sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

(Re?)Construindo um solstício de inverno gaélico

Por Leonni Moura / Angus McOisín



Introdução

                Eu sempre fui fascinado pelas celebrações de meio de inverno dos povos politeístas da Europa. Por esse motivo, me animei em escrever esse texto, com o objetivo de “resgatar” os costumes e crenças em relação à essa época do ano entre os gaélicos, ainda que grande parte dessas evidências venham de épocas muito posteriores à conversão para o cristianismo e deter muito de um pensamento cristão; no entanto, ainda que esses costumes e tradições associados com essa época do ano não possam ser datados diretamente à Idade do Bronze/Ferro, alguns, acredita-se que tenham uma origem supostamente “pagã”.

                Como já foi amplamente discutido por mim aqui no blog, existe uma descrença em relação à celebração de solstícios e equinócios pelos gaélicos (e por outros povos célticos, em geral), pela falta de evidências fortes desses festivais – eles não aparecem nos mitos e o folclore e as tradições associadas com eles possuem uma influência estrangeira muito perceptível, especialmente no caso do solstício de inverno, que recebeu muita influência nórdica, mais especificamente em algumas áreas ao norte da Escócia. No entanto, a maior parte dos povos pagãos da Europa viam o solstício de inverno como uma data (e uma época...) bastante sagrada e digna de celebração – ela simbolizava o meio da estação invernal e representava a noite mais escura e mais longa do ano, a partir da qual, o sol ganhava cada vez mais força, ou “nascia” novamente (de acordo com algumas culturas), trazendo de volta a luz e o calor para o mundo; dentre essas celebrações, poderíamos citar, por exemplo, o Yule dos nórdicos, o Ziemassvetki dos letões, a Kaledos dos lituanos, a Koliada dos eslavos e a Saturnália dos romanos, todos acontecendo exatamente na data do solstício de inverno ou aproximadamente, podendo se estender até mesmo para janeiro, como no caso do Yule.


                Por conta dessas evidências de outros países europeus, acredito firmemente que o solstício de inverno não tenha passado em branco para os gaélicos pré-cristãos; de fato, existem muitas provas de que a data era especial para eles, e ainda que não tenham sido celebradas, é inegável a sua importância para esses povos – embaso a minha crença na presença dos monumentos pré-históricos da Irlanda e Escócia que são alinhados astronomicamente com as datas de solstícios e equinócios, sendo o Newgrange (mais conhecido como Brugh na Boinne, ou “Palácio do Rio Boyne”, na Irlanda) e o Maeshowe (em Orkney, Escócia) os melhores exemplos para esse texto, uma vez que no amanhecer do solstício de inverno, suas tumbas internas são iluminadas pela luz do sol matinal em ambos os monumentos. Além disso, existe uma teoria por parte de alguns estudiosos, como a historiadora Annie Loughlinn, de que, assim como as celebrações de Beltane e o solstício de verão, os costumes associados com o solstício de inverno tenham sido oriundos, a princípio, do Samhain – o festival gaélico que marcava o início do inverno, e de fato, como veremos mais adiante, alguns costumes associados com o dia também podem ser encontrados na data do Samhain, como o ato de se fantasiar e pedir doações e a presença do ícone da Laare Vane (na Ilha de Man, mais precisamente), ecoando com a procissão irlandesa da Lair Bhán (Égua Branca) presente no Samhain, que por sua vez é “parente” da conhecida Mari Llwd do País de Gales.

                Com isso em mente, escrevo esse texto me baseando nas evidências principais que temos da Irlanda, com o dia de Santo Estêvão e os próprios costumes do Natal (cujas práticas são, supostamente, “pagãs” em sua origem, como veremos mais adiante), nas evidências da Escócia com o Yule (nome, ainda que nórdico, era usado para descrever as celebrações invernais em algumas áreas da Escócia onde a influência nórdica foi mais forte), e algumas poucas evidências da Ilha de Man, com os costumes do Natal de lá, que são basicamente os mesmos que os da Escócia e Irlanda. Além disso, me baseei também nas práticas e crenças associadas com o Ano Novo, conhecido na Escócia como Hogmanay, pelo fato de muitos dos costumes das celebrações natalinas (que novamente, possuem uma origem supostamente “pagã”) terem migrado para o Ano Novo para que o povo pudesse continuar seus festejos nessa data e mantivesse o Natal como um dia mais contemplativo e “religioso”, uma vez que as mais antigas celebrações natalinas eram “barulhentas” demais para a Igreja. Além disso, teremos também uma exploração de mitos e divindades que são supostamente associadas com as celebrações do inverno, com alguns estudos comparativos (principalmente) das tradições do País de Gales, que são o mais próximo dos gaélicos que temos, para não fugirmos muito da “área de abrangência céltica”, ainda que comparações com outros países europeus estejam presentes.

Com isso, nos basearemos em todas essas evidências para uma tentativa de (re?)construir uma celebração de solstício de inverno, que, por falta de um nome próprio nas línguas gaélicas, o chamarei de Meán Gheimhridh (meio de inverno, em irlandês), mas que poderia facilmente ser chamado também de Grianstad an Gheimhridh e/ou Shass Greiney Geuree (solstício de inverno, em escocês e manês, respectivamente). E, por último (finalmente), tendo em mente que, com exceção das referências e fontes de estudiosos citadas, as minhas próprias observações são opiniões (ou gnoses, como preferir...) de um religioso e estudioso amador, e não teorias e conclusões de um historiador, arqueólogo ou outro especialista, podemos começar com o nosso texto.

As evidências na Irlanda

O Natal (An Nollaig)

                Uma das fontes que estaremos vendo agora são as celebrações do Natal (Nollaig) na Irlanda, onde muitos de seus costumes acredita-se terem uma origem supostamente pagã, como defende Kevin Danaher, e que portanto, podem servir como base para uma celebração de solstício de inverno, uma vez que acontece bem próximo da data do próprio solstício (25 de dezembro).

Assim como em todos os Dias Trimestrais (Beltane, Samain, Lugnasad e Oímelc), a preparação para o festival começava nas vésperas com uma limpeza e organização da casa, tal como uma decoração com a vegetação da época, que consistia em ramos de sempre-viva, azevinho, hera e louro. O azevinho, por sua vez, é uma planta comum nas celebrações de inverno de quase todas as religiões pré-cristãs da Europa.

Uma das tradições mais conhecidas associadas com o Natal na Irlanda era o acendimento de velas nas vésperas do festival (24 de dezembro). Uma menina, normalmente a mais jovem da casa, acendia uma grande vela branca na janela da cozinha, que era deixada acesa até o dia seguinte ou até a meia noite, com sua base podendo ser decorada com azevinhos. Era considerado um terrível presságio se a vela se apagasse, pois simbolizava que alguém da família morreria. Além da janela da cozinha, velas menores eram acesas nas outras janelas da casa, para servir como um “farol” que guiaria os viajantes solitários e sem lar na noite fria de inverno. Outro costume nos fala que o pai da família tirava o interior de um nabo e colocava uma grande vela vermelha dentro dele, sendo posteriormente colocada no parapeito da janela para iluminar a Santa Família (Jesus, Maria e José) nas vésperas do festival. Segundo Lady Wilde, era bastante auspicioso tomar o café-da-manhã do dia 25 à luz de velas. 

Apesar dessa prática do acendimento de velas ter a intenção de “iluminar” os viajantes ou a Santa Família, é bastante provável que, em sua origem, a prática tenha sido destinada à guiar os espíritos dos mortos, uma vez que a lembrança aos ancestrais é um costume bastante comum nessa época do ano, pelo menos na Irlanda (de acordo com Ó Suilleabhain), onde podemos observar a prática de acender uma vela para alguém da família que morreu no ano passado e a decoração dos túmulos das famílias com azevinho ou teixo. Outra evidência que suporta essa teoria de que a prática do acendimento de velas tenha se destinado à guiar os mortos pode ser a tradição descrita por Kevin Danaher, que consistia em três tigelas de água que eram deixadas no parapeito da janela para que os espíritos dos mortos pudessem abençoar a água durante a noite, para que posteriormente essa água pudesse ser usada em trabalhos de cura. Em algumas partes da Irlanda, essa prática era feita para receber os espíritos dos mortos da família que vinham visitar a casa durante o festival. Outros lugares, no entanto, afirmam que essa prática era feita para receber a Família Sagrada, mas Kevin Danaher afirma que essa prática pode ter sido de origem pagã que originalmente era relacionada aos mortos, mas com as influências cristãs, passou a se relacionar também com a Sagrada Família.

Assim como na Escócia, como veremos mais para frente, existia o costume irlandês de colocar uma grande tora de madeira, conhecida como bloc na Nollaig (“Tora de Natal”), ao lado da lareira durante a época de Natal. O autor Kevin Danaher nota que esse costume pode ter sido uma contraparte do tinte éigin (uma fogueira acesa por fricção) da Escócia, e como tal, acredito que o objetivo da tora seja o mesmo que a tora escocesa: iluminar e aquecer o lar nos dias mais frios do ano, tomando-se um cuidado especial para que o fogo não se apagasse para que não tivesse problemas em pedir fogo para os vizinhos, que certamente não dariam, visto que nesse dia, como em outros festivais, existia a proibição de não dar/emprestar nada da casa.

No dia do Natal, assim como em diversas outras culturas do mundo inteiro, era tradicional preparar um grande banquete com quanta variedade a família pudesse colocar na mesa. Dentre os pratos comuns do festival, podemos destacar as maçãs, doces e massas (pães e bolos), além da carne cozida ou assada, sendo este o prato mais popular, devido as evidências de sacrifício de um touro nos tempos pré-cristãos, conforme observa Kevin Danaher. Tal como o banquete que é comum em diversas celebrações no mundo inteiro, o ato de presentear também era comum e visto quase como uma obrigação social, sendo usada para reforçar os aspectos sociais da comunidade e como uma forma de caridade para as pessoas menos afortunadas, uma vez que as pessoas mais ricas davam presentes para as pessoas mais pobres, assim como os comerciantes davam presentes para os seus compradores. Tais presentes incluíam lenha, comida e roupas.

Diferentes de outros festivais na Irlanda, especialmente os Dias Trimestrais, a ênfase do dia e a maior parte das celebrações aconteciam dentro de casa, junto à família. Contudo, existiam também celebrações externas, com competições de arremesso e caça, além das peças teatrais do tipo “mumming”, como veremos abaixo.

O mumming (do Inglês Médio, mum, “ficar quieto”) consistia de peças teatrais feitas por pessoas fantasiadas dos mais diferentes tipos, encenando peças de histórias de santos, Adão e Eva, temas da mitologia romana e outros temais mais seculares; em Wexford, o mumming consistia de lutas de espadas lutadas por dois grupos de seis pessoas cada, que brigavam com espadas de madeira ao som de uma música. Embora acredita-se que essa tradição de se fantasiar no Natal seja de origem inglesa, Bridget Haggerty observa que existem evidências de 2.500 anos atrás que nos contam que alguns entertainer usavam altas máscaras cônicas para entreter o Rei Conor em Emain Macha, Ulster. Esses grupos, que em alguns lugares eram chamados de “Homens de Hogmanay”, faziam suas apresentações nas ruas durante todo o período do Natal, viajando pela Irlanda a partir da metade do mês de dezembro até o final de janeiro. As peças, sempre faladas em versos, sempre tinha como tema principal o combate entre dois heróis, onde um era morto e ressuscitado pelo seu médico, mostrando então temas de morte e ressurreição e a luta do bem contra o mal. Esse tema de morte e ressurreição são apropriados para a época do inverno, quando o sol “renascia”, trazendo de volta a luz e o calor, e como Bridget Haggerty escreveu, acreditava-se que essas peças eram encenadas por volta do final do ano e no final da colheita, pois eram vistas como uma celebração da morte do ano e da chegada da primavera.

E por último, observava-se sinais na natureza no dia do festival para fazer presságios. Ouvir um grilo durante o dia e o canto de um galo durante a noite eram bons presságios, assim como um Natal com neve, gelo e frio, já que simbolizava uma primavera agradável e quente.  

O dia de S. Estêvão (St. Stephen) ou o dia da carriça (Lá an Dreoilín)

                O dia de São Estêvão (ou St. Stephen) na Irlanda acontece um dia após o Natal, no dia 26 de dezembro. Além de carregar um simbolismo aparentemente pagão (com a caça da carriça, como veremos mais abaixo), alguns de seus costumes também são encontrados no Natal (como o ato de se fantasiar e encenar), levando a sugerir, acredito, que suas celebrações possam ter se originado das antigas celebrações do solstício de inverno, além, é claro, da sua óbvia proximidade com a data do solstício e também pelo fato das tradições associadas com o dia na Irlanda serem inteiramente diferentes das encontradas no resto da Europa, sugerindo um caráter extremamente nativo nas celebrações.

                O dia de São Estêvão também era conhecido na Irlanda como o dia da carriça, Lá an Dreoilín, devido ao seu costume único relacionado à carriça, um pássaro extremamente odiado pelos irlandeses, em especial nesse dia. O festival era marcado com as procissões dos “meninos-carriça” (Bouchal na Druleen), que iam de casa em casa, fantasiados e mascarados cantando uma música que pedia para cada família a doação de presentes, como uísque, cerveja e até mesmo dinheiro. Os grupos de meninos (majoritariamente) se fantasiavam com roupas velhas e pintavam seus rostos; suas roupas, normalmente brancas, eram decoradas com alguns detalhes em ouropeu e usavam chapéis de muitos formatos, com azevinho e palha amarrados para decoração. Indo de casa em casa pelas ruas ao som de bodhrans, eles fazem para cada família a sua apresentação musical pedindo uma doação de dinheiro para “enterrar a carriça”, e depois, voltam para as ruas indo para outra casa. Aqueles que faziam uma doação de dinheiro para os meninos, recebia uma pena da carriça morta, que presumivelmente também protegia as pessoas contra a bruxaria e dava boa sorte, tal como na crença da Ilha de Man. 

                Nos tempos antigos, os grupos de meninos ou homens jovens carregavam um arbusto de azevinho com uma carriça morta no topo ou alguma coisa usada para simbolizar a ave. Em outros locais da Irlanda, ao invés do arbusto de azevinho, usava-se um mastro decorado, e tanto o arbusto quanto o mastro eram decorados com fitas e papeis coloridos. Na região de Clogher, no Condado de Mayo, a carriça também era decorada com fitas e colocadas dentro de uma caixa de madeira, também decorada com fitas, e então era desfilada pela cidade; já no Condado de Wexford, a carriça era amarrada ainda viva no mastro. Ainda que tenha sido celebrada em toda a Irlanda nos tempos antigos, com exceção de Ulster, hoje a celebração morreu quase inteiramente, persistindo somente em algumas áreas falantes de gaélico (as chamadas regiões “Gaeltacht”) como a Península de Dingle e Galway, e outras regiões como o Condado de Kerry e algumas partes de Limerick. Felizmente, nos dias de hoje, a carriça não é mais caçada e é utilizada uma ave de brinquedo ou algum outro substituto.

                Mas você deve estar se perguntando o porquê da carriça receber esse tratamento tão odioso dos irlandeses, que se deve à crença popular de que quando São Estêvão estava se escondendo de uma invasão, a carriça o traiu e fez barulhos enquanto ele se escondia, revelando o seu paradeiro, sendo esse o motivo dela ser caçada nesse dia. Por outro lado, acredita-se que a carriça, cujo nome em irlandês (dreoilín) é derivado de draoi, “druida” e ean, “pássaro” (Pássaro dos Druidas), recebia esse comportamento agressivo devido à uma oposição do cristianismo em relação ao paganismo na Irlanda e com possíveis rituais que envolviam a carriça, que provavelmente aconteciam nessa época de ano, de acordo com o site “Dingle Peninsula”. Interessantemente, em um conto folclórico, a carriça é considerada o “Rei de todas as aves”, sugerindo que talvez, no passado, esse ódio à ave não tenha existido, sendo uma influência cristã pelo fato da carriça ter sido associada aos druidas, como mencionado acima. No conto folclórico em questão, conta-se que um dia, todas as aves se reuniram para decidir quem seria seu rei e todas entraram em um consenso que o rei seria aquele que voasse mais alto. A carriça se sucedeu na tarefa, mas quando ela pousou novamente, as aves desvalidaram sua tarefa dizendo que ela era muito pequena para ser rei, e assim, decidiram afogar o pássaro em qualquer água que encontrassem. Como não tinha nenhum corpo hídrico próximo, todos os pássaros começaram a chorar dentro de uma tigela, mas a coruja se aproximou e tropeçou na tigela, derramando todas as lágrimas, e assim, a carriça foi salva e declarada o Rei de todas as aves.

                Um fato interessante da procissão dos meninos-carriça era a presença de um integrante do grupo que vestia um modelo de cavalo de madeira em torno dos ombros, com a cabeça do cavalo em madeira e o molde do corpo coberto com um pano branco. Esse membro ficava na frente do grupo, saltando e girando, e essa característica da procissão era mais forte na região de West Kerry. Esse ícone de cavalo nos faz lembrar de uma tradição galesa da procissão natalina de Mari Lwyd (Égua Cinzenta/Maria Sagrada), que consistia em um grupo de pessoas que carregavam um crânio de égua fixada em um mastro e carregado por uma pessoa que se escondia debaixo de um pano branco. O grupo ia de casa em casa e através de canções, pedia permissão para entrar em cada uma delas. Se a permissão para entrar fosse dada, comida e bebida era dada para o grupo pelo dono da casa. Embora a “versão” galesa seja a mais conhecida, existem outros correspondentes na Irlanda e Ilha de Man, com a Láir Bhán e a Laare Vane, respectivamente. Apesar da Laare Vane manêsa figurar durante a época do Natal na Ilha de Man, a Láir Bhán irlandesa aparece somente no Samhain, podendo essa característica da procissão do ícone do cavalo no dia de São Estêvão ser um remanescente dessa antiga prática que acontecia no Samhain. Por outro lado, é bastante notável a presença de algum elemento equino nas celebrações do dia de S. Estêvão em outros lugares da Europa, como as cavalgadas que aconteciam na Baviera e na Finlândia, sendo incerto, portanto, se a ligação com o cavalo remonta à uma prática pré-cristã mais antiga ou se é uma característica generalizada do festival.

                Por último, no final do dia quando as procissões haviam terminado e as doações tinham sido feitas, os meninos gastavam seu dinheiro com bebidas em um bar e a carriça morta era enterrada. Segundo Lady Wilde, no entanto, a carriça era enterrada na porta das pessoas que se recusaram a fazer doações.

Oíche Chinn Bhliana – a Noite do Ano Novo

                Como será discutido no capítulo destinado às evidências da Escócia, o Natal na Escócia sofreu complicações devido à proibição das igrejas em relação aos costumes do festival, que em geral eram barulhentos, e portanto, houve uma transferência das tradições para o dia do ano novo (conhecido na Escócia como Hogmanay) para que a data do Natal pudesse ser um dia de observâncias religiosas mais “calmas”, deixando as bebedeiras e algazarras para o dia do ano novo. Por isso, é provável que os costumes associados com o ano novo na Irlanda sejam oriundos das antigas celebrações natalinas, tal como aconteceu na Escócia, e como tal, as veremos em seguida.

                Diferente das celebrações da Escócia, o ano novo não era uma data tão importante na Irlanda, e isso pode ser visto nos poucos costumes associados com o dia, e mesmo as regiões que possuem uma abundância maior de costumes são aquelas onde as influências escocesas são mais fortes.  

Assim como no Natal, velas eram acesas nas janelas das casas e um banquete especial era dado nas vésperas do ano novo. Era também uma noite em que se honravam os espíritos dos mortos, tal como os membros ausentes da família. Como uma data limiar, existia a crença de que os sídhe estavam a solta, fazendo com que as pessoas ficassem dentro de casa, porém, em algumas partes da Irlanda, grupos de meninos saíam nas ruas presenteando as casas com punhados de palha, na esperança de receber algum presente em troca, ecoando, mais uma vez, com as procissões do Lá an Dreoilín no dia 26 de dezembro.

Como o ano novo viria com muitas incertezas, um pão ou bolo era esmigalhado na porta da casa para banir os perigos da fome, e em outros locais, esse mesmo rito também era feito na janela da casa e na porta da vacaria, para garantir uma abundância de forragem para o gado. Por último, enchia-se a barriga antes de dormir para se certificar de que o ano novo seria abundante, dando origem à um dos nomes do dia, Oíche na Coda Móire (A Noite da Grande Porção).

As evidências na Escócia

O Yule ou Nollaig

                As sobrevivências das celebrações do solstício de inverno persistiram na Escócia sob a forma do Natal cristão, conhecido como Nollaig, porém, em áreas onde a influência nórdica era mais forte, Yule também era um termo bastante utilizado, refletindo também na variedade de costumes do dia que são associados com o Yule nórdico (o festival do o solstício de inverno). É importante ressaltar também que uma boa parte dos costumes associados com o festival na Escócia são, obviamente, de origem nórdica, tal como o próprio nome sugere – fruto de um sincretismo entre as tradições gaélicas e nórdicas, sendo, portanto, difícil distinguir as tradições gaélicas “genuínas” das de influência nórdica.

Como foi dito acima, existia uma proibição da igreja com as turbulentas e barulhentas celebrações do Natal na Escócia, e por isso, houve uma transferência de muitos de seus costumes para o ano novo (Hogmanay), para que a data do Yule pudesse ser uma data de observância religiosa mais “calma”; no entanto, nas áreas de influência nórdica, os costumes do Yule permaneceram inabaláveis. Contudo, como nem todos estavam dispostos a mudar a data de suas celebrações, as tradições do Yule continuaram sendo observadas discretamente dentro de casa, tornando-se assim uma festa mais doméstica e discreta, em contraparte às celebrações comunitárias que ocorriam no passado. Após alguns anos, no entanto, vendo-se incapaz de negar a importância da data para os escoceses, a igreja aceitou sua derrota e o Yule pode continuar a ser observado nas famílias, porém, de uma forma mais discreta. Essa ligação e continuidade entre os dois festivais (Yule e Hogmanay) pode ser observado nos próprios nomes das celebrações, sendo o Yule conhecido como An Nollaig Mhór (O Grande Natal), e o ano novo, An Nollaig Bheag (O Pequeno Natal).

Assim como na Irlanda, a organização da casa na véspera do festival era fundamental – a casa e os estábulos eram pintados de branco, os cômodos eram limpos e a despensa era bem abastecida, para que assim, nenhum trabalho fosse feito no dia em si. Mantendo o padrão irlandês, todos os itens emprestados voltavam para seus donos e tomava-se o mesmo cuidado em não pedir/emprestar nada para ninguém.  As casas eram decoradas com ramos de abeto (ao invés do azevinho e da hera), e nas casas mais próximas da costa, algas marinhas também eram usadas. Ramos de sorveira eram colocadas acima das portas das casas para proteger o lar contra o Bom Povo que estavam à solta durante essa época.

O banquete de Yule era uma parte muito importante na celebração, podendo ser encontrado na mesa das famílias uma cerveja especialmente fermentada para o festival, conhecida como “Yule Ale” (Cerveja de Yule), o Brose de Yule, prato tradicional escocês feito com aveia, preparado com caldo de carne ao invés da forma tradicional com água ou leite, e entre as carnes, o ganso era tradicional (chamado de Yeel Guse), mas peixes também podiam ser feitos, sendo normalmente arincas defumadas (os Yeel Fish).

Além do banquete, o café da manhã do festival também era de grande importância, onde figurava o tradicional kebbuck de Yule (um queijo feito especialmente para o festival, caracterizando-se pela adição de alcaravias para a aromatização), cerveja, sour scones (bolos feitos com creme azedo e frutas de groselha), bolos diversos, bannocks e o tradicionalíssimo Pão de Yule (Yeel Brehd). Esse Pão de Yule era nada mais que um bannock de aveia comum, moldado em formato circular com as bordas entalhadas para representar os raios de sol, e em alguns casos, uma cavidade era feita no centro. Em Shetland, esses Pães era conhecido como Yule-brunnies (bannocks) e eram feitos com algum tipo de gordura e centeio, ao invés da aveia. Feitos individualmente para cada membro da família, os Pães de Yule eram feitos nas vésperas do festival e deixados aos cuidados de cada um até o café da manhã, onde seriam consumidos juntos com o kebbuck. Caso o bannock quebrasse durante a noite, a pessoa que estivesse guardando teria má sorte, mas se o dono mantivesse o bannock intacto até a manhã seguinte, ele ou ela poderia guardar um pedacinho para garantir boa sorte. Dependendo da idade das crianças, os Pães de Yule eram feitos maiores ou menores, e a tradição do Pão de Yule foi tão forte na Escócia que o festival também era conhecido como Oidhche nam Bonagan, a Noite dos Bannocks. Em algumas regiões da Escócia, o Sowan (um prato feito com água fermentada com casca de aveia) também era comum. O café da manhã era preparado antes do nascer do sol, e então, todos eram acordados um de cada vez para provar um pouco das comidas, servidas com pão. Era costume também colocar anéis, botões e moedas nos Sowans para que predições fossem feitas baseadas no que eles encontrassem em sua porção. Após o café da manhã, todos iam para fora fazerem previsões baseados no clima: um dia quente pressagiava um ano azarado e com muitos infortúnios, enquanto que um Yule nevoso e ventoso pressagiava uma estação agradável.  

Presente também na Irlanda era o costume de acender velas nas vésperas ou no dia do festival. Por meses antes do festival, as crianças juntavam os tocos de velas queimadas para que pudessem acender todas na manhã do festival enquanto tomavam café. Uma gigantesca vela, chamada de Vela de Yule, era acesa e esperava-se que ela queimasse durante doze noites e nas Hébridas Exteriores, existia o costume de acender velas em todas as janelas da casa;  caso alguém apagasse alguma vela, a casa teria azar. Esse costume de acender as velas foi tão importante que o festival também era conhecido como Oidhche Choinnle, a Noite das Velas. Nas vésperas do festival, deixava-se uma vela queimando a noite inteira na cozinha e a tradição nos conta que se colocava uma faca acima da mesa para que nenhum “trow” (seres encantados de Orkney e Shetland, de temperamento maligno, que visitavam as casas durante a noite e de origem muito provavelmente nórdica) entrasse na casa. Uma cerimônia muito interessante nos conta que, antes do amanhecer do festival, o chefe da família acendia uma vela e colocava dentro do crânio de uma vaca através de seu olho. Ele então levava o crânio aceso para a vacaria e dava comida para os animais, que comiam sob a luz de velas. Depois disso, ele voltava para casa e acordava todos, dizendo, “Que a bonança e a comida de Yule sigam vocês pelo ano inteiro!” Vale a pena notar que esse mesmo costume de tomar café da manhã à luz de velas também era presente na Irlanda, onde era visto como uma tradição auspiciosa.

Um outro costume bastante conhecido de Yule é a queima da chamada Tora de Yule, por vezes chamada de Calluch Nolic (“Velha/Cailleach do Natal”) e Yeel Carlin ou Yeel Cyarlin (“Carlin de Yule”). O costume consistia em, na véspera do festival, as famílias saiam de casa para ver quem conseguiria pegar a maior tora de madeira para deixar queimando na lareira durante a noite, por volta das 8 ou 9 horas. Quanto maior a tora, por mais tempo ela queimaria, e como tal, tomava-se grande cuidado para que o fogo não se apagasse, uma vez que seria difícil pedir fogo aos vizinhos, já que nada poderia ser dado ou emprestado no festival. Enquanto que alguns autores dizem que um grande cuidado era dado à tora, outros escrevem que a tora era jogada bruscamente na lareira e deixada lá para queimar e garantir calor na noite mais escura do ano. Algumas fontes dizem que era nessa tora que o Pão de Yule visto acima era preparado.

Em Lerwick existia a prática de se fantasiar nas vésperas do Yule, com os jovens indo de casa em casa pedindo doações como farls (qualquer tipo de pão achatado e circular cortado em quatro partes) e kebbucks para sua noite. Esses grupos de jovens eram chamados de gaisearan (“fantasiados”), gillean nollaig (“meninos do Natal”) ou nuallairean (“regozijadores”). As fantasias poderiam ser de muitos tipos (como marinheiros e soldados, por exemplo), e algumas vezes, os jovens colocavam uma barba falsa, se vestiam de palha e pintavam seus rostos com carvão ou farinha branca. Após a meia noite, esses jovens arrastavam grandes barris de alcatrão e lascas de madeira acesos pelas ruas com muita música, criando uma grande algazarra nas localidades.

Em algumas regiões da Escócia, como Shetland e Orkney, o Yule poderia se referir tanto ao dia do Natal em si como a toda a estação que o cercava, representando o período antes do dia, o dia do Natal e a semana até o ano novo. Assim, em Shetland, um arquipélago escocês com influência massivamente nórdica, as celebrações do Natal começavam sete dias antes do Yule com o festival conhecido como Tulya’s E’en – a noite em que os trows saíam de seus lares subterrâneos e vinham para a terra causar infortúnios, e por isso, ninguém saía de casa após o anoitecer (que se dava muito cedo, pela localização geográfica mais ao norte do planeta). Segundo Hutton, os fazendeiros colocavam uma cruz de palha no local onde os grãos eram guardados, faziam uma trança com o pelo de cada animal da fazenda e colocava na vacaria e carregavam também uma turfa em brasa em volta das construções da fazenda. A Noite de Helya acontecia após oa Tulya’s E’en e era a noite em que as crianças da casa eram abençoadas e purificadas através de uma cerimônia conhecida como “Midder Mary” (Mãe Maria), onde a mãe/avoô da casa esticava suas mãos sobre o berço ou cama das crianças e falava uma bênção própria. Beda, um monge inglês do século VIII, escreveu que a Noite de Helya era o mesmo festival conhecido como Modranicht (Mãe Noite ou Noite das Mães), um festival pagão dos anglo-saxões que acontecia na véspera do Natal. Na Noite de Helya, comia-se Brose feito com leite, ao invés de água ou caldo de carne (como acontecia no dia de Yule).

Para o Yule, todos ganhavam roupas limpas e novas (preferencialmente) e iam dormir com elas. Uma cerimônia bastante interessante era “receber o festival”, com uma pessoa acordando de manhã e indo até a porta para que o Yule pudesse entrar, e após isso, arrumava-se as cadeiras e a mesa, coberta com um pano limpo, onde era servido pão e queijo para “o Yule”; acreditava-se que a primeira pessoa que executasse essa cerimônia teria sorte. Como todo o trabalho tinha sido feito no dia anterior, o dia do Yule em si era dedicado à jogos e competições, como o futebol, o curling (jogo escocês semelhante ao hóquei, porém, jogado no gelo), shinty (jogo escocês também semelhante ao hóquei) e arremesso de martelo, enquanto que durante a noite aconteciam as festas e banquetes.

O Hogmanay

                O Hogmanay era o nome dado às celebrações do último dia antes do ano novo na Escócia. Acredita-se que o nome seja de origem francesa e é provável que se remeta à prática de presentear, tão comum no Hogmanay e em outras celebrações de ano novo no mundo inteiro.

                O mesmo padrão de limpeza do Yule acontecia no Hogmanay, com a casa sendo limpada, arrumada e decorada, assim como a vacaria e os estábulos. As dívidas eram quitadas, tudo o que havia sido emprestado voltava para seu dono, as roupas de cama eram trocadas e peças de roupas rasgadas eram costuradas. Toda a limpeza era feita no dia anterior pelo fato de nada poder deixar a casa no dia do ano novo (1 de janeiro), uma vez que qualquer coisa que saísse, incluindo as sujeiras, também levaria a sorte do lar. No banquete das vésperas, eram tradicionais os shortbreads (biscoitos escoceses com uma textura esfarelenta), gingerbreads (bolinhos de gengibre), os bannocks de Hogmanay (feitos com farinha de aveia), Black Bun (um bolo de frutas envolvido em uma camada de massa), pão de groselha, uísque, cerveja, Sowans e Het Pint (uma bebida escocesa feita com ale ou cerveja misturada com noz-moscada, ovos, uísque e açúcar). 

                Como no mesmo costume de Yule, tomava-se um grande cuidado para o fogo da lareira não se apagar, pelos mesmos motivos do festival (não se poderia pedir nada a nenhum vizinho, incluindo o fogo...), e por isso, muitas velas eram acesas para se certificar de que não faltaria fogo caso a lareira se apagasse. Orações e encantamentos eram feitos em frente ao fogo para afastar as influências malignas tão comuns nessas épocas limiares.

                Na virada do ano em Islay, havia uma cerimônia onde se trazia para dentro de casa um pouco de turfa, pão e água, simbolizando a entrada desses itens na casa no ano seguinte. Uma outra cerimônia consistia em, na virada do ano, abrir a porta dos fundos para deixar o ano velho sair, e abrir a porta da frente para deixar o ano novo entrar. Em Harris, enterrava-se simbolicamente o ano velho, enterrando uma garrafa de uísque, um bannock de cevada e um peça de queijo na colina mais próxima. Existem teorias de que esses alimentos eram enterrados como uma oferenda propiciatória para os espíritos locais.

                Ainda na virada do ano, o homem da casa ia até a porta para receber o ano novo (ecoando na cerimônia de “receber o Yule”) e a família ia para as janelas, fazendo barulhos com panelas, chifres e sinos para afastar os espíritos malignos, e depois disso, brindes eram feitos e presentes, trocados. As mulheres solteiras da casa corriam para o poço local para colher a “nata”, ou a primeira água do ano, e quem conseguisse, arrumaria um bom marido. Em outros lugares, as mulheres iam até o poço para lavar os utensílios de ordenha para garantir uma boa abundância de leite nas vacas.

                Na noite após a virada do ano, os jovens se fantasiavam e saíam em grupos para pedir lanches e presentes. Esses grupos eram conhecidos como “Gillean Callaig” e um dos seus membros vestia a pele de uma vaca morta no dia de S. Martinho (11 de novembro), com chifres, cascos e cauda, e iam de casa em casa na vizinhança pedindo para entrar. Uma vez dentro de casa, lanches como uísque, queijo, pão e carne eram oferecidos aos jovens do grupo. Vale a pena observar que a vaca também estava presente no Yule, com o crânio da vaca iluminado por uma vela.

                Contudo, talvez o costume mais tradicional do Hogmanay na Escócia seja a prática do first-footing, que consistia em grupos de pessoas ou indivíduos sozinhos indo visitar e cumprimentar os amigos e parentes próximos após a virada do ano. O tipo de pessoa (homem, mulher, cor do cavalo, temperamento, humor, etc.) podia ser lido como um presságio bom (quando o first-footer era homem ou homem de cabelos escuros, por exemplo) ou ruim (quando era uma mulher ou um homem ruivo). Tradicionalmente, o first-footer também deveria levar um presente – normalmente uma garrafa de uísque, bannocks, Sowans ou até mesmo frutas exóticas, como laranjas; se o first-footer não trouxesse presentes, era um mau sinal. Se o first-footer fosse uma pessoa desejável (já que pessoas desagradáveis também podiam fazer a visita...), distribuia-se bebidas como Sowans, Het Pint ou Athole Brose (o Brose tradicional feito com aveia misturado com mel, uísque e, em algumas ocasiões, creme de leite), e em seguida, oferecia-se shortbreads, Black Bun e outros pratos da época, e a noite seguia com histórias, danças e músicas. Se o first-footer fosse uma pessoa indesejável, atirava-se sal no fogo antes dele entrar, e ao sair, o chefe da casa colocava um carvão em brasa em um balde de água para removar as influências negativas trazidas por essa pessoa.

                Por último, uma fogueira era acesa em Biggar para despedir-se do ano velho. Essa fogueira comunitária era acesa por um membro da localidade, e ao redor dela, as festividades aconteciam.

As evidências na Ilha de Man

O Natal (An Nollaick), o dia de S. Estêvão (Laa’l Steaoin) e o ano novo

                Temos muitas poucas evidências sobre os costumes natalinos e invernais na Ilha de Man, comparado com a Irlanda e Escócia, e os que existem, são reflexos de costumes existentes dos dois países citados.

                Durante o Natal a casa era decorada com hera e azevinho, e da mesma forma como na Irlanda, as peças teatrais do tipo “mumming” eram comuns, com grupos teatrais de meninos conhecidos como “Meninos Brancos” – sendo assim chamados por usarem vestes brancas – que encenavam peças de tratro em troca de presentes. Contudo, diferente da crença irlandesa de que o Povo do Sídhe estavam à solta para causar problemas nesse dia, a crença manesa afirmava que as bruxas e criaturas encantadas como o Bugganee e o Phynodderee não poderiam causar nenhum problema nessa data.    

Assim como na Irlanda, o natal na Ilha de Man era celebrado com a caça à carriça. Diferente da Irlanda, no entanto, era que as pessoas se levantavam na manhã do Natal para caçar e matar a ave, e depois, levavam-na para a igreja. A ave era enterrada com muita cerimônia, com canções cantadas em manês. Foi somente mais tarde que o costume migrou para o dia de S. Estêvão (Laa’l Steaoin), no dia 26 de dezembro, onde havia a procissão da ave morta no topo de um mastro decorado com fitas e folhas de árvores que não perdiam as folhas no inverno, como o pinheiro. A procissão ia de casa em casa, com músicas e danças, na esperança de obter dinheiro, e no final da procissão, as penas da carriça morta eram distribuídas acreditando-se ser uma proteção natural contra a bruxaria.

No ano novo, a prática do first-footing era comum na Ilha de Man, tal com na Escócia, sendo conhecido como qualtagh em manês. Com a mesma proibição de não varrer a casa (para não tirar nada de dentro dela, incluindo a sujeira), se fosse necessário a limpeza, tomava-se cuidado em varrer a casa da soleira da porta até a lareira, para que a sujeira fosse para lá e não para fora, e tal como na Irlanda e Escócia (sem surpresas!), nada poderia ser dado ou emprestado.

Ecos da Mari Lwyd ou Láir Bhán são presentes na Ilha de Man sob a forma da Laare Vane (“Égua Branca”), porém, o ícone de madeira só aparecia no jantar do Dia dos Reis (considerado o último dia de Natal em alguns países europeus, por volta dos dias 5 ou 6 de janeiro), onde ela era levada para dentro da casa durante a janta por uma pessoa coberta com um lençol branco com uma cabeça de égua de madeira em sua cabeça. Ele rodeava a mesa batendo com a cabeça da água nos convidados que, depois de um tempo, corriam atrás da pessoa.

Divindades e as evidências (?) nos mitos

                Diferentes de outros festivais, como o Oímelc muitíssimo associado com Brigit ou o Lugnasad, associado com Lugh e Tailtiu, não temos evidências de divindades sendo mencionadas estando explicitamente relacionadas com o festival, e tampouco temos evidências nítidas de mitos estando relacionados diretamente com o festival. Contudo, existem certos mitos que, através de estudos comparativos com outras regiões célticas (mais especificamente o País de Gales), nos mostram uma certa relação com a época do solstício de inverno, ou, pelo menos, com o período de inverno como um todo. E é o que veremos a seguir.

                Vamos começar com as divindades que possuem uma relação mais confirmada com a estação invernal. Cailleach, sem dúvidas, é a deusa mais relacionada com a estação invernal como mostra algumas evidências relacionadas a ela. O autor K. W. Grant nos conta que, no início do inverno (provavelmente no Samhain), Cailleach lavava suas mantas no redemoinho de Corryvreckan, localizado entre as ilhas de Jura e Scarba, a oeste da Escócia. Antes da lavagem começar e três dias antes do “caldeirão ferver”, o barulho de uma tempestade poderia ser escutado pelo povo da costa há vinte milhas de distância. Quando ela terminava de lavar, a Escócia ficava “branca como a neve”, em alusão à neve que comeaçava a cair. Donald Mackenzie em seu conto folclórico conta que durante o início do inverno, Cailleach ordenhava suas corças nos topos das montanhas, e quando os ventos sopravam a espuma dos baldes de ordenha, ela ficava congelada no topo das colinas – uma outra referência à neve e Mackenzie chama Cailleach de “A Rainha do Inverno”. O folclore nos fala que Cailleach manejava uma marreta ou um pilão para que nenhuma vegetação crescesse no período do inverno – que é quando ela reinava – e, por volta do mês de janeiro, a natureza começava a mostrar sinais de florescimento, e estando alarmada por isso, ela convoca os lobos da tempestade (Faoiltich), que causavam tempestades até metade de fevereiro. Ela tenta prolongar seu reinado invernal até meados de março, causando ainda mais temepstades, mas quando finalmente desiste, Cailleach joga sua marreta debaixo de um azevinho (que faz com que nenhuma grama em torno da árvore cresça), e é transformada em pedra como punição – ou, em outras versões, ela vai para o Poço da Juventude para ficar jovem novamente, envelhecendo até o inverno seguinte, quando tudo começa de novo.

                É importante ressaltar que todo o folclore (ou a maioria, até onde se sabe...) que relaciona Cailleach com o inverno é proveniente de fontes escocesas; na Irlanda, onde ela também era conhecida como Buí ou Sentuinne (“Velha Mulher”), seus atributos estão mais relacionados com a velhice (tal como na Escócia) e a soberania da terra. Ainda que os costumes escoceses relacionados ao Yule/solstício de inverno não apontem diretamente para Cailleach sendo celebrada na data, existe uma menção a ela no ato de queimar a Tora de Yule, conhecida também como Caillech Nollaig (“Cailleach/Velha do Natal”) ou Yeel Carlin (“Carlin de Yule”), sendo Carlin um de seus nomes. Em algumas fontes, dizia-se que a tora recebia o maior cuidado possível, enquanto que em outras, a tora era super descuidada, sendo jogada na lareira para queimar. É tentador ver a Tora de Yule representando Cailleach como o espírito do inverno, que está sendo “destruída” no dia do solstício, quando o sol, a luz e o calor começavam a voltar. Ainda que as fontes, na minha opinião, apontem para uma crença parecida, não temos como confirmar, sendo, portanto, uma gnose pessoal. Essa crença de destruir uma efígie representando o espírito do inverno também é vista no Oímelc, em uma prática escocesa, quando se destruía uma serpente para simbolizar a anulação dos poderes de Cailleach como o espírito do inverno e o triunfo de Brigit como a deusa primaveril. Similarmente, em alguns países eslavos existe uma cerimônia similar, com a queima e afogamento de uma efígie da deusa Marzanna (também deusa do inverno), com o objetivo de destruir a sua presença (o inverno) para que a primavera pudesse chegar.

                Na Irlanda, o folclore nos conta que as deusas Áine e Grian representam, respectivamente, o sol quente do verão e o sol fraco do inverno. As duas deusas, que são irmãs, possuem uma colina uma próxima da outra – Cnoc Áine e Cnoc Gréine. As tradições locais nos contam que essas duas deusas reinavam durante os períodos do verão e do inverno, com Áine estando relacionada com o solstício do verão, enquanto Grian estava associada com o solstício de inverno, podendo sugerir, uma troca no “reinado” entre essas duas irmãs; contudo, não sabemos se os solstícios marcavam o início ou o fim do reinado delas. Particularmente, acredito que os solstícios marcavam o fim de seus “reinados”, com o solstício de verão anunciando o fim do reinado de Áine e o início do reinado de Grian, já que o sol agora começava a decair e os dias começavam a ficar mais curtos (e frios!), enquanto que o solstício de verão anunciava o fim do reinado de Grian, já que o sol e o calor agora retornava, dando espaço para o reinado de Áine. Entre os gaélicos em geral, dizia-se que o ano era dividido em duas partes – a metade escura e a metade clara, também conhecidas como “O Pequeno Sol” e “O Grande Sol”, respectivamente, e assim, poderíamos facilmente dizer que Grían reinava no período do “Pequeno Sol”, na metade escura do ano, enquanto Áine reinava no período do “Grande Sol”, na metade clara do ano. Por outro lado, como as evidências são escassas e somos deixados para a especulação, ao invés de Áine e Grian serem associadas com os períodos da metade escura e da metade clara, pode ser que elas somente sejam associadas com os meses de verão e inverno, respectivamente, uma vez que as metades clara e escura englobam meses tanto de verão, como de inverno. Por último, além dessa evidência irlandesa sobre Grian, dizia-se que na Escócia uma figura conhecida como “Grianann” (Pequeno Sol) era a mãe de Cailleach, sendo provável que essa figura escocesa seja a mesma que a Grian irlandesa.

                Existem alguns praticantes que associam essa época do ano a deusa irlandesa Macha – deusa dos cavalos e da soberania – pela sua suposta relação com a deusa galesa Rhiannon – também deusa dos cavalos e da soberania. Rhiannon, por sua vez, é muitíssima associada com a cerimônia da Mari Lwyd que acontecia no País de Gales, onde alguns estudiosos modernos acreditam que a “égua” utilizada nas celebrações, indo de porta em porta, é um simbolismo usado para representar Rhiannon que, em seu mito, busca Pryderi, seu filho sequestrado quando era um bebê. Pryderi, representando o sol, é então procurado por sua mãe na noite mais escura do ano para que a luz possa voltar novamente ao mundo. Ainda que Macha possua, de fato, duas evidência que a conecte com os cavalos, tal como Rhiannon (ela disputou uma corrida de cavalos enquanto estava grávida e deu a luz à dois filhos gêmeos quando venceu e o cavalo de Cuchulainn é conhecido como “Liath Macha” – Cinzento de Macha), o tema do filho desaparecido/sequestrado é inexistente em seu mito e tampouco na mitologia irlandesa, até onde me lembro. Assim, ainda que Rhiannon possa ter de fato uma relação com a época do solstício de inverno no País de Gales, não podemos dizer dizer que Macha também a tenha na Irlanda.

                Além de Macha, existe uma interpretação do deus Óengus mac Óg também ser relacionado com a época do solstício de inverno de acordo com algumas evidências. Primeiro, Óengus é descrito como o dono do Brugh na Boinne (Palácio do Boyne, atual Newgrange), um monumento pré-histórico que está alinhado com o nascer do sol do solstício de inverno, de forma que a luz do sol na manhã dessa data ilumine o seu interior, e portanto, alguns praticantes interpretam essa “entrada” da luz do sol invernal como a entrada de Óengus no palácio, assumindo sua aquisição quando, através de uma estratagema com seu pai (ou com seu padrastro, em algumas versões), ele adquiri o Brugh. Uma outra evidência nos mostra que Óengus Mac Óg (Óengus, o Filho Jovem) é comparado com o Mabon (Jovem Divino ou Filho Divino) galês, que por sua vez está relacionado com o solstício de inverno, de acordo com alguns estudiosos, pelo fato de seu mito figurar por volta da época do solstício – de acordo com a história, Mabon é sequestrado de sua mãe Modron (“Mãe”) quando ele tinha três anos de idade e é aprisionado em Caer Loyw (atual Gloucester, “Cidade de Luz”). Ele então é resgatado pelos guerreiros do Rei Arthur, que o levam de volta para a corte do Rei, onde somente ele poderia caçar Twrch Trwyth – um homem maligno que foi transformado em javali. Novamente, seu mito é interpretado com Mabon representando o sol do inverno que é raptado na noite mais escura do ano, e como seu mito possui paralelos com o mito de Pryderi (que também é sequestrado), existe então essa teoria de que ele seja associado com a época do solstício, consequentemente, tal como Óengus. Contudo, devemos ser cautelosos, uma vez que não há realmente uma evidência forte, além do nome, que relacione Óengus com Mabon, assim como o tema do sequestro não aparece no mito de Óengus.  

Conclusão e sinopse dos costumes

                Como vimos, o solstício de inverno é um festival que, embora não se tenha evidências diretas de celebração entre os gaélicos (e os povos célticos, em geral), é inegável que o momento tenha passado despercebido entre eles, como os monumentos pré-históricos alinhados astronomicamente com o amanhecer da data nos mostram, além dos próprios costumes vistos nesse texto, ainda que alguns deles tenha uma origem visivelmente estrangeira, mais precisamente, nórdica. Se acreditarmos que houve realmente uma celebração ritualística para os gaélicos pré-cristãos nessa época do ano, é provável que os vestígios dessas celebrações tenham sobrevivido nas atuais (ou nem tão atuais assim...) costumes envolvendo o Natal e o Ano Novo (especialmente na Escócia, onde as tradições do Natal e Ano Novo frequentemente se mesclam devido à mudança da data das celebrações) e, provavelmente, nas procissões do dia de S. Estêvão, que pode sugerir uma origem “pagã”. Além disso, ainda que muitas cerimônias e tradições associadas com o dia tenham uma origem visivelmente nórdica, outros não são encontrados em áreas nórdicas, sugerindo uma “originalidade” gaélica, como é o caso das procissões do dia de S. Estêvão na Irlanda e o jantar com a Laare Vane na Ilha de Man.

                Seja como for, tal como muitas outras culturas pré-cristãs espalhadas pela Europa que viam o dia do solstício como um dia especial, quando a sol voltaria a sua corrida pelo seu ápice, que se daria no solstício de verão, e portanto, a luz e o calor estariam cada vez mais próximos, nós, politeístas gaélicos ou praticantes de qualquer forma de religiosidade céltica, podemos observar a sacralidade dessa data tão especial. Assim, elaborei a sinopse de costumes e práticas associadas com o solstício de inverno nos três países gaélicos para que possamos ter uma visão geral destes e ver onde os costumes se mesclam, e para que também possamos ter uma base mais resumida dessas práticas para que possamos nos basear e fazer as nossas próprias observações do dia (ver Sugestões para uma celebração moderna).
  • Limpeza e organização da casa nas vésperas do festival, sendo um costume presente nos três países gaélicos, entendido de forma a arrumar a casa para a chegada da estação. A arrumação deveria ser sempre nas vésperas do festival para que nenhum trabalho seja feito no dia ou para que, quando retirasse a sujeira da casa, a sorte não fosse embora também.
  • Decoração da casa, em todos os países gaélicos com sempre-viva, azevinho, hera e louro, enquanto que em regiões costeiras da Escócia, alga marinha também podia ser usada na decoração.
  • Acendimento de velas, com uma grande vela branca na janela da cozinha na Irlanda e outras velas menores no restante da casa para guiar os viajantes solitários, os sem-teto ou até mesmo o espírito dos mortos. Uma vela vermelha também era acesa dentro de um nabo escavado. Na Irlanda, uma vela era acesa para cada membro da família morto no último ano. Na Escócia, velas também eram acesas na casa além de uma na cozinha, e uma grande vela chamada “Vela de Yule” era deixada acesa para queimar por doze dias; uma outra vela também era acesa dentro do crânio de uma vaca que era posteriormente levado para a vacaria.  
  • O costume irlandês de deixar três tigelas de água na janela para que os mortos pudessem abençoar a água e serem recebidos dentro de casa.
  • O queima da Tora de Natal na Irlanda, para garantir luz e calor para o lar na noite fria de inverno. Na Escócia, queimava-se também a Tora de Cailleach.
  • Um grande e variado banquete na Irlanda e na Escócia, realizado nas vésperas e na noite do festival, com receitas tradicionais da época. Na Escócia, no dia do Natal, um café da manhã era tomado à luz de velas com mais receitas tradicionais.
  • A troca de presentes, na Irlanda, como forma de reforçar os laços sociais e ajudar os mais necessitados.
  • Competições de arremesso e caça, na Irlanda e jogos também eram jogados na Escócia durante o dia do Yule e do Ano Novo, uma vez que todo o trabalho havia sido feito nas vésperas.
  • As peças teatrais do tipo “mumming”, na Irlanda, encenando temas folclóricos e religiosos ou lutas de espadas ao som de música, simbolizando a luta do bem contra o mal.
  • A procissão dos Meninos-Carriça na Irlanda no dia de S. Estêvão, desfilando uma carriça morta no topo de um arbusto de azevinho ou mastro, decorados com fitas coloridas, e cantando músicas para pedir doações de comida ou dinheiro para cada casa da localidade.
  • A crença irlandesa de que o Povo de Sídhe estava a solta no Ano Novo, fazendo com que as celebrações fossem mais discretas e dentro de casa. No Natal da Escócia, ramos de sorveira eram colocadas acima das portas para a proteção contra o Bom Povo e uma faca era colocada na mesa da cozinha para afastar as criaturas encantadas malignas. Na Ilha de Man, no entanto, acreditava-se que o povo encantado não podia causar danos no dia do Natal.
  • Procissões de meninos no Ano Novo, além das procissões do dia de S. Estêvão, com meninos fantasiados e pedindo doações, na Irlanda. Na Escócia e na Ilha de Man, também haviam procissões de meninos fantasiados no Natal com o mesmo propósito.
  • A cerimônia irlandesa de triturar um bolo ou pão na porta ou na janela, para garantir um ano novo abundante.
  • A feitura do Pão de Yule na Escócia, nas vésperas do Natal, sendo cada um dado para um membro da família que deveria guardá-lo até o café da manhã do dia seguinte.
  • A cerimônia escocesa de receber o Yule, abrindo a porta de entrada da casa e colocando pão e queijo na mesa para receber o festival.
  • A cerimônia escocesa de trazer a abundância para a casa, simbolizado com o ato de trazer turfa, água e pão para dentro de casa na virada do ano novo.
  • A cerimônia escocesa de enterrar o ano velho, enterrando simbolicamente um bannock de cevada, uma garrafa de uísque e uma peça de queijo. Também era feita uma despedida do ano velho e recebimento do ano novo, abrindo a porta dos fundos para o ano velho sair e abrindo a porta da frente para o ano novo entrar.
  • A tirada da primeira água do poço após a virada do ano, feita pelas meninas solteiras para arrumarem um marido e as donas de casa lavavam os utensílios de ordenha nessa água para abençoar a produção leiteira nas vacas.
  • A prática escocesa e manesa do first-footing, consistindo de visitar os amigos e parentes, levando um presente (preferencialmente...) após a virada do ano.
  • Acendimento de fogueiras comunitárias, na Escócia, no dia do ano novo.
  • O desfile da Laare Vane durante a ceia, na Ilha de Man.

Sugestões para uma celebração moderna

                De acordo com o texto e os costumes, práticas e ritos que vimos descritos no texto acima, elaborei algumas sugestões para uma celebração moderna, que vocês podem usar como base ou como inspiração para criar a sua própria celebração, caso você ou seu grupo optem por celebrar os festivais menores (solstícios e equinócios). Ainda que muitos costumes são inviáveis por não pertencermos mais à uma comunidade rural, ou à uma comunidade mesmo, já que alguns costumes são comunitários e envolvem a participação de muitas pessoas (como nas procissões), alguns simples e mais domésticos podem facilmente serem seguidos dentro de casa, com sua família e/ou amigos. Ainda que eu tenha unificado todos os tópicos aqui, sem distinguir a origem de cada um, você pode seguir somente os costumes da Irlanda ou Escócia, se assim desejar, se o seu foco religioso foi mais direcionado a alguns desses países em especial, mas fica ao seu critério.

1. Limpe e arrume toda a sua casa nas vésperas do solstício e certifique-se de que sua despensa está cheia. Não deixe que fique nenhum trabalho para o dia seguinte, incluindo o cozimento das comidas do banquete, caso organize um, e do café da manhã.

2. Decore sua casa com as plantas associadas com o festival, como sempre-viva, azevinho, hera, e louro. Caso não tenha acesso à essas plantas, utilize a vegetação que floresce na sua região nessa época do ano.

3. Acenda uma grande vela branca na janela da cozinha (de preferência, que dure por mais tempo possível) e outras velas menores no restante da janela das casas. Acenda uma vela vermelha dentro de um nabo esculpido. Se tiver um membro da família que morreu no último ano, acenda mais uma vela em sua homenagem.

4. Deixe três tigelas de água na janela para que os espíritos dos mortos possam abençoar a água.

5. Queime uma tora de madeira em sua lareira (se tiver uma), ou pegue uma tora de madeira e acenda velas sobre sua superfície simbolizando essa queima.

6. Organize um banquete com alimentos e pratos tradicionais da época, que incluem: shortbreads, gingerbreads, bannocks de aveia, Black Bun, pão de groselha, uísque, cerveja, Sowans, Het Pint, ale, Brose, ganso, peixe, carne cozida ou assada, maçãs, doces em geral e massas (como pães e bolos).

7. Organize um café da manhã à luz de velas, com pratos tradicionais do café da manhã de Yule, que incluem: queijo com alcaravias (kebbuck), cerveja, sour scones, bolos diversos, bannocks, o Pão de Yule e Sowans.

8. Faça o Pão de Yule para cada membro de sua família, no dia anterior, moldando-o em formato circular e fazendo um entalhe nas bordas para representar o sol.

9. Dê presentes para seus familiares e/ou amigos mais íntimos. Faça doações para aqueles que necessitam.

10. Proteja-se contra o Povo dos Sídhe colocando um ramo de sorveira na porta de sua casa e colocando uma faca em cima da mesa da cozinha na noite do festival.

11. Acenda fogueiras.

12. Faça a cerimônia de “receber o festival” convidando-o na porta da frente de sua casa e colocando pão e queijo sobre a mesa.

13. A Laare Vane ou qualquer ícone equino de madeira pode fazer parte de suas celebrações ritualísticas ou da decoração da sua casa no festival.

14. Honre divindades associadas com a época, como Cailleach (mais provavelmente) ou Grian. Se achar apropriado (ver Divindades e as evidências (?) nos mitos), Óengus mac Óg e Macha também podem fazer parte de seus ritos.

14. Divirta-se ou descanse. Como todo o trabalho foi feito no dia anterior, aproveite o festival para descansar do trabalho dentro de casa ou saia com amigos e/ou membros do seu grupo para se divertir, confraternizar e/ou jogar jogos.

Seja como for sua celebração ou sua não-celebração, que Grian possa abençoar vocês e suas famílias! Feliz Meán Gheimhridh.   

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