domingo, 29 de janeiro de 2017

A chegada de Angus e Bride

Fonte: MACKENZIE, Donald Alexander. “Wonder Tales from Scottish Myth and Legend”. 1917. Disponível em: <http://www.sacred-texts.com/neu/celt/tsm/tsm05.htm>. Acesso em: 28 de janeiro de 2017.

CAPÍTULO II
A Chegada de Angus e Bride

                Por todo o longo inverno Beira mantinha em cativeiro uma bela e jovem princesa chamada Bride. Ela tinha inveja da beleza de Bride, dava-lhe roupas esfarrapadas para vestir e a colocava para trabalhar com as empregadas na cozinha de seu castelo na montanha, onde a menina tinha que realizar as tarefas mais medíocres. Beira a repreendia continuamente, procurando falhas em tudo o que ela fazia, tornando muito infeliz a sua vida.

                Um dia Beira deu um pano de lã para a princesa e disse: “Tu deves lavar este pano em água corrente até ele ficar de um branco puro.”


                Bride pegou a lã e saiu do castelo, começando a lavá-la em um lago debaixo de uma cachoeira. Ela trabalhou na tarefa o dia inteiro, mas não teve sucesso. Ela viu que era impossível tirar a cor marrom da lã.

                Quando a noite chegou, Beira repreendeu a menina e disse: “Tu és uma petulante inútil. O pano está tão marrom como quando eu lhe dei.”

                Bride disse: “Eu passei o dia inteiro lavando o pano debaixo da cachoeira da Rocha Vermelha.”

                “Amanhã tu lavarás de novo,” disse Beira, “e se tu não o tornar branco, irá continuar lavando no dia seguinte e todos os dias seguintes. Agora vá embora! E faça o que eu ordenei.”

                Foi uma época triste para Bride. Ela lavava o pano dia após dia e lhe parecia que se ela continuasse lavando até o fim do mundo, a lã marrom nunca se tornaria branca.

                Uma manhã, quando ela estava em seu trabalho, um velho de barba grisalha se aproximou. Ele apiedou-se da princesa, que chorava lágrimas amargas sobre seu trabalho, e falou com ela: “Quem tu és e por que choras?”

                A princesa disse: “Meu nome é Bride. Sou prisioneira da Rainha Beira, que me ordenou lavar este pano marrom até ele ficar branco. Ai! Isto não pode ser feito.”

                “Lamento por você,” disse o velho.

                “Quem tu és e de onde vens?” perguntou Bride.

                “Meu nome é Pai Inverno,” o velho lhe contou. “Me dê a lã e eu a tornarei branca para você.”

                Bride deu o pano marrom para o Pai Inverno, e quando ele o sacudiu três vezes, o pano ficou tão branco como a neve.

                O coração de Bride imediatamente se encheu de alegria e exclamou: “Querido Pai Inverno, és muito bondoso. Tu me salvaste de muito trabalho e levaste embora minha tristeza.”

                O Pai Inverno devolveu o pano para a Princesa Bride com uma mão e ela o pegou. Ele então disse: “Tome também o que seguro em minha outra mão.” Quando falou, ele lhe deu um punhado de puras campânulas-brancas. Os olhos de Bride brilharam de alegria ao vê-las.

                O Pai Inverno disse: “Se Beira lhe repreender, dê estas flores para ela, e caso ela lhe pergunte onde tu as encontraste, diga-lhe que elas vieram dos bosques de abetos verdes e farfalhantes. Diga-lhe também que o agrião está nascendo nas margens dos rios e a nova grama começou a nascer nos campos.”

                Ao terminar de falar, o Pai Inverno despediu-se da princesa e foi embora.

                Bride retornou para o castelo da montanha e colocou o pano branco aos pés de Beira, mas a velha rainha mal olhou para o pano. Sua fúria estava fixada nas campânulas que Bride segurava.

                “Onde tu encontraste estas flores?” Beira perguntou com uma súbita raiva.

                Beira disse: “Estas campânulas estão crescendo agora nos bosques de abetos verdes e farfalhantes, o agrião está nascendo nas margens dos rios e a nova grama está começando a nascer nos campos.”

                “Más são as notícias que tu me trazes!” Beira gritou. “Saia da minha frente!”

                Bride foi embora, mas não triste. Uma nova alegria entrou em seu coração, pois ela sabia que a feroz estação invernal estava passando e que o reinado da Rainha Beira terminaria em breve.

                Enquanto isso, Beira convocou suas oito criadas bruxas e falou: “Vão para o norte e para o sul, vão para o leste e para o oeste, e eu também irei. Castiguem o mundo com geadas e tempestades para que nenhuma flor possa florescer e nenhuma grama possa sobreviver. Estou declarando guerra contra tudo que cresce.”

                Quando terminou de falar, as oito bruxas montaram nas costas de cabras peludas e cavalgaram para fazer o que ela ordenou. Beira também foi, segurando em sua mão direita o seu negro martelo mágico. Na noite daquele mesmo dia, uma grande tempestade açoitou o oceano com fúria e trouxe terror para cada canto da terra.

                A razão pela qual Beira aprisionava Bride era pelo fato de seu filho mais nobre e querido, cujo nome era Angus o Sempre Jovem, tinha se apaixonado por ela. Ele foi chamado de “o Sempre Jovem” pois a velhice nunca vinha para ele, e durante todo o inverno ele vivia na Ilha Verde do Oeste, que também era chamada de “Terra da Juventude.”

                Angus viu Bride pela primeira vez em um sonho, e quando acordou, ele falou com o Rei da Ilha Verde: “Na noite passada eu tive um sonho e vi uma linda princesa a quem amei. Lágrimas caíam de seus olhos e eu falei com um velho que estava ao seu lado: ‘Por que a donzela chora?’ O velho homem disse: ‘Ela chora pois é prisioneira de Beira, que a trata com grande crueldade.’ Olhei novamente para a princesa e disse: ‘Com prazer eu a libertaria.’ Então acordei. Conte-me, ó rei, quem é essa princesa e onde a encontrarei?’”

                O Rei da Ilha Verde respondeu Angus, dizendo: “A nobre princesa que tu viste é Bride, e nos dias em que tu serás o Rei do Verão, ela será tua rainha. Sua mãe, a Rainha Beira, tem o conhecimento disto e é seu desejo lhe manter longe de Bride para que seu reinado possa ser prolongado. Permaneça aqui, ó Angus, até as flores florescerem e a grama começar a crescer, e então, tu deverás libertar a bela Princesa Bride.”

                Angus disse: “Eu imediatamente procuraria por ela com prazer.”

                “O mês do lobo (fevereiro) chegou agora,” o rei disse. “Incerto é o temperamento do lobo.”

                Angus disse: “Eu lançarei um feitiço no mar e um feitiço na terra, e pedirei emprestado três dias do mês de agosto para o mês de fevereiro.”

                Ele fez conforme tinha falado: pediu emprestado três dias de agosto e o oceano adormeceu pacificamente enquanto o sol brilhava sobre as montanhas e vales. Angus então montou seu corcel branco e cavalgou para o leste em direção a Escócia sobre as ilhas e sobre o Minch, e chegou nas montanhas Grampian quando o dia estava nascendo. Ele trajava vestes de um ouro brilhante, e de seus ombros pendia sua real capa carmesim que o vento erguia e espalhava o seu esplendor reluzente contra o céu.

                Um bardo idoso olhou para o leste e quando viu o nobre Angus, ergueu sua harpa e cantou uma canção de boas vindas, e todos os pássaros da floresta cantaram com ele. Isto foi o que ele cantou:

“Angus chegou – o jovem, o nobre,
O deus de olhos azuis e cabelo dourado –
O deus que ao mundo trouxe
Nesta manhã, a promessa da primavera;
Que move os pássaros para a canção e ainda
Acordou a violeta,
Ou a suave prímula na escarpa,
Enquanto os brotos estão cobertos, em sono,
E a neve branca envolve as colinas serenes,
Antes do vívido verde do lariço¹ brilhar
Pelos marrons e nus bosques. Todos saúdem!
Angus, e que tua vontade prevaleça...
Ele vem… Ele vai… E em toda parte
Ele procura pela Princesa Bride.”

                Para cima e para baixo Angus procurou, mas não encontrou Bride em lugar nenhum. A nobre princesa, no entanto, o viu em um sonho e soube que ele ansiava para libertá-la. Ao acordar, ela chorou de alegria, e no lugar onde suas lágrimas caíram, violetas tão azuis quanto seu belos olhos nasceram.

                Beira ficou furiosa quando soube que Angus estava procurando por Bride, e na terceira noite de sua visita, ela criou uma grande tempestade que o expulsou para a Ilha Verde, mas ele retornou várias e várias vezes e descobriu nesse tempo o castelo no qual a princesa era mantida como prisioneira.

                Chegou então o dia em que Angus encontrou-se com Bride em uma floresta perto do castelo. As violetas floresciam e as suaves prímulas amarelas abriram seus olhos de maravilha para observar o príncipe e a princesa. Quando eles falavam um com o outro, os pássaros erguiam suas doces vozes em som e o sol brilhava clara e brilhantemente.

                Angus disse: “Bela princesa, eu te vi em um sonho chorando lágrimas de tristeza.”

                Bride disse: “Poderoso príncipe, eu te vi em um sonho cavalgando sobre montanhas e através dos vales em beleza e poder.”

                Angus disse: “Eu vim te resgatar da Rainha Beira, que te aprisiona por todo o inverno.”

                Bride disse: “Este é um dia de grande alegria para mim.”

                Angus disse: “Será um dia de grande alegria para toda a humanidade após isso.”

                É por isso que o primeiro dia de primavera – o dia que Angus encontrou a princesa – é chamado de o “Dia de Bride”.2

                Uma nobre companhia de fadas donzelas vieram para a floresta, saudando Bride como rainha e dando as boas vindas para Angus. A Rainha das Fadas balançou sua varinha e Bride foi transformada. Tão rapidamente quanto o sol brilhante surge por trás de uma nuvem escura, vertendo beleza por toda a sua volta, Bride apareceu em um novo esplendor. Ao invés dos trajes esfarrapados, ela agora usava uma capa branca adornada com lantejoulas de prata brilhante. Sobre seu coração brilhava um cristal em formato de estrela, puro como seus pensamentos e brilhante como a alegria que Angus lhe trouxe. Essa gema é chamada de “a estrela que guiou Bride.” Seu cabelo marrom-dourado, que caía até sua cintura em cachos brilhantes, estava enfeitado com nobres flores primaveris – campânulas, margaridas, prímulas e violetas. Azuis eram seus olhos e sua face tinha a vermelhidão e a brancura da rosa selvagem de inigualável beleza e de uma suave graça. Em sua mão direita ela carregava uma varinha branca com feixes de grãos dourados entrelaçados, e em sua mão esquerda, um chifre dourado que é chamado de “Chifre da Abundância.”

                O pintarroxo foi o primeiro pássaro da floresta que saudou Bride em sua beleza, e a Rainha das Fadas disse:

                “Por isso, serás chamado de ‘Pássaro de Bride’.” Na região costeira, o primeiro pássaro que gorjeou com alegria foi o ostraceiro, e a Rainha das Fadas disse: “Por isso, serás chamado de ‘Escudeiro de Bride’.”

                A Rainha das Fadas então conduziu Angus e Bride para seu palácio subterrâneo de cobertura gramada no meio da floresta. Conforme seguiram, eles chegaram até um rio que estava coberto de gelo. Bride colocou seus dedos lá e a Bruxa do Gelo gritou e fugiu.

                Um grande banquete foi dado no palácio da Rainha das Fadas, e este foi o banquete de casamento de Bride, pois Angus e ela estavam casados. As fadas dançaram e cantaram com alegria, e o mundo inteiro dançou e cantou com eles. Foi assim que o primeiro “Festival de Bride” aconteceu.

                “A primavera chegou!” os pastores gritaram, levando seus rebanhos para os pântanos, onde eram contados e abençoados.

                “A primavera chegou!” tagarelou o corvo, voando para encontrar musgo para seu ninho. A gralha-calva escutou isso e seguiu, assim como o pato selvagem surgiu dentro dos juncos, gritando: “A primavera chegou!”

                Bride saiu do palácio das fadas com Angus e sacudiu sua varinha, enquanto Angus repetia encantamentos mágicos. Um crescimento maior foi então dado para a grama e todo o mundo saudou Angus e Bride como rei e rainha. Embora eles não fossem vistos pela humanidade, sua presença era sentida em todo o lugar por toda a Escócia.

                Beira ficou indignada quando soube que Angus tinha encontrado Bride. Ela pegou seu martelo mágico e bateu incessantemente no chão até ele ficar congelado e duro como o ferro novamente – tão duro que nenhuma erva ou lâmina de grama poderia continuar vivendo sobre sua superfície. Sua fúria era terrível quando viu a grama crescendo. Ela sabia bem que quando a grama florescia e Angus e Bride se casavam, sua autoridade acabaria. Era seu desejo manter seu trono tão longo quanto possível.

                “Bride está casada, viva Bride!” cantavam os pássaros.

                “Angus está casado, viva Angus!” eles cantavam também.

                Beira ouviu as canções dos pássaros e chamou suas servas bruxas. “Vão para o norte e para o sul, vão para o leste e para o oeste, travem guerra contra Angus. Eu irei também.”

                Suas servas montaram em suas cabras peludas e foram cumprir sua ordem. Beira montou em um corcel negro para perseguir Angus. Ela cavalgou rápida e arduamente. Nuvens negras varriam sobre o céu quando ela cavalgava, até ela ter chegado na floresta na qual a Rainha das Fadas tinha sua morada. Todas as fadas fugiram de medo para seus montes verdes e as portas foram fechadas.

                Angus olhou para cima e viu Beira aproximando-se. Ele montou nas costas de seu corcel branco e levantou sua jovem noiva nas rédeas em sua frente, fugindo com ela.

                Angus cavalgou para o oeste sobre as colinas, vales e sobre o mar, e Beira o perseguiu.

                Há uma ravina rochosa na ilha de Tiree, e o corcel negro de Beira pulou sobre ela enquanto perseguia o corcel branco de Angus. Os cascos do corcel negro fez um buraco nas rochas. Até hoje, a ravina é chamada de “O Salto do Cavalo”.

                Angus escapou para a Ilha Verde do Oeste, e lá ele passou dias felizes com Bride, mas ele desejava voltar para a Escócia e reinar como o Rei do Verão. De novo e de novo ele cruzava o mar, e todas as vezes que ele chegava na terra dos vales e montanhas, o sol nascia brilhantemente e os pássaros cantavam alegremente para recebê-lo.

                Beira criou tempestade após tempestade para expulsá-lo. Primeiro ela chamou o vento conhecido como “O Assobio”, que soprava alto e de forma estridente, trazendo rápidas chuvas de granizos frios. Ele durou por três dias e houve muita tristeza e amargura por toda a Escócia. Ovelhas e cordeiros foram mortos nos pântanos, e cavalos e vacas morreram também.

                Angus fugiu, mas logo retornou novamente. O próximo vento que Beira criou para prolongar seu reinado invernal foi o “Vento de Bico Afiado”, que é chamado de “Gobag” e durou nove dias, perfurando toda a terra pois ele bicava e mordia cada recanto e abertura como um pássaro de bico afiado.

                Angus retornou e Beira criou o turbilhão de vento que é chamado de “O Varredor”. Suas rajadas rodopiantes dilaceraram os ramos dos rebentos de árvores e as brilhantes flores de suas hastes. Todo o tempo que ele soprava, Beira continuava batendo seu martelo mágico no chão para que a grama não crescesse, mas seus esforços eram em vão. A primavera brilhava em beleza por toda a sua volta, e toda vez que ela ia embora, exausta pelos seus esforços, o sol surgia em esplendor. As pequenas e modestas prímulas abriam suas pétalas na luz do sol, olhando a partir de seus recantos acolhedores que o vento chamado “Varredor” era incapaz de alcançar. Angus fugiu, mas logo retornou novamente.

                Beira, no entanto, ainda não estava inteiramente sem esperança. Seus esforços trouxeram desastres para a humanidade e as “Semanas da Magreza” chegaram, tornando a comida escassa. Os pescadores estavam incapazes de se aventurar no mar por conta das tempestades de Beira, não podendo conseguir peixe. Durante a noite, Beira e suas bruxas entravam nas casas dos homens e roubavam suas provisões de comida. Foi, de fato, uma época triste.

                Angus apiedou-se da humanidade e tentou lutar com as bruxas de Beira, mas a feroz rainha criou as “Tempestades da Enfermidade” para mantê-lo longe, e eles se enfureceram até a primeira semana de março. Os cavalos e o gado morreram por falta de comida, pois os ferozes ventos sopraram as pilhas de forragem e as espalharam sobre os lagos e sobre o oceano.

                Angus, no entanto, lutou ferozmente contra as criadas bruxas, e no final, as expulsou para o norte, onde se encolerizaram e se enfureceram.

                Beira ficou grandemente alarmada e fez seu último grande esforço para vencer os Poderes da Primavera. Ela sacudiu seu martelo mágico e bateu nas nuvens com ele. Ela cavalgou para o norte em seu corcel negro e reuniu suas criadas novamente, chamando-as e dizendo: “Venham para o sul comigo, todas vocês, e dispersem nossos inimigos em nossa frente.”

                Elas saíram do ermo e sombrio norte em um único grupo. Com elas veio a Grande Tempestade Negra. Parecia então que o inverno tinha retornado em sua toda a sua força e ficaria para sempre, mas até mesmo Beira e suas bruxas tinham que descansar. Em um escuro entardecer elas se arrastaram juntas para a encosta de uma montanha nua, e assim, uma súbita calma caiu sobre a terra e sobre o mar.

                “Ha ha!” riu o pato selvagem que odiava a bruxa. “Ha ha! Ainda estou vivo, assim como meus seis patinhos.”

                “Tenha paciência, tagarela inútil,” respondeu a bruxa. “Ainda não terminei.”

                Naquela noite, ela pegou emprestado os três dias de inverno que ainda não tinha usado, pois Angus tinha anteriormente trocado três dias do mês de agosto para o Inverno. Os três espíritos dos dias emprestados eram espíritos da tempestade, e vieram em direção a Beira montados em porcos pretos. Ela disse para eles: “Há muito tempo que vós estivestes aprisionados! Agora eu vos liberto.”

                Um após o outro, em cada um dos três dias que seguiram, os espíritos saíram nas costas de seus porcos. Eles trouxeram neve, granizo e ferozes rajadas de vento. A neve enbranqueceu os pântanos e preencheu os sulcos da terra arada, rios inundaram e grandes árvores foram partidas e desenraizadas. O pato foi morto, assim como seus seis patinhos. As ovelhas e o gado morreram, e muitos seres humanos foram mortos na terra e afogados no mar. Os dias nos quais essas coisas aconteceram foram chamados de os “Três Dias dos Porcos.”

                O reinado de Beira agora estava terminando. Ela se viu incapaz de continuar combatendo o poder da nova vida que crescia em cada veia da terra. A fraqueza da extrema velhice rastejou até ela, que desejou beber das águas do Poço da Juventude novamente. Quando, em uma brilhante manhã de março, ela viu Angus cavalgando sobre as colinas em seu corcel branco, pondo em fuga suas ferozes criadas bruxas diante dele, ela fugiu desesperada. Ela atirou seu martelo mágico debaixo de um azevinho, e este é o motivo pelo qual nenhuma grama cresce debaixo de azevinhos.

                O corcel negro de Beira fugiu com ela para o norte. Quando saltou sobre o Lago Etive, ele deixou as marcas de seus cascos na encosta de uma montanha rochosa, e o lugar é chamado até hoje de “Cascos de Cavalo”. Ela não controlou seu corcel até chegar na ilha de Skye, onde descansou no topo da “Colina da Velha” (Ben-e-Caillich) em Broadford. Lá ela sentou, observando firmemente o mar, esperando até que o dia e a noite fossem de igual duração. Por todo aquele dia ela chorou tristemente pelo seu poder perdido, e quando a noite chegou, ela foi para o oeste sobre o mar até a Ilha Verde. Na alvorada do dia seguinte, ela bebeu as águas mágicas do Poço da Juventude.

                Neste dia que tem a mesma duração que a noite, Angus veio para a Escócia com Bride, e foram saudados como rei e rainha dos seres invisíveis. Eles cavalgaram do sul ao norte pela manhã, e do norte para o sul no entardecer. Um gentil vento seguia com eles, soprando em direção ao norte do amanhecer até o meio dia, e em direção ao sul do meio dia até o entardecer.

                Foi naquele dia que Bride mergulhou suas nobres mãos brancas nos nobres rios e lagos que ainda retiam gelo. Quando ela fez isso, a Bruxa do Gelo caiu em um sono profundo do qual não pôde acordar até o verão e o inverno terem se passado.

                A grama cresceu rapidamente após Angus começar a reinar como rei. Sementes foram plantadas e o povo chamou Bride para garantir uma boa colheita. Em breve, a terra inteira ficaria bonita com as flores primaveris de todas as cores.

                Angus tinha uma harpa de ouro com cordas de prata, e quando ele tocava, os jovens e as donzelas seguiam o som da música pelos bosques. Os bardos cantavam seus louvores e contaram que ele beijava os amantes, e quando estes se separavam para voltar para suas casas, os beijos se tornavam pássaros invisíveis que pairavam sobre suas cabeças e cantavam doces canções de amor, sussurando queridas memórias. Foi isso o que um bardo cantou sobre ele:

“Quando suavemente o vento sulista soprou sobre o mar,
Balbuciando sobre a esperança da primavera e o orgulho do verão,
E quando o árduo reinado de Beira acabasse,
Angus o Sempre Jovem,
O belo deus do amor, o loiro,
O de misteriosos olhos azuis,
Brilhava como a estrela da manhã, alta entre
As estrelas que encolhiam de medo
Quando o amanhecer proclamava o triunfo que ele dividia
Com Bride, a donzela inigualável.
Então os ventos da doçura da violeta surgiam e suspiravam,
Nenhuma conquista é comparada
Às alegrias transcendentais do amor que nunca enfraquece.”

                Nos velhos dias, quando não havia calendário na Escócia, o povo nomeava os vários períodos de inverno e primavera, de tempestades e calmaria, conforme visto acima. A história da luta entre Angus e Beira é a história da luta entre a primavera e o inverno, crescimento e decadência, luz e escuridão e calor e frio.

Notas de rodapé

1. O lariço é a primeira árvore na Escócia que fica com um verde brilhante na primavera.

2. Primeiro de fevereiro no calendário “velho estilo” e 13 de fevereiro no “novo estilo”.           

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