quarta-feira, 20 de junho de 2012

Teeval, a Princesa do Oceano

O texto a seguir foi retirado do livro Manx Fairy Tales, de Sophia Morrison e traduzido por mim; me lembro de ter visto essa história em outro local, mas a princesa recebia o nome de Tiabháil, ou seja, a pronúncia é praticamente a mesma. Boa leitura. 
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Teeval, a Princesa do Oceano

Nos velhos dias, Culain, o ferreiro dos deuses, viva na Ilha de Mann. Foi na época em que Conchobar estava na corte do Rei de Ulster, e não tinha nada, a não ser a espada em sua mão. Ele era um belo jovem, tentando tornar-se rei. Então, um dia ele foi até o Druida de Clogher para perguntar-lhe o que ele tinha de melhor para fazer.

‘Vá em teu caminho,’ disse o Druida, ‘para a Ilha de Mann. Lá você encontrará um grande ferreiro, Culain. Peça-o para fazer a ti uma espada, uma lança e um escudo, e com isso, você ganhará o reinado de Ulster.’

Conchobar então seguiu, pegou um barco e foi para o mar. Desembarcando na Ilha de Mann, ele foi diretamente para o ferreiro Culain. Era noite quando ele chegou lá, e o brilho vermelho da fornalha brilhava na escuridão. Ele podia escutar vindo de dentro o ferreiro, os rugidos, o bater do machado na bigorna. Quando ele se aproximou, um grande cão, tão grande como um bezerro, começou a latir e rosnar como um trovão, trazendo seu mestre para fora.

‘Quem é você, jovem?’ disse ele.

‘Oh Culain!’ gritou Conchobar, ‘venho do Druida de Clogher, e ele disse para eu lhe pedir para fazer uma espada, uma lança e um escudo, pois somente com essas armas de tua forja eu poderia ganhar o Reinado de Ulster.’

A face de Culain escureceu no início, mas depois ele olhou Conchobar por um momento, e viu que o menino iria longe, dizendo:

‘Eu farei para ti, mas deverás esperar, pois o trabalho é longo.’

Então Culain começou a fazer as armas, e Conchobar esperou na ilha.

Na manhã de Maio, quando o sol acabara de nascer sobre Cronk-yn-Irree-Laa, ele estava caminhando pela praia, se perguntando quanto tempo mais demoraria para Culain fazer suas armas, e pensava que já estava na hora dele voltar. A maré tinha descido, e o sol brilhava na areia molhada. De repente, ele viu algo brilhando na beira das olhas a alguns passos dele. Ele correu até lá, e viu que era a mulher mais linda que ele já tinha visto, adormecida. Seu cabelo era dourado, como as flores do tojo; sua pele era mais branca que a espuma do mar, seus lábios tão vermelhos quanto o coral, e suas bochechas róseas como pequenas nuvens que voam diante da face do sol da manhã. As franjas de seu vestido de muitas algas coloridas levantavam e caiam com a maré e o fluir das ondas. Pérolas brilhavam em seu pescoço e braços. Conchobar ficou parado olhando para ela. Ele sabia que ela era uma Sereia, e assim que acordasse, ela voltaria para o oceano. Então, Conchobar a amarrou rapidamente com seu cinturão.

Então ela acordou e abriu seus olhos, que eram tão azuis quanto o mar, e quando ela acordou vendo que estava amarrada, ela gritou com medo, ‘Me solte, homem, me solte!’

Conchobar não respondeu, então ela disse de novo, ‘Me solte, eu te imploro!’ em uma voz tão doce quanto a música de Hom Mooar, O Violinista Fada.

Nesse tempo, Conchobar sentia que ele daria tudo para mantê-la. Ele respondeu, tremendo, ‘Mulher, meu coração, quem é você?’

‘Eu sou Teeval, a Princesa do Oceano,’ disse ela. ‘Me liberte, eu te imploro.’

‘Mas se eu te libertar,’ disse Conchobar, ‘tu me deixarás.’

‘Eu não posso ficar com você, Conchobar,’ ela gritou, ‘me liberte, e eu lhe darei um precioso presente.’

‘Eu te libertarei,’ respondeu Conchobar. ‘Não pelo presente, é por que não posso resistir a ti.’

Ele desamarrou o cinturão e ela disse, ‘Meu presente para ti é: Vá agora para Culain que está fazendo teu escudo, e diga-lhe que Teeval, Princesa do Oceano, lhe disse para colocar sua face no escudo e ao redor do escudo gravar o nome dela. Então, tu deverá usar sempre o escudo na batalha, e quando tu olhar para minha face e chamar meu nome, a força de teus inimigos sairá deles e virá para ti e teus homens.’ Quando ela disse isso, ela acenou seu braço branco para Conchobar e pulou nas ondas. Ele olhou tristemente por um longo tempo para o lugar onde ela desapareceu, e então ele caminhou lentamente para a forja de Culain, e lhe deu a mensagem.

Culain terminou o poderoso escudo como a Princesa tinha dito, e forjou também para Conchobar uma mágica espada de punho dourado e uma lança cravejada de pedras preciosas. Então Conchobar, em seu manto carmesim e túnica branca bordada em ouro, armado com seu grande escudo e poderosas armas, voltou para a Irlanda.

Tudo o que a Princesa do Oceano disse se tornou verdade. Quando ele ia para a batalha, ele olhava para a bela face em seu escudo e gritava, ‘Me ajude, Teeval.’

Então ele sentia a força vinda para ele, como a força de um gigante, e cortava seus inimigos como se corta grama. Depois de um tempo, ele se tornou famoso em toda a Irlanda devido às suas façanhas, e por fim, ele se tornou o Rei de Ulster. Então, ele convidou Culain para vir e viver em seu reinado, dando-lhe a planície de Muirthemne para ele. Mas nunca mais, ele viu a adorável Sereia.       
 

terça-feira, 19 de junho de 2012

O Solstício de Verão

Texto extraído do site (www.tairis.co.uk) e traduzido por mim com a permissão da autora. Aproveitem :)
Introdução
Ao contrário da evidência para o Latha na Caillich, nós estamos em “terreno firme” tanto para a evidência quanto para as celebrações ritualísticas que aconteciam na Véspera do Solstício de Verão (ou Véspera de São João, Noite da Fogueira,¹ Féill SheathainTeine Féil’ Eóin,³ ou Feaill Eoin 4) no dia 24 de Junho na Escócia,5 ou a véspera do Dia de São João na Irlanda, no dia 23 de Junho.6 A origem dessas celebrações são discutíveis, no entanto, e mais uma vez, como acontece em outros festivais centrados em torno dos solstícios e equinócios, as evidências parecem apontar para uma forte influência estrangeira nas celebrações.7
Algumas das primeiras menções às celebrações do Solstício de Verão na Escócia datam ao século XVI, normalmente, no contexto de terem sido condenadas (e então banidas) por Kirk, pois ele tinha percebido as associações pagãs desse festival.8 Enquanto Kirk oficialmente “franzia a testa” para essas tradições, na realidade, as celebrações persistiram mais nos séculos XVII e XIX, mas, principalmente, elas eram de influência de áreas inglesas e escandinavas tais como as Terras Baixas e as partes noroeste da Escócia.9
Essa distribuição, junto com um padrão similar no País de Gales, sugere que uma influência estrangeira é responsável, mas quando se olha para a Irlanda e a Ilha de Man, a questão se complica, uma vez que há uma forte tradição das celebrações do Solstício de Verão prevalecente em ambos países.10 Evidências para as celebrações do Solstício de Verão na Irlanda podem ser encontradas já no início do século XIV,11 embora nesse caso as referências sejam especificamente para a Véspera de São Pedro (no dia 28 de Junho, o Dia de São Pedro era frequentemente celebrado da mesma forma que a Véspera de São João, possivelmente dando uma “segunda chance” caso as celebrações do Dia de São João não tenham acontecido devido ao mal tempo)12 em tons menos condenatórios aos que são encontrados na Escócia, porém, notavelmente, a referência de New Ross em 1305 vem de uma cidade de habitantes ingleses.13
As fogueiras em si foram um aspecto comum das celebrações do Solstício de Verão em qualquer lugar, e uma descrição do século XIV das fogueiras em Shropshire, nota a construção de três fogueiras separadas:
“No culto de São João, os homens acordam juntos, e fazem três fogueiras diferentes: uma é feita de ossos limpos; a outra é feita de madeira limpa e sem ossos, e é chamada de Fogo de Vigília, pois os homens sentavam e eram acordados por ela; e a terceira era feita de ossos e madeira, e é chamada de Fogo de São João. Acreditava-se que o fedor dos ossos em chama expulsava dragões.”14
Ossos são às vezes mencionados em contextos escoceses, e há também um elemento de algum tipo de ritos de lamentos ou funerários envolvidos nessas descrições que sugerem uma origem comum. Nos ritos de Solstício de Verão escandinavos, as fogueiras representam a pira funerária de Baldr e o visco branco era colhido nessa época.15 Certos elementos rituais podem ecoar esse costume em contextos gaélicos, como se verá; caso contrário, a forte sobreposição encontrada nos costumes de Bealltainn e do Solstício de Verão sugerem uma mudança de foco das festividades de Bealltainn para o Solstício de Verão ao longo do tempo. De acordo com Joyce, algumas partes da Irlanda celebravam as fogueiras no dia 1º. de Maio, enquanto outras celebravam no dia 24 de Junho.16 Isso é, talvez, devido à anglicização do ano ritual (sob influência dos antigos festivais gaélicos que presumivelmente tem sido menos favoráveis àqueles comparados aos grandes festivais no calendário Inglês), e também à influência eclesiástica, com o aumento da popularidade de São João, a quem o dia era dedicado e a mudança de foco dos “ritos pagãos” que era inerentes em Bealltainn. No século XIX, as celebrações do Solstício de Verão podiam ser encontradas na maior parte da Europa e até mesmo em algumas partes do noroeste da África. Com as atitudes muito mais insulares dos Gáidhealtachd, ambos socialmente e religiosamente em muitas partes, a resistência em adotar tais festivais não nativas precisavam ser explanadas.
As fogueiras na Escócia
Como já foi notado, o costume e as tradições associadas com o Solstício de Verão na Escócia foram largamente confinados às Terras Baixas e ao leste da Escócia – as áreas mais influenciadas – porém, as Ilhas do Norte podem ser vistas como uma fortaleza da tradição.18 Dada a mudança das tradições que fogem de conotações pagãs, não é surpresa encontrar uma enorme sobreposição entre esses costumes e tradições com aquelas encontradas em Bealltainn.19
As celebrações começam na véspera da Festa de São João, o Batista, (24 de Junho), e o ponto focal principal das festividades era a fogueira, apesar de ritos acompanhando são solenemente vistos mais no norte do que nas Terras Baixas, onde a ênfase era a diversão e a festividade.20 As fogueiras eram normalmente acesas no pôr do sol – que nesse tempo do ano é muito tarde,21 e ao redor da fogueira havia comida (tais como o gudebread)22 e bebidas, junto com danças e o saltar nas chamas, e depois, levavam o fogo para casa.23
Em Orkney, de acordo com um escrito do século XVIII, jogavam tufos de crina no fogo aqueles que tinham cavalos doentes, ou eram castrados, durante o ano, com o gado então sendo liderado no sentido horário ao redor das fogueiras.24 As fogueiras eram acesas “no local mais conspícuo da paróquia, normalmente, voltada para o norte,”25 sugerindo um natural foco comum, uma vez que, presumivelmente, essa é a posição que permitiria que o fogo fosse visto na maioria das fazendas da área (e então eles se beneficiar com as chamas também), enquanto o sul é provavelmente o melhor local para a fumaça passar entre os campos da área.26 
Em algumas fogueiras, um osso era atirado ou colocado nelas, e isso era invariavelmente explicado como um ato simbólico do animal que antigamente era sacrificado ao fogo, ou também o osso seria uma representação de um homem que se tornou mártir (embora ninguém parece ter se lembrado muito disso).27 Isso pode ser visto, talvez, como uma evidência de um eco da influência escandinava, com as associações de Baldr com o dia.
Ramos de bétula eram coletados e pendurados nas soleiras para a proteção,28 e tochas de urze ou tojo eram acesas a partir da fogueira principal e levada para casa pelo chefe da família, onde ele então caminharia três vezes ao redor do campo no sentido horário para abençoar as plantações e para garantir uma boa colheita.29 O mesmo era feito ao redor do estábulo para abençoar o gado e protege-los contra doenças e na parição de bezerros. Enquanto isso, os jovens ficavam na fogueira, esperando o fogo abaixar e então pulavam o fogo, indo para casa no nascer do sol.30
Os pescadores de Shetland se reuniam na Véspera do Solstício para o Foy [NT: ?] dos Pescadores, davam um brinde ao mar e às plantações para garantir bons frutos. Cada homem brindava uma vez, e dizia, “Senhor! Abra a boca do peixe cinza, e ponha tua mão sobre as plantações.”31
Acreditava-se também, que a Véspera do Solstício era a época quando as bruxas e fadas tinham seus poderes mais potentes e ativos. As pessoas também costumavam não dar qualquer produto lácteo, para garantir que o lucro não fosse embora da casa.32 Mas enquanto havia perigos inerentes da estação, esse poder também teve um lado positivo na coleta de certas ervas, especialmente aquelas para cura ou proteção, que acreditavam-se ser mais potentes. A Erva de São João era especialmente procurada, algumas das quais podiam ser penduradas nas portas para a proteção contra raios e influências malignas, enquanto outras podiam ser queimadas na fogueira ou colocadas no campo.33    
Carmichael dá diversos encantos que foram usados para a coleta da Erva de São João – ou Planta de São Columba, como também era conhecida – e nota que a planta seria mais potente se fosse descoberta acidentalmente ao invés de ser procurada de propósito:

“Planta de Columba,
Sem procura, sem busca,
Planta de Columa,
Debaixo dos meus braços para sempre!...”34
Com suas propriedades protetoras, a planta muitas vezes era costurada nos corpetes e vestes de forma que ficava debaixo das axilas da pessoa, garantindo assim, que nenhum mal da bruxaria ou do Bom Povo viesse para a pessoa, e nem que ela seja atingida pelo Olho Maligno ou pela Segunda Visão.
Sementes de samambaia [NT: feto] também eram procuradas, uma vez que, tinha similares propriedades protetoras:
“Somente na Véspera do Solstício de Verão,” dizem, “na maravilhosa noite, que pode ser colhida a semente de samambaia. Nessa noite, ela amadurece de doze para uma, depois cai e desaparece instantaneamente... Tem uma maravilhosa propriedade de tornar as pessoas invisíveis.”35
Bagas de sabugueiro colhidos no Solstício oferece proteção contra a bruxaria, mas também concede poderes mágicos para aqueles que as colhem.36
As fogueiras na Irlanda
A evidência para a Irlanda é muito mais abundante do que na Escócia, e conforme você imagina, seguem as mesmas linhas; fogueiras, bênçãos para o gado e para as colheitas com ramos em chama, junto com outros costumes específicos tais como a colheita da Erva de São João.
Além disso, aconteciam encontros religiosos que aconteciam em encostas de colinas, lagos e poços sagrados. Esse era um costume notório, renomado pelas oferendas feitas pelos peregrinos, acompanhada de dança, bebidas, comidas, jogos e outros tipos de diversão. O padrão de Glendalough foi “uma localidade insegura a menos que um magistrado remunerado e cerca de 100 policiais pudessem conter os combatentes, os Byrnes, os Tools e os Farrells separados.”37 Tais encontros foram eventualmente banidos pela igreja no século XIX, tanto pela violência e bebedeira que se tornou associado à eles, assim como quando perceberam os vestígios pagãos associados à eles.38
As fogueiras era um afazer comum a todo o vilarejo, exceto em áreas extremamente remotas onde as fazendas tinham suas próprias fogueiras.39 Exceções também eram feitas se houvesse uma morte recente na família; nesse caso, as fogueiras não eram acesas, nenhum rito era feito, em casa ou na fogueira comunal40 – presumivelmente, com a morte sendo tão recente, a família ainda estava em luto, e era arriscado espalhar tal infortúnio para a comunidade se eles se juntassem à eles. Caso contrário, se eles não observassem e participassem dos ritos, era certo de ter desastres na colheita e nos gados.41
Nas festividades, a lenha para a fogueira principal era muitas vezes coletada de porta em porta no vilarejo. Uma vez que era considerado azar recusar na contribuição de qualquer coisa, a alimentação da fogueira era feita com muito respeito, com tufos e lenha, e até mesmo pedaços de móveis velhos e outros tipos de lixo inflamável (recentemente, até mesmo pneus são usados), fazendo a fogueira ficar tão grande que era necessário uma escada para terminar de empilhar a lenha. As crianças também saiam para recolher galhos, ramos e qualquer coisa que eles achavam contribuir para a fogueira.42
A fogueira principal era acesa no pôr do sol, e essa tarefa era encarregada ao velho homem sábio do vilarejo, que a acendia com uma tradicional oração para a ocasião:
“In onóir do Dhia agus do Namoh Eoin, agus chun toraidh agus chun taibhe ar ár gcur agus ar ár saothar in ainm an Athar agus an Mhic agus an Spirid Naoimh, Amen.” (‘Em honra de Deus e de São João, para abundância e lucro de nosso plantio e de nosso trabalho, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém.’)43
Depois que a fogueira era acesa, água sagrada era então aspergida ao redor da fogueira e nas chamas, para bênçãos. Em algumas partes, essa tarefa era feita pelo homem que acendeu o fogo, mas no Condado de Cork, frequentemente era uma criança que fazia esse trabalho.44 Quando as formalidades acabavam, as festividades então começavam, com música, cantos, dança, comida, bebida, jogos, histórias, competições e diversões. Em algumas partes da Irlanda, era comum colocar um craebh, um grande mastro de madeira que formava um ponto central para o encontro, e um lugar onde as competições de dança aconteciam, com bolo de gengibre sendo dado de recompensa para os homens, e ligas [NT: garters ?] para as mulheres.45 É tentador ver essa prática como sendo um tipo de bile artificial.
Em Connaught, o ‘inoportuno’ pão (pão branco, feito especialmente por um padeiro) era frequentemente a única comida a oferecer, embebido em adoçante e temperado com leite quente (o leite sendo roubado de uma vaca vizinha). O pão era cozinhado em um grande pote, aquecido na fogueira principal, ou em uma fogueira pequena feita especificamente para cozinhar.46
Essa fogueira principal era normalmente situada em um local onde o vento levasse a fumaça sobre as principais áreas de cultivo da região, de forma que elas se beneficiassem com as qualidades protetoras da fogueira.47 Lady Wilde dá uma boa descrição das festividades quando as chamas abaixavam:
“Quando o fogo se transformava em um brilho vermelho [NT: ou seja, abaixava], os meninos pulam sobre ou através das chamas; pulavam para frente e para trás muitas vezes, e aquele que enfrentasse a maior chama era considerado o vitorioso sobre os poderes do mal, e é tremendamente aplaudido. Quando as chamas abaixam ainda mais, as meninas pulam o fogo, e aquela que pular três vezes para frente e para trás e sair limpa terá certamente um casamento vindouro e uma boa sorte nessa vida, com muitos filhos. As mulheres casadas caminham então entre as brasas; e quando o fogo finalmente está quase apagando, as crias do gado são conduzidos através de suas cinzas quentes, e batem em suas costas com um galho de aveleira aceso. Essas varinhas de aveleira são para mantê-los seguros, e é considerado de imenso poder conduzir o gado em locais aquáticos. Conforme o fogo vai diminuindo, a gritaria vai ficando mais baixa, e o som e a dança começam, enquanto contadores de histórias narram contos da terra das fadas, ou dos bons e velhos tempos, quando os reis e príncipes da Irlanda habitavam entre seu povo, e havia comida para comer e vinho para beber para todos os cantos da festa na casa do rei.”48
O pulo da fogueira, em particular, era de grande importância, não apenas para a sorte ou casamento, mas também para a saúde.49 As cinzas em particular era vistas com fortes propriedades curativas, e quando era coletadas da fogueira e guardadas para o uso, uma pequena parte da cinza podia ser misturada com água e bebida para curar todas as doenças, ou também para lavar ferimentos, cortes, dores e outras coisas.50 Nesse sentido, Hedderman (escrita com exasperação característica em tais superstições ridículas), descreve um caso onde um menino sofre com um dedo machucado. Enquanto Hedderman mostra o menino querendo manter as feridas limpas para prevenir infecção, o pai do garoto tem uma opinião diferente:
“Seu pai, que estava sentado em uma cadeira do canto, levantou-se, e sacudindo um punho fechado, com uma dúzia de altas imprecações, exclamou, ‘Eu sabia que aconteceria isso; ele não ficou muito tempo nas brasas vermelhas da fogueira da noite de São João’.”51
Os carvões e as brasas eram colocadas no campo, no estábulo, no celeiro e na casa. Em adição à cura, guardar algumas sobras de cinzas na casa era suposta ser bom para a sorte, ou garantir uma travessia gentil à velhice. Algumas cinzas ou brasas também podiam ser colocadas na lareira também,52 e há pouco tempo, são usadas para construir casas; uma pá pegava uma boa parte de brasa e era levada para a nova casa, de forma que o primeiro fogo a ser aceso lá, era da fogueira de São João, para garantir sorte e prosperidade aos seus habitantes.53
No campo, as cinzas ou as brasas eram atiradas em cada canto para abençoar as plantações e garantir uma colheita abundante, ou também, um galho de junco podia ser aceso e levado ao redor das fronteiras do campo, carregado através dos campos, ou atirado nas plantações.54 A tocha podia ser levada ao redor da casa, estábulo e dos produtos lácteos também, e em alguns condados (tal como o Condado de Clare), a tocha em chamas era tocada no gado para garantir bezerros saudáveis. As cinzas ou brasas eram colocadas no leite para garantir sorte e plenitude de leite e manteiga, também para proteger contra a feitiçaria. Um galho carbonizado também podia ser trazido do fogo e usado para desenhar uma cruz na porta de casa ou nos instrumentos para fazer a manteiga.55
Em Munster, as tochas eram feitas de ramos de feno e palha, amarrados aos mastros, e então caminhados na colina – Cnoc Áine – onde o fogo principal era aceso. A procissão era povoada inteiramente por homens, e liderada por um membro da família Quinlan, de acordo com Fitzgerald.56 As tochas – cliars – eram levadas ao topo da colina e então desciam para os campos, e gado. Muitas fontes falam disso como um tipo de procissão funeral para Áine, a deusa tutelar da região, realizada em lembrança à ela, da mesma forma para o Bom Povo, que dizia ser feito da mesma forma.57 Mas uma vez, tais associações são reminiscentes dos ritos funerários de Baldr, mas também, talvez, invocam uma meia lembrança dos ritos funerários realizados em honra de deidades tutelares como Tailtiu no Lùnastal, que não está muito longe disso.
Antes de irem para a fogueira principal, as casas muitas vezes acediam uma fogueira na fazenda como um foco para ritos protetores e bênçãos. Esses fogos eram normalmente muito menor em escala, comparado às ‘grandes fogueiras’, “normalmente, feitas com não mais de um ou dois ramos de tojo, ou uma pilha de galhinhos, ou uma ou duas brasas da lareira da cozinha.”58 Como era pequeno, o fogo não durava muito, e as pessoas podiam então terminar logo os afazeres em casa e ir para o evento principal.59 Os ritos são similares aqueles encontrados na fogueira grande – uma bênção era feita em nome de Deus, água benta era aspergida ao redor da casa, da fazenda, do gado, das colheitas e em outras coisas.60
Enquanto as cinzas eram supostas ter propriedades curativas, muitas plantas eram consideradas ser particularmente potentes, como na Escócia. A Erva de São João era procurada, assim como a Artemísia no Condado de Cork e no Condado de Waterford, embora haja uma certa dúvida quanto ao seu tempo de colheita que provavelmente se acomodou com o mal tempo e a diferença entre o Velho Estilo e o Novo Estilo. Qualquer hora entre o Solstício de Verão e o 4 de Julho.61 O sumo da Erva de São João era então fervido e bebido como um preventivo contra doenças.62 
As fogueiras em Mann
A ilha de Mann nos dá alguns importantes exemplos de ritos festivos no Solstício de Verão, mostrando tanto as influências da cultura gaélica quanto a nórdica. Enquanto as fogueiras eram acesas e o gado e os campos eram abençoados com tochas de tojo como nos outros lugares, e a Artemísia era colhida contra um preventivo contra a bruxaria,63 algumas diferenças distintas podem ser encontradas na forma de pagamentos, ou oferendas, que eram feitas à Manannan nesse período.
Manannan é bastante associado com a Ilha de Mann, e a tradição conta que ele foi o primeiro rei da ilha – um benevolente e pacífico líder, um pagão. Uma descrição do século XVI da ilha diz o seguinte sobre ele:
“Manannan Mac Ler, o primeiro homem que existia em Mann, ou o primeiro governador de Mann, e a Terra foi nomeada a partir dele, ele reinou por muitas anos e era Pago, e manteve por necromancia a Ilha de Mann sobre as brumas, e se ele temesse qualquer inimigo, ele faria com que um homem parecesse ser cem, devido á sua arte mágica. Ele nunca teve nenhuma fazenda dos Comons, mas cada um trazia uma certa quantidade de junco verde na Véspera do Solstício de Verão, para um local chamado Warfield,64 e para um lugar chamado Man, daí é chamado.”65
Um poema do século XVI diz quase a mesma coisa que está dito acima, e um escritor do século XVII, James Chaloner, repete sentimentos similares em seu ‘A Short Treatise on Isle of Man.’66 Moore, escritor do século XIX, nota que uma fazenda perto de um desses locais onde os pagamentos eram feitos ainda tem uma grande abundância de palha verde nos dias de hoje,67 então, presumivelmente esse foi um costume bem estabelecido, apesar de eu não ter encontrado relatos de primeira mão sobre isso. Em Barrule, Rhys nota que o local era visitado em outras épocas do ano, notavelmente na primeira Segunda feira da colheita, e as provas de oferendas sendo feitas nas localidades também estão em abundância, incluindo pinos e botões.68
Embora parece ter tido confusão, em algumas fontes, se era grama do prado ou junho que era dado, o consenso vota em favor do junco;69 os juncos não são apenas apropriados por causa dos locais onde nascem – perto de água fresca ou salgada – os juncos são associados com outro costume associado com os ritos de Solstício de Verão realizados em seu nome. É a Corte de Tynwald, realizada em uma colina perto da Capela de São João na ilha, onde todos se reúnem para escutar as leis e ordens que são promulgadas. Conforme nos aproximamos da colina, o lugar é cheio de juncos verdes.70
São grandes as associações de Manannan com esse dia – na véspera do festival de São João, o Batista – apenas reforçando as associações do deus com o santo, como notado no texto ‘oferendas para Shony’.71
Conclusão
Enquanto há bastante similaridades com Bealltainn, e provavelmente influências estrangeiras, o Solstício de Verão é certamente um festival. Dentre todas as atividades – as fogueiras, as bênçãos, as procissões, e assim por diante – havia um forte sentido de cuidado com a colheita e a saúde do gado. Nesse ponto do calendário agrícola, as colheitas estariam crescendo fortes, e no próximo mês, começaria a colheita. As semanas vindouras são cruciais para o sucesso da colheita, e assim, era natural não olhar apenas para a plantação da colheita, e sim também para os passos a fim de prevenir desastres. Da mesma forma, com o calendário pastoral, havia cuidado com as vacas, sua fertilização, e então no nascimento dos cordeiros.
Na virada do calendário solar, as pessoas estavam enfrentando um dos períodos mais ocupados em seu ano, assim como o gradual declínio da luz do dia que era importante para a realização de seus trabalhos. As fogueiras podem ser vistas como essa virada do sol, como MacCulloch sugere, mas, mais que tudo, as qualidades protetoras das fogueiras em si são mais enfatizadas. Em primeiro lugar, a Véspera do Solstício de Verão era para a proteção das colheitas; sem muita celebração em termos de abundância imediata, como as celebrações de colheita mais tarde, e Bealltainn era festejado em termos de tornar o verão a estação da ordenha e dos produtos lácteos, a Véspera do Solstício de verão era, por um lado, uma data de muito trabalho, enquanto por outro lado, uma data de pausa no trabalho antes do trabalho de verdade começar.
As semanas vindouras eram de muito trabalho para as famílias, uma vez que os suprimentos do ano passado de batatas, trigo, aveia, cevada e centeio tem diminuído significantemente. Julho era conhecido como ‘Julho Faminto’ ou Iúl na Ghorta, na Irlanda, em referência à isso, e às vezes, medidas desesperadas eram tomadas. Em face à isso, as celebrações do Solstício de Verão davam uma pequena esperança e otimismo.          
Notas do Rodapé

1 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p134.
2 Em Gàidhlig (Gaélico escocês), Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p556.
3 Em Gaeilge (Irlandês), Danaher, The Year in Ireland, 1972, p134.
4 Em Gaelg (Manês), Moore, Folklore of the Isle of Man, 1891, p119.
5 Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p556.
6 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p137.
7 MacCulloch, The Religion of the Ancient Celts, 1911, p257-258.
8 Hutton, Stations of the Sun, 317-318.
9 Hutton, Stations of the Sun, 1996, 319; McNeill, The Silver Branch Volume II, 1959, p86.
10 Hutton, Stations of the Sun, 1996, 319.
11 Em um sentido eclesiástico, o dia santo foi estabelecido no início do século IX, no entanto. Veja, Stokes, The Martyrology of Oengus the Culdee, Félire Oengusso Céli dé, 1905, p142:
“[Junho 24] João o batista real, se
Tu atender diligentemente, na
Eliminação sem desgraça de
João o filho (de Zebedeu) para Efésios.”
12 Hutton, Stations of the Sun, 1996, p312.
13 Hutton, Stations of the Sun, 1996, p312; p319-320.
14 Hutton, Stations of the Sun, 1996, p312.
16 Joyce, A smaller social history of Ancient Ireland, 1906, p123.
17 Hutton, Stations of the Sun, 1996, 312.
18 McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p90.
19 McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p92.
20 Hutton, Stations of the Sun, 1996, p318.
21 De fato, nas partes nortes da Escócia nunca ficava realmente escuro no period do solstício de verão. McNeill descreve o pôr do sol nessas partes como “mais terrível crepúsculo.” McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p89.
22 Gudebread se refere à algum tipo de bom cozido festive tais como bolo seco, doces scones e bannocks de festivais, ou simplesmente uma fatia de pão branco feito por padeiros (que eram considerados muito raros, naquela época). McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p89.
23 McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p91.
24 McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p90.
25 McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p91.
26 Thistelton-Dyer nota que esse era o caso na escolha das fogueiras em Man. Thistelton-Dyer, British Popular Customs, 1911, p316.
27 Ibid.
28 Napier, Folk Lore, ou, Superstitious Beliefs in the West of Scotland Within this Century, 1879, p117; McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p89.
29 Hutton, Stations of the Sun, 1996, p318.
30 Spence, Shetland Folklore, 1899, p90; Napier, Folk Lore, ou, Superstitious Beliefs in the West of Scotland Within this Century, 1879, p117; McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p91.
33 McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p88.
34 Carmichael, Ortha nan Gàidheal: Carmina Gadelica Volume II, 1900, p101. Charm 167.
35 Ibid.
36 Ibid.
37 Evans, Irish Folk Ways, 1957, p263-264.
38 Evans, Irish Folk Ways, 1957, p264.
39 Ó Súillebháin, Irish Folk Custom and Belief, 1967, p71.
40 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p145.
41 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p134-136.
42 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p138.
43 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p139.
44 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p142.
45 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p151-152.
46 Ibid.
47 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p145.
48 Wilde, Ancient Legends, Mystic Charms, and Superstitions of Ireland, 1887, p214-215.
49 Ó hÓgáin, Irish Superstitions, 1995, ...
50 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p147.
51 Hedderman, Glimpses of my Life in Arran, 1917, p95.
52 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p147.
53 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p135-136.
54 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p145.
55 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p146.
56 Dames, Mythic Ireland, 1992, p63-64.
57 Veja 'Mannanaan Mac Lir' em Journal of the Cork Historical and Archaeological Society, ii, 1896, p366-367. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p153; Dames, Mythic Ireland, 1992, p63-64.
58 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p144.
59 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p145.
60 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p142.
61 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p147-148.
62 Ó Súillebháin, Irish Folk Custom and Belief, 1967, p71.
63 Train, History of the Isle of Man Vol II, 1845, p120. Veja também Thistelton-Dyer, British Popular Customs, 1911, p316.
64 Agora é conhecido como Barrule do Sul. Moore, The Folklore of the Isle of Man, 1891, p5-6.
65 The Supposed True Chronicle, originalmente do século XVI, encontrado em Parr, An Abstract of the Laws, Customs and Ordnances of the Isle of Man, 1867, p6.
66 (1656) Refeito in 1863, veja a edição online.
69 MacQuarrie, The Waves of Manannán, 1997, p294.
70 Parr, An Abstract of the Laws, Customs and Ordnances of the Isle of Man, 1867, p11; Chaloner, A Short Treatise of the Isle of Man Digested into Six Chapters (1656) 1863, p30.
71 Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p590-591.
72 Danaher, The Year in Ireland, 1972, p165.