sábado, 19 de novembro de 2016

Práticas mânticas e oraculares dos gaélicos pré-cristãos

Práticas mânticas e oraculares entre os gaélicos pré-cristãos

                Escrevi esse texto para fazer uma compilação de todos os métodos de adivinhação usados pelos antigos gaélicos e a forma sobre como podemos aplicar esses métodos nos dias de hoje. Apesar de alguns serem basicamente impossíveis ou difíceis de se obter os materiais necessários, muitos são relativamente fáceis e podem ser usados por quaisquer pessoas a qualquer hora. Esse texto foi originalmente postado em um antigo blog meu “O Caminho do Fáith”, mas esta é uma versão editada onde acrescentei e mudei algumas coisas. Se tratando de adivinhação e de materiais escassos, não é preciso dizer que, embora tenha informações históricas e embasadas, a maior parte dos procedimentos e métodos de execução que vou sugerir aqui se trata de gnoses pessoais (o conhecidíssimo “achismo”).


Índice

Néldoracht
Ornitomancia
Oniromancia
Divinação pelo som dos ventos
Divinação pela imagem na água
Frìtheireachd
Teinm laida
Ogham ou Fidlanna
Silinnenaith
Fír Flatha
Dichetal di chennaib
Imbas forosnai
Tarbhfeis

Néldoracht

                Sendo descrita como uma das muitas formas de divinação usadas pelos antigos druidas ou “feiticeiros” gaélicos, o néldoracht (também escrito como néladóireacht ou nelladoracht) ou “divinação das nuvens” era aparentemente a técnica usada para fazer presságios através das nuvens do céu. A técnica foi mencionada rapidamente por Geoffrey Keating em sua obra “The History of Ireland”, comentando que:

                “Quanto aos druidas, o uso que eles dão para a pele de touros oferecidos em sacrifícios era para mantê-las para o propósito de conjuração ou colocar um geasa em demônios; e muitas são as formas que eles colocam um geasa neles, tal como (...) observar as nuvens no céu.”

                Enquanto que Keating diz que a observação das nuvens era usada pelos druidas para outro propósito (a colocação dos geasa, ou tabus, em “demônios”), podemos presumir que ele esteja se referindo à uma técnica de divinação. Na mitologia, encontrei somente um único relato do uso da técnica no texto conhecido como “O Colóquio com os Anciões”, onde Cainnelsciath, o feiticeiro de Finn, faz previsões para a batalha baseadas nas nuvens que vê:

                “Era Cainnelsciath ou ‘escudo-de-vela’, isto é, ‘estudo brilhante’, um feiticeiro do povo de Finn, que a partir das nuvens do firmamento fazia presságios na presença de Finn, e: ‘Lá’, disse ele, ‘é o lugar onde uma mansão será feita por Fatha Canann mac Maccon mac Mania’. ‘Verdadeiramente’, disse Finn, ‘vejo isso’, e ele proferiu: --

                ‘Cainnelsciath, sobre uma mansão eu vejo três nuvens de propriedade nociva: proclames a coisa para todos nós se te agradar, pois tu entendes a importância pela qual elas estão lá. Ó Cainnelsciath, declare tudo o que me aguarda em perplexidade; não esconda de teu senhor a forma como elas, as três nuvens de dor que vejo, estão.’ ‘Eu vejo uma nuvem’, o feiticeiro respondeu, ‘uma clara como cristal, acima da mansão de porta ampla; lá o chefe de um bando um dia estará quando a cal sair dos escudos quando estes forem fendidos. Uma nuvem cinza pressentindo dor, eu vejo no meio das outras duas: para onde a luxúria dos corvos virá devido ao evento, quando houver o brilho de armas em sua jogada. Uma nuvem carmesim, em que o sangue não misturado não é mais vermelho que ela, eu vejo pairada sobre as duas: se houver batalha (e haverá), a cor do sangue rubi provará a irritação (isto é, a ferocidade da luta) pressagiada. Que corpos serão torturados e grandes tropas morrerão cedo nesse dia, ó Rei de Clí que conhece todos os dias, as três nuvens que vejo pressagiam.”

                Nesse relato, Cainnelsciath faz um presságio baseado não só na cor das nuvens, mas também na posição em que uma está em relação à outra, e com isso, podemos então supor que estas duas características eram levadas em consideração ao fazer os presságios. Cainnelsciath pode ser considerado um néladóir (ou neulladóir), um “adivinho das nuvens”, sendo essa palavra a mesma para “astrólogo” ou “prognosticador” segundo o eDil, o dicionário eletrônico da língua irlandesa antiga.

                Além disso, a técnica aparentemente sobreviveu até mais tarde, sendo registrada pelo folclore escocês, que ao invés de fazer presságios relacionados às coisas em geral, eles se destinavam à previsão do tempo, conforme Walter Gregor escreve em um artigo no “Folklore Volume II”:

                “’Um céu forte’ é quando as grandes nuvens – cúmulos – sobem ao longo do horizonte. Diz-se então que ‘o céu está subindo’ e uma brisa é vista. As nuvens em si são conhecidas como ‘uma adulta’ (Pittulie).

                ‘Um céu gorduroso’ é a indicação de uma tempestade em breve (no geral). O céu tem um brilho particular em todo o horizonte e um pouco acima dele, e é manchado com confusas nuvens brilhantes e coloridas tendo o mesmo brilho. Minha própria observação confirma esse sinal.

                ‘Um céu rígido’ é quando ele é preenchido com grandes nuvens brancas tendo suas bordas tingidas de vermelho, e indica um tempo instável.”

                Podemos então concluir que o néldoracht pode ter sido uma forma de adivinhação bastante empregada no passado pelos néladóir, um título dado aos druidas ou feiticeiros que faziam uso da técnica. Enquanto que os mitos nos mostram que os presságios eram feitos para a adivinhação propriamente dita das coisas (como o resultado de guerras), o folclore tardio mostra um resquício da técnica sendo usada para fazer previsões do tempo.

Como utilizar a néldoracht hoje?

                Por não termos quase nada em nossas mãos, quaisquer tentativas de “reconstruir” a técnica será mais uma construção do que uma reconstrução propriamente dita, usando nossa intuição, informações científicas que temos sobre as nuvens e sua relação com o clima (se utilizarmos a técnica para prever o tempo) e muita, muita experimentação. Para começar, fiz essa tabela aqui resumindo as principais classificações científicas dadas às nuvens, para ser um ponto de partida na experimentação; esses tipos podem se subdividir em diversos outros tipos e muitas delas estão relacionados à fenômenos meteorológicos como chegadas frentes frias ou quentes e tempestades. Além dos tipos indicados, a cor e a sua posição no céu também podem ser levados em consideração na divinação, caso seja usadas para previsões “triviais” que não se relacionem com a meteorologia (como vimos no exemplo de Cainnelsciath).


Classificação
Descrição
Cirro ou cirrus

Nuvens sedodas e delicadas cuja aparência é formada por novelos de fios brancos e claros. Sua aparência indica a direção da corrente de ar.

Cirro-cúmulo ou cirrocumulos

Nuvens finas e delicadas compostas por uma textura granulada ou rugosa, cuja aparência indica a direção da corrente de ar.

Cirro-estratos ou cirrostratus

Tem a aparência de um véu muito fino e delicado, com a cor esbranquiçada e transparente que pode formar halos em volta do sol e da lua. Podem anunciar, com 1 ou 2 dias de antecedência, a aproximação de uma tempestade.

Alto-cúmulos ou altocumulus

Com aparência similar a dos cirro-cúmulos, porém, são mais espessas e possuem sombras próprias. Indicam geralmente a aproximação de frente fria, e em manhãs úmidas de verão indicam trovoadas.

Alto-estratos ou altostratus

Tem a aparência de lençóis contínuos que se estendem sobre grandes áreas, podendo encobrir até mesmo o sol ou a lua. Podem anunciar a chegada de uma frente quente acompanhada por chuviscos.

Estrato-cúmulos ou stratocumulus

São nuvens cinzentas ou esbranquiçadas, com massas arrendodadas ou cilíndricas apresentando a base e o topo mais ou menos planos. Podem ser acompanhadas por chuvas fracas.

Estratos ou stratus

São nuvens que cobrem amplas distâncias possuindo um aspecto sedimentado e uma coloração mais ou menos acizentada ao longo de sua base, que pode produzir chuvas, e tem a semelhança de um nevoeiro.

Nimbo-estratos ou nimbostratus

São nuvens sem forma bastante densas com a coloração quase toda de um cinza escuro. Cobre totalmente o sol ou a lua e está associada com chuvas interminentes mais ou menos fortes.

Cúmulos ou cumulus

Possuem uma forma bem contornada e uma base mais ou menos plana. São formadas normalmente após uma frente fria.

Cúmulo-nimbo ou cumulosnimbus

São nuvens bastante densas formadas por cúmulos que se reúnem após a ação dos ventos. Produzem bastante chuva e podem apresentar um comum formato de "bigorna" em seu topo. Aparecem normalmente no verão, no final da tarde e esão associados às frentes frias e eventos meteorológicos perigosos, como tempestades e granizo.



                Minha sugestão é, caso use o néldoracht para ter informações do futuro que não seja o clima, pegue um caderno reservado apenas para a prática e faça suas próprias observações das nuvens, anotando os acontecimentos no decorrer do dia. Comece com uma nuvem por dia, anotando seu tipo, sua forma, sua coloração (vale desenhar também), anote todos os acontecimentos por dia em palavras-chave, e com o passar do tempo, compare as observações com anotações anteriores para ver se correspondem entre si. Para fazer previsões meteorológicas, a experimentação não é necessário, já que a própria ciência nos diz a que tipo de fenômenos meteorológicos cada tipo de nuvem está associada.  

Ornitomancia

                O mito e o folclore irlandês e escocês nos fornece uma boa quantidade de informação sobre esse tipo de divinação. A técnica é atestada sendo usada pelos druidas em um verso atribuído à S. Columba: “Eu não reverencio as vozes dos pássaros, (...) Meu druida é Cristo, o filho de Deus”, e também na obra de Geoffrey Keating, no mesmo trecho mencionado acima:

“Quanto aos druidas, o uso que eles dão para a pele de touros oferecidos em sacrifícios era para mantê-las para o propósito de conjuração ou colocar um geasa em demônios; e muitas são as formas que eles colocam um geasa neles, tal como (...) ou o tagarelar dos pássaros.”  

Enquanto que não há um nome para a técnica em si, há um tratado medieval relacionado com o método, conhecido como “Fiachairecht ocus Dreanacht” (significando rudemente “Augúrio do corvo e augúrio da carriça”), nomeando a adivinhação pelo canto e vôo dos corvos como fiachairecht, e a da carriça como dreanacht. Como o espaço não permite uma cópia integral do texto aqui, algumas passagens que são mais relevantes ilustram bastante bem a técnica:

“Se a carriça cantar no norte, o convidado que está a caminho é querido para você. (...) Se ela cantar entre você e o sol, é a morte de alguém querido para ti, (...) Se ela cantar em teu ouvido esquerdo, terás a união com um jovem de um lugar distante ou dormirá com uma jovem. Se ela cantar atrás de você, tu serás importunado por tua esposa com outro homem. Se ela cantar atrás de ti, no chão, tua esposa será levada à força. (...)” (Augúrio da carriça)

                “Se uma mulher estiver perto da morte, o corvo cantará no travesseiro. Se ele cantar no pé da cama de um homem, seu filho, irmão ou seu enteado virá para a casa. Se ele cantar no depósito onde a comida é mantida, haverá um aumento de comida (...). Se ele cantar com uma voz baixa, que é, érr err ou úr úr, doença se abaterá sobre alguém na casa ou sobre o gado. (...) Se ele cantar sobre uma pedra, notícias de morte (...). Se ele for contigo em uma viagem ou cantar em tua frente, se o canto for alegre, tua jornada será próspera e carne fresca será dada para ti. (...)” (Augúrio do corvo)

                Enquanto que o tratado mostrado acima só mostre a adivinhação através de corvos e carriças, Lady Wilde nos mostra que outros tipos de pássaros também eram observados para fazer presságios sobre as mais diversas causas. Em seu livro “Ancient Legends, Mystic Charms and Superstitions of Ireland”, ela nos dá vários modelos desse tipo de adivinhação com diferentes pássaros, alguns dos quais estão mostrados a seguir:

                “Em uma família irlandesa, um cuco sempre aparece antes de uma morte. Uma senhora que foi visitar uma casa observou uma manhã um cuco empoleirado no peitoril da janela, mas ela não se alarmou pois não havia ninguém doente na família. No dia seguinte, no entanto, um dos filhos foi morto. Ele foi atirado de seu cavalo enquanto caçava e morreu no lugar.” (Ancient Legends etc., Death Signs)

                “Em todas as regiões, há superstições boas ou ruins associadas com certos pássaros. O corvo, por exemplo, no mundo inteiro tem uma reputação de mensageiro do mal e da má sorte. O ganso selvagem pressagiava um inverno severo; o pisco-de-peito-ruivo é considerado sagrado, pois ninguém pensaria em machucar um pássaro que carrega em seu peito a marca sagrada do sangue de Cristo, enquanto que a carriça é caçada até a morte com um intenso e cruel ódio no Dia de S. Estevão.” (Ancient Legends etc., Concerning Birds)

                “A influência do pega não é considerada maligna, apesar de que ver um em uma manhã quando se está indo em uma jornada ser um mau presságio, mas ver mais de um pega simboliza boa fortuna, de acordo com a velha rima: ‘Um para tristeza, dois para alegria, três para casamento e quatro para um nascimento.” (Ancient Legend etc., The Magpie)

                “Se um corvo crocitar em cima de uma casa é um sinal certeiro de morte, pois o corvo é o pássaro do próprio Satanás; assim como o alvéola, (...)” (Ancient Legends etc., The Raven and Water Wagtail)

                Durante a execução do frìth (outra técnica de adivinhação que será vista em maiores detalhes mais para frente), a observação dos pássaros também era importante para a interpretação dos sinais. Alexander Carmichael em sua obra “Carmina Gadelica” diz que na Escócia, ver um pássaro voando era um sinal de boa sorte, especialmente se fosse uma pomba ou um ostraceiro; no entanto, se fosse um corvo, uma gralha ou uma galinha, era presságio de má sorte. Se uma pessoa também visse uma garça-real quando estivesse saindo de casa, ele desistia de sua viagem e voltava, pois a ave pressagiava uma viagem terrível. Carmichael também nos diz que o cisne era um pássaro muito amado que pressagiava boas coisas, especialmente se uma pessoa ouvisse-os pela manhã (especialmente durante uma terça-feira), e ver sete ou múltiplos de sete cisnes voando era um sinal de boa sorte e prosperidade durante os próximos sete anos.

                Pode-se concluir então que os pássaros eram especialmente observados para obter-se presságios sobre vida, morte e outros diversos assuntos. Como “habitantes” do reino do céu (Nem, em irlandês antigo), há uma clara evidência nos mitos e no folclore que considera os pássaros como sendo mensageiros ou mediadores entre humanos e deuses (como Némglan no mito “A Destruição da Hospedaria de Da Derga”, aparecendo para Étaín, avisando-a que o povo do rei viria levá-la embora, e para Conaire, informando-lhe que ele não deveria matar os pássaros por ser um geis dele, ensinando-lhe também seus outros tabus), como a historiadora Annie Loughlinn observa. Enquanto que alguns anunciavam geralmente bons presságios, como o pisco-de-peito-ruivo, a pomba e ostraceiro, outros pressagiavam na maior parte das vezes coisas ruins, relacionadas com morte e doenças, tal como o cuco e o corvo.

Como utilizar a ornitomancia hoje?

                Essa técnica apresenta alguns problemas para utilizarmos no Brasil ou em outras biorregiões diferentes da Irlanda ou Escócia, pelo fato de muitas aves mencionadas no folclore não serem nativas do nosso país. Mantendo a crença dos pássaros sendo os mensageiros e trazedores de presságios e augúrios, podemos observar nossa própria região e fazer um caderno de observações, como sugerido na técnica anterior. Uma observação cuidadosa e estudo sobre as aves nativas de sua região também pode ser importante, assim como conhecer o nosso próprio folclore se tratando dessas aves, que por sinal é bastante rico (sugiro uma leitura do texto “Folclore dos Pássaros”, mencionado na bibliografia), que menciona pássaros como a saracura, cujo canto insistente é um presságio de chuva, o acauã e o urubu que anunciam a morte, a garrincha que dá azar caso for morta e o sabiá e o joão-bobo, que cujo canto também chama a chuva.

Oniromancia

                Embora não tenha chegado até nós um nome dado a técnica, acredito que aisling, a palavra em irlandês antigo para “sonho” ou “visão”, possa ser usada para descrever a técnica, já que a palavra é frequentemente empregada em casos em que uma visão é revelada para alguém através dos sonhos. Sendo assim, o termo aislingthech (“sonhador”) provavelmente pode ser usado para descrever as pessoas que fazem uso da técnica. Há casos na mitologia gaélica que nos mostram que os gaélicos utilizavam os sonhos para fazer previsões sobre o futuro, sendo talvez o mais conhecido o sonho de Eochaid mac Erc, o rei da Irlanda durante a ocupação dos Fír Bolg, que o avisou sobre a chegada dos Tuatha De Danann na Irlanda, como mostrado na seguinte passagem:

                “Quanto à chegada dos Tuatha De Danann na Irlanda, uma visão foi revelada em um sonho para Eochaid, filho de Erc, o alto rei da Irlanda. Ele ponderou sobre o sonho com muita ansiedade, sendo preenchido por maravilha e perplexidade. Ele contou ao seu feiticeiro Cesard a visão que ele tinha tido. ‘Como era a visão?’ perguntou Cesard. ‘Vi uma grande revoada de pássaros pretos,’ disse o rei, ‘vindo das profundezas do oceano. Eles se colocaram acima de nós e lutaram com os irlandeses. Eles nos trouxeram confusão e nos destruíram. Um de nós, eu acho, atingiu o mais nobre dos pássaros e cortou uma de suas asas. E agora, Cesard, emprege sua habilidade e conhecimento e nos diga o significado da visão.’ Cesard assim fez, e através de ritual e do uso de sua ciência, o significado da visão do rei lhe foi revelada, e ele disse:

                ‘Tenho notícias para você: guerreiros estão vindo pelo mar, mil heróis cobrindo o oceano; navios malhados nos pressionarão; eles anunciam todo o tipo de morte, é um povo habilidoso em todas a artes, um feitiço mágico; um espírito maligno virá até você, sinais para te desviar (?); (...) eles serão vitoriosos em toda tensão.’”

                Após uma cuidadosa observação dessa passagem, pode-se notar que a oniromancia era vista como uma ciência por si só, onde rituais também eram empregados para auxiliar na interpretação dos sonhos ou visões. Além dessa passagem da Primeira Batalha de Moytura, há também um conto onde o poeta em treinamento Muirgen, ao viajar em busca de um poeta que conhecia a história do Tain Bó Cualgne, descansa durante a noite no túmulo de Fergus mac Róich. Muirgen faz uma provável oração para Fergus dizendo as razões de sua viagem, e em resposta, Fergus mac Róich lhe conta a história através dos sonhos, que durou três dias e três noites, e quando acordou, Muirgen era capaz de recitar o Tain Bó Cualnge do início ao fim. Esse conto pode ser visto como uma comprovação do comentário do escritor Tertuliano, que apesar de não escrever especificamente sobre os gaélicos, mas sobre os celtas em geral, ele diz que: “os nasamones recebem oráculos especiais ao ficar nos túmulos de seus parentes (...). Os celtas, pela mesma razão, passam a noite perto dos túmulos de seus homens famosos, (...).”

Tal como o néldoracht, a técnica sobreviveu por muitos anos, sendo mencionada no folclore, que nos mostra o significado de alguns sonhos, conforme Lady Wilde registrou em seu livro “Ancient Legends, Mystic Charms and Superstitions of Ireland”, e como podemos observar nesses casos, os sonhos não nos mostram mensageiras inteiramentes literais:

                “Nunca conte seus sonhos enquanto estiver de jejum e sempre conte-os primeiro para uma mulher chamada Maria.
               
               Sonhar com um carro fúnebre com plumas brancas significa casamento, mas sonhar com um casamento significa dor e morte seguirá.

          Sonhar com uma mulher te beijando significa engano, mas se for um homem, é amizade; sonhar com um cavalo é extremamente uma boa sorte.

              Sonhar com um padre é ruim, sendo melhor até mesmo sonhar com o diabo. Lembre-se também que uma compra ou um presente de um padre é de muita má sorte.”

                Essa “proibição” de não contar os sonhos se estiver de jejum (possivelmente no sentindo de acordar e não comer nada antes de contar os sonhos para alguém) é atestada em outros lugares do folclore irlandês, como um informante de Lady Gregory em sua obra “Visions and Beliefs in the West of Ireland” descreve:

                “Não devemos prestar muita atenção aos sonhos, devemos julgar se um sonho é bom ou mau, dizendo “É um bom sonho”; e nós nunca devemos contar um sonho para alguém jejuando; diz-se que se você contar seu sonho para uma árvore enquanto estiver de jejum, a árvore murchará. É melhor sonhar com a ruína de uma pessoa do que com o seu sucesso.”

                Na tradição irlandesa, os sonhos frequentemente podem ser vistos como um intermédio por onde os deuses ou seres do outro mundo nos mandam mensagens, sinais ou visões, como a história de uma mulher, relatada na mesma obra citada acima,  que sonhou que se levantava de sua cama e levava metade de um cobertor com ela até um poço sagrado, onde encontrou uma mulher toda vestida de branco que lhe deu um pouco da água do poço, e quando a mulher deu a água para seu filho que tinha um problema nos olhos, ele melhorou. No dia seguinte, a mulher acordou, foi até o poço e pegou sua água, e ao colocar três gotas no olho do filho, ele melhorou. Da mesma forma, Caer Ibormeith aparece para o deus Óengus em seus sonhos, de certa forma como um pedido de ajuda, pois ao se apaixonar pela donzela e procurar por ela por toda a Irlanda, Óengus a descobre que ela vive acorrentada junta com 150 donzelas que se transformam em cisnes no Samhain.

                Assim como em outros tipos de divinação da tradição gaélica, respostas de assuntos sobre amor e casamento também eram procurados através dos sonhos. Lady Wilde na sua obra “Ancient Legends, etc.”, nos conta que no mês de novembro, uma roca poderia ser colocada no travesseiro de um rapaz para que ele visse a sua futura esposa em seus sonhos, e da mesma forma, se uma garota quisesse ver o seu futuro esposo, ela colhia certas ervas na noite do Samhain e após repetir um certo encantamento para a lua, ela colocava terra em uma meia que era deixada debaixo de seu travesseiro, fazendo com que ela “sonhasse um verdadeiro sonho do homem a quem ela está destinada a se casar e de todo o seu futuro.” Através desses dois relatos podemos imaginar que o Samhain seria uma época ideal para a divinação pelos sonhos, especialmente em casos de amor, ou talvez seja apenas uma parte da natureza do festival sem que tenha uma relação propriamente dita com a oniromancia; qualquer que seja o caso, há também uma tradição do festival onde uma pessoa comia três mordidas, em absoluto silêncio, de um sauty bannock, um tipo de bolinho feito com bastante sal,  antes dela ir para a cama. Como o sal provoca a sede, a pessoa também não poderia beber água, e ao dormir, o (a) futuro (a) esposo (a) viria em seus sonhos e saciaria a sua sede.

                E para concluir, vimos que a oniromancia formava uma parte importante dos sistemas de adivinhação usados pelos antigos gaélicos, com o seu uso sendo atestado nos mitos (que nos mostram que a técnica era uma ciência por si só e que requeria rituais específicos para auxiliar na interpretação dos sonhos) e no folclore que sobreviveu até o dias de hoje, mostrando também uma suposta proibição de não contar os sonhos imediatamente após acordar, sem comer alguma coisa, e que é composto por uma parte considerável de crenças sobre ver o futuro esposo/esposa nos sonhos após a realização de certos “ritos”.

Como utilizar a oniromancia hoje?

                Embora existam fontes que atestam a oniromancia entre os gaélicos, infelizmente há tão poucas informações sobre os sonhos e seus significados dentro da tradição gaélica que é impossível “reconstruir” um sistema de interpretação. Felizmente, a oniromancia não é exclusividade entre os gaélicos e existem diversos livros atuais que são verdadeiros dicionários de interpretação. Apesar disso, manter um pequeno “diário dos sonhos” pode ser uma maneira muito válida de você se lembrar cada vez mais de seus sonhos e fazer as suas próprias interpretações. Uma boa sugestão seria reservar um caderno especialmente para a prática e deixar em cima de seu criado-mudo ao lado da sua cama, e sempre que acordar, anotar os sonhos com o máximo de detalhes possíveis. No início pode se lembrar pouco deles, mas com o passar do tempo, você cada vez mais irá se lembrar de mais detalhes sobre eles. No final da página, você pode colocar palavras-chave relacionadas com o sonho que teve, como “medo de altura”, “morte”, “viagem”, etc. Como os mitos sugerem que existiam certos rituais envolvidos na interpretação, você também pode elaborar rituais específicos para certas divindades que você julgue apropriadas para lhe ajudar no processo de interpretação dos sonhos, como Nemain, que induzia sonhos proféticos nos guerreiros na noite anterior à batalha para que eles pudessem ter premonições sobre sua morte.

Divinação pelo som dos ventos

                Tal como a ornitomancia, a adivinhação pelo som dos ventos não possui um nome específico aplicado para a crença (não que saibamos ainda). Pouquíssimo se sabe sobre tal prática, sendo mencionada na obra do Geoffrey Keating como uma das técnicas que os druidas usavam para obter conhecimento:

“Quanto aos druidas, o uso que eles dão para a pele de touros oferecidos em sacrifícios era para mantê-las para o propósito de conjuração ou colocar um geasa em demônios; e muitas são as formas que eles colocam um geasa neles, tal como (...) ou continuar escutando o som dos ventos.” 

                Sendo essa a única citação que se tem da utilização da técnica pelos antigos gaélicos, mais uma vez, resquícios da técnica são encontradas no folclore. Ronald Blake e Alexander Carmichael colocam que a divinação pelos ventos era utilizada no dia do ano novo (sendo originalmente feito no Samhain, talvez?) ou em outros dias específicos (provavelmente nos Dias Trimestrais ou outro festival “menor”). Ronald Blake então escreve que no dia do ano novo, os homens mais velhos da região observam o vento predominante que o “velho ano” deixou, e através dele, faziam presságios sobre o que este ano traria para o ano novo. Blake cita uma rima tradicional que diz que o vento do sul pressagiava calor e produção pastoral, o vento do norte pressagiava frio e tempestades, o do oeste, abundância de peixes e leite nas vacas, e o do leste, abundância de frutas. Há vestígios de que a prática de observar os ventos também fazia parte do folclore irlandês, e Kevin Danaher observa que a direção dos ventos era observada durante os Dias Trimestrais, e no Samhain em particular, as pessoas observavam a força dos ventos na meia-noite para pressagiar se a próxima estação teria um tempo claro ou tempestuoso.

Podemos concluir que, tal como o néldoracht, é provável que essa divinação seja mais utilizada para fins meteorológicos do que para fins “triviais”, como descobrir o futuro amor, por exemplo, que é presente na ornitomancia. Em uma sociedade que dependia da pecuária, da agricultura e da pesca, faz sentido que tal método seja utilizado para pressagiar coisas para estes fins, já que ventos muito fortes associados com tempestades poderiam destruir totalmente as plantações, assim como interfeririam na pesca, já que obviamente nenhum pescador se aventuraria no mar em uma tempestade, impactando assim na “produção” de peixes.

Como utilizar a divinação pelo som dos ventos hoje?

                Infelizmente, pela pouca informação que se tem disponível e pela mudança dos hábitos de nossa sociedade (muitos de nós não vivem mais em uma sociedade rural), a técnica pode ser hoje desfavorecida em detrimento de outras técnicas mais “apropriadas”. No entanto, se desejar investir na técnica, por ser algo praticamente simples já que vento tem em todos os lugares, eu sugeriria a manutenção de um caderninho reservado para as práticas e começar com a observação baseado nas direções cardeais e anotar os acontecimentos que se seguem para poder fazer uma comparação futuramente.

Divinação pela imagem na água

                Infelizmente, não sabemos nada sobre essa técnica, apenas que ela era utilizada pelos druidas e que consistia em observar a própria imagem na água esperando pelas visões ou provavelmente por respostas para alguma pergunta que havia sido feita, conforme Geoffrey Keating escreveu:

“Quanto aos druidas, o uso que eles dão para a pele de touros oferecidos em sacrifícios era para mantê-las para o propósito de conjuração ou colocar um geasa em demônios; e muitas são as formas que eles colocam um geasa neles, tal como continuar olhando para suas próprias imagens na água (...).”

Como utilizar a técnica hoje?

                Como não sabemos nada sobre a técnica e como era o procedimento realizado, a reconstrução da técnica se torna um pouco difícil. Se quiser se aventurar na “reconstrução”, basta olhar para uma superfície de água e esperar que as imagens venham. Uma sugestão seria fazer algumas oferendas para alguma divindade associada com métodos divinatórios e dizer um encantamento explicando seu propósito. 

Frìtheireachd

                O frìtheireachd ou simplesmente frìth, é uma técnica escocesa cujo objetivo principal é pressagiar sinais para determinado trimestre ou descobrir o paradeiro de uma pessoa ou objeto desaparecido. Enquanto alguns acreditam que a técnica possa ser de origem nórdica devido as origens linguísticas da palavra, outros acreditam que o frìth seja incontestavelmente de origem gaélica, observando os fortes elementos gaélicos e no significado da própria palavra, que em gaélico escocês significa “encontrar”, fazendo uma alusão ao objetivo principal do método que era encontrar algo ou alguém. O frìtheireachd também era conhecido como deuchainn ou diachainn, e apesar de ter uma origem claramente “pagã”, a tradição nos conta que foi Maria e St. Brígida a usarem a técnica pela primeira vez, quando a santa descobriu para Maria o paradeiro de Jesus que até então estava desaparecido. Pelo fato de St. Brígida ter sido a “pioneira” no frìtheireachd, podemos presumir que talvez haja alguma relação com a Brigit pré-cristã com a técnica mencionada, mas nada conclusivo, já que muito pouco de sabe sobre a deusa pré-cristã.

                Felizmente, de todas técnicas de divinação mencionadas nesse texto, o frìth é o que possui maiores informações sobre sua execução e a interpretação de seus sinais. Enquanto que sua execução diverge em alguns aspectos entre autores diferentes, duas condições permanecem em todas as “versões”: que o frìth deve ser feito durante o nascer do sol em uma segunda-feira após um Dia Trimestral (Beltane, Lugnasad, Samain ou Imbolc) e na soleira da porta de sua casa. A historiadora e praticante Annie Loughlin, eu seu artigo bastante completo sobre o frìth (cujo link encontra-se na bibliografia), observa que a partir dessas condições podemos notar a presença da questão da liminalidade na prática: com o momento da aurora não pertecendo ao dia anterior e nem ao dia seguinte, e posicionando-se na soleira da porta de entrada, o frìtheir (aquele que executa o frìth) não está nem dentro nem fora da casa. Além disso, o frìtheir devia jejuar antes de executar a divinação, devia estar descalço e não poderia ter nada em sua cabeça, como chapéu ou algo amarrando o cabelo.

                É importante falar também que o frìth tinha mais chances de sucesso se fosse realizado em terra, e menos chance caso o frìtheir olhasse para um rio, lago ou para o mar. Carmichael explica que isto ocorria pois as fadas tinham mais poder dentro dos corpos aquáticos, e lá, poderiam facilmente interferir nos pensamentos de um homem e frustrar a sua mente e seus desejo.   

                A historiadora McNeill dá um relato sobre uma das versões da forma como o frìth era realizado, escrevendo que o frìtheir levantava-se antes do nascer do sol, jejuando, com os pés descalços e sem nada sobre sua cabeça, ia até a porta de sua casa com os olhos fechados e parava na soleira da porta com as duas mãos nos batentes. O frìtheir então diz um encantamento (que em algumas versões deve ser dito em voz alta, entonados e cantados, e em outras, devia ser dito mentalmente) e imediatamente abre seus olhos e vê o que está diante de si, interpretando os sinais (veja a tabela dos sinais mais abaixo). Em uma outra versão, McNeill diz que o frìtheir dizia “Viva Maria” e caminhava três vezes no sentido horário em sua casa com os olhos fechado e então ia até a porta. Na soleira, ele abre os olhos e fazia uma espécie de binóculos com o indicador e o polegar, fechadava o outro olho, e o que quer que passasse por esse raio de visão era visto como um presságio.

                Sobre estes encantamentos que o frìtheir diz antes da execução do frìth, Annie Loughlin observa que normalmente seguiam uma fórmula “padrão”: ele iniciava-se como uma invocação à “Deus” pedindo-lhe proteção, de certa forma, seguido pela recitação do frìth feito por St. Brígida e Maria para encontrar Jesus desaparecido conforme já foi mencionado, e por último, pedia-se que o frìth tivesse sucesso. Um exemplo que ilustra bem essa observação, e que pode ser facilmente adaptado para uma “versão” politeísta – ou pelo menos servir como inspiração – foi dado por Henderson em sua obra “Survivals in belief among the Celts”, onde ele recorda:

                “Estou indo em teu caminho, ó Deus! Deus esteja diante de mim, Deus esteja atrás de mim, Deus esteja nos meus passos. O encantamento que Maria (a Virgem) fez para seu filho, que Brigit soprou em suas palmas – conhecimento da verdade e sem mentira. Assim como ela encontrou, que eu possa ver a imagem que eu mesmo procuro.”

                Após todo o processo ter sido executado e o frìtheir buscar por sinais – através de seus “binóculos” ou não, ele interpretava o que havia passado pelo seu campo de visão. Além do “objeto” em questão (pessoa ou animal), seu movimento, a direção para onde se movimenta ou olha ou se estiver deitado ou de pé, também era era levado em conta na interpretação dos sinais. Como já disse acima, felizmente temos bastante material de interpretação dos sinais para a técnica do frìtheireachd; estes sinais, conforme resumi na tabela abaixo, são classificados em rathadach (sinais de boa sorte) ou rosadach (sinais de má sorte):

Rathadach
Rosadach
Um homem, especialmente com cabelo castanho
Um homem indo embora
Um homem olhando ou vindo em direção ao frìtheir é um excelente sinal
Um homem deitado indica doença ou a continuação do sofrimento de uma doença
Um homem de pé ou um animal levantando-se indica que a pessoa para a qual o frìth está sendo feito irá se recuperar em breve de sua doença
Um homem cavando a terra significa morte
Uma mulher com cabelo castanho ou preto (cabelo castanho é melhor entre os dois)
Um animal deitado indica morte
Uma mulher de pé é um excelente sinal
Uma mulher de pé indica morte ou um evento desagradável
Uma mulher passando ou vindo em direção ao frìtheir é um sinal neutro
Uma mulher passando não é tão ruim
Um galo olhando ou vindo em direção ao frìtheir é um excelente sinal
Uma mulher loira ou de cabelo ruivo claro
Um pássaro vindo em direção ao frìtheir significa novidades – especialmente uma carta a caminho
Uma mulher de cabelo ruivo escuro é um sinal muito ruim
Um pássaro, especialmente a meio-vôo, é geralmente um bom sinal (com exceções), especialmente um pombo ou cotovia
Uma pardal indica a morte de uma criança
Um pato é um bom sinal para marinheiros, pois significa que eles não serão afogados
Galinhas sem pintinhos, corvos e gralhas são maus sinais, especialmente se estiverem se aproximando do frìtheir
Um cão, um cavalo (exceto um alazão ou um cavalo vermelho), um potro, um bezerro e um cordeiro são todos bons sinais se eles estiverem de frente para o frìtheir
Um corvo significa morte
Uma ovelha, um cordeiro e um bezerro são bons sinais se o frìtheir for viajar, mas somente se estes estiverem olhando para ele
Patos ou galinhas de cabeça baixa indica morte, e quanto mais tempo eles ficarem dessa forma, mais rápida e certeira será a morte
Um porco virado de costas para o frìtheir é um mau sinal, mas se o o porco estiver de frente para o frìtheir é um sinal neutro
Um gato é um mau sinal e indica bruxaria
Um alazão ou um cavalo vermelho significa morte
Um bode é um mau sinau, especialmente se o frìtheir for viajar – a viagem deve ser adiada
Fonte das informações da tabela: Site Tairis, de Annie Loughlinn

Conclui-se então que o frìth é uma técnica que pode ser bastante útil nos dias de hoje pela clareza e quantidade de informações que se tem disponível. Inicialmente, possa ter sido usado para descobrir o paradeiro de alguém desaparecido, como a lenda de sua origem nos conta, mas a tradição associada com a técnica nos mostra que era realizado para fazer augúrios pessoais ou para terceiros, como a interpretação dos sinais nos mostra.

Como fazer o frìth hoje?

                Devido a grande quantidade de material disponível que hoje temos sobre o frìth, a técnica se torna bastante acessível para ser executada nos dias atuais. Annie Loughlin reconstruiu a técnica para um contexto mais “pagão” e que pode ser aplicado nos dias de hoje, e como sua tentativa foi maravilhosamente bem sucedida, vou esboçar resumidamente o passo-a-passo que ela dá em seu artigo “Frìth”, cujo link está disponível na bibliografia:

  1. Inicialmente, a técnica deve ser feita na segunda-feira após algum grande festival. Deixe as oferendas preparadas na noite anterior e certifique-se de que o espaço no seu altar esteja livre e desobstruído para poder caminhar com os olhos fechados. Você precisa estar descalço, com o cabelo solto e sem ornamentos e precisa estar em jejum.
  2. Vá até sua lareira/altar, faça uma oferenda para Brìde/Brigit convidando-a dizendo algo do tipo: “Bem vinda, ó Brìde, saúde para ti, ó Brìde, bênçãos para ti, ó Brìde. Bênção do céu, bênção de nuvens, bênção da terra, bênção de frutos, bênção do mar, bênção dos peixes.” Fique por alguns minutos em contemplação, feche os olhos e pense por alguns minutos o objeto de sua divinação.
  3. Na direção horária, vá até a sua entrada principal ou janela e abra. Enquanto se dirige até lá, diga: “Estou indo em seu caminho, Brìde, Brìde em minha frente, Brìde atrás de mim, Brìde sobre mim, Brìde debaixo de mim, tu, ó Bride, em meu caminho.” Posicione-se na porta/janela, formando um “tubo” com sua mão esquerda, formando um círculo e respirando atrás dele, e depois, levante até seu olho enquanto diz: “O encantamento que Brìde fez, a Rainha soprou através de suas palmas, conhecimento da verdade e sem mentira, assim como ela encontrou, que eu possa encontrar o que busco.” Ao terminar o encantamento, abra seus olho e observe tudo o que passa pelo campo de visão do “tubo”.
  4. Quando terminar, volte para a lareira/altar no sentido horário. Nesse momento, você pode anotar o que viu e refletir um pouco sobre seu simbolismo, tomar o desjejum e/ou fazer mais algumas oferendas de agradecimento para Brìde.

Tenm laida

                O tenm laida  ou teinm laida era uma das três técnicas de divinação usadas pelos antigos fili (poetas) da Irlanda, junto com o imbas forosnai e o dichetal di chennaib, consistindo de três termos técnicos intimamente relacionados entre si. Enquanto que Kuno Meyer traduz o termo como “iluminação (?) da canção”, Francine Nicholson em seu artigo “A visão, o dom dos videntes célticos” diz que a tradução é “mastigando o âmago”, e coloca que este era um método para se obter o conhecimento que aparentemente envolvia a recitação de um encanto enquanto se chupava o polegar, conforme citado nesse maravilhoso artigo da Nora Chadwick, “Imbas forosnai”:

                “É isto o que dava o conhecimento para Finn: sempre que ele colocava seu polegar em sua boca ele cantava através do tenm laida, então qualquer coisa em que ele fosse ignorante era revelada para ele.”

                Além do ato de colocar o dedo na boca e falar o encantamento que revelava o que se estava buscando, é provável que a técnica tenha sido executada pelos poetas com o acompanhamento de oferendas (embora isto não seja presente na mitologia), conforme essa verbete do Glossário de Cormac nos conta:

                “Mas S. Patrício aboliu aquelas três coisas entre os poetas, pois elas eram ritos pagãos (anidan), pois nem o tenm laida nem o imbas forosnai poderiam ser realizados sem o acompanhamento de oferendas pagãs (gin udbairt do deib idal ocaib).”

É mencionado em alguns casos na mitologia, sendo usada pelo guerreiro Finn, como neste exemplo mais conhecido onde ele procura pelo seu criado Derg Corra e o encontra em cima de uma árvore:

                “Seus seguidores então perguntaram para Finn quem era aquele homem na árvore, pois eles não o reconhecia por conta da capa de disfarce que ele usava. Finn então colocou seu polegar em sua boca, e quando o tirou de lá, seu imbas o iluminou, ele cantou um encantamento e disse: ‘É Derg Corra filho de Ua Daigre,’ disse ele, ‘que está na árvore’.

                Além desse caso de Finn, há também um outro exemplo encontrado no Glossário de Cormac, citado pela Nora Chadwick no mesmo artigo mencionado acima, onde Connla mac Tadg encontra o crânio do primeiro cachorro de colo da Irlanda e o leva para o poeta Moen mac Etna para identificá-lo, e este assim o faz através do tenm laida. Ainda em outro caso, quando Finn estava ausente de sua casa, seu bobo Lomna é decapitado e sua cabeça é levada. Quando Finn chega, ele é capaz de identificar o corpo, e colocando seu polegar na boca, “ele cantou através do tenm laido e disse: ‘(...) Este é o corpo de Lomna.’” Essas duas circunstâncias do tenm laida sendo usada para identificar pessoas ou animais mortos, levou o historiador O’Curry a supor que talvez a técnica tenha sido usada como um rito de identificação para pessoas mortas, mas por mais que possa fazer sentido (já que foi mencionada duas vezes na mitologia sendo usada para esse propósito), o tenm laida também era usada para outros fins, como na citação dada acima, quando Finn encontrou seu criado Derg Corra.

                Através dessas informações, sabemos então que o tenm laida era uma técnica de divinação irlandesa usada para descobrir uma informação deconhecida, frequentemente utilizada para encontrar pessoas ou animais. Sua característica principal era colocar o polegar na boca e recitar um encantamento quando tirasse (ou o “encantamento” seria uma poesia inspirada que revelasse a resposta para o que se procura), e também, podemos presumir que a execução da técnica requeria certas oferendas. Além disso, Mary Jones sugeriu que a tradução “mastigando o âmago” possa fazer uma referência à mastigação de avelãs, uma lendária fonte de inspiração. 

Como executar o tenm laida hoje?

                Para reconstruirmos a técnica, precisamos nos lembrar de três pontos chaves na execução do teinm laida: colocar o polegar na boca, dizer um encantamento para a resposta chegar e a realização de sacrifícios/oferendas. Enquanto que acredito que para se usufruir da técnica seja necessário um certo dom ou habilidade para a clarividência, uma sugestão para a reconstrução seria fazer uma oração para alguma divindade apropriada pedindo sua bênção e sucesso na execução do procedimento, explicando também a sua pergunta, seguida por oferendas (avelãs, possivelmente) e por fim, colocar o dedo na boca para ficar, literalmente, chupando o dedo até a resposta chegar!

Ogham ou Fidlanna

Para introduzir resumidamente, o Ogham ou Ogam é um antigo sistema de escrita irlandês, criado historicamente por volta do século I d.C. O alfabeto possui 20 letras conhecidas como feda (plural de fid, “madeira”), organizadas em quatro conjuntos de cinco letras cada conhecidos como aicme, e cada letra possui uma correspondência com uma árvore ou planta irlandesa, como a letra d, de “duir” (carvalho) ou c de “coll” (aveleira). Para uma melhor organização, coloquei os quatro aicmí (plural de aicme) abaixo com suas respectivas letras, e uma imagem em seguida associando as letras com seus respectivos símbolos. Além disso, há um quinto aicme conhecido como forfeda, mas não é muito reconhecido ou utilizado pela maioria dos praticantes por ser de uma origem muito mais tardia ao ogham, e provavelmente, ter sido inventada pelos escribas para adequar os sons do alfabeto latim no alfabeto irlandês, portanto, não será visto aqui.

  1. Aicme Beith, o primeiro aicme, ou “o grupo B”, possuindo as letras b (bétula), l (sorveira), f (amieiro),  s (salgueiro) e n (freixo).
  2. Aicme hÚatha, o segundo aicme, ou “o grupo H”, possuindo as letras h (espinheiro), d (carvalho), t (azevinho), c (aveleira) e q (macieira).
  3. Aicme Muine, o terceiro aicme, ou “o grupo M”, possuindo as letras m (videira), g (hera), ng (giesta), str (abrunheiro) e r (sabugueiro).
  4. Aicme Ailme, o quarto aicme, ou “o grupo A”, a (abeto), o (tojo), u (urze), e (choupo) e i (teixo).


Fonte da imagem: Adaptado do site "Templo de Avalon"

Cada feda, além da árvore que a nomeia, possui associações com outros elementos naturais ou não, como pássaros, ofícios, cores, instrumentos agrícolas, etc. Tomando a letra f como exemplo, podemos ver que ela está associada com o amieiro, com a cor vermelha, com gaivotas, com a poesia e muitas outras associações. Para não me alongar no assunto, sugiro uma lida no artigo “Immram Ogham – Descobrindo o Ogham: Interiorização e Aprendizado” da antropóloga Marina Holderbaum, onde ela dá diversas tabelas resumindo tais associações (o link para o artigo está na bibliografia).

Mitologicamente falando, a invenção da ogham é atribuída à Ogma mac Elatha, considerado o deus da fala, da escrita e da eloquência, durante o reinado do tirano rei Bres mac Elatha. O motivo de sua invenção, segundo o “Tratado de Ogham”, um excerto retirado do texto “Auraicept n-Éces”, foi para que a fala pertencesse aos homens eruditos. A mesma fonte diz que enquanto que o pai do ogham foi Ogma, sua mãe foi a mão ou a faca que Ogma usava para esculpir as letras. Enquanto que o significado da palavra ogham seja debatido por muitos estudiosos, como Mary Jones que sugere que a palavra deriva-se do proto-indo-europeu *ak-, significando “afiado”, (referindo-se à talhadeira usada para esculpir as letras nas pedras ou às facas usadas para esculpir as letras na madeira) o próprio Tratado de Ogham nos conta que a palavra origina-se de og-uaim, significando “perfeita aliteração”, a qual os poetas aplicavam em sua poesia. Segundo a mesma fonte já mencionada, a primeira letra criada por Ogma foi a letra b (bétula), escrevendo-a sete vezes para enviar um aviso para Lugh, dizendo que sua esposa seria levada para a terra das fadas.

Embora não esteja completamente claro que o ogham tenha tido um outro uso além da escrita, especula-se que originalmente ele também possa ter sido usado para fins divinatórios. A primeira fonte que possa dar força à teoria é uma passagem do mito “O Cortejo de Etain”, onde Eochaid manda seu druida Dalan procurar por Etain, após esta ter sido levada por Midir para seus montes encantados:

                “18. Por último, então, o rei Eochaid enviou seu druida em uma tarefa para procurar por Etain; o nome do druida era Dalan. Dalan esteve diante dele naquele dia e seguiu para o oeste, até chegar na montanha que depois ficou conhecida como Slieve Dalan, e lá, ele permaneceu naquela noite. O druida considerou uma coisa dolorosa que Etain ficasse escondida dele por um ano, e portanto, fez três varinhas de teixo, e sobre estas varinhas ele escreveu um ogham; através das chaves de sabedoria que ele tinha e através do ogham, foi revelado para ele que Etain estava no monte encantado de Bri Leith e que Mider tinha levado ela para lá.”

                Além disso, temos um texto conhecido como “A Segunda Visão de Adomnán”, onde é mencionado brevemente uma técnica conhecida como fidlanna, significando “divinação por madeiras” (provavelmente, um tipo de xilomancia), e junto com a passagem relatada acima, podemos supor que se trate de algum tipo de divinação que envolvia peças de madeira, sugerindo assim que o ogham pudesse ter tido realmente usos divinatórios.

                Conclui-se então que, apesar de não termos uma evidência de que o ogham tenha sido indiscutivelmente usado como forma de divinação pelos antigos gaélicos no passado, há duas fontes que comprovem que ele possa ter tido essa função, sendo a técnica possivelmente conhecida como fidlanna, consistindo de pedaços de madeira com as feda escritas para serem usadas para propósitos divinatórios.

Como utilizar o ogham hoje com propósito divinatório (fidlanna)?

                Como dito várias vezes acima, não há prova conclusiva de que o ogham possa ter sido usado como sistema divinatório e nem que o fidlanna mencionado em algumas fontes seja realmente a adivinhação pelo ogham. Por conta disso, não nos restou nenhuma fonte que descreva como o ogham possa ter sido usado no passado, apenas uma sugestão de que ele era desenhado nas madeiras. Há muitas formas de elaborar o seu conjunto de ogham hoje: gravando pedaços médios de madeira com faca ou pirografia (obtendo resultados espetaculares), desenhando as letras em cartas como uma espécie de tarô ou comprando um conjunto de madeira ou cartas já pronto. Já vi também uma solução muito criativa para aqueles que não podem trabalhar com a madeira ou não querem usar as cartas, desenhando com tinta as letras ogham em palitos de sorvete.

                O método para execução é um mistério, e como tal, muitos praticantes fazem suas próprias gnoses para criar uma forma de “tirar” os palitinhos, sendo a mais comum fazer uma pergunta e tirar uma letra de um saquinho e a partir daí, interpretar as respostas. Antes de executar a técnica, oferendas para Ogma seriam apropriadas, assim como orações pedindo-lhe para abençoar sua prática e ajudar na obtenção na resposta que procura, já que ele é o inventor mítico do alfabeto. O “Tratado de Ogham” nos fornece algumas associações e explicações sobre cada letra, no entanto, qualquer tentativa de explicar o que a letra em si está querendo dizer será puramente uma especulação moderna. Assim, recomendo o artigo citado na bibliografia, “Tree Huggers: A Methodology for Crann Ogham Work”, pelas praticantes Kathryn Price NicDhàna e Raven Nic Rhóisín, onde, embasadas em boas fontes históricas, elas tentam “reconstruir” (construir, seria a palavra mais certa) uma metodologia para se trabalhar com o ogham como método divinatório, além de trabalhar seu simbolismo mágico e explorando formas de conexão e conhecimento com cada letra do sistema.

                Como já disse acima, quaisquer tentativas de interpretação de cada letra será puramente especulativa, já que não há nada de concreto sobre o significado de cada fid. No entanto, muitos praticantes desenvolveram alguns trabalhos sérios e embasados sobre tais significados, e a partir do trabalho do praticante Osvaldo Feres e da estudiosa e escritora Morgan Daimler, fiz esta tabela para auxiliá-los na interpretação do resultado de uma “jogada” de ogham e também para comparar as interpretações dadas por cada um para que você talvez possa criar as suas próprias:

Feda
Interpretações de Osvaldo Feres
Interpretações de Morgan Daimler
B
Purificação, renovação e recomeços
Novos inícios, limpeza e proteção
L
Prosperidade, visão e sustento
Encantamento, misticismo, proteção contra magia
F
Proteção, guardar e isolamento
Ajuda, proteção contra ataque. Associada com corvos e divinação
S
Intuição, soberania e intoxicação
Cura, fazer planos, mudanças
N
Feminilidade, união e paz
Paz, criação, estabilidade, caminho livre, união de coisas
H
Obstáculo, medo, bloqueio
Desconhecido, medo do invisível, transição
D
Força, estabilidade, habilidade
Sabedoria, força, proteção e crescimento
T
Criatividade, inteligência e tecnologia
Luta, disputa, armas, fogo e artes do ferreiro
C
Sabedoria, conhecimento e inspiração
Divinação, magia, encantamento, sabedoria e riqueza
Q
Perdas, incompreenção e esconderijos
Cura, restauração, renovação, nutrição
M
Comunicação, sacrifício e trabalho
Libertação, compromissos, foco, determinação, confronto, vingança
G
Crescimento, colheita e abundância
Beleza, amor, amizade e fidelidade
NG
Saúde, regeneração e solução
Separação, atenção, coragem, ação direta
STR
Mistério, magia e perigo
Discernimento, sabedoria, proteção focada, espinho, força interior, limites
R
Raiva, vergonha e impulsividade
Raiva, embaraçamento, fins, finalização, ser realista a fim de ter sucesso
A
Nascimento, gestação, iniciação
Trabalho duro, esforço, necessidade de cautela, integridade e bom julgamento
O
Caminhos, mudança e viagem
Ter ação, movimento, sucesso, perseverança e alívio
U
Morte, conclusão e corpo físico
Abraçar seus talentos, plante agora para colher mais tarde, esforços trazem recompenças com paciência
E
Amizade, relacionamento e discernimento
Fins, morte, deixar ir embora o que já superastes, consideração calma, confiança em sua habilidade para suportar
I
Experiência, tradição e idade
Buscar experiência, saber quando agir e não agir, esperar o seu tempo e não fugir dos problemas
Fonte das informações da tabela: Blogs “Living Liminally” e “Ogham – Oráculo dos Druidas”
  
Silinnenaith

                O silinnenaith, traduzido por Francine Nicholson como “augúrio do osso de ovelha”, foi uma técnica de divinação praticada na Irlanda e na Escócia, usando um osso de ovelha. Ela aparece nos registros pela primeira vez sendo descrita por Robert Kirk, na Escócia, como sendo uma prática usada por “videntes menores” para prever eventos futuros, diagnosticar certas doenças do gado e adquirir uma maneira de curá-las:

                “(...) o osso do ombro de uma ovelha, no qual uma faca nunca tenha se aproximado, pois (...) o ferro impede todas as operações daqueles que trabalham nas intrigas daqueles domínios ocultos. Essa ciência é chamada de silinnenaith.”

                “(...) Ao olhar para o osso, eles irão te contar se a devassidão é feita na casa de alguém, quanto de dinheiro o mestre de uma ovelha tem, se alguém morrerá naquela casa aquele mês, se o gado pegará uma doença (...). Então eles prescreverão um preservativo e a prevenção.”

                Trezentos anos mais tarde, temos um outro registro descrevendo possivelmente a mesma técnica em um conto de fadas da região de Munster, registrado por Jeremiah Curtin, onde um pai moribundo dá as orientações para seu filho sobre como obter o osso de ovelha para utilizar a técnica. Enquanto que este registro dá mais detalhes sobre como o método era feito, seu uso aparentemente se restringe apenas à cura:

                “Saia durante a noite, mate uma ovelha e a cozinhe, deixe o ombro direito tão limpo quanto qualquer osso sem carne, e a noite, olhe sobre o osso, e na terceira vez em que olhar, verás qualquer pessoa que sabes que está morto. Tenha sempre o osso com você e durma com ele, e o que você quiser saber sobre como curar qualquer doença virá do osso para ti. Quando uma pessoa precisar ser curada de um golpe das fadas, olhe sobre o osso e um mensageiro das fadas virá até você, e você será capaz de curar aqueles que vem até ti.”

                Francine Nicholson observa que a técnica possa ser uma reminiscência de um método muito mais antigo, onde um animal era sacrificado e seus ossos eram usados para fins divinatórios, fazendo uma alusão aos videntes gauleses que sacrificavam uma vítima e faziam presságios baseados em suas entranhas e espamos na hora do abate.

                Com as informações acima, podemos concluir que o silinnenaith era o tipo de augúrio que utilizava o osso do ombro direito de uma ovelha para adivinhar as coisas e obter o conhecimento necessário para curar qualquer doença do gado ou de humanos. A tradição irlandesa nos conta que a ovelha deveria ser abatida à noite e cozinhada para deixar o osso limpo e sem vestígios de carne, e a tradição escocesa nos diz que o ferro não deveria ser usado devido à uma proibição comum encontrada em outros contos folclóricos por conta da aversão das fadas ao material, já que segundo os trechos citados acima, o conhecimento do osso vinha diretamente de um “mensageiro das fadas”. Após a limpeza do osso, ele poderia ser usado durante a noite olhado três vezes sobre ele, sendo na terceira vez que as visões viriam – seja ela de pessoas mortas, respostas para alguma pergunta ou o conhecimento para curar determinada doença.

Como utilizar o silinnenaith hoje?

                Esta técnica pode ser um pouco problemática de ser usada nos dias de hoje, especialmente para aqueles de nós que vivem em cidades, e sendo assim, outras técnicas mais acessíveis podem ser usadas e podem ser também tão eficazes quanto esta.

Fír Flatha

                As Fír Flatha, ou as “Provações irlandesas”, eram doze métodos através dos quais os antigos gaélicos descobriam se uma pessoa falava a verdade ou a mentira. Fiquei um pouco em dúvida se seria apropriado colocá-las aqui ou não pelo fato de ter um teor fortemente jurídico, onde uma pessoa era acusada de um crime e deveria passar por uma das provações para provar sua inocência, mas por se tratarem de formas de se conseguir determinada informação (a verdade ou a mentira, no caso) através de métodos não convencionais, acredito que se tratem de métodos de adivinhação. Por serem de grande número e cada uma ter uma certa história por trás, o espaço aqui não permite uma discussão sobre todas as provações, e sendo assim, só explicarei individualmente as mais relevantes:

1.       Tal Mochtai, ou o “Machado de Mochta”, era um machado de bronze que pertencia à Mocha, o Feitor, e que era deixado acalorar em uma fogueira feita com madeira de espinheiro-negro. A língua do acusado era passado sobre o bronze quente, e caso fosse inocente, sua língua não queimaria.
2.       Cranncur Senachai, ou o “Lançamento de Lote de Sencha”, consistia em dois lotes (um correspondendo ao rei, e o outro, ao acusado) sendo jogados em uma fogueira após o encantamento de um poeta ser dito sobre eles. Se o acusado fosse inocente, o seu lote correspondente não tocaria em sua mão (que era colocado sobre a fogueira), mas se fosse culpado, o lote bateria em sua palma. Esse “lote” provavelmente pode ter sido um pedaço de madeira ou graveto, como seu nome cranncur sugere, já que crann é a palavra em irlandês antigo para “árvore”.
3.       Tre-lia Mothair, ou as “Três Pedras Negras”, referindo-se às três pedras (uma pedra, uma branca e uma malhada) que era colocada em um balde cheio de lama e carvão. O acusado colocava sua mão no balde e pegava uma pedra; se ele pegasse a pedra branca, ele era inocente das acusações, se pegase a pedra preta, ele era culpado, e se pegasse a pedra malhada, ele era meio culpado.
4.       Coiri Fír, ou o “Caldeirão da Verdade”, sendo um caldeirão de ouro e prata no qual era colocado água para ferver. A mão do acusado era então colocada sobre a água fervente, e se ele fosse inocente, sua mão ficaria intacta; caso contrário, sua mão escaldaria.
5.       Seancrann Sin, ou o “Velho Lote de Sen”, que consistia em arremessar três lotes na água: um correspondendo à um senhor, o outro à um poeta e o último, ao acusado. Se o acusado fosse culpado, o seu lote correspondente afundaria; caso contrário, o lote boiaria. Tal como o Cranncur Senachai, o lote mencionado aqui pode ter sido um pedaço de madeira ou graveto.
6.       Iarnn Luchta, ou o “Ferro de Luchta”, era semelhante ao Tal Mochtai. Um ferro era consagrado pelos feiticeiros e era colocado no fogo até ficar em brasa, e depois, era colocado na mão do acusado. Se ele fosse culpado, o ferro queimaria a sua mão.

Podemos ver então que as Provações irlandesas eram formas dos antigos irlandeses descobrirem se uma pessoa falava a verdade ou a mentira, através de métodos não convencionais, se tratando assim, de processos divinatórios (de certa forma). Consistindo em sua grande maioria de métodos brutais e cruais, é desnecessário dizer que muitos não são de forma alguma aplicáveis aos dias de hoje, ou ainda, há outra provações que fazem uso de objetos míticos (como a Taça de Cormac, o Recipiente de Badurn e os três colares de Morann Mac Main, que não foram listado aqui), e sendo assim, ainda mais impossíveis. No entanto, o Seancrann Sin e o Tre-lia Mothair são métodos que podem ser razoavelmente aplicados aos nossos dias, como veremos agora.

Como utilizar as Provações irlandesas no dia de hoje?

                O Tre-lia mothair, embora idealmente pudesse ser facilmente utilizado nos dias de hoje, ele requeria a participação da pessoa acusada de proferir uma mentira, o que certamente não aconteceria. No entanto, o método pode ser adaptado para ser usado sem a pessoa, onde o vidente perguntaria se determinada pessoa era inocente, culpado ou meio culpado, e a seguir, colocava sua mão em um balde cheio de lama e carvão e tiraria de lá uma das três pedras colocadas. A pedra preta indicava que a pessoa era culpada ou falava a mentira, a pedra branca, que era inocente ou falava a verdade, e a pedra malhada, que a pessoa era meio culpada ou falava meia verdade.

                O Seanncrann Sin, por outro lado, é de fácil utilização. Seria necessário três pedaços de madeira, sendo um deles simbolizando a pessoa acusada ou mentirosa. Após fazer uma declaração do acontecimento, o vidente jogaria os gravetos na água e saberia então se a pessoa acusada era mentirosa (se o seu graveto correspondente afundasse) ou se falava a verdade (se o graveto boiasse).

                Os outros, a não ser que você queira queimar a língua, escaldar ou carbonizar a mão de uma pessoa, os métodos são claramente inviáveis.

Dichetal di chennaib

                O dichetal di chennaib (ou dichetal do chennaib) é frequentemente encontrado junto com o teinm laida e o imbas forosnai, sendo mencionado como uma das três habilidades poéticas/divinatórias que os fili (poetas) precisavam dominar para alcançar o mais alto nível dentro da hierarquia dos poetas irlandeses, e de acordo com o linguista Thurneysen, o fili aprendia o dichetal di chennaib no oitavo ano de seu treinamento, junto com as outras duas técnicas já mencionadas. A tradução do termo ainda não é completamente clara, sendo traduzido como “cantando pelas pontas” pela estudiosa Francine Nicholson, como “encantamento improvisado” por Whitley Stokes, ou ainda, “recitando da cabeça”, conforme traduzido pelo site “Story Archaeology”. Ainda sobre a tradução do termo, Nora Chadwick observa que a técnica foi escrita como dicetul do chollaib cend, e escreve que a tradução para este termo seria “cantar através das aveleiras da profecia”, podendo fazer uma alusão às avelãs – presentes na tradição irlandesa como o fruto do conhecimento.

                O termo e a técnica são bastante obscuros, já que não chegou até nós nada que diga sobre como este método era executado; no entanto, o site mencionado acima, “Story Archaelogy” faz um interessante comentário, explicando que a técnica envolvia a criação de uma poesia métrica improvisada (explicando duas das traduções “recitando da cabeça” ou “encantamento improvisado”). Além disso, o Dictionary of Irish Language (eDil, “Dicionário de língua irlandesa”), explicou a verbete “dichetal” como:

“(...) espécie de encantamento poético que era composto improvisadamente (implicando divinação?) (o dichetal di ch, era provavelmente um tipo de clarividência ou psicometria onde o vidente transmitia sua visão ou mensagem em um verso ou estrofe.”

                O Glossário de Cormac também nos dá algum vislumbre do que a técnica possa ter sido no passado, dizendo que o dichetal di chennaib não foi abolido por S. Patrício (como foram o imbas forosnai e o teinm laida) pois não requeria sacrifícios e era utilizado para buscar o conhecimento. Há também uma sugestão de que ossos tenham sido envolvidos no processo:

                “(...) Mas o dichetal di chennaib foi deixado no sistema da arte, pois é o conhecimento (soas) que está por trás. O díchetal di chennaib não querer o sacrifício para demônios; ao invés disso, a informação é instantaneamente obtida a partir das pontas de ossos”.

          Com as informações acima, podemos sugerir que o dichetal di chennaib foi uma técnica utilizada com a finalidade de obter respostas para alguma pergunta feita, e estas respostas possivelmente eram dadas através de estrofes ou versos compostos na hora, improvisadamente, como seu nome sugere. Sabemos que a técnica não requeria a feitura de oferendas e há uma sugestão de que ossos eram envolvidos no processo.

Como utilizar o dichetal di chennaib hoje?

Como não sabemos exatamente o que acontecia e como era feito o processo, a reconstrução dessa técnica se torna, de certa forma, inviável.

Imbas forosnai

                Como já foi mencionado nas técnicas anteriores, o imbas forosnai era uma das três técnicas, junto com o dichetal di chennaib e o teinm laida, que o fili precisava aprender no oitavo ano de seu treinamento para atingir o nível máximo dentro da hierarquia dos poetas. Segundo a literatura a cerca do tema, o imbas forosnai era a técnica usada pelos poetas (e em outras fontes, por videntes também) para descobrir a resposta de uma pergunta que não poderia ser obtida através de meios comuns. Whitley Stokes traduziu o termo como “manifestação que ilumina”, enquanto Kuno Meyer traduziu como “conhecimento que ilumina”, que é a tradução que estou mais propenso a acreditar como a mais “adequada”.

                Na mitologia, o imbas forosnai é mencionado como sendo utilizado pela poetisa Feidelm (ou Fedelm) quando Medb a encontra e lhe pede para profetizar o resultado da batalha do Táin Bó Cualnge. Feidelm diz ter aprendido a arte em Albion, e ao responder Medb, ela profetiza que as tropas da batalha ficariam “vermelhas”, isto é, cobertas de sangue:

                “Quando o cocheiro virou a biga e eles estavam prestes a descer, viram em sua frente uma donzela já crescida. (...) ‘Qual é o seu nome,’ perguntou Medb para a donzela. ‘Eu sou Feidelm, a poetisa de Connacht,’ disse ela. ‘De onde vens?’ perguntou Medb. ‘Venho de Albion após aprender a arte da divinatação,’ respondeu a donzela. ‘Tu tens o poder da profecia conhecido como imbas forosna?’ ‘De fato, tenho’, disse a donzela. ‘Olhe para mim então e me diga o que acontecerá com minha tropa.’ A donzela olhou e Medb disse: ‘O Profetiza Feidelm, como você vê o destino do meu exército?’ Feidelm respondeu dizendo: ‘Eu o vejo ensanguentado, eu o vejo vermelho.’”

             Além de algumas citações nas histórias de Finn e dos fianna, o imbas forosnai também foi mencionado como sendo utilizado por Scáthach quando esta faz uma profecia sobre o futuro do guerreiro, no texto conhecido como “As Palavras de Scáthach”:

                “Aqui começa as palavras de Scáthach para Cu Chulainn quando eles estavam se separando nas partes orientais quando Cu Chulainn tinha completado o curso completo de seu treinamento militar com Scáthach. Scáthach então previu para ele o que aconteceria consigo e lhe falou de seu fim através do imbas forosnai. (...)” 

        Enquanto que esse relato não nos diz nada sobre como o imbas forosnai era executado, o Glossário de Cormac nos dá um relato completo do procedimento e do passo-a-passo de como era feito:

                “Imbas forosna, ‘manifestação que ilumina’: ele descobria qualquer coisa que o poeta quisesse e que ele desejasse revelar. Era feito assim: o poeta mastigava um pedaço de carne crua de um porco, de um cão ou de um gato, o colocava em uma pedra atrás da porta e cantava um encantamento sobre ele, oferecendo ao deuses ídolos e os chamando para que eles não o abandonassem até a manhã, e então cantava sobre suas duas palmas e novamente chamava os deuses ídolos, para que seu sono não fosse perturbado. Ele então coloca suas duas palmas em suas duas bochechas e dorme. Homens o observam para que ele não se vire e que ninguém o perturbe. Então é revelado a ele o que ele procurava até o final de um nómad (três dias e noites), ou dois ou três pelo longo ou curto tempo que ele julgue estar na oferenda. E por isso é chamado de Imm-bas, a saber, uma palma (bas) nesse lado e uma plam ao redor da cabeça. Patrício baniu esta e o Tenm láida ‘iluminação da canção’, e declarou que ninguém o fizesse pertencia ao céu ou a terra, pois é uma negação do batismo.”

Não fica muito claro se o poeta/vidente dormia durante três dias e três noites, o que é bastante improvável, ou se dormia durante uma única noite e a informação lhe era revelada em até três dias; além disso, como essa informação era revelada é desconhecido para nós. Da mesma forma, não se sabe exatamente e não existe nenhuma especulação sobre o porquê da oferta e da necessidade da mastigação da carne de porco, cão ou gato.  Através do relato acima, podemos traçar um esboço seguro da execução do imbas forosnai:

  1. O vidente/poeta mastiga a carne crua de um cão, porco ou gato;
  2. O vidente/poeta cospe a carne em uma pedra que deverá ficar atrás de uma porta (provavelmente a porta para o cômodo na qual ele se deitará posteriormente);
  3. O vidente/poeta oferecia essa carne para os deuses (ou faziam outras oferendas), cantava um encantamento sobre ela e chamava os deuses pedindo-lhes para que eles não o abandonassem até o dia seguinte;
  4. O vidente/poeta cantava (outro encantamento, possivelmente) sobre suas duas palmas e orava novamente para os deuses, pedindo-lhes para que ninguém o perturbe durante o procedimento;
  5. O vidente/poeta colocava as mãos em suas bochechas e dormia até o dia seguinte;
  6. A informação lhe seria revelada em até três dias.

Com tudo isso, podemos concluir que o imbas forosnai era a técnica utilizada pelos poetas e videntes para divinar sobre determinado assunto (contrariando, de certa forma, a crença popular de que o imbas forosnai era, na verdade, uma maneira de se obter inspiração, pensamento que talvez tenha se originado pelo fato de serem mencionados os poetas a utilizarem a técnica). O imbas foi mencionado amplamente na mitologia, e um relato completo do Glossário de Cormac nos mostra um “passo-a-passo”, incluindo temas comuns à outras práticas mânticas utilizadas pelos gaélicos: como o chamado aos deuses para auxiliar no processo mântico e as oferendas para os deuses.

Como utilizar o imbas forosnai hoje?

              A execução do imbas forosnai aqui é a sugerida pelo Michael J. Meehan em seu maravilhoso texto “A Protocol for Imbas Forosnai” (cujo link deixei na bibliografia). Primeiro de tudo, lembre-se que demorava anos para dominar essa técnica na Irlanda antiga, então um conhecimento aprofundado do contexto irlandês, da mitologia e da prática é fundamental para o sucesso da mesma. Michael escreveu o “protocolo”, como ele chama, para ser feito em grupo, e recomenda que não tente fazer o ritual sozinho. Como o espaço não permite um esboço detalhado do método de Michael, por ser muito grande, vou apenas resumir o procedimento que ele executa:
  1. O vidente mastiga um pedaço de carne de porco crua;
  2. O vidente coloca essa carne mastigada em uma pedra atrás da porta;
  3. O vidente diz orações e canta sobre esse pedaço de carne;
  4. O vidente oferece o pedaço de carne aos Deuses e os “chama”;
  5. O vidente canta sobre as palmas de suas mãos;
  6. O vidente chama novamente os Deuses
  7. O vidente coloca as palmas de suas mãos em suas bochechas e dorme ou entra em transe enquanto outras pessoas o vigiam.

Para que possas ver o procedimento completo junto com as orações que ele usa, eu recomendo que dê uma olhada no artigo de Michael que já citei e disponibilizei o link na bibliografia.

Tarbhfeis

           O tarbhfeis, traduzido como “Festa do Touro”, era uma prática mântica usada majoritariamente para eleger o novo rei da Irlanda. Resumidamente, a técnica consistia no sacrifício de um touro e um homem comia sua carne e bebia seu “caldo” (ou seja, seu sangue), sendo colocado posteriormente para dormir e quatro druidas cantavam feitiços da verdade para que aquele homem, quando acordasse, falasse a verdade sobre a pessoa que ele viu em seus sonhos, que consequentemente seria o novo rei. Essa passagem do mito “A destruição da hospedaria de Da Derga”, quando o rei Eterscéle morre e um personagem sobrenatural aparece para Conaire avisando-lhe para ir até Tara, descreve resumidamente bem a prática:

                “‘Vá para Tara esta noite,’ disse Némglan, ‘isto é adequado para ti. Uma festa do touro está acontecendo lá e através dela tu serás rei.’ Então o rei Eterscéle morreu. Uma festa do touro foi organizada pelos homens da Irlanda a fim de determinar o seu futuro rei, isto é, um touro era morto por eles e um homem comia sua carne e bebia seu caldo, e um feitiço da verdade era cantado sobre ele em sua cama. Quem quer que fosse o homem que ele visse em seu sonho seria o rei, e o sonhador morreria se mentisse. (...) O festeiro-do-touro, em seu sono, no final da noite viu um homem nu, passando pela estrada de Tara, com uma pedra em sua funda.”

         Alternativamente, temos também uma outra passagem no mito “O leito de Cuchulainn e o único ciúme de Emer”, que nos mostra algumas pequenas diferenças, explicando que o homem dormia debaixo da pele do touro e especifica que este touro deveria ser branco:

                “Lá então foi preparada uma festa-do-touro para que eles descobrissem através dela quem eles deveriam dar a soberania. A festa-do-touro foi preparada dessa forma: um touro branco foi morto, um homem comeu sua carne e seu caldo, ele dormiu debaixo daquela refeição e um encantamento da verdade foi pronunciado sobre ele por quatro druidas, e ele viu em um sonho a silhueta de um homem que deveria ser rei, assim como sua aparência, sua descrição e o tipo de trabalho que ele fazia. O homem despertou de seu sono e descreveu o que viu para os reis (...).”

              Apesar desta prática aparecer nos mitos, a estudiosa Francine Nicholson diz que pode refletir em uma prática real que era feita, tal como Geoffrey Keating a descreve em sua “History of Ireland”; além disso, há uma menção à “sebes redondas de sorveira” (guirlandas, talvez?) sendo espalhadas sobre a pele do touro. Curiosamente, Geoffrey não descreve a prática sendo utilizada para descobrir quem seria o novo rei da Irlanda, mas uma prática usada para obter o conhecimento no geral:

                “Quanto aos druidas, o uso que davam às peles de touros oferecidos em sacrifício era para guardá-las para o propósito de fazer conjurações, (...) mas quando todas estas coisas falhavam, eles eram obrigados a fazer o extremo, que era, fazer sebes redondas de sorveira e espalhá-las sobre o touro oferecido em sacrifício, deixado o lado que estava dentro da pele para cima, e assim, contando com seu geasa para convocar os demônios para obter a informação deles, assim como o mágico faz no circo nos dias de hoje (...)”

               Um outro texto do mito “A Batalha de Findchorad” nos conta mais algumas particularidades da técnica. Assim como Keating descreve na citação acima, este parágrafo não faz menção ao tarbhfeis sendo utilizado como método para descobrir o novo rei, mas para se obter o conhecimento de outros assuntos (no caso mencionado, para dar conselhos bélicos para Ailil e Medb), e curiosamente, a passagem diz que carne de cães, porcos e gatos eram oferecidos em sacrifício antes da realização da prática (ecoando talvez no procedimento do imbas forosnai):

                “Então os quatro Quintos da Irlanda estavam em Findchorad em volta de Ailill, Medb e Eochaid mac Luchta, esperando lutar contra Conchobar e Ulster, e pediram conselhos sobre como eles deveriam batalhar. Os druidas então foram até seu conhecimento e aprendizado (...). Eles ofereceram sacrifícios para Marte, Osíris, Júpiter e Apolo. Estes eram os sacrifícios que eles ofereciam: a carne de cães, porcos e gatos. Posteriormente, eles entravam nas peles de touros velho e carecas e em barreiras de sorveira, e suas faces eram viradas em direção ao Inferno. Os deuses a quem eles sacrificaram lhes disseram para trazer o Touro Marrom de Cooley e o Touro de Chifre Branco para começar uma briga. (...)”

           Conclui-se então que o tarbhfeis era o método com o qual os irlandeses antigos provavelmente escolhiam seu rei, confiando na informação de um vidente que vislumbrava o seu novo rei em seus sonhos, após comer a carne e beber o sangue de um touro oferecido em sacrifício. Em outros relatos, diz-se que o vidente dormia dentro da pele do touro e “sebes de sorveira” eram espalhadas sobre essa pele, e há também menção de sacrifícios de pele de gatos, cães e porcos sendo feitos antes da técnica ser executada. Embora apareça com mais frequência sendo utilizada para descobrir o novo rei, também há evidências de que a técnica era usada para obter conhecimento de outros assuntos.

Como utilizar o tarbhfeis hoje?

                A não ser que você viva na Irlanda antiga, esta técnica é inviável.

Bibliografia

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