quinta-feira, 13 de setembro de 2018

As Aventuras de Connla


Echtra Chondla
As Aventuras de Connla

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Seção 1          

Por que Art, o Filho Único, foi assim chamado? Não é difícil responder.

Um dia, quando Connla o Corajoso, filho de Conn das Cem Batalhas, estava com seu pai na Colina de Usnech,[1] ele viu uma mulher vestida com roupas estranhas.

Connla disse, “De onde vens, ó mulher?”

A mulher respondeu, “Eu venho de Tír na mBeo, a Terra dos Vivos, onde não há morte, miséria ou pecado. Nós festejamos eternamente sem necessitar de trabalho. A paz, sem a luta, reina entre nós. Tír na mBeo é um grande monte encantado – sid –, onde nós vivemos, e por isso somos chamados de o “povo dos montes encantados” – aes side.



Seção 2

            “Com quem estás conversando?” Conn perguntou ao seu filho, pois ninguém, além de Connla, conseguia ver a mulher.

            A mulher respondeu, “Ele fala com uma mulher jovem e bela de linhagem nobre, que não conhece a morte ou a velhice. Por muito tempo amei Connla e convido-o para Mag Mell,[2] onde Boadach[3] o Eterno é rei, um rei de cujo reino não há choro ou tristeza desde que ele começou o seu reinado. Vem comigo, ó corajoso Connla, de pescoço róseo, brilhante como uma vela. A nobre coroa que repousa sobre teu semblante ruivo é o sinal de tua realeza. Se tu me seguires, teu corpo nunca decairá em juventude ou beleza, mesmo até o maravilhoso Dia do Julgamento.”


Seção 3

            Conn então falou com o seu druida, cujo nome era Corann, pois todos escutaram tudo o que a mulher tinha dito, embora não pudessem vê-la.

“Eu apelo a ti, Corann,
Hábil na canção, hábil nas artes.
Um poder veio até mim,
Muito grande para minha habilidade,
Muito grande para minha força;
Uma batalha veio até mim,
Tamanha não encontrei
Desde que assumi a soberania.
Através de um ataque traiçoeiro
A forma invisível me derrota,
Para roubar meu nobre filho,
Com palavras pagãs de magia.
Ele é tirado do meu lado régio,
Pelas palavras de magia da mulher.”

            Com isso, o druida cantou um encantamento mágico contra a voz da mulher de forma que ninguém mais conseguiu ouvi-la, e Connla não a viu mais naquela hora. Mas conforme a mulher partia perante o canto poderoso do druida, ela atirou uma maçã para Connla.


Seção 4

            Connla ficou um mês sem comida ou bebida, pois parecia-lhe que nenhum alimento fosse digno de ser consumido, exceto apenas a maçã. Quando ele comia a maçã, a fruta nunca diminuía, permanecendo sempre como se não tivesse sido comida. Apoderou-se de Connla uma saudade da mulher que tinha visto.


Seção 5

            Um dia, quando o mês tinha acabado, Connla estava sentado com seu pai em Mag Archommuin[4], e viu a mesma mulher vindo em sua direção.

            Ela falou com ele:
“Um assento lamentável
É onde Connla senta-se
Entre mortais de vida curta,
Aguardando apenas a temida morte.
Os vivos, os imortais te chamam;
Eles te chamam para o povo de Tethra,
Que te observam todos os dias
Nas assembleias da tua terra nativa,
Entre seus amados parentes.”

            Quando Conn ouviu a voz da mulher, ele chamou seus atendentes, “Trazei o druida. Vejo que a língua dela está solta hoje.”


Seção 6

            Então a mulher disse:

“Ó Conn das Cem Batalhas,
Tu não deverias se agarrar ao druidismo!
Não demorará muito para que venha
Dar julgamentos em nossa ampla costa
Um homem justo,
Com muitas companhias maravilhosas.
Logo suas leis irão te alcançar.
Ele aniquilará a lei falsa dos druidas
À vista da magia negra dos demônios.”

            Conn então se perguntou do porquê Connla não responder, exceto após a mulher chegar.

            “O que a mulher disse tocou o seu coração, ó Connla?” perguntou Conn.

            Então Connla disse, “Não é fácil para mim. Embora eu ame meu povo, sinto saudades da mulher.”


Seção 7

            A mulher disse:

“Tu lutas – o desejo mais difícil de se realizar –
Contra a onda da saudade que te leva daqui.
A terra na qual chegaremos em meu barco de cristal,
É o monte encantado do Boadach.
Há ainda uma outra terra
Que não é difícil de chegar;
Eu vejo-a, agora que o sol se põe.
Embora seja longe, chegaremos nela antes da noite.
Essa é a terra que alegra
O coração de todos aqueles que vagam por lá;
Nenhum outro sexo vive lá
Apenas mulheres e donzelas.”


Seção 8

            Connla então pulou no barco de cristal da mulher e o povo viu ele indo embora. Seus olhos mal conseguiam seguir Connla e a donzela enquanto eles velejavam sobre o mar. Daquele dia em diante, eles nunca mais foram vistos.

            E Conn, enquanto olhava para o seu outro filho, Art, disse, “Hoje Art foi abandonado.” Desde então, ele ficou conhecido como “Art, o Filho Único” – Art Óenfer.



[1] Atual Colina de  Uisneach ou Usnagh, localizada no Condado de Westmeath, considerada o centro sagrado da Irlanda, embora não seja, geograficamente falando, o centro exato da ilha. (Nota de Tradução)
[2] Traduzida como “Planície do Prazer” por Standish O’ Grady, Mag Mell é um dos vários lugares ou reinos do Outro Mundo, descrito como um dos reinos do deus Manannán mac Lír e sua esposa, Fand, conforme sugerido nos textos “A Viagem de Bran” e “O Leito de Cuchulain e o Único Ciúme de Emer”. (N.T.)
[3] Bodach pode ser um dos nomes para Manannán mac Lir, já que ele é identificado com um personagem de mesmo nome no texto “Bodach an Chóta Lachtna” (ou “O Velho do Agasalho Marrom”), além dele ser considerado o rei de Mag Mell em outros mitos. Ver nota 2. (N.T.)
[4] Localização atual não identificada. (N.T.)

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