sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Inspiração


 Para o 13° dia, o tema é ‘Inspiração’. Para começar, um erro que muitas pessoas fazem é dizer que a inspiração é o dito imbas forosnai. Tal habilidade realizada pelos filid e druí da Irlanda tem o objetivo de trazer respostas, e não de inspirar, embora a visão que o vidente receba possa servir como fonte de inspiração, daí o equívoco. Outras técnicas de clarividência são o dichetal di chennaib e o teinm laida.

 Resumidamente, o vidente que quiser buscar respostas para determinadas perguntas, podem realizar o imbas forosnai através de uma oferta: ele mastiga carne crua de cão, gato ou porco e então a coloca na “laje atrás da porta”, cantando um encantamento sobre a carne e a oferece aos Deuses, chamando-os. O vidente então canta sobre as duas palmas de suas mãos, e então as coloca no rosto antes de ir dormir. Uma pessoa então vigia a pessoa, para impedir quaisquer perturbações. Na manhã seguinte, o vidente estará com as respostas.

O poço de St. Brigit, em Kildare
 Não vou prolongar o assunto sobre o imbas, pois fugiria do tema. Para terminar, gostaria de citar algumas associações com a Inspiração. Existiam por toda a Irlanda e Escócia certos poços que eram tidos como ‘Poços de Inspiração’, onde acreditava-se que conferia inspiração aos poetas. Salmões de rios sagrados, como o Boyne, também conferiam inspiração, assim como as avelãs. Há uma certa poesia, de escritor anônimo, que cita três caldeirões de inspiração – uma espécie de “chacras Céltico”. Estes caldeirões nasciam em cada pessoa e em diferentes partes do corpo, em diferentes posições. Se fossem ativados – por alegria, dor, tristeza, e outros sentimentos, segundo o “autor” – estes conferiam inspiração divina. Amergin, os três Filhos de Turenn, Ogma, Ecne e Brigit eram deuses que davam inspiração àqueles que os procuravam, principalmente Brigit, que era vista como a “Mãe dos Poetas”.    

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A Roda do Ano


 O assunto do 12° dia é a ‘Roda do Ano’. Nesse texto, vou falar sobre os principais festivais que acontece no decorrer do ano. Não vou entrar em muitos detalhes em cada um dos festivais para não ficar um texto cansativo – e chato. A Roda do Ano é uma das formas de nós podermos nos conectar com os poderes e as mudanças da Natureza ao nosso redor, é uma das forma de nós celebrarmos os Deuses e honrá-los em determinadas épocas. Mas daí surge aquela velha história: celebrar pelo Sul ou pelo Norte? Isso vai de cada um. O objetivo do texto não é esse. Particularmente, sigo a chamada ‘Roda Mista’ que consiste basicamente em: celebro todos os festivais de acordo com o Hemisfério Norte, e as estações do ano celebro normalmente de acordo com a Natureza aqui. Por exemplo, quando chega o verão, faço o reconhecimento, dando boas-vindas à estação e várias oferendas aos espíritos dessa Terra.

 O ano começa em Samhain. Esta é a data oficial do ano novo Celta, celebrada nas vésperas do dia 1 de Novembro. Neste momento, a natureza está definhando, e o que ficou não foi colhido no Outono, permanece nos campos, pois é de Cailleach. Esta é a hora em que o mundo dos vivos e dos mortos ficam mais próximos, e o País das Fadas está aberto e todos podem transitar livremente. É a hora de lembrarmos dos nossos ancestrais, daqueles que já se foram. Para comemorar o Samhain, tradicionalmente é deixado um prato de comida do lado de fora para os mortos. As tradicionais ‘lanternas de Halloween’ feitas de abóbora (que originalmente eram feitas de nabo) são colocadas nas janelas para afastar os maus espíritos – que podem estar a solta nessa noite mágica.

 Em sua decadência, a natureza morre completamente no Inverno, onde então acontece o festival chamado Mean Geimridh ou Meio de Inverno. Em algumas áreas da Escócia onde a influência nórdica é grande, o festival também é conhecido como Yule e tem uma duração muito longa, se dividindo em outros “sub-festivais”. Nessa data, os mortos também vêm visitar seus entes queridos e sentar-se com eles de frente ao fogo. É uma época onde a família se senta em frente à lareira para a contar histórias, mitos, lendas e feitos dos seus ancestrais. É também a época em que o Novo Sol nasceu, simbolizado pelo jovem deus Angus. A partir daí, as noites ficam mais curtas e consequentemente, os dias mais longos, pois o Sol está ganhando forças. Tradicionalmente, na Escócia, as famílias saiam para procurar uma tora para queimar a noite inteira.

 Conforme os dias vão ficando mais longos e as campânulas começam a florescer, sem dúvidas chega a hora do festival da deusa Brigit, ou Imbolc. Este é o festival onde se comemora a chegada da deusa Bride, na tradição escocesa. A partir daqui, os rios começam a descongelar, algumas plantas começam a florescer. A neve está indo embora, mas o frio ainda é um problema. Tochas são acesas em honra à Brigit. As atividades mais conhecidas nessa época do ano é a confecção da Boneca de Brigit e da Cruz de Brigit. Pedaços de panos são amarrados em árvores para Brigit passar, tocar neles e enchê-los com seu poder de cura. Esse é um festival exclusivamente feminino, pois a maioria de suas atividades são atividades caseiras – reservadas apenas às mulheres. Para comemorar a data, acenda uma vela ou fogueira em honra a Brigit.

 O inverno já se foi e a primavera finalmente chega. Nessa data, na Escócia, se celebra o Latha na Cailleach. É uma data onde Bride triunfa sobre Cailleach, e esta desiste definitivamente de prolongar o inverno. Enquanto o Imbolc já é uma festa centrada principalmente em torno de Brigit, alguns neo-pagãos decidem honrar exclusivamente Cailleach nessa data, despedindo-se dela e do Inverno.

 Os dias vão ficando mais quentes e mais longos, e quando o pilriteiro começa a florescer, definitivamente Beltane chegou. É uma das épocas mais mágicas do ano – e também perigosas, uma vez que as Fadas estão à solta nesse dia, podendo fazer tudo que desejarem, como roubar seu gado, azedar seu leite e pregar outras peças em você. Para proteger-se delas, é tradicional a confecção das cruzes de sorveira, amarradas com lã vermelha. Dentro de casa, a lareira é apagada somente nessa única data do ano, e acendida novamente a partir das brasas do fogo comunitário. As donzelas banham suas faces no orvalho da manhã dessa data para garantir a beleza e a juventude. É costume enfeitar-se com folhagens e flores para estar em sintonia com a natureza. Poços mágicos também são visitados nessa data, e o culto à deuses do fogo também acontecem.

 Conforme os dias vão ficando ainda mais quentes, chega a vez do Verão. Acontece então o festival de Fheill Sheathainn como é conhecido na Escócia. Cristianizado como o ‘Dia de São João’, grandes fogueira são acesas nessa época do Ano. É o festival de todas as divindades Solares e Reis e Rainhas Fadas. Nessa data mágica, acredita-se que todas as ervas estão com um poder mágico e mais potentes – crença reminiscente do mito de Miach e Airmid, pois os deuses das ervas e da Cura também são celebrados nesse dia. Na Irlanda, é o festival de Áine, enquanto na Ilha de Mann, é a festa de Manannán.

 Uma vez que tudo que tem seu ápice tem que diminuir, acontece também com o Verão, e a partir desse dia, os dias vão ficando mais curtos e as noites mais longas. Chega então a época do Lughnassadh, ou a Festa de Lugh. Alguns pagãos celebram exclusivamente Lugh nessa data, e sua vitória sobre Crom Dubh, ganhando para o povo as Colheitas. Esta é a Primeira Colheita, e é a época para agradecermos às deusas da Terra, principalmente à Tailtiu, mãe de Lugh. Um dos costumes tradicionais desse dia é a colheita de frutas, principalmente o mirtilo. Pessoas enterram flores amarelas em altas colinas para anunciar oficialmente que o verão acabou.

 Conforme os dias vão ficando mais curtos, o Outono dá suas graças. Nessa data, acontece o Mean Fomhair, ou o Festival de Outono, conhecido ‘cristianizadamente’ como O Feriado de Miguel. Como é a segunda colheita, é um período de grande fartura. Na Irlanda, é conhecido como a temporada de caça. Alguns dos costumes tradicionais é a corrida de cavalos, um banquete bem abundante e a colheita de cenouras – e dar as outras pessoas cenouras como presentes. Conforme o Outono vai embora, chega novamente o Samhain. O ano acaba, e outro se inicia. É o Ciclo da Vida, o Nascimento, Vida e Morte da Natureza. O Ciclo que não pode parar. Era assim e assim será para sempre. Abençoados sejam vocês pelos Ciclos da Vida.           

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ritual


O 10º dia eu tinha pulado e escrito antes do 9°. Me desculpem :( Mas aqui está ele: Espíritos da Natureza.
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 Para o 11º dia, o tema é ‘Ritual’. Para falar sobre esse tema, vou explicar passo a passo de como um ritual druídico Reconstrucionista acontece. Mas antes de explicar passo a passo, vamos começar por definições. Afinal, o que é um Ritual? Você provavelmente já está cansado de saber que os Celtas não escreviam nada de suas crenças. Devido a isso, é impossível saber como os antigos sacerdotes celtas faziam seus rituais. Nada sobreviveu, uma grande parte dos conhecimentos sobre eles se perderam. A palavra ‘ritual’ tem muitos significados, porém, a que mais define o assunto de hoje é o seguinte: ‘conjunto de ações, invocações e objetos que são unidos em determinadas circunstâncias.’ Um ritual invoca e/ou agradece a presença de alguma entidade.

 No início de cada ritual, é feito um relaxamento coletivo. Em seguida, é necessário um reconhecimento da terra que pisamos. Esta é a primeira parte de cada ritual. Você notará que, diferente dos rituais wiccanos, nós não traçamos ‘círculos mágicos’ para tornar o local sagrado, pois para nós, todo lugar é sagrado. Apenas o reconhecemos como sagrado. Nesta etapa, é feita uma invocação de reconhecimento e uma oferenda à alguma divindade ctônica que possa estar relacionada ao propósito do ritual, como Ériu, Banba e Fótla, a tríplice de irmãs que deram seu nome á Irlanda, Tlachta, a deusa-terra filha do Senhor da Roda Solar, Tailtiu, que morreu após limpar uma planície para torna-la propícia ao cultivo, Momu a deusa-mãe escocesa, e muitas outras. Após essa etapa, chega a hora da Concentração e Fusão. Normalmente, muitos grupos usam a tão conhecida ‘Meditação da Árvore’. Mas qual é o objetivo disso? Simples: se conectar com as forças da Terra e do lugar. Outros afirmam que essa é a hora de nos conectarmos com os três mundos – terra, céu e mar – mas eu gosto de deixar “essa parte” para depois.

 Depois disso, uma parte comum a maioria das religiões atuais, como no Romuva, por exemplo. É a hora da ignição de uma fogueira sagrada. A maioria das pessoas que não podem acender uma fogueira, ou fazem os ritos dentro de suas casas, acendem uma vela ou uma chama dentro de um caldeirão. Para os mais afortunados, ainda usa-se também a lareira, se esta funcionar como altar. Neste momento, é invocada a deusa guardiã do Fogo, normalmente Bright. É invocada a presença dela para tender ao fogo e facilitar a comunicação com os Deuses. Deposita-se também as oferendas nesse Fogo Sagrado, que será enviada ao Outro Mundo, o mundo dos Deuses.

 Continuando, é chegada a hora de invocar o guardião dos Portais, que normalmente é Manannan. Este é o Deus que transita facilmente entre esse e o Outro Mundo. Tradicionalmente, o deus invocado para esse propósito deve ser de sexo oposto à divindade protetora do fogo sagrado, a fim de estabelecer equilíbrio. Se você invocou Brigit como a protetora do fogo, Manannán deve ser invocado nessa parte. Se você invocou Cliodna para tender os portais, invoca-se Bodb Dearg, por exemplo, também uma divindade ígnea. Após a invocação da divindade, abre-se os portais para os Três Mundos – mais uma vez, terra, céu e mar. Outros apenas fazem o reconhecimento dos Três Mundos e omitem essa parte do Ritual, acreditando que o Fogo já “sirva” como o Portal para as Oferendas e “ponte” entre esse e o Outro Mundo. Consequentemente, o deus guardião dos Portais não é invocado.

 Depois, faz-se a invocação das Tríades – ancestrais, espíritos da natureza e deuses. Outros, como eu, fazem apenas um reconhecimento e uma oferenda. Então, é hora da invocação da(s) divindade(s) “principais” do ritual, a quem o rito está sendo dirigido. Após a invocação, faz-se oferendas. Cada membro do grupo vai diante do fogo e deposita lá sua oferenda. Honra-se a divindade através de poesias, cantos e danças. Após as oferendas, faz-se a leitura dos presságios para saber se nossas oferendas foram aceitas pelas divindades. Esta parte cabe ao fáith – vidente – do grupo. Se a oferenda não for aceita, faz-se novamente. Se for aceita, segue o ritual.

 Se as oferendas foram bem aceitas, esta é a parte dos pedidos e das orações. Mais uma vez, os membros do grupo ficam diante do fogo, enquanto fazem seus pedidos através de orações, poesias e até mesmo mais oferendas. Após isso, normalmente uma taça com alguma bebida, geralmente o hidromel, é passado para todos os presentes, a fim de receberem as bênçãos da divindade. Essa também é a parte para fazer qualquer outra atividade, como lançar feitiços, confeccionar objetos mágicos e ritos de passagem. Após isso, é feita uma afirmação, como ‘Os Deuses nos abençoaram mais uma vez’.

  Depois, quando tudo já estiver sido feito, agradece então a todas as divindades invocadas. Nós não as mandamos embora, ou nos despedimos delas. É feita apenas uma oração de agradecimento, com a frase, ‘Vá se precisar, fique se desejar’. Reverte-se então a meditação da árvore, e por último, faz-se uma última libação à Terra, e o rito termina. Após isso, tradicionalmente segue-se um banquete. Os membros dos grupos trocam suas experiências durante o rito, conversam, riam e até mesmo fazem críticas – boas ou ruins. E por fim, citando Isaac Bonewits da ADF, “os Deuses estão nos observando, então, vamos dar à Eles um bom show”. Abençoados sejam teus ritos, assim como são os meus. 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ancestrais


9°. dia - Ancestrais
 Dando continuidade aos 30 dias druídicos, o tema de hoje é ‘Ancestrais’. De uma forma resumida, ancestrais são aqueles que já viveram aqui antes de nós, que se reproduziram, e enfim chegamos nós. No Druidismo, é muito importante o culto aos ancestrais, apenas para começar, vocês lhes devem o fato de estar vivo! Além disso, estes são detentores de grandes conhecimentos, pois já viveram muito mais que nós. Eu gosto de usar a classificação de três tipos de ancestrais: os de sangue, os de fé e os de terra. Seus ancestrais de sangue são seus avós, bisavós, tatatara..vós, e assim por diante. Os de fé, se você segue o Druidismo, são aqueles que já viveram há muito, muito tempo. Estes eram os antigos Druidas (e você pode aprender muito com eles); por último, os ancestrais de Terra, que são aqueles que embora não tenham nenhum vínculo com você, foram aqueles que já viveram na mesma terra que hoje você vive, e você também lhes deve respeito. Antes de começar a falar sobre os Ancestrais, é impossível não falar também sobre Morte e Pós Vida.

 É indiscutível o fato de que os Celtas acreditavam em reencarnação! Para eles – assim como para a maioria das religiões pagãs – a alma não morre: ela vai passando, passando, por várias vidas e formas, pois para nós, viver é uma grande dádiva dos deuses! Podemos ver isso claramente em alguns achados arqueológicos, “tumbas Celtas” e até mesmo na mitologia, como no mito de Étáin Echraide por exemplo, onde a ciumenta esposa de Midhir, Fuamách, tenta várias vezes tirar Étáin desse mundo, mas ela sempre volta de uma forma diferente, ainda mais deslumbrante que antes. No Conto de Tuan mac Carril, há um outro exemplo ainda mais interessante! No início, este era um homem; o homem envelheceu, e se transforma em um animal. Ele vive então todas as emoções do animal, uma vida inteira, envelhece, e se transforma em outro animal, e assim acontece durante toda a história.

 Em antigas tribos Celtas, reconhecer sua ancestralidade era algo importantíssimo! Algumas tribos alegavam ser descendentes diretos de próprias divindades ou até mesmo de árvores!

 E onde vem a pós vida nisso tudo? Para onde iremos, segundo os Celtas? Há um paraíso como na Bíblia? Sim, há um paraíso. Ou melhor, vários! Podemos ver nos mitos que existiam Ilhas além do Oeste, muito além onde o Sol deitava. São as ditas ‘Ilhas Afortunadas’, as Ilhas de Manannán mac Lir. Para os Celtas, quando morríamos, era para lá que íamos, onde descansávamos para retornar novamente para esse mundo. Outras crenças afirmam que os mortos iam para o País das Fadas, debaixo das Terras – ou as Colinas Ocas – onde acreditava-se ficarem festejando até o fim dos tempos. Em determinadas partes do ano, portais para estes “Outros Mundos” ficam abertos, e qualquer um pode entrar ou sair. Tal época é a chamada “parte escura do ano” – Samhain e Mean Geimridh (o inverno). A crença de que os mortos vinham visitar seus parentes na parte escura do ano não é algo exclusivo da tradição Celta, aparecendo também na religião “Romuva” – o paganismo lituano, e no Asatrú – o paganismo nórdico.

A Rocha do Touro. Acredita-se que por
aquele portal passam os mortos antes de seguirem para
o Outromundo.
 Mas e então, vamos para essas ilhas para pagar nossos “pecados”? Não, até por que não há “pecados” no Druidismo. Acreditamos que tudo que fazemos de ruim para nós mesmos, para o próximo ou para a comunidade pagamos aqui mesmo. A própria vida em si já cobra. Porém, há alguns que acreditam que as pessoas que sempre fizeram o mal aqui, passarão pela casa de Donn, o Negro, o terrível deus da Morte. Essa casa é a Tech Duinn, localizada na Irlanda perto da dita “Rocha do Touro”.

 Com isso em mente, honre sua terra, honre sua tribo, honre sua família, sua casa, e principalmente, seus Ancestrais.      

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Buggane da Cachoeira de Glen Meay

Conto extraído do livro de Sophia Morrison, Manx Fairy Tales e traduzido por mim. (Logo logo vou disponibilizar o livro completo traduzido!) Boa leitura.
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O BUGGANE DA CACHOEIRA DE GLEN MEAY

Havia uma mulher que vivia perto de Glen Meay, e ela era a esposa de um decente, quieto e esforçado homem do local. Lá não morava mais ninguém, a não ser ela e o homem, e tinham um bom e pequeno chalé e tinham um cercado no qual eles tinham vacas, ovelhas e cresciam batatas suficientes para eles no inverno. O homem ia pescar quando não tinha muito o que fazer na terra. Mas apesar de tudo isso, eles não eram confortáveis, pois o homem trabalhava muito na fazenda e na pescaria, e sua esposa era bastante preguiçosa.

Era mais comum encontrar a mulher deitada na cama pela manhã do que sentada ordenhando vacas, na verdade, os vizinhos diziam que ela usava mais cobertores do que sapatos. Muitos dias, seu marido saia cedo faminto como um falcão, pois não tinha uma refeição ou um cear para ele. Uma manhã, quando ele chegou de seu trabalho, não havia fogo – sua esposa estava dormindo. Bem, meu pobre homem não tinha nada a fazer a não ser preparar seu próprio café da manhã e voltar para seu trabalho. Quando ele voltou para o jantar, aconteceu a mesma coisa.

‘A preguiça dela é uma má sorte,’ ele pensou, ‘isso não é conforto para um pobre homem, mas eu farei uma travessia com ela.’

Com isso, ele pegou um feixe de palha e colocou nas duas janelas da casa. Então, voltou ao seu trabalho.

O sol não tinha ido ainda quando ele voltou para casa no entardecer. Sua esposa estava deitada na cama, esperando pelo dia.

‘Aw, mulher,’ ele gritou, ‘se apresse e você verá o sol nascer no oeste.’

A esposa pulou da cama e correu para a porta quando o sol estava indo embora, e a visão a aterrorizou. Todo céu parecia como fogo, e ela pensou que o fim do mundo estava próximo. Na manhã seguinte aconteceu tudo de novo, e ele disse à ela:

‘Kirry, é o Buggane, sem dúvidas, que irá lhe levar esses dias se você não corrigir os caminhos dele!’

‘Qual Buggane?’ disse ela.

‘Não me faça perguntas,’ disse ele, ‘e eu não lhe contarei mentiras. Mas é o companheiro grande, negro, peludo que fica debaixo de Spooyt Vooar que falo.’  

‘Má é a língua que tu tens, homem; não me assustará com teus Bugganes,’ gritou a mulher.

Ao entardecer, o homem deixou a casa para ir pescar. Assim que ele se foi, a mulher teve uma ideia de assar pães, pois ela só tinha restos para o café da manhã. Os Pequenos Companheiros não podem ficar em caminhos preguiçosos, e assar pães após o por do sol é algo que eles não toleram. Ela que fez isso encontrará a vingança deles – é certo que algo será levado por eles, raramente pior do que algum animal do gado. Bem, a mulher foi assar pão de cevada e bolo de farinha. Primeiro, ela saiu para pegar tojo para colocar sobre a grelha, e deslizando a maçaneta para entrar, algum dos Vizinhos a pegaria para chorar por sua vergonha em fazer bolo após o por do sol. Ela pegou alguns ingredientes no barril e colocou na mesa redonda, colocando sal e água nela, e então, ela amassou os ingredientes formando um bolo fino com suas mãos. Mas ela era apenas uma cozinheira pobre e medíocre, aquela do tipo que usa uma faca para deixar o bolo redondo. Ela virou o bolo duas vezes, e limpou a grelha com uma asa de ganso branco preparando-a para o bolo que ela estava ocupada, tornando-o redondo com a faca. Bem naquele momento, ela ouviu o som de algo pesado na porta. Depois de alguns segundos, algo bateu na porta, e uma voz espessa e rude de um gigante foi ouvida dizendo, ‘Abra, abra para mim.’ Ela não respondeu. Novamente, escutou-se um alto bater na porta e uma grande voz foi escutada, gritando: ‘Mulher da casa, abra para mim.’ Então a porta foi arrombada e veja! Ela viu uma grande e feia besta, um Buggane apressado com raiva. ‘Com sua licença’, ele disse, e agarrou-a pelo seu avental, lançou-a sobre seu ombro e foi embora com ela. Antes dela saber onde estava, ele atravessou campos e desceu a colina, até a levar para o topo de Spooyt Vooar, a grande cachoeira de Glen Meay. Conforme o Buggane derrubava a colina, a mulher sentia o chão tremer sobre os pés dele, e o barulho da cachoeira encheu seus ouvidos. E, lá na frente dela, ela viu o fluxo de água que espirrava espuma branca sobre as rochas.  Quando o Buggane a arremessou no ar para atirá-la no lago profunda, ela pensou que sua última hora havia chegado. Então, ela se lembrou da faca que estava em sua mão. Rápida quanto o pensamento, ela cortou seu avental que a segurava no Buggane e caiu no chão, rolando e rolando, descendo a colina.

E antes de saber onde ela estava, o Buggane com sua velocidade, desceu correndo de Spooyt Vooar. Conforme ele corria para alcançar a moça, ela escutou a menos de uma milha ele gritando:

Rumbyl, rumbyl, sambyl, Eu achei que tinha uma mulher preguiçosa, mas tenho apenas um pedaço de seu avental.’

E essa foi a última fez que foi visto aquele Companheiro!