e suportar o miserável frio e o clima úmido de um início de verão demorado para ir às colinas onde os campos começavam a crescer novamente, para que o gado pudesse regular os campos e desencorajar o crescimento de plantas indesejáveis para que estas não ficassem em grande número em meio à grama.

 A subida para os planaltos era marcada antecipadamente pela reparação dos campos, para ter certeza se eles estavam habitáveis, e então uma grande procissão tomava lugar com toda a comunidade fazendo a viagem para os frescos pastos, todos juntos. De um modo geral, os homens teriam ficado nas planícies, cuidando dos campos e das plantações, ou então, iam ao mar para pescar durante o verão, enquanto mulheres e crianças ficavam nas colinas com o gado, até todos serem necessários para o trabalho da colheita. Algumas mulheres provavelmente teriam ficado com os homens para cozinhar e tomar conta daqueles que eram incapazes de fazer a viagem para as colinas ou daqueles que tinham muito trabalho nos campos, mas caso contrário, a divisão de trabalho era bastante definida.18

 A ideia dessa grande procissão sendo feita no dia Primeiro de Maio é enfatizada por antiquários e estudiosos como Alexander Carmichael em seu Carmina Gadelica, John Gregorson Campbell e F. Marian McNeill. Carmichael escreveu, “Esse é um dia de migração, bho baile gu Beinn (da cidade para a charneca), da casa do inverno para a pastagem do verão.”19 McNeill também retrata uma imagem simétrica das estações:

 “Em Bealltainn os rebanhos e as manadas vão para suas pastagens de verão; em Hallowmas, eles voltam. Perto de Bealltainn, as sementes já estavam no solo; perto de Hallowmas, a colheita já tinha sido feita. Assim, Bealltainn pode ser considerado um Dia de Súplica, quando os caçadores e pastores pediam bênçãos para o gado e as plantações, e Hallowmas, um Dia de Agradecimento pelo retorno seguro dos viajantes e a renovação do suprimento de comida.”20

 Por mais poético que isso pareça, no entanto, era apenas isso: uma verdade poética, ao invés de uma realidade. Dado ao clima muitas vezes imprevisível e a importância de dar as vacas grama fresca a fim de garantir a qualidade de seu leite – e, portanto, a produção de laticínios como a manteiga e o queijo – os estudos mais recentes de Ronald Black concluem que a pastagem de verão começava assim que o clima permitia. Em um ano quando o verão chegava cedo, a estação de pastagem poderia começar antes de Março e terminaria às vezes por volta de Setembro. Um verão mais pobre podia significar uma pastagem tardia, e que terminaria logo. O trabalho mais recente de Carmichael parece ter levado em conta isso, uma vez que em 1884 ele escreveu que a pastagem de verão começava às vezes no “início de Junho”, sugerindo uma grande flexibilidade da data.21

 Nas áreas rurais, então, podia-se assumir que as tradições associadas com o início da estação de pastagem seriam decretada em qualquer dia escolhido, ao invés de uma data fixa e “real” para o dia Primeiro de Maio. De qualquer forma, não importa o dia que a viagem para as pastagens de verão era feita, o dia normalmente começava cedo, antes do nascer do sol, quando toda a comunidade reuniam suas famílias, seus pertences (o necessário) e suas várias cabeças de gado para caminharem em procissão (triall) para uma colina. Carmichael observa que as ovelhas conduziam a procissão, seguidas pelo gado (em ordem de idade), cabras, e por último, os cavalos. No caminho para a colina, todos se saudavam e diziam bênçãos para garantir a sorte e a prosperidade no ano vindouro.22   

 Cânticos também eram cantados conforme os rebanhos e as manadas eram levadas para as colinas, alguns dos quais Alexander Carmichael registrou no Carmina Gadelica. Um desses cânticos, An Saodachdh – “A Condução”, mostra os principais perigos que os pastores enfrentavam, preocupados em vigiar seu gado:

“A proteção de Odhran, o pardo, seja sua,

A proteção de Brigit, a Ama, seja sua,

A proteção de Maria, a Virgem, seja sua,

Nos pântanos e em solos rochosos,

Nos pântanos e em solos rochosos. 


O cuidado de Ciaran, o negro, seja seu,

O cuidado de Brianan, o amarelo, seja seu,

O cuidado de Diarmaid, o marrom, seja seu,

Passeando pelos prados,

Passeando pelos prados.


A proteção de Fionn mac Cumhall seja sua,

A proteção de Cormac, o formoso, seja sua,

A proteção de Conn e Cumhall seja sua,

Dos lobos e dos bandos de pássaros,

Dos lobos e dos bandos de pássaros.


O santuário de Colum Cille seja seu,

O santuário de Maol Ruibhe seja seu,

O santuário das donzelas da ordenha seja seu,

Para procurar e buscar para você,

Para procurar e buscar para você.


A cerca de Maol Odhrain seja sua,

A cerca de Maol Oighe seja sua,

A cerca de Maol Domhnaich seja sua,

Para te proteger e te pastorear,

Para te proteger e te pastorear.


O escudo do rei dos Fiann seja seu

O escudo do rei do sol seja seu

O escudo do rei das estrelas seja seu

No perigo e na aflição,

No perigo e na aflição.


A segurança do rei dos reis seja sua,

A segurança de Jesus Cristo seja sua,

A segurança do Espírito da cura seja sua,

Dos atos ruins e das brigas,

Do cão malvado e do cão vermelho.”23


 Essas preocupações são novamente vistas nos ritos do dia, com o gado e a terra sendo purificados para protegê-los dos inimigos invisíveis, e oferendas são feitas para manter os predadores longe. As fogueiras mencionadas no Glossário de Cormac era uma característica comum das festividades irlandesas e escocesas, mas a maioria dos registros dela sobreviveu como anedotas e memórias de uma tradição que já tinha morrido, ou então, que não tinha sido testemunhada em primeira mão pelo autor.

 A mais antiga descrição detalhada das fogueiras de Bealltainn pode ser encontrada no livro A Tour of Scotland (1776) de Thomas Pennant, onde ele relata os ritos de Bealltainn que foi falado para ele por um conhecido:

 “No dia Primeiro de Maio, os pastores de cada vilarejo realizam seu Bel-tein, o sacrifício rural. Cavam uma trincheira quadrada no chão, deixando a turfa no meio; nessa trincheira eles fazem uma fogueira de madeiras, na qual eles cozinham uma grande quantidade de caudle de ovos, manteiga, aveia e leite; e trazem, além dos ingredientes do caudle, muita cerveja e uísque, pois cada um precisa contribuir com alguma coisa. Os ritos começam com o derramamento de um pouco de caudle no chão, como uma libação: nisso, cada um pega um bolo de aveia, sobre o qual são colocados nove protuberâncias quadradas, cada uma dedicada a um ser particular, que protegeria seu gado e sua manada ou para algum animal particular, o verdadeiro destruidor deles: cada um deles vira seu rosto para o fogo, quebra uma bolotinha e arremessa sobre seus ombros dizendo, ‘Isto eu lhe dou, preserve meus cavalos; isso é para ti, preserve minhas ovelhas’; e assim em diante. Depois disso, eles usam a mesma cerimônia para os animais nocivos: ‘Isto eu lhe dou, oh raposa! Poupe meus cordeiros; isto é para ti, oh gralha! Isso é para ti, oh águia!’ Quando a cerimônia acaba, eles jantam com o caudle.”24

 Aproximadamente cinquenta anos mais tarde, W. G. Stewart nos conta o início das festividades:

 “Os pastores purificavam seu rebanho com a fumaça de enxofre, junípero, buxo, alecrim, etc. Eles então faziam uma grande fogueira, dançando ao redor dela e ofereciam à deusa leite, queijo, ovos, etc. virando seus rostos para o leste e proferindo exclamações peculiares à ocasião.”25  

 As fontes dessa época raramente dão referências de onde eles conseguiram certa informação, a menos que seja uma citação direta, é difícil verificar as afirmações de Stewart em relação aos ingredientes usados na purificação dos rebanhos, uma vez que existia frequentemente uma tendência em preencher espaços nas fontes que seriam consideradas fora do contexto. O junípero é conhecido por ter sido usado em rituais de purificação em outros tempos, logo, não há razões para duvidar disso.

 Outras fontes concordam com essas descrições das fogueiras, e John Ramsay de Ochtertyre, um amigo de Sir Walter Scott e Robert Burns, dá uma descrição mais completa de uma celebração de Bealltainn:

 “[…] Desde o declínio da superstição, o festival era celebrado pelo povo de cada vila em alguma colina ou planalto, no qual seu gado pastava. Do outro lado, os jovens recorriam na manhã, cavavam uma trincheira, e no centro dela, um assento de turfa era formado pela companhia. E no meio, uma pilha de madeira ou outra lenha era colocada, na qual os velhos acendiam o tein-eigin, isto é, o fogo forçado ou o fogo necessário* [NT: o “fogo forçado” ou “fogo necessário” é um termo escocês para fogueiras acesas a partir da fricção de duas madeiras]. Embora, devido muitos anos terem se passado, eles tenham se contentado com um fogo comum, nós descreveremos o processo, pois futuramente acontecerá algo que eles ainda terão que recorrer ao tein-eigin em emergências extraordinárias.

 Na noite anterior, todos os fogos da cidade eram cuidadosamente apagados, e na manhã seguinte, os materiais para acender esse fogo sagrado eram preparados. O método mais primitivo parece ter sido aquele usado nas ilhas de Skye, Mull e Tiree. Procuravam uma tábua seca de carvalho, e no meio dela, um buraco era feito. Uma broca da mesma madeira era colocada, fazendo assim o buraco. Mas em algumas partes do continente, o mecanismo era diferente. Eles usavam uma estrutura de madeira verde, de forma quadrada, e no centro, um eixo de madeira. Em alguns lugares, três vezes três pessoas, e em outros, três vezes nove pessoas eram necessárias para dar girar a broca ou o eixo. Se algum deles foi culpado de assassinato, adultério, roubo ou outro crime cruel, acreditava-se que o fogo não acenderia, ou o fogo seria desprovido de sua virtude usual. Então, assim que as faíscas começassem a aparecer devido à fricção violenta, eles aplicavam uma espécie de agárico que crescia em velhas bétulas, e este era o combustível. Esse fogo tinha a aparência de ter vindo imediatamente do céu, e múltiplas virtudes eram atribuídas a ele. Eles consideravam o fogo como um preservativo contra a bruxaria e um poderoso remédio contra doenças malignas, tanto em humanos como no gado, e através desse fogo, os venenos mais fortes eram curados.

 Depois de acender a fogueira com o tein-eigin, a companhia preparava seus alimentos. Assim que terminavam a refeição, eles se distraiam enquanto dançavam e cantavam ao redor do fogo. Quando a festa estava quase acabando, a pessoa que era o chefe da festa fazia um grande bolo feito com ovos e o cortava ao redor da fogueira, o bolo era chamado de am bonnach beal-tine – isto é, o bolo de Beltane. Ele era então dividido em pedaços e distribuídos para a companhia. Um pedaço particular era chamado de Cailleach beal-tine, isto é, a carline de Beltane, um termo de grande reprovação. Quando descobrissem o dono desse pedaço, parte da companhia o segurava e faziam uma exibição colocando-o no fogo, mas se a maioria das pessoas se colocava contra e ele era salvo. Em alguns lugares, eles o deitavam no chão, como se fossem esquarteja-lo. Depois, as pessoas tacavam cascas de ovos nele, e todos mantinham esse ódio por ele durante todo o ano. Enquanto a festa permaneceu viva na memória do povo, eles falam da cailleach beal-tine como morta.”26  

 Foi a crença de Frazer (ecoado pelos escritores tais como McNeill) que isso mostra uma sobrevivência de sacrifício humano, parcialmente entendido pelo povo quando as sensibilidades e práticas cristãs substituíram as pré-cristãs.27 Enquanto é possível que essa exibição tenha sido um eco de um sacrifício de algum tipo, nem Frazer ou McNeill oferecem qualquer evidência, que não seja uma visão um pouco romantizada de ritos druídicos e nobres selvagens, para suportar sua opinião. Patterson, que enfatiza o papel do homem nos ritos de Bealltainn e Lùnastal, sugere que, “É provável [...] que a ‘vítima’ servia como um representante dos homens da comunidade, chefes de família, que participavam das cerimônias; os homens tinham responsabilidades com os senhores, dízimos para pagar para suas igrejas e débitos para acertar com seus vizinhos.”28

 Em algumas partes da Escócia, sortes eram lançadas para ver quem pulava sobre a fogueira. Em Callander, Perthshire, um pedaço de bannock era dividido em pedaços no número dos homens, e um pedaço era enegrecido e então colocado em um chapéu com os outros. Quem quer que pegasse o pedaço enegrecido teria que pular no fogo.29 Em algumas partes de Perthshire, pulava-se sobre o fogo sete vezes; em Shetland, o salto do fogo se tornou uma competição que era aberta a qualquer homem que quisesse participar, e aquele que pulasse sobre o fogo sem se machucar, era considerado o melhor homem.30 Esse salto, que também é encontrado na Irlanda, pode refletir um ritual de algum tipo de magia simpática usada para encorajar o crescimento das plantações.31  

 Uma vez que as festividades comunitárias acabassem, as pessoas pegavam uma chama da fogueira e levavam para sua casa para acender a lareira, simbolicamente pegando as qualidades protetoras do fogo comunitário. Era costume que todas as dívidas fossem pagas antes das festividades começarem, e qualquer um que tivesse aluguéis, ou dívidas para serem resolvidas, ou ainda, aqueles que tinham sido marcados como ladrões ou com falta de caráter e generosidade, era negado uma chama, efetivamente o privando dos benefícios dos ritos no ano que viria.32

 Depois de a lareira ser reacendida, uma festa era preparada, que tipicamente incluía a carne de um cordeiro macho, “sem manchas ou máculas,” que tinha sido morto naquele dia.33 Bannocks e caudle (um tipo de creme feito com um pouco de aveia) também eram comidos (ou qualquer coisa a mais preparado pela manhã), um para cada membro da família, com um queijo especial feito com leite de ovelha. O queijo era feito com o leite de uma ovelha que tinha sido tosada, ou ainda, com o leite do primeiro dia após o cordeiro ter sido desmamado, e no sul de Uist, de acordo com Fergus Kelly, o queijo do Primeiro de Maio – ou mulchag Bhealltainn34 em Gàidhlig – era feito e deixado para amadurecer por um ano inteiro antes de ser comigo. O queijo devia ser comido com o bannock depois do nascer do sol, a fim de manter as fadas longe da fazenda para o ano vindouro. O queijo que sobrasse podia ser guardado até o Lùnastal, de acordo com McNeill.35

 As fogueiras e suas festividades associadas parecem ter morrido por volta do século XIX,36 mas MacInlay registrou diversos ritos que aconteciam nas colinas de Tinto e Dechmont em Lanarkshire. Em Dechmont, uma grande quantidade de carvão foi descoberta no século XIX, coberta por uma fina camada de argila. Embora as fogueiras tenham sido deixadas de lado com o tempo, os moradores locais sabem que este era o lugar onde as fogueiras de Bealltainn eram acesas, e “não expressaram surpresa com a descoberta.”37 Outros lugares incluindo o Arthur’s Seat (perto de Edimburgo) e Kinnoul Hill, Perthshire, e Stennis.38

 Como as fogueiras tinham sido deixadas de lado, as festividades continuaram, porém com um foco nos costumes dentro de casa, e alguns dos costumes que eram reservados apenas aos homens (em sua maior parte) agora eram reservados as crianças.39 Muitas famílias tinham seus próprios rituais e tradições associadas com a confecção e consumo dos bannocks. No século XVI, o poeta Alexander Scott notou que os bannocks eram muitas vezes comidos pela família quando estes se sentavam ao redor do fogo, normalmente do lado de fora da casa (quando o tempo permitia, presumivelmente).40 Os bannocks eram feitos pela dona de casa ou pela filha mais velha da família, e cada bannock que era feito era designado para um membro da família, e bênçãos de saúde e prosperidade eram dadas à eles. Se o bannock quebrasse em qualquer fase da confecção, isso era considerado um presságio terrível, desde a morte para a pessoa até a família inteira.41  

 Tradições similares envolvendo o bannock sendo usado como um meio de divinação viam estes bolinhos de aveia rolando pelas colinas em Bealltainn como um tipo de corrida:

 “Na manhã seguinte, as crianças são presentadas cada uma com um bannock, com tanta alegria como um herdeiro que herda suas terras; e tendo seus bolsos revestidos com queijos e ovos, para tornar a diversão ainda mais suntuosa, eles correm para o local do encontro onde se encontram com uma pequena assembleia na frente de alguma colina íngreme, para largarem seus bannocks e descobrirem algo sobre seu futuro. Com bastante alegria eles se encontram, e com suas facas, fazem sinais da vida e da morte em seus bannocks. Esses símbolos são uma cruz, ou o símbolo da vida, em um lado, e uma cifra, ou o símbolo da morte, no outro lado. Quando fazem isso, os bannocks são colocados em linha um ao lado do outro e então descem pela colina. Esse processo é repetido três vezes, e se cair mais o lado da cruz, o dono celebrará outro dia de Belton, mas se a cifra cair mais vezes, ele está condenado a morte, é claro. Essa profecia certeira de vida curta, no entanto,  raramente estraga o apetite dos desafortunados de vida curta que tiveram mais sinais de morte do que seus companheiros afortunados. Se reunindo ao redor de uma vibrante fogueira de arbustos e silvado, os bannocks de azar são destruídos, em meio a alegria e diversão dos jovens.”42   



Se protegendo do sobrenatural

 Assim como Samhainn, Bealltainn tinha um certo elemento de perigo, uma ameaça sobrenatural. Para os galeses, que o chamavam de Calan Mai, ou Clamme, o Bealltainn era uma das ysbryd nosau – “noites dos espíritos”.43 Como na Escócia e na Irlanda, as fogueiras comunitárias que eram acesas nas colinas serviam para purificar e proteger o povo e seus rebanhos das doenças e do azar. E assim como na Escócia e Irlanda, acreditava-se que os elementos do perigo sobrenatural vinham de bruxas ou fadas.

 Dizia-se que as bruxas ficavam a solta por toda a noite na véspera de Bealltainn e que viajavam na forma de lebres para pegar o toradh (os laticínios – especificamente, o toradh do gado leiteiro) de seus vizinhos.44 As fadas também ficavam a solta tentando fazer o mesmo, e assim, para se proteger deles, cada casa tomava uma variedade de precauções. Os fazendeiros inspecionavam seu gado em Bealltainn para ter certeza que eles não tinham sido prejudicados pelas bruxas ou fadas, que podiam tentar roubar o toradh (os laticínios) do gado escondendo certos objetos debaixo da cauda das vacas ou abrindo caminho com equipamentos de fazer queijo e manteiga durante a noite. Acredita-se que fazer queijo e manteiga bem antes do nascer do sol em Bealltainn manteria a atenção das fadas longe da fazenda durante o resto do ano.45   

 Naturalmente, não ter que fazer a manteiga era a melhor maneira de se defender contra as fadas, então, essa era a coisa mais segura de se fazer, porém, igualmente, a primeira manteiga de Bealltainn tinha uma certa potência que a tornava um excelente ingrediente na medicina. Mary Beith registra um ditado que detalha um remédio para propósitos gerais: “Is leigheas air gach tinn cneamh agus im a’ Mhàigh: agus òl am fochair siud ‘m bainne ghobhar bàn. (Uma cura para qualquer paciente é o alho e a manteiga de Maio; e beber junto com isso o leite de cabras brancas.)”46 

 A sorveira ou o freixo da montanha (também conhecida como wicken), uma árvore que acredita-se popularmente ser poderosa na proteção contra o olho maligno, era coletada e fazia-se varinhas ou cruzes amarradas com uma linha ou lã vermelha (acreditava-se que o vermelho também tinha qualidades protetoras).47 Esta é uma prática popular e várias rimas que sobreviveram são relativas a ela:

“Uma sorveira e uma lã vermelha

Lança todas as bruxas dançarem para a morte.” 48


 Ou, um pouco diferente:

“Sorveira e lã vermelha

Lança as bruxas se apressarem.” 49


 Esses encantamentos eram então pendurados nas portas, ao redor do pescoço do gado, ou amarrados em suas caudas, em equipamentos de ordenha e confecção de manteiga, para proteger de influências malignas e doenças por toda a Irlanda, os Highlands e as Ilhas. Se a sorveira fosse colocada no telhado, ela protegia a casa de incêndios por todo o ano, e quando colocada em barcos, dava proteção contra as tempestades e afogamentos. Uma varinha ou cruz de sorveira era também colocada na estrumeira, uma vez que se acreditava que este era um lugar popular para as bruxas se esconderem, ou ainda, elas tentariam roubar a bondade dela:50 uma estrumeira rica significava uma família rica, e fornecia uma boa fonte de compostos ricos em nutrientes para colocar nos campos, então naturalmente, essa associação tornava-a vulnerável.

 Em alguns distritos, era mais popular usar junípero ou sabugueiro ao invés da sorveira, e as vezes, hera e espinheiro também podia ser usado na decoração da fazenda, ou em adição (e entrelaçado), ou no lugar da sorveira.51 John Dalyell descreveu a prática:

 “Ramos de freixo da montanha [sorveira] decoradas com arbustos e flores que tinham sido carregadas três vezes ao redor das fogueiras acesas em Beltane, eram erguidas sobre as residências para ficar lá até serem substituídas por aquelas da estação seguinte; ou, um pedaço dela era cortado e descascado e envolvida com uma lã, e então era colocada no lintel da vacaria, também para manter longe as influências de um olho maligno.”52 

 Pennant descreve uma prática similar, de acordo com James MacInlay:

 “Uma cruz é cortada em algumas varas, que são mergulhadas em uma sopa, e na quinta-feira antes da Páscoa, uma de cada é colocada sobre o berço das ovelhas, no estábulo ou na vacaria. No dia Primeiro de Maio elas são levadas até a colina, onde os ritos são celebrados, todas são enfeitadas com flores selvagens, e quando a festa acaba, elas são recolocadas no lugar. A cruz nesse caso era, sem dúvida, feita de madeira de sorveira ou freixo da montanha.”53   

 Do mesmo modo, James Napier comentou que ele havia visto casas decoradas com galhos de árvores e flores no dia Primeiro de Maio, assim como os cavalos a oeste de Glasgow.54

 Não foram dados detalhes sobre que flores eram usadas, mas provavelmente foram as mesmas usadas na Irlanda (ver abaixo); o fato do malmequer-dos-brejos, que figura significantemente na prática irlandesa, ser conhecida como lus-buidhe Bealltainn55 (‘a flor amarela de Bealltainn’) na Escócia, indica a probabilidade dela ter sido usada na prática escocesa também.

 Os ramos de sorveira também eram queimados nas fogueiras de Bealltainn, também por suas qualidades protetoras, mas parece que o fogo em si era feito de qualquer madeira que queimasse bem. F. Marian McNeill nota que em algumas áreas da Escócia uma fogueira tradicional era feita com nove árvores sagradas coletadas pela comunidade. Infelizmente, McNeill não entra em detalhes, apenas cita um poema registrado por Carmichael que nomeia oito árvores diferentes (e talvez, a nona árvore era secreta, ou havia sido perdida), porém, o poema não tem conexão explícita com Bealltainn notado por Carmichael ou qualquer outra referência contemporânea:


“Escolha o salgueiro dos rios,

Escolha a aveleira das rochas,

Escolha o amieiro dos pântanos,

Escolha a bétula das cachoeiras,

Escolha o freixo da sombra,

Escolha o teixo da resiliência,

Escolha o olmo da ribanceira,

Escolha o carvalho do sol.”56
 

 Certamente, as árvores mencionadas são aquelas consideradas ‘sortudas’, e assim elas devem ter sido usadas (as árvores de azar eram sempre evitadas), mas não necessariamente sempre juntas. McNeill também sugere que o sabugueiro, o azevinho e a macieira também eram árvores apropriadas, e sugere que o freixo mencionado no poema é o freixo da montanha/sorveira.57

 Outro meio de proteção da casa em Bealltainn (e Lùnastal) na Escócia era a sop seile (literalmente traduzida como ‘um tufo de saliva’). Esta era um pedaço de palha mergulhava em ‘dissolvente’ – a água que tenha tido contato com ouro ou prata, ou que tenha sido batida com estes – daí o nome. Eles tomavam o cuidado de borrifar nos batentes e depois, em deiseal ao redor da casa. A sop seile também era usada para proteger as vacas do olho maligno,58 mas esta não deve ser confundida com a sop seilbhe, ‘o tufo da posse’, que também era feita em Bealltainn (assim como em outras épocas, quando era necessário). Esta era um pedaço de urze ou forragem que era queimado nas fronteiras de uma área na terra que uma pessoa alegasse ser dela. Este era um meio legal de garantir a um fazendeiro os seus direitos em determinada terra, especialmente quando havia competição por ela. Quem quer que queimasse a sop seilbhe primeiro era protegido pela lei.59 



Os poços sagrados e a cura

 Práticas associadas com a água também era uma característica importante das festividades de Bealltainn, e James MacInlay nota que o mês de Maio era a ocasião mais ocupada para se visitar poços, fontes ou lagos sagrados, a fim de se ter os benefícios de suas águas, seja para a cura ou para boa sorte, preferencialmente bem antes do nascer do sol.60 Nesse tempo, acreditava-se que os benefícios da água eram mais poderosos, e embora muitos dos poços serem considerados mais poderosos em qualquer um dos Dias Trimestrais, o Bealltainn era o mais popular devido ao clima mais quente.

 Em alguns lugares, os poços não eram visitados até o primeiro domingo ou segunda-feira em Maio, ao invés do próprio dia Primeiro de Maio em si,61 mas seja qual for o caso, havia certos ritos solenes associados com eles. Geralmente, era considerado vital que a pessoa se aproximasse do poço em absoluto silêncio, com os pés descalços e as pernas nuas. Aproximando-se do poço, a pessoa caminhava ao redor dele em deiseal três vezes e então o prateava, normalmente atirando uma moeda de prata nele. Depois disso, eles bebiam do poço enquanto contemplavam seus desejos, e assim que deixassem o poço, era tradicional deixar um pedaço de pano, um lenço ou um broche na árvore mais próxima (que se considerava ter alguns dos poderes do poço). Fazendo isso, “ele tira todas as preocupações ou doenças, e qualquer um que roubasse ou removesse o pedaço de pano herdaria todos os problemas de seu possessor original.”62 Por cima de tudo isso, era melhor para o visitante estar longe da vista do poço antes do sol nascer, mas em muitas áreas, a vasta quantidade de peregrinos resultava em feiras que aconteciam nas localidades, resultando em muita folia, fofocas e bebedeiras que duravam até o dia seguinte.

 O orvalho da manhã (também colhido antes do nascer do sol) era considerado ter propriedades semelhantes. Campbell recorda que o orvalho era colhido pelas mulheres usando uma corda, feita de longos pelos da cauda do gado dos Highlands, arrastando-a pela grama para colher a umidade. Conforme faziam, um encanto era cantado para garantir um abundante suprimento de leite para o ano que vinha:

 “Bainne an te so shios bainne an te so shuas, ‘nam ghogan mhor fhéin.”

 Leite deste em cima, leite daquele em baixo, em meu próprio grande balde.63   


 O orvalho também podia ser coletado para propósitos cosméticos. Diz-se que se uma garota lavasse sua face no orvalho matinal em Bealltainn, ela teria uma aparência nobre e ajudaria a prevenir sardas, queimaduras de sol e rugas:

“No dia Primeiro de Maio em um anel de fadas,

Nós as vimos ao redor do poço de St. Antônio,

Da grama o visitante umedece para torcer,

Para molhar seus olhos:

E a água clara como poço de cristal,

Para limpá-los.”64


 Qualquer garota corajosa o suficiente poderia rolar nua no orvalho como um meio de garantir beleza, mas para aquelas que não tinham tamanha coragem, elas poderiam andar descalças pela grama orvalhada para garantir pelo menos pés bonitos, uma vez que se acreditava também ser eficaz contra joanetes e calos. Da mesma forma, homens e mulheres podiam lavar suas mãos no orvalho para ajuda-las a mantê-las dóceis. Aplicar uma pequena quantidade de orvalho de Bealltainn nos olhos todos os dias ajudava a manter os olhos descansados e bem restaurados, assim como também era uma cura para dores de cabeça e problemas de pele. MacInlay nota que o orvalho colhido dos ramos do pilriteiros no dia Primeiro de Maio garantiria beleza para as garotas solteiras que lavassem suas faces nele. Os ramos também eram levados para casa para proteger contra bruxaria também,65 e em algumas partes da Escócia, acreditava-se que o orvalho de Maio protegia contra o olho maligno.66

 O costume de realizar esses ritos antes do nascer do sol sugere o fato da primeira água tirada do dia ser considerada a mais poderosa. Até agora, não vimos nenhuma fonte que mencione isso, mas há uma menção sobre, de 1723 em Fife:

 “Em Maio, 1723, o ministro informou a Sessão que Margaret Robertson em Byres de Balmerino se queixou a ele, que James Paton em Culter ‘tinha escandalizado seu bom nome dizendo que ela tinha ido para Nove Poços no Dia da Estrada [isto é, o Dia das estrada, a Invenção da Cruz, 3 de Maio] para roubar o leite de seu vizinho,’ ou, como a acusação posteriormente coloca, ‘para pegar o creme da água, e roubar a manteiga de seu vizinho’.”67

 O fato de isso ter acontecido em um festival cristão perto de Bealltainn parece ter tido alguma mudança da data tradicional para uma cristã mais aceitável.



Irlanda



As fogueiras de Bealltainn na Irlanda

  Com a mudança para as pastagens de verão,68 este era naturalmente um tempo para se focar no bem estar dos animais. Das mais antigas fontes irlandesas que mencionam Bealltainn, as fogueiras vem sempre em primeira mão com os ritos praticados naquele dia, e mais do que em outras épocas, o acendimento das fogueiras era considerado de grande significado, grandemente carregadas de significado e perigo.69

 Como na Escócia, o fogo na lareira era apagado e reacendido a partir da fogueira principal, e no lugar das chamas protetoras do fogo, as flores, ramos e galhos costumavam ser usados para decorar as casas, ficando no lugar do fogo apagado.70 

 Passar o gado entre as fogueiras de Bealltainn, ou sobre suas brasas, era comum tanto na Irlanda como na Escócia, mas em muitos casos, parece que os ritos associados com o dia se mudaram para as celebrações do Solstício de Verão.71 Um exemplo das fogueiras do Solstício de verão que tem uma notável semelhança com a descrição das fogueiras de Bealltainn pode ser encontrado no livro Irish Folk Ways, de Evans:

 “Lembra-se que as mais velhas mulheres da cidade caminhavam ao redor do fogo três vezes no sentido horário para garantir um ano sem doenças, e quando as chamas se apagavam, o gado passava através das brasas e suas costas eram chamuscadas com uma vara de aveleira acesa: as varas eram guardadas e utilizadas para conduzir as vacas. Com a tradição, todos levavam para casa uma varinha abrasadora, e quem quer que a trouxesse primeiro para a casa, traria a boa sorte do ano com ele. Um relvado em brasa da fogueira era carregado três vezes no sentido horário ao redor da casa, e os outros relvados eram atirados nas plantações.”72 

 A descrição é notavelmente similar com aquelas que já vimos da Escócia: o circular da fogueira, a passagem do gado para purifica-lo e levar para casa uma vara abrasadora para acender a lareira, junto com o caminhar nas fronteiras da terra. Wilde menciona que a palha era usada para chamuscar o gado, ao invés da aveleira,73 e dá, talvez, uma das melhores descrições das festividades que acompanhavam a véspera do festival:

 “Se há alguma cena na vida do fazendeiro irlandês que se aproxima da descrição da dança dada no livro Deserted Village, de Goldsmith, é aquela observada na Véspera de Maio. Também nessa época, pequenos jogos e várias competições rurais aconteciam, como “dançando no anel,” e “enfiando a agulha da minha avó;” nas quais, mais tarde, meninos e meninas davam as mãos e dançavam um tipo de dança em serpente, subindo e descendo as estradas, as vezes por uma milha de extensão – os homens geralmente carregavam ramos verdes, ou galhos de abrunheiro e espinheiro branco, em florescimento, e as meninas se enfeitavam com ramalhetes, coroas de margaridas, e guirlandas de flores de Maio e botão-de-ouro.

 Conforme anoitece, a assembleia se fragmenta em pequenos grupos: os apaixonados buscam as sombras da floresta, as mais velhas se reservam devido às travessuras, alguns indivíduos sozinhos podem ser vistos caminhando no crepúsculo da noite, cortejando a luz da lua em algum rath antigo, vagando nos ermos vales de fadas ou nas cachoeiras melancólicas, esperando escutar os místicos flautistas dos sheogues, pois diz-se que nessa noite, mais do que qualquer outra, eles estão em alerta e favorecendo os mortais com suas melodias. Acredita-se que grande é a habilidade e a graça conferida aqueles que são sortudos o suficiente para viajar com a música das flautas fadas; tão grande essa crença que se tornou um provérbio em Connaught, quando se vê um bom dançarino, se diz, ‘É verdade, meu bouchel, você escutou as flautas na Véspera de Maio’.”74  

 Em outros lugares, Wilde descreve como as cinzas da fogueira são coletadas e misturadas com água (presumivelmente, a primeira ‘nata’ da água de um poço sagrado ou fornecimento de água local – ver abaixo) em Connaught, que era então usado como um banho para ajudar no tratamento e na cura de doenças, uma vez que deixavam a mistura se aquietar por alguns dias.75

 Com o aumento da urbanização e com a adição de influências inglesas ao dia como as Rainhas e os mastros de Maio, muitas cidades acendiam suas próprias fogueiras usando quaisquer combustíveis que estavam disponíveis. Em Limerick, Danaher diz que as crianças acendiam suas próprias fogueiras nas ruas em honra às Rainhas de Maio, e em cidades como Dublin, as fogueiras eram o foco de muita alegria, música, dança e devassidão.76

 Sir William Wilde dá alguns dos melhores detalhes das celebrações irlandesas para o dia, especialmente nas celebrações mais urbanas, e aqui podemos ver muitos dos elementos mais tradicionais que se focavam na proteção e na garantia da segurança e prosperidade da família eram esquecidos a favor de celebrações mais gerais. Os rapazes preparavam os dias de fogueira antecipadamente, coletando dinheiro para comprar bebida para brindar na fogueira, madeira para a fogueira e materiais para decorar o arbusto de Maio.77

 Em áreas rurais, Danaher diz que o gado sendo conduzido entre as fogueiras sobreviveu por mais tempo nos países sudoestes de Kilkenny, Tipperary e Waterford, mas ele não especifica quando a tradição morreu lá.78

 Como na Escócia, frequentemente pulava-se sobre as fogueiras, mas diferente da maior parte da Escócia, parece que a atividade era aberta a todos. Sir William Wilde registrou que o pular as fogueiras tornava as pessoas invulneráveis, então, as mulheres cruzavam o fogo para garantir um bom trabalho de parto ou para procurar um bom marido. Qualquer um que fosse viajar, ou se casar, poderia se aproximar das fogueiras, seja circulando-as ou pulando sobre elas três vezes para garantir sucesso e segurança em seus esforços. Os homens tendiam a pular as chamas, enquanto as mulheres esperavam as chamas abaixarem, mas ambos faziam pelo mesmo efeito. As pessoas então se cobriam de cinzas, e quaisquer sobras eram jogadas sobre o rebanho, os campos e casas, novamente, para garantir proteção e prosperidade para o futuro. Água que fosse esquentada na fogueira era jogada também, ou ainda, tochas de carriço ou urze eram levados até o gado também, tudo isso para protegê-los de ealtraigh agus dosgaidh (azar e praga – doenças) durante o ano. E por último, um pouco do fogo era levado para casa a fim de reacender o novo fogo na lareira.79 



Os costumes em casa

 Enquanto poucos exemplos irlandeses de fogueiras tenham sido registrados em detalhes com similaridades com a Escócia, existem muitas outras tradições que também tem similaridades com a Escócia, especificamente aquelas que se foca no lar e na família, ao invés da comunidade. Por exemplo, era motivo de orgulho o fazendeiro ter feno e farinha ou aveia que tinha sobrado do ano passado, com os quais ele fazia pão e mingau. Mesmo que a família ficasse sem pão por um ou dois meses até Bealltainn, era guardada farinha suficiente para garantir que a esposa fizesse uma refeição de stirabout (ou “pudim apressado”) para a família.80

 O pudim apressado era originalmente uma mistura de aveia e dripping [NT: é gordura animal produzida, as vezes, de carcaças de vacas ou porcos] ou leite, porém mais tarde na Irlanda, se tornou comum o usar de farinha de trigo ao invés da aveia, que começou a ser vista como comida de pobre. O trigo, que era mais difícil de crescer no clima úmido da Irlanda, era uma mercadoria mais preciosa (e portanto, prestigiosa). O stirabout de Bealltainn devia ser a última coisa a ser comida até a colheita, quando os grãos estavam disponíveis novamente (embora isso provavelmente simbolizasse mais o fim de uma suficiência alimentar no prato do que uma ruptura real dele). A dieta durante os meses de verão era dominado pelas “carnes brancas” – leite, queijo, manteiga, coalhadas e outros produtos lácteos, - junto com frutas e vegetais conforme estes ficavam disponíveis.81

 Algumas fontes do século XIX descrevem bênçãos que eram feitas na casa, e uma descrição vê o pai da família acendendo velas na casa na Véspera de Maio, e então, ele abençoa a soleira, a lareira e os pontos cardeais da casa com Água Benta guardada desde a Páscoa. A esposa e as crianças, sentados ao redor do fogo, são então abençoados com a água, por ordem de idade, seguidos pelos animais na vacaria e um campo que é abençoado pela fazenda inteira.82 Uma bênção mais elaborada é descrita por Nicholas O’Kearney, da metade do século XIX:

 “Fazendeiros acompanhados pelos seus serventes e domésticos estão acostumados a caminhar pelas fronteiras de suas fazendas em um tipo de procissão, carregando instrumentos de agricultura, sementes de grãos, sgaith an tobair [a primeira ‘nata’ do poço tirado na manhã de Bealltainn], e outros requisitos, especialmente a erva sagrada, bean mhin (verbena), se a pessoa for sortuda o suficiente para possuir um galho dela. A procissão sempre parava nas estações mais convenientes, que eram os quatro pontos cardeais, começando no leste, e então aconteciam diversas cerimônias, particularmente aquela de escavar um torrão de terra, quebrando-a em pedacinhos, e por último, plantando a semente, depois de borrifar o globo com a sgaith an tobair. Eles então conduzem todas as suas vacas para um lugar, examinam suas caudas, para que uma bruxa ou uma pessoa malvada não escondesse lá um ramo de sorveira, ou algum item enfeitiçado. Se algum ramo de bramble [NT: espinheiro ou amora preta] fosse encontrado atado na cauda das vacas, este era imediatamente tirado e queimado, e um galho de verbena, se conveniente, ou um ramo de sorveira era substituído, pois a sorveira tem poder tanto para o bem como para o mal, se esta for cortada antes do nascer do sol na manhã de Bealltainn. Depois, era borrifado a sgaith an tobair nas vacas, que era guardada desde o último Primeiro de Maio, e com isto, a cerimônia acabava.”83

 Danaher nota a ausência de qualquer menção da água benta sendo usada para borrifar as colheitas, que pode ser visto em outros lugares, e comenta que talvez O’ Kearney tenha deixado isso de lado propositalmente, para enfatizar os supostos elementos pagãos do ritual que foi descrito, como era comum na época em que o texto foi escrito.84



Proteção contra o sobrenatural

 Sem surpresa, Bealltainn na Irlanda era considerado uma época de grande perigo das fadas e bruxas que podiam desejar roubar o leite ou a manteiga da casa. Era tradicional derramar um pouco de leite na soleira para afastar as fadas, ou ainda, o leite era derramado nas raízes de um espinheiro fada, simbolicamente para alimentá-las e dá-las seu pagamento, na esperança de mantê-las longe. Em algumas partes, oferendas de comida também eram deixadas na soleira ou nas raízes de algum arbusto fada. 86

 De uma forma similar, de acordo com um funcionário da cidade de Tuam:

 “No dia Primeiro de Maio, o bom povo pode roubar a manteiga se tiverem chance. Se uma pessoa entrar em uma casa quando se está fazendo manteiga, ele precisa pegar um pouco dela, ou então, não existirá mais manteiga na casa.”87

 Outra tradição observada em muitas partes da Irlanda via que nada podia ser levado ou tirado da casa no dia Primeiro de Maio ou na manhã desse dia em particular, quando os perigos do dia eram mais poderosos. Certamente, cinzas e brasas da lareira não eram tiradas, e também, não era emprestado nada para alguém, uma vez que se acreditava que os itens podiam ser usados contra o dono. Por uma questão de etiqueta, era considerado educado devolver quaisquer itens emprestados para seu dono antes de Bealltainn, para mostrar boa vontade. Se isso não acontecesse, era considerado maneiras ruins, ou pior – o objetivo da bruxaria ou do olho maligno estava sendo usado contra eles.88 Tudo em todos, estes costumes eram vistos para manter um equilíbrio na comunidade. Os relacionamentos eram mantidos e reforçados dentro da comunidade, e uma casa em ordem desencorajava a atenção do bom povo.

 Era considerado um mau presságio w3e alguém tentasse remover o fogo da casa de outra pessoa em Bealltainn (sal, água ou o coalho para fazer queijo também), pois qualquer um que fizesse isso levaria a sorte com ele e teria poder sobre aquela casa – na dimensão que se alguém acendesse um cachimbo seria obrigado a apaga-lo antes de ir embora (pois o cachimbo foi aceso na lareira da casa, e daí, significava que se a pessoa fosse embora com o cachimbo aceso, levaria o fogo da casa com ele).89 E devido ao fato de que quase todas as coisas serem tiradas da casa pudessem ser usadas contra o seu dono, era considerado extremamente uma falta de educação implorar ou pedir alguma coisa – isto é algo notavelmente e completamente em desacordo com ênfase em Samhain e Là Fhèill Brìghde.

 Em partes de Connacht era observado o Colladh Bealtaine – ‘o sono do Primeiro de Maio’ – onde a família dormia tão tarde quanto fosse possível para que não fossem os primeiros na comunidade a acender o fogo em sua lareira, na esperança de evitar atenção indesejada das bruxas que poderiam roubar a abundância de leite e manteiga casa da fumaça que saia chaminé.90 Em outros lugares, era costume levantar-se cedo e saudar o novo dia escalando as colinas, se banhando no orvalho e colhendo flores e galhos para decorações e encantamentos, e assim por diante, tudo antes do sol nascer.91

 Qualquer um que fosse visto a espreita em uma propriedade, ou que era mal educado o suficiente para pedir fogo neste dia, imediatamente suspeitava-se ser uma bruxa, e seria sortudo se fosse embora com poucas palavras rudes do dono da casa:

 “Eles a levam pois uma bruxa ou mulher má ou o que mais ela for, que esteja comprometida em buscar o fogo em um dia de Maio (eles também não darão o fogo, e sim um corpo doente, com uma maldição). Pois é por que, eles pensam que a mesma mulher no próximo verão irá roubar sua manteiga.”92

 Dado que apenas aqueles que eram barrados de participarem da fogueira comunal eram os mais prováveis de pedir por uma chama, fazer tal pedido não abaixaria mais a baixa autoestima da pessoa para o resto da comunidade, e afirmaria a crença de que estas pessoas só significavam más intensões.93

 Uma vez que se acreditava que as lebres eram o animal de escolha para as bruxas se transformarem, qualquer uma que era vista entre o gado em Bealltainn devia ser atirada imediatamente a fim de prevenir que o leite fosse roubado, e o ouriço também tinha o mesmo motivo pelas mesmas razões. Há muitos contos que falam de como um fazendeiro atirava em uma lebre em Bealltainn, e depois um curto período de tempo, encontrava uma velha mulher na aldeia que de repente tinha ficado manca.94

 Muitos encantamentos eram usados para a proteção das casas e dos campos. Carvões eram colocados debaixo da batedeira e do estábulo para proteger o suprimento de leite e as crianças do Bom Povo,95 e em adição, a sorveira era pendurada nas casas e nas vacarias, e assim como na Escócia, galhos de sorveira eram também enterrados na vertical na estrumeira nos Vales de Antrim, pois: “O esterco simboliza a fertilidade da fazenda.”96

 As casas e vacarias na Irlanda eram muitas vezes decorados com folhagens e flores como a prímula, primavera, ranúnculo, malmequer-dos-brejos, calta, flores de tojo e margaridas,97 embora em Munster, galhos frescos de aveleira, azevinho, sorveira, sabugueiro e freixo recém germinado eram os preferidos nas decorações; o Condado de Cork particularmente favorecia o sicômoro. Estes eram pendurados nas casas e nas vacarias no lugar das, ou junto, com as flores, assim como eram colocadas nas fronteiras do campo e da fazenda.98

 Prímulas eram dispersas nas soleiras pois dizia-se que protegia das bruxas roubarem o leite e a manteiga pelo resto do ano, pois as flores impediam que o Bom Povo cruzasse a soleira.99 Wood-Martin adiciona que as flores era uma boa proteção contra o olho maligno de desconhecidos.100 Cachos de flores também eram amarrados nas caudas das vacas para o mesmo efeito. O malmequer-dos-brejos era usado da mesma forma na Irlanda, e Lady Wilde escreve que este era chamado de ‘o arbusto de Beltaine’. Ao invés dessa flor ser dispersa nas soleiras, no entanto, Wilde diz que fazia-se guirlandas  que eram penduradas nas portas e ao redor das vacas.101 Wood-Martin também menciona essa prática, e adiciona que as vezes, cachos de carqueja (que ainda tem flores) eram usados ao invés do malmequer.102 O espinheiro-branco também era pendurado na porta para a sorte, apesar de em alguns lugares, o espinheiro-branco ser considerado uma planta de azar.103

 O fato dessas flores serem todas amarelas pode ser algo significante (talvez relacionada a garantia de uma abundância de leite, o amarelo sendo uma cor simpática a causa), mas como Danaher aponta, a maioria das flores disponíveis nessa época são em sua maioria, amarelas.104 Enquanto as flores eram consideradas protetoras, elas também tinham outras associações: “Alguns dizem que é para o propósito de ‘apaziguar o bom povo’; outros dizem que é ‘para manter a sorte na casa’.”105 De acordo com Henry Glassie, em Ballymenone:

 “[...] As flores cirandam na brisa na outra entrada do ano velho – o Primeiro de Maio, o primeiro dia de verão – também significa, como Peter Flanagan disse, sorte e vida. Quando a lareira estava fria, essas flores ficavam no lugar da luz e do calor. Sorte, eles dizem, é ‘abundância e plenitude,’ o sucesso do fazendeiro no decorrer da vida.”106

 Parece claro que estes encantamentos eram considerados poderosos pois representavam a força da natureza, a promessa de crescimento e abundância que viria em um futuro próximo. Tradicionalmente, era indispensável que a sorveira e as flores fossem coletadas antes do nascer do sol na manhã de Bealltainn, embora eventualmente este costume tenha sido mudado para a Véspera de Bealltainn antes do anoitecer, quando o costume era feito principalmente por crianças. As crianças então faziam estes encantamentos com ramalhetes que eram amarradas nas portas ou nos peitoris das janelas, mas em algumas casas, as flores eram espalhadas no chão da casa, da vacaria e até mesmo ao redor de poços, para impedir que tirem a ‘nata’ e o toradh da água antes da pessoa pegar.107

 Folhagens também eram usadas para decorar o lado de fora da casa. Escrevendo no final do século XVI, Camden disse, “Nas calendas ou no dia primeiro de Maio, eles acreditavam completamente que colocar um galho verde de uma árvore diante de suas casas fará com que tenham uma grande abundância de leite durante todo o verão.”108

 As árvores escolhidas para o Arbusto de Maio incluía o sicômoro, a sorveira e o pilriteiro, enquanto árvores como o abrunheiro era considerado ser azarada (embora essas tradições dependessem da área). Os galhos eram cortados e levados para casa onde eram decorados com brilhantes e coloridas fitas, flâmulas, velas e fragmentos de materiais, e eram então acendidas no entardecer da véspera de Bealltainn. Em algumas partes da Irlanda, as pessoas tentavam roubar os arbustos de seus vizinhos para ‘roubar’ a sorte deles, as vezes como uma forma de rivalidade amigável, ou em outras, com conotações mais sérias. Aqueles que eram sortudos o suficiente, mantinham seus arbustos de Maio e o queimavam no fim do dia de Bealltainn, mas em alguns lugares, os arbustos continuavam até o final do mês.109

 Também relacionada a essa prática eram as bolas de Maio, normalmente encontradas no sul e no sudeste da Irlanda, onde bolas de arremesso eram decoradas e depois arremessadas em um arbusto de Maio, que era então desfilado pela cidade segurado pelas crianças. As bolas eram invariavelmente dourada ou prateada, decoradas com fitas ou papel de seda da cor correspondente, as vezes com borlas.110 Em algumas áreas, faziam-se competições com as bolas em arremessos com um prêmio – frequentemente resultando em times vindo para golpear as bolas ou resultando em grandes procissões.111 em 1782 em Leinster, um mandato foi feito banindo as Bolas de Maio ou as guirlandas.112

 Às vezes, as procissões simplesmente envolviam o desfile do arbusto de Maio pela cidade até um lugar onde os dançarinos alegres [NT: mummer’s play] entretém as multidões. O espetáculo era geralmente uma comédia de algum tipo, geralmente envolvendo desentendimentos românticos. Em outros lugares, os desfiles podiam ter sido mais uma época de tradição honrada para procurar por bebidas de graça...

 “No sul, nós entendemos, os meninos de Maio costumava se divertir com as fêmeas bobas – um tipo de Audrey para seus Touchstone. Assim vestidos e acompanhados por violinistas, fifers [NT: ?] e tocadores de pandeiro, escoltados por preguiçosos, os meninos de Maio perambulam pela cidade por uma semana na época de Maio, visitando os assentos de cavalheiros, onde dançam, repetem suas rimas e são geralmente entretidos com a verdadeira hospitalidade irlandesa. Eles sempre ganham uma garrafa de uísque e um pouco de dinheiro, com o qual eles fazem festas em seu lugar de descanso, à noite. Alguns grupos carregam um arbusto de Maio diante deles, e as vezes, eles conseguem colocar a flauta no arbusto, quando começam suas rimas. No condado de Clare, a cerca de cinquenta anos atrás, os meninos de Maio costumavam montar seu capitão ou rei de Maio nas costas de um cavalo, que carregava em sua mão um grande mastro decorado com fitas e flores, com uma guirlanda em seu topo.”113   

 Dado o perigo das bruxas e fadas estarem a solta, especialmente a noite, era costume em algumas partes da Irlanda ficar em casa depois do anoitecer, para evitar se envolver com elas – embora dadas as tradições associadas com as fogueiras e os poços, esse costume provavelmente se desenvolveu quando as fogueiras começaram a serem menos comuns, e as velhas práticas foram se afastando e consideradas impróprias ou retrógradas. Ainda assim, se fosse absolutamente necessário sair de casa depois do entardecer, o ferro (especialmente uma faca de cabo preto) ou um encanto de sorveira tecido em um círculo era considerados uma proteção eficaz. O encanto da sorveira, colocado em um olho, permitia o viajante ver o Bom Povo114 – e presumivelmente, faziam uma saída rápida – uma vez que, caso contrário, as pessoas corriam o risco de se perderem ou serem levadas.115 Em Aran, as mulheres que não receberam manteiga exatamente após ter dado a luz, acreditava-se estar em perigo de ser levada no dia Primeiro de Maio do ano seguinte, de acordo com uma antiga enfermeira que trabalhou lá.116

 Hedderman também descreve como o gado e os cavalos eram protegidos de serem prejudicados pelas fadas, colocando grandes cruzes em seu próprio esterco, que garantiria então que nenhum mal iria para eles durante o ano e que eles ficariam saudáveis.117 Em um costume similar, a prática de tirar sangue do gado em locais que pensava-se ser assombrados pelo Bom Povo parece ter sido bem conhecido:

“Na Véspera de Maio, os camponeses costumavam conduzir todo o seu gado para velhos raths e forts que se pensava serem frequentados pelas fadas, e lá tiravam o sangue deles, provava o sangue e derramava um pouco na terra.”118 

 Fergus Kelly nota que tal prática era para o benefício da saúde do gado, assim como tendo um elemento de proteção contra o Bom Povo, e certamente parece uma comparação ao ato de oferecer para propiciá-los. É notável que Kelly contradiz Evans e diz que, “Em algumas áreas, tirar sangue do gado claramente tinha um significado ritualístico e o sangue não era consumido.”119 Isto parece reforçar a ideia do sangue como uma oferenda, uma vez que provavelmente quando o toradh do sangue era tirado, portanto, não havia bondade nisso. Sir William Wilde registra uma prática similar, onde o sangue era secado e então queimado, e comenta: “escolhendo aquele dia particular, e subsequentemente queimando o sangue, eram evidentemente os vestígios de algum rito pagão.”120



Os poços sagrados, a água e a cura

 O orvalho coletado antes do nascer do sol na manhã de Bealltainn era considerado ser eficaz da mesma forma que na Escócia. O Dr. Gerard Boate, escrevendo em 1652, nota que na Irlanda:

 “No mês de Maio especialmente, e também em parte do mês de Junho, eles saem cedo na manhã antes do nascer do sol, para um campo verde, e lá também, com suas mãos, sacodem o orvalho do topo das ervas em um prato, ou ainda, atirando limpos panos de linho no chão, tirando o orvalho das ervas, e posteriormente torcendo em pratos; e assim eles continuam o trabalho até terem uma quantidade suficiente de orvalho de acordo com suas intensões. Aquilo que é pego da grama servirá, mas eles escolhem pegar o orvalho dos grãos verdes, especialmente o trigo, se eles têm a conveniência em fazer isso, pois se acredita que este tem mais virtudes e é bom para todos os propósitos do que o orvalho coletado da grama e outras ervas. O orvalho então coletado é colocado em uma garrafa de vidro, e colocada em um lugar onde receba o calor do sol o dia inteiro, deixando-o lá durante todo o verão [...].”121

 Uma vez engarrafado, o orvalho era deixado para liquidar por alguns dias antes de ser coado e então coado novamente alguns dias depois, até todos os sedimentos serem tirados. O orvalho então era guardado por um ou dois anos, e era considerado eficaz especialmente para assuntos de cura e proteção, assim como preservação de uma aparência jovem e uma compleição nobre.122

 A primeira manteiga feita no dia era considerada ser bem eficaz para a cura, e, portanto era guardada e usada frequentemente como uma base para unguentos e pomadas de cura,123 e o Bealltainn (a véspera ou o dia) era também considerado uma época perfeita para colher ervas para a cura.124 Isso tem presumivelmente, pelo menos em grande parte, a ver com o fato de que nessa época as plantas começavam a brotar novas folhas, que tem propriedades mais potentes para remédios.

 Como já vimos, há alusões da prática de ‘tirar a nata do poço’ na Escócia, que envolvia a primeira água tirada de um poço em Bealltainn. Na Irlanda, no entanto, há muito mais evidências pois o costume era bem conhecido. Dizia-se que a primeira água do poço continha a sgaith an tobair, ‘a sorte do poço’,125 e era normalmente coletada depois da meia noite na Véspera de Bealltainn, ou antes do nascer do sol na manhã de Bealltainn:

 “O povo de cada vilarejo ficavam sentados para que pudessem ser os primeiros a pegar a água do poço sagrado mais próximo, e considerava-se que a água devia ser pega às escondidas, e muitas estratégias eram feitas para enganar os vizinhos na busca pela primeira água ou pela ‘pureza do poço.’ Quem quer que fosse bem sucedido sendo o primeiro a chegar até o poço, lançava um tufo de grama na água, para informar a todos os que chegassem depois que o feitiço já havia sido quebrado.”126

 Danaher registra uma prática levemente diferente, onde uma prímula era deixada no poço para significar que já havia sido tirado a nata, e enquanto os poços sagrados eram considerados serem os mais potentes, sendo associados com um santo particular, qualquer fonte de água também era competido, incluindo as bombas comunais de água dos tempos tardios. Nem todo mundo tinha que dividir uma fonte de água, embora, sob essas circunstâncias, os poços eram frequentemente bem protegidos; enquanto a primeira nata trazia sorte e prosperidade para o dono do poço, se alguém tentasse ir lá primeiro, a pessoa levaria efetivamente a sorte e a prosperidade com ela.127  

 De onde quer que a água venha, a primeira nata era guardada para o uso durante todo o ano para a cura e ritos de purificação, assim como para muitos rituais associados com Bealltainn, como vimos acima. Adicionava-se também para a primeira cozedura de manteiga que era feita no dia para adicionar sua potência a manteiga e garantir um suprimento abundante.128 

 Os poços sagrados visitados em Bealltainn para a cura, assim como na Escócia, e diversos sites são mencionados nas fontes. Máire MacNeill descreve como um poço, dedicado a Santa Crobh Dearg (Garra Vermelha, irmã de Latiaran), agora conhecido como o Poço da Cidade e situado na entrada de um velho fort perto dos Paps [NT: Tetas de Anu] em Kerry, era abordado por visitantes na Véspera de Maio. As pessoas que vem de mais de 25 milhas de distância levavam seu gado até o poço, chegando ao entardecer com a intenção de ficar lá a noite inteira. Com a quantidade de pessoas que chegam, muitas festas aconteciam enquanto todos faziam suas voltas ao redor do poço e tomavam um gole dele.129 

 O gado também levava os benefícios do poço, e esse detalhe não é único. Wood-Martin registra sobre um poço situado entre Cork e Killarney, na base dos Paps (e muito possivelmente um bem perto, ou até mesmo o mesmo):

 “Os peregrinos marcham para seu destino, onde fazem suas devoções, pegam um pouco da água do poço e a engarrafam para consumir em casa. A maneira de usar essa água é peculiar. O operador – geralmente a pessoa que faz a peregrinação – começa primeiro com a vaca mais antiga da vacaria, e depois pega a mais nova, e então todas as outras são tratadas indiscriminadamente. Ele deixa cair três gotas da água sagrada na narina direita da vaca, depois três gotas no ouvido direito e então três gotas na boca, repetindo uma certa fórmula. O gado bem tratado acreditava-se ser insensível a todas as doenças.”130 

 Sir William Wilde menciona a condução do gado até os poços sagrados como uma prática geral encontrada por toda a Irlanda.131

 Em outros lugares, as águas eram coletadas em Bealltainn como uma cura para várias doenças, e aqui, a cerimônia frequentemente envolvia uma imersão completa em um rio ou córrego. Perto de Clandy, no Condado de Derry, um lago conhecido como Turish Lyn era visitado na Véspera de Bealltainn, onde os peregrinos se banhavam nas águas e deixavam oferendas amarradas perto de um arbusto, a fim de deixar suas doenças para trás. Essas oferendas, como Wood-Martin nota, incluíam mechas de cabelo, pedaços de pano, ou as vezes, pedras brancas que eram encontradas no lago e deixadas em suas margens.132



Sumário



 Há algumas semelhanças e diferenças evidentes entre a forma do Bealltainn ser celebrado na Escócia e na Irlanda, e provavelmente não é de se surpreender quando vemos que, em amplos termos, as semelhanças são mais numerosas que as diferenças.

 Isso, obviamente, tem a ver com o patrimônio comum que os dois países compartilham, assim como as diferenças tem a ver com a forma que a Escócia e a Irlanda se evoluíram separadamente com suas únicas culturas, porém, isso também diz muito sobre a tenacidade e importância do festival, mas, olhando para essas semelhança e diferenças, e traçando o que sabemos das antigas fontes, podemos ver uma consistência notável nas celebrações:



Semelhanças

  • Celebrar o início do verão e a mudança para as pastagens de verão;
  • A extinção do fogo da lareira e o reacendimento da mesma a partir da fogueira comunal, uma vez que as dívidas tenham sido já acertadas e os alugueis tenham sido pagos; 
  • A purificação do gado, da casa e da terra, e a reafirmação/proteção das fronteiras;
  • O inerente perigo das bruxas nesse dia, levando ao uso de encantamentos protetores e precauções sendo tomadas para impedir que o leite seja roubado; 
  • O uso da sorveira e das flores (particularmente as amarelas) tais como o malmequer-do-brejo, na decoração da casa, da lareira e das soleiras, especialmente, para a proteção;
  • ‘Tirar a nata’ do poço e a eficácia da primeira água coletada no dia (frequentemente antes do nascer do sol);
  • Visitas aos poços sagrados para a cura;
  • A importância da primeira manteiga feita no dia, especialmente sua eficácias em pomadas, unguentos e remédios medicinais;
  • A coleta do orvalho na manhã do dia Primeiro de Maio para a proteção, beleza e cura;
  • Desfiles, Rainhas e mastros de Maio, em ambos os casos, resultantes de uma provável influência inglesa.



Diferenças

  • Ênfase nos bannocks e caudle de Bealltainn na Escócia, junto com seu uso em oferendas e rituais propiciatórios;
  • Tirar o sangue do gado na Irlanda;
  • O Sono do dia Primeiro de Maio sendo peculiar em partes de Connaught;
  • Os encantamentos das cruzes de sorveira e lã vermelha não parecem terem sido usados (ou enfatizado, pelo menos) na Irlanda.
  • Olhando para estas, podemos começar a construir uma ideia de como incorporar esses elementos – tanto no geral como no mais culturalmente específico – em nossas próprias práticas.



Referências



1. Newton, A Handbook of the Scottish Gaelic World, 2000, p181.

2. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p272. 
3. Martin, A Description of the Western Isles, 1707, p105; Danaher, The Year in Ireland, 1972, p86.

4. Newton, A Handbook of the Scottish Gaelic World, 2000, p182.

5. Ver Carmichael, Carmina Gadelica Volume 1, p191.

6. Stokes, Sanas Cormac (translated by John O'Donovan), 1868, p23.

7. Stokes, Sanas Cormac (translated by John O'Donovan), 1868, p19. 

8. Clique aqui (NT: link perdido), para ver um exemplo. Kinsella tá uma tradução mais acessível no Táin, p27.

9. Ancient Legends, Mystic Charms,and Superstitions of Ireland, Lady Francesca Speranza Wilde, 1887.

10. Byrne, Irish Kings and High-Kings, 1973, p64-65.

11. Binchy, Fair of Tailtiu and Feast of Tara, p128-131; Hutton concorda com estes impostos, ver nota 7, p472 in The Stations of the Sun, 1996.

12. Stokes, Sanas Cormac (translated by John O'Donovan), 1868, p23.


14. MacCulloch, The Religion of the Ancient Celts, 1991, p264.

15. Kelly, Early Irish Farming, p41. 

16. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p592.

17. MacCulloch, The Religion of the Ancient Celts, 1991, p264.

18. Patterson, Cattle Lords and Clansmen, 1994, p137. 

19. Carmichael, Carmina Gadelica Volume 1, p190.

20. McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p55.

21. See Black, The Gaelic Otherworld, 2005, note 132, p593; Carmichael, Carmina Gadelica Volume 4, 1884, p38.

22. See Carmichael, Carmina Gadelica Volume 1, p190-193.

23. Carmichael, Carmina Gadelica, canção 365, p337.


25. Stewart, The Popular Superstitions And Festive Amusements of the Highlanders of Scotland, 1823, p259.

26. Frazer, The Golden Bough, 1993, p617-618. See also the 1922 edition. 

27. Frazer, The Golden Bough, 1993, p617; see McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p55-58.

28. Patterson, Cattle Lords and Clansmen, 1994, p139.

29. McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p59.

30. McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p60-61.

31. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p274.

32. Newton, A Handbook of the Scottish Gaelic World, 2000, p250.

33. See Carmichael, Carmina Gadelica Volume 1, p191.

34. Fergus Kelly, Early Irish Farming, p330.

35. McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p68.

36. McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p61.


38. McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p73.

39. McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p62.

40. McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p68.

41. Ver Festival Bannocks and Caudle para mais detalhes.


43. Ross, The Folklore of Wales, 2001, p39; See also Hutton, The Stations of the Sun, 1996, p224.

44. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p174-175.

45. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p553.

46. Beith, Healing Threads, 1995, p176-7.

47. McNeill, The Silver Bough Volume 1, 1957, p78.

48. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p177. Tyne means 'lose'.

49. Polson, Scottish Witchcraft Lore, 1932, p134; McNeill, The Silver Bough Volume 1, 1957, p78.

50. McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p62-63.

51. Maclagan, Evil Eye in the Western Highlands, 1902, p119-120; McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p63. See also McNeill, The Silver Bough Volume 1, 1957, p82.

52. Dalyell, The Darker Superstitions of Scotland, 1834, p9-10; Newton, A Handbook of the Scottish Gaelic World, 2000, p182.


54. Napier, Folk Lore, or, Superstitious Beliefs in the West of Scotland Within This Century, 1879, p112.


56. McNeill, The Silver Bough Volume 1, 1957, p84.

57. Ibid.

58. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p136-137.

59. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p126;p554.


61. Dalyell, The Darker Superstitions of Scotland, 1834, p81.

62. McNeill, The Silver Bough Volume 1, 1957, p67.

63. McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p65.

64. Napier, Folk Lore, or, Superstitious Beliefs in the West of Scotland Within This Century, 1879, p114.

65. MacInlay, Folklore of Scottish Lochs and Springs, 1893, p299-300.

66. Napier, Folk Lore, or, Superstitious Beliefs in the West of Scotland Within This Century, 1879, p113.


68. Ver Danaher, Irish Customs and Beliefs, 1964, p26ff.

69. Rees and Rees, Celtic Heritage, 1961, p158.

70. Glassie, Passing the Time in Ballymenone, 1982, p355;

71. Patterson, Cattle Lords and Clansmen, 1994, p120.

72. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p274-275.





77. Ibid.

78. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p96.

79. Sir William Wilde, Popular Irish Superstitions, 1852, p39-40.

80. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p272; Danaher, The Year in Ireland, 1972, p87, quoting Sir Henry Piers' Description of West Meath (1682).

81. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p272.

82. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p117.

83. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p116-117.

84. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p117.

85. Evans, Evans, Irish Folk Ways, 1957, p272; Wilde, Ancient Legends, MysticCharms and Superstitions of Ireland, 1887.

86. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p121.

87. Evans-Wentz, The Fairy Faith in Celtic Countries, 1911, p43.

88. Glassie, Passing the Time in Ballymenone, 1982, p534; Danaher, The Year in Ireland, 1972, p112. Veja também, ‘E se o fogo for dado em um dia de Maio, nada mais dará certo pelo ano inteiro.’ Evans-Wentz, The Fairy Faith in Celtic Countries, 1911, p43; Wilde, Irish Popular Superstitions, 1849.


90. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p112.

91. Rees and Rees, Celtic Heritage, 1961, p92.

92. (Referindo-se ao capítulo dezesseis), Sears, The Guide to Knowledge, 1844, p219.

93. Patterson, Cattle Lords and Clansmen, 1994, p140.

94. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p111; Wilde, Irish Popular Superstitions, 1849.


96. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p101.

97. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p273, Danaher, The Year in Ireland, 1972, p88; Wilde, Irish Popular Superstitions, 1849.

98. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p89.

99. Wilde, Ancient Legends, Mystic Charms and Superstitions of Ireland, 1887, http://www.sacred-texts.com/neu/celt/ali/ali053.htm

100. Wood-Martin, Traces of the Elder Faiths of Ireland, Volume 2, p263.

101. Wilde, Ancient Legends, Mystic Charms andSuperstitions of Ireland, 1887; Danaher, The Year in Ireland, 1972, p89.

102. Wood-Martin, Traces of the Elder Faiths of Ireland, Volume 2, p263.

103. Wilde, Ancient Legends, Mystic Charms andSuperstitions of Ireland, 1887; Danaher, The Year in Ireland, 1972, p89.

104. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p88.

105. Wood-Martin, Traces of the Elder Faiths of Ireland, Volume 2, p263.

106. Glassie, Passing the Time in Ballymenone, 1982, p355.

107. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p88.

108. Ver parágrafo 10. Retrieved March 7th, 2009.

109. See Danaher, The Year in Ireland, 1972, p90-94.

110. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p104.

111. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p104-105. See also, Wood-Martin, Traces of the Elder Faiths of Ireland, Volume 2, p265.

112. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p107.


114. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p121.

115. Wood-Martin, Traces of the Elder Faiths of Ireland Volume 2, 1901, p266.



118. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p272.

119. Kelly, Early Irish Farming, p53-54.


121. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p108.

122. Ibid. See also Wood-Martin, Traces of the Elder Faiths of Ireland, Volume 2, 1901, p263.

123. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p119-120.

124. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p120.

125. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p113.

126. Wood-Martin, Traces of the Elder Faiths of Ireland, Volume 2, 1901, p280-281.

127. See Danaher, The Year in Ireland, 1972, p113- 114.

128. Wood-Martin, Traces of the Elder Faiths of Ireland, Volume 2, 1901, p281.

129. MacNeill, The Festival of Lughnasa, 1962, p272.

130. Wood-Martin, Traces of the Elder Faiths of Ireland, Volume 1, 1901, p282.


132. Wood-Martin, Traces of the Elder Faiths of Ireland, Volume 1, 1901, p283.