domingo, 22 de outubro de 2017

O Roubo do Gado de Regamna

Táin Bó Regamna
O Roubo do Gado de Regamna[1]

            Quando Cuchulain dormia em Dun Imrid[2], ele ouviu um grito que veio do norte, vindo diretamente em sua direção; o grito era terrível e o mais aterrorizante para ele. Ele acordou do meio de seu sono e caiu, com a queda de uma carga pesada, de sua cama[3] no chão do lado oriental de sua casa. Ele então foi para fora com suas armas e ficou no gramado diante da sua casa, mas sua esposa trouxe suas armas e roupas quando o seguiu. Ele viu Laeg em sua biga atrelada, vindo de Ferta Laig[4], do norte, e disse “O que te traz aqui?” “Um grito,” disse Laeg, “que escutei nas planícies.” “De que lado ele veio?” disse Cuchulain. “Pareceu que veio do noroeste,” disse Laeg, “que é, ao longo da grande estrada de Caill Cuan[5].” “Vamos então seguir o som para sabermos o que é,” disse Cuchulain.


            Logo a seguir eles saíram até chegarem em Ath Da Ferta[6]. Ao chegarem, imediatamente ouviram o chocalhar de uma biga vindo do quarteirão do argiloso distrito de Culgaire[7]. Eles então viram a biga vindo diante deles, com um cavalo castanho (lit. vermelho) nela. O cavalo tinha apenas uma pata e o mastro da biga atravessava seu corpo, com um calço que o deixava preso na fronte do cavalo. Uma mulher ruiva[8] estava na biga, com um manto vermelho sobre si; ela tinha duas sobrancelhas ruivas e o seu manto caía entre as duas ferta[9] atrás de sua biga, atingindo o chão atrás dela. Um grande homem estava ao lado de sua biga, com um manto vermelho[10] sobre si e um bastão bifurcado de aveleira em suas costas, conduzindo uma vaca em sua frente.

            “Aquela vaca não está feliz sendo conduzida por ti!” disse Cuchulain. “A vaca não lhe pertence,” disse a mulher, “ela não é a vaca de nenhum amigo ou conhecido teu.” “As vacas de Ulster,” disse Cuchulain, “estão sob meus próprios cuidados.” “Tu darás uma decisão sobre a vaca?” disse a mulher, “tua mão está sendo colocada em uma tarefa muito grande, ó Cuchulain.” “Por que é a mulher que me responde?” disse Cuchulain, “e não o homem?” “Tu não se dirigiste ao homem,” disse a mulher. “Ah!”, disse Cuchulain, “eu não me dirigi a ele pois tu mesma já respondeste por ele.” “h-Uar-Gaeth-Sceo-Luachair-Sceo[11] é o seu nome,” disse ela.

            “Ai! Seu nome é maravilhoso,” disse Cuchulain. “Responde tu mesma[12], já que o homem não responde. Qual é o teu nome?” disse Cuchulain. “A mulher com quem falas,” disse o homem, “é Faebor-begbeoil-cuimdiuir-folt-scenbgairit-sceo-uath[13].” “Estás zombando de mim?” gritou Cuchulain, e com isso, ele pulou para sua biga. Ele colocou seus dois pés nos dois ombros dela e em seguida, sua lança no topo de sua cabeça. “Não brinque com armas afiadas comigo!” “Nomeia tu então com o teu nome verdadeiro!” disse Cuchulain. “Vá embora!” disse ela, “Sou uma satirista, de fato,” ela disse, “e ele é Daire mac Fiachna de Cualnge[14]: eu trouxe a vaca como recompensa por um poema-mestre.” “Deixa-me ouvir o poema então,” disse Cuchulain. “Apenas saia de cima de mim,” disse a mulher, “não[15] é a melhor coisa para ti balançar isto sobre minha cabeça.” Depois disso, ele a deixou até ficar entre os dois mastros (ferta) de sua biga, e ela cantou para ele[16] (...). Cuchulain deu um salto na biga e não viu mais o cavalo, nem a mulher, nem a biga, nem o homem e nem a vaca.

            Ele então viu que ela tinha se tornado um pássaro negro sobre um galho perto dele. “Tu és uma mulher perigosa[17] (ou mágica),” disse Cuchulain. “Daqui em diante,” disse a mulher, “esta terra barrenta será chamada de dolluid (do mal),” e tem sido Grellach Dolluid[18] desde então. “Se eu apenas soubesse que eras tu,” disse Cuchulain, “não teríamos nos separado assim.” “O que tu fizeste,” disse ela, “será maligno para ti.” “Tu não tens poder contra mim,” disse Cuchulain. “Tenho poder, de fato,” disse a mulher, “é na proteção da tua morte que eu estou e estarei,” disse ela. “Eu trouxe esta vaca do monte encantado de Cruachan[19] para que ela possa se reproduzir com o Touro Negro[20] de Cualnge, que é o Touro de Daire mac Fiachna. É nesse momento que tu estarás em vida, enquanto o bezerro que está dentro do corpo da vaca tiver um ano, e será isso que conduzirá o Táin Bó Cualnge[21].” “Eu mesmo serei o mais glorioso por este Tain,” disse Cuchulain. “Eu matarei seus guerreiros, eu quebrarei suas grandes tropas, eu sobreviverei ao Tain.”

            “De que forma poderás fazer isto?” disse a mulher, “pois quando tu estiveres em combate contra um homem de força igual a ti, igualmente rico em vitórias, teu igual em feitos, igualmente feroz, igualmente incansável, igualmente nobre, igualmente bravo e igualmente grande, eu serei uma enguia e me enlaçarei em teus pés no vau para que seja para ti uma grande guerra desigual.” “Eu juro para os deuses que os homens de Ulster juram,” disse Cuchulain, “que eu te quebrarei contra uma pedra verde do vau e tu não terás a cura de mim se tu não me deixares.” “Eu, de fato, serei uma loba cinza contra ti,” disse ela, “e eu tirarei uma faixa[22] de tua pele da tua mão direita até a esquerda.”

            “Eu te espancarei,” disse ele, “com a lança, até teu olho esquerdo ou direito sair de tua cabeça e tu nunca terás a cura de mim, se tu não me deixares.” “Eu serei, de fato,” disse ela, “como uma novilha branca de orelhas vermelhas para ti, irei até um lago perto do vau onde tu estarás em um combate contra um homem que é teu igual em feitos, cem vacas brancas de orelhas vermelhas estarão atrás de mim e a ‘verdade dos homens’ será testada neste dia; eles te decapitarão.” ”Eu te acertarei com um golpe do meu eslinga,” disse Cuchulain, “para quebrar seja tua perna esquerda ou a direita embaixo de ti e tu não terás a minha ajuda se tu não me deixares.”

            Eles[23] se separaram, Cuchulain voltou para Dun Imrid e a Morrigan foi com sua vaca para o monte encantado de Cruachan. Desse modo, este conto é um prelúdio para o Táin Bó Cualnge.

Fonte: “Cattle-Raid of Regamna”, em Heroic Romances of Ireland, volume II,  de A. H. Leahy. Disponível em: <http://www.sacred-texts.com/neu/hroi/hroiv2.htm>. Acesso em: 23 de agosto de 2017.

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[1] A. H. Leahy dá o título “A aparição da Grande Rainha para Cuchulain” e o tradutor Windisch dá “O Roubo do Gado de Morrígan” para este mito, já que o nome “original” (Roubo do Gado de Regamna) não é conectado com nada no texto. O título leva o nome de Morrígan ou Grande Rainha já que esta mesma divindade é mencionada no final do texto, de acordo com a versão do MS Egerton 1782; no Livro Amarelo de Lecan, ao invés de Morrígan, é Badb que aparece. (Nota de tradução)
[2] Ronald Hicks em seu artigo “Place and Time in the Tána” comenta que este lugar esteja na Planície de Muirthemne, atual Dundalk. (N.T.)
[3] Ou “de seu quarto”. A palavra imda, às vezes é traduzida como “cama”, e também às vezes como “quarto” por Windisch como no Bruidne Da Derga por Whitley Stokes. (Nota original)
[4] Não identifiquei a localização. (N.T.)
[5] Lough Cuan era o antigo nome para Strangford Lough. (N.O.)
[6] Identificado para Ronald Hicks estando em Slieve Fuad, o ponto mais alto da Montanha Fews, no Condado de Armagh. (N.T.)
[7] Não identifiquei a localização. (N.T.)
[8] Este termo está no texto de Egerton: o texto do Livro Amarelo de Lecan coloca “Uma mulher ruiva lá, com suas duas sobrancelhas ruivas, e sua capa e suas vestes: a capa caía, etc.” (N.O.)
[9] Não se sabe ao certo o que as ferta eram: Windisch traduz como “rodas”, mas não dá este significado em seu dicionário: as ferta estavam atrás da biga e poderiam ser tiradas para medir a profundidade de um vau. Sugere-se que estes eram mastros, projetando-se para trás para equilibar a biga, e talvez, poderiam ser ajustados para se projetar mais ou menos. (N.O.)
[10] Este é o texto do Egerton; o Livro Amarelo de Lecan coloca “uma túnica forptha nele”, mas o significado de forptha é desconhecido. (N.O.)
[11] Vento-frio-e-muitas-precipitações. (N.O.)
[12] Esta parte está corrompida no Livro Amarelo de Lecan; a versão de Egerton foi adotada aqui. (N.O.)
[13] Borda-de-boca-pequena-igualmente-pequena-cabelo-curto-lasca-muito-clamor. (N.O.)
[14] Atual Península de Cooley, no Condado de Louth. (N.T.)
[15] “Não é melhor para ti que,” está somente na versão de Egerton. (N.O.)
[16] Ver a introdução para a omissão deste poema. (N.O.) O tradutor fala que o irlandês original estava muito corrompido e de difícil leitura, então não pôde traduzir, mas é basicamente um relato de zombaria da Guerra de Cualnge. (N.T.)
[17] Windisch tem dúvidas sobre o significado desta palavra. Ele traduz como “perigosa”, mas também pode significar “mágica”, apesar dele não achar isso. Em uma nota, ele diz que o significado “perigosa” é incerto. (N.O.)
[18] Não identifiquei a localização. (N.T.)
[19] Atual Rathcroghan, no Condado de Roscommon. (N.T.)
[20] Em Egerton, “o Pardo de Cualnge”. (N.O.)
[21] Traduzido como “Roubo das Vacas de Cualnge”, é um épico irlandês que conta a história da guerra entre Ulster e Medb, a rainha de Connacht, após ela decidir roubar o touro Donn Cuailnge mas é impedida pelo guerreiro Cuchulain. (N.O.)
[22] A palavra é deixada incerta na tradução de Windisch. A palavra é breth no Livro Amarelo de Lecan e breit no Egerton. Breit pode ser uma faixa de um material de lã, ou uma faixa de terra; assim, o significado de uma faixa de pele parece possível. (N.O.)
[23] Toda esta frase até o “desse modo, este conto” é da versão de Egerton. O Livro Amarelo de Lecan coloca “Depois disso, a Badb o deixou e Cuchulain foi para sua casa, desse modo, etc.” (N.O.)

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