domingo, 12 de março de 2017

Conhecimentos sobre Cailleach

Agradeço à Annie Loughlinn, do blog Tairis Tales, que teve a gentileza de compartilhar esse texto conosco de parte do livro de K. W. Grant, citado na fonte abaixo.

Fonte: GRANT, K. W. “Myth, Tradition and Story from Western Argyll”, 1925, p5-6. Disponível em: <https://heelancoo.wordpress.com/2012/01/27/lore-concerning-the-cailleach-bheur/>. Acesso em: 12 de fevereiro de 2017. 

Conhecimentos sobre Cailleach

                A palavra Beur, significa simplesmente um pico, uma ponta ou pináculo, e pode sem esforço ser usada para significar cumes (de montanhas) no seu plural “Bheur”.

                A “bruxa dos cumes” seria uma designação bastante adequada para o espírito dos cumes das montanhas. Lá, nos mais altos cumes, os rebanhos negros de Cailleach Bheur se reúnem. De lá se precipitam as chuvaradas em uma espuma macia, e as cascatas de neve saltam, pois as nuvens e ondas negras são seus rebanhos de veados e suas ovelhas e cabras são as nuvens velosas, tal como as ondas de crista branca ou as águas agitadas nas colinas e planícies.


                A maneira na qual a palavra “beur” é usada é ilustrada na seguinte citação:

“Leis an dionaiche long,
A’ gearradh a h’astar feadh thonn
Gun chùram mar theine nam speur
Troimh bheàrna beur nan neul.”

“Cuja barca retesada
Abre seu infalível caminho com uma destemida proa através da onda,
Como um relâmpago que atira através das fendas de denteados cumes de nuvens.”

                Nenhuma dessas suposições acerca da origem do nome é inteiramente convincente ou satisfatória.

                A esfera da influência de Cailleach e as ações que são atribuídas a ela são descritas a seguir:

                Com sua marreta – “farachan” – ou pilão – “slachdan” – ela bate e esmurra a terra até toda a vegetação ser destruída e a natureza ficar entorpecida.

                Mas por volta da metade de janeiro, a natureza mostra sinais de renascimento e o sol começa a sua jornada de volta. A Cailleach fica alarmada e convoca os “faoiltich”, os lobos ou lobos-da-tempestade; “faol”, um lobo. Essas tempestades duram até a metade de fevereiro.

                Então segue a terceira semana de fevereiro – “trì lathan gobaig”, os três dias dos pungentes e implacáveis ventos de “dentes de tubarão”; e os “trì lathan feadaig”, os três dias de ventos chuvosos, rápidos, dos golpes incertos e das tarambolas aladas que são “a morte das ovelhas e cordeiros, e atolam o forte gado até a chuvarada deslizar sobre suas cabeças.”

                Abaixo está a versão em gaélico para estas últimas linhas:

“’S mise ‘n fheadag luirigineach luath;
Marbhaidh mi ‘chaora, marbhaidh mi ‘n t-uan;
Cuiridh mi a’ bho’ mhòr ‘s an toll
Gus am bi an ton thar a ceann.”

                Então vem a última semana do mês, “Seachdain a’ Ghearrain.” O nome é interpretado de muitas formas. Alguns supuseram que ele significa uma semana de ventos suspirantes e lamentosos, a partir de  “gearan” que significa “lamento”. Outros a usam para significar “Semana do Arado”, a partir de “gearran”, um potro. Um terceiro grupo supõe que o nome vem de “geàrr-shion”, tempestades curtas e súbitas, mas aqueles que sugerem essa tradução colocam a semana entre o dia 15 de março e o dia 11 de abril. “Semana do Arado” é provavelmente a interpretação verdadeira.

                A primeira semana de março é marcada por temporárias rajadas de vento de clima desagradável e por chuvas – “ ‘Sgarraichean na Feill Connain” – As tempestades de S. Conan. A segunda semana é marcada por um clima tempestuoso, aguaceiro e rigoroso, “Doirionn na Feill Padruid” – As ventanias de S. Patrício. A Cailleach então fica desesperada com sua falta de sucesso. Apesar de seus esforços de deixar a terra dura batendo nela com sua marreta e apesar de suas tempestades, a grama cresce, os brotos aparecem e as flores espreitam de seus esconderijos. A Cailleach exclama:

“Dh’fhàg e shios mi, dh’fhàg e shuas mi;
Dh’fhàg e eadar mo dhà chluais mi;
Dh’fhàg e thall mi, dh’fhàg e bhos mi;
Dh’fhàg e eadar mo dhà chois mi!”

“Germinando aqui e brotando ali,
Isso me escapa em qualquer lugar;
Em cima e embaixo;
Brotos e folhas de flores brotam.”

                O corajoso e pequeno pato selvagem insulta a Cailleach – “Apesar do seu enrugado e pequeno março de frio pungente, eu e meus doze ainda estão vivos!” “Espere mais um pouco!” exclama o março, ou a Cailleach – pois aqui eles são sinônimos; ela pega emprestado três dias de fevereiro e o resultado é descrito abaixo, em escocês:

“The first day it was win’ an’ west,
The neist day it was snaw an’ sleet,
The third day it sae hard did freeze,
The wee bird nebs stuck tae the trees.”1

                A Cailleach tenta expulsar seu filho – o sol, cortejando a jovem Primavera – mas ele escapa com sua noiva. Ela faz com que o pato selvagem e sua ninhada morram com o frio, e ao fazer isso, tira seu próprio olho. Desorientada e derrotada de todos os lados e fugindo diante de seus inimigos, os ventos invernais da Cailleach adormecem conforme o sol regressante brilha e os ventos quentes sopram.

                A enfurecida Cailleach é derrotada e ela arremessa sua marreta debaixo de um azevinho, onde nunca uma lâmina de grama pôde crescer depois disso, de tão poderosa que é a influência para insensibilizar a vegetação.

                E isso nos traz para o ”Latha na Caillich” – o Dia da Velha Senhora – o dia 25 de março (de acordo com o calendário do velho estilo), a data da derrota de Cailleach, quando ela abaixa sua marreta e é transformada em pedra como punição.

Notas de tradução

1. Não me arrisco com o dialeto escocês. De forma grosseira, acredito, a estrofe significaria: “O primeiro dia era vento e vento do oeste / O segundo dia era neve e aguaceiro / O terceiro dia de tão duro congelou / O bico de pássaros alegres prendeu nas árvores.” Não tenho certeza dessa tradução, no entanto; foi apenas uma tentativa de traduzir o difícil dialeto escocês (snaw, neist, an’, sae, taw, win’, etc.)   

Nenhum comentário:

Postar um comentário