segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Algumas histórias de criaturas encantadas da Ilha de Man

Fonte: MOORE, A.W. “The Folk-Lore of the Isle of Man, Chapter IV. Hobgoblins, Monsters, Giants, Mermaids, Apparitions, etc.” Disponível em: < http://www.sacred-texts.com/neu/celt/fim/fim07.htm#fr_44>. Acesso em: 16 de janeiro de 2017.

CAPÍTULO IV
DUENDES, MONSTROS, GIGANTES, SEREIAS, APARIÇÕES, ETC.

                A diferença entre as próprias fadas e os duendes parece ser principalmente que as primeiras são ágeis, alegres e espertas, e os últimos são pesados, lentos e estúpidos. As características das duas criaturas conhecidas na Ilha de Man como Phynnodderee e Glashtin, ou Glashan, são certamente da classe mais baixa, ao invés da classe alta, pois como veremos nos contos dados sobre eles, estes combinam os atributos do Brownie escocês e do Troll escandinavo, apesar da Glashtin parecer ser um cavalo da água também (ver p. 54). Os Brownies são fadas robustas, que, se forem alimentadas e tratadas amigavelmente, farão uma grande parcela de trabalho; e os Trolls são seres que unem uma força sobre-humana com uma malícia demoníaca. Eles são maiores e mais fortes que os homens, têm um temperamento demoníaco, são deformados e têm uma aparência medonha. Eles habitam em rochas e cavernas. Em seu relacionamento com os homens, geralmente são cruéis e maldosos, vingando-se se forem insultados ou desrespeitados, mas às vezes podem ser agradecidos e recompensar tal bondade assim como eles a receberam dos humanos, e até mesmo fazer serviços de seus próprios acordos. Quem quer que seja sortudo o bastante para fazer um trabalho para um Troll, é certo que essa pessoa terá sorte para o resto de sua vida. Eles sabem de coisas que os humanos não sabem, tais como o paradeiro de tesouros escondidos, apesar de, geralmente falando, serem estúpidos e desprovidos de raciocínio. Eles odeiam o cristianismo e o som dos sinos da igreja, tanto que, se alguém for perseguido por um Troll, ele pode livrar-se dele soando sinos de igreja. Os Trolls provavelmente já foram bem conhecidos em Man, pois ainda sobrevivem em nomes de lugares como Trollaby.

                 O Phynnodderee é definido por Cregeen¹ como um “sátiro”, e ele cita o seguinte texto para mostrar que seu nome é usado na Bíblia manesa nesse sentido: -- Hig beishtyn oaldey yn aasagh dy cheilley marish beishtyn oaldey yn ellan, as nee yn Phynnodderee gyllagh da e heshey: “As bestas selvagens do deserto também se encontrarão com as bestas selvagens da ilha, e o sátiro gritará para seus companheiros” (Isaías 34, 14). A ideia popular do Phynnodderee é que ele é uma fada “caída” e que sua aparência é de algo entre um homem e uma besta, tendo seu corpo coberto por pelos negros longos e espessos e possuem olhos flamejantes. Muitas histórias são contadas sobre sua força extraordinária pelos camponeses manêses. Ele pode ser comparado com o Gruagach, uma criatura sobre a qual Campbell escreve o seguinte: -- “Supõe-se que o Gruagach foi um druida ou um feiticeiro que caiu de seu alto nível e se tornou uma estranha criatura peluda.” A seguinte história é contada sobre um deles: - “A pequena ilha de Inch, perto de Easdale, é habitada por um Brownie que tem seguido os MacDougalls de Ardincaple por eras e tem um grande interesse neles. Ele toma conta do gado deles na ilha dia e noite, a menos que a leiteira, quando é verão e há leite do gado, se nega a deixar leite morno para ele à noite em uma pedra com uma concavidade na caverna, onde ela e o rebanho viviam durante sua estadia na ilha. Se essa gratificação fosse esquecida por uma noite, eles encontrariam um animal de seu gado morto durante a manhã, sobre as rochas com as quais a ilha está cheia. A pergunta é se o Brownie não tem um amigo a quem ele compartilha o conteúdo da pedra, que tem, ouso dizer, de dois a três litros de uísque escocês.”

                O seguinte relato em prosa e em verso é sobre o Phynnodderee, e foi dado pela Sra. E. S. Craven Green: - “Em um dia, um cavaleiro fada se apaixonou por uma das filhas de Mann enquanto ela se sentava em sua casa sombria debaixo da árvore azul de Glen Aldyn. Oferecendo abandonar as fadas para ter uma vida doméstica com sua doce ninfa, ele se ausentou da corte das fadas durante a celebração do ‘Rehollys vooar yn ouyr,’ ou ‘o alto festival real da colheita’ (mantido pelas fadas com dança na alegre Glen Rushen), e assim ele ofendeu o povinho e o Rei Fada o expulsou do Salão Encantado, amaldiçoando-o com uma existência imortal nas montanhas manesas na forma de um sátiro – e assim, ele se tornou um estranho, triste e solitário viajante, conhecido como o Phynnodderee. Nós temos compaixão pelo seu infortúnio, que se abateu sobre ele em consequência de seu verdadeiro amor por uma donzela manêsa.”

“Do feiticeiro foi a mão que trabalhou,
Na mágica hora da meia noite,
Que reuniu as ovelhas em uma tempestade próxima,
O pastor a viu antecipadamente,
Ainda que não pedisse pagamento, apenas um feixe de grãos espalhados
Da reserva armazenada dos camponeses,
Ou uma tigela de creme beijado por um lábio virgem
A ser deixado na reserva da casa.”

                O Glashtin ou Glashan é definido por Cregeen1 como “um gnomo, duende”. A ideia popular é que ele é um gnomo ou um duende peludo com características um pouco similares as do Phynnodderee. Diz-se que ele frequenta lugares abandonados e que é útil aos homens, ou senão, faz o que o capricho do momento o leva fazer. Além das criaturas citadas acima, temos monstros conhecidos como Tarroo-Ushtey, ou “touro da água” e Cabbyl-Ushtey, ou “cavalo da água”, às vezes chamados de Glashtin. Estes parecem ser análogos ao Phooka irlandês, ao Nykr escandinavo ou o Vatna-Hesir, “espírito do rio” ou “cavalo da água”. Supõe-se que o Vatna-Hesir vive tanto em água doce como em água salgada e está associado com o gado comum. Em 1859, foi relatado que um animal desse tipo foi visto em um campo próximo ao Ballure Glen, e centenas de pessoas deixaram Ramsey para vê-lo, mas todos eles foram fadados ao desapontamento. As pessoas próximas ao Glen Meay acreditavam que o vale debaixo da cachoeira era assombrado pelo espírito de um homem que um dia encontrou o Glashtin, ou Cabbyl-Ushtey, e pensando que era um cavalo comum, montou em suas costas, e o cavalo correu e desapareceu no mar, afogando o cavaleiro.

                Campbell diz que nas Ilhas e nas Terras Altas Ocidentais e na Ilha de Man, há uma série de contos que falam sobre os cavalos da água, o que mostra que o povo ainda acreditava firmemente em sua existência. Ele procede: “Em Sutherland e em outros lugares, muitos acreditam ter visto estes animais imaginários. Disseram-me que desportistas ingleses perseguiram-nos, os relatos daqueles que acreditavam que eles os tinham vistos eram muito circunstanciais. As testemunhas são tão numerosas e seus depoimentos se encaixam tão bem que deve existir alguma velha crença céltica profundamente enraizada que veste cada objeto sombrio com a terrível forma do each uisge... O cavalo baio ou cinza pasta na borda do lago, e quanto é montado, corre para o lago e devora seu cavaleiro. Suas costas se estica para caber qualquer número de pessoas; as mãos dos homens grudam em sua pele; ele é atrelado a uma charrua, conduzindo o povo e o instrumento para o lago, e despedaça qualquer cavalo; se for morto, tudo o que sobra dele é uma poça de água; ele se apaixona por uma donzela, e ao se transformar em um homem e colocar sua cabeça em seu joelho nu, a donzela amedrontada descobre areia em seu cabelo, e enquanto ele dorme, ela foge. Ele aparece como uma velha mulher e é colocado para dormir com um bando de donzelas em uma cabana na montanha, e ele chupa o sangue de todas elas, exceto uma, que escapa através de um regato, e como ele é um cavalo da água, não ousa atravessar. – Esses contos e crenças me levam a achar que os antigos celtas possam ter tido um destrutivo deus da água, a quem o cavalo era sagrado, ou tinha a forma de um cavalo.” Ele também diz que o touro da água é conhecido em todas as ilhas. “Existem vários lagos onde se acredita que tenham touros da água, e supõe-se que seus filhos são facilmente reconhecidos pelas suas orelhas curtas. Quando o touro da água aparece em uma história, ele é geralmente retratado como sendo agradável aos homens.”

                Nós também temos Espíritos ou Demônios, que são de natureza maliciosa em sua maioria, tais como o Buggane, o famoso Moddey Dhoo, ou o cachorro preto, o Cughtagh, que era um espírito que habitava em cavernas perto do mar e cuja voz era o murmúrio das ondinhas, e o Keimagh que habitava as escadas (Keim) dos cemitérios e protegia os túmulos. Os Gigantes, que realizavam feitos sobre-humanos, abundam em todas as terras célticas. A Sereia também era bem conhecida. Ela não tinha um nome especial na língua manesa, sendo simplesmente chamada de Ben-varry, ou “Mulher do mar,” e tinha a mesma forma – metade peixe, metade mulher – como era representada nos contos de outros países. Ela geralmente tinha um caráter carinhoso e gentil, apesar de ser terrível quando enfurecida, e grandemente inclinada a se apaixonar por homens jovens. De seu companheiro, o Tritão, Dooiney-varrey, “Homem do mar,” ou Phollinagh, como é variamente chamado, pouco se sabe. Estes são alguns nomes dos vários habitantes da terra das fadas, cuja maioria dessas características será ilustrada nas histórias seguintes:

DUENDES
O PHYNNODDEREE

                Um cavalheiro tendo decidido construir uma grande casa e postos de trabalho em sua propriedade, um pouco acima da base da Montanha de Snafield, em um lugar chamado Tholt-e-will, fez com que fosse preciso que certa quantidade de pedras fosse tirada da praia, mas um imenso bloco de pedra branca, que ele desejava muito ter para uma parte em especial da construção desejada, não podia ser tirado do lugar, resistindo à força unida de todos os homens da freguesia. Para o espanto de todos, no entanto, não apenas essa rocha, mas também todas as pedras que seriam carregadas, consistindo de mais de uma centena de carroças, foram em uma única noite transportadas da praia até o lugar da construção desejada pelo incansável Phynnodderee, e, na confirmação dessa façanha maravilhosa, a pedra branca ainda estava apontada para o curioso visitante.

                O cavalheiro, para quem este trabalho bastante aceitável foi feito, desejando recompensar o nu Phynnodderee, colocou algumas peças de roupa para ele em sua toca habitual. O peludo, ao ver os vestuários, levantou as peças uma por uma, expressando assim seus sentimentos em manês:

“Bayrn da’n chione, dy doogh da’n chione,
Cooat, da’n dreeym, dy doogh da’n dreeym,
Breechyn dan toin, dy doogh da’n toin,
Agh my she lhiat ooilley, shoh cha nee lhiat Glen reagh Rushen.”

“Touca para a cabeça, ai! Pobre cabeça,
Casaco para as costas, ai! Pobres costas,
Calções para as nádegas, ai! Pobres nádegas,
Se todas estas coisas fossem tuas, tu não poderias estar no alegre Vale de Rushen.”

                Tendo repetido estas palavras, ele partiu com um choro melancólico, e agora,

“Tu podes escutar sua voz na colina deserta
Quando os ventos da montanha têm poder;
Isto é um lamento selvagem para seu amor enterrado,
E sua casa encantada há muito tempo perdida.”

                Muitos do povo antigo lamentam o desaparecimento do Phynnodderee, pois dizem que, “Não tem sido um mundo feliz desde que ele perdeu sua terra.”

                O Phynnodderee também cortava e juntava a grama dos prados, que teria sido danificada se fosse deixada exposta a uma tempestade. Em uma ocasião, um fazendeiro que, tendo expressado o seu desagrado com o Phynnodderee por ele não ter cortado sua grama suficientemente próximo ao chão, o peludo no ano seguinte permitiu que o fazendeiro insatisfeito cortasse a grama ele mesmo, mas seguiu na frente dele desenraizando a grama tão rápido que foi com muita dificuldade que o fazendeiro escapou de ter suas pernas cortadas pelo espírito furioso. Por muitos anos depois disto, nenhuma pessoa ceifava a grama, até um destemido soldado de uma das guarnições realizar a tarefa. Ele começou no centro do campo, cortando de forma circular como se fosse a beirada de um círculo, tinha um olho no progresso da yiarn foldyragh, ou da foice, enquanto o outro olho,

“Olhava em volta com um prudente cuidado
Para que o Phynnodderee não o pegasse desprevenido.”

                Ele conseguiu terminar sua tarefa sem ser perturbado. Este campo, situado na paróquia de Marown, um pouco próximo das ruínas da velha Igreja de St. Trinian, é, devido às circunstâncias relatadas, ainda chamado de yn lheeanee rhunt, ou o Prado Circular. – Train

                Diz-se que ele pegou emprestado uma foice e ceifou os dois campos de grãos na paróquia de Bride no curso de uma noite. Entre as muitas histórias dele tendo trazido as ovelhas para os seus amigos fazendeiros, há uma frequentemente contada dele, que em uma ocasião, tendo trazido para casa uma lebre entre as ovelhas, explicou que a loghtan beg, ou “a pequena ovelha nativa” (isto é, a lebre) deu mais trabalho para ele do que todas as ovelhas, fazendo-o correr três vezes em volta de Snaefell antes dele pegá-la. – Oral 

                Na curiosa velha canção seguinte, os feitos do Phynnodderee são assim comemorados:

“O Phynodderee foi para o campo
Para levantar o orvalho na cinza madrugada,
A avenca (Adiantum capillus-veneris) e o aipo-dos-cavalos (Smyrnium olusatrum),
Ele afundou debaixo de ambos os seus pés.
Ele estava se esticando no chão do prado,
Ele atirou a grama em sua mão esquerda,
Ele nos maravilhou ano passado,
E nesse ano ele está bem melhor.
Ele estava se esticando no chão do prado,
Cortando as ervas florescidas,
A erva Menyanthes no curragh feito de junco,
Quando ele foi embora, todas elas tremiam,
A foice que ele tinha estava cortando tudo,
Ceifando a grama, deixando os torrões,
E, se uma folha sobrasse,
Ele a afundava no chão com seus calcanhares.”

                (O mesmo em manês)

Yn Phynnodderree hie dy’n lheeanee,
Dy hroggal druight y vadran glass,
Luss-y-voidyn as luss-yn-ollee
V’eh dy stampey fo e ghaa chass.
V’eh sheeney magh er laare yn lheeanee,
Cheaayn faiyr er y cheu chiare,
Hug y yindys orrin nuirree,
As t’eh ny bleeaney foddey share.
V’eh sheeney magh er laare yn lheeanee,
Ghiarey yn lussey ayns y vlaa,
Lubber-lub ayns y curragh shuinagh,
Myr v’eh goll va ooilley craa.
Yn yiarn va echey y ghiarey ooilley,
Scryssey yn lheeanee rise y foaidyn,
As, my va rybbag faagit shassoo,
V’eh cur stampey lesh e voydyn.”

                Na mesma canção, a vingança do touro da água e do Glashtin é invocada sobre uma pessoa desconhecida,

“E se o malhado touro da água,
E o Glashtin te levasse,
E o Phynnodderee do vale, gingando,
Te atirasse como um coldre contra a parede?”

“Cred dy jinnagh yn tarroo-ushtey spottagh,
As yn Ghlashtin oo y ghoaill,
As yn Phynnodderee ny glionney, sprangagh
Clooisagh y yannoo jeed noi’n voal.”

                Como um exemplo da força do Phynnodderee, diz-se que ele encontrou um ferreiro que estava saindo de sua loja uma noite, e o abordando, pedindo para apertar as mãos, o ferreiro lhe deu uma peça de ferro de uma charrua que aconteceu dele ter consigo, e o visitante estranho instantaneamente o espremeu como se fosse um pedaço de terra.

O GLASHTIN OU GLASHAN

                Em relação a esta criatura, Campbell dá o seguinte relato, que foi contado para ele por uma mulher que vivia perto do Calf of Man, que disse:

“Bem, veja, nos velhos tempos eles costumavam manter as ovelhas guardadas, e uma noite, um velho homem esqueceu de colocá-las para dentro, enviando seu filho, que voltou e disse que todas as ovelhas estavam guardadas, exceto um cordeiro de um ano, o oasht, que estava pregando peças nele, e este cordeiro era o Glashan. Tu podes ver que eles são bem fortes, e quando querem debulhar uma pilha de grãos, apesar de ser uma pilha grande, o Glashan debulharia para eles em uma noite. Eles correm atrás das mulheres. Um deles uma vez pegou uma menina, segurando-a pelo seu vestido; ele sentou e adormeceu, enquanto ela cortou todo o seu vestido, veja, dessa forma, e o deixou em sua mão, fugindo; quando ele acordou, ele atirou o vestido sobre seu ombro, dessa forma, e disse algo em manês. Bem, veja, uma noite o velho companheiro mandou todas as mulheres para a cama, vestiu uma touca e um vestido de mulher, sentou-se diante do fogo e começou a fiar; os jovens Glashans entraram e começaram a dizer algo em manês que significa ‘Estás girando a roda? Estás usando o carretel?’ Bem, o velho Glashan estava do lado de fora e sabia de mais coisas do que os jovens; ele sabia que era o velho companheiro e contou a eles, mas estes não se importaram; o homem velho então atirou um pedaço de turfa quente, veja que foi a turfa que os queimou, e queimou eles; o velho disse algo em manês, ‘Tu não entendes agora?’ ‘Sim, entendo bastante’. Ah, bem, os Glashans foram embora e nunca mais voltaram. ‘Tu tens muitas histórias como estas, senhora?’ ‘Ah!,’ disse ela, “há bastante gente que pode contar estas histórias, mas as pessoas mudaram tanto com o orgulho que agora elas não se importam com nada.’”

Ao comentar sobre a história do Glashan, ele disse “Agora, eis uma história que está presente por toda Terras Altas, de formas diferentes. As vezes é um Brollichan, o filho do Fuath, ou um jovem cavalo da água que é transformado em um homem, que ataca uma mulher sozinha e se queima ou é escaldado, e vai embora até seus amigos que estão esperando do lado de fora... O Glashan, como descobri posteriormente, frequentava as fazendas vizinhas até depois de um longo período.”

MONSTROS.
O TOURO DA ÁGUA, OU TARROO-USHTEY.

                Entre as maravilhas da natureza, não conheço nenhuma criatura que possa de forma justa ser assim chamada, pelo menos, daquelas que estou convencido da verdade, que é o Touro da Água, uma criatura anfíbia que ganhou o seu nome devido a grande semelhança que ele tem com a besta, de forma que muitas pessoas, ao verem-no em um campo, não o distingue de uma das espécies mais naturais. Meu vizinho, que era criador de gado, tinha seus campos infestados com esse animal, pelo qual perdeu diversas vacas; ele, portanto, colocou um homem para vigiar continuamente, que o avisava que um estranho touro estava entre as vacas, e ele não duvidava que era o Touro da Água; tendo chamando um grande número de homens fortes para lhe ajudar, estando todos armados com grandes estacas, forquilhas e outras armas adequadas para se defenderem e matar este perigoso inimigo, eles foram até o lugar onde disseram que ele estava e correram até ele, mas o touro era rápido demais para a perseguição deles, e após os deixarem cansados nas montanhas e rochedos, e um grande espaço de solo rochoso, ele foi até um rio e evitou quaisquer caças além desta mergulhando nele, apesar de mesmo hoje em dia ele mostrar sua cabeça sobre a água, como se estivesse zombando de suas habilidades. – Waldron

                Outro relato do Tarroo-Ushtey foi obtido há mais de uma centena de anos mais tarde.

                Alguns anos atrás, o fazendeiro de Slieu Mayll, na freguesia de Onchan, estava voltando da igreja em um domingo a noite, quando ele viu no garee de Slegaby, um animal de aparência selvagem, com grandes olhos que brilhavam como o fogo, cruzando a estrada diante dele e se balançando. Ele soube que era um Tarroo-Ushtey, pois seu pai tinha visto um perto do mesmo lugar. Ele quebrou sua bengala nas costas do animal, pois ele estava muito lento para sair de seu caminho. O irmão desse homem também viu um Tarroo-Ushtey em Lhanjaghyn, na mesma vizinhança. Quando estava indo para o campo, bem cedo em uma manhã no mês de junho, para soltar o gado para se alimentarem antes do calor do dia chegar, ele viu um Touro da Água parado do lado de fora de um curral. Quando o touro, que estava lá dentro junto com o gado, o viu, ele instantaneamente quebrou a cerca e correu para o homem, rugindo e rasgando o chão com seus pés, mas o Tarroo-Ushtey correu rapidamente para longe, parecendo um pouco indiferente, e ao pular para um precipício adjacente, mergulhou na água profunda, e após nadar um pouco, evidentemente se divertindo, deu um grande mugido e desapareceu. – Train

                Este monstro também pode ser encontrado, de acordo com a obra Description of the Western Isles, do Macculoch, no Loch Awe e Loch Rannoch. Campbell, em seus contos do West Highlands, diz, “Há numerosos lagos onde acredita-se que os Touros da Água existam, e acredita-se que sua progenitura são facilmente reconhecidas através de suas orelhas curtas. Ele é geralmente representado como sendo agradável aos homens. Seu nome em Skye é tarbh eithre.”

O BUGGANE DE ST. TRINIAN

                Este era um dos demônios mais conhecidos em Man. A seguinte história é contada sobre ele: diz-se que este edifício religioso (a Capela de St. Trinian) foi construído em cumprimento de um voto feito por uma pessoa que estava em um furacão no mar, mas de acordo com a tradição, ele nunca foi terminado. Isto se deu por causa da malícia de um maldoso Buggane, ou espírito maligno, que por falta de um trabalho melhor, se divertia em jogar o telhado no chão, como frequentemente fazia na véspera da obra estar concluída, acompanhando sua conquista com uma alta e diabólica risada de satisfação. A única tentativa de neutralizar essa singular tendência da criatura malvada, que a tradição nos transmitiu, foi feita por Timothy, um alfaiate com grandes pretensões à santidade de caráter. Na ocasião aludida, o telhado da Igreja de St. Trinian estava, como sempre, próximo de estar finalizado, quando então o valente alfaiate encarregou-se de fazer um par de calções debaixo do telhado, antes do Buggane começar sua velha brincadeira. Ele, portanto, sentou-se no coro da igreja e começou a trabalhar com grande pressa, mas antes dele ter completado seu trabalho, a cabeça do medonho Buggane surgiu do chão diante dele e se dirigiu a ele dizendo – “Tu vês minha grande cabeça, meus grandes olhos e meus longos dentes?” “Hee! Hee, que é ‘Sim! Sim!’,” respondeu o alfaiate, ao mesmo tempo em que costurava com toda a sua força e sem tirar os olhos de seu trabalho. O Buggane, ainda erguendo-se lentamente do chão, gritou com uma voz ainda mais furiosa que antes, “Tu vês meu grande corpo, minhas grandes mãos e minhas longas unhas?” “Hee! Hee!”, replicou Tim, como antes, mas continuando a trabalhar com toda a sua força. O Buggane, tendo agora saído completamente do chão, perguntou em uma voz aterrorizante, “Tu vês meus grandes membros, meus grandes pés e meus longos...?” mas antes dele proferir a última palavra, o alfaiate finalizou o último ponto nos calções e saltou para fora da igreja, assim que o telhado caiu com uma batida. A diabólica risada do Buggane surgiu atrás dele, quando ele saltou em fuga e o terror veio em grande velocidade. Ao olhar para trás, ele viu o assustador espetáculo bem perto de seus pés, com suas mandíbulas estendidas como se fosse o engolir vivo. Para fugir de sua fúria, Timothy pulou para a área consagrada, onde felizmente o Buggane não tinha poder para segui-lo, mas como se estivesse determinado a puni-lo por sua temeridade, o espírito furioso tirou sua grande cabeça de seu corpo e com grande força a arremessou nos pés do alfaiate, onde a cabeça explodiu como uma granada explosiva. É uma maravilha relatar que o aventuroso Timothy saiu ileso, mas a Igreja de St. Trinian continuou sem um telhado. – Train

                Diz-se que um outro Buggane habita a íngreme montanha de Slieawhallian, de onde seus gritos às vezes são ouvidos, mas um terceiro demônio, de origem similar, que anteriormente acreditava-se frequentar a Gob-ny-scuit, “a boca da bica”, uma pequena cachoeira na freguesia de Maughold, desapareceu. Terríveis choros desse espírito infeliz foram ouvidos em tempos. Até mesmo o grande médico-fada de Ballawhane (Teare) falhou em acalmá-lo.

                Cerca de 50 anos atrás, um manês de mente científica e questionadora percebeu ao examinar a rocha, sobre a qual a água caía, que estes barulhos peculiares procediam da cachoeira apenas quando o vento estava soprando de um certo ponto. Uma verificação mais complexa mostrou uma fenda estreita na rocha abaixo da quedra através da qual o vento soprava e fazia o barulho. Assim, o Buggane foi destituído! – Oral

A LENDA DO MODDEY DOO, O CACHORRO PRETO.

“De onde! E o que és tu?”Milton

                Em uma das grandes igrejas no Castelo de Peel, havia antigamente uma passagem para o aposento que pertencia ao Capitão da Guarda, mas agora ela está fechada. Uma aparição, chamada na língua manêsa de “O Mauthe Doo”, na forma de um grande cão spaniel negro com os pêlos ondulados e desgrenhados, costumava assombrar o Castelo de Peel, sendo frequentemente visto em cada cômodo, mas particularmente na Câmara da Guarda, onde assim que as velas eram acesas, ele vinha e deitava diante do fogo na presença de todos os soldados, que nessa altura, estando tão acostumados com ele, perderam grande parte do medo que tiveram quando o viram pela primeira vez. Eles ainda, no entanto, têm um certo temor, acreditando que ele era um espírito maligno, que estava apenas esperando permissão para machucá-los, e por esse motivo, evitavam jurar e falar algo profano enquanto estivessem em sua companhia. Apesar de suportarem o choque de tal companhia quando estavam juntos, ninguém se importava de ser deixado sozinho com ele. Portanto, era o costume um dos soldados trancar os portões do Castelo em um certa hora e levar as chaves para o Capitão, para os aposentos, como disse antes, cujo caminho se dava através de uma igreja, e eles concordavam entre si que aquele que entregasse as chaves na noite seguinte deveria ser acompanhado por um de seus companheiros que tinha ido primeiro, e dessa forma, nenhum homem seria exposto sozinho ao perigo, pois esqueci de mencionar que o Mauthe Doo era sempre visto saindo daquela passagem no final do dia, e retornando para ela assim que a manhã vinha, fazendo com que os soldados vissem esse local como sua residência particular. Uma noite, um soldado bêbado ficou mais ousado que o normal através da força do licor e riu da simplicidade de seus companheiros, e, apesar de não ser sua vez de ir com as chaves, tomou a missão para si para verificar sua coragem. Todos os soldados tentaram dissuadi-lo, mas quanto mais eles falavam, mas convencido ele ficava, e jurou que não desejava nada mais que o Mauthe Doo o seguisse, como tinha acontecido com os outros, pois ele verificaria se ele era um cão ou o Diabo. Após ter conversado de uma forma bem repróba por um tempo, ele apanhou as chaves e foi até a sala da guarda. Um pouco após sua partida, ouviu-se um grande barulho, mas ninguém teve a coragem de ver o que o tinha ocasionado, até o aventureiro chegar e eles perguntarem isto para ele, mas assim como ele os tinha deixado barulhento e ruidoso, ele tinha voltado sóbrio e silencioso, nunca mais falando novamente; e por todo o tempo em que viveu depois disso, que foi três dias, todos que se aproximavam dele o suplicavam para que ele falasse, ou se não pudesse fazer isto, fazer sinais para eles pudessem entender o que tinha acontecido com ele, ainda que não obtiveram nada inteligível vindo dele, apenas que, através da deformação de seus membros e de seu aspecto, pode supor que ele morreu com mais agonias do que é comum em uma morte natural. O Mauthe Doo, no entanto, nunca mais foi visto no Castelo e nem ninguém tentou atravessar aquela passagem novamente, sendo fechada por esse motivo e tendo sido feito um outro caminho. Isso aconteceu em cerca de 1666. – Waldron.

                “Cães fantasmas,” disse Campbell, “abundam nas histórias célticas.” Em muitas delas, o cão ou o cachorro desempenhava um papel importante. “As vezes ele ajuda seu dono, e em outras, ele parece ter algo diabólico; parece como que sua real natureza honesta tenha superado um preconceito profundamente enraizado, pois há tantos sinais de repulsa como também de forte afeição. Cachorro, ou filho do cachorro, é um termo de injúria em gaélico, assim como em outras línguas, apesar de cuilein ser uma forma de carinho, e o cão ser representado ao lado de seu dono, ou aos seus pés, em muitas pedras tumulares nas Ilhas Ocidentais. Cães são mencionados na poesia e nos contos gaélicos, e nos mais antigos registros das Ilhas Ocidentais.”

GIGANTES.
O GIGANTE ENFEITIÇADO.

                Há um aposento no Castelo Rushen “que nunca foi aberto na memória de um homem.” As pessoas que vivem no Castelo são muito cuidadosas ao darem qualquer motivo para isso, mas os nativos atribuem “algum encanto a ele.” Eles te contam que o Castelo foi primeiro habitado pelas fadas, e posteriormente por gigantes, que continuaram vivendo lá até os dias de Merlin, que, através da magia, desabrigou grande parte deles e enfeitiçou o restante, cujo feitiço será indissolúvel até o fim do mundo, segundo eles. Como prova disto, eles te contam uma história bem estranha. Eles dizem que há um grande número de belos aposentos subterrâneos, excedendo em magnificência qualquer uma das câmaras superiores. Diversos homens com mais coragem que o normal, em tempos passados, se aventuraram para explorar os segredos destas habitações subterrâneas, mas nenhum deles retornou para dar um relato do que viram, e por isso, julgou-se conveniente que todas as passagens para elas fossem mantidas continuamente fechadas, para que ninguém mais pudesse sofrer por sua temeridade.

                Cerca de cinquenta ou cinquenta e cinco anos desde 1670, uma pessoa que tinha uma incomum coragem e determinação, que nunca deixou de solicitar permissão para aqueles que tinham o poder de garanti-la, foi visitar estas moradas sombrias. Em resumo, ele obteve seu pedido e desceu, retornando com a ajuda de uma guia feita com uma linha grossa, que ele levou consigo, fazendo o que nenhum homem jamais tinha feito, e trouxe esta maravilhosa descoberta. Após ter passado por um grande número de caves, ele chegou em um longo e estreito lugar, que ao penetrar posteriormente, ele percebeu que descia e descia até ter tido viajado, como ele supôs aproximadamente, pelo espaço de uma milha, e viu um pequeno brilho de luz que apesar de parecer estar vindo de uma vasta distância, ainda assim era a mais maravilhosa visão que ele já tinha visto em sua vida. Tendo, nessa altura, chegando no final daquela faixa de escuridão, ele percebeu uma casa enorme e magnífica iluminada com muitas velas, de onde procedia a luz já mencionada. Tendo, antes de começar esta expedição, sido bem fortificado com brandy, ele teve coragem suficiente para bater na porta, onde um empregado abriu com a terceira batida, perguntando o que ele queria. “Quero ir tão longe quanto for possível,” respondeu nosso aventureiro, “seja favorável, portanto, para direcionar-me para que eu possa realizar meu objetivo, pois não vejo passagem além daquela caverna escura pela qual eu vim.” O empregado disse que ele precisaria atravessar a casa, e portanto, o conduziu por uma grande entrada até a porta traseira. Ele então andou um caminho considerável e no final, viu uma outra casa, mais maravilhosa que a primeira, e como todas as janelas dela estavam abertas, ele descobriu inúmeras lâmpadas brilhando em cada cômodo. Aqui, ele decidiu bater na porta também, mas teve a curiosidade de pisar em um banquinho que dava para ver um salão baixo; ao olhar, ele viu uma vasta mesa no meio da sala de mármore negro, e nela, estendido por toda a extensão da mesa, ele viu um homem, ou melhor, um monstro, pois pela sua conta, ele não poderia ter menos que dez pés de comprimento e dez ou onze pés ao redor do corpo. Esta maravilha estava deitada como se estivesse dormindo, com sua cabeça em um livro e uma espada ao seu lado, com um tamanho correspondente à mão que supostamente fazia uso dela. Esta visão foi mais aterrorizante para o viajante do que todas as mansões sombrias e lúgubres que ele tinha passado antes de chegar neste lugar. Ele decidiu, portanto, não tentar entrar no lugar habitado por pessoas daquela estatura diferente, e voltou para aquela outra casa, onde o mesmo empregado o conduziu de volta e lhe informou que se ele tivesse batido na segunda porta, ele teria visto a companhia inteira, mas não poderia nunca retornar, e ele desejou saber que lugar era aquele e quem o governava, mas o empregado respondeu que estas coisas não seriam reveladas. Ele então foi embora, e através da mesma passagem escura ele chegou nas caves e logo depois ascendeu para a luz do sol. – Waldron.

O HOMEM VELHO.

                O Castelo Rushen tem sido famoso há muito tempo na estima dos nativos devido às suas passagens subterrâneas, e há indivíduos entre eles que ainda acreditam que elas conduzem à um belo país no subterrâneo habitado por gigantes. Eles dizem que muitas tentativas foram feitas para explorar estas passagens, mas elas geralmente tem sido mal sucedidas. Uma vez, no entanto, um número de pessoas se reuniu e tendo se armado e se abastecido com tochas, eles desceram. Após prosseguirem pelo caminho, eles chegaram até um velho homem com um grande tamanho, uma longa barba e cego, sentado em uma rocha como se estivesse preso nela. Ele, escutando eles se aproximarem, perguntou para eles o estado da Ilha e pediu para alguém estender sua mão, onde um dos homens o presenteou com uma relha e o gigante amassou o ferro com grande facilidade, exclamando ao mesmo tempo, “Ainda há homens na Ilha de Man.” – W. Harrison.

O GIGANTE DE TRÊS CABEÇAS.

                Uma vez, um número de dinamarqueses desembarcaram em Lhane e tomaram posse daquela parte da ilha. Entre eles estava um grande monstro na forma de um homem com três cabeças que oficiava como seu sacerdote e que foi prontamente nomeado por eles para a Reitoria de Andreas [NT: uma das três paróquias da Ilha de Man que tem reitorias], que aconteceu de estar disponível naquela época. Logo ele conseguiu extorquir do povo tudo o que podia, fazendo suas faixas para o dízimo de grãos três vezes mais largas que o normal, e cobrando o “centavo duplo” para tudo. Ele ficou dessa forma por um longo tempo, até o povo se acostumar com isto, e, consequentemente, não resmungar tanto como na primeira vez. Na verdade, eles começaram a gostar dele, como ele frequentemente os ajudava em tempos ocupados, quando os homens estavam pela maior parte do tempo pescando e estava sempre pronto para dar a eles uma boa rota. As coisas seguiram assim até a sua morte, quando, de acordo com o seu desejo, ele foi levado até o cume de Karrin e foi enterrado lá sob um grande cairn. Um longo tempo após isso, um homem que tinha ouvido falar desta criatura de três cabeças do velho povo, foi consumido com um desejo de vê-lo e começou a abrir seu túmulo. Ele não tinha cavado por muito tempo, no entanto, quando começou a sentir uma grande dor em suas costas, que o obrigou a parar o trabalho. Ele conseguiu chegar em casa, mas em três dias ele foi morto. Desde então, ninguém se aventurou a perturbar os restos mortais do gigante. Eles dizem que desde os dias do gigante, o sacerdote de Andreas sempre teve três vezes mais pagamento que o resto. – Oral.

JACK, O MATADOR DE GIGANTES.

                O título do texto seguinte é claramente derivado de um conto inglês bastante conhecido: existia uma pobre mulher que morava em um afastado vale no lado oriental de Slieau-ny-Farrane. Seu marido era um pescador que frequentemente ficava ausente da casa por períodos longos. Consequentemente, a esposa tinha que não só fazer as tarefas domésticas, mas também vigiar as crianças, então você pode ter certeza de que o meninos eram largados e faziam o que queriam. O mais velho deles, Juan, estava crescendo esbelto e sempre estava tentando fazer uma proeza ou outra. Muitas foram as batalhas que ele e o velho pateta tiveram para ver que seria o mestre. Conforme ele crescia, ele estendia seus ataques para o gado, de forma que quando eles o viam chegando, o gado se esforçava para sair do caminho da grande vara que ele sempre carregava consigo. Seu pai o censurou em vão quando voltou para casa após uma pesca em um sábado a noite, pois ele apenas ficava cada vez mais ousado. No final, ele começou a usar sua vara em todos, seja em homem ou animal, que ele encontrava naquele lugar, e se tornou tamanho terror que lhe deram o nome de Jack, o Matador de Gigantes. Sua grande força se tornou tão notória que muitos vinham de Laxey para tirar suas conclusões sobre ele, mas sempre se surpreendiam. Ele manteve sua velha mãe bem suprida com purrs, o nome que eles davam aos suínos selvagens que eram antigamente encontrados nas montanhas. Existia um velho javali purr, chamado de Purr Mooar, que tinha sido há muito tempo um terror para o distrito, de forma que não era considerado seguro para qualquer um andar sozinho sobre Rheast e através de Druidale. Até mesmo os pastores de ovelhas com seus cães eram relutantes em encontrá-lo. Jack ficou determinado em matar este purr, e então se armou com a mais grossa vara e saiu em sua procura. Após ter viajado uma distância considerável, ele desceu para um vale profundo, através do qual a água estava caindo entre as rochas abaixo de Crammag, onde ele descobriu o javali se deliciando na água por ser um dia abafado. Ao ver Jack, não demorou muito para se levantar e com um terrível rugido, ele correu em sua direção. Jack, nada assustado, o recebeu com um severo golpe nas patas dianteiras que o fez rolar. Ao se levantar novamente, ele correu mais uma vez na direção de Jack, que o espancou com muitos golpes fortes, mas infelizmente o javali conseguiu infligir uma profunda ferida na coxa de Jack, que abriu até o osso. O conflito continuou até ambos estarem cansados e fracos com a perda de sangue, até por fim Jack, com um terrível golpe, quebrar a cabeça do javali e o matou aos seus pés. Foi com grande dificuldade que ele conseguiu rastejar para casa, demorando bastante para suas feridas, que diz-se terem a natureza venenosa, cicatrizarem, e mesmo após ele ter sido curado, ele foi obrigado a andar com uma muleta pelo resto de sua vida. Assim, a vizinhança se livrou de dois problemas – Jack e o Purr Mooar – pois um agora estava inofensivo, e o outro, morto. Esse feito foi comemorado no ditado “Jack, o Matador de Gigantes, varr a vuc (isto é, matou um porco) no rio.” – Oral.

                Há muitos outros contos sobre gigantes, e a precisão dos mesmos é fornecida para a satisfação dos contadores através da existência de grandes pedras, que são apontadas em vários locais como tendo sido jogadas por eles. Há uma em particular, perto da Igreja de Jurby, que diz-se ter sido atirada por um gigante de uma das montanhas após uma companhia ter o insultado, mas inventou de escapar nadando de Jurby para a Escócia. As numerosas rochas separadas na extremidade sul de Greeba são satisfatoriamente relatadas comos sendo o conteúdo de um cabaz que um gigante tinha derramado lá. Há um outro gigante, que diz-se ter sido contemporâneo com S. Patrício, que pela sua força e ferocidade se tornou o terror da Ilha inteira. Ele costumava se transportar com grande facilidade pelo desfiladeiro entre o Castelo de Peel e o Contrary Head, que agora foi feito uma ponte com um quebra-mar. Em uma ocasião, seja por diversão ou por um acesso de raiva, ele levantou um grande bloco de granito da rocha do Castelo e, apesar de pesar diversas toneladas, o jogou com grande facilidade contra o aclive da colina oposta, cerca de uma milha de distância, onde é vista nos dias de hoje com a pegada de sua mão nela. Para embasar lendas como estas, os camponeses manêses antigamente mostravam aos estrangeiros as pedras lançadas por gigantes, como os dois grandes monólitos de ardósia, cada uma com dez pés de altura, entre Port St. Mary e Port Erin, a Colina das Fadas, o túmulo do gigante no sopé de Barrule do Sul e um montículo verde, com trinta jardas de extensão, do lado de fora das muralhas do Castelo de Peel, tendo o mesmo nome.

SEREIAS.
A SEREIA CAPTURADA.

Uma sereia saiu da água,
A mulher mais nobre e adorável. – Sinclair.

                Waldron ficou surpreso ao descobrir que os manêses realmente acreditam em sereias, e deu diversas histórias que eles contam sobre elas, como a que se segue: “Durante o tempo que Oliver Cromwell usurpou o Governo da Inglaterra, alguns poucos navios recorreram à essa ilha, e essa ininterrupção e solidão do mar deram aos tritões [NT: designação moderna à contraparte masculina das sereias; em inglês, mermen] e às sereias (que são inimigos para qualquer companhia, exceto daqueles de sua própria espécie) frequentes oportunidades de visitarem a praia, onde eram vistos em noites enluaradas, para sentarem-se, escovar seus cabelos e brincar uns com os outros, mas assim que viam que alguém se aproximava, eles pulavam na água e saíam da vista imediatamente. Algumas pessoas que moravam perto da costa, tendo observado seu comportamento, espalharam grandes redes no chão feitas de pequenos, porém fortes, cordéis e observavam de uma distância conveniente a sua aproximação. Na noite em que eles colocaram essa armadilha, apenas um deles veio, e assim que ele se sentou, os que seguravam as redes deram um súbito empurrão e aprisionaram seu prêmio de forma que não fosse capaz de fugir de forma alguma. Ao abrir a rede e examinarem seu cativo, descobriu-se que era uma fêmea pela grandeza de seus seios e pela beleza de seu semblante. Nada poderia ser mais adorável, as partes formadas acima da cintura para ser mais exato, que lembrava uma mulher jovem, mas abaixo da cintura era peixe, com barbatanas e uma longa cauda esparramada. Ela foi levada até uma casa e era usada bem ternamente; nada lhe era negado, exceto a liberdade. Apesar deles colocarem diante dela as melhores comidas que o lugar proporcionava, ela não comia, bebia ou falava, embora eles soubessem que essas criaturas não eram desprovidas de fala, já os ouvindo conversar uns com os outros quando se sentavam na praia, deliciando-se. Eles a mantiveram assim por três dias, mas ao perceberem que ela começou a parecer muito doente com a falta de comida e temendo que alguma calamidade se abatesse sobre a Ilha se eles a mantivessem até a morte, eles concordaram em deixá-la voltar para o elemento que mais gostava, e na terceira noite eles abriram sua porta, e assim que ela viu a porta aberta, levantou-se do lugar onde estava deitada e deslizou em sua cauda com uma incrível rapidez em direção ao mar. Eles a seguiram mantendo distância e a viram mergulhar na água, onde foi recebida por uma grande número de sua espécie, um dos quais perguntou o que ela tinha observado entre as pessoas da terra, -- “Nada muito maravilhoso,” respondeu, “apenas que eles são tão ignorantes que jogam foram a água em que cozinharam os ovos.”

O CORTEJO DA SEREIA.

Venha para nossas ricas e estreladas cavernas,
Nosso lar entre as ondas do oceano;
Nossas cavernas de coral são muradas
Com as mais ricas gemas encontradas no oceano,
E espelhos de cristal, claros e brilhantes,
Refletindo tudo em uma luz mágica.

                Uma sereia bastante bonita se tornou tão apaixonada por um jovem que costumava vigiar as suas ovelhas sobre as rochas, onde ela frequentemente se sentava ao seu lado, lhe trazendo pedaços de coral, belas pérolas, as coisas mais curiosas que teriam valor infinito se caíssem nas mãos de uma pessoa que soubesse o seu valor e conchas de vários formatos e figuras, com cores tão gloriosas e brilhantes que até mesmo ofuscariam os olhos que olhassem para elas. Seus presentes eram acompanhados por sorrisos, palmadinhas na bochecha e todos os sinais da mais sincera e tenra paixão. Um dia, ela atirou seus braços mais rápido que o normal sobre ele, que começou a temer que ela tencionava levá-lo para o mar. e lutou para sair dos braços dela, correndo muitos passos para longe dela. Ela ficou tão ressentida com o comportamento, aparentemente, que pegou uma pedra e após atirar nele, deslizou para seu elemento mais apropriado e nunca mais foi vista na terra novamente. Mas quanto ao pobre rapaz, embora tenha sido atingido de leve com a pedra, sentiu a partir daquele momento uma dor tão grande em suas entranhas que ninguém nunca mais o escutou chorar por sete dias, no final dos quais ele morreu. ­– Waldron.

A VINGANÇA DA SEREIA.

                Há uma tradição que fala de uma sereia que se apaixonou por um jovem de extraordinária beleza e teve a oportunidade de encontrá-lo um dia enquanto ele caminhava pela praia, abrindo então seu coração para ele, mas recebeu uma frieza de sua parte ocasionada pelo horror e surpresa pela aparência dela. Isso, no entanto, foi mal interpretado pela dama do mar, que em vingança pelo seu tratamento com ela, puniu a Ilha inteira cobrindo-a com uma névoa para que todos aqueles que tentassem ter qualquer tipo de comércio com ela nunca chegassem, mas vagariam para cima e para baixo no mar, ou eram destruídos subitamente em suas falésias, até o feitiço encantatório ou o pishag, como os manêses chamam, ter sido quebrado pelos pescadores encalhados lá, que deram notícias para o povo de seu país enviarem navios a fim de fazer uma nova descoberta. Em seu desembarque, eles tiveram um feroz encontro com o povinho, e tendo sido melhores que eles, possuíram o Castelo Rushen e toda a ilha. – (Collins em uma nota para sua “Ode to Liberty”).

                Sobre as moradas dessas criaturas debaixo do mar e dos tesouros que eles têm acumulados lá, muitas histórias são contadas. A noção de uma terra debaixo das ondas é bem propagada e comum para muitas nações. Os manêses antigamente afirmavam que uma esplêndida cidade com muitas torres e minaretes dourados existia perto de Langness, em um lugar que agora está coberto pelo mar, e em peculiares estados da atmosfera, a cidade poderia ocasionalmente ser vista em toda a sua antiga magnificência.

                Waldron dá os seguintes maravilhosos relatos de moradias debaixo do mar, abastecidas com tesouros, que se assegura de terem sido atestadas por toda a tripulação de um navio, estando vivas na memória de alguns deles que ainda vivem, e mesmo assim, “ele ficou extremamente surpreso”:

MORADIAS DEBAIXO DO MAR.

                Existiu, por volta de quarenta ou cinquenta anos desde 1676, um projeto feito em terra para buscar os tesouros do mar. Navios foram preparados assim como máquinas feitas de vidro, revestidas com um espesso e duro couro para permitir que as pessoas mergulhassem ao buscarem por riquezas. Alguns desses navios ao velejarem perto da Ilha de Man e tendo ouvido falar de pessoas que antigamente tinham se refugiado lá, imaginaram que não havia uma parte do oceano mais provável do que essa de ter o que eles buscavam. Eles, portanto, desceram a máquina com uma pessoa que aceitou ir nessa expedição. Eles o desceram através de uma grande extensão de corda, e lá embaixo ele continuava puxando, dando o sinal para os que estavam lá em cima darem mais corda, e continuaram fazendo isso até saberem que o homem lá embaixo desceu um infinito número de profundidades. Em resumo, o homem pediu tanta corda que eles se viram sem corda, com o seu estoque inteiro sendo pouco para sua espaçosa requisição. Um matemático muito habilidoso que estava a bordo disse que, através da proporção da corda que foi dada, ele sabia que ele tinha descido nas águas duas vezes mais o número de léguas da distância entre a lua e a terra. Mas, como eu disse, não tinha mais corda e eles foram obrigados a girarem a roda que o trouxe de volta. Ao abrirem a máquina e o tirarem de lá, ele pareceu estar muito perturbado pelo fato de sua viagem ter parado muito cedo e lhes disseram que se ele tivesse ido um pouco mais além, ele teria feito descobertas que valeriam a pena a pesquisa. Como já era de se esperar, todos ficaram impacientes para serem informados sobre o tipo de coisas que ele viu lá, e reunindo-se em volta dele no convés principal, assim que ele se restabeleceu com um caloroso gole de brandy, ele começou a relatar dessa forma: “Após eu ter passado pela região dos peixes, eu desci em um puro elemento, tão claro quanto o ar no mais sereno dia sem nuvens, através do qual eu passei e vi o fundo do mundo aquático, pavimentado com coral e um tipo brilhante de seixos que brilhavam como raios de sol refletidos em vidro. Eu ansiava caminhar nos deliciosos caminhos e nunca senti um deleite tão extraordinário do que quando estava preso na máquina. Ao olhar através das pequenas janelas de minha prisão, eu vi grandes ruas e praças em todos os cantos, ornamentadas com grandes pirâmides de cristal, não sendo inferiores em brilho aos mais belos diamantes, e vi as mais belas construções – não de pedras ou tijolos, mas de madrepérola, com várias figuras em relevo de conchas em todas as cores. Como a passagem que dava para um desses magníficos aposentos estava aberta, eu me esforcei com toda minha força para mover meu invólucro em direção à ela, e consegui apesar de ter sido com grande dificuldade e muito lentamente. Por fim, no entanto, eu entrei em uma sala bastante espaçosa e no meio dela estava uma grande mesa de âmbar com diversas cadeiras ao redor dela. O chão da sala era composto de diamantes brutos, topázios, esmeraldas, rubis e pérolas. Aqui, não pensei duas vezes em tornar minha viagem tão rentável como agradável, pois eu poderia trazer comigo algumas dessa pedras, já que elas seriam de mais valor do que tudo o que poderíamos esperar em mil naufrágios, mas elas estavam tão encravadas e tão fortemente cimentadas pelo tempo que não consegui soltá-las. Eu vi diversas gargantilhas, colares e anéis, todos feitos de pedras preciosas, finamente polidas e feitas da nossa maneira, que eu suponho ter sido o prêmio dos ventos e ondas. Eles pendiam livremente em paredes de jaspe, em cordas feitas de juncos, que eu poderia facilmente pegar, mas quando fiquei a meio pé entre eles, fui infelizmente puxado de volta por causa da sua falta de corda. Em meu retorno, encontrei diversos agradáveis tritões e belas sereias, os habitantes deste feliz reino, rapidamente descendo em direção a ele, mas pareciam assustados com minha aparência e deslizaram para longe de mim, achando que eu era, sem dúvida, alguma nova espécie monstruosa.”

                Ele terminou seu relato aqui, mas ficou tão melancólico e tão apaixonado por aquelas regiões que visitou que perdeu completamente todo o gosto pelos prazeres terrenos, até a sua contínua tristeza o privar de sua vida. Não tendo nenhuma esperança de descer lá novamente, toda a ideia de realizar o projeto de mergulho foi logo depois posto de lado.

APARIÇÕES.

                Histórias de Aparições e Espíritos são comuns, como naturalmente é de se esperar de um povo tão imaginativo como os manêses. As seguintes histórias serão suficientes como amostras:

A APARIÇÃO DO CASTELO RUSHEN.

Seja tu um espírito de saúde ou um trasgo condenado! – Shakespeare.

                Eles fizeram uma poderosa azáfama com uma aparição que, segundo eles, assombra o Castelo Rushen na forma de uma mulher que foi executada há alguns anos atrás pelo assassinato de seu filho. Ouvi falar de, não apenas de pessoas que foram confinadas lá pelas dívidas, mas também de soldados da guarnição que afirmaram que a viram diversas vezes, mas o que mais me chamou atenção foi o relato de um cavalheiro, de cujo bom conhecimento e veracidade eu tenho uma grande opinião. Ele me contou que, estando fora tarde da noite e tendo pegado uma grande tempestade de chuva e vento, ele viu uma mulher parada diante do Portão do Castelo, onde não tinha o mínimo abrigo, e lhe surpreendeu que alguém, ainda mais daquele sexo, não preferisse correr para algum pequeno alpendre ou barraca, que abundam em Castletown do que ficar parada exposta e sozinha no meio de uma medonha tempestade. Sua curiosidade o excitou a se aproximar para que ele pudesse descobrir quem era a mulher que parecia respeitar tão pouco a fúria dos elementos, e ele percebeu que ela recuou com a sua aproximação, e no final, ele achou que ela tivesse entrado no Castelo apesar das portas estarem fechadas. Isto, obrigando-o a pensar que ele tinha visto um espírito, o enviou para casa muito aterrorizado, mas no dia seguinte, ao relatar suas aventuras para algumas pessoas que moravam no Castelo e descrevendo o mais próximo possível as vestes e a estatura da aparição, eles lhe disseram que era a mulher mencionada acima, que era frequentemente vista pelos soldados na guarda, passando para dentro e fora dos portões, assim como caminhando através dos cômodos apesar de não haver uma maneira visível de entrar neles. Apesar de ser uma visão tão familiar, nenhuma pessoa ainda teve coragem de falar com ela, e como eles dizem, já que um espírito não tem poder de revelar sua intenção sem ser conjurado de uma forma apropriada, a razão dela ficar vagando é desconhecida. – Waldron.

UMA ESTRANHA APARIÇÃO.

                Um clérigo, acostumado a passar algumas horas da noite em um campo próximo de sua casa, satisfazendo-se em meditação e relembrando de um relato para as transações do dia anterior, estava nesse lugar em uma noite, e envolto em contemplação mais que o normal, ele vagou sem pensar onde estava, há uma distância considerável mais longe do que era normal para ele ir, e como ele me disse, ele não sabia o quão longe a profunda reflexão na qual ele estava poderia o levar se não tivesse sido subitamente interrompido por um barulho que a princípio ele achou ser um mugido de um touro, mas quando ele escutou o barulho com mais atenção, ele descobriu que havia algo mais terrível no som do que poderia sair dessa criatura. Ele me confessou que não estava menos assustado do que surpreso, especialmente quando o barulho se aproximava ainda mais, e imaginou que o que quer que fosse sua origem, teria de passar por ele. Ele, no entanto, teve uma mente suficientemente presente e colocou suas costas em uma cerca, onde se ajoelhou e começou a orar para Deus com toda a veemência que uma ocasião tão medonha pedia. Ele não ficou muito tempo naquela posição até ver algo na forma de um touro, mas infinitamente maior que qualquer um que ele já tivesse visto na Inglaterra, muito menos em Man, onde o gado em geral é muito pequeno. Ele disse que os olhos da criatura pareciam atirar fogo e a corrida dele era com tanta força que o chão tremia debaixo dele, como em um terremoto. Ele foi diretamente em direção à uma pequena cabana e lá, após o mais horrível rugido, ele desapareceu. Como a lua estava cheia e brilhando em seu máximo esplendor, todas essas passagens estavam perfeitamente visíveis para o nosso espantado religioso, que tendo terminado sua exclamação e dado graças a Deus por sua proteção, foi até a cabana, cujo dono, segundo o que lhe contaram, estava morto naquele momento. O bom e velho cavalheiro estava relutante em passar uma censura que pudesse parecer pouco caridosa, mas como o falecido tinha a característica de ter um fígado muito doente, a maioria das pessoas, que escutaram a história, estavam aptos a imaginar que essa terrível aparição veio para atender seus últimos momentos. – Waldron.

BEN VEG CARRAGHAN (A Pequena Mulher de Carraghan).

                Existiu uma vez uma pobre mulher de estatura muito pequena que vivia na vizinhança de Maughold Head. Ela ganhava seu sustento com sua roda de fiar, “indo nas casas” para trabalhar com ela. Pela sua alegre disposição e prontidão para fazer um bom trabalho todas as vezes, ela era sempre bem recebida. Ela recebia alimentação e hospedagem como pagamento, e “um pouco de dinheiro.” Dessa forma, ela viajou e viveu por um considerável período de tempo e se tornou conhecido que ela fez “uma bolsa.” Se foi ou não por conta disto que ela foi embora, não se sabe, mas é certo que ela foi vista muitas vezes sentada ao lado da montanha Carraghan com sua roda em seu ombro e colocando a mão em sua cabeça como se estivesse em grande problema. Aqueles que passavam pela montanha em uma ocasião não iam até a aparição daquela pobre mulher, temendo que alguma cruel calamidade pudesse abater-se sobre eles. Alguns anos atrás, uma pessoa voltava para sua casa no vale de West Baldwin, cerca de duas horas da tarde, quando viu a “pequena mulher” sentada em seu lugar favorito. Assim que ele foi visto, ela se levantou e tentou ir embora, mas ele, determinado a resolver o mistério, começou a persegui-la com seus cães e enviou três outras pessoas, uma para cada um dos dois lados e uma para o topo da montanha. A pequena mulher, estando então cercada, fez muitas tentativas ineficazes para escapar, e por fim, chegou perto de um dos homens e dos cães. Este homem não ficou convencido a tocá-la, mas parecia que ela estava em um grande problema e chorava. Já havia sido notado que, ao chegar em um pequeno córrego, ela imediatamente desapareceu, e agora, quando chegou naquele lugar, ela desapareceu também e nunca mais foi vista. Um homem em Northside posteriormente afirmou que no mesmo dia tinha observado ela correndo sobre Barrule do Norte, em direção à Maughold Head. O homem que estava com os cães e que se aproximou da mulher imediatamente ficou doente e incapaz de fazer qualquer tipo de trabalho por mais de seis meses após isso. – Jenkinson.

A LENDA DE SOUND.

                Não muito longe de Sound [NT: também chamado de Calf Sound, é um corpo hídrico que separa a ilha Calf of Man da Ilha de Man], há uma caverna no mar que dá para entrar através de barco quando o tempo está bom. Ela é chamada de Ghaw Kione Doo, “A Enseada da Cabeça Preta”. Ela é notável devido à uma estranha história sobre ela e também devido ao fato (?) de uma inscrição de algum tipo ter sido esculpido sobre sua entrada. Meu informante não pôde apontar esta inscrição, mas ele disse “que ouviu falar disso em algum lugar.” “Em uma época”, a caverna era usada por um pirata como um esconderijo para os espólios adquiridos em suas expedições. Quando ele saiu para uma expedição pela última vez, da qual nunca mais voltou, ele deixou um homem de sua tripulação tomando conta da caverna e do seu tesouro nela. Se ele e sua tripulação foram destruídos por uma tempestade ou foram enforcados, o cronista não sabe, mas ele continuou relatando que, após muitos anos de espera, o solitário guardião da caverna de tesouros desapareceu também. “Não há dúvidas,” continuou o informante, “que ele pegou uma doença na caverna e morreu lá.” De qualquer maneira, ele nunca mais foi visto de novo. “Um velho pescador me disse,” disse ele, “que uma vez ele estava vomitando [NT: o termo original é laying a bolk, e sendo bolk uma palavra em inglês arcaico para vomitar, literalmente ficaria algo como ‘deitando um vômito’; se laying a bolk for uma expressão idiomática com um significado diferente, eu desconheço] perto da caverna e ficou surpreso ao ver um barco, tripulado por seis marinheiros em capas vermelhas, vindo para a terra e remando para a entrada da caverna, desaparecendo lá. Curioso para descobrir quem eles eram e de onde eles tinham vindo, ele os seguiu até a caverna, que tinha apenas uma entrada, mas a encontrou vazia.” – F. Swinnerton.

OS ABISMOS.

                Um respeitável proprietário de terras e seu empregado, na vizinhança de Spanish Head, estavam um dia cuidando de suas ovelhas, cerca de cinquenta anos atrás, quando um dos animais fugiu para escapar de um cachorro que estava o perseguindo, “Confinado na boca daquele poço negro,” ele disse, “na beira do qual você estava de pé tão tarde com uma temeridade indiferente. Sendo então jovem, não facilmente intimidado, fiquei determinado a descer para recuperar meu bichinho loughtyn, apesar do mais urgente protesto por parte do meu pai, que estava ciente de muitos incidentes estranhos que aconteceram lá em aventuras anteriores. Eu me fiz descer, no entanto, na abertura negra em uma cesta atada à uma corda, e todas as cordas da aldeia foram amarradas, uma à extremidade da outra, e todas sendo usadas para me descer no buraco, mas assim que cheguei no fundo, fiquei mortificado ao ouvir o último balir de minha pobre ovelha, que evidentemente lutava sob a faca de um açougueiro. Conforme avancei pela espaçosa caverna, indo até o lugar de onde o som vinha, eu distintamente escutei, em um aposento vizinho, vozes humanas em uma rápida conversa, que com o bater de facas e garfos, retirada de cortiças, decantação de licor e com um ruidoso barulho que se seguiu, tendeu me convencer de que eu prosseguia em direção à uma companhia de bacanalistas, para cuja gratificação minha pobre ovelha provavelmente foi morta. Para que, portanto, eu não compartilhasse o mesmo destino, eu me apressei com toda velocidade possível para a entrada da caverna, mas assim que coloquei meu pé na relva, escutei muitos sons furiosos que saiam do buraco como se um bando de atacantes estivessem desengatados em meus pés. Minha descida e meu recuo foram evidentemente descobertos pelas pessoas lá embaixo, mas graças à Providência, eu estava longe de seu alcance.” – Train.

O ESPÍRITO “HOA HOA”.

                O espírito perturbado de uma pessoa naufragada em uma rocha adjacente a esta costa ainda vaga por lá, e às vezes faz um grito tão terrível que é escutado a uma incrível distância. Eles te contam que até mesmo as casas tremem com o grito e que, não apenas os homens, mas toda a bruta criação que escuta treme diante do som. Mas o que serve bastante para aumentar o choque é que sempre que este extraordinário barulho é feito, é uma previsão certa de uma tempestade se aproximando. Nem sempre acontece, dizem eles, mas algum navio ou outro bate e sua tripulação é atirada nas ondas. Em outras épocas, o espírito grita apenas “Hoa! Hoa! Hoa!” com uma voz baixa, um pouco mais alto que a voz humana. – Waldron.

Notas de rodapé

1. Manx Dictionary (Dicionário manês).


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