quarta-feira, 29 de maio de 2019

Resenhas de Livros #1: Preces, Encantamentos e Rituais Celtas

#1 Preces, Encantamentos e Rituais Celtas
Por Nathair Dorchadas


Meu exemplar <3



     Se eu puder resumir o Preces, Encantamentos e Rituais Celtas em poucas palavras, eu o definiria como um livro onde o autor, de maneira prática, fluída e de muito fácil entendimento, nos traz o conceito e a aplicação prática de uma das mais simples e poderosas formas de contatarmos o Divino – as preces –, trazendo também toda a sua importância para a nossa prática devocional e ritualística, onde muitas vezes subjugamos o seu poder e eficácia. Inspirado em fontes antigas sobre os celtas da Irlanda e Escócia, Nathair Dorchadas nos traz os mais diversos tipos de preces para uma infinidade de momentos ou questões, além de uma introdução aos elementos e conceitos importantíssimos para qualquer aspirante ao Druidismo ou qualquer outra vertente de religião céltica contemporânea. PERC é o que precisávamos de prática para as religiões célticas modernas.


     A obra é dividida em três partes. A primeira dela faz um apanhado geral com alguns conceitos introdutórios sobre preces, encantamentos e orações, mostrando as diferenças sobre cada uma delas.

     A segunda parte do livro traz as adaptações do autor de algumas orações encontradas na obra Carmina Gadelica. Resumidamente, o Carmina Gadelica é uma série de (originalmente) quatro livros, sendo um apanhado de preces e crenças folclóricas registradas nas Terras Altas da Escócia e que, apesar de serem cristãs em sua origem, ainda carregam todo o simbolismo e imaginário pagão remanescente dos antigos celtas pré-cristãos, como as frequentes referências aos Três Reinos, por exemplo. Sendo assim, o que o autor fez foi tirar todo o verniz cristão dessas preces, adaptando-as para o contexto pagão, o que fez com maestria e demonstrando muito conhecimento das bases pré-cristãs que compõem as próprias orações. Não se trata simplesmente de tirar os nomes nomes de Jesus e Maria e substitui-los por divindades pagãs, mas conhecendo a sua própria estrutura, o autor transformou-as para deixá-las apta no contexto politeísta, através de um estudo muito profundo de sua estrutura e da cosmovisão céltica.

     O resultado disso são preces carregadas de simbolismo e poder, cheias de referências à elementos da religião gaélica pré-cristã e que eu poderia, facilmente, ver qualquer ancestral pré-cristão recitando-as. Algo que me chamou muito a atenção nesse livro, nessa parte especificamente, foi o cuidado que o autor teve de trazer todo o contexto no qual aquele povo escocês estava inserido, para nossa prática diária. O que, novamente, transparece que o autor não fez simplesmente um trabalho de tradução e substituição. Nossos antepassados e os povos rurais da Escócia (de onde as orações foram coletadas) viviam do campo e dos animais da pecuária, logo, questões como colheitas, grãos, plantações, vacas, rebanhos e leite eram fundamentais para eles, estando, portanto, em suas preces, já que uma falha em qualquer um desses poderia ocasionar fome e morte. Assim, quando nos defrontamos com as preces de rebanho, semente ou do leite, por exemplo, a princípio podemos pensar que essas coisas já não fazem mais parte da nossa vida; é quando o autor então chega fazendo toda uma ressignificação dessas ideias e contextualizando os resquícios de uma religião antiga para nosso contexto urbano do século XXI: nossas sementes são as ideias de trabalho que plantamos ou os nosso planos postos em prática; nossos rebanhos são nossas fontes de riqueza (trabalho, carros, casa, etc.), enquanto que o leite é tudo aquilo que nos nutre. PERC é um livro que nos mostra que, definitivamente, uma religião de caráter rural pode ser praticada na cidade grande da contemporaneidade.

     A terceira parte é a minha preferida. Ela começa trazendo conceitos introdutórios, perfeitamente explicados de forma rápida e subjetiva, que são as bases das preces contidas em todo o livro e são os pilares de qualquer religião céltica contemporânea, tais como os Três Reinos, as Três Famílias, etc., além de um conceito que foi novo para mim, que é o do Guardião – basicamente, o espírito de um local, a quem devemos pedir a bênção antes de iniciarmos um rito ao ar livre. Apesar de ser minha parte preferida, tenho uma única questão com o livro nesse ponto. Achei que, pelo menos pra mim, essas questões teriam sido mais proveitosas mais pro início do livro, já que são conceitos muito básicos e primordiais para que, um recém-chegado, possa compreender melhor os elementos que compõem as preces. Nada que tire o método da obra ou seja um ponto negativo para o livro, mas uma melhor ordenação desses conceitos acredito que seria mais proveitoso para aqueles que nunca tiveram contato com o Druidismo/RC.

     Além disso, a terceira parte é ainda constituída de preces autorais sobre os temas já falados que são introduzidos no livro, devendo ser usadas (idealmente) dentro de um contexto ritualístico. Além das preces para os três reinos, para o guardião, etc., você também encontrará preces para serem usadas nos quatro grandes festivais da religião céltica, contendo uma breve explicação sobre cada um deles e, o mais legal, preces também para os principais Deuses cultuados dentro da tradição irlandesa, como Dagda, Brigit, etc. E, se já não bastasse, o autor traz (de uma forma, acredito, inédita no Brasil) preces para os ritos de passagem – desde o nascimento até a morte. É muito importante falar também que, ainda que sejam preces autorais, o que me chamou muito a atenção foi o cuidado que que o autor teve de trazer referências às fontes antigas, nos trazendo todos os elementos que compõem uma prece “céltica”. Dessas, a Prece da Triplicidade (a minha preferida do livro!) nos traz tanto referências ao Carmina Gadelica já falado como à uma prece irlandesa muito famosa e poderosa conhecida como “A Armadura de São Patrício”, onde o devoto pede proteção para todos os elementos que compõem o cosmo.

     E, para finalizar, uma sugestão. Apesar da leitura ser muito fluída e de fácil entendimento, eu não recomendaria ler o livro todo de uma vez. Cada prece no livro possui a sua singularidade, quase como a sua essência, por isso, devem ser lidas uma por vez, com calma, a fim de absorver a sua mensagem e ser capaz de compreender todos os elementos que a compõem, todas as divindades que elas se referem, etc. Por isso, PERC é um livro cuja leitura deve ser feita em partes, com calma e paciência. É como se cada prece fosse um preparo de cozimento lento que, ao final, te proporcionará um ensopado muito saboroso.

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Para conhecer mais o trabalho sacerdotal do autor, visite a página pessoal dele clicando aqui

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