terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Beira, a Rainha do Inverno

Fonte: MACKENZIE, Donald Alexander. “Wonder Tales from Scottish Myth and Legend”. 1917. Disponível em: <http://www.sacred-texts.com/neu/celt/tsm/tsm04.htm>. Acesso em: 30 de janeiro de 2017.

CAPÍTULO I
Beira, a Rainha do Inverno

                A Negra Beira era a mãe de todos os deuses e deusas da Escócia. Ela era muito alta e velha, e todos a temiam. Quando se enfurecia, ela era tão feroz quanto o penetrante vento nortenho e tão severa quanto o mar castigado por tempestades. Todo inverno ela reinava como a Rainha das Quatro Divisões Vermelhas do mundo e ninguém disputava seu reinado, mas quando a doce estação primaveril se aproximava, seus subordinados começavam a rebelar-se contra ela e ansiavam pela chegada do Rei do Verão, Angus do Corcel Branco, e Bride, sua bela rainha, que eram amados por todos, pois eram os trazedores da abundância, do brilho e dos dias felizes. Beira se enfurecia grandemente ao ver que seu poder estava indo embora e dava o seu máximo para prolongar o inverno criando tempestades de primavera e mandando a danosa geada para matar as primeiras flores e impedir que a grama crescesse.


                Beira viveu por centenas e centenas de anos. O porquê dela não morrer de velhice era que, no início de cada primavera, ela bebia as águas mágicas do Poço da Juventude que borbulha na Ilha Verde do Oeste. Esta era uma ilha flutuante onde o verão era a única estação e as árvores estavam sempre brilhantes com flores e carregadas de frutas. A ilha flutuava sobre as marés prateadas do azul Atlântico, e as vezes aparecia para as praias ocidentais da Irlanda, e outras vezes, próxima às Hébridas. Muitos corajosos marinheiros conduziram suas galés para cima e para baixo no oceano, procurando em vão pela Ilha Verde. Em uma manhã calma, eles poderiam passar perto de suas praias ainda que nunca soubessem que a ilha estava próxima, pois frequentemente ela se escondia em uma brilhante névoa. Os homens já tiveram vislumbres dela na praia, mas enquanto eles admiravam suas belezas com olhos de maravilha, ela desaparecia de repente, afundando entre as ondas como o sol poente. Beira, no entanto, sempre sabia onde encontrar a Ilha Verde quando era a época de ir visitá-la.

                As águas do Poço da Juventude são mais poderosas quando os dias começam a ficar mais longos, e ainda mais poderosas no primeiro dos longos dias de primavera. Beira sempre visitava a ilha na noite antes do primeiro longo dia – que é, na última noite de seu reinado como a Rainha do Inverno. Sozinha na escuridão, ela sentava-se ao lado do Poço da Juventude, esperando pela alvorada. Quando o primeiro fraco raio de luz aparecia no céu oriental ela bebia essa água mágica que brotava de uma fenda na rocha. Era preciso que ela bebesse essa água mágica antes de qualquer pássaro visitar o poço e antes de qualquer cão latir. Se um pássaro bebesse a água primeiro ou um cão latisse antes dela começar a beber, a velha e negra Beira se transformava em pó.

                Assim que Beira provava a água mágica, sozinha e em silêncio, ela começava a ficar jovem novamente. Ela deixava a ilha e, retornando para a Escócia, caía em um sono mágico. Quando ela acordava com a brilhante luz do sol, se levantava como uma bela garota com um longo cabelo loiro como os brotos da giesta, bochechas vermelhas como as bagas da sorveira e olhos azuis que brilhavam como o mar de verão na luz do sol. Ela então andava por toda a Escócia, vestida em uma capa verde e coroada com uma grinalda de brilhantes flores de muitas cores. Nenhuma deusa mais nobre poderia ser encontrada em toda a terra, exceto Bride, a impecável Rainha do Verão.

                Conforme os meses se passavam, Beira envelhecia rapidamente. Ela chegava na maturidade no solstício de verão, e quanto o outono chegava, sua testa enrugava e sua beleza começava a ir embora. Quando o inverno chegava mais uma vez, ela se tornava uma bruxa velha e murcha e começava a reinar como a feroz Rainha Beira.

                Frequentemente nas noites tempestuosas no início do inverno ela vagava cantando esta triste canção:

“Ó vida que decai como a foca
Estou cansada e velha, estou cansada e velha –
Ó! Como posso ser feliz
Sozinha na escuridão e no frio.

Sou a velha Beira novamente,
Meu manto não é mais verde,
Eu lembro de minha beleza com tristeza
E dos dias em que outra é a rainha.

Meus braços estão enrugados e magros,
Meu cabelo que já foi dourado agora está cinza;
É o inverno – meu reinado começa –
A juventude do verão desapareceu.

A juventude do verão e do outono fugiu –
Estou cansada e velha, estou cansada e velha.
Toda flor deve enfraquecer e morrer
Quando os ventos sopram frios, quando os ventos sopram frios.”

                A idosa Beira era terrível de se olhar. Ela tinha um único olho, mas a visão deste era afiada e penetrante como o gelo e tão rápido como a cavalinha do oceano. Seu rosto era aborrecido e azul escuro, e isso é o que ela cantava sobre si:

“Por que meu rosto é tão escuro, tão escuro?
Tão escuro, oho! Tão escuro, ohee!
Em todas as condições meteorológicas eu vago sozinha
No atoleiro, no frio, ai de mim!”

                Seus dentes eram vermelhos como ferrugem e seus cachos, que caíam pesadamente sobre seus ombros, eram brancos como o álamo coberto com a branca geada. Ela usava sobre sua cabeça um mutch¹ pintalgado. Todas as suas vestes eram cinzas e ela nunca era vista sem seu grande xale pardo que usava ao redor de seus ombros.

                Conta-se que nos dias em que o mundo era jovem, Beira viu terra onde agora tem água e água onde agora tem terra.

                Uma vez um feiticeiro falou com ela: “Fale-me tua idade, ó velha penetrante.”

                Beira respondeu: “Parei de contar os anos há muito tempo, mas lhe contarei o que eu já vi. Lá está a rocha de focas de Skerryvore no meio do mar. Eu lembro de quando ela era uma montanha rodeada de campos. Eu vi os campos arados e a cevada que crescia sobre eles era azeda e suculenta. Lá está um lago. Eu lembro de quando ele era um pequeno e redondo poço. Nesses dias eu era uma nobre jovem e agora estou muito velha, frágil, sombria e miserável.”

                Conta-se também que Beira liberou vários rios e formou vários lagos, as vezes voluntariamente e as vezes contra sua vontade, e moldou também muitas montanhas e vales. Diz-se que todas as colinas em Ross-shire foram feitas por Beira.

                Existia um poço em Ben Cruachan, em Argyll, do qual Beira tirava água diariamente. Toda manhã, ao nascer do sol, ela tirava a placa de pedra que o cobria, e toda noite, ao entardecer, ela colocava a placa sobre o poço novamente. Aconteceu de uma noite ela esquecer de cobrir o poço, e assim, a ordem correta das coisas foi perturbada. Assim que o sol se pôs, a água aumentou em grande volume e derramou para a encosta da montanha, rugindo como o mar tempestuoso. Quando o dia amanheceu, Beira encontrou o vale lá embaixo cheio de água. Foi dessa forma que o Lago Awe surgiu.

                Beira tinha outro poço em Inverness-shire que tinha que ser coberto da mesma maneira da alvorada ao crepúsculo. Uma de suas criadas, cujo nome era Nessa, cuidava do poço, mas aconteceu de a criada se atrasar para cobri-lo em uma tarde. Ao se aproximar, ela viu as águas fluindo tão rápido de lá que ela se virou e correu para salvar sua vida. Beira a observava do topo de Ben Nevis, que era seu trono montanhês, e gritou: “Tu negligenciaste o teu dever. Agora, tu correrás para sempre e nunca deixarás a água.”

                A donzela foi então transformada em um rio, e o lago e o rio que corre a partir do lago foram nomeados com o seu nome. É por isso que o lago é chamado de Lago Ness e o rio, Rio Ness.

                Uma vez por ano, na noite em que ela foi transformada, Ness (Nessa) sai do rio em sua forma humana e canta uma triste e doce canção no pálido luar. Diz-se que sua voz é mais clara e mais bonita que a de qualquer pássaro, e sua música é mais melodiosa que qualquer harpa dourada ou flauta prateada da terra das fadas.

                Nos dias quando os rios eram soltos e os lagos eram feitos, Beira construía as montanhas da Escócia. No trabalho, ela carregava em suas costas um grande cabaz cheio de rochas e terra. As vezes, quando ela saltava de uma colina para outra, seu cabaz se inclinava para os lados e as rochas e terra caía nos lagos, formando ilhas. Muitas ilhas são conhecidas como “derramamentos do cabaz da grande velha.”

                Beira tinha oito bruxas que eram suas criadas. Elas também carregavam cabazes, e uma após a outra, elas esvaziavam seus cabazes até uma montanha ser empilhada tão alta quanto as nuvens.

                Um dos motivos de Beira ter criado as montanhas foi para usá-las como degraus, e o outro, foi para fornecer casas aos seus filhos gigantes. Muitos de seus filhos eram muito briguentos – eles lutavam continuamente um contra o outro. Para punir aqueles que a desobedeciam, Beira trancava os ofensores em casas nas montanhas das quais eles não poderiam escapar sem a sua permissão, mas isso não os impedia de brigar. Toda manhã eles escalavam até os cumes de suas casas e atiravam grandes pedregulhos um contra o outro. É por isso que muitos grandes pedregulhos estão agora nas encostas íngremes e espalhadas pelos vales. Outros filhos gigantes de Beira moravam em cavernas profundas. Alguns eram chifrudos como veados, e outros tinham muitas cabeças. Eles eram tão fortes que podiam pegar o gado e, atirando-o sobre seus ombros, os carregavam para assá-los para suas refeições. Cada filho gigante de Beira era chamado de Fooar.2

                Foi Beira que construiu Ben Wyvis. Ela viu que esta seria uma tarefa difícil, pois teria que fazer todo o trabalho sozinha, já que suas criadas estavam ocupadas em outros lugares. Um dia, quando estava bastante cansada, ela tropeçou e deixou seu cabaz cair.

                A única ferramenta que Beira usava era um martelo mágico. Quando ela batia com ele levemente no chão, o solo se tornava tão duro quanto o ferro, e quando ela batia duramente no chão, um vale era formado. Depois dela ter construído uma montanha, ela dava a sua forma especial a ela estilhaçando as rochas com seu martelo. Se ela tivesse feito todas as colinas com a mesma forma, ela seria incapaz de reconhecê-las.

                Após todas as montanhas terem sido formadas, Beira deliciava-se ao perambular entre e sobre elas. Ela era sempre seguida por animais selvagens. As raposas ladravam com prazer quando a via, os lobos uivavam para saudá-la e as águias gritavam com alegria no ar. Beira tinha grandes rebanhos e manadas, a quem dava sua proteção – os veados de patas velozes, o gado de chifres altos, as cabras cinzas e peludas, os suínos negros e as ovelhas que tinham a lã branca como a neve. Ela encantava seus veados contra os caçadores e ao visitar uma floresta de veados, ela os ajudava a escapar dos caçadores. Durante o início do inverno, ela ordenhava suas corças nos topos das montanhas, mas quando os ventos eram tão fortes que eram capazes de soprar a espuma dos baldes da ordenha, ela conduzia as corças para os vales. A espuma era congelada nas cristas das altas colinas, e lá permaneciam brancas e belas. Quando as torrentes invernais começavam nas encostas das montanhas, saltando de elevação para elevação, o povo dizia: “Beira está ordenhando suas cabras peludas e os rios de leite estão derramando sobre as altas rochas.”

                Beira lavava o seu grande xale no mar, pois nenhum lago é tão grande o suficiente para este propósito. A parte que ela escolhia para sua lavagem é o estreito entre as ilhas ocidentais de Jura e Scarba. O “recipiente de lavagem” é o redemoinho de água chamado Corry-vreckan. Foi assim chamado por causa do filho de um rei escocês, chamado Breckan, que foi afogado ali, quando seu barco tinha sido virado pelas ondas criadas por Beira.

                Três dias antes da Rainha do Inverno começar seu trabalho, suas criadas bruxas preparavam a água para ela e o Corry poderia então ser ouvido bufando e irritando-se há vinte milhas ao redor. No quarto dia, Beira atirava seu xale no redemoinho e caminhava sobre ele com seus pés até a borda do Corry transbordar com espuma. Quando terminava sua lavagem, ela colocava seu xale nas montanhas para secar, e assim que ela o levantava, todas as montanhas da Escócia ficavam brancas com a neve para significar que a grande Rainha tinha começado seu reinado.

                O significado dessa história é que Beira é o espírito do inverno. Ela fica mais velha e mais feroz conforme as semanas se passam até a sua força se esvair. Ela então renova sua juventude para que ela possa viver no verão e no outono, e começar a reinar mais uma vez. O antigo povo da Escócia via que durante o início do inverno as torrentes caíam das colinas, e nessa fábula de Beira, eles acreditavam que as torrentes eram liberadas pela Rainha do Inverno, e que os lagos eram, no início, formados pelas torrentes que brotavam de poços mágicos. Eles viam os grandes pedregulhos nas encostas das colinas e nos vales, e relatavam que eles estavam lá porque foram arremessados dos topos das montanhas pelos filhos gigantes de Beira.

                No próximo capítulo da história, será contada a chegada de Angus e Bride, o Rei e a Rainha do Verão e da Abundância, e os conflitos tempestuosos travados durante as últimas semanas do inverno e as primeiras semanas da primavera entre Beira e Angus o Sempre Jovem, que vem da fabulosa Ilha Verde do Oeste – a terra do verão eterno e da juventude perpétua.

Notas de rodapé

1. O antigo nome escocês para uma capa feminina.
2. Pronuncia-se Foo'ar. A escrita anglo-irlandesa é "Fomorian", mas os Fomorians irlandeses são diferentes dos escoceses. 
         

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