Festivais




                Toda religião pagã reconstruída tem seus festivais religiosos, e com o Ildiachas não é diferente. Com suas festas marcando importantes mudanças climáticas, os quatro festivais principais anunciavam também a chegada de uma estação, e, além disso, sua data se mesclava com o calendário agrícola e rural, além das atividades de pesca.

                Antes de começarmos a falar sobre as festas em si, é importante saber que de uma forma geral, os gaélicos dividiam seu ano em duas partes: a metade escura ou “O Sol Pequeno”, que se estendia de novembro à abril, englobando o inverno e a primavera, e a metade clara ou “O Sol Grande”, estendendo-se de maio até outubro, englobando o verão e o outono. De acordo com as lendas folclóricas escocesas, a metade escura do ano era governada por Cailleach, enquanto que na metade clara, Brìde “assumia o poder”. Na Irlanda, temos uma disputa similar entre duas irmãs – Áine e Grian – a primeira governando o período do Sol Grande, e a segunda, o do Sol Pequeno. 

Fonte: Eu!
  
                No total, existem oito festivais celebrados pela maioria dos politeístas gaélicos, além de alguns outros culturais (como a Noite de Burns e o Hogmanay, por exemplo). Destes oito, quatro incontestavelmente são de origem céltica pré-cristã, são eles: Samain, Imbolc, Beltine e Lugnasad. Os outros quatros, no entanto, acredita-se normalmente que tenham origem nórdica ou anglo-saxônica, já que não são conhecidos nos mitos e em antigos textos irlandeses medievais. Estes últimos festivais caem aproximadamente ou na própria data de um equinócio ou solstício, e apesar de alguns argumentarem que tais datas não têm a ver com essas importantes mudanças sazonais, estou inclinado acreditar que de fato tenham, já que os gaélicos possuem inúmeros monumentos de pedra que se acredita ter alguma finalidade astronômica, e na verdade, muitos estão alinhados com a chegada das estações do ano, como o Loughcrew (também conhecido como Sliabh na Cailli, “Montanha de Cailleach”, tem suas passagens e tumbas alinhadas com o nascer do sol dos equinócios) e Newgrange (ou o Brugh na Boinne, “O Palácio do Boyne”, com suas passagens e tumbas alinhadas com o nascer do sol do solstício de inverno), ambos localizados na Irlanda.

                Estes quatro festivais principais eram conhecidos também como “Dias Trimestrais” (como o nome sugere, cada um acontecia de três em três meses), e todos marcavam o início de alguma estação: Samain (ou Samhain) marcava o início do inverno, o Imbolc (ou Oímelc), o início da primavera, o Beltine (ou Beltane), o início do verão e o Lugnasad (ou Brón Trogain), o início do outono. O Ghrianstad an Gheimhridh (nome em irlandês moderno) acontece no solstício de inverno, o Lá na Caillich (nome em escocês) acontece no equinócio de primavera e simboliza a desistência de Cailleach – a deusa invernal – em prolongar o inverno, o Ghrianstad an tSamhraidh (nome em irlandês moderno) acontece no solstício de verão, onde é celebrada a deusa do verão, Áine, e seu pai ou marido, Manannan mac Lir, o deus dos mares, e o Latha na Marchachd (um dos muitos nomes dados ao festival), que acontece próximo ao equinócio de outono. Os nomes dos festivais podem variar de país para país, e alguns deles também recebem nomes por suas associações regionais, como o equinócio de outono, que em partes da Irlanda é conhecido como Fomhar na nGéan (ou a caça aos gansos), época que começava a caça de gansos, como o nome sugere. Podemos citar o equinócio de primavera como outro exemplo, na Escócia sendo conhecido como Lá na Caillich e na Irlanda, o Dia de Sheela, honrando uma divindade conhecida como Sheela na Gig, que se acredita ser uma deusa da fertilidade, hoje cristianizada como a esposa de São Patrício. Para sumarizar tudo isso, criei a tabela abaixo que pode esclarecer melhor:

Nome comum
Data
Nome em irlandês
Nome em escocês
Nome em manês
Samhain
1º de novembro ou vésperas
Lá Samhna
Là Samhna
Sauin
Solstício de Inverno
21-22 de dezembro
Ghrianstad an Gheimhridh
Grianstad an Gheimhridh
Shass greiney geuree
Imbolc
1º de fevereiro ou vésperas
Lá Fhéile Bríde
Là Fhèill Brìghde
Laa’l Breeshey
Equinócio de Primavera
21-22 de março
Dia de Sheela
Là na Caillich
Cormid traa arree
Beltane
1º de maio ou vésperas
Lá Bealtaine
Là Bealltainn
Laa-Boaldyn
Solstício de Verão
21-22 de junho
Ghrianstad an tSamhraidh
Grianstad an tSamhraidh
Shass greiney souree
Lughnassadh
1º de agosto ou vésperas
Lá Lúnasa
Là Lùnastal
Laa Luanys
Equinócio de Outono
21-22 de setembro
Cónocht an fhómair
Latha na Marchachd
Yn Meailley ou Cormid traa fouyir
Procurei sumarizar na tabela acima os festivais com suas respectivas datas e nomes gaélicos, “tradicionais” ou secundários, evitando nomes cristãos que foram dados aos festivais ao serem absorvidos pelas festas cristãs; como não encontrei alguns nomes em alguns países, apenas traduzi para a língua, como os dois solstícios. Apesar de alguns praticantes concordarem em não associar algumas festividades “secundárias” aos equinócios e solstícios (os festivais menores), parti do princípio que eram originalmente celebrados nessas importantes datas astronômicas.

                Podemos então concluir que estes festivais marcavam não só as mudanças sazonais, mas também ciclos agrícolas e rurais. Cada uma dessas festas tinham seus costumes e simbolismos próprios, apesar de dividirem algumas práticas similares entre si: como a adivinhação, invocação de bênçãos e proteção para a estação vindoura e a crença nas forças sobrenaturais estando mais “potentes” nesses dias, para citar alguns exemplos. Féilte, em irlandês moderno, significa “festivais”, e nessa página, falarei sobre cada um dessas festas, indicando suas associações, simbolismos e tudo o que for relacionado à eles (vale lembrar que apesar de eu estar relacionando alguns festivais com solstícios e equinócios, dando sua própria data para essas festas, muitos praticantes não fazem isso, e sequer reconhecem que de fato tenham alguma ligação sazonal). Por último, é importante dizer também que, como uma religião que era praticada nas terras gaélicas (Irlanda, Escócia e Ilha de Man), seus festivais que tinham caráter agrícola e sazonal obviamente seguiam as mudanças sazonais característicos de seu hemisfério – o hemisfério norte. Manterei aqui as datas tradicionais, as do hemisfério norte, mas alguns praticantes podem se sentirem mais confortáveis alterando-as, para que se encaixe com as mudanças sazonais do hemisfério sul; manter as datas ou invertê-las, a escolha é sua. Que as dádivas do Dagda, com sua harpa que muda as estações do ano, possam cair sobre vocês!

SAMHAIN
1º de novembro ou vésperas

                O Samhain é o primeiro festival do ano gaélico. Além de marcar o início do inverno, ele era tido como o ano novo dos gaélicos pré-cristãos. Nesse dia, acreditava-se que o outro mundo estava acessível a todos, onde cada um dos habitantes desse e do outro mundo podia transitar livremente entre aqui e lá. Com isso, espíritos e seres maliciosos podiam prejudicar as pessoas, e assim, medidas eram tomadas para afastar esses seres maliciosos. O Samhain também é o festival dos mortos, e os ancestrais são lembrados nessa festa.

Links úteis:
1. Samhainn, de Annie Loughlin.

O SOLSTÍCIO DE INVERNO
Por volta do dia 21-22 de dezembro

                Também conhecido como Ghrianstad an Gheimhridh em irlandês moderno, o solstício de inverno marca o retorno do sol. Na noite mais escura do ano, procurava-se por uma tora de madeira que era deixada queimar na lareira a noite inteira, aquecendo a família e protegendo-os de influências malignas que podiam afetá-las. Hoje, honramos Cailleach como a deusa do inverno nesse festival, assim como Grian – irmã de Áine – que rege a metade escura do ano.

Links úteis:
1. Yule/Hogmanay, de Annie Loughlin.
2. Poesia: Um conto de inverno.

IMBOLG
1º de fevereiro ou vésperas

                O Imbolg anuncia oficialmente a chegada da primavera. De acordo com as lendas escocesas, é nesse dia que Brìde – a deusa da primavera – é libertada de sua prisão, nas montanhas de Cailleach. Portanto, além de celebrar a chegada dessa estação, o festival é sagrado à essa deusa, conhecida como Brigid na Irlanda. Acredita-se que nas vésperas do festival, a própria deusa caminha pela terra, abençoando os pedacinhos de fita e pano que as pessoas deixam penduradas em árvores para que Brigid possa abençoar, e na Escócia, uma efígie representando uma serpente é destruída para simbolizar que o inverno acabou.

Links úteis:
1. Là Fhèill Brìghde, de Annie Loughlin.
2. Celebrando o Là Fhèill Brìghde, de Annie Loughlin.

O EQUINÓCIO DE PRIMAVERA
Por volta do dia 21-22 de março

                Conhecido como Latha na Cailleach, ou o Dia de Cailleach, é o festival de despedida dessa deusa. Após suas inúmeras tentativas de prolongar o inverno, ela se retira para seu abrigo nas montanhas e adormece até o final do verão, onde ela assumirá seu reinado novamente. Na Irlanda, temos o dia Dia de Sheela, que acontece no dia 18 de março. Sheela-na-Gig, cujo nome vem do irlandês antigo Síle (“Velha”), é descrita como uma deusa que caminha com seu vestido branco (a neve) causando ferozes tempestades no mês de março.

Links úteis:
(Em breve!)

BELTANE
1º de maio ou vésperas

                O Beltane é talvez uma das festas mais alegres do ano gaélico. Ele simboliza a chegada do verão e do calor, e é essencialmente um festival da fertilidade e uma celebração ao prazer e à alegria. Como o sol está em todo o seu esplendor, tudo o que ele toca é imbuído com suas propriedades mágicas – as ervas estão com todo seu potencial, as águas de um poço têm propriedades curativas e o orvalho matinal confere beleza à quem usar! Os arbustos de maio, ou Maybush, são decorados com fitas coloridas para simbolizar o esplendor do verão, e acredita-se que o Povo das Colinas está à solta nesse dia para causar infortúnio aos humanos, sendo assim, medidas são tomadas nesse festival para mantê-los afastados.

Links úteis:
1. Bealltainn, de Annie Loughlin.
2. Celebrando Bealltainn, de Annie Loughlin
3. Poesia: O verão chegou.

O SOLSTÍCIO DE VERÃO
Por volta do dia 21-22 de junho

                Também conhecido como Ghrianstad an tSamhraidh, o solstício de verão é o dia mais longo do ano. Na noite do solstício, grandes fogueiras eram acesas para representar o poder do sol nesse dia, em que se acreditava que ele estava em seu ápice. Assim como em Beltane, as ervas também tinham propriedades mágicas e curativas. Na Irlanda, era homenageada a deusa Áine, que personificava o sol e o esplendor do verão, e na Ilha de Man, oferendas eram feitas à Manannán mac Lir. Ainda na Ilha de Man, rolavam-se rodas de fogo a partir do pico dos morros, pois da mesma forma que o sol atingia seu pico, a partir dessa data ele começava a declinar.

Links úteis:
1. O solstício de verão, de Annie Loughlin.
2. Poesia: O verão chegou.

LUGHNASSADH
1º de agosto ou vésperas

                               O Lughnassadh é um festival originalmente criado por Lugh, em honra à sua mãe Tailtiu, que morreu de exaustão após limpar uma planície, tornando-a propícia para a agricultura. É a primeira festa da colheita e simboliza a chegada do outono. Nesse dia, politeístas gaélicos honram tanto Lugh como sua amada mãe adotiva, e no passado, era também uma época onde os reis davam grandes feiras e assembleias, onde aconteciam vendas, torneios e competições. A mais conhecida dessas feiras era a feira de Taltiu, mas em algumas regiões temos também a feira de Carmun, a deusa das colheitas, que anunciou que todos que celebrassem seu festival seriam abençoados com uma colheita e uma pesca farta e abundante. A colheita de frutas é o principal costume desse dia, assim como o enterro de flores amarelas no alto de colinas para simbolizar oficialmente que o verão acabou.

Links úteis:
1. Lùnastal, de Annie Loughlin.  

O EQUINÓCIO DE OUTONO
Por volta do dia 21-22 de setembro

                O equinócio de outono, conhecido como Latha na Marchachd (ou Yn Meailley, na Ilha de Man), é o último festival do ano gaélico e o segundo festival da colheita. Como um de seus nomes sugere, Latha na Marchachd (“Dia da Equitação”), o festival tem uma associação muito forte com corridas de cavalo. Os ancestrais também são lembrados nessa data, com seus túmulos sendo visitados nessa época do ano, e como um festival da colheita, a colheita das maçãs e cenouras são especialmente associadas com o festival, e na Irlanda, marcava o início da estação da caça. Cailleach aparecia também nesse festival, em uma dança folclórica onde ela morria ritualisticamente e renascia novamente. Na Ilha de Man, era feita uma efígie na forma de uma mulher, com o último maço de trigos e outros grãos da colheita, que era decorada com flores e fitas coloridas. A boneca era deixada na cozinha ou no celeiro até a colheita seguinte. Grandes banquetes com a colheita da fazenda são associados com esse festival.

Links úteis:
1. Celebrando o equinócio de outono, de Leonni Moura.
2. Là Fhèill Mìcheill, de Annie Loughlin.
 

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