sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Histórias


 Para o 15° dia, o tema é ‘Histórias’. No passado das Ilhas Gaélicas, como todos sabem, os sacerdotes não escreviam nada, tudo era passado de forma oral. Mas se era mesmo assim, como então saberíamos dos mitos e das lendas desses antigos povos? Simples, tudo foi passado oralmente até uma certa época, quando os monges e até mesmo alguns bardos começaram a escrever suas lendas e mitos.

 Como em sempre digo, quando se conta uma história, a magia dela é despertada – e é por isso que recontamos mitos e lendas dentro de nossos rituais, para trazer aquela magia para a nossa cerimônia. Hoje, como o tema é História, proponho algo diferente, assim como farei com o tema sobre Poesias. Postarei uma história, uma lenda da Escócia colhida por J. F. Campbell. Leia a história atentamente e depois reflita. No final, escreverei alguns comentários.

IV.
A DONZELA DO MAR.
De John Mackenzie, pescador, próximo à Inverary.
 Existia um pobre e velho pescador que nesse ano, não estava conseguindo muito peixe. Em um de seus dias, quando estava pescando, surgiu uma donzela do mar em seu bote e ela lhe perguntou se ele estava conseguindo peixes. O velho respondeu que não. “Que recompença você me daria para eu lhe mandar uma abundância de peixes?” “Ai!” disse o velho, “eu não tenho muitas coisas disponíveis.” “Você me daria o primeiro filho que tens?” disse ela. “Isto era o que eu lhe daria, se eu tivesse um filho; eu não tenho, e nunca terei um filho meu,” disse ele, “eu e minha esposa estamos muito velhos.” “Diga tudo o que tens.” “Eu tenho uma velha égua, um velho cão, eu mesmo e minha esposa. Essas são todas as criaturas do grande mundo que são minhas.” “Aqui estão, então, três grãos para ti que deverás dar para sua esposa essa noite, três outros para o cão, três outros para a égua e essas três você deverá plantar em sua casa, e no seu devido tempo, tua esposa terá três filhos, tua égua terá três potros, teu cachorro terá três filhotes e crescerá três árvores atrás de sua casa, e essas árvores serão um sinal para quando um dos filhos morrer, uma das árvores irá murchar. Agora vá para casa, e lembre-se de mim quando seu filho tiver três anos de idade, e você terá uma abundância de peixes depois disso.” Tudo aconteceu como a donzela do mar disse, e o pescador tinha abundância de peixes, mas conforme o fim dos três anos se aproximava, o velho pescador ficava triste e com o coração pesado, enquanto falhava em cada dia que passava. No homônimo do dia, ele foi pescar como era costume, porém não levou seu filho com ele.
 A donzela do mar surgiu em seu bote e perguntou, “Não trouxestes teu filho para mim?” “Ai! Eu não o trouxe. Esqueci que esse era o dia.” “Sim! Sim! Então,” disse a donzela do mar, “terás mais quatro anos, pois será mais fácil para ti deixa-lo. Ele terá que ser dessa idade,” e ela levantou um vigoroso e grande bebê. “Seu filho é tão bom quanto esse?” Ele foi para casa cheio de alegria e prazer, pois ele ainda teria outros quatro anos com seu filho. Ele continuou pescando e pegando muitos peixes, mas no fim dos próximos quatro anos, lágrimas e dor o atacaram, e ele não comia, não andava, e sua esposa não imaginava o que estava o deixando tão triste assim. Dessa vez ele não soube o que fazer, mas ele decidiu que não levaria seu filho dessa vez. Ele foi pescar como costumava fazer, e a donzela do mar surgiu em seu barco e perguntou, “Não trouxestes teu filho para mim?” “Ai! Eu o esqueci dessa vez também,” disse o velho homem. “Vá para casa então,” disse a donzela do mar, “e no fim de sete anos, terás certeza que se lembrará de mim, mas então não será mais fácil para ti deixa-lo, porém terá peixes como tinha antes.”
 O velho homem foi para casa cheio de alegria, ele teria mais sete anos com seu filho, e antes dos sete anos passarem, o velho homem acharia que estaria morto e que não veria mais a donzela do mar. Mas não importou, pois o fim daqueles sete anos também estava perto, e com isso, o homem estava sem cuidado e problema. Ele não descansava nem dia nem noite. O filho mais velho perguntou um dia se algo estava o perturbando. O velho homem disse que alguém estava, mas que não pertencia nem a ele e nem a mais ninguém. O rapaz disse que precisava saber quem era. Seu pai lhe contou a história entre ele e a donzela do mar. “Não deixe isso lhe dar problemas,” disse o filho, “Eu não irei me opor contra você.” “Não irás, você não deve ir, meu filho, e eu não terei peixe para sempre.” “Se você não me deixar ir com você, vou até o ferreiro e pedirei para me fazer uma grande e forte espada, e irei para o fim do destino.” Seu pai foi até o ferreiro, e o ferreiro lhe fez uma valente espada. Seu pai foi para casa com a espada. O rapaz a pegou e a balançou uma ou duas vezes, fazendo a espada se quebrar em uma centena de lascas. Ele pediu para seu pai ir novamente ao ferreiro e pegar outra espada que fosse duas vezes mais pesada; assim fez seu pai, e aconteceu a mesma coisa com a próxima espada – ela se quebrou em duas partes. O velho homem voltou ao ferreiro, e o ferreiro lhe fez uma grande espada, como nunca tinha feito antes. “Há uma espada para você,” disse o ferreiro, “e o punho que irá segurá-la precisa ser bom.” O velho homem deu a espada para seu filho, que deu um ou dos golpes. “Essa servirá,” disse ele, “está na hora de eu seguir meu caminho.” Na manhã seguinte ele colocou uma sela no cavalo preto que a égua teve, colocou o mundo debaixo de sua cabeça,1 e seu cachorro preto ao seu lado. Quando andou um pouco, caiu com a carcaça de uma ovelha ao lado da estrada. Na carniça estava um grande cão, um falcão e uma lontra. Ele desceu do cavalo e dividiu a carcaça entre os três. Três terços para o cão, dois terços para a lontra e um terço para o falcão. “Por isso,” disse o cão, “se a rapidez dos pés ou a agudeza dos dentes lhe derem ajuda, lembre-se de mim, e eu estarei ao seu lado.” A lontra disse, “Se a natação dos pés em uma poça afrouxar, lembre-se de mim, e eu estarei do seu lado.” O falcão disse, “se a dificuldade vier sobre ti, onde a rapidez da asa ou a curva da garra for boa, lembre-se de mim, e eu estarei ao seu lado.” Nisso, ele seguiu seu caminho até chegar na casa de um rei, tendo como serviço pastorear, e seus salários seriam de acordo com o leite do gado. Ele foi embora com o gado, e estes não pastaram muito. Quando entardeceu, ele os levou para casa, mas não tinham muito leite pois não pastaram muito, e sua carne e bebida duraria aquela noite.
 No dia seguinte, ele foi mais longe com o gado, e por fim, chegou a um local excessivamente gramado, em um vale verde que nunca tinha visto antes.
 Na hora em que ele foi atrás do gado para leva-los para casa, ele viu um grande gigante vindo com sua espada na mão. “HIU! HAU! HOGARAICH!!!” disse o gigante. “Há muito meus dentes se enferrujam procurando sua carne. O gado é meu, eles estão em minha direção, e você é um homem morto.” “Eu não diria isso,” disse o pastor, “você não sabe, mas deve ser mais fácil dizer do que fazer.”
 Então, eles começaram a brigar. Ele viu que estava longe de seu amigo, e próximo de seu inimigo. Ele sacou a grande e ampla espada, se aproximando do gigante, e na batalha, o cão negro pulou nas costas do gigante. O pastor sacou sua espada e a cabeça caiu do gigante em uma piscadela. Ele pulou no cavalo negro e foi procurar pela casa do gigante, chegando até uma porta que, na pressa que o gigante teve, deixou aberta. O pastor entrou, e naquele lugar havia uma magnífica abundância de dinheiro, e vestes de todos os tipos no guarda-roupa com ouro e prata, e cada coisa era mais bonita que a outra. No meio da noite, ele foi para a casa do rei, mas não levou nada da casa do gigante, e quando o gado foi ordenhado essa noite, havia leite. Ele teve uma boa sensação essa noite, com comida e bebida sem restrição, e o rei estava grandemente satisfeito com o pastor que tinha arrumado. Ele ficou assim por um tempo, mas por fim, não crescia mais grama no vale, e o pastoreio não era tão bom.
 Ele então achou que devesse ir mais além, na terra do gigante, e viu um grande parque de grama. Ele foi até o gado e o levou para o parque.
 Eles ficaram um grande tempo pastando no parque, até que um grande e selvagem gigante chegou cheio de ódio e loucura. “Hiu! Haw! Hoagraich!!!” disse o gigante. “Beber do seu sangue saciará minha sede essa noite.” “Você não sabe,” disse o pastor, “mas é mais fácil dizer do que falar.” E então os dois correram um contra o outro, houvendo o balancer de lâminas! Por fim, parecia que o gigante teve vitória sobre o pastor, mas então ele chamou seu cão, que agarrou o gigante pelo pescoço, e rapidamente o pastor cortou fora sua cabeça.
 Ele foi para casa muito cansado essa noite, mas foi uma surpresa o gado do rei não ter leite. A família inteira estava agradecida por terem arrumado esse pastor.
 Ele ficou pastoreando dessa forma por um tempo, porém, uma noite quando ele foi para casa, ao invés de receber as “boas vindas” de todos e a “boa sorte” da donzela da ordenha, todos estavam chorando e lamentando.
 Ele perguntou qual era a causa do choro. A donzela da ordenha disse que uma grande besta com três cabeças estava no lago, e que ela vinha para pegar alguém todo ano, e dessa vez foi a filha do rei, “e que no meio dia de amanhã, ela irá encontrar a Uile Bheist no lado superior do lago, mas há um grande pretendente que está indo resgatá-la.”
 “Que pretendente é esse?” perguntou o pastor. “Oh, ele é um grande General de armas,” disse a donzela, “e quando matar a fera, ele se casará com a filha do rei, pois o mesmo disse que aquele que salvar sua filha, irá se casar com ela.”
 Mas pela manhã, quando a hora estava chegando, a filha do rei e o herói das armas foram se encontrar com a besta, e então alcançaram a parte superior do lago. Não demorou muito até a besta se mexer no meio do lago, mas quando o general viu o terror daquela besta com três cabeças, ele ficou com medo e correu. A filha do rei ficou com muito medo e tremia, não tendo ninguém para salvá-la. Em um relance ela viu um valente e belo jovem, cavalgando em um cavalo negro, indo em direção onde ela estava. Ele estava maravilhosamente vestido, todo armado, e com seu cachorro negro atrás dele. “Há medo em seu rosto, menina,” disse o jovem. “O que faz aqui?” “Oh! Isso não importa,” disse a filha do rei. “Não tem muito tempo que venho aqui para eventos.” “Eu não disse isso,” disse ele. “Um digno fugiu como você também poderá fazer, e não foi há muito tempo,” disse ela. “Ele é um digno que está na guerra,” disse o jovem. Ele sentou-se ao lado dela, e ele lhe disse que se ele adormecesse, ela teria que acordá-lo para ver a besta saindo do lago. “O que é estimulante para ti?” perguntou ela. “Estimulante para mim seria colocar o anel dourado que está em teu dedo em meu pequeno dedo.” Eles não permaneceram lá muito tempo até ela ver a besta saindo do lago. Ela tirou um anel de seu dedo e o colocou no pequeno dedo do rapaz. Ele levantou-se e foi ao encontro da besta com sua espada e seu cão. Houve arranhões e batidas entre ele e a besta. Uma hora um estava por cima, e outra, estava por baixo, mas por fim, o rapaz cortou um das cabeças da fera. A besta deu um rugido, Raivic, e o filho da terra, Mactalla das rochas (o eco), respondeu ao seu guincho, e a besta então entrou para o lago de ponta a ponta, e em um lampejo ela desapareceu. “Boa sorte e vitória estão lhe seguindo, rapaz!” disse a filha do rei. “Estou salvo por uma noite, mas a besta virá novamente, e para sempre, até as outras duas cabeças caírem.” Ele pegou a cabeça da besta e amarrou com um junco, dizendo a moça para trazer a cabeça com ela amanhã. Ela foi para casa com a cabeça em seus ombros, e o pastor foi para as vacas, porém, o grande General logo viu a filha do rei, e ele lhe disse que a mataria se ela não dissesse que tinha sido ele quem arrancou a cabeça da besta. “Oh!” disse ela, “eu direi isso, quem mais tiraria a cabeça da besta senão você!” Eles foram até a casa do rei, e a cabeça estava nos ombros do General. Havia grande alegria pois a filha do rei voltara para casa sã e salva e o grande capitão estava com a cabeça da besta cheia de sangue em sua mão. Na manhã seguinte, eles seguiram seu caminho e não havia dúvidas que tinha sido aquele herói que salvara a vida da filha do rei.
 Eles chegaram no mesmo lugar, e não demorou muito quando a medonha Uile Bheist saiu do meio do lago e o herói correu como tinha feito ontem, mas também não demorou muito para o rapaz do cavalo negro chegar, com outras vestes. Não importava, ela sabia que era o mesmo rapaz. “Estou feliz em te ver,” disse ela. “Espero que pegue tua grande espada hoje como você fez ontem. Venha e respire.” Não ficaram muito tempo até virem a besta no meio do lago.
 O rapaz sentou-se no lado da filha do rei e lhe disse, “Se eu adormecer antes da besta chegar, me estimule.” “O que é estimulante para ti?” “Estimulante para mim é colocar o brinco que está em tua orelha, na minha.” Não demorou muito quando ele adormeceu e a filha do rei gritou, “Acorde! Acorde!” mas ele não acordava, e então ela pegou o brinco de sua orelha e colocou na orelha do rapaz. Ele então acordou e foi ao encontro da besta, mas lá estava Tloopersteich e Tlaperstich, e ele rugiu, bateu, cortou a besta! Eles ficaram assim por um longo tempo, e no meio da noite, cortou fora a cabeça da besta. Ele a amarrou com um junco e saltou no cavalo negro, indo então pastorear. A filha do rei foi para casa com as cabeças. O General a encontrou e pegou as cabeças com ele, e ele lhe disse que ela teria que dizer que foi ele quem matou a cabeça dessa vez também. “Quem mais cortaria a cabeça senão tu?” disse ela. Eles chegaram até a casa do rei com as cabeças, e então, houve alegria e felicidade. Se o rei estava esperançoso essa noite, ele agora estava certo que esse grande herói tinha salvado sua filha, e não havia dúvidas que a outra cabeça seria tirada da besta na manhã seguinte.
 Na mesma hora da manhã seguinte, os dois seguiram. O oficial fez o mesmo que tinha feito antes. A filha do rei ficou na margem do lago. O herói do cavalo negro veio e sentou-se ao lado dela. Ela acordou o rapaz e colocou outro brinco em sua outra orelha, e ele foi em direção a besta. Mas se a besta tinha duas cabeças nos dias que passaram, esse dia ela estava horrível, mas não importa, ele tiraria a cabeça da besta, e assim fez, mas isso não aconteceu sem uma briga. Ele amarrou a cabeça com um junco, e a menina foi para casa com as cabeças. Quando eles chegaram na casa do rei, todos estavam sorrindo, e o General se casaria com a filha do rei no dia seguinte. O casamento estava acontecendo, e todos no castelo estavam ansiosos para o padre chegar. Quando o padre chegou, ela disse que se casaria com aquele que tirasse as cabeças dos juncos, sem cortar o junco. “Quem tirará as cabeças do junco se não o homem quem a colocou lá?” disse o rei.
 O General tentou, mas ele não conseguia afrouxar, e por fim, todos na casa tentaram tirar as cabeças dos juncos, mas nenhum deles conseguiram. O rei perguntou se havia alguém mais na casa que tentaria tirar as cabeças do junco. As pessoas disseram que o pastor ainda não tinha tentado. Uma palavra foi então enviada ao pastor, e ele não demorou para tirá-las. “Pare um pouco, meu rapaz,” disse a filha do rei, “o homem que cortou as cabeças da besta, tem meu anel e meus dois brincos.” O pastor colocou sua mão em seu bolso e os atirou na mesa. “Você é o homem,” disse a filha do rei. O rei não ficou tão satisfeito quando viu que era um pastor que se casaria com sua filha, e ordenou que ele devesse colocar uma roupa melhor, mas sua filha disse que ele tinha a roupa mais bonita que qualquer um no castelo, e assim aconteceu. O pastor colocou as vestes douradas do gigante, e eles se casaram na mesma noite.
 Agora que estavam casados, tudo estava indo bem. Um dia eles estavam passeando nas bordas do lago e lá surgiu uma besta maravilhosamente mais terrível que a outra, e o levou para dentro do lago, sem medo ou sem permissão. A filha do rei ficou pesarosa, triste e chorando pelo seu marido, e sempre ficava de olho no lago. Ela se encontrou com um velho ferreiro, e ela lhe disse tudo o que tinha acontecido. O ferreiro lhe deu um conselho de espalhar tudo o que fosse bonito no local onde a besta tinha levado seu marido, e assim ela fez. A besta colocou seu nariz para fora e disse, “Boa é tua joalheria, filha do rei.” “Mais bonito do que qualquer joia é o que tu levastes de mim,” disse ela. “Dê-me uma visão de meu marido, e terás uma dessas joias que vê.” A besta o trouxe. “Entregue-o para mim, e terá tudo o que vê,” disse ela. A besta então fez o que ela disse, e o atirou são e salvo na margem do lago.
 Pouco tempo depois disso, quando eles caminhavam nas margens do lago, a mesma besta pegou a filha do rei. Triste estavam todos na cidade essa noite. Seu marido estava pesaroso, triste, chorando e vagando pelas margens do rio, dia e noite. O velho ferreiro o encontrou. O ferreiro lhe disse que não havia outra forma de matar a Uile Bheist se não essa – “Na ilha que está no meio do lago mora Eillid Chaisfhion – a corça de patas brancas, de pernas finas e passo veloz, se você a pegar, saltará uma gralha da corça, e se você pegar a gralha, saltará uma truta da gralha, e há um ovo na boca da truta que nesse ovo está a alma da besta, e se o ovo quebrar, a besta morrerá.”
 Agora, não havia meios de chegar na ilha, pois a besta afundava cada barco e jangada que entrasse no lago. Ele pensou que poderia saltar o estreito com seu cavalo negro, e assim ele fez. O cavalo negro pulou o estreito e o cão negro pulou após. Ele viu a Eillid, e então deixou o cachorro correr atrás dela, mas quando o cachorro chegava em um lado da ilha, a Eillid chegava em outro lado. “Oh! Bom seria agora se o grande cachorro da carcaça estivesse aqui!” Não demorou muito após ele falar e um generoso cachorro apareceu em seu lado e após ele pegar a Eillid, os méritos não foram longos em trazê-la para o chão, mas assim que ele a pegou, uma gralha saiu voando dela. “Agora, seria bom o falcão cinza, dos olhos penetrantes e das asas velozes!” Não demorou muito para ele dizer isso e o falcão apareceu voado atrás da gralha, e não demorou para o falcão colocar a gralha na terra, e assim que a gralha caiu nas margens do lago, uma truta pulou. “Oh, seria bom se a lontra estivesse aqui agora!” Não demorou muito quando ele disse isso, e a lontra saltou no lago, e trouxe a truta, mas não demorou muito para a lontra chegar nas margens e a truta atirar um ovo de sua boca. Ele colocou o ovo debaixo de seu pé. A besta então rugiu e disse, “Não quebre esse ovo, e terá tudo o que pedir.” “Entregarás minha esposa?” E em um piscar de olhos, a esposa dele estava em seu lado. Quando ele segurou a mão de sua esposa, ele deixou seu pé descer sobre o ovo e a besta morreu.
 A besta estava morta agora, e fora de vista. Ela era algo horrível de se ver. Suas três cabeças estavam fora dela, sem dúvida, mas mesmo se estivesse lá, seria cabeças por cima e por baixo dela, com olhos e quinhentos pés. Mas não importava, eles a deixaram lá e foram para casa, e lá, havia prazer e sorrisos na casa do rei aquela noite. E até agora, ele não tinha contado ao rei como tinha matado os gigantes. O rei colocou grande honra sobre ele, e ele era um grande homem com o rei.
 Ele e sua esposa estavam caminhando um dia, quando perceberam um pequeno castelo ao lado do lago em uma floresta, e ele então perguntou à sua esposa quem poderia estar morando lá. Ela disse que ninguém ia para aquele castelo, pois ninguém havia voltado para contar a história.
 “Isso não ficará assim,” disse ele, “essa noite verei quem habita lá.” “Não vá, não vá,” disse ela, “todo homem que entra nesse castelo não volta.” “Seja como agrada,” disse ele. Ele então foi até o castelo. Quando chegou na porta, uma lisonjeira anciã  estava lá. “Todas as saudações e boa sorte para ti, filho do pescador, estou agradecida em lhe ver, grande é sua honra para esse reinado, tu és capaz de entrar – tua vinda está na fama dessa pequena cabana, vá, honre o povo, entre e respire fundo.” Ele entrou, e quando estava caminhando, ela bateu com a Slachdan druidhach nas costas de sua cabeça e ele caiu.
 Essa noite, havia choros no castelo do rei, e na manhã seguinte, havia lamentos na casa do pescador. A árvore estava murchando, e então eles sabiam que o filho mais velho do pescador estava morto, e então, o filho do meio fez uma promessa e um voto: ele iria e saberia onde estava o corpo de seu irmão. Ele colocou uma sela no cavalo negro e seu cão negro ia atrás, pois os três filhos do pescador tinha um cavalo negro e um cão negro, e indo para lá e cá, ele seguiu os passos do seu irmão até chegar na casa do rei.
 Esse irmão era tão parecido com seu irmão mais velho, que a filha do rei achou que fosse seu próprio marido. Ele ficou no castelo, e eles lhe contaram o que tinha acontecido com seu irmão, e para o pequeno castelo da anciã, ele foi. Assim como aconteceu com o irmão mais velho, aconteceu com o filho do meio, e com um golpe da Slachdan druidhach, a anciã o fez cair ao lado de seu irmão.
 Vendo a segunda árvore murchando, o filho mais jovem do pescador disse que agora seus dois irmão estavam mortos, e que ele precisava saber que morte foi sobre eles. Em um cavalo negro ele foi com o cachorro lhe seguindo, chegando até a casa do rei. O rei estava feliz em vê-lo, mas o castelo negro (como é chamado) não o deixou ir. Mas para o castelo ele precisava ir, e então foi até lá. “Boas vindas e boa sorte a ti, filho do pescador: estou agradecida em lhe ver, entre e respire fundo,” disse ela, a anciã. “Na minha frente está você, anciã. Eu não gosto de lisonja do lado de fora das portas, entre e me deixe ouvir seu discurso.” Quando ela entrou e ficou de costas, ele sacou sua espada e cortou fora sua cabeça, mas a espada caiu de sua mão. Rapidamente, a anciã pegou sua cabeça com as mãos e a colocou em seu pescoço como antes. O cão voou na anciã, e bateu no generoso cão com uma vara de magia, e lá ele morreu, mas isso não deixou o jovem mais lento. Para matar a anciã, ele pegou a Slachdan Druidhach, e com um golpe na cabeça, ela caiu no chão em um piscar de olhos. Ele subiu um pouco no castelo e viu seus dois irmãos deitados um ao lado do outro. Ele deu um golpe em cada um com a Slachdan druidhach, e os dois ficaram de pé, vendo também, os saques no castelo! Ouro e prata, cada coisa era mais bonita que a outra no castelo da anciã. Eles voltaram para casa do rei e houve muita alegria! O rei estava envelhecendo. O filho mais velho do pescador foi corado rei, e o par de irmãos permaneceram um dia e um ano na casa do rei, e então os dois seguiram sua jornada para casa com ouro e prata da anciã, e com muitas outras coisas que o rei havia lhes dado, e se estes não morreram desde então, estão vivos até hoje.
 
 Escrito em Abril de 1850, por Hector Urquhart, do ditado de John Mackenzie, pescador, Kenmore, perto de Inverary, que diz ter aprendido esse conto de um velho homem em Lorn muitos anos atrás. Ele viveu por trinta e seis anos em. Ele contou a história fluentemente no início, mas depois, a contou devagar.
Notas de Rodapé:
1. Pegar o mundo para seu travesseiro. -
 Lendo a história toda, podemos ver que se trata de um contrato com seres sobrenaturais, mas, o que essa história passou a você? Vimos na história que contratos com seres sobrenaturais podem ser perigosos – especialmente se você não cumprir o proposto. Para os que não entenderam a história, o fim da história não teve nada a ver com o começo, e que “a donzela do mar não teve participação no fim”. Ilusão. Todo o desenrolar da história foi causado pela donzela do Mar. A história começa com ela, e a história termina com ela, com o papel da Anciã. Como o pescador não entregou seus filhos, a donzela do Mar busca por ele, na forma da Uile Bheist, ou a Besta da Água, e apesar das tentativas, ela falhou, o que normalmente não acontece muito quando o assunto são Seres do Outro Mundo.

 Sobre o conto, foi colhido por J. F. Campbell de um pescador perto de Inverary. No livro, ‘PopularTales in the West Highlands’ (Volume 1), o autor também dá 4 versões diferentes deste mesmo conto, e uma versão em Gàidhlig (Gaélico Escocês) do conto original, porém, eu não coloquei aqui, mas posso colocar em futuros posts. Espero que tenham tido uma boa leitura e aprendido muito, como eu.   

Meditação


 Para o 14° dia, o tema é Meditação. Primeiramente, meditação basicamente significa contemplação e concentração. Estudos mostram que a meditação é tão antiga quanto o próprio mundo, e, através da nossa ‘visão druídica’ é através da meditação que recebemos as mensagens dos Deuses. A meditação pode ser feita completamente em silêncio ou também repetindo cantos, nomes e/ou frases – mas em ambos os casos, o objetivo é o mesmo: atingir um estado de transe para que a Divindade possa falar conosco ou através de nós.

 Não há relatos de meditação no sentido original da palavra dentro do ‘mundo Celta’, porém, a imagem no caldeirão de Gundestrup mostra, provavelmente, o deus Cernnunos em uma posição de meditação. Outras formas também que poderiam ser denominadas ‘meditações’ dentro de um contexto Celta poderia ser a forma como um fili recebe a visão sagrada, ou o imbas forosnai. Na Escócia, os videntes se cobriam com pele de touro para esperar a visão – estes por si só também não poderiam ser chamados de ‘meditação’?      
O Caldeirão de Gundestrup
 

Yule/Hogmanay

Fonte: Site ‘Tairis’, Yule/Hogmanay – Part One, disponível em: <http://www.tairis.co.uk/festivals/yulehogmanay-part-1/>. e Yule/Hogmanay – Part Two, disponível em: <http://www.tairis.co.uk/festivals/yulehogmanay-part-two/>. All content by Annie Loughlin ©2015-2016.  

Yule/Hogmanay

PARTE I

                Enquanto que o Ano Novo na Irlanda parece nunca ter sido um grande foco no calendário festivo,1 o entusiasmo para essa época do ano na Escócia é indiscutível. Apesar de nunca ter sido considerado um Dia Trimestral como Bealltainn, Lùnastal, Samhainn e Là Fhèill Brìghde, o Hogmanay – como o Ano Novo é conhecido na Escócia – é bastante tratado como tal, em termos das muitas tradições associadas com o dia.2 O Hogmanay não apenas engloba o Ano Novo (como é conhecido desde o ano 1600), ele anuncia uma época de purificação, divinação, banquetes e bebedeiras, fantasias e jogos.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Inspiração


 Para o 13° dia, o tema é ‘Inspiração’. Para começar, um erro que muitas pessoas fazem é dizer que a inspiração é o dito imbas forosnai. Tal habilidade realizada pelos filid e druí da Irlanda tem o objetivo de trazer respostas, e não de inspirar, embora a visão que o vidente receba possa servir como fonte de inspiração, daí o equívoco. Outras técnicas de clarividência são o dichetal di chennaib e o teinm laida.

 Resumidamente, o vidente que quiser buscar respostas para determinadas perguntas, podem realizar o imbas forosnai através de uma oferta: ele mastiga carne crua de cão, gato ou porco e então a coloca na “laje atrás da porta”, cantando um encantamento sobre a carne e a oferece aos Deuses, chamando-os. O vidente então canta sobre as duas palmas de suas mãos, e então as coloca no rosto antes de ir dormir. Uma pessoa então vigia a pessoa, para impedir quaisquer perturbações. Na manhã seguinte, o vidente estará com as respostas.

O poço de St. Brigit, em Kildare
 Não vou prolongar o assunto sobre o imbas, pois fugiria do tema. Para terminar, gostaria de citar algumas associações com a Inspiração. Existiam por toda a Irlanda e Escócia certos poços que eram tidos como ‘Poços de Inspiração’, onde acreditava-se que conferia inspiração aos poetas. Salmões de rios sagrados, como o Boyne, também conferiam inspiração, assim como as avelãs. Há uma certa poesia, de escritor anônimo, que cita três caldeirões de inspiração – uma espécie de “chacras Céltico”. Estes caldeirões nasciam em cada pessoa e em diferentes partes do corpo, em diferentes posições. Se fossem ativados – por alegria, dor, tristeza, e outros sentimentos, segundo o “autor” – estes conferiam inspiração divina. Amergin, os três Filhos de Turenn, Ogma, Ecne e Brigit eram deuses que davam inspiração àqueles que os procuravam, principalmente Brigit, que era vista como a “Mãe dos Poetas”.    

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A Roda do Ano


 O assunto do 12° dia é a ‘Roda do Ano’. Nesse texto, vou falar sobre os principais festivais que acontece no decorrer do ano. Não vou entrar em muitos detalhes em cada um dos festivais para não ficar um texto cansativo – e chato. A Roda do Ano é uma das formas de nós podermos nos conectar com os poderes e as mudanças da Natureza ao nosso redor, é uma das forma de nós celebrarmos os Deuses e honrá-los em determinadas épocas. Mas daí surge aquela velha história: celebrar pelo Sul ou pelo Norte? Isso vai de cada um. O objetivo do texto não é esse. Particularmente, sigo a chamada ‘Roda Mista’ que consiste basicamente em: celebro todos os festivais de acordo com o Hemisfério Norte, e as estações do ano celebro normalmente de acordo com a Natureza aqui. Por exemplo, quando chega o verão, faço o reconhecimento, dando boas-vindas à estação e várias oferendas aos espíritos dessa Terra.

 O ano começa em Samhain. Esta é a data oficial do ano novo Celta, celebrada nas vésperas do dia 1 de Novembro. Neste momento, a natureza está definhando, e o que ficou não foi colhido no Outono, permanece nos campos, pois é de Cailleach. Esta é a hora em que o mundo dos vivos e dos mortos ficam mais próximos, e o País das Fadas está aberto e todos podem transitar livremente. É a hora de lembrarmos dos nossos ancestrais, daqueles que já se foram. Para comemorar o Samhain, tradicionalmente é deixado um prato de comida do lado de fora para os mortos. As tradicionais ‘lanternas de Halloween’ feitas de abóbora (que originalmente eram feitas de nabo) são colocadas nas janelas para afastar os maus espíritos – que podem estar a solta nessa noite mágica.

 Em sua decadência, a natureza morre completamente no Inverno, onde então acontece o festival chamado Mean Geimridh ou Meio de Inverno. Em algumas áreas da Escócia onde a influência nórdica é grande, o festival também é conhecido como Yule e tem uma duração muito longa, se dividindo em outros “sub-festivais”. Nessa data, os mortos também vêm visitar seus entes queridos e sentar-se com eles de frente ao fogo. É uma época onde a família se senta em frente à lareira para a contar histórias, mitos, lendas e feitos dos seus ancestrais. É também a época em que o Novo Sol nasceu, simbolizado pelo jovem deus Angus. A partir daí, as noites ficam mais curtas e consequentemente, os dias mais longos, pois o Sol está ganhando forças. Tradicionalmente, na Escócia, as famílias saiam para procurar uma tora para queimar a noite inteira.

 Conforme os dias vão ficando mais longos e as campânulas começam a florescer, sem dúvidas chega a hora do festival da deusa Brigit, ou Imbolc. Este é o festival onde se comemora a chegada da deusa Bride, na tradição escocesa. A partir daqui, os rios começam a descongelar, algumas plantas começam a florescer. A neve está indo embora, mas o frio ainda é um problema. Tochas são acesas em honra à Brigit. As atividades mais conhecidas nessa época do ano é a confecção da Boneca de Brigit e da Cruz de Brigit. Pedaços de panos são amarrados em árvores para Brigit passar, tocar neles e enchê-los com seu poder de cura. Esse é um festival exclusivamente feminino, pois a maioria de suas atividades são atividades caseiras – reservadas apenas às mulheres. Para comemorar a data, acenda uma vela ou fogueira em honra a Brigit.

 O inverno já se foi e a primavera finalmente chega. Nessa data, na Escócia, se celebra o Latha na Cailleach. É uma data onde Bride triunfa sobre Cailleach, e esta desiste definitivamente de prolongar o inverno. Enquanto o Imbolc já é uma festa centrada principalmente em torno de Brigit, alguns neo-pagãos decidem honrar exclusivamente Cailleach nessa data, despedindo-se dela e do Inverno.

 Os dias vão ficando mais quentes e mais longos, e quando o pilriteiro começa a florescer, definitivamente Beltane chegou. É uma das épocas mais mágicas do ano – e também perigosas, uma vez que as Fadas estão à solta nesse dia, podendo fazer tudo que desejarem, como roubar seu gado, azedar seu leite e pregar outras peças em você. Para proteger-se delas, é tradicional a confecção das cruzes de sorveira, amarradas com lã vermelha. Dentro de casa, a lareira é apagada somente nessa única data do ano, e acendida novamente a partir das brasas do fogo comunitário. As donzelas banham suas faces no orvalho da manhã dessa data para garantir a beleza e a juventude. É costume enfeitar-se com folhagens e flores para estar em sintonia com a natureza. Poços mágicos também são visitados nessa data, e o culto à deuses do fogo também acontecem.

 Conforme os dias vão ficando ainda mais quentes, chega a vez do Verão. Acontece então o festival de Fheill Sheathainn como é conhecido na Escócia. Cristianizado como o ‘Dia de São João’, grandes fogueira são acesas nessa época do Ano. É o festival de todas as divindades Solares e Reis e Rainhas Fadas. Nessa data mágica, acredita-se que todas as ervas estão com um poder mágico e mais potentes – crença reminiscente do mito de Miach e Airmid, pois os deuses das ervas e da Cura também são celebrados nesse dia. Na Irlanda, é o festival de Áine, enquanto na Ilha de Mann, é a festa de Manannán.

 Uma vez que tudo que tem seu ápice tem que diminuir, acontece também com o Verão, e a partir desse dia, os dias vão ficando mais curtos e as noites mais longas. Chega então a época do Lughnassadh, ou a Festa de Lugh. Alguns pagãos celebram exclusivamente Lugh nessa data, e sua vitória sobre Crom Dubh, ganhando para o povo as Colheitas. Esta é a Primeira Colheita, e é a época para agradecermos às deusas da Terra, principalmente à Tailtiu, mãe de Lugh. Um dos costumes tradicionais desse dia é a colheita de frutas, principalmente o mirtilo. Pessoas enterram flores amarelas em altas colinas para anunciar oficialmente que o verão acabou.

 Conforme os dias vão ficando mais curtos, o Outono dá suas graças. Nessa data, acontece o Mean Fomhair, ou o Festival de Outono, conhecido ‘cristianizadamente’ como O Feriado de Miguel. Como é a segunda colheita, é um período de grande fartura. Na Irlanda, é conhecido como a temporada de caça. Alguns dos costumes tradicionais é a corrida de cavalos, um banquete bem abundante e a colheita de cenouras – e dar as outras pessoas cenouras como presentes. Conforme o Outono vai embora, chega novamente o Samhain. O ano acaba, e outro se inicia. É o Ciclo da Vida, o Nascimento, Vida e Morte da Natureza. O Ciclo que não pode parar. Era assim e assim será para sempre. Abençoados sejam vocês pelos Ciclos da Vida.           

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ritual


O 10º dia eu tinha pulado e escrito antes do 9°. Me desculpem :( Mas aqui está ele: Espíritos da Natureza.
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 Para o 11º dia, o tema é ‘Ritual’. Para falar sobre esse tema, vou explicar passo a passo de como um ritual druídico Reconstrucionista acontece. Mas antes de explicar passo a passo, vamos começar por definições. Afinal, o que é um Ritual? Você provavelmente já está cansado de saber que os Celtas não escreviam nada de suas crenças. Devido a isso, é impossível saber como os antigos sacerdotes celtas faziam seus rituais. Nada sobreviveu, uma grande parte dos conhecimentos sobre eles se perderam. A palavra ‘ritual’ tem muitos significados, porém, a que mais define o assunto de hoje é o seguinte: ‘conjunto de ações, invocações e objetos que são unidos em determinadas circunstâncias.’ Um ritual invoca e/ou agradece a presença de alguma entidade.

 No início de cada ritual, é feito um relaxamento coletivo. Em seguida, é necessário um reconhecimento da terra que pisamos. Esta é a primeira parte de cada ritual. Você notará que, diferente dos rituais wiccanos, nós não traçamos ‘círculos mágicos’ para tornar o local sagrado, pois para nós, todo lugar é sagrado. Apenas o reconhecemos como sagrado. Nesta etapa, é feita uma invocação de reconhecimento e uma oferenda à alguma divindade ctônica que possa estar relacionada ao propósito do ritual, como Ériu, Banba e Fótla, a tríplice de irmãs que deram seu nome á Irlanda, Tlachta, a deusa-terra filha do Senhor da Roda Solar, Tailtiu, que morreu após limpar uma planície para torna-la propícia ao cultivo, Momu a deusa-mãe escocesa, e muitas outras. Após essa etapa, chega a hora da Concentração e Fusão. Normalmente, muitos grupos usam a tão conhecida ‘Meditação da Árvore’. Mas qual é o objetivo disso? Simples: se conectar com as forças da Terra e do lugar. Outros afirmam que essa é a hora de nos conectarmos com os três mundos – terra, céu e mar – mas eu gosto de deixar “essa parte” para depois.

 Depois disso, uma parte comum a maioria das religiões atuais, como no Romuva, por exemplo. É a hora da ignição de uma fogueira sagrada. A maioria das pessoas que não podem acender uma fogueira, ou fazem os ritos dentro de suas casas, acendem uma vela ou uma chama dentro de um caldeirão. Para os mais afortunados, ainda usa-se também a lareira, se esta funcionar como altar. Neste momento, é invocada a deusa guardiã do Fogo, normalmente Bright. É invocada a presença dela para tender ao fogo e facilitar a comunicação com os Deuses. Deposita-se também as oferendas nesse Fogo Sagrado, que será enviada ao Outro Mundo, o mundo dos Deuses.

 Continuando, é chegada a hora de invocar o guardião dos Portais, que normalmente é Manannan. Este é o Deus que transita facilmente entre esse e o Outro Mundo. Tradicionalmente, o deus invocado para esse propósito deve ser de sexo oposto à divindade protetora do fogo sagrado, a fim de estabelecer equilíbrio. Se você invocou Brigit como a protetora do fogo, Manannán deve ser invocado nessa parte. Se você invocou Cliodna para tender os portais, invoca-se Bodb Dearg, por exemplo, também uma divindade ígnea. Após a invocação da divindade, abre-se os portais para os Três Mundos – mais uma vez, terra, céu e mar. Outros apenas fazem o reconhecimento dos Três Mundos e omitem essa parte do Ritual, acreditando que o Fogo já “sirva” como o Portal para as Oferendas e “ponte” entre esse e o Outro Mundo. Consequentemente, o deus guardião dos Portais não é invocado.

 Depois, faz-se a invocação das Tríades – ancestrais, espíritos da natureza e deuses. Outros, como eu, fazem apenas um reconhecimento e uma oferenda. Então, é hora da invocação da(s) divindade(s) “principais” do ritual, a quem o rito está sendo dirigido. Após a invocação, faz-se oferendas. Cada membro do grupo vai diante do fogo e deposita lá sua oferenda. Honra-se a divindade através de poesias, cantos e danças. Após as oferendas, faz-se a leitura dos presságios para saber se nossas oferendas foram aceitas pelas divindades. Esta parte cabe ao fáith – vidente – do grupo. Se a oferenda não for aceita, faz-se novamente. Se for aceita, segue o ritual.

 Se as oferendas foram bem aceitas, esta é a parte dos pedidos e das orações. Mais uma vez, os membros do grupo ficam diante do fogo, enquanto fazem seus pedidos através de orações, poesias e até mesmo mais oferendas. Após isso, normalmente uma taça com alguma bebida, geralmente o hidromel, é passado para todos os presentes, a fim de receberem as bênçãos da divindade. Essa também é a parte para fazer qualquer outra atividade, como lançar feitiços, confeccionar objetos mágicos e ritos de passagem. Após isso, é feita uma afirmação, como ‘Os Deuses nos abençoaram mais uma vez’.

  Depois, quando tudo já estiver sido feito, agradece então a todas as divindades invocadas. Nós não as mandamos embora, ou nos despedimos delas. É feita apenas uma oração de agradecimento, com a frase, ‘Vá se precisar, fique se desejar’. Reverte-se então a meditação da árvore, e por último, faz-se uma última libação à Terra, e o rito termina. Após isso, tradicionalmente segue-se um banquete. Os membros dos grupos trocam suas experiências durante o rito, conversam, riam e até mesmo fazem críticas – boas ou ruins. E por fim, citando Isaac Bonewits da ADF, “os Deuses estão nos observando, então, vamos dar à Eles um bom show”. Abençoados sejam teus ritos, assim como são os meus. 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ancestrais


9°. dia - Ancestrais
 Dando continuidade aos 30 dias druídicos, o tema de hoje é ‘Ancestrais’. De uma forma resumida, ancestrais são aqueles que já viveram aqui antes de nós, que se reproduziram, e enfim chegamos nós. No Druidismo, é muito importante o culto aos ancestrais, apenas para começar, vocês lhes devem o fato de estar vivo! Além disso, estes são detentores de grandes conhecimentos, pois já viveram muito mais que nós. Eu gosto de usar a classificação de três tipos de ancestrais: os de sangue, os de fé e os de terra. Seus ancestrais de sangue são seus avós, bisavós, tatatara..vós, e assim por diante. Os de fé, se você segue o Druidismo, são aqueles que já viveram há muito, muito tempo. Estes eram os antigos Druidas (e você pode aprender muito com eles); por último, os ancestrais de Terra, que são aqueles que embora não tenham nenhum vínculo com você, foram aqueles que já viveram na mesma terra que hoje você vive, e você também lhes deve respeito. Antes de começar a falar sobre os Ancestrais, é impossível não falar também sobre Morte e Pós Vida.

 É indiscutível o fato de que os Celtas acreditavam em reencarnação! Para eles – assim como para a maioria das religiões pagãs – a alma não morre: ela vai passando, passando, por várias vidas e formas, pois para nós, viver é uma grande dádiva dos deuses! Podemos ver isso claramente em alguns achados arqueológicos, “tumbas Celtas” e até mesmo na mitologia, como no mito de Étáin Echraide por exemplo, onde a ciumenta esposa de Midhir, Fuamách, tenta várias vezes tirar Étáin desse mundo, mas ela sempre volta de uma forma diferente, ainda mais deslumbrante que antes. No Conto de Tuan mac Carril, há um outro exemplo ainda mais interessante! No início, este era um homem; o homem envelheceu, e se transforma em um animal. Ele vive então todas as emoções do animal, uma vida inteira, envelhece, e se transforma em outro animal, e assim acontece durante toda a história.

 Em antigas tribos Celtas, reconhecer sua ancestralidade era algo importantíssimo! Algumas tribos alegavam ser descendentes diretos de próprias divindades ou até mesmo de árvores!

 E onde vem a pós vida nisso tudo? Para onde iremos, segundo os Celtas? Há um paraíso como na Bíblia? Sim, há um paraíso. Ou melhor, vários! Podemos ver nos mitos que existiam Ilhas além do Oeste, muito além onde o Sol deitava. São as ditas ‘Ilhas Afortunadas’, as Ilhas de Manannán mac Lir. Para os Celtas, quando morríamos, era para lá que íamos, onde descansávamos para retornar novamente para esse mundo. Outras crenças afirmam que os mortos iam para o País das Fadas, debaixo das Terras – ou as Colinas Ocas – onde acreditava-se ficarem festejando até o fim dos tempos. Em determinadas partes do ano, portais para estes “Outros Mundos” ficam abertos, e qualquer um pode entrar ou sair. Tal época é a chamada “parte escura do ano” – Samhain e Mean Geimridh (o inverno). A crença de que os mortos vinham visitar seus parentes na parte escura do ano não é algo exclusivo da tradição Celta, aparecendo também na religião “Romuva” – o paganismo lituano, e no Asatrú – o paganismo nórdico.

A Rocha do Touro. Acredita-se que por
aquele portal passam os mortos antes de seguirem para
o Outromundo.
 Mas e então, vamos para essas ilhas para pagar nossos “pecados”? Não, até por que não há “pecados” no Druidismo. Acreditamos que tudo que fazemos de ruim para nós mesmos, para o próximo ou para a comunidade pagamos aqui mesmo. A própria vida em si já cobra. Porém, há alguns que acreditam que as pessoas que sempre fizeram o mal aqui, passarão pela casa de Donn, o Negro, o terrível deus da Morte. Essa casa é a Tech Duinn, localizada na Irlanda perto da dita “Rocha do Touro”.

 Com isso em mente, honre sua terra, honre sua tribo, honre sua família, sua casa, e principalmente, seus Ancestrais.      

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Buggane da Cachoeira de Glen Meay

Conto extraído do livro de Sophia Morrison, Manx Fairy Tales e traduzido por mim. (Logo logo vou disponibilizar o livro completo traduzido!) Boa leitura.
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O BUGGANE DA CACHOEIRA DE GLEN MEAY

Havia uma mulher que vivia perto de Glen Meay, e ela era a esposa de um decente, quieto e esforçado homem do local. Lá não morava mais ninguém, a não ser ela e o homem, e tinham um bom e pequeno chalé e tinham um cercado no qual eles tinham vacas, ovelhas e cresciam batatas suficientes para eles no inverno. O homem ia pescar quando não tinha muito o que fazer na terra. Mas apesar de tudo isso, eles não eram confortáveis, pois o homem trabalhava muito na fazenda e na pescaria, e sua esposa era bastante preguiçosa.

Era mais comum encontrar a mulher deitada na cama pela manhã do que sentada ordenhando vacas, na verdade, os vizinhos diziam que ela usava mais cobertores do que sapatos. Muitos dias, seu marido saia cedo faminto como um falcão, pois não tinha uma refeição ou um cear para ele. Uma manhã, quando ele chegou de seu trabalho, não havia fogo – sua esposa estava dormindo. Bem, meu pobre homem não tinha nada a fazer a não ser preparar seu próprio café da manhã e voltar para seu trabalho. Quando ele voltou para o jantar, aconteceu a mesma coisa.

‘A preguiça dela é uma má sorte,’ ele pensou, ‘isso não é conforto para um pobre homem, mas eu farei uma travessia com ela.’

Com isso, ele pegou um feixe de palha e colocou nas duas janelas da casa. Então, voltou ao seu trabalho.

O sol não tinha ido ainda quando ele voltou para casa no entardecer. Sua esposa estava deitada na cama, esperando pelo dia.

‘Aw, mulher,’ ele gritou, ‘se apresse e você verá o sol nascer no oeste.’

A esposa pulou da cama e correu para a porta quando o sol estava indo embora, e a visão a aterrorizou. Todo céu parecia como fogo, e ela pensou que o fim do mundo estava próximo. Na manhã seguinte aconteceu tudo de novo, e ele disse à ela:

‘Kirry, é o Buggane, sem dúvidas, que irá lhe levar esses dias se você não corrigir os caminhos dele!’

‘Qual Buggane?’ disse ela.

‘Não me faça perguntas,’ disse ele, ‘e eu não lhe contarei mentiras. Mas é o companheiro grande, negro, peludo que fica debaixo de Spooyt Vooar que falo.’  

‘Má é a língua que tu tens, homem; não me assustará com teus Bugganes,’ gritou a mulher.

Ao entardecer, o homem deixou a casa para ir pescar. Assim que ele se foi, a mulher teve uma ideia de assar pães, pois ela só tinha restos para o café da manhã. Os Pequenos Companheiros não podem ficar em caminhos preguiçosos, e assar pães após o por do sol é algo que eles não toleram. Ela que fez isso encontrará a vingança deles – é certo que algo será levado por eles, raramente pior do que algum animal do gado. Bem, a mulher foi assar pão de cevada e bolo de farinha. Primeiro, ela saiu para pegar tojo para colocar sobre a grelha, e deslizando a maçaneta para entrar, algum dos Vizinhos a pegaria para chorar por sua vergonha em fazer bolo após o por do sol. Ela pegou alguns ingredientes no barril e colocou na mesa redonda, colocando sal e água nela, e então, ela amassou os ingredientes formando um bolo fino com suas mãos. Mas ela era apenas uma cozinheira pobre e medíocre, aquela do tipo que usa uma faca para deixar o bolo redondo. Ela virou o bolo duas vezes, e limpou a grelha com uma asa de ganso branco preparando-a para o bolo que ela estava ocupada, tornando-o redondo com a faca. Bem naquele momento, ela ouviu o som de algo pesado na porta. Depois de alguns segundos, algo bateu na porta, e uma voz espessa e rude de um gigante foi ouvida dizendo, ‘Abra, abra para mim.’ Ela não respondeu. Novamente, escutou-se um alto bater na porta e uma grande voz foi escutada, gritando: ‘Mulher da casa, abra para mim.’ Então a porta foi arrombada e veja! Ela viu uma grande e feia besta, um Buggane apressado com raiva. ‘Com sua licença’, ele disse, e agarrou-a pelo seu avental, lançou-a sobre seu ombro e foi embora com ela. Antes dela saber onde estava, ele atravessou campos e desceu a colina, até a levar para o topo de Spooyt Vooar, a grande cachoeira de Glen Meay. Conforme o Buggane derrubava a colina, a mulher sentia o chão tremer sobre os pés dele, e o barulho da cachoeira encheu seus ouvidos. E, lá na frente dela, ela viu o fluxo de água que espirrava espuma branca sobre as rochas.  Quando o Buggane a arremessou no ar para atirá-la no lago profunda, ela pensou que sua última hora havia chegado. Então, ela se lembrou da faca que estava em sua mão. Rápida quanto o pensamento, ela cortou seu avental que a segurava no Buggane e caiu no chão, rolando e rolando, descendo a colina.

E antes de saber onde ela estava, o Buggane com sua velocidade, desceu correndo de Spooyt Vooar. Conforme ele corria para alcançar a moça, ela escutou a menos de uma milha ele gritando:

Rumbyl, rumbyl, sambyl, Eu achei que tinha uma mulher preguiçosa, mas tenho apenas um pedaço de seu avental.’

E essa foi a última fez que foi visto aquele Companheiro!      

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Samhainn

Fonte: Site ‘Tairis’, Samhainn, disponível em: <http://www.tairis.co.uk/festivals/samhainn/>. All content by Annie Loughlin ©2015-2016. 

Samhainn

Introdução

            Assim como os outros Dias Trimestrais, é difícil resumir o festival de Samhainn em uma única frase. De um lado, o festival tradicionalmente marca o fim do verão e a transição para o inverno e tudo o que ele implica – de uma forma prática – em uma sociedade pastoral. Por outro lado, o Samhain é marcado por um forte elemento do sobrenatural, quando os seres do outro mundo andam livremente pela terra, e há uma forte sensação de perigo presente – mais do que qualquer um dos outros festivais, de acordo com os registros existentes.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Là Fhèil Mìcheil

Fonte: Site 'Tairis', Là Fhèill Brìghde, disponível em <http://www.tairis.co.uk/festivals/la-fheill-micheil/>. All content by Annie Loughlin © 2006-2015

Là Fhèill Mìcheil

                Enquanto que há uma abundância relativa de evidências para o solstício de verão sendo celebrado na Irlanda em comparação com a Escócia, o oposto pode ser inteiramente dito para o Là Fhèill Mìcheil, ou Michaelmas, no dia 29 de setembro.

                Caindo próximo da tradicional data do equinócio de outono (por volta do dia 25), o festival de São Miguel era o Dia Trimestral que via o início oficial do outono na Grã-Bretanha, e como tal (em um sentido secular) estava relacionado com a realização de tribunais, pagamento de alugueis e festejos.1 Sob influência anglo-normanda, a mesma prática foi introduzida na Irlanda, mas muitas partes resistiram em favor de manter o Samhainn como a época tradicional para o ajuste de tais assuntos legais.2

sábado, 29 de setembro de 2012

Um pouco das lendas de Mann...

Extraído do livro Manx Fairy Tales de Sophia Morrison. Capítulo 1, "Eles". Boa leitura!
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ELES

I

Uma vez, havia um homem na Ilha de Mann que se encontrou com um dos Pequenos Companheiros, que lhe disse que se ele fosse até a Ponte de Londres e cavasse, ele encontraria uma fortuna. Então ele foi até lá, e quando começou a cavar, outro homem veio até ele e disse:

‘O que está fazendo?’

‘Um Deles me disse para vir até a Ponte de Londres e eu conseguiria uma fortuna,’ disse ele. E o outro homem disse:

‘Eu sonhei que estava em uma pequena ilha, em uma casa com um pilriteiro na chaminé dela, e se eu cavasse lá, eu encontraria uma fortuna. Mas eu não vou, pois isso são apenas bobagens.’

Então, ele explicou sobre a casa, e o primeiro homem sabia que a casa era sua própria casa, e então voltou para a Ilha. Quando ele chegou, ele começou a cavar debaixo do pilriteiro na chaminé e encontrou uma caixa de ferro. Ele abriu a caixa que estava cheia de ouro, e havia também uma carta nela, porém ele não leu pois estava em uma linguagem estranha. Então, ele a colocou na janela e desafiou todo estudioso que passava por ela a ler. Nenhum deles sabia, mas por último, um menino grande disse que estava em latim, e significava:

‘Cave de novo e você encontrará novamente.’

Então o homem cavou novamente debaixo do pilriteiro e encontrou outra caixa de ferro cheia de ouro!

Daquele dia até o dia de sua morte, aquele homem costumava abrir a porta da frente antes de ir para cama, e gritava: ‘Minha bênção com os Pequenos Companheiros!’

II

Aqui está uma verdadeira história que foi contada a mim por um homem chamado James Moore quando eu estava sentada com ele no fogo, em uma noite. Ele disse:

‘Não acredito muito nessas histórias que umas pessoas contam, mas, uma pessoa não acredita em uma coisa a menos que ela mesmo veja.’

‘Eu lembro uma noite de inverno – nós morávamos em uma casa em uma época que tinha sido destruída para a construção da Grande Roda. Era uma casa de palha com dois cômodos, e uma parede de seis pés dividindo-os, e de lá de cima, os tufos serviam como teto. Minha mãe estava sentada ocupada no fogo, fiando; e meu pai, sentado em uma grande cadeira no fim da mesa lendo um capítulo da Bíblia de Mann para nós. Meu irmão estava ocupado enrolando um carretel e eu estava trabalhando com um feixe de urze, tentando fazer dois ou três tacos.

‘Haverá uma terrível tempestade essa noite,’ minha Mãe disse, olhando para o fogo. ‘E a chuva descerá pela chaminé!’

‘Sim,’ meu Pai disse, fechando a Bíblia, ‘e é melhor irmos para a cama cedo e deixar para os Pequenos Companheiros um pouco de abrigo.’

Então todos nos preparamos e fomos para a cama.

Uma hora da noite meu irmão me acordou: ‘Shhh! Escute menino, e olhe para a grande luz que está na cozinha!’

Então ele esfregou os olhos um pouco e sussurrou: ‘O que minha mãe está fazendo essa hora?’

‘Escute!’ eu disse, ‘e você escutará nossa mãe na cama, pois não é ela; deve ser os Pequenos que estão mexendo na roda!’

Nós dois ficamos com medo, e abaixamos nossas cabeças debaixo das roupas e dormimos. Pela manhã quando acordamos, nós dissemos aos nosso pais o que nós vimos.

‘Aw, gosto bastante, gosto bastante,’ meu Pai disse, olhando para a Roda. ‘Parece que sua mãe se esqueceu de algo noite passada, uma coisa que uma pessoa deve ser cuidadosa, pois está dando à Eles poder sobre a Roda, e apesar de ser bom, a fiação que eles fizeram não é algo para se vangloriar. O tecelão está sempre gritando sobre seu trabalho quando eles estão fazendo rolos.’

‘Eu me lembro dessa grande luz como se fosse ontem, e o zumbido que acontecia. E deixem dizer o que quiserem, mas esta é uma coisa que eu mesmo vi e escutei.’

III

Uma noite, um jovem homem que estava servindo seu tempo como um tecelão estava indo para casa tarde da noite, de Douglas até Glen Meay. Ele frequentemente se vangloriava de nunca ter visto um dos Pequenos. Bem, essa noite, quando ele estava indo sozinho pela Estrada de St. John, e quando ele chegou perto de um rio, um grande touro parou diante dele na estrada. Ele pegou seu bastão e deu um grande golpe no touro. O touro foi para o rio e ele nunca mais o viu.

Depois disso, quando ele estava passando pela Ponte de Parson, ele encontrou uma pequena coisa em uma roda de fiação, com uma pessoa bem pequena sentado onde o rolinho está. Bem, ele levantou seu bastão e bateu no pequeno corpo que estava sentado. O pequeno corpo disse à ele:

‘Ny jean shen arragh!’ que significa, ‘Não faça isso de novo!’

Ele caminhou até chegar em Glen Meay e contou o que ele tinha visto em uma casa lá. Então, outro homem disse que ele tinha visto uma pequena mulher velha sentada no topo do rolo de uma roda de fiação, quando estava descendo Raby Hill à noite. Então, eles ficaram pensando nisso, pois o primeiro homem a encontrou às seis, e o segundo, ás onze, e não tem nem duas milhas entre os dois lugares.

Então, eles dizem que quando os ciclos vem, o Povo Pequeno está diante deles! E essa é uma história verdadeira.      

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Algumas orações

Tirado do livro 'Carmina Gadelica, Volume III'. O que está entre colchetes, são possíveis adaptações, mas nada impede que você faça as suas próprias. Boa leitura.
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[224] Oração

Graças a ti, Oh gentil Cristo, [Lugh]
Que me levantou livremente do negro,
E da escuridão da noite passada,
Para a agradável luz desse dia.

Louvores a ti, Oh Deus de todas as criaturas, [Lugh]
Conforme cada vida que tu derrama sobre mim,
Meu desejo, minha palavra, minha inteligência, minha honra,
Meu pensamento, meu ato, meu caminho, minha fama.

[271] A Bênção da Jornada

   O recitador, Dugall MacAulay, caseiro, Hacleit, Benbecula, disse que ele sempre recita essa pequena oração para ele mesmo, ‘fo m’anail’, ‘sob minha respiração’, quando ele vai em uma jornada, seja qual for a distância, seja qual for o assunto que ele vai tratar.

Abençoe para mim, Oh Deus, [Manannán]
A terra debaixo de meus pés,
Abençoe para mim, Oh Deus, [Manannán]
O caminho onde eu vou;
Abençoe para mim, Oh Deus, [Manannán]
O objeto de meu desejo,
Tu Sempre de Sempre,
Abençoe para mim meu sono.
Abençoe para mim a coisa
Onde está minha mente,
Abençoe para mim a coisa
Onde está meu amor,
Abençoe para mim a coisa
Onde está minha esperança,
Oh Tu, Rei dos Reis,
Abençoe para mim meus olhos!
[284] Bom Desejo

Teu seja o poder do rio,
Teu seja o poder do oceano,
O poder da vitória no campo.

Teu seja o poder do fogo,
Teu seja o poder do beithre, [Não encontrei a tradução para esta palavra]
O poder de uma forte rocha.

Teu seja o poder do elemento,
Teu seja o poder da tropa,
O poder do amor nas alturas.

[300] Paz

A paz das alegrias,
A paz das luzes,
A paz dos consolos.

(A estrofe a seguir é puramente cristã)
A paz das almas, [da Terra]
A paz dos céus, [do Mar]
A paz das virgens. [do Céu]

A paz das casas fadas
A paz da tranquilidade,
A paz da eternidade.

[302] Trovão

A voz do grande Deus, [Turenn/Dagda/Manannan]
E ninguém é grande, apenas Ele.

[309] Lua Nova

Estou levantando minhas mãos a ti,
Estou curvando minha cabeça a ti,
Estou lhe dando meu amor,
Tu, gloriosa joia de todas as eras.
Estou levantando meu olho a ti,
Estou curvando minha cabeça a ti,
Estou lhe oferecendo meu amor,
Tu, lua nova de todas as eras.

[317] O Sol
   De John MacNeill, caseiro, Buaile nam Bodach, Barra.

Viva a ti, tu Sol das estações,
Conforme tu atravessas o céu acima,
Teus passos são fortes na asa dos céus,
Tu que és a gloriosa mãe das estrelas.

(Note que nessa estrofe, o Sol é tratado como uma entidade feminina)
Tu deita no destrutivo oceano,
Sem enfraquecimento e sem medo,
Tu nasce na pacífica crista da onda,
Como uma majestosa donzela em plena beleza.

[324] Apagando a Lareira

('Smooring' ou 'Apagar' a Lareira, é uma prática comum entre os Gaélicos. Se você não tem uma, uma vela pode ser a substituta ou qualquer outro fogo que você tenha em seu altar.) 
Apagarei a lareira,
Como Brigit, a Mãe adotiva, apagaria. [Filha do Dagda]
Que o nome sagrado da Mãe adotiva, [Filha do Dagda]
Esteja na lareira, esteja no rebanho,
Esteja em toda a casa.


[338] A Oração do Descanso
Abençoe tu, oh Deus, a moradia, [Dagda]
E cada pessoa que descansa aqui essa noite,
Abençoe tu, oh Deus, meus queridos, [Dagda]
No lugar onde eles descansam.

A noite que é essa noite,
E cada única noite.
O dia que é esse dia,
E cada único dia.