quarta-feira, 1 de março de 2017

Deidades, forças naturais e ancestrais

Essa é a tradução de um artigo original em inglês, parte de um projeto chamado “Land, Sea and Sky” cujo link se encontra no final da página. A tradução foi feita pelo autor do blog e como sua escritora faleceu, a autorização foi concedida por uma das organizadoras do projeto, Shae Clancy.

12. Deidades, forças naturais e ancestrais
Francine Nicholson

                Conforme caminhas ao longo de uma estrada, um corvo pousa no galho de uma árvore bem acima de sua cabeça e crocita ruidosamente. Se tu fosses um celta pré-cristão, imediatamente se perguntaria se esse era um corvo comum ou um mensageiro do outro mundo. Poderia ser ele sua divindade patrona em sua forma animal? E mais importante, estaria ele tentando lhe dizer alguma coisa?

                Para os celtas pré-cristãos, estas eram perguntas com verdadeiro significado e importância para suas vidas diárias. Eles acreditavam que compartilhavam o mundo não apenas com as criaturas que podiam ver, mas também com uma tropa de seres cuja presença nem sempre era facilmente detectada. Aplacar essas forças não-humanas e ganhar sua cooperação poderia trazer paz, vitória, fertilidade e prosperidade.


                O outro mundo nas tradições célticas é o lar das divindades, mesmo daquelas que estão associadas com as paisagens desse mundo. Patrick Sims-Williams sugere que os irlandeses viam múltiplos outros mundos, mas os galeses acreditavam que o outro mundo era uma região contínua com várias áreas de nomes diferentes. Os galeses medievais mencionam três localizações: um palácio subterrâneo acessado através de montes, um lugar localizado vagamente “sobre o mar” e alcançado através de barcos, ou uma das diversas localizações geográficas específicas conhecidas (tais como Harlech ou certas ilhas), também acessadas através de barcos.

                A palavra galesa para o outro mundo como um todo é normalmente Annwn ou Annwfyn, e o Primeiro Ramo do Mabinogi retrata reinos diferentes dentro do Annwn, governado por dois reis que lutavam um contra o outro, Arawn e Hafgan. Um poema galês do século IX, Preiddeu Annwn, “Os Espólios de Annwn,” lista os nomes para diferentes fortalezas sobrenaturais – tais como Caer Sidi, Caer Rigor, Caer Fandwy – que podem corresponder à diferentes partes do outro mundo.

                Os irlandeses parecem ter tido noções similares sobre a localização do outro mundo – no subterrâneo, vagamente sobre o mar ou em um lugar específico. No entanto, eles usavam nomes diferentes, e quando especificavam uma localização conhecida, estas eram diferentes daquelas mencionadas pelos galeses. Por exemplo, enquanto que os galeses mencionam lugares como Harlech, os irlandeses mencionam Tech Duinn e outras ilhas irlandesas. Tal como muitos aspectos da religião céltica, até mesmo o outro mundo era local.

                O nome galês para o outro mundo, Annwfn, aparentemente não tem um cognato em irlandês ou em outras línguas célticas. O termo irlandês equivalente é síd, apesar deste normalmente se referir ao outro mundo alcançado através de montes funerários encontrados por toda a Irlanda. Outros nomes irlandeses para o outro mundo evoluíram com o passar dos séculos. Eles incluem Emain Ablach (Emain das maçãs) – uma ilha afastada da costa da Escócia associada com Manannán mac Lir –, Mag Mell (a planície agradável) – o mar no caminho para Emain Ablach –, Mag Dá Cheó (a planície das duas névoas) – encontrada entre Cruachain e Athlone –, Tír na mBan (a Terra das Mulheres) – uma ilha que diz ser habitada por atraentes mulheres e visitadas por heróis em contos de immrama –, Tír na mBeó (a Terra da Vida) – habitada pelos Túatha Dé Danann –, Tír na nÓg (a Terra da Juventude) e Tír Tairngire (a Terra da Promessa). Em algumas tradições irlandesas, os mortos parecem ir para Teach Duinn, a Casa de Donn, dito ser um ancestral dos irlandeses. Essa tradição parece corresponder à crença gaulesa descrita por Júlio César, de que os gauleses veneravam Dis Pater, o nome de César para o deus dos mortos, tal como seu ancestral.

                Muitos estudiosos acreditam que as terras descritas nas histórias irlandesas de viagem pelo mar, as immrama, correspondem aos vários locais do outro mundo. Alwayn e Brynley Rees até mesmo sugerem que as immrama descrevem os estágios em uma jornada da alma para a próxima vida. A maioria dessas terras e ilhas parecem ser paraísos – locais onde todas as coisas boas da vida terrena são encontradas em abundância.

                Os escritores modernos nutrem-se dos prazeres retratados nas histórias sobre o outro mundo: doce música, mesas cheias de comida e homens e mulheres de incomparável beleza que nunca envelhecem ou adoecem. Esses escritores frequentemente ignoram as experiências e provações experimentadas por aqueles que se aventuram no outro mundo, especialmente por aqueles que vão em busca de conhecimento ou tesouro. Por exemplo, em Preiddeu Annwn, Arthur viaja para Annwn em busca do Caldeirão da Inspiração e do Renascimento. Ele viaja com três companhias de homens, dos quais apenas sete sobrevivem e a missão falha. Fionn mac Cumhaill frequentemente perde companheiros quando viaja para o outro mundo, e ele próprio paga pelos seus dons sobrenaturais com alguma desfiguração de seu corpo. Seu cabelo fica grisalho em uma história e ele queima seu dedo em outra. Quando Bóann busca inspiração do sobrenatural Poço de Segais, ela perde um braço e uma perna. Os presentes do outro mundo não são gratuitos.

                Na Irlanda do século XIX, essa noção de reciprocidade entre os mundos, que um preço precisa ser pago pelo conhecimento e pelos dons sobrenaturais, era conhecida como ‘a Penalidade’. Supostamente, a curandeira Biddy Early alertava aos seus clientes de que a cura de  um membro da família podia ser seguida pela morte de um animal. Ela falava para seus clientes não se ressentirem sobre isso. Fazia parte da forma como as coisas funcionavam. Milhares de anos antes, Júlio César escreveu em De Bello Gallico algumas crenças similares entre os gauleses:

                “Aqueles que são grandemente afetados por doenças e pelos perigos da batalha, ou realizam o sacrifício humano ou juram fazer o sacrifício usando os Druidas como os administradores para esses sacrifícios, uma vez que é julgado que, a menos que a vida de um homem seja dada pela vida de um outro homem, a vontade dos deuses imortais não pode ser aplacada.”

                Embora se acreditava que o mundo era preenchido por uma energia caótica e indomável, ele era também organizado em uma ordem tripartida: o solo (ou a terra), o mar (incluindo todos os lugares aquáticos), e o céu (ou o ar). Como será descrito mais pra frente nesse capítulo, o outro mundo, o mundo dos poderes invisíveis e dos mortos, existia ao lado da ordem tripartida desse mundo. Nas histórias medievais, há conexões entre o mar, o mundo dos mortos, e o outro mundo. Por exemplo, o senhor dos mortos era às vezes retratado como um personagem subterrâneo, e em outras vezes, dizia-se que morava em uma ilha no mar. No entanto, o outro mundo geralmente permanecia distinto do mundo dos mortos.

                A água mediava entre os outros reinos, viajando do céu como a chuva e retornado como o orvalho evaporado após tornar a terra fértil. A água também conectava os humanos com o outro mundo. De acordo com as histórias irlandesas, acreditava-se que pelo menos alguns rios originavam-se de poços no outro mundo que fluíam para esse mundo. Pensava-se que tais rios, e poços e fontes, traziam o poder e o conhecimento do outro mundo para esse. O conhecimento podia ser adquirido comendo um salmão especial que vivia em certos poços ou rios, bebendo a água de certos locais ou inalando as bolhas que flutuavam pelo rio em certas épocas e lugares.

                Uma vez que o outro mundo era frequentemente localizado nas ilhas, ele tinha que ser alcançado através de barcos. As linhas seguintes descrevem um outro mundo que está repleto de imagens marítimas:

“Há uma ilha distante
Ao redor da qual os cavalos do mar cintilam,
Um grande curso contra a branca e grande onda,
Com quatro pés de altura.”

“Bigas douradas na planície do mar,
Levantando-se com a maré para o sol,
Bigas de prata na planície dos esportes,
E de imaculado bronze.”

“É um dia de clima permanente,
Que faz chover prata nas terras;
Uma falésia pura e branca no alcance do mar,
Que recebe do sol o seu calor.”

                Como mencionado anteriormente, o outro mundo está intimamente conectado com o Submundo, e as vezes, é igualado a ele. Ambos representam dimensões onde seres e criaturas misteriosas vivem. Os escribas irlandeses medievais e os bardos galeses especularam sobre a natureza do Submundo, mas não duvidavam da sua existência. Com o passar do tempo, os povos célticos cada vez mais pensavam no outro mundo e no Submundo como um único lugar onde o ‘bom povo’, as divindades evemerizadas e os morto, viviam. Ele podia ser acessado através de cavernas, poços, túneis nas encostas das colinas, e portais menos óbvios que se abriam quando menos se esperava. Na Irlanda, o outro mundo era igualado com certos aspectos físicos da paisagem, tais como montes ou raths, reminiscências de antigas culturas que foram identificadas com o ‘bom povo’, ou com aes sídhe, ‘o povo da paz’.

                Embora as tradições sobre as características do outro mundo são frequentemente contraditórias, as descrições deixam claro que, acima de tudo, era um lugar que ao mesmo tempo era igual e diferente deste mundo. Assim como esse mundo, ele tinha plantas, árvores, rios, lagos, mobiliário e comida. Diferente desse mundo, as cores eram mais brilhantes, e as canções e a música eram mais doces. O tempo passava de forma diferente lá. Às vezes, os visitantes retornavam para esse mundo após o que parecia algumas semanas apenas para descobrir que somente algumas horas se passaram; outras vezes, centenas de anos tinham se passado. Acima de tudo, as coisas eram imutáveis. Ninguém envelhecia.

                Mortais comuns podiam entrar no outro mundo apenas em certas épocas e sob circunstâncias especiais, mas as entidades sobrenaturais podiam cruzar a fronteira quando quisessem. Ocasionalmente, pedia-se ajuda aos humanos em batalhas entre as forças do outro mundo. Tanto Cú Chulainn como Pwyll ajudaram reis do outro mundo dessa forma. Dotado com poderes mágicos, Fionn mac Cumhaill frequentemente cruzava para o outro mundo com seus companheiros, ora acidentalmente, ora intencionalmente, em busca de uma presa ou de um objeto perdido. Às vezes, os habitantes do outro mundo tinham um desejo pelos humanos que resultava em um “cortejo de fada” ou até mesmo em casamentos. Contos folclóricos falam de humanos abduzidos para servirem como amas-de-leite ou empregados no outro mundo. As crianças que tinham dificuldade de crescer ou tinha certas deformidades físicas eram consideradas ‘changelings’, substitutos deixados quando as fadas abduziam uma criança humana. Acreditava-se que as fadas tinham seus próprios afazeres que, às vezes, podiam ser diferentes dos interesses humanos.

                Nenhum humano retornava inalterado dessas visitas. Os habitantes do outro mundo possuíam grandes poderes e conhecimento que as vezes compartilhavam com os humanos, tais como uma melhorada capacidade de tocar um instrumento, compor poesia ou curar. Em seu filme, ‘The Fairy Faith’, o cineasta canadense John Walker entrevistou um homem cujo pai tinha sido um famoso violinista, capaz de fazer músicas surpreendentes. Dizia-se que a habilidade vinha da estadia de uma noite com as fadas. No entanto, algumas mudanças menos bem vindas também podiam acontecer, tais como manqueira ou grisalhice prematura.

                Apesar da morte física ser inevitável, os antigos celtas acreditavam que alguma parte de um humano sobrevivia e prosseguia para a vida em outro lugar. Além disso, não está claro sobre o que eles acreditavam sobre a vida após a morte, embora a literatura frequentemente ofereça dicas intrigantes de exóticas terras de abundância e de sublime e doce música. Declarações lacônicas se referem à guerreiros mortos indo para os “reinos dos mortos” ou para a “Casa de Donn”, o ancestral real dos gaélicos. A evidência dos autores clássicos afirma a crença céltica em uma vida após a morte. Nicandro de Cólofon falava de celtas dormindo perto das tumbas de seus mortos famosos para receber mensagens nos sonhos, e Diodoro da Sicília escreveu sobre a crença de que as oferendas enviadas para o outro mundo em piras funerárias seriam recebidas pelos ancestrais do outro lado.

                Referências clássicas sugerem que os antigos celtas acreditavam que era necessário enterrar o morto com suas posses preferidas para equipá-lo na vida após a morte, e a evidência arqueológica dos antigos túmulos célticos confirmam que os celtas, de fato, tinham essa crença. No entanto, tumbas tardias eram menos elaboradas, e às vezes, a cremação substituía o enterro. O significado dessa mudança na prática de sepultamento ainda não foi estabelecido.

                A iconografia das divindades na Gália e Grã-Bretanha repetidamente usam símbolos de morte e vida após a morte, sugerindo que os deuses e deusas agiam como guardiões ou guias na jornada. Certos animais, tais como cães, eram vistos como guias e possivelmente como guardas que vigiavam a viagem. Pelo menos dois motivos literários nos mitos – a hospedaria e a viagem – sugerem que uma jornada da vida para o além, através da morte, pode ser perigoso e que um guia pode ser necessário para conseguir uma chegada segura. O motivo da hospedaria sugere uma casa no meio do caminho entre esse mundo e o próximo, um lugar de personagens grotescos e de comportamento confuso. Na vida real, a hospedaria era um lugar onde os viajantes de todos os níveis sociais se reuniam ao buscar um abrigo para passar a noite. Em um mito, a hospedaria governada por Dá Derga reúne os personagens desse mundo e do outro, que fazem uma pausa antes de cruzarem a fronteira.

                Não está claro quem, além dos humanos, habitava o mundo para onde os mortos iam. Os mitos do outro mundo onde as divindades habitam não mencionam humanos que morreram. Por outro lado, o folclore não faz distinção entre as fadas e os espíritos de humanos mortos. O que está claro é que todas as histórias dos outros mundos usam as mesmas imagens literárias para retratar um mundo bastante parecido com esse, mas onde as cores são mais brilhantes, as frutas são mais doces e mais abundantes e a música é muito mais bonita para ser descrita ou reproduzida.

                Numerosas histórias no mito e no folclore falam de mortos que voltaram para esse mundo para entregar mensagens aos vivos ou para fazer alguns “passeios”. Tradicionalmente, acreditava-se que o ano novo céltico era a época usual em que os espíritos ancestrais retornavam e visitavam suas famílias.

                O mundo dos mortos era um lugar terminal? A suposição popular nos dias de hoje é que os antigos celtas acreditavam na reencarnação e que a alma poderia repetidamente renascer. A evidência citada consiste de declarações feitas por alguns autores clássicos e mais as histórias dos mitos irlandeses nos quais os personagens são retratados movendo-se de um corpo para outro. No entanto, há duas objeções para essa evidência. Enquanto que alguns escritores clássicos especificam “migração da alma,” a maioria dos autores clássicos ao escreverem sobre os celtas fazem afirmações desse tipo: “a alma não morre, mas cruza após a morte de um lugar para outro.” Isso poderia simplesmente se referir à uma vida após a morte. A outra objeção é que os mitos que parecem mencionar a reencarnação, na verdade se referem à um ser imortal que muda sequencialmente de uma forma para outra. As exceções referem-se à personagens que parecem ser mais que humanos: Cú Chulainn e Mongan. Consequentemente, suas reencarnações e qualquer coisa associada com eles provavelmente será visto como extraordinário. A questão da crença na reencarnação permanece aberta por hora.

Os seres invisíveis

                Conforme descrito no capítulo 5, os celtas pré-cristãos acreditavam que eles compartilhavam esse mundo com muitos outros seres além deles. Alguns pareciam viajar entre os mundos, enquanto outros eram mais permanentemente ligados à um aspecto geográfico específico ou partes do mundo visível. Os seres invisíveis podiam ser amigáveis, indiferentes, ou até mesmo hostis aos assuntos humanos. De acordo com esse ponto de vista, os humanos precisavam da ajuda de poderosos guardiões que podiam persuadir as forças hostis, porém férteis, a produzirem benefícios positivos para os seres humanos. Os celtas pré-cristãos acreditavam que os seres amigáveis podiam agir como guardiões ou proteger uma pessoa, as colheitas, os animais e entes queridos das forças hostis.

                Provavelmente, a melhor forma de imaginar esses seres invisíveis é nas seguintes categorias, tendo em mente que elas provavelmente se coincidem:

                As deidades, seres poderosos retratados com algumas características antropomórficas, mas que ainda eram distintamente os “outros”. Eles tinham poder e habilidade para controlar o clima e outras forças naturais. Os humanos poderiam se tornar seus clientes e conseguir a sua ajuda. Conforme o cristianismo progredia, essas figuras foram entedidas como anjos caídos, demônios, e eventualmente, “fadas”.

                As forças naturais e os espíritos associados com as paisagens e com o clima, incluindo os elementos (sol, lua, vento, tempestades, orvalho, chuva); seus propósitos poderiam ser diferentes dos propósitos humanos.

                Os ancestrais, espíritos dos mortos que poderiam ser chamados para ajudar os humanos vivos.

                Sacerdotes e videntes podiam se dirigir e conversar com as deidades e forças naturais. Esses especialistas religiosos podiam obter o conhecimento do outro mundo e acreditava-se que alguns até mesmo sabiam como controlar as forças naturais.

                No entanto, apesar dos sacerdotes e videntes serem treinados para conduzir rituais e terem um conhecimento especial, a interação com as divindades e outros seres era parte da vida diária para qualquer um em uma comunidade céltica. Cada indivíduo sabia um pouco sobre como identificar, se dirigir e solicitar a ajuda das divindades, e evitar ofender alguns seres menos amigáveis. Para garantir a prosperidade do lar e da fazenda, as pessoas realizavam rituais cujos espíritos e propósito sobreviveram nas tradições folclóricas ainda praticadas nas regiões célticas hoje. Por exemplo, uma pessoa não poderia construir em lugares que eram conhecidos como sendo “deles”. Se tu tivesses uma vaca branca, tu deverias deixar do lado de fora um pouco do leite dela para “eles”. Deixar do lado de fora uma tigela de aveia demonstrava uma intenção cortês, uma boa vontade de viver com “eles” de forma pacífica e respeitosa.

                Outra crença essencial era que as coisas não deveriam necessariamente serem interpretadas de forma literal. Os celtas pré-cristãos viam presságios na atividade do mundo e de seus diversos habitantes. Por exemplo, a sabedoria tradicional inclui formas de interpretar o conhecimento dos pássaros. Se tu estivesses pensando em uma pergunta e um animal aparecesse subitamente, seu comportamento poderia sugerir uma resposta para sua questão.

                Como observado em outros capítulos, os celtas pré-cristão não escreviam sobre suas crenças. Nós não temos um único manuscrito listando todas as divindades célticas com seus atributos e suas histórias. A evidência para as divindades célticas vem de uma variedade de fontes e períodos de tempo. As vezes, a evidência é contraditória, possivelmente pelo fato de ter sido registrada por escritores e escribas que não compartilhavam as mesmas crenças célticas pré-cristãs. Muitas vezes os escritores não entendiam as crenças e nunca tinham visto as práticas que eles descreviam. Em alguns casos, os escribas ou autores podem até mesmo terem sido hostis às crenças e práticas.

                O conceito céltico pré-cristão do divino aparentemente evoluiu com o passar do tempo. Inicialmente, eles provavelmente viam as divindades como personificações inteligentes dos elementos usados para criar o mundo. Gradualmente, eles começaram a ver suas divindades em termos de como eles funcionavam como protetores da tribo, portadores da saúde e de outros presentes, as forças  da vitória em batalha e fontes da fertilidade ou outro tipo de prosperidade. Eles provavelmente honravam diversas categorias de divindades, incluindo protetores tribais, protetores vocacionais e do lar, guardiões pessoais e as forças naturais da terra, céu e mar que viviam ao seu lado. Os celtas também veneravam seus ancestrais. Essas categorias provavelmente se sobrepunham.

                Nos períodos antigos, os celtas ainda estavam expandindo seu território, conquistando outros povos e ocupando terras vazias. Eles ainda caçavam pela sua comida, e praticavam a agricultura e  a pecuária com animais como ovelhas, gado e porcos. Apesar deles não escreverem sobre suas divindades, eles esculpiam imagens na pedra e faziam esculturas deles. No início, essas imagens retratavam, em sua maior parte, animais, mas as esculturas tardias e a mitologia sugerem que as antigas imagens e esculturas podem, as vezes, representar as formas animais das divindades. De fato, uma imagem bastante antiga mostra uma imagem que é metade homem e metade veado, talvez até mesmo sugerindo que a imagem está no meio de uma metamorfose. Nas esculturas e nas moedas célticas, parece que os símbolos foram usados por eles para representar reis, tribos e, talvez, divindades, uma vez que as tribos frequentemente eram nomeadas a partir de seus deuses.

                Somos forçados a especular sobre o que essas imagens e símbolos representavam. Uma história relatada por Diodoro da Sicília sugere que era um tabu entre os celtas retratar as divindades como humanos:

                “Quando Breno, o rei dos gauleses, entrou em um templo [grego], ele não encontrou oferendas de prata ou ouro, e pegou as de pedra e madeira [que ele encontrou lá]. Ele riu da ideia de fazer os deuses em forma humana.”

                Talvez, os celtas pré-cristãos a princípio viam seus deuses como personificações das forças naturais e dos elementos do cosmo, elementos a partir dos quais, eles aparentemente acreditavam, os humanos também foram criados. Nomes de divindades não são citadas em achados arqueológicos dos períodos mais antigos.

                Por volta do século III a.C., quando os romanos estavam começando a expandir sua esfera de influência, os celtas continentais estavam expandindo seus assentamentos e desenvolvendo suas conexões comerciais. Apesar dos assuntos agrícolas continuarem sendo de crucial importância e os sacerdotes e guerreiros nobres ainda governassem a sociedade, os artesãos e os mercadores se tornaram o grupo de mais rápido crescimento. Seus contatos com os romanos e outros povos mediterrâneos começaram a influenciar as artes e a cultura celta, e isso, por sua vez, afetou as formas e práticas da religião em muitas regiões. Os celtas em áreas romanas começaram a mudar a forma que retratavam e se dirigiam aos seus deuses. Ao invés das representações simbólicas de formas animais, os celtas começaram a criar elegantes esculturas de figuras altamente antropomórficas, claramente influenciadas pelo estilo clássico.

                As inscrições que foram recuperadas sugerem que por volta dessa época, os celtas pré-cristãos tinham começado a ver seus deuses como mais do que simplesmente personificações das forças naturais. Imagens antropomórficas começaram a se espalhar nas áreas celto-romanas, frequentemente usando as imagens das estátuas romanas. Divindades específicas começaram a se tornar associadas com as artes ou linhas de trabalho. Por exemplo, um grupo de comerciantes marítimos ergueram uma estátua em agradecimento a proteção de Cernunnos, o deus de chifres de veado. Aparentemente, sua função se expandiu para a proteção de todos os que buscavam a prosperidade, e não simplesmente daqueles associados com a caça.

                Nesse período, a evidência para as divindades do continente europeu vem dos comentários feitos pelos escritores clássicos e das inscrições, imagens e outros objetos encontrados em sítios arqueológicos.

                Escritores clássicos descreveram e caracterizaram as divindades célticas em termos romanos. Por exemplo, Júlio César escreveu em De Bello Gallico que,

                “Dos deuses, eles cultuam Mercúrio mais do que todos. Muitas são suas imagens. Eles o exaltam como o inventor de todas as artes, o governante de jornadas e viagens e julgam que ele tem o maior dos poderes sobre a obtenção de dinheiro e do comércio. Depois dele, Apolo, Marte, Júpiter e Minerva. A respeito destes, eles tem quase a mesma opinião do resto dos povos: Apolo para expulsar as doenças, Minerva para ensinar os elementos da sabedoria, Júpiter para manter a ordem dos céus e Marte para controlar as guerras.”

                Comentários como estes podem refletir as inclinações dos escritores mais do que a forma como os celtas pré-cristãos viam seus deuses. Provavelmente, tais escritores ignoravam quaisquer distinções entre as divindades célticas e romanas, mesmo que estivessem cientes delas. Portanto, temos que interpretar esses comentários cuidadosamente, verificando a outra obra do escritor para ver o quão confiável é.

                Após os romanos terem conquistado as áreas célticas, eles e os celtas subordinados começaram a chamar todas as divindades célticas por nomes clássicos ou por nomes que combinavam elementos célticos e romanos. Por exemplo, a maioria das dedicações para Apolo nas áreas célticas incluem o nome ou título de uma divindade céltica solar que tinha sido confundido com a função e o nome de Apolo, tais como Apolo Belenus. Deusas célticas locais e nutridoras frequentemente eram ligadas com deuses romanos e estes eram honrados como um par. Esses nomes duplos, como Apolo Grannos ou Sulis Minerva, sugerem que alguma combinação entre tradições romanas e célticas aconteceu. Mesmo quando apenas um único nome romano aparece, os símbolos e o simbolismo usados nas estátuas e esculturas das áreas celto-romanas diferem dos estilos da arte romana na Itália. Nas áreas célticas, as divindades romanas foram modificadas e dadas novas características, símbolos ou atividades. Por exemplo, as representações de Júpiter incluíam a roda raiada, um símbolo associado com deuses célticos, e Mercúrio foi conhecido principalmente como um patrono das artes. Sendo assim, diferente de suas contrapartes romanas que tinham um papel específico, esperava-se que cada deus ou deusa céltica funcionava como o protetor geral de uma tribo ou assentamento, seja quais forem seus outros atributos.

                A influência, no entanto, não era inteiramente uma via de mão única. Uma divindade céltica, a deusa-cavalo Epona, se tornou tão popular entre os romanos que sua festa foi adicionada ao calendário romano, mas, ao invés de honrá-la como um símbolo da soberania, eles a adotaram como uma patrona dos soldados da cavalaria e criadores de cavalos.

                A evidência para as divindades irlandesas e galesas vem principalmente da mitologia, mas ela pode ser complementada pelo folclore de outras áreas célticas. As histórias encontradas nos manuscritos medievais ou passados como folclore frequentemente relatam figuras que os estudiosos agora acreditam serem deuses, e que então se tornaram santos ou heróis. No entanto, os contos da mitologia irlandesa e galesa são povoados por homens que são poderosos guerreiros, reis e mágicos, e mulheres que são tanto obstinadas como submissas. Apenas ocasionalmente eles são identificados como divindades nos textos. Hoje, os estudiosos discordam quanto aos que devem ser identificados como divindades e como heróis com habilidades e poderes extraordinários. Uma confusão adicional é causada pelo papel dessas figuras como ancestrais das tribos ou de grupos de parentes. As esculturas encontradas na Irlanda e na França, que datam ao período pré-romano, sugerem que os celtas pré-cristãos nem sempre viam suas divindades como antropomórficas. Frequentemente, os deuses que aparecem nos mitos mudam para formas de animais assim como para formas humanas. Talvez, pode ser que tenha sido acreditado que os deuses podiam assumir qualquer forma que se adequasse aos seus propósitos, e que nenhuma forma humana ou animal era sua forma “original”. Isso seria consistente com a história de Diodoro sobre Breno rindo da ideia de retratar os deuses em formas humanas.

                Os estudiosos geralmente concordam que alguns aspectos da cultura céltica permaneceu relativamente intacta na Irlanda até a chegada do cristianismo, que se tornou dominante por volta do final do século VII. Ainda assim, os irlandeses adaptaram o cristianismo que recebiam, incorporando grande parte das crenças e práticas de seus ancestrais.

                Muitos escribas tentaram registrar a tradição com o melhor de suas habilidades, e uma rápida leitura das notas marginais de um manuscrito irlandês medieval revela o quão preparados estavam os escribas para corrigir os erros onde quer que os encontrassem, mas não importa o quão sinceras eram as tentativas dos escribas para recapturar e registrar as tradições pré-cristãs, o fato é que se passaram centenas de anos entre o fim da religião irlandesa pré-cristã como uma força social dominante e os primeiros registros dos mitos. É possível que os escribas escolheram não registrar alguns costumes e rituais que eles sabiam serem pagãos, mas como os mitos registrados contém muitos traços de práticas pagãs, isso não é provável na maior parte dos casos. A maioria do conhecimento dos rituais das comunidades pagãs provavelmente se perdeu quando os últimos detentores da sabedoria pagã morreu, muito antes dos escribas começarem a registrar os mitos e os contos. No entanto, muitas devoções conduzidas nos lares e nas fazendas sobreviveram e evoluíram para a tradição folclórica. Uma leitura cuidadosa de histórias como o Lebor Gabála Érenn ou o Cath Maige Tuired deixa claro que os escribas nem sempre estavam certos das tradições que registravam. Há muitas contradições. Alguns personagens podem ter sido até mesmo criados quando os escribas mal interpretavam as fontes. A tendência dos escribas em combinar diversas histórias ou motivos também torna difícil de verificar o verdadeiro significado de seu uso em uma história. Por exemplo, potros gêmeos nasceram na mesma hora que Cú Chulainn. O uso desse motivo tradicional sugere que Cú Chulainn era originalmente uma deidade solar? Ou o motivo veio a ser usado como um sinal de nascimento de qualquer herói?

                Para muitas pessoas nos países célticos, as divindades nunca deixaram de existir, mas foram transformadas em figuras que eram pelo menos aceitas marginalmente para os clérigos cristãos. Embora alguns escribas medievais tenham condenado as divindades como demônios, outros tentaram encontrar um lugar para elas em uma nova cosmologia cristã, primeiro como residentes de Antípodas, um mundo paralelo que existia abaixo do mundo principal e acessado através de fossos, canais e túneis. Alguns manuscritos irlandeses contém orações que invocam tanto a trindade cristã como deidades pagãs, sugerindo que a mistura sincrética encontrada no folclore moderno também foi encontrado em alguns monastérios medievais. Mais tarde, os escribas retrataram as divindades como anjos que escolheram não ficar do lado de Deus contra Lúcifer quando este se rebelou, uma noção que foi preservada no folclore da Irlanda.

                Enfrentamos problemas similares quando olhamos para os mitos e outros conhecimentos galeses. Uma vez que o País de Gales já foi parte do Império Romano, sua cultura e literatura esteve sujeita à influência de Roma. Mais tarde, os anglo-saxões invadiram a área e as influências germânicas penetraram, seguida pelas invasões normandas. Tal como na Irlanda, os contos galeses foram registrados no início por escribas cristãos, e a tradição foi sujeita a esta mesmas perdas e influências que caracterizaram o processo de registro na Irlanda. O texto galês Trioedd Ynys Prydein (“Tríades da Ilha da Grã-Bretanha”) contém histórias e personagens dos quais não temos outras evidências. A principal coleção de histórias na tradição galesa, o Mabinogi, foi registrado bem depois que os primeiros mitos irlandeses foram registrados. Portanto, é necessário ter cautela ao buscarmos vestígios de divindades nos mitos galeses, mas estas divindades podem ser encontradas em evidências arqueológicas e nas histórias de outras tradições célticas.

                A personagem Rhiannon, por exemplo, parece ter características similares à deusa-cavalo continental, Epona, e sua contraparte irlandesa, Macha. Em alguns casos, pode-se deduzir que os personagens galeses têm cognatos em outras culturas célticas baseados em seus nomes. É provável que Lleu seja a versão galesa do Lugos gaulês e do Lugh irlandês. A personagem Blodeuwedd, a donzela criada a partir das plantas e flores para ser a companheira de Lleu, aparece principalmente no Mabinogi como um exemplo de mulher infiel, mas sua transformação em coruja como punição abre a possibilidade de que ela tenha algo comum às deusas-pássaro encontradas nas esculturas do continente europeu.

                A crença nas forças inteligentes associadas com os elementos naturais nunca desapareceu completamente, persistindo no período cristão. Os textos monásticos frequentemente refletem esse esforço em colocar os elementos como poderes sujeitos ao Criador cristão. Teólogos frequentemente se dirigem ao seu deus como o “Mestre dos Elementos”. Ainda assim, os antigos escribas cristãos continuaram acreditando que os elementos tinham vontade e poder independente para agir da sua própria maneira, embora seu poder pudesse ser aproveitado por alguém com suficiente treinamento, conhecimento e poder pessoal. As histórias irlandesas retratam druidas invocando o poder dos elementos para proteção ou em ataque contra seus inimigos. Na hagiografia de São Patrício, os druidas usam seu conhecimento para controlar os elementos. Por sua vez, Patrício chama seu deus para dominar os elementos e superar os druidas. Até mesmo uma oração explicitamente cristã, como a que conhecemos hoje como o “Peitoral de São Patrício”, invoca a proteção dos elementos:

“Hoje eu me levanto,
No poder do céu,
No brilho do sol,
Na glória do fogo,
Na rapidez do relâmpago,
Na velocidade do vento,
Na profundeza do mar,
Na estabilidade da terra,
Na firmeza da rocha.”

                Como documentado em muitos estudos folclóricos, as crenças e práticas tradicionais persistiram em países célticos até os dias de hoje. Várias culturas célticas provavelmente tiveram uma tradição folclórica de devoções para as tarefas diárias que coexistiam com os rituais oficiais e coletivos conduzidos pelo clero pagão. Estudos compreensivos, como o Festival of Lughnasa de Máire Mac Neill, documentam que resquícios de práticas pré-cristãs persistiram até recentemente.

                Outro exemplo de resquícios folclóricos é a devoção em poços sagrados. Apesar da maioria destes poços serem agora dedicados aos santos cristãos, muitas das devoções tem claramente origens pré-cristãs. As vezes, o folclore reforça a informação que encontramos nos mitos, e outras vezes, ele discorda. Por exemplo, personagens como Crom Dearg não aparecem na maioria dos mitos, mas desempenha um papel proeminente no folclore. Em outros casos, a imagem de um personagem nos mitos parece completamente diferente da forma como o folclore o retrata. Todavia, o folclore permanece como uma de nossas mais importantes fontes para os costumes reais realizados pelos celtas pré-cristãos para honrar as divindades.

                O folclore irlandês pode ser complementado pelo estudo de outros costumes de outras áreas célticas, especialmente os da Terra Altas da Escócia.

                O isolamento e os hábitos conservadores dos gaélicos das Terras Altas e das Ilhas Hébridas da Escócia preservaram os contos e os costumes folclóricos de suas tradições muito após tais crenças e práticas terem morrido ou terem sido transformados nas Terras Baixas dominadas pelo inglês, na Escócia. Ao longo dos anos, os estudos comparativos dos motivos, costumes e crenças encontradas no folclore escocês clarearam figuras encontradas na mitologia e no folclore da Irlanda e do País de Gales. O País de Gales e a Cornualha também tem a sua riqueza de folclore, apesar deles tenderem a mostrar mais influência da presença cultural inglesa bastante próxima deles. Similarmente, o folclore da Bretanha, enquanto essencialmente céltica, também mostra a influência da cultura francesa e normanda. Todavia, todas essas fontes permanecem importantes.

                Quando revisamos todas as evidências, podemos criar nove pontos básicos sobre a visão céltica pré-cristã das divindades.

1. A herança indo-europeia

                De certa forma, as forma como os celtas viam suas divindades assemelham-se com as de seus vizinhos indo-europeus. A teologia céltica pré-cristã evoluiu das crenças dos proto-indo-europeus, cuja divindade central era um deus do céu. Isso pode ter sido verdade entre os celtas pré-cristãos também, mas existem muitas versões dessa divindade. Cada divindade era vista como o protetor de sua tribo. Outras divindades célticas e sua iconografia se assemelham com as deidades de outras sociedades indo-europeias. Por exemplo, similaridades são frequentemente observadas entre o Lugh céltico e o Odinn nórdico. No entanto, as ideias célticas pré-cristãs sobre as divindades e como interagir com elas difere o suficiente dessas outras culturas para falarmos de uma teologia pagã céltica distintamente.

2. Tradição Comunitária e não Revelação Individual

                A visão céltica pré-cristã de suas divindades, apesar de distintas, não surgiu rapidamente ou saiu de um vácuo. Sem dúvidas, os grupos célticos tinham significantes líderes religiosos em várias épocas, mas seus nomes estão perdidos para nós. Certamente, estes líderes comunicavam aos seus estudantes as ideias e ensinamentos que eles acreditavam terem recebidos do outro mundo, mas com o passar do tempo, essas ideias se tornaram parte da tradição comunitária.

3. Foco e estilo local

                Na maior parte das áreas célticas, o culto das divindades célticas pré-cristãs podem ter se assemelhado com a descrição de Venceslas Kruta: “um panteão composto de deuses tribais, divindades locais (frequentemente pré-célticas) e cultos pertencentes à classes sociais específicas, todos unidos em um flexível sistema organizado ao redor de um punhado de deuses pan-célticos principais de uma ‘piscina’ mitológica comum.” Nem todo estudioso concorda ter existido divindades célticas pan-célticas, mas certamente, a honra de divindades célticas variavam de lugar para lugar, refletindo influências locais e interesses específicos. Literalmente, centenas de nomes de divindades foram encontrados em inscrições, mas a maioria esmagadora desses nomes foram encontrados apenas uma vez em uma região geográfica bastante restrita. Frequentemente, os deuses, especialmente as deusas, foram associadas à específicos marcos geográficos ou tribos. Mesmo quando o nome da mesma divindade é encontrado em lugares diferentes, as ideias sobre a divindade aparentemente variavam de alguma forma. Por exemplo, as imagens do deus Sucellus na região vinícola da Borgonha o retrata com um tonel de vinho e uma coroa de folhas de videira, atributos que estão ausentes em outros lugares da Gália.

4. Mitos comuns

                Apesar do forte caráter local da prática religiosa céltica, existiam mitos comuns e um conjunto de celebrações sazonais. As centenas de nomes diferentes das divindades podem ser classificadas em uma dúzia de tipos representados em grande parte pelo mesmo pequeno vocabulário de símbolos.

                Por exemplo, o nome do deus Belenus (ou Beleonos) aparece mais frequentemente e em mais lugares que qualquer outra divindade céltica. A iconografia associada com seu nome claramente o identifica como um deus associado com o sol. Ele também é retratado como um guerreiro/protetor e curandeiro. Essas funções não estão desconexas, dada a crença céltica pré-cristã de que o sol é uma fonte de poder curativo e da ideia de que um deus da cura é um defensor contra doenças. No entanto, também está claro que em alguns lugares, Belenos era venerado principalmente como um curandeiro, enquanto que em outros locais, como na cidade de Aquileia ao norte da Itália, ele foi visto principalmente como um protetor. Esse exemplo nos adverte a usar as evidências sobre as deidades com cuidado. O fato de que um grupo céltico acreditava ou agia de uma certa forma não significa automaticamente que todos os outros grupos célticos compartilhavam essas crenças ou agiam da mesma forma em relação à uma dada figura ou evento. Por outro lado, uma visão de mundo similar parece existir atrás dessas crenças e ações guiadas, apesar da variação das expressões.

5. Evolução com o passar do tempo

                As ideias célticas pré-cristãs das divindades e da forma como elas devem ser honradas evoluíram com o passar do tempo. A evidência sugere que os antigos celtas viam suas divindades como forças inteligentes, sencientes e conscientes, associadas com os elementos do universo. Também, parece que em uma época, os celtas pré-cristãos não viam suas divindades assumindo formas humanas. Símbolos como a roda, o cavalo e vários tipos de pássaros provavelmente foram usados por eles para representarem as divindades.

                Conforme o tempo passou, a sociedade céltica pré-cristã se tornou mais estratificada em classes e vocações especiais. A iconografia céltica se tornou cada vez mais antropomórfica. Sem dúvida, as mudanças na iconografia céltica reflete mudanças do conceito de divindades dos próprios celtas. Venceslas Kruta escreva das “dificuldades que encontramos hoje ao tentarmos encaixar a iconografia galo-romana com as imagen de La Tene. Elas não são apenas idiomas visuais diferentes, mas indubitavelmente dois sistemas diferentes que, embora feitos dos mesmos componentes, não se sobrepõem.” As diferenças entre o sistema de épocas mais antigas e das épocas galo-romanas são difíceis de determinar e quantificar, e nem todos concordam que elas são tão vastas como Kruta sustenta. No entanto, os romanos indubitavelmente tiveram um efeito tremendo na prática da religião céltica.

                Cada vez mais no período celto-romano, os celtas se voltavam para as divindades que se acreditavam terem as habilidades e o conhecimento para proteger seus devotos em todos os aspectos da vida, do berço até o túmulo, e ainda, na vida após a morte. Em geral, as divindades associadas com o comércio e a prosperidade ganharam popularidade. Por volta da época em que os mitos foram registrados, apenas traços das formas animais das divindades permaneceram.

                Essa ênfase nos protetores pessoais diminuiu o foco nos poderes elementais, mas não os suplantou completamente. Na Irlanda, a crença nos elementos como poderes animados persistiu até o período cristão, e muitos cantos ou ortha escoceses do Carmina Gadelica invocam tanto a trindade cristã como os poderes elementais. Tais cantos e costumes continuam a ser usados nos dias de hoje.

6. A influência nativa  

                Alguns aspectos da teologia céltica pré-cristã, especialmente deusas específicas, podem ser derivados de povos nativos que as vezes precederam os celtas pré-cristãos. Quando os celtas se estabeleceram em uma área já povoada, eles assimilaram e absorveram os habitantes e algumas de suas crenças. A cultura resultante, enquanto reconhecidamente céltica, incorporou algumas das práticas antigas. Os celtas pré-cristãos em particular, acreditavam que a prosperidade na nova terra viria apenas se eles fizessem um tratado de paz com ela e ritualmente reconhecessem as deusas locais. A evidência sugere que tal compromisso com os cultos locais existentes foi feito pelos gauleses que se estabeleceram em partes da Anatólia que ficou conhecida como a Galácia.

7. Cliente e senhor

                Parece que os celtas pré-cristãos se relacionavam com suas deidades assim como eles se relacionavam com os nobres que governavam a sociedade: como clientes que faziam contratos com nobres poderosos capazes de protegê-los e ajudá-los. Quando os clientes davam os bens e serviços acordados, o nobre senhor, pelo contrato, era obrigado a dar proteção e ajuda quando o cliente precisasse deles. Similarmente, os celtas pré-cristãos ofereciam presentes de produtos artesanais, vidas de animais, e algumas circunstâncias, vidas humanas, para as suas divindades protetoras. Eles acreditavam que, em resposta para tais rituais e ações sacrificiais, as divindades guardiãs cumpririam a sua parte do contrato.

                No entanto, junto com essa crença, existia a convicção de que as oferendas corretas deveriam ser feitas da forma correta, no tempo e no lugar correto. Esperava-se que os líderes religiosos tivessem o conhecimento para realizar tais ritos efetivamente. Se um ritual não alcançasse seu objetivo, os líderes religiosos realizavam algum método de adivinhação para contatar o outro mundo e descobrir qual oferenda ou ação seria aceitável e eficaz.

8. A cosmologia tripartida

                Subjacentes às ações de oferta e sacrifício, estavam os conceitos da cosmologia céltica pré-cristã discutida em outros capítulos. Eles acreditavam que o cosmo era alimentado por uma constante e dinâmica troca de energia e matéria, um equilíbrio entre a criação e destruição, nascimento e morte, crescimento e decadência. As oferendas para as divindades não eram simplesmente presentes para conseguir sua boa vontade, mas materiais que as divindades usariam para realizar suas tarefas como os guardiões desse mundo. Novamente, o modelo nobre-cliente entra em jogo. Os aluguéis e pagamentos de animais, comidas e produtos artesanais que os clientes pagavam para seus senhores humanos duas vezes por ano não eram simplesmente guardados. Um nobre tinha muitos dependentes para alimentar e vestir. Quando um cliente enfrentava tempos difíceis devido ao mau tempo, doença ou ataque, esperava-se que o senhor usasse sua própria riqueza para alimentar e vestir o cliente e seus dependentes. Similarmente, pensava-se que as divindades usassem as oferendas que recebiam para alimentar de alguma forma qualquer poder e proteção que fossem necessários para garantir saúde e prosperidade entre seus clientes nesse mundo.

9. Os habitantes do outro mundo

                Apesar das divindades terem sido frequentemente associadas com paisagens específicas, seu verdadeiro lar era o outro mundo. As interações com as divindades também alimentavam um fluxo dinâmico de energia entre esse mundo e o outro, um fluxo necessário para a saúde cósmica e o equilíbrio de ambos. Como será descrito mais adiante, os descendentes dos celtas pré-cristãos constantemente invocavam os poderes sobrenaturais em suas atividades diárias, e é provável que tais práticas datam de práticas mais antigas.

                Apesar delas emanarem do outro mundo, pensava-se que as divindades eram tanto iguais como diferentes dos seres humanos. Os celtas pré-cristãos não viam suas deidades como arquétipos abstratos e universais ou poderes indiferentes e que não se envolviam com assuntos humanos. As divindades eram vistas como seres pessoais, conscientes, únicos e específicos que estavam interessados nos assuntos desse mundo e agiam para influenciar diretamente o curso dos eventos. As deidades poderiam ser poderosos aliados se tu mantivesses um bom relacionamento com eles. Os humanos que estivessem dispostos a dedicar o tempo e a energia necessária para cultivar um relacionamento com as divindades podiam contar com sua ajuda em tempos de necessidade. No entanto, acreditava-se que o desastre sucederia se o relacionamento fosse negligenciado.

                À parte dos protetores tribais e guardiões pessoais, parece que a maioria dos celtas pré-cristãos recorriam à divindades específicas para necessidades específicas, como ir para templos ou poços de cura para um problema particular. Inicialmente, as tribos honravam provavelmente suas próprias divindades locais majoritariamente. Este era provavelmente o deus ou a deusa da qual a tribo ganhou seu nome ou até mesmo alegava descender. Conforme o tempo passou, algumas deidades começaram a serem honradas por muitos grupos. Essas divindades, que eram boas em qualquer coisa, provavelmente eram o foco da atenção nos quatro principais festivais do ano. Por exemplo, a popularidade de Lugh/Lugus/Lleu, conhecido como o mestre de todas as artes no mito irlandês, disparou no período que imediatamente precedeu o cristianismo. Esse fenômeno pode ter sido relacionado à uma simultânea mudança social resultante do aumento da influência e do papel dos artesãos nas sociedades célticas pré-cristãs. Pode ser também que as divindades que agora apareciam como pan-célticas podem ter sido aquelas associadas com as celebrações dos dias que iniciavam as estações.

                Os celtas pré-cristãos não viam todas as deusas como diferentes aspectos de uma única deusa, e nem todos os deuses eram faces ou encarnações diferentes de um único deus. Para eles, tal ideia teria sido tão ridícula quanto a sugestão de que todas as mulheres são aspectos diferentes de uma única mulher. Essa distinção é frequentemente negligenciada pela maioria de escritores modernos e populares que preferem uma abordagem junguiana ou wiccana para entender ou descrever as divindades e suas funções no cosmo. Os celtas pré-cristãos eram verdadeiramente politeístas.


Fonte: Site “Land, Sea and Sky”. Capítulo 12, “Deities, Natural Forces, and Ancestors” por Francine Nicholson. Disponível em: <http://homepage.eircom.net/~shae/chapter12.htm>. Acesso em: 26 fev 2017.    

4 comentários:

  1. Que textão maravilhoso! Grata por traduzir e compartilhar com a gente, pfv, dê continuidade 💜
    Amei!

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    1. Oi Jully, querida! Muito bom te ver por aqui. Pode deixar que pretendo traduzir todos os capítulos da série, e já tenho três deles traduzidos aqui no blog. Obrigado pelo carinho e pela mensagem, um beijo!

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  2. Grato pror traduzir e conpartilhar com a gemte��

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