sábado, 22 de julho de 2017

A saga de Fionn

Fonte: MACCULLOCH, J.A. “The Religion of the Ancient Celts”. 1911. Disponível em: <http://sacred-texts.com/neu/celt/rac/index.htm>.

CAPÍTULO VIII.
A saga de Fionn

                Os personagens mais proeminentes da saga de Fionn, depois da morte de Cumal, o pai de Fionn, são Fionn, seu filho Oisin, seu neto Oscar, seu sobrinho Diarmaid com seu ball-seirc, ou “ponto da beleza”, o qual nenhuma mulher poderia resistir; Fergus, famoso por sua sabedoria e eloquência; Caoilte mac Ronan, o veloz; Conan, o personagem cômico da saga; Goll mac Morna, o assassino de Cumal, mas depois o devoto amigo de Fionn, além de outros diversos personagens menos importantes. Suas atividades, como as dos heróis de outras sagas e epopeias, são principalmente a caça, a luta e o sexo. Eles personificam bastante as características célticas – vivacidade, bravura, bondade e sensibilidade, tal como a vanglória e o temperamento impetuoso. Embora seja datada de tempos pagãos, a saga mostra pouco sobre as crenças pagãs, mas revela muita coisa em relação aos hábitos daquele período. Aqui, como sempre foi no início do celtismo, a mulher é mais que uma posse e ocupa um lugar relativamente importante. As diversas partes da saga, como aquelas do Kalevala finlandês, sempre existiram separadamente, nunca como uma epopeia completa, embora sempre tiveram uma certa relação umas com as outras. Lonnrot, na Finlândia, foi capaz, adicionando alguns vínculos próprios, de dar uma unicidade ao Kalevala, e se MacPherson se contentasse em fazer isso pela saga de Fionn, ao invés de inventar, transformar e servir o todo à maneira do sentimental século XVIII, ele teria trazido um benefício para a literatura céltica. As várias partes da saga pertencem à séculos diferentes e vem de autores diferentes, todas, no entanto, imbuídas com o espírito da tradição de Fionn. Não pode ser dada uma data para os inícios da saga, e adições foram feitas até o final do século XVIII, com o poema de Michael Comyn de Oisin em Tír na n-Og sendo uma parte genuína dela como qualquer uma das partes mais antigas. Seus conteúdos são, em parte, escritos, mas a maior parte é oral. Grande parte da saga está em prosa, e há bastante literatura poética do tipo “balada”, tal como o Märchen [NT: palavra alemã para “contos de fadas”] da criada linha universal puramente céltica com Fionn e o resto do bando heróico como os protagonistas. A saga personifica os ideais e as esperanças celticas; ela foi a literatura do povo céltico na qual se passava todas as riquezas da imaginação céltica; um mundo de sonho e fantasia na qual eles poderiam entrar em qualquer hora e se divertirem. Contudo, a respeito de sua imensa variedade, a saga preserva uma certa unidade e é provida de uma estrutura definida, recontando a origem dos heróis, os grandes eventos nos quais eles se envolvem, suas mortes ou aparições finais e o término do bando de Fionn.


                Uma visão histórica dos Fians foi estudada pelos historiadores Keating, O’ Curry, Dr. Joyce e Dr. Douglas Hyde.1 De acordo com essa visão histórica, eles foram uma espécie de milícia mantida pelos reis irlandeses para suportar o trono e defender o país. De Samhain até Beltane eles ficavam entre o povo, e de Beltane até Samhain, eles viviam caçando. Não sabemos o quanto o povo gostava deles. A forma como eles cozinhavam a presa que caçaram era bem conhecida por todos os povos primitivos.

                Buracos eram cavados no chão; neles, pedras em brasa eram colocadas e nelas, a caça era colocada enrolada na junça. Então tudo era coberto e no tempo certo, a carne estava pronta. Enquanto isso, os herois se banhavam elaboradamente antes de se sentarem para comer. Suas camas eram compostas de camadas alternadas de galhos, musgo e juncos. Os Fians eram divididos em Catha de três mil homens, cada um com seu comandante e oficiais para cada cem, cada cinquenta e cada nove homens, um sistema não muito diferente dos antigos peruanos. Cada candidato para entrar no bando se submetia às mais difíceis provações, rivalizando em severidade com as dos índios americanos, e não improváveis e genuínas reminiscências, apesar de exageradas, de testes reais de resistência e agilidade. Uma vez admitido, o membro teria que observar um certo geasa ou “tabu”, como por exemplo: não escolher sua esposa pelo seu dote como os outros celtas, mas unicamente pelas suas boas maneiras, não praticar violência com uma mulher, não fugir quando for atacado diante de menos de nove guerreiros, e coisas similares.

                Tudo isso pode representar alguma genuína tradição em relação à um bando guerreiro, com muitos exageros nos detalhes e números. Alguns de seus ilustres herois podem ter tido nomes derivados ou correspondentes aos dos herois de uma saga existente, mas conforme o tempo passou, eles se tornaram tão não-históricos quanto seus protótipos ideais; em volta de seus nomes, mitos e contos flutuantes foram solidificados; coisas que eram contadas das sagas dos herois foram contadas sobre eles; seus nomes foram dados aos personagens de contos folclóricos já existentes. Isto pode explicar a grande divergência entre os aspectos “históricos” e românticos da saga que existe agora. Contudo, não podemos falhar em ver que o que é reivindicado como história está cheio de exageros, e, apesar das alegações do Dr. Hyde e outros patriotas, poucos fatos históricos podem ser encontrados nela. Mesmo se existir, é a parte menos importante da saga. O importante é esta parte – nove décimos do todo – que “não é verdade pois não pode ser verdade.” Esta pertence à região dos sobrenatural e do irreal. Mas os personagens, dos quais nove décimos das ações pertencem à essa região, devem ter as mesmas características, e por isso, são ainda mais interessantes, especialmente quando lembramos que os celtas acreditavam firmemente neles e em suas façanhas. O mito de Fionn surgiu tal como todos os mitos surgiram, crescendo na medida que o tempo passava, e o núcleo histórico, se já existiu, foi inundado e perdido. Por toda a saga, os Fians são mais que meros mortais, mesmo naquelas partes que são tidas como históricas. Eles são gigantes; suas histórias “arrepiam com o sobrenatural”; eles são as figuras ideais da lenda céltica, lançando suas sombras gigantescas sobre o escuro e nebuloso conhecimento do passado. Nós devemos, no entanto, ficar contentes em assumir que os personagens chamados Fionn, Oisin, Diarmaid ou Conan, jamais existiram, o que sabemos deles agora é puramente mítico.

                Tendo em mente que eles são os amados herois da fantasia popular na Irlanda e nas Terras Altas da Escócia, precisamos agora nos questionar se eles têm origem céltica. Nós já vimos que os celtas foram um povo conquistador na Irlanda, trazendo com eles sua própria religião e mitologia, suas próprias sagas e contos refletidos agora no ciclo mitológico e no ciclo de Cúchulainn, que encontraram uma habitação local na Irlanda. Cúchulainn foi o herói de uma saga que floresceu mais entre as classes aristocráticas e letradas do que entre o povo, e existem poucos contos populares sobre ele. Mas é entre o povo que a saga de Fionn sempre foi popular, e para cada camponês que contava uma história de Cúchulainn, mil contavam uma de Fionn. Os conquistadores frequentemente adaptaram as crenças, tradições e costumes do povo nativo depois das hostilidades terem cessado, e se o povo pré-céltico teve um herói popular e uma saga sobre ele, é possível que ele tenha sido adaptado pelos celtas com o tempo, ou pelas classes mais baixas entre eles, mas no processo, estes podem ter sido completamente “celticizados”, tal como os próprios nativos; foram dados nomes célticos para seus herois, ou eles podem ter sido associados com os personagens célticos já existentes, como Cumal, e toda a saga foi adaptada para as concepções e histórias lendárias dos celtas com o passar do tempo. Portanto, devemos considerar o fato de que ela permaneceu por muito tempo sem ser misturada com os ciclos mitológico e de Cúchulainn, embora seus herois tenha tido contato com deuses mais antigos. Assim, devemos considerar também sua popularidade comparada com a saga de Cúchulainn entre os camponeses, em cujas veias correm muito mais sangue nativo, tanto na Irlanda como nas Terras Altas. Se os celtas da Europa ocidental ocuparam o oeste da Escócia em uma data mais antiga, eles foram tão poucos em número que sua própria saga ou sagas morreram. Ou, se a ocupação céltica das Terras Altas ocidentais tivesse se originado da Irlanda, os irlandeses foram incapazes de impor sua saga de Cúchulainn lá, ou, se eles mesmos já tivessem adotado a saga de Fionn e a encontraram novamente nas Terras Altas, as histórias estariam mais unidas às que foram encontradas lá. Isso eliminaria a base da teoria de que a saga de Fionn foi trazida da Irlanda para a Escócia, e isso representaria sua popularidade nas Terras Altas, assim como o fato de que muitas histórias de Fionn são associadas às Terras Altas tal como aos locais irlandeses, enquanto que muitos topônimos em ambos os países tem uma origem Fian. Finalmente, a teoria explicaria a existência de tantos Märchen sobre Fionn e seus homens, e tão poucas sobre Cúchulainn.

                Voltando à teoria do aspecto histórico dos Fians, devemos notar que, quando vista pelos olhos de analistas, a saga pertence à um período histórico definido, mas quando vista por si mesma, ela pertence à uma era mítica, e apesar dos Fians serem considerados os campeões da Irlanda, seus inimigos são normalmente do tipo sobrenatural, e eles mesmos se movem em uma atmosfera mágica. Eles também se conectam com os não-históricos Tuatha Dé Danann, eles brigam com ou por eles, têm relacionamentos ou se casam com suas mulheres, e alguns dos deuses até mesmo se tornam membros do bando Fian. Diarmaid era o querido dos deuses Oengus e Manannan, e em seus momentos mais difíceis, ele era ajudado por este primeiro deus. Por tudo isso, estamos no “país das maravilhas” do mito, e não na terra firma da história. Há uma certa semelhança entre as sagas de Cúchulainn e as sagas de Fionn, mas não mais que as existentes entre outras sagas. Ambas contém incidentes similares, mas estes são episódios da “saga universal”, adequadas aos personagens de sagas individuais. Portanto, não precisamos supor com o professor Windisch de que os incidentes míticos da saga de Fionn são derivados do ciclo de Cúchulainn.

                Os personagens com quem Fionn e seus homens lutam mostram a natureza mítica da saga. Como campeões de Leinster, eles lutam com os homens de Ulster e de Connaught, mas também guerreiam contra os invasores estrangeiros – os Lochlanners. Enquanto que Lochlann pode signicar qualquer lago além do mar, como o Llychlyn galês, o termo provavelmente significa “a fabulosa terra abaixo dos lagos ou das ondas do mar,” ou simplesmente, a morada de seres hostis e sobrenaturais. Os Lochlanners seriam então a contraparte dos fomorianos, e os conflitos dos Fians com eles refletem os mitos antigos. Mas com as invasões nórdicas, os nórdicos se tornaram os verdadeiros Lochlanners, com quem Fionn e seus homens lutaram tal como Carlos Magno lutou contra os Muhammadans – uma simples impossibilidade. O professor Zimmer, no entanto, supõe que a saga de Fionn tomou forma durante a ocupação nórdica do século IX em diante. Fionn é metade nórdico, metade irlandês, e é equivalente a Caittil Find, que comandou os irlandeses apóstatas no século IX, enquanto que Oisin e Oscar são os Asvin e Asgeirr nórdicos. Mas é difícil de entender o porquê de alguém que era metade nórdico se tornar o heroi escolhido dos celtas na mesma época em que os nórdicos eram seus piores inimigos, e o porquê de Fionn, se de origem nórdica, lutara contra os Lochlanners, ou seja, os nórdicos. Devemos questionar também por que os nórdicos afetaram apenas a saga, e não os mitos dos deuses. Nenhum outro estudioso céltico deu o menor suporte para essa brilhante, mas audaciosa, teoria. Por outro lado, se a saga tem afinidades nórdicas, e se ela tem a origem pré-céltica, estas afinidades podem ser buscadas em uma conexão mais antiga entre a Irlanda e a Escandinária no início da Idade do Bronze. A Irlanda teve uma próspera civilização nessa época e exportou belos ornamentos de ouro para a Escandinávia, onde eles ainda são encontrados em depósitos da Idade do Bronze.2 Essa civilização próspera foi dominada pela invasão dos bárbaros célticos. Mas se os escandinavos importaram ouro e decorações artísticas da Irlanda e se a saga de Fionn ou parte dela já existia, por que eles não importaram alguns de seus incidentes, ou por que, por outro lado, alguns episódios não vieram do norte até a Irlanda? Devemos considerar também, no entanto, que incidentes similares podem ter evoluído em ambos os países em linhas similares e completamente independentes.

                Os vários conteúdos da saga só podem ser aludidos de forma breve. A história do nascimento de Fionn pertence à bem conhecida fórmula de “Expulsão e Retorno”, aplicada à tantos herois da saga e do folclore, mas altamente elaborada em seu caso, nas mãos dos historiadores. Seu pai Cumal, tio de Conn das Cem Batalhas, 122-157 d.C., desejou casar-se com Muirne, a filha do druida-chefe de Conn, Tadg. Tadg recusa, sabendo que ele perderia sua posição ancestral através desse casamento. Cumal raptou Muirne e casou-se com ela, e o rei, a pedido de Tadg, enviou um exército contra ele. Cumal foi morto e Muirne fugiu até a irmã de Cumal, dando a luz para Demni, posteriormente conhecido como Fionn. Talvez, de acordo com o antigo costume matriarcal, a descendência de Fionn pelo lado de sua mãe é enfatizado, ao passo que ele é associado com os antigos deuses, com Tadg sendo o filho de Nuada. Isso por si só aponta para o aspecto mítico da saga. Cumal pode ser identificado com o deus Camulos. Em um curto período de tempo, Fionn, agora um saqueador e fugitivo, aparece na corte de Conn na mesma noite que matou um dos Tuatha Dea, que vinha anualmente para destruir o lugar. Por isso, ele recebeu sua herança legítima – a liderança dos Fians, anteriormente atribuída a Cumal.3 Outro incidente da juventude de Fionn conta como ele obteu seu “polegar do conhecimento.” Acreditava-se que comer certo “salmão do conhecimento” dava inspiração, uma ideia derivada, talvez, das mais antiga crenças totemísticas. O bardo Finnéces, ao pegar o cobiçado salmão, colocou seu aluno Fionn para cozinhá-lo e o proibiu de experimentá-lo, mas quando ele virou o peixe, Fionn queimou seu dedo e o colocou na boca, recebendo assim, o dom da inspiração. Depois disso, ele teria apenas que chupar seu polegar para descobrir alguma informação secreta.4 Em outra história, a inspiração já está no seu polegar, assim como a força de Sansão está em seu cabelo, mas o poder também está parcialmente em seus dentes, nos quais, após um preparo ritualístico, ele teria que colocar seu polegar e mastigá-lo.5

                Fionn teve muitas esposas e amantes, uma delas, Saar, foi a mãe de Oisin. Saar foi transformada em um gamo por um druida e fugiu da casa de Fionn. Depois de muito tempo, Fionn encontrou uma criança animalesca na floresta e reconheceu que era seu filho. Ele o alimentou até a sua natureza bestial desaparecer e o chamou de Oisin, “pequeno gamo”. Em volta de seu nascimento, muitas histórias surgiram – um certo sinal de sua popularidade.6 A fama de Oisin como um poeta excedeu de longe a de Fionn, se tornando o bardo ideal dos gaélicos.

                De longe, a historia mais apaixonada e trágica da saga é a de Diarmaid e Grainne, com quem Fionn estava noivo. Grainne colocou um geasa sobre Diarmaid para que ele fugisse com ele, e ele não poderia quebrar este geasa. Eles fugiram e foram perseguidos por Fionn por muitos dias, que finalmente os alcançou, mas foi forçado pelos Fians a perdoar o amado heroi. Entretanto, Fionn esperou por sua vingança. Sabendo que era um dos geasa de Diarmaid nunca caçar um javali selvagem, ele o convidou para a caça do javali de Gulban. Diarmaid o matou e Fionn fez com que ele medisse seu tamanho com o seu pé. Uma cerda perfurou seu calcanhar e ele caiu em agonia, suplicando para Fionn trazer água em suas mãos, pois se ele assim fizesse, o curaria. Apesar dos repetitivos apelos, Fionn, depois de trazer a água, deixava escorrer por suas mãos. A corajosa alma de Diarmaid se foi, e essa terrível mácula permaneceu na característica de Fionn para sempre.7  

                Outros contos relatam como muitos dos Fians foram levados para a Terra além dos Mares, como foram resgatados, como Diarmaid foi para a Terra Sob as Ondas e como Fionn e seus homens foram aprisionados em um Palácio Encantado. Os contos que relatam o fim do bando Fian são os de maior importância. Estes, de acordo com os historiadores, foram o resultado de suas exigêcias e demandas. Fionn foi avisado por sua esposa, uma mulher sábia, para nunca beber de um chifre, mas ao ficar sedento diante de um poço em um dia, ele esqueceu seu tabu e fez com que o fim se aproximasse. Ele encontrou os filhos de Uirgrenn, a quem ele tinha assassinado, e morreu nessa luta.8 Logo depois disso, diversas batalhas foram travadas, culminando na de Gabhra, na qual quase todos os Fians morreram. Entre os sobreviventes estavam Oisin e Caoilte, que permaneceram até a chegada de São Patrício. Caoilte permaneceu na terra, mas Oisin, cuja mãe pertencia ao povo dos síd, foi até o país das fadas por um tempo, retornando finalmente e se juntando à companhia de São Patrício.9 Mas uma versão diferente foi dada em um poema do século XVIII de Michael Comyn, indubitavelmente baseado nos contos populares. Oisin encontrou a Rainha de Tír na n-Og e foi com ela para a o país das fadas, onde o tempo se passou como um sonho até um dia ele parar de frente à uma pedra onde ela tinha o chamado. Ele viu sua terra nativa e ficou cheio de saudades de casa. A rainha tentou dissuadi-lo em vão. Ela então lhe deu um cavalo, avisando-o para não pisar no solo da Irlanda. Ele voltou para a Irlanda e encontrou tudo diferente. Algumas pessoas fracas estavam tentando em vão levantar uma grande pedra e pediram para o imenso desconhecido ajudá-lo. Ele pulou de seu cavalo e tirou a pedra do lugar, mas quando voltou, seu cavalo havia ido embora e ele se tornou um velho decrépito. Logo depois disso, ele encontrou São Patrício e relatou a história para ele.

                Da maioria dos contos preservados em um manuscrito dos séculos XII-XV, pode-se dizer que, na essência, eles vieram até nós de uma antiguidade remota, como estrelas pulsando sua clara luz nas profundidades escondidas do espaço. Muites deles existem como contos folclóricos, frequentemente selvagens e estranhos em forma, enquanto que alguns contos não tem paralelos literários. Alguns são Märchen com os membros do bando de Fian como herois, e desses, há muitos paralelos europeus. Mas não é improvável que, como no caso do ciclo de Cúchulainn, as versões folclóricas podem ser mais verdadeiras para as formas originais da saga que as versões literárias mais “polidas”. Seja o que for que os Fians eram originalmente – deuses, herois míticos ou personagens reais – é provável que um curto “Heldensage” foi criado em tempos mais antigos. Este se expandiu lentamente, novos contos foram adicionados, e a fórmula Märchen existente foi livremente usada na criação de seus herois da saga. Então veio a época na qual muitos dos contos foram escritos, ao passo que mais tarde foram adaptados para a história irlandesa, e os herois se tornaram guerreiros de um período histórico definido, ou talvez conectados com tais guerreiros. No entanto, estes herois pertencem à um mundo atemporal, cujas margens são “as praias do velho romance,” e foi como se eles, não por uma época, mas por todos os tempos, tivessem sido desprezados para se tornarem os fantoches das páginas da história.

                A mais antiga evidência de atitude do mundo eclesiástico com estes herois é encontrada no Agallamh na Senorach, ou “Colóquio dos Anciões.”10 Este pode ser sido escrito no século XIII e seu autor conhecia alguns traços das lendas de Fionn. Usando a tradição que Caoilte e Oisin encontraram São Patrício, ele faz Caoilte relatar muitos contos, normalmente conectados com alguns topônimos de origem Fian. O santo e seus seguidores ficam impressionados com o imenso tamanho dos Fians, mas Patrício joga água benta neles e as tropas de demônios deixam seus corpos. A cada conto que Caoilte relata, o santo diz, “Sucesso e bênção, Caoilte. Tudo isto é uma recreação da mente e do espírito para nós, se não fosse uma destruição da devoção e um abandono da oração.” Mas dentro de pouco tempo, seu anjo guardião aparece, e lhe diz para não apenas escutar os contos, mas escrevê-los. Ele e seus clérigos ajudantes agoram emprestam seus dispostos ouvidos para a recitação e encoraja o narrador com seus aplausos. Finalmente, Caoilte e seus homens são batizados, e pelas intercessões de Patrício, os companheiros de Caoilte e o próprio Fionn são trazidos do inferno. Neste trabalho, os representantes do paganismo são mostrados em termos amigáveis com os representes do cristianismo.

                Mas nas baladas das Terras Altas, coletadas no século XVI por Dean de Lismore, assim como nas baladas irlandesas encontradas nos manuscritos, datando do século XVII em diante, o santo é um clérigo intolerante e os Fians são igualmente intolerantes e pagãos blasfemos. Não há tentativa de amizade: o santo se alegra que o bando de Fian está no inferno e Oisin lança seu desprezo no Deus dos sacerdotes barbeados, mas às vezes, esse desprezo está misturado com humor e pena. Se os herois do bando de Oisin estivessem vivos, os sinos dos monges, os livros e os cantos de salmos fariam pouco trabalho. É verdade que o santo dá hospitalidade para o velho cansado, mas os olhos de Oisin são cegados pelas lágrimas enquanto ele pensa nas glórias passadas dos Fians, e seus ouvidos são atormentados “pelo barulho dos sinos, o zumbido dos salmos e o grito dos clérigos.” Estas baladas provavelmente representam um aspecto principal da atitude da Igreja com o paganismo céltico. Como, então, o Colóquio mais generoso veio a existir? Primeiro, precisamos notar que algumas baladas tem um tom mais moderado. Oisin é incitado a aceitar a fé e ele ora pela salvação. Provavelmente, isto representa o início de uma reação a favor dos velhos herois, datando de uma época quando a fé era bem estabelecida. Não havia perigo de um renascimento pagão, e, visto que os Fians foram cristianizados, seria legítimo representá-los como heroicos e nobres. O Colóquio representaria o divisor de águas dessa reação entre as classes letradas, pois entre o povo, a julgar pelos contos populares, os Fians nunca tinham sido vistos de outra forma se não de forma favorável. O Colóquio reestabeleceu a dignidade do bando Fian aos olhos do cristianismo oficial. Eles foram batizados ou tirados do inferno, e à sua própria maneira, eles eram virtuosos e seguiam ideais grandiosos. “Quem ou o que te manteve na vida?” perguntou Patrício, e Caoilte dá uma nobre resposta, “A verdade que estava em nossos corações, a força em nossos braços e a realização em nossas línguas.” Patrício disse sobre Fionn: “Ele foi um rei, um vidente, um poeta, um senhor com um séquito múltiplo e grande; nosso mágico, nosso inteligente, nosso profeta; tudo o que disse foi doce consigo. Excessivo, talvez, vós considerais meu testemunho de Fionn, apesar de vós considerais excessivo o que eu digo, mesmo assim, e pelo Rei que está acima de mim, ele foi ainda três vezes melhor.” Não apenas isso, Caoilte sustenta que Fionn e seus homens estavam cientes da existência do verdadeiro Deus. Eles possuíam a anima naturaliter Christiana. A crescente apreciação de uma visão mais ampla da vida, e possivelmente, um entendimento dos romances do cavalheirismo, tornou possível a composição do Colóquio, mas novamente, ele pode representar uma concepção mais generosa do paganismo existente da época do primeiro encontro com o cristianismo na Irlanda.

                A luta de credos na Irlanda, a velha ordem mudando, dando lugar à nova, foi evidentemente impressa nas mentes dos poetas e romancistas célticos. Isto sugeriu a eles como fornecendo uma excelente situação, da qual constantemente ouvimos sobre o encontro dos deuses, semi-deuses ou herois com os santos da nova era. Frequentemente, eles se curvam diante da Cruz, são batizados e recebem a verdade cristã, assim como no Colóquio e em alguns documentos do ciclo de Cúchulainn. Provavelmente, nenhuma outra literatura popular europeia se beneficiou tanto como essa situação, esse encontro de credos, um velho e pronto para desaparecer, e o outro com todo seu alegre frescor da juventude.

                O épico céltico de Mac Pherson descoberto por ele e por mais ninguém é genuíno? Nenhum olho morto alguma vez já viu o original, mas ninguém que conhece alguma coisa do conteúdo da saga pode negar que muito de seu trabalho é baseado em materiais coletados por ele. Ele conhecia alguns contos e baladas comuns entre o povo, e possivelmente, algumas versões dos manuscritos irlandeses. Ele viu que existia uma certa unicidade entre eles e viu que era possível torná-las ainda mais evidentes. Ele encaixou os incidentes soltos em uma estrutura épica, adicionando, inventando, alterando e moldando o conteúdo para seu estilo inglês próprio. Mais tarde, pareceu que ele traduziu tudo para o gaélico. Ele deu sua versão para o mundo e se descobriu famoso, mas ele deu isso como uma tradução genuína de um genuíno épico céltico. Aqui está sua esperteza; aqui ele foi o “charlatão do talento.” Seu talento estava na produção de um épico que as pessoas tinham a boa vontade de ler e em fazê-los acreditar que isto não era o seu trabalho, mas da era heroica céltica. Qualquer um pode escrever um épico, mas somente alguns podem escrever um que milhares irão ler, que homens como Chateaubriand, Goethe, Napoleão, Byron e Coleridge irão admirar e amar, e que irá, por assim dizer, cristalizar as aspirações de uma era fraca com o formalismo clássico. MacPherson introduziu seus leitores em um mundo novo de façanhas heroicas, aventuras românticas, amor imortal e sentimentos delicados sentimentalmente expressados. Ele transformou guerreiros rústicos e belas heroínas, mas um tanto ousadas, da saga em personagens sentimentais que se encaixavam ao gosto de uma era envenenada entre o formalismo empoeirado e de perucas do século XVIII, e à explosão de novos ideais a serem seguidos. Seu Ossian é uma cruz entre o Homer de Pope e o Childe Harold de Byron. Seus herois e heroínas não estão em sua charneca nativa, e estão incertos se devem se diminuir e escorar com Pope ou se devem seguir sua natureza com os nobres selvagens de Rousseau e o Paul e Virgínia de Saint Pierre. Veio então a época em que era heresia duvidar da autenticidade do épico de MacPherson, mas se alguém ainda tivesse dúvidas, deixe-o ler e então voltar-se para as versões, baladas e contos existentes. Ele se encontrará em uma atmosfera totalmente diferente e reconhecerá nestes últimos, a verdadeira nota épica – a fúria e a generosidade do guerreiro, a medonha crueldade e ainda a infinita sensibilidade, a luxúria selvagem e ainda o amor verdadeiro, um mundo do sobrenatural mágico, mas uma cópia exata das coisas que existiam naquela época distante. O barbarismo da época está nestes velhos contos – atos que fariam qualquer um se arrepiar, costumes sobre as relações dos sexos encontrados apenas entre os selvagens, arranjos sociais e domésticos que são um pouco lúgubres e desagradáveis. E ainda, além disso, existem as notas de bravura, paixão e vida autêntica; nós somos pegos nas genuínas masculinidade e feminilidade. MacPherson dá uma imagem da era “ossiânica” da forma como ele a vê, uma era da história céltica que “nunca existiu no mar ou na terra.” Até mesmo seus fantasmas não são célticos, fantasmas enevoados e não substanciais, diferente dos fantasmas encarnados da saga que estão de acordo com a crença céltica de que a alma assume um corpo no outro mundo. MacPherson torna Fionn invariavelmente bem sucedido, mas nos contos da saga, ele frequentemente é derrotado. Ele mistura os ciclos de Cúchulainn e de Ossian, mas estes, salvo em poucos casuais exemplos, são bastante distintos na velha literatura. No entanto, se seu poema não fosse tão grande como é, apesar de não ser céltico, ele não teria influenciado toda a literatura europeia. Mas aqueles que se importam com a genuína literatura céltica, o produto de um povo que amava a natureza, o romance, os atos valentes, a beleza do mundo, a música do mar e dos pássaros, as montanhas, a coragem dos homens e a beleza das mulheres, encontrarão tudo isto nesta saga, seja em sua forma literária ou popular. E através de tudo isso ressoa a voz baixa da piedade e melancolia céltica, o eco distante

“De passadas coisas velhas e infelizes,
E batalhas de muito tempo atrás.”

Notas de rodapé

1. Ver Joyce, OCR 447.

2. Montelius, Les Temps Préhistoriques, 57, 151; Reinach, BC xxi. 8.

3. As versões populares dessa antiga parte da saga difere muito em detalhe, mas segue os esboços principais da mesma forma. Ver Curtin, HTI 204; Campbell, LF 33 f.; WHT iii. 348.

4. Em um vasto grupo de contos, o conhecimento sobrenatural é obtido comendo parte de um animal, normalmente uma certa sempre. Em muitos desses contos, a comida é comida por outra pessoa sem ser aquele que a adquiriu, como no caso de Fionn. Como a história galesa de Gwion, p. 116, e do escandinavo Sigurd, e outros paralelos em Miss Cox, Cinderella, 496; Frazer, Arch. Rev. i. 172 f. A história é, assim, uma fórmula de conto folclórico aplicado à Fionn, indubitavelmente pois ela harmoniza as ideias totemísticas célticas e pré-célticas, mas é baseada em ideias antigas sobre o conhecimento sobrenatural que répteis e peixes tinham, e entre os índios americanos, os Maoris, os ilhéus da Ilha Salomão e outros, há representações figuradas de um homem segurando tal animal, com sua língua sendo amarrada à língua do homem. Ele é um xamã, e os índios americanos acreditam que sua inspiração vem da língua de uma lontra fluvial misteriosa, pega por ele. Ver Dell, Bureau of Ethnol. 3rd report; e Miss Buckland, Jour. Anth. Inst. Xxii. 29.

5. TOS iv.; O’Curry, MS. Mat. 396; Joyce, OCR 194, 339.

6. Para versões de baladas, ver Campbell, LF 198.

7. Numerosas versões de baladas são dadas em Campbell LF 152 f. O conto é localizado em várias partes da Irlanda e das Terras Altas, muitos dólmenes da Irlanda sendo conhecidos como as camas de Diarmaid e Grainne.

8. Para um relato diferente dessa versão dos historiadores, ver ZCP i. 465.

9. O’Grady, ii. 102. Isso, como um todo, concorda com a versão de balada das Terras Altas, LF 198.

10. IT iv.; O’Grady, Silva Gadelica, texto e tradução.                            



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