domingo, 30 de abril de 2017

Costumes tradicionais do dia 1º de maio na Irlanda

Fonte: “Traditional May Day Customs in Ireland”, por Clodagh Doyle, no site “Our Irish Heritage”. Disponível em: <http://www.ouririshheritage.org/page_id__131.aspx>. Acesso em: 30 de abril de 2017.

Costumes tradicionais do dia 1º de maio na Irlanda
Por Clodagh Doyle, Curador da Irish Folklife Division

                O 1º de maio, primeiro dia do mês, é um dos dias trimestrais do calendário irlandês tradicional. Cada um desses dias trimestrais indica o início de uma nova estação. A primavera é assinalada no dia 1º de fevereiro (o dia de St. Brigid), o outono no dia 1º de agosto (Lúnasa) e o inverno no dia 1º de novembro (Samhain). Existiam também costumes folclóricos associados com as vésperas desses festivais, marcando a transição sazonal.


Flores, danças e fogueiras

                Como em grande parte do norte da Europa, o 1º de maio na Irlanda era uma celebração de boas vindas do verão. Ele está enraizado no festival pré-cristão de Bealtaine. O Bealtaine abraça o verão, despedindo-se da metade do ano sombria e invernal. Flores, danças e fogueiras se destacavam fortemente nas festividades. As pessoas também buscavam proteção contra as forças sobrenaturais para si próprias, para suas casas e para seu gado.

Uma época corrida no campo

                O 1º de maio era visto como o início simbólico de uma época corrida para o trabalho rural. As pessoas trabalhavam nos campos, focando-se no cuidado com os animais e sua mudança para pastos diferentes. Havia também uma ênfase na pesca, como a do salmão, por exemplo. Era também uma época corrida para mercados e centros comerciais que vendiam os animais, e essa também era a época em que trabalhadores temporários eram contratados. O importante trabalho de cortar a relva dos pântanos também ganhava seriedade por volta dessa data.

                Tradicionalmente no dia 1º de maio e 1º de novembro, fazendeiros inquilinos pagavam metade do seu aluguel anual para os senhores da terra – estes dias eram conhecidos como ‘Dia das Vendas’. As pessoas também faziam um inventário do suprimento de comida que tinha para mantê-las até as colheitas serem feitas mais tarde naquele ano.

Fonte: R. I. A., Atlas of Ireland, Dublin, 1979, p. 90. (NT: Os pontos verdes indicam os Ramos de Maio, os amarelos, as Flores de Maio, os vermelhos, os Arbustos de Maio, e os azuis, os Mastros de Maio).  

                As tradições associadas com o mês de maio incluem os Arbustos de Maio (May Bushes), as Flores de Maio, os Galhos de Maio (May Boughs), os Mastros de Maio e as Fogueiras de Maio. Todas essas tradições são associadas com sorte e proteção.

O Arbusto de Maio (May Bush)

                O Arbusto de Maio (May Bush) era um arbusto decorado, que era deixado do lado de fora da casa nas áreas rurais. As vezes, ele era carregado pela área por grupos de adultos, apesar de mais tarde este costume ter sido continuado pelas crianças. Geograficamente, a tradição era mais forte em Leinster e nas áreas centrais, indo até o oeste para Galway, e até o norte para o sul de Ulster e Donegal. O arbusto era frequentemente o espinheiro. A decoração consistia de fitas, serpentinas de pano e, talvez, ouropeu. As vezes, as sobras de cascas de ovo pintadas para o domingo de Páscoa eram usadas na decoração.

Arbustos de Maio decorados, na estrada entre Cloghan e Ferbane, Co. Offaly, em maio de 2009.

                Em algumas ocasiões, velas também eram colocadas nos arbustos.

                “Vida longa, uma bela esposa e uma vela para o Arbusto de Maio”, era a rima cantada pelas crianças em Dublin quando pediam por uma contribuição de velas, dinheiro ou doces para suas festividades do 1º de maio.

Imagem de um Arbusto de Maio, Mullingar, Tullamore, Co. Westmeath

                As vezes, arbustos comunitários eram queimados na véspera do festival. O arbusto era associado com a sorte da casa ou da comunidade, e nas cidades, ele era cuidadosamente vigiado para o caso de algum grupo rival tentasse roubá-lo. O costume de montar um Arbusto de Maio ainda sobrevive como uma tradição familiar individual, especialmente nas terras centrais.

O Galho de Maio (May Bough)

                O Galho de Maio era uma versão maior do Arbusto de Maio e era mais popular em Munster. Ao invés de um arbusto pequeno, uma parte maior da árvore era usada. Ele era colocado tanto do lado de fora das casas como em alguma área pública na comunidade. Era decorado de forma similar ao Arbusto de Maio.

Os Mastros de Maio

                Os Mastros de Maio eram populares em algumas cidades maiores e possivelmente indicam uma certa influência inglesa. As comunidades recebiam o verão nessa maneira festiva. Haviam Mastros de Maio em muitas cidades, tais como Kilkenny, Mountmellick, Kildare e Longford. Havia também uma forte tradição no nordeste da Irlanda, tal como em Hollywood, Co. Down. Originalmente, árvores altas eram usadas, mas mais tarde, estas árvores foram substituídas por mastros formais erguidos no centro da cidade. Eles eram decorados com flores e fitas, e assim como na Inglaterra, onde a tradição era mais difundida, danças e esportes aconteciam ao redor do mastro.

As flores de maio

                As flores de maio eram colhidas na vésperado festival, e esta colheita era frequentemente feita por crianças que faziam coroas com as flores. As vezes, juntavam-se as flores para fazer buquês ou coroas. Flores amarelas, como prímulas, ranúnculos e malmequeres,  eram especialmente populares, já que possivelmente refletiam o sol e o verão. Tojo e samambaias também eram colocadas do lado de fora, ao redor da casa.

Kiltullagh, Co. Galway

                As flores eram colocadas na porta de entrada das casas e no peitoril das janelas. Acreditava-se que elas davam sorte para a casa e ofereciam proteção contra as forças místicas – existia uma crença muito forte de que estas forças estavam particularmente ativas nos dias trimestrais. Acreditava-se que as fadas não poderiam entrar nas casas já que não podiam passar pelo cheiro doce das flores.

                As flores eram frequentemente colocadas nos animais da fazenda para protegê-los do ‘olhar’ de pessoas com o olho gordo, que poderiam roubar a produtividade dos animais através da inveja.

                A tradição de espalhar flores nas soleiras era mais comum na parte norte da Irlanda, especialmente no sul de Ulster. Por toda a Irlanda, há uma forte tradição de receber formalmente alguém espalhando juncos no chão.1

                As crianças frequentemente carregavam cestos de flores e as espalhavam na frente da casa dos vizinhos como um gesto de boa vontade e boa sorte.

                As vezes, as flores de maio eram colocadas em um poço local para proteger tanto o fornecimento de água como a subsistência daqueles que a usavam. O roubo ou a remoção da ‘nata’ do poço ou do orvalho dos campos de um vizinho, por aqueles com más intenções, acreditava-se resultar na falta da produção alcançada pela família ou pela comunidade. Geralmente, água e fogo nunca eram pedidos para os vizinhos ou estes nunca eram tirados da casa na véspera do festival ou no próprio dia, a fim de manter a sorte da casa. Dizia-se que a água tirada do poço no dia do festival oferecia proteção e curas. Acreditava-se que essa água e o orvalho da manhã do festival eram boas para a beleza.

                Rima tradicional:

“Eu lavo minha face na água que nunca choveu ou correu, e seco em uma toalha que nunca foi tecida em fio.” [Uma face lavada com o orvalho de maio e deixada para secar ao ar livre]

“Nunca jogue um remendo fora até maio ir embora,” é uma expressão advertindo a não jogar fora muitas cobertores de inverno até o final do mês de maio.

Acreditava-se que as ervas colhidas antes do nascer do sol do dia 1º de maio tinham propriedades de cura particularmente eficazes.

Rainhas e Mastros de Maio

                As flores também eram usadas para coroar a Rainha de Maio. A tradição de eleger uma Rainha de Maio é encontrada por toda a Europa e pode ter associações com a antiga deusa romana Flora.

                Assim como os Mastros de Maio, essa tradição era mais popular nas grandes cidades. Era frequentemente acompanhada por uma procissão, jogos e festividades. Em algumas partes de Ulster, um Rei era escolhido junto com a Rainha. As vezes, um arbusto era carregado na procissão, no qual bolas de arremesso eram penduradas. O dia 1º de maio anunciava tradicionamente o início do arremesso [NT: jogo irlandês] de verão, e em Kilkenny, as mulheres presenteavam os homens com novas bolas de arremesso nesse dia.

Bola de arremesso feita com cabelos, Lavally, Co. Sligo, F1975.153.  National Museum of Ireland

                Em algumas partes do sul de Ulster, a efígie de uma Rainha de Maio era colocada em um mastro carregado em uma procissão. A efígie era decorada com flores. Há referências de um similar Bebê de Maio floral decorado em algumas partes de Monaghan.

“Idir dhá thine Bhealtaine”

Fonte: R.I.A. Atlas of Ireland, Dublin, 1979, p. 90. (NT: os pontos azuis indicam as fogueiras de Samhain, e os pontos verdes, as fogueiras de Beltane)

                A expressão idir dhá thine Bhealtaine significa “entre as duas fogueiras de Maio” e tem o significado similar ao da expressão “entre uma rocha e um lugar duro”. O gado era conduzido através das brasas das fogueiras de maio para que eles ficassem saudáveis no ano vindouro. As fogueiras eram uma característica da véspera do festival por toda a Europa, mas a tradição permaneceu principalmente no leste da Irlanda e em algumas partes de Munster. Apesar de terem existido fogueiras familiares e pequenas para garantir a boa sorte, a tradição de fogueiras comunitárias maiores sobreviveu especialmente nas cidades, como Limerick e Belfast, por exemplo. No oeste da Irlanda, a noite da fogueira era mais celebrada na Véspera do dia de S. João, e em outros lugares, o Halloween era a noite das fogueiras.

As danças

                As danças eram uma característica das celebrações da fogueira de maio. Era também um destaque no Mastro de Maio ou onde os Arbustos de Maio comunitários eram queimados. Esta era a época para celebrar a continuidade da comunidade. A dança costumeira envolvia homens e mulheres que davam as mãos para formar um grande círculo com um dançarino entrando e saindo dele, debaixo de seus braços, e chamando outros dançarinos para segui-los. Isso já foi descrito como representando uma serpente se enroscando e como uma representação dos movimentos do sol. A dança é similar ao jogo infantil Para dentro e para fora vão as campainhas empoeiradas (In and out go the dusty bluebells) – estas flores azuis também eram colhidas tradicionalmente em maio.

Maio, o mês de Maria

                Desde os tempos medievais na Irlanda, tem existido uma forte associação com a devoção à Abençoada Virgem Maria no mês de maio. Muitas das tradições associadas com maio podem ter sido incorporadas nas procissões de Maria encontradas por todo o país.

Licketstown, Co. Kilkenny, 1966.

                Crianças e adultos colhiam flores para coroar a Nossa Senhora nas procissões da cidade. Eles também as usavam para decorar grutas, santuários e altares. Era, e ainda é, muito comum ter um altar doméstico na cozinha ou do lado de fora, na fazenda. As vezes, as flores colhidas para esse altar eram colocadas em forma de uma cruz. A manutenção dessas altares e o seu reabastecimento com flores frescas continuavam do dia primeiro de maio por todo o mês.

Santuário de Maria em Gorteen Ballyhaunis, Co. Mayo, 1983.

“Tragam a mais rara das flores,
Tragam a mais nobre das flores,
Do jardim, do bosque, da colina e do vale;
Nossos corações cheios estão inchados,
Nossas vozes alegres contando
O louvor da mais adorável flor do vale!

Ó Maria, nós te coroamos com flores hoje!
Rainha dos Anjos e Rainha de Maio.
Ó Maria, nós te coroamos com flores hoje,
Rainha dos Anjos e Rainha de Maio.”
(Hino de Maio para a Nossa Senhora)


Altar de maio na cozinha, Castlestrange, Co. Roscommon, 1983.

A manteiga

                O dia 1º de maio era especialmente associado com o roubo de manteiga: o roubo da manteiga era o roubo do lucro da casa. As vacas eram protegidas amarrando-se flores ao redor de suas cabeças e as vezes, fitas vermelhas ou pedaços de sorveira eram amarradas em suas caudas. Acreditava-se que isso oferecia proteção do olho maligno daqueles que tinham o olho gordo. A batedeira de manteiga estava especialmente vulnerável nessa época, portanto, itens similares ou objetos de ferro eram frequentemente colocados debaixo dela.

Carimbo de manteiga (Butterprint), Newtownards, Co. Down.

                Todos os que visitavam a casa nessa época eram encorajados a usar um pouco a batedeira. Normalmente esse “uso” era acompanhado por uma oração como “Deus abençoe o trabalho”. Água benta era frequentemente borrifada nos animais, na batedeira e em todos os objetos associados com a produção de laticínios. Alguns dos antigos carimbos de manteiga da coleção do National Museum refletem essa crença e tem a forma de um olho. A manteiga de maio era frequentemente guardada e usada em pequenas quantidades para darem boa sorte e proteção à batedeira e aos itens de ordenha.

                “As pessoas costumavam fazer a ‘Feitura de Manteiga da Véspera de Maio’ e a manteiga dessa feitura era salgada e guardada para o ano vindouro. Toda noite e toda manhã antes do leite ser colocado nas panelas, a mulher pegava um pequeno pedaço da manteiga da ‘Feitura de Manteiga da Véspera de Maio’ e a colocava na panela antes de colocar o leite fresco. O ‘poder’ dessa manteiga previne que o leite e o creme de leite seja levado por ‘pishoges’ ou qualquer outro poder sobrenatural.” Ms. Hannah Dally (22), Annascaul, Co. Kerry, 1941.

A divinação

                A véspera do dia 1º de maio e o dia 1º de maio em si era a época para adivinhar o futuro. As mulheres tentavam com caracóis na farinha para descobrir o homem com quem elas iriam se casar.

                “Quando a carqueja não tem mais flores, o beijo saiu de moda.”

                O tojo, que também é conhecido como carqueja, fica florido de fevereiro até maio.

                Esta era também a época para estudar o clima, e o clima no mês de maio poderia prever o que era esperado no verão.

                “Um maio úmido e um junho seco faz o fazendeiro assobiar uma canção.”

                “Um enxame de abelhas em maio vale uma carga de feno.”

                “Um úmido e ventoso maio enche os celeiros com grãos e feno.”

Recebendo o verão

                Em resumo, o dia 1º de maio na Irlanda era o festival para receber o verão e proteger a família e a subsistência da fazenda das forças naturais. Era um festival celebrado com flores, fogueiras e danças e tinha fortes ligações com o mesmo feriado celebrado por todo o norte da Europa.

Notas de rodapé
1. Dr. Anne O'Dowd, National Museum of Ireland, Green rushes under your feet! Spreading rushes in folklore and history. Béaloideas 79, pp 82-112.  

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