quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O deus Manannan mac Lir

MANANNAN MAC LIR
Deus do mar e do outro mundo

Fonte da imagem desconhecida.

“ ‘Que tipo de homem fada andarilho és tu, pregando peças em um pobre homem que nunca lhe fez mal?’ perguntou o pastor de ovelhas. (...) Uma voz suave lhe responde: ‘Quem seria, senão o Rei dos Andarilhos, viajando pela terra e pregando agradáveis peças em pessoas iguais a ti para me divertir?’ ”

                Escrevo mais um capítulo para continuar essa série de deuses gaélicos, que dessa vez se destinará ao deus conhecido como Manannan mac Lir. Aproveitando a solução que usei no texto sobre a deusa Morrígan, esse capítulo não será apenas sobre Manannan, mas também à outras divindades ligadas a ele, que embora a escassez de materiais sobre tais não permita capítulos individuais, são dignos de serem mencionados por se tratar de deidades, acredito, importantes. Sendo assim, esse capítulo também falará sobre Fand, a esposa de Manannan, Lir, seu pai, e Lí Ban, irmã de Fand, que apesar de não ter vínculos tão diretos com Manannan, está dentro de seu domínio “aquático”.


                Manannan mac Lir (pronuncia-se menénen mek lear) é a divindade mais misteriosa e indecifrável do panteão gaélico. Sendo descrito como o filho do próprio mar, ele as vezes aparece como um bobo desafiador ou como um sábio feiticeiro. Membro dos Tuatha De Danann1 e chamado de “Rei dos Andarilhos”, ele é o deus que anda para lá e cá – ajudando, desafiando ou protegendo. Ele é o rei das ilhas abençoadas do ocidente, o “paraíso” dos gaélicos e morada sobrenatural de alguns de seus deuses, e de tão grande que era seu poder e sua perícia nas artes mágicas, sua fama perdurou por todos os países gaélicos, em especial na Ilha de Man, onde suas histórias e feitos são contados até os dias de hoje.

                O mistério de Manannan já começa com seu nome, cuja etimologia até hoje nunca conseguiu ser decifrada satisfatoriamente por nenhum linguista, mas, há especulações. A estudiosa Mary Jones sugere que seu nome possa ter se originado de sua “morada”, a Ilha de Man, significando algo como “Ele da Ilha de Man”, ou o contrário, com Manannan dando seu nome à sua ilha. Seu patronímico “mac Lir” significa “o filho de Lir” ou “o filho do Mar”, já que Lir é uma das palavras irlandesas para mar, e dentro da mitologia, Lir é visto como seu pai (esse tema será melhor explicado posteriormente). Algumas fontes irlandesas colocam que antes dele ser chamado de Manannan, ele era conhecido como Orbsen, cuja etimologia também é desconhecida, e também foi identificado com um personagem grotesco conhecido como Bodach, o “Velho”. Na Ilha de Man ele foi conhecido como Manannan mac y Leirr (“Manannan filho de Leirr/Mar”) ou Manannan Beg mac y Leirr (“Pequeno Manannan filho de Leirr/Mar”). Na própria ilha, encontramos também Managhan Beg em alguns topônimos, e por vezes ele é chamado de Maninagh (“O manês/Nativo de Man”). Encontramos uma abundância de títulos e epítetos também na Ilha de Man, incluindo “Manannan o Ree” (cujo significado é desconhecido), “O Velho Rei” (por ele ter sido o primeiro rei da Ilha de Man), “Rei dos Andarilhos”, “Amigo dos Navegantes”, “Grande Companheiro Esfarrapado”, “Manannan das Chamas” (provavelmente em alusão às fogueiras acesas em sua homenagem no solstício de verão, como estudaremos melhor mais adiante) ou simplesmente como “Ele”, mostrando talvez um receio do povo manês em dizer seu nome seja para evitar chamar sua atenção ou como uma forma de mostrar respeito. O Lebor Gabála Érenn, o Livro das Invasões2, faz uma menção à “Manannan da Baía” e “Manannan do Rico Tesouro” (podendo ser uma referência aos seus vários artefatos encantados, como veremos abaixo), nos Métricos Dindshenchas3 encontramos o “Gracioso Manannan” e no mito ‘A nutrição da casa dos dois baldes de leite’ Manannan é chamado de “Poderoso Monarca” e “Onipotente Manannan”. Na Escócia, provavelmente ele foi conhecido como Shony, mas como o nome é derivado de Seónaidh, o gaélico para “St. João”, que por sua vez está relacionado com S. Bannan (cujo nome parece ser uma corrupção de “Manannan”), não é apropriado para a prática reconstrucionista. Aproveitando o parágrafo, é importante lembrar que a grafia “Manannan mac Llŷr”, como escrita por muitos, é incorreta. Apesar de Llŷr ser o “correspondente” de seu pai Lir no País de Gales, estamos falando de dois grupos linguísticos distintos e pouco se pode dizer das semelhanças entre o Manannan mac Lir irlandês e o Manawyddan fab Llŷr galês, o seu “correspondente”. Sendo assim, ao se tratar de uma deidade irlandesa, estamos nos referindo à Manannan mac Lir, e a junção do nome irlandês com o patronímico galês é errada.

                A primeira e mais conhecida visão que se tem de Manannan mac Lir é dele sendo o deus do mar. As fontes não atestam o contrário, já que em muitos lugares o vemos como tendo uma relação direta com o mar e com elementos marítimos, ou pelo menos, com elementos aquáticos, como criando lagos. O texto medieval conhecido como Cóir Anmann, ou A Propriedade dos Nomes4, diz que os irlandeses o consideravam como o deus do mar, e por isso, ele era chamado de “mac Lir” (o Filho do Mar); Lir, uma divindade um pouco obscura que será abordado melhor na outra parte deste texto, é considerado ser uma divindade mais antiga que Manannan e que personifica o próprio mar, sendo seu próprio nome traduzido como tal. Na mitologia, Manannan aparece algumas vezes em seu próprio domínio, como quando ele se mostra para Bran após este ter estado bastante tempo no mar procurando pelo outro mundo, após o um convite de uma misteriosa mulher sobrenatural. Manannan aparece para ele, cantando uma descrição de suas ilhas – que enquanto Bran parecia ver apenas as ondas do mar, Manannan via vários campos e florestas. Em outro episódio, quando é relatado para Manannan que sua esposa Fand estava tendo relações com o herói Cuchulain, o deus vai até sua esposa para recuperá-la, e Fand ao ver, canta uma canção dizendo que Manannan está vindo do mar ao seu encontro e o descreve como “o cavaleiro da onda”. Sua conexão com o oceano era tão grande que os próprios cavalos de Manannan eram descritos como as ondas do mar, conforme relatado em uma passagem da ‘Segunda Batalha de Moytura’5, onde quando Lugh questiona quantos foram os mortos na grande batalha, o poeta Loch responde que os mortos são tão incontáveis como “os cavalos do Filho de Lir em uma tempestade marítima”; essa visão das ondas do mar como seus cavalos também é mencionada no mito ‘A Viagem de Bran’. O estudioso Kay Muhr no artigo Water Imagery in Early Irish faz uma comparação entre as ondas e “o cabelo da esposa de Manannan”. Além disso, seu cavalo Aonbharr ou Enbarr da Juba Fluida podia correr tão velozmente na terra como na água (e que aliás, nenhum cavaleiro se feria quando estivesse o galopando). Contudo, apesar de Manannan ser dito sendo essencialmente um deus do mar, nos parece que o deus não tenha um controle sobre tal reino, como nos mostra a história da donzela Tuag, a filha de Conall: para cortejá-la, Manannan envia o druida Fer Fí, filho de Eogabal, transformado em uma mulher, até a casa de Tuag para permanecer lá como uma de suas criadas, pois seu tio Conaire (quem a criava) não deixava nenhum homem se aproximar dela, colocando quinze criadas ao seu serviço (similar ao mito de Eithlenn, a mãe de Lugh). Fer Fí cantou um encantamento do sono para Tuag e a levou consigo até uma praia, e ao deixá-la neste local para procurar um esquife a fim de levá-la até Manannan na Terra das Mulheres, a maré sobe e mata Tuag afogada. Quando Fer Fí volta para Manannan sem Tuag, o deus o mata por seu descuido. O lugar, que antes era chamado de Inber Glasgamna, foi nomeado Tuag Inbir. Todavia, podemos também supor que Manannan não pôde controlar o mar ao seu favor, já que ele não sabia o que se passava na Irlanda naquela hora, visto que ele se encontrava na Ilha das Mulheres aguardando a chegada de Tuag e Fer Fí. Por outro lado, no mito que conta a morte de Clíodna (que é retratada como sendo a filha de Manannan em algumas fontes) diz-se que a deusa foi levada para a Terra da Promessa (ou Tír Tairngire) através de uma onda que a trouxe de volta, após ela ter fugido com o guerreiro dos fianna6 conhecido como Ciabhán. Essa onda, presumivelmente, foi enviada à mando de Manannan para trazer sua filha de volta à sua casa. Por último, um dos seus títulos mencionado no Livro das Invasões, “Manannan da Baía”, pode ser uma referência à uma possível associação que Manannan tem com essa conformação hidrográfica em particular, o que não seria algo irrelevante visto que se trata de uma divindade marítima.   

Conforme visto em um dos parágrafos acima, na Escócia temos uma divindade conhecida como Shony, creditado como sendo Manannan mac Lir pelo fato de que o nome em gaélico Seónaidh ser uma corrupção de S. João, um santo com uma ligação muito forte com S. Bannan, que por sua vez, parece ser uma corrupção de Manann, talvez pelo fato das letras ‘b’ e ‘m’ serem pronunciados quase iguais quando são lenizados na língua gaélica, conforme sugerido por Ronald Black em seu livro The Gaelic Otherworld. Shony (ou Manannan, se o considerarmos como tal), como era de se esperar de uma divindade marítima, recebia oferendas no mar para que ele pudesse fornecer ao povo algas marinhas utilizadas para fertilizar o solo empobrecido e superficial das Ilhas Ocidentais da Escócia. O antiquário Martin Martin diz que na Ilha de Lewis, na Escócia, Shony recebia no Samhain (31 de outubro) oferendas de ale (um tipo de cerveja) que era fermentada a partir do malte, carregada em uma taça à noite por uma pessoa que ia até o mar, e após ficar de cintura para baixo na água, derramava a taça de ale na água após dizer em voz alta: “Shony, lhe dou esta taça de ale na esperança de que tu possas ser afável e nos enviar bastante alga para enriquecer nosso solo no ano seguinte!”. John Gregorson Campbell nos dá uma variação deste ritual, dizendo que ao invés de ale, mingau amanteigado era derramado para Shony em todos os promontórios onde as algas marinhas eram tradicionalmente coletadas. Campbell ainda nos diz que o ritual acontecia na quinta-feira após a Páscoa (tendo que ser feito supostamente durante um clima tempestivo), ao invés de ser durante o Samhain, e nas Ilhas Hébridas o dia era conhecido como “o dia do Grande Mingau” (Là Brochain Mhóir). Dr. MacIagan descreve um sacrifício de uma cabra ou ovelha, que era levada até uma praia para ser abatida e seu sangue era colocado dentro de um recipiente que posteriormente era jogado no mar. Se esta era uma oferta para Shony (ou ainda, uma reminiscência dos antigos ritos para Manannan mac Lir), é difícil dizer.

                Como deus do mar, não é de surpreender que Manannan também fosse visto como um grande navegador e o protetor dos navegantes e marinheiros. O Cóir Anmann diz que ele era “o melhor navegador do mundo” e David Spaan em seu artigo The place of Manannan mac Lir in Irish mythology diz que até a época de S. Columba, Manannan mac Lir protegia os navegantes em uma tempestade no mar, ajudando-os a chegar à salvo na praia. Na Ilha de Man temos mais evidências dessas duas atribuições de Manannan: uma lenda local diz que quando a ilha estava prestes a ser atacada, Manannan criava barquinhos em miniatura com folhas de uma planta conhecida como “junco”, colocando-os em um córrego que desaguava no mar, onde ele transfigurava os barquinhos para fazer parecer grandes embarcações de guerra, fazendo com que a frota inimiga fugisse amedrontada. No livro The Fairy-Faith of Celtic Countries, um dos informantes de Evanz-Wentz na Ilha de Man conta que ele invocou Manannan para protegê-lo em sua viagem sobre seu “domínio aquático”, e o Journal of Folklore Society em seu artigo Manannan – the Sea God of Mann diz que Manannan aparecia para navegantes ou marinheiros para ajudá-los em qualquer lugar do mundo, sendo o patrono dos mendigos, poetas, navegantes e andarilhos (sendo conhecido pelo título de “Amigo dos Navegantes” e “Rei dos Andarilhos”, como mostrado acima). Além disso tudo, não podemos nos esquecer de que Mananan é o dono do Scuabtuinne (“O Varredor das Ondas”), um currach (um tipo de embarcação gaélica) que se dirigia para qualquer lugar que seu navegador quisesse; nas regiões de Bride e Jurby, em Man, há relatos de que o “Barco Branco” de Manannan por vezes é visto velejando pela costa, podendo provavelmente estar se referindo ao Scuabtuinne. Por último, no mito ‘O Cortejo de Luaine e a morte de Athirne’ é dito que Manannan possuía uma grande frota marítima, com a qual veio para saquear a região de Ulster, na Irlanda. Na Ilha de Man, temos uma curiosa evidência que o associa à pesca e aos pescadores, como poderia ser “esperado” de uma divindade marinha, onde uma oração folclórica tradicional chama por Manannan, pedindo para que ele abençoasse os pescadores, permitindo que eles voltassem vivos da pesca (já que o mar é um ambiente essencialmente perigoso) e que os fornecesse uma boa abundância de peixes: “Pequeno Manannan filho do Mar, tu que abençoa nossa ilha, abençoe-nos e abençoa nosso barco, saindo bem e voltando melhor ainda, com pessoas vivas e peixes mortos em nosso barco.”

                Fora de seu domínio oceânico, Manannan também é encontrado na mitologia estando relacionado com outros corpos d’água além do mar. O Lebor Gabála Érenn diz que antes de ser chamado pelo seu nome, Manannan era conhecido como Orbsen, nome que também nomeou o Lago Orbsen em Connacht, na Irlanda, após ele ter sido enterrado em uma planície e um lago ter sido criado a partir de seu túmulo. Tal lago hoje é conhecido como Lough Corrib e é considerado o segundo maior lago da Irlanda; curiosamente, três barcos de madeira das eras do Bronze e Ferro foram encontrados no lago – se foram originalmente oferendas votivas para Manannan ou simplesmente barcos de locomoção ou pesca, é difícil dizer. A mitologia nos conta que além do Lough Corrib, Manannan em sua angústia também criou três outros lagos por ter perdido a sua amante: o Loch Ruide, o Loch Cuan dos “curraghs” e o Loch Da Chaech. Outra variação do mito nos conta que Manannan criou esses três lagos após seu filho Ibel, depois de ter cortejado Lecon, ter sido assassinado pelo marido da mulher, Bennan. O deus ficou tão triste pela morte de seu filho que “três correntes de tristeza” saíram do coração de Manannan originando os lagos citados acima (depois disso, é claro, Manannan matou o assassino de seu filho na colina de Benn Boirchi). Além disso, diz-se que a cidade de Limerick possui uma certa ligação com Manannan pelo fato de ter “um rio blindado” que pertence à ele (que alguns estudiosos consideram ser o Rio Shannon) e também há uma lenda que o filho de Lir possui um castelo encantando no Lago Foyle, onde ele ainda é lembrado nos distritos de Derry e Donegal, na Irlanda. E finalmente, para resumir os quatro parágrafos acima, podemos concluir que Manannan mac Lir é basicamente um deus do mar, já que encontramos uma referência à ele como tal no texto ‘A Propriedade dos Nomes’ e através do seu patronímico “Mac Lir” (Filho do Mar); ele aparece em alguns contos em seu domínio oceânico e seu cavalo ou os cabelos de sua esposa são descritos metaforicamente como as ondas do mar, e a evidência na Escócia com o culto de uma divindade conhecida como “Shony”, que se acredita ser uma forma “cristianizada” de Manannan, reforça essa visão. Como deus do mar, é de se esperar que ele tenha uma ligação (e de fato, tem) com embarcações em geral, navegantes, pescas e pescadores, e, além disso, ele também é o patrono dos mendigos, poetas e andarilhos.

                Em muitas histórias, Manannan é apresentado como o rei ou um dos senhores das Ilhas Encantadas do outro mundo. Como são localizadas no mar ocidental, faz sentido que uma divindade do mar tenha domínio sobre esses reinos encantados. Como o espaço não permite uma descrição mais aprofundada, resumidamente tais Ilhas do outro mundo (cento e cinquenta no total, de acordo com a donzela que convida Bran no mito ‘A Viagem de Bran’) são conhecidas por várias nomes, tal como Tir-fa-Tonn ou Tir fó Thiunn (“Terra Debaixo da Onda”), Tir Tairngire (“Terra da Promessa”), Mag Mell (“Planície do Prazer”, ou como Spaan traduz, “Planícies de Mel”), Tir-na-mBeo (“Terra da Vida”), Tir-na-nOg (“Terra da Juventude), Mag Findargat (“Planície Branca-Prateada”), Mag Argatnél (“Planície da Nuvem Prateada”), Aircthech (“Terra Abundante”), Ciuin (“Terra Gentil”), Mag Réin (“Planície do Mar”), Mag Mon (“Planície dos Esportes”), Emne (um dos nomes para Emain, referindo-se a Emain Ablach, talvez), Imchiuin (“Terra Muito Gentil”), Ildathach (“Terra Multicolorida”), e etc., e são descritos como as moradas dos imortais onde os guerreiros e heróis eram convidados a permanecer, como Bran e Oisín, onde podiam entrar para depois retornar, como Cuchulain, ou onde pudessem entrar para receber os benefícios dos deuses, como Cormac. São descritas como lugares onde não existem velhice, tristeza e nenhum outro sentimento negativo, palco de coisas extraordinárias como planícies floridas, rios de mel e córregos de prata, onde as pessoas cavalgam, bebem vinho escutando suaves melodias e fazem amor sem culpa ou vergonha. Tal ligação de Manannan com as ilhas está comprovada no mito ‘O Cortejo de Luaine e a morte de Athirne’, onde Manannan é dito ser o “rei de Mann e das Ilhas Estrangeiras”, e na ‘Viagem de Bran’, aparecendo para Bran no oceano onde ele faz uma descrição de suas ilhas, dizendo também que “os rios derramam uma corrente de mel na terra de Manannan filho de Ler”; mas, na história ‘A aventura de Cormac na Terra de Promessa’ podemos ter uma visão melhor de Manannan sendo o senhor das Ilhas Encantadas, mais especificamente, de Tir Tairngire (a Terra da Promessa): tudo começa quando ele “convida” indiretamente o rei Cormac, lhe dando um ramo de prata com três maçãs douradas (este ramo também é recorrente em outros mitos, como em ‘A Viagem de Bran’, funcionando de certa forma como um “convite” para o outro mundo, e segundo os mitos, tem o poder de aliviar as dores dos doentes fazendo-os adormecer através de sua doce melodia), dizendo que deixaria o ramo encantado com ele se Cormac lhe garantisse três desejos. Cormac assente e Manannan primeiro leva o filho de Cormac, depois a sua filha e por último a esposa de Cormac para a Terra da Promessa, atraindo consequentemente Cormac para lá. Cormac vê várias maravilhas na Terra da Promessa, e após alguns acontecidos que serão relatados mais no final do texto, Manannan devolve os filhos e a esposa para Cormac, se apresenta e diz que é o Rei da Terra da Promessa. Aqui, Manannan aparece somente como o rei da Terra da Promessa, mas nos dois outros mitos citados acima, podemos ter um lampejo de que Manannan seja o senhor de todas as Ilhas do outro mundo, não só a Terra da Promessa, como o historiador David Spaan descreve em seu artigo The place of Manannan mac Lir in Irish mythology. Como rei da Terra da Promessa, Manannan legisla sobre seus assuntos, como quando Becuma Cneisgel cometeu uma “transgressão” junto com Gaidiar (provavelmente uma traição, já que Becuma era casada com Labraid), e os Tuatha De Danann disseram para queimá-la pelo seu ato, mas Manannan dá a decisão final de que ela não deveria ser queimada para que a sujeira de seu ato (visto como uma espécie de contaminação) não afetasse a Terra da Promessa e seus habitantes, mas expulsa de lá. Ademais, os mitos contam que a esposa de Manannan possuíam sete vacas que alimentavam suficientemente o povo da Terra da Promessa e sete ovelhas cuja lã era usada para fazer todas as vestes de lá, e quando os Tuatha De Danann foram derrotados pelos Filhos de Mil7 e Manannan repartiu as colinas encantadas da Irlanda entre eles, ele foi o responsável por ensiná-los “as vestimentas e o modo de vida do povo da Terra da Promessa e Emain Ablach”. As lendas manêsas também nos contam que Lugh foi trazido por Manannan para ser criado em sua corte na Terra da Promessa (tal como também trouxe Diarmuid, junto com Óengus mac Og) ou em outras versões, para Emain Ablach. O deus também é conhecido sendo o senhor ou rei de Emain Ablach (algo como “Emain das Macieiras” ou, menos improvável “Man das Macieiras”) e Cruitin na Cuan (“Pequena Curva do Porto”, fazendo alusão provavelmente ao Porto de Peel, na Ilha de Man), as quais o historiador J. J. Keen considera estarem localizados na Ilha de Man, assim como a própria Terra da Promessa. Por último, Manannan após três lutas com o herói Diarmaid, o arrasta para dentro de um poço, levando-o para Tir fó Thiunn (“Terra Debaixo da Onda”).

Apesar de termos uma descrição e uma maior quantidade de fontes que mostram Manannan sendo conectado com o outro mundo no mar (com as Ilhas), há também evidências que apontam que ele possa estar relacionado com o outro mundo na terra, o Sídhe8, conforme aponta o mito ‘A nutrição da casa dos dois baldes de leite’. Na história citada, após os Filhos de Mil derrotarem os Tuatha de Danann nas batalhas de Tailltiu e Druim Lighean, Manannan foi até os Tuatha De Danann para resolver seus problemas e os aconselhou a dividirem entre si as colinas e planícies da Irlanda. Os homens fazem de Manannan o seu rei, junto com Bodb Derg (o filho do Dagda), e foi Manannan que separou as colinas e as terras para cada um dos deuses Todos os nobres depois concordaram que Manannan deveria participar de todos os casamentos e festas dados pelos Tuatha De, para que seu “estatuto, justiça e lei” estivessem em todas as mansões encantadas. Manannan também forneceu aos deuses duas características divinas sem as quais eles não seriam...deuses: a imortalidade, dada junto com o deus-ferreiro Goibniu através da Festa de Goibniu, cujos alimentos faziam com que os Tuatha De Danann permanecessem jovens e imortais, e o Feth Fiada, que era a névoa da invisibilidade para que os Tuatha De Danann não pudessem ser vistos. A título de curiosidade, ele também deu o Porco de Manannan (provavelmente o mesmo “Porco de Asal” mencionado como um de seus tesouros e também o mesmo porco que aparece para Cormac quando ele vai para a Terra da Promessa), que ressuscitaria no dia seguinte caso fosse abatido para consumo. Com a informação dos dois últimos parágrafos, podemos então concluir que Manannan possa ter sido associado com o outro mundo de uma forma geral (seja na terra na forma dos Sídhe, as colinas encantadas onde os Tuatha De Danann tinham suas mansões, ou nas Ilhas Encantadas no mar ocidental, onde outros Tuatha De Danann moravam), ou pelo menos com o outro mundo no mar, já que como um deus marítimo, faz sentido que ele seja rei ou senhor de um reino que se localiza em seu domínio natural.

No mito irlandês conhecido como ‘O Velho do agasalho marrom’, há um personagem bastante curioso que é considerado ser Manannan mac Lir, chamado de Bodach. No mito, Finn e os fianna encontram-se com um poderoso guerreiro chamado Cael an Iarainn que diz tomar a Irlanda à força e colocar seu tributo nela, a menos que um guerreiro irlandês o impeça. Finn vai buscar o guerreiro Caoilte, mas encontra uma figura bizarra e grotesca em uma floresta, conhecido como Bodach, ou o “Velho”. Resumidamente, o Bodach consegue convencer Finn a “ser seu campeão”, e quando se encontra com Cael, eles concordam em disputar uma corrida, e caso o Bodach ganhasse, Cael teria que deixar a Irlanda. Após testar Cael das mais diversas formas, o Bodach vence a corrida e expulsa Cael an Iarainn do país. Embora no mito irlandês não haja uma menção explícita de que o Bodach seja Manannan mac Lir, a versão manêsa da história o faz, embora não pude lê-la já que não encontrei online. Segundo Charles MacQuarrie (um autor bastante confiável, por sinal) em seu maravilhoso artigo From Manannán to Bercilak: The Green Knight and the Gaelic Otherworld-god-in-disguise, Manannan aparece de forma tão “grotesca e bizarra” como o Bodach pelo fato disso ser uma das características de o “deus do outro mundo”, que segundo ele, é mais um papel ou uma função do que uma identidade por si só. Para eles, o deus do outro mundo as vezes aparece como um nobre rei mortal, e em outros, como um disfarce bizarro, terrível e até mesmo cômico, onde apesar de a princípio as intenções desse deus possam parecer trapaceiras, ele no final se revela um ajudante, dando-lhe um presente ou o conhecimento de algo, como no mito já citado e em mais outros dois, o Eachtra An Cheithearnaigh Chaoilriabhagh (“A aventura do Velho nas listras estreitas”), que apesar de eu não ter encontrado uma versão online na história, o autor resume contando que um personagem aparentemente malicioso e com a aparência tola surge do nada, causando muitos infortúnios quando é maltratado, mas no final da história restaura a saúde dos feridos, ressuscita os homens mortos, e depois desaparece misteriosamente; e no conto Toraighecht in Ghilla Dhecair (“A perseguição do Velho Problemático”), que apesar da identidade de Manannan não ser revelada e a teoria de Gilla Decair (o personagem em questão) e Manannan serem a mesma pessoa ser controversa, o deus é grandemente mencionado em um episódio da história, que também possui muitas pistas que associam a figura com o deus em questão, mas como também não encontrei a história online, não pude tirar minhas conclusões. Assim, podemos concluir que o motivo de Manannan se apresentar em alguns mitos de uma forma diferente da sua forma humana “natural”, é pelo fato dele se apresentar como um “deus do outro mundo disfarçado”, com o único propósito de testar um guerreiro e no final dos contos lhe dar um presente ou o conhecimento de algo, indo embora de forma tão misteriosa como veio. 

Essa conexão de Manannan com o Feth Fiada (que pode ser equiparado à neblina) mencionado em um dos parágrafos anteriores, que por sua vez tem uma relação muito forte com o outro mundo (seja nos Sídhes em terra, ou nas Ilhas no mar) é digna de nota. Manannan também fazia uso do Feth Fiada conforme relatado no mito ‘A doença de Cuchulain e o único ciúme de Emer’, na passagem onde ele vai buscar Fand, e esta deusa diz que ninguém é capaz de vê-lo, apenas ela ou outro homem do Sídhe, e mais tarde, Manannan sacudiu seu manto entre Cuchulain e Fand para que eles nunca mais se encontrassem. Esse manto é visto por alguns estudiosos, como David Spaan, como sendo a sua capa de invisibilidade. Alguns eventos nos levam a acreditar, ou pelo menos supor, de que a névoa, o manto de invisibilidade e o Feth Fiada se tratem na verdade, das mesmas coisas. Além de ser uma espécie de “veículo” para o outro mundo (já que Cormac foi levado para a Terra da Promessa através de um grande nevoeiro), segundo as lendas manêsas, Manannan encobria a sua Ilha de Man com uma névoa prateada (ou um denso nevoeiro, em outras versões) para que ela ficasse oculta quando ele via do topo da colina de Barrule do Sul (que é onde Manannan tem sua fortaleza) alguma frota adversária se aproximando. No artigo do Journal of Folklore Society, Manannan – the Sea God of Mann, encontramos que um informante da região de Lezayre conta que alguns de seus amigos já viram Manannan se movendo em uma névoa brilhante, e se alguém se aproximasse dele o suficiente para conseguir atravessar essa névoa que o rodeava, ele o levaria para a “Terra das Fadas” para se tornar imortal. Outra informante nos conta que uma vez ela andava com sua avó durante o crepúsculo por uma estrada, até uma súbita rajada de nevoeiro aparecer diante delas, e atrás do nevoeiro elas puderam ver várias luzes piscando e tocando algo que parecia-lhes ser uma música, e depois, algo passa correndo atrás do nevoeiro. A menina fica com muito medo, mas sua avó a acalma dizendo: “De que tens medo? Parece que o Velho Rei está fazendo seu caminho para o mar.” Há também um relato de que Manannan foi visto na região de Lonan, onde há uma pedra conhecida como “Slieau Chiarn”, e o informante disse que “suas roupas e seu corpo era como água jogada no fogo, com uma espessa neblina ao seu redor”, e por último, o Livro de Fermoy diz que ele era “um necromante que tinha o poder de envolver a si mesmo e aos outros em uma bruma para que não pudessem ser vistos pelos seus inimigos.” Conclui-se então que Manannan possui uma forte ligação com o Feth Fiada, uma magia que Manannan ensinou aos Tuatha De Danann para que eles pudessem ficar invisíveis. Como em muitos casos Manannan também fez uso do nevoeiro para esconder sua ilha ou se esconder, é provável que o Feth Fiada e o nevoeiro se tratem da mesma coisa, assim como também seja uma referência à sua capa de invisibilidade conforme foi colocado por alguns estudiosos.

Existem algumas fontes que levam alguns estudiosos e praticantes a acreditarem em uma possível ligação de Manannan com tempestades. A primeira dessas é o Cóir Anmann que diz que Manannan possuía o “conhecimento celestial”, com o qual ele olhava para o céu e através de sua aparência era capaz de dizer se o dia teria um bom ou mau tempo. No entanto, apesar dessa passagem estar relacionada com o clima, ela não indica necessariamente um controle que a divindade tinha sobre tais fenômenos, mas sim um conhecimento, que de fato é bastante útil e, ouso dizer, imprescindível para navegantes e pescadores (que obviamente, evitavam o mau tempo no mar por ser extremamente perigoso), dos quais já vimos que Manannan era patrono. Além disso, podia se tratar unicamente do neladorácht, ou nefomancia, uma técnica de adivinhação através das nuvens usada pelos druidas, ou uma simples previsão do tempo. O historiador MacBain sugere também que Manannan possa ter sido um deus da atmosfera, vendo “sua armadura como o vapor das nuvens, sua espada, o relâmpago e seu manto de invisibilidade com a neblina”. Apesar de já termos visto uma possível equivalência de sua capa de invisibilidade com a neblina (que tal como as tempestades, é um fenômeno meteorológico) e ter uma descrição das roupas de Manannan como sendo equivalentes a “água jogada no fogo, com seu corpo todo coberto de névoa”, como já mostrado acima, não temos nenhum relato na mitologia que equipare sua espada (que será explicada melhor mais para frente) com o relâmpago. Conforme visto anteriormente, David Spaan também fala de uma lenda que diz que até na época de S. Columba, Manannan ajudava os navegantes no mar, levando-os para a terra sãos e salvos durante uma tempestade no mar, mas novamente, Manannan intercede para ajudar os navegantes, dos quais ele é o patrono; e, por último, temos uma passagem na Segunda Batalha de Moytura que, ao ser questionado por Lugh sobre o número de mortos na batalha, Loch responde que são tão incontáveis quanto “os cavalos do filho de Lir em uma tempestade no mar”. Sendo assim, finalizo esse parágrafo desacreditando bastante nessa hipótese, já que não tem nada na mitologia ou no folclore que nos forneça algo concreto de que Manannan possa ter sido associado com tal fenômeno. Apesar dele ter visivelmente o conhecimento de quando uma tempestade vai acontecer ou não, ou o “Conhecimento Celeste”, acredito que seja apenas uma de suas muitas artes, e não algo que ele tenha o total domínio.

Encontramos diversas fontes que atestam que Manannan é um exímio feiticeiro, como no mito ‘A nutrição da casa dos dois baldes de leite’, onde diz também que ele era capaz de diagnosticar e curar todas as doenças. No mesmo conto, quando Eithne recusava todo tipo de comida após ser insultada pelo deus Finnbarr, Manannan prepara diversos pratos diferentes e coloca sua feitiçaria neles para que Eithne pudesse comê-los, mas esta recusa. Intrigado, Manannan através de sua astúcia trouxe a sua Vaca Malhada e Eithne aceita o leite dela como alimento. O mito ‘O Cortejo de Luaine e a morte de Athirne’ o chama de “esplêndido feiticeiro dos Tuatha De Danann”. No Condado de Mayo, na Irlanda, Manannan tinha um castelo em Bekan, e lá, ele era visto como “um famoso feiticeiro”; os Métricos Dindshenchas nos falam que Manannan criou um grande penhasco de bronze com sua magia em volta de um lugar, que por conta disso passou a se chamar “Umall”, e quanto ele aparece para Diarmaid para levá-lo para Tir fo Thiunn, ele se apresenta como um feiticeiro. Não devemos nos esquecer também que é através de sua magia que Manannan transforma os pequenos barquinhos de folha, que ele lança no mar, em poderosas embarcações para amedrontar os inimigos que se aproximavam da Ilha de Man, assim como colocava uma ilusão para que um único homem fosse visto como uma centena de homens pelas tropas inimigas. Como um feiticeiro, o filho de Lir possui vários tesouros mágicos:

  • ·         O Ramo Prateado de macieira com flores brancas e três maçãs douradas, que ao ser chacoalhado produzia uma música descrita como “um prazer e diversão por si só”, e era capaz de fazer adormecer homens feridos ou doentes e mulheres no trabalho de parto, aliviando suas dores;
  • ·         A Capa de Invisibilidade, que ele usa para ficar invisível e, provavelmente, deixar também os outros invisíveis, e a mesma que ele usou para separar Fand de Cuchulain para que eles se esquecessem um do outro. Pode ter sido uma alegoria para a névoa e o Fith Fiada que deixava os Tuatha De Danann invisíveis (após eles terem sido derrotado pelos Filhos de Mil e fugidos para os Sídhes) e com o qual ele protegia a sua Ilha de Man;
  • ·         A Crann Buidhe (algo como “árvore/madeira amarela”), uma lança mágica dada para Diarmaid, que ele usou para fugir em algumas ocasiões de sua fuga com a princesa Grainne;
  • ·         A armadura de Manannan, que nenhuma arma era capaz de penetrar e protegia seu usuário de golpes dados em sua frente, em sua traseira, por cima ou por baixo. Pode ser o mesmo que “as vestes protetora de Tir Tairngire” que Manannan deu para Cuchulain no Tain Bó Cuailnge, ou O Roubo das Vacas de Cooley9;
  • ·         O Elmo de Manannan, chamado de o “Elmo das Fadas”, era um esplêndido capacete que brilhava com gemas e “pedras de vitória e crescimento” (pedras preciosas), que Manannan trouxe da África: diamante, topázio, berilo e ônix. O Elmo também continha desenhos de várias e terríveis bestas, conforme conta o mito ‘A Perseguição de Gruaidh Ghriansholus’. Provavelmente é o mesmo “Elmo do Rei de Lochlainn” mencionado como um dos tesouros que Manannan guarda em sua “Bolsa de Grua”, e também, o mesmo Elmo que Lugh usava, dado por Manannan, que tinha uma pedra na frente e outra atrás; no entanto, o Elmo de Lugh só é descrito com duas pedras, enquanto que o de Manannan é esplendidamente ornamentado com quatro tipos de pedra;
  •              A Moralltach (“Grande Fúria”), é uma poderosa arma que “não deixa resquícios do golpe ou do corte”, dos quais ninguém se recuperava. Talvez, pode ser que tenha sido a mesma espada conhecida como Fragarach;
  •          A Fragarach (“Respondedora/Retaliadora”), era uma poderosa espada sendo assim chamada pois os homens só diziam a verdade em sua presença, temendo os seus terríveis golpes. Ela também era descrita dando um “golpe que ninguém era capaz de se recuperar”, e pode ser que seja a Moralltach descrita acima;
  •          O Cinto de Goibhne, que é mencionado como um dos itens que Manannan guarda em sua “Bolsa de Grua”, e não tem aparição em nenhuma outra fonte ou mito, sendo sua função, um mistério;
  •            O Porco Mágico, que ressuscita no dia seguinte após ser abatido para o consumo e dado para os Tuatha De Danann por Manannan. Provavelmente é o porco chamado de “Porco de Asal”, cujos ossos é um dos tesouros que Manannan guarda na sua “Bolsa de Grua” (apresenta uma curiosa semelhança com o mito das duas cabras de Thor, o deus nórdico do trovão, que são consumidas e renascidas no dia seguinte, se seus ossos forem preservados – se considerarmos que o Porco de Asal seja o mesmo “Porco Mágico”), ou também, o mesmo porco que o rei Cormac encontra na Terra da Promessa que só pode ser cozido após quatro verdades serem ditas enquanto ele estiver no caldeirão. Tal porco da Terra da Promessa só poderia ser abatido com um determinado machado e cozido sob o fogo de determinada tora de madeira, para que assim pudesse renascer no dia seguinte. Esse tema do porco encantado também é recorrente no mito ‘O Destino dos Filhos de Turenn’, onde é mencionado “os porcos de Easal dos Pilares Dourados” (possivelmente, uma grafia diferente para Asal?), e similar ao porco de Manannan, “se eles forem mortos uma noite, eles são encontrados vivos no dia seguinte”, e “não existe doença nem enfermidade na pessoa que comer sua carne”. O mito diz que são sete os porcos de Easal, e Manannan só tem um – se são os mesmos porcos, é difícil dizer, mas a crença em um porco encantado que fornece comida para os Deuses é certamente a mesma;
  • ·         Um Cinto feito com “as costas de uma grande baleia”, conforme mencionado como um dos tesouros que Manannan guarda em sua “Bolsa de Grua”. Não aparece em nenhum outro mito e seu uso é desconhecido;
  • ·         O Escudo de Fionn, feito pelo deus Luchtaine o Construtor, a mando de Manannan, confeccionado a partir de uma aveleira envenenada pela cabeça de Balor, após ter sido decapitado na Segunda Batalha de Moytura e pendurado nessa árvore. O veneno de sua cabeça contaminou o solo de modo que, quando os homens de Manannan foram desenterrar a árvore para obter sua madeira, dezoito morreram e nove ficaram cegos;
  • ·         A Lã do Rei da Escócia, mencionado também como um dos tesouros que Manannan guarda em sua “Bolsa de Grua”. Não aparece e nenhum outro mito e seu uso é desconhecido, no entanto, pode ter a mesma função que a lã das sete ovelhas da esposa de Manannan tinha: fornecer material para a confecção das vestes da Terra da Promessa, mas é só uma especulação;
  • ·         O Scuabtuinne (“Varredor de Ondas”), o maravilhoso e veloz curragh de Manannan capaz de ir para qualquer lugar apenas com uma ordem de seu navegante. Pode ser que seja o mesmo “Barco Branco”, no qual Manannan é visto navegando pelas praias da Ilha de Man, que é mencionado no folclore manês.
  • ·         Enbarr da Juba Fluida, um cavalo que podia correr tão velozmente na terra como na água e que nenhum cavaleiro se feria quando estivesse o galopando. Era descrito sendo tão veloz quanto “o claro e frio vento de primavera”.
  • ·         A Taça Dourada, uma das doze Provações Irlandesas (itens que descobriam se uma pessoa dizia a verdade ou a mentira), que se quebrava em três partes caso alguém proferisse três mentiras em sua presença e que se reconstruía novamente caso alguém proferisse três verdades. Uma lenda folclórica nos conta que um dia S. Columba encontrou e quebrou uma taça dourada e o empregado encarregado de consertá-la foi até Manannan, que respirou sobre a taça e a consertou. Manannan então diz para o empregado ir até o santo e dizer que tinha sido ele a consertar a taça, e sendo assim, se poderia ir para o paraíso. S. Columba diz que uma pessoa que faz esse tipo de coisa não poderia ir para o Paraíso, e ao ouvir isso, Manannan diz: “Coitado de mim, Manannan mac Lir! Por anos ajudei os católicos da Irlanda, mas não farei nada até eles ficarem tão fracos quanto a água. Irei para as ondas cinzas das Terras Altas da Escócia.” Se estamos falando da mesma taça, é incerto.
  • ·         Os Cães de Manannan, que Sophia Morrison em Manx Fairy Tales diz ser capaz de pegar qualquer presa. Os Métricos Dindshenchas nos conta que ele liberou sua matilha uma vez para caçar um porco que estava devastando as redondezas das Ilhas Clew Bay. Os cães seguiram o porco até chegarem em um lago, onde se encontraram com outra matilha de uma figura mitológica chamada Mod. Ambas as matilhas se afogam no lago que posteriormente se chamou Loch Con, “Lago dos Cães de Caça”, e o porco destruidor fez uma ilha chamada Muc-Inis, “A Ilha do Porco”. Em outro conto, é mencionado somente um cão de caça que Manannan libertou de sua capa para matar a tropa inimiga de Eolgarg, quando ele ajudava Fiachna Finn (este mito será contado melhor mais abaixo).


David Spaan coloca que a ligação de Manannan com as armas e artefatos mágicos citados acima o torna um deus da feitiçaria e artesanatos divinos, pois apesar dele em si não ser apresentado como um artesão ou construtor, está intimamente relacionado com deuses artífices, como Goibniu (na Festa de Goibniu), Luchtaine (que fez o Escudo de Fionn) e Culain, apresentado como o ferreiro de Manannan na Ilha de Falga (que as vezes é vista como sendo a Ilha de Man). Ainda segundo Spaan, essa caracterização dele também é reforçada com o seu “correspondente” galês, Manawyddan, que durante seu exílio trabalhou como um sapateiro, feitor de escudo e selas. Além da feitiçaria, Manannan possui outros atributos, como no Cóir Anmann que o descreve como um “maravilhoso campeão” que habitava a Ilha de Man. Já vimos em um mito que ele é citado como um deus capaz de diagnosticar e curar todas as doenças,  o Livro de Fermoy nos diz que ele era um “legislador entre os Tuatha De Danann” e é um deus que possui uma imensa astúcia, com a qual ajudou o deus Óengus mac Og a ganhar o Brugh na Boinne10 de seu padrasto Ealcmar, esposo de sua mãe Bóann. Há também um relato de que “suas fadas” ajudavam os camponeses a cuidar de suas plantações. Para finalizar, podemos ver então que Manannan possui uma ligação muito grande com deuses artífices que o torna de certa forma associado com o que David Spaan chama de “artesanato divino”, além de possuir diversos artefatos mágicos. Além disso, em algumas fontes ele é sempre retratado como um famoso feiticeiro, e, como mostrado em outras fontes, ele também era visto como um campeão ou legislador entre os Tuatha De Danann, nos mostrando assim uma multiplicidade de seus atributos.         

Existem muitas fontes históricas e mitológicas que nos dizem que Manannan mac Lir, ou Manannan Beg Mac y Leirr, como era conhecido lá, era o rei da Ilha de Man. As canções tradicionais do país nos conta que ele “foi o primeiro homem que pisou na ilha e que ele sempre será seu governante”, e posteriormente, a ilha foi nomeada em sua homenagem (contradizendo uma das teorias do significado seu nome que é traduzido como “Ele de Man”, já que ele nomeou a ilha e não o contrário). As lendas também nos dizem que ele possuía três pernas que podiam fazer com que ele fosse de uma extremidade da ilha para outra, movendo-se em grande velocidade como se fosse uma roda. Suas três pernas nos fazem lembrar da triskele gaélica, possivelmente seu símbolo, e são estas três pernas que deram origem ao símbolo da bandeira da Ilha de Man. Como rei e governante de seu país, Manannan foi seu grande defensor. Muitas são as histórias que contam como ele transformava pequenos barquinhos ou lasquinhas de palha ou madeira nas águas em poderosos navios bélicos para amedrontar seus inimigos, tal como envolvia a ilha em uma neblina espessa para fazer com que os inimigos passassem despercebidos, e nas guerras, ele também podia fazer com que um homem parecesse uma centena. Para agradecer por essa proteção e “pagar o aluguel” da ilha, os ilhéus anualmente, nas vésperas do solstício de verão, subiam a montanha de Barrule do Sul e ofereciam-lhe um feixe de juncos verdes. Os que não subiam deixavam as ofertas aos pés da montanha, em Keanmool (provavelmente significando “A Passagem das Macieiras”). A tradição permaneceu até hoje de forma diferente e com um viés cristão, pois acredita-se que as Cortes de Tynwald, um festival realizado no dia 5 de julho, seja uma reminiscência desse antigo ritual de oferendas que eram realizados no topo da montanha. Neste dia, os ilhéus, jogando juncos no chão formando um caminho, iam da Capela de S. João até a Colina de Tynwald, onde a festa acontecia. A paisagem da Ilha de Man está repleta de marcos que contam a sua história e acidentes geográficos nomeados a partir de seu rei; uma lenda conta que um dia, por diversão ou por um acesso de raiva, Manannan levantou um imenso bloco de granito da rocha do Castelo de Peel, que pesava dezena de toneladas, e arremessou com muita facilidade contra a colina oposta, cerca de três milhas de distância, onde ela é vista até os dias de hoje com a pegada de sua mão gravada nela. A ilha também alega possuir o seu túmulo, estando localizado em uma “colina gramada de trinta jardas de comprimento do lado de fora do Castelo de Peel”, ou em outras versões, localizado em Ballacraine, em um lugar conhecido como “O Túmulo de Managhan Beg”. Em um campo conhecido como Managhan, ele tem a sua cadeira de pedra, e a estrada que conduz à colina de S. João é conhecida como Bayr nyr Managhan, “A Estrada de Managhan”. No passado e no presente, ele sempre foi visto andando pela sua ilha, e vários ilhéus alegam tê-lo visto seja navegando com seu “Barco Branco” pela costa, ou, segundo um informante, aparecendo três vezes por ano em nove lugares diferentes da ilha, sempre nos dias de lua cheia, e na montanha de Barrule do Norte há um cume de pedras soltas que repetem a melodia encantada de Manannan e de sua tropa de fadas quando o vento sopra nelas. Assim, podemos ver que Manannan é uma divindade extremamente ligada à Ilha de Man, que além de nomeá-la, a protege de seus inimigos, e como um sinal de agradecimento, seus moradores lhe prestam homenagens nas vésperas do solstício de verão. Manannan também aparece nos mais variados disfarces e formas, sendo mencionado até os dias de hoje em provérbios, encantamentos antigos e em topônimos por toda a Ilha.

Tal como Lugh, Manannan mac Lir possui uma riquíssima tradição literária, figurando em muitos contos mitológicos e lendas folclóricas de todos os países gaélicos. No mito ‘A Nutrição da Casa dos Dois Baldes de Leite’, conta-se que Elcmar deu uma festa no Brugh na Boinne, e quando soube que Manannan estava fazendo uma visita por todos os palácios encantados da Irlanda, imediatamente manda Óengus, seu filho adotivo, convidá-lo. Manannan então vai até a festa, onde todos os Tuatha De Danann e os senhores da Terra da Promessa estavam. O banquete durou três dias e três noites, e no quarto dia, todos haviam ido embora, deixando a mansão extremamente suja e bagunçada. Conscientemente, Manannan fica para ajudar Óengus a limpar o palácio, e a partir de então, começou a persuadi-lo a tomar o Brugh na Boinne para si, e em seguida, o aconselha a pedir para Elcmar se retirar do palácio para que ele pudesse governar, e Óengus é convencido. Mais tarde, é dada uma outra grande festa para Manannan, e todos no grande banquete estavam felizes e alegres, exceto Óengus que por mais que tinha consentido, tinha medo de desafiar seu padrasto Elcmar. No momento determinado entre ele e Manannan, Óengus lança um encantamento para que Elcmar fosse embora, e após seu padrasto partir, Óengus se arrepende e pede para Elcmar voltar, mas devido a força do encantamento que Óengus tinha colocado sobre ele, ele não poderia retornar. E assim, através da astúcia de Manannan, Óengus ganha o Brugh na Boinne para si.

No mesmo mito, há um outro episódio que narra um acontecimento após Óengus ter tomado o Brugh na Boinne. A esposa do mordomo do palácio (Dicu), fica grávida e Óengus diz que tomaria a garota sob sua proteção como sua filha adotiva. Manannan então diz para Óengus que todas as filhas dos Tuatha De Danann deveriam receber esse mesmo destino. Manannan então volta para seu palácio e a sua esposa dá a luz à uma filha chamada Curcog, que posteriormente foi enviada a Angus para ser criada e educada junto com as outras garotas. Quando a filha de Dicu nasce, ela foi chamada de Eithne e Óengus a reuniu com várias donzelas, construindo uma grande casa ensolarada para elas, colocando Curcog como sua líder. Após Finnbarr, o irmão de Óengus, insultar Eithne por ela ser a filha do mordomo, a donzela perde o gosto por toda a comida do mundo e fica incapaz de comer ou beber qualquer coisa. Após permanecer sete dias dessa forma, Óengus considerou dar a ela o leite de uma das vacas que Manannan tinha encontrado consigo nos Pilares Dourados do Leste (na Índia), a Vaca Parda, e fez com que Eithne tomasse seu leite em um cálice dourado, e assim, Eithne consumia seu leite em todas as refeições. A fama deste bando de donzelas e a curiosa história de Eithne chega até Manannan em Emain Ablach, e as convida para irem até lá. Intrigado pelo fato de Eithne só se alimentar do leite da Vaca Parda, Manannan vai até sua cozinha e prepara vários pratos para Eithne, colocando diversos temperos e feitiçaria. Mas, todo o seu esforço foi em vão, já que Eithne não comeu nada. Manannan, envergonhado por ter um hóspede em sua casa que não comesse, trouxe a outra vaca que tinha trazido da Índia, a Vaca Malhada, e da mesma forma, Eithne ordenhou a vaca e o leite dela foi seu alimento lá em Emain Ablach. Dessa forma, essa curiosa alimentação de Eithne foi o que deu origem ao nome do mito, ‘A Nutrição da Casa dos Dois Baldes de Leite’.

Foi Manannan quem criou os filhos de Náisi e Deidre: Gaiar e Áib-gréne. Estes dois irmãos passaram dezesseis anos com Manannan e expulsaram de Slamannan (Sliab Manaan) os três filhos de Gnathal – Iathach, Triatach e Mani Mão-Dura – pois Gnathal havia dominado aquelas terras, sendo consequentemente morto pelos dois irmãos. Os três filhos de Gnathal foram então enviados em exílio para Conchobar, e lá, mataram os três filhos de Uisnech – Ardan, Ainnle e Náisi (o pai de Gaiar e Áib-gréne). Por conta disso, Manannan ficou enfurecido e reuniu uma grande frota marítima para saquear e pilhar Ulster, já que ele era um grande amigo de Náisi e tinha sido ele quem criara seus filhos. Vendo que não eram uma luta justa (mortais lutando contra um deus), os homens de Ulster convenceram Conchobar de fazer um movimento de paz entre eles, e assim foi feito. Este conto é narrado no mito ‘O cortejo de Luaine e a morte de Athirne’, e nele, inclusive, é relatado a existência de quatro “Manannan’s”, cada um com um pai diferente: o Manannan filho de Lir como o conhecemos comumente, o filho de Athgno, o filho de Allot e o filho de Cerp. Tudo leva a crer que se tratem de um mesmo Manannan já que suas histórias frequentemente se fundem entre si, mas se estes três pais diferentes sejam nomes diferentes para Lir, é difícil dizer.

Manannan aparece para Bran no famoso imramma11, depois deste ter recebido a visita de uma mulher do outro mundo em seu castelo, oferecendo-lhe um ramo prateado de macieira com flores brancas, cantando para ele um convite para as ilhas do outro mundo. Quando Bran vai com sua tripulação para o mar, ele encontra Manannan, que canta uma descrição de suas ilhas encantadas, dizendo que onde para Bran parecia ser apenas o mar, Manannan via vários campos e florestas. Manannan também diz a profecia sobre si mesmo, dizendo que irá até Line-mag para deitar-se com Caintigern, a esposa de Fiachna, que lhe dará um filho chamado Mongan e que Fiachna o criaria como se fosse seu próprio filho.

O cumprimento dessa profecia é narrado no conto ‘O nascimento de Mongan’. Lá, Fiachna Finn um dia visita o rei de Lochlann, Eolgarg, que havia contraído uma doença que nenhum de seus médicos eram capazes de curar, apenas a carne de uma vaca branca de orelhas vermelhas de Caillech Dubh (A Bruxa Negra) [Cailleach, talvez?]. Uma vaca foi oferecida em troca da vaca da bruxa, mas Caillech recusa. Eolgarg oferece então quatro vacas em troca de vaca branca, e Cailleach aceita com a condição de que Fiachna fosse a sua garantia. Quando Fiachna voltou para a Irlanda para ser rei de Ulster, Cailleach vai em sua busca para lhe dizer que Eolgarg não cumpriu com o combinado, e leva Fiachna para batalhar contra o rei de Lochlann. Fiachna então reúne seus homens para a batalha, e naquele dia, Eolgarg solta uma ovelha encantada de sua tenda que vai até a tropa de Fiachna e mata trezentos de seus guerreiros durante três dias. Manannan, na forma de um desconhecido, aparece então para Fiachna e oferece sua ajuda para matar a ovelha e o exército de Eolgar, na condição de que Fiachna desse seu anel dourado para ele como uma prova de que ele poderia ir até sua esposa e engravidá-la. Vendo que essa era a única forma de ganhar a batalha, Fiachna aceita e Manannan tira de sua capa um cão de caça e o liberta, matando a ovelha e toda a tropa de Eolgarg. Após isso, Manannan vai até a Irlanda e engravida a esposa de Fiachna no mesmo dia, que mais tarde deu a luz à Mongan Finn. Quando a criança completou três dias de vida, Manannan veio até ele e o levou para a Terra da Promessa, jurando que não o deixaria voltar até que tivesse doze anos de idade.

Em outra versão do conto de nascimento de Mongan, diz-se que seu “pai”, Fiachna Lurg, foi chamado por Aedan até a Escócia para ajudá-lo na guerra contra os saxões. Fiachna parte para a Escócia e deixa sua esposa em sua fortaleza em Rathmore de Moylinny, que posteriormente é visitada por Manannan na forma de um estranho. Ele pergunta onde que poderiam fazer sexo, e a esposa de Fiachna diz que não envergonharia seu marido por qualquer tesouro do mundo, e Manannan então conta que Fiachna está em grande perigo na Escócia e o ajudaria caso a mulher gerasse um filho para ele. A mulher consente e no dia seguinte Manannan parte para a Escócia a fim de ajudar Fiachna e Aedan vencerem a guerra contra os saxões. Ao chegar em sua fortaleza, Fiachna encontra sua esposa grávida e cria Mongan como seu próprio filho.  

No mito ‘O leito de Cuchulain e o único ciúme de Emer’, é relatado que quando Emer soube que Cuchulain e Fand (a esposa de Manannan) estavam tendo relações, ela reúne cinquenta mulheres para recuperar seu parceiro, e Fand então vê que não seria apropriado permanecer com o guerreiro. Este relacionamento então é relatado para Manannan, que vai até ela em Newry, onde ela ficou com Cuchulain durante um mês. Quando Manannan chega, ninguém podia vê-lo, apenas Fand, que ficou aterrorizada e triste. Ela então canta uma poesia para Manannan dizendo que seria apropriado ela ir embora com seu marido, pois Cuchulain “a havia deixado em desvantagem”. Manannan pergunta se Fand prefere ir ou ficar, e ela responde que irá com seu marido já que Cuchulain a havia abandonado por Emer. Depois disso, Manannan sacudiu seu manto entre Cuchulain e Fand para que eles se esquecessem um do outro e nunca mais se encontrassem.

Há uma curiosa história em ‘O Colóquio com os Anciões’, onde Aillén mac Eogabail, um guerreiro dos Tuatha Dé Danann, se apaixona pela esposa de Manannan mac Lir, cujo nome era Uchtdelbh (“Seio Formoso”), a filha de Angus Finn, enquanto que Áine, a irmã de Aillén e também filha de Eogabal, se apaixona pelo próprio Manannan, que a considerava “mais querida do que todas as tribos humanas”. Quando Aillén confidencia para Áine que estava apaixonado por Uchtdelbh, Áine conforta seu irmão dizendo que Manannan estava apaixonado por ela, e assim, ela o convenceria a dar sua esposa para ele. Os dois então vão até Manannan e Uchtdelbht, e ao chegarem, Áine se senta ao lado direito de Manannan e dá três apaixonados beijos nele, e quando sua esposa vê Aillén, ela se apaixona imediatamente. Sendo assim, Manannan entregou sua esposa para Aillén e tomou sua irmã como sua amada.

                Manannan mac Lir também aparece no conto ‘O Velho do agasalho marrom’, onde é relatado os seguintes acontecimentos: Finn estava com os fianna em um grande encontro, onde viram uma poderosa e bélica embarcação vindo até eles. Da embarcação desceu um guerreiro que se identificou como o filho do rei da Tessália, Cael an Iarainn. Cael então diz que imporia seu reinado e tributo na Irlanda a menos que houvesse um guerreiro que o vencesse em uma corrida, em um combate singular ou em uma luta corpo-a-corpo. Finn então parte para Tara a fim de encontrar Caoilte mac Ronan, mas no caminho passa por uma floresta e encontra um velho gigante e rústico, com a pele amarelada, unhas dos pés grandes e vestindo uma roupa marrom – o Bodach an Chóta Lachtna. Eles conversaram, Finn relata tudo o que aconteceu e o Bodach diz que Caoilte não é a pessoa apropriada para competir com Cael, mas sim ele próprio. Os dois então voltam até Cael e os fianna, e o Bodach e Cael decidem que farão uma corrida partindo de Slieveluachra até o lugar onde estavam agora, Ben-Edar. Os dois partem para Slieveluachra até o entardecer para que na manhã seguinte pudessem competir a corrida. Chegando lá, o Bodach pede ajuda à Cael para construírem uma casa a fim de passarem a noite, mas Cael recusa. O Bodach vai então até o bosque mais próximo e traz madeiras e juncos para o telhado e piso, construindo dessa forma a sua casa. Ele volta novamente para a floresta e caça um javali, colocando-o para assar enquanto e dirige até a casa de um barão, trazendo de lá uma mesa, cadeiras, pratos, pães e dois barris de vinho. Ele come metade do javali, dois pães e um barril de vinho, deixando a metade destes alimentos para o café da manhã do dia seguinte, e vai dormir. Quando a manhã chega, Cael o acorda mas o Bodach diz que não dormiu o suficiente, e sendo assim, deixaria Cael ir correndo em sua frente enquanto ele dormia mais um pouco. Cael começa a corrida e quando o Bodach acorda, toma calmamente seu café da manhã, e depois, parte para a corrida correndo tão velozmente que em pouco tempo alcança Cael. Na corrida, ambos tentam se atrasar de diversa formas: na primeira vez, o Bodach espalha os ossos de javali que comeu na frente de Cael para tentá-lo, já que Cael não comia nada desde a noite anterior. Em seguida, o Bodach para em certo lugar da estrada para comer amoras (a fruta que ele ama, inclusive), e quando Cael passa por ele, ele diz que parte de sua roupa de baixo estava pendurada em alguma outra árvore da estrada. O Bodach olha para baixo, e ao ver sua peça faltando, recua na estrada para buscar sua roupa, e ao encontrar, a costura fazendo dela uma grande bolsa. Ele enche essa grande bolsa de amoras e parte velozmente até chegar aonde Finn e os fianna estavam, e lá, prepara uma farinha e amoras para comer, pois grande era seu amor por farinha com amoras. Ao ver Cael furioso indo em direção a eles, pronto para brigar, o Bodach arremessa uma grande bola de farinha e amoras na cabeça de Cael, arrancando-a. Cael procura por sua cabeça e depois a coloca de volta em seu corpo, com o seu rosto virado para trás. O Bodach vai até ele e lhe diz para ir embora e entregar anualmente aos irlandeses os tributos de sua terra, a Tessália, se ele quisesse voltar à sua aparência antiga. Cael faz promessas ao Bodach, que com a ponta dos dedos o coloca de volta em seu barco e com um chute, o lança para o mar. E assim, a Irlanda é salva pelo Bodach, a forma disfarçada que Manannan mac Lir usou para testar Cael e ajudar Finn e os fianna.

                No Dunaire Finn, ou O Livro das Leis de Fionn13, é contada a história de Aoife, a filha de Delbaeth, e Iuchra, ambas apaixonadas por Ilbhreac, um dos filhos de Manannan. Com ciúmes de seu amado, Iuchra chama Aoife para nadar, e ao entrar na água, Iuchra a transforma em uma grua, profetizando depois que Aoife ficaria daquela forma durante duzentos anos até a sua morte na casa de Manannan, com todos zombando dela e sem poder ir para a terra, e que ao final de sua vida, Manannan faria uma bolsa com sua pele onde guardaria seus tesouros. Quando Aoife morreu, Manannan pegou sua pele e fez uma bolsa chamada “A Bolsa de Grua”, onde ele guardava todos os itens mágicos, alguns dos quais já enumerei em um dos parágrafos anteriores. Quando a maré do mar estava alta, os itens mágicos podiam ser vistos, mas quando a maré estava baixa, os itens desapareciam dentro da bolsa. Manannan emprestou a Bolsa de Grua para Lugh, até ele ser morto pelos três filhos de Cermait Boca de Mel, pertencendo a eles até serem mortos pelos Filhos de Mil. Manannan então veio e pegou de volta sua Bolsa de Grua e não mostrou para nenhum homem até Conaire, que dormia um dia nas planícies de Tara, e ao acordar, encontra a bolsa em volta de seu pescoço.

                Na mesma fonte citada acima, há uma versão alternativa da morte de Balor na Segunda Batalha de Moytura, onde Balor implora para Lugh um pequeno adiamento antes de ser decapitado, dizendo que se ele colocasse a sua cabeça na própria cabeça de Lugh, Balor poderia concedê-lo suas bênçãos. Lugh não aceita seu pedido e crava sua cabeça em uma forquilha de aveleira na “Montanha da Aveleira Branca”. Um “leite” venenoso escorre daquela cabeça e fez partir a árvore em uma forquilha. Durante cinquenta anos, a aveleira permaneceu abandonada e se tornou a morada de abutres e corvos. Andando por aquele lugar, Manannan viu a árvore distinta e sem folhas entre as outras árvores. Ele envia três grupos de nove homens para cavar aquela árvore, mas os vapores venenosos que saíram da raiz mataram os dois primeiros grupos e cegou o terceiro. Luchta o Carpinteiro foi chamado para fazer um escudo com aquela madeira para Manannan. Este escudo era de uma coloração marrom avermelhada em algumas horas, e em outras, escarlate ou dourada. Era intocável em batalha e causava uma derrota de toda a tropa inimiga. Manannan deu o escudo como presente de casamento para o rei de Sigear, e ao Cairbre fazer um poema de louvor ao belo escudo, Siegar acaba por presenteando o poeta com o item. Posteriormente, Cairbre dá o escudo para o Dagda, que por sua vez dá para seu neto Eitheor (que foi chamado de Mac Cuill, “Filho da Aveleira”, por ele cultuar a aveleira que formou o escudo). Mac Cuill morreu na batalha de Tailtiu e o escudo ficou na posse dos homens de Fir Menia até Manannan matar seus batalhões e pegar o escudo de volta, e quando Tadg, filho de Nuada, nasce, ele lhe presenteia com o artefato mágico.

                Manannan mac Lir aparece para Cormac em uma manhã de Beltane nos jardins de Tara. O deus aparece na forma de um guerreiro pacífico e grisalho carregando um ramo de prata com três maçãs douradas penduradas, cuja música que era produzida ao chacoalhar aliviava as dores de todas as doenças e fazia com que os enfermos adormecessem. Manannan diz que vem da Terra da Promessa e Cormac fica encantando com o ramo, pedindo-o para Manannan. O deus concede após fazer Cormac prometer que ele deveria cumprir os três pedidos que futuramente Manannan lhe fizesse, e após entregar o ramo para Cormac, Manannan desaparece. Um ano depois, Manannan vai até a corte de Cormac em Tara e diz que levará sua filha Ailbe. Como não poderia recusar, Cormac aceita e todas as mulheres em Tara gritaram e lamentaram pela filha do rei, mas Cormac chacoalha o ramo e faz cantar uma doce música que fez desaparecer toda a sua dor e as colocou para dormir. Um mês depois, Manannan retorna e leva consigo Carpre Lifechair, o filho de Cormac. Todos ficaram tristes pela partida do menino, mas Cormac novamente chacoalha o ramo e sua tristeza vai embora. Na terceira vez, Manannan vem e leva consigo a esposa de Cormac, Ethne dos Longos Flancos, mas dessa vez Cormac não conseguiu suportar. Após ser levada, Cormac os segue até uma grande névoa vir sobre ele levando-o para a Terra da Promessa. Lá, Cormac viu uma casa de prata branca com metade de seu telhado coberto com penas brancas e vários cavaleiros indo até o telhado carregando mais penas brancas a fim de cobrir a cobertura completamente, mas um sopro de vento espalhava as penas e nunca os deixavam terminar sua tarefa. Depois, Cormac viu um homem acendendo uma fogueira e colocando nela um grande carvalho; quando o homem ia buscar outro carvalho para alimentar a fogueira, o carvalho anterior já havia sido consumido por completo. Mais adiante, Cormac entrou em uma fortaleza rodeada por um muro de bronze, e dentro da fortaleza, entrou em um palácio com vigas de bronze, cerca de prata e telhado de penas brancas. Lá ele viu uma fonte com cinco rios saindo dela e nove aveleiras crescendo sobre a fonte. Várias tropas de cavaleiros e revezavam para beber a água, e na fonte, as aveleiras produziam avelãs que alimentavam os salmões que viviam na água. Dentro do palácio, um casal esperava por Cormac, e após ele chegar, um outro homem entrou carregando um machado, uma tora de madeira e um porco vinha atrás de si. Manannan, até então um estranho para Cormac, diz para o homem que entrou preparar o porco, e este cria a lenha com a tora de madeira, colocando o porco para assar no caldeirão, mas ao ser solicitado para virar o porco, o homem diz que nada faria o porco cozinhar, a menos que quatro histórias verdadeiras fossem contadas.

O homem que abateu o porco conta sua história: ele diz que um dia estava andando pelos seus campos e encontrou as vacas de outro fazendeiro, levando-as para seu curral. O dono das vacas vai até ele e em troca de suas vacas, dá ao homem uma tora que produz lenha, um machado e um porco para consumo, dizendo que a tora ficaria inteira novamente no dia seguinte e o porco voltaria a vida após ser abatido e consumido desde que ambos fossem cortados com o machado dado por ele. A história revela-se verdadeira e um quarto do porco foi cozido. Manannan então conta sua história, dizendo que já havia chegado a hora de arar na Terra da Promessa, mas quando os ilhéus foram arar os campos, já os encontraram arados, gradados e semeados com trigo. Quando foram colher, já encontraram os feixes colhidos e empilhados. Quando foram tirar os feixes dos campos e colocá-los em outro lugar, já os encontraram empilhados em outro lugar, e desde aquele dia eles consomem o trigo daquela colheita. A história revela-se verdadeira e metade do porco é cozida. A mulher que estava com Manannan, usando um elmo dourado, conta a sua história, dizendo que ela possui sete vacas e sete ovelhas – o leite das sete vacas, ela diz, é o suficiente para alimentar o povo da Terra da Promessa, e a lã das sete ovelhas é o suficiente para tecer as vestimentas de seu povo. A história novamente revela-se verdadeira e três quartos do porco é cozido. Chega então a vez de Cormac, dizendo a história de sua esposa e de seus filhos que haviam sido tirados dele e conta sobre sua viagem até aquele palácio, e com a história sendo verdadeira, o porco inteiro ficou cozido. Uma porção do alimento foi colocado na mesa para Cormac, mas ele diz que não poderia comer sem ter cinquenta de seus homens presentes. Manannan coloca Cormac para dormir através de uma música, e ao acordar, Cormac vê cinquenta homens junto com sua esposa, filho e filha. Cormac se alegrou e todos comeram e beberam felizes, e depois disso, Manannan coloca uma taça dourada na mão de Cormac, dizendo que ela era capaz de saber se uma pessoa dizia a verdade ou a mentira, já que ela se partiria em três partes se alguém contasse três mentiras, e restauraria sua forma se alguém contasse três verdades. Manannan então se apresenta como o deus e diz para Cormac levar a Taça e o Ramo, mas no dia em que morresse, todas essas coisas lhe seriam tomadas. Em seguida, Manannan explica que os cavaleiros que tentavam cobrir a casa com penas brancas representam os homens em seus esforços em adquirir riqueza e gado que se esvaem; o homem alimentando a fogueira simboliza um jovem senhor que saiu da casa de seus pais, e que agora, paga por tudo o que consome; e a fonte que produz cinco rios simboliza a Fonte da Sabedoria, com os cinco rios representando os cinco sentidos (paladar, audição, olfato, tato e visão), através dos quais a sabedoria é adquirida. Quando Cormac acorda na manhã seguinte, ele se vê de volta a Tara com sua esposa, filho e filha, junto com a Taça e o Ramo, que pertenceram a ele até o dia de sua morte, no qual, conforme prometido, Manannan veio e reivindicou suas posses.

Além de todos as lendas manêsas já citadas, há ainda um interessante conto onde Manannan aparece como um deus brincalhão e “trapaceiro”. A história se passa da seguinte forma: um pastor foi pastorear suas ovelhas no topo da montanha de Snaefell em um entardecer de inverno. Quando viu que estava anoitecendo, ele reuniu todas as ovelhas para contá-las antes de ir para casa, e foi então que viu um homem de aparência grosseira vestindo roupas esfarrapadas indo em sua direção através da neblina. Os dois se cumprimentam e o pastor diz que estava contando as ovelhas para ir para casa, mas o homem diz que fazer o caminho para casa é uma tarefa difícil. O pastor responde que isto não seria uma tarefa difícil, desde que saiba o caminho. Logo em seguida, o pastor então escuta uma alta gargalhada com uma voz de zombaria e o homem misterioso e suas ovelhas desaparecem, ficando uma neblina bastante espessa em volta do pastor. “Conte tuas ovelhas agora! Tu sabes o caminho de casa?”, disse o homem esfarrapado em tom de deboche. O pastor de ovelhas então soube que era uma fada que lhe pregava peças, e de repente, se viu em outro lugar com grandes rochas aparecendo atrás da neblina para assustá-lo. O terror tomou conta e ele desiste de procurar uma saída para sua casa, sentando-se e esperando que o homem tirasse a neblina. Assim que ele se senta, o homem esfarrapado aparece em sua frente e lhe devolveu as ovelhas, após tê-las marcado para que ele pudesse contá-las com facilidade. Manannan os trouxe para o mesmo lugar de antes e o pastor pôde ver a estrada para sua casa. “Que tipo de homem fada andarilho és tu, pregando peças em um pobre homem que nunca lhe fez mal?” perguntou o pastor, mas quando vê o homem de antes, ele não tinha mais a aparência esfarrapada, mas agora estava mais alto e brilhava, indo embora de Snaefell no meio da neblina. Uma voz suave lhe responde: “Quem seria, senão o Rei dos Andarilhos, viajando pela terra e pregando agradáveis peças em pessoas iguais a ti para me divertir?” Depois disso, o pastor ganhou um grande dinheiro com suas ovelhas e tornou-se o homem mais rico da região.

Por último, a mitologia nos conta que ele incendiou a colina de Bri Leith, matando o deus Midir e sua esposa Fuamnach, e normalmente é aceito que ele foi morto por Uillen das Sobrancelhas Vermelhas na batalha de Cuillen, lutando pelo reinado de Connaught.

Descrever a família de Manannan é um pouco complicado, já que a mitologia, no geral, é frequentemente bastante confusa e divergente quando se trata de genealogias. Para começar, há pelo menos quatro pais diferentes para Manannan: Alloth (morto pelo fomoriano De Domnand), Cerp, Athgno e, o mais comum, Lir (cujo nome significa “mar” e é normalmente aceito que ele seja a personificação do próprio elemento). Enquanto que alguns estudiosos supõem que estes são nomes diferentes para Lir, a hipótese é incerta já que Lir só aparece em um caso na mitologia e os personagens citados não aparecem em nenhum outro lugar. Diz-se que foi o filho adotivo do próprio Dagda, e foi o pai de muitos filhos e filhas: Curcog (que liderou o bando de donzelas de Óengus), Mongan (um herói mortal), Áine (que em algumas versões é sua filha, e em outras, sua esposa), Ibel (que foi morto por envolver-se com uma mulher mais velha), Aife, Ilbhreac, Gaidiar (que se envolveu com Becuma), Clíodna (que aparece como sua filha em algumas versões de sua história) e Craoibhfinn. Sua esposa é normalmente vista como sendo Fand, mas em outros mitos, ele também aparece como o marido de Uchtdelbh (cujo nome significa “Seio formoso” e que se apaixona por Aillén, o irmão de Áine) ou de Áine (que em algumas variações dos mitos é sua esposa), e teve Caintigern como amante (a mãe de Mongan e esposa de Fiachna), assim como se apaixonou por Tuag, mas esta morreu antes de chegarem a se conhecer. Manannan é irmão de Fionnuala, Aodh, Fiachra, Conn (todos transformados em cisne por ciúmes de sua madrasta Aoife), Lodan Lucharglan (o pai de Sinnan, a deusa que “pariu” o rio Shannon) e Bron (um personagem mitológico que limpou uma planície de árvores nomeando-a posteriormente Mag Broin). Sua mãe é desconhecida.

Através dos mitos, podemos associar Manannan com as seguintes plantas e árvores: a macieira (uma de suas ilhas se chama Emain Ablach, “Emain das Macieiras”, e ele possui um ramo de prata com maçãs douradas), a amora-silvestre (cujo fruto é muito amado pelo Bodach, personagem identificado como Manannan), o junco (uma planta aquática cujos feixes eram oferecidos ao deus na véspera do solstício de verão, a aveleira (seu escudo era feito da madeira dessa árvore e em seu palácio crescem nove aveleiras em volta da Fonte do Conhecimento); como um deus do mar, é razoável pensar que todas as algas são associadas ao deus, já que o folclore da Escócia nos diz que as pessoas oravam para Shony (que se acredita ser uma forma cristianizada de Manannan) pedindo uma boa “colheita” de algas para que pudessem fertilizar seus campos. Como possui relações com a macieira e a aveleira, pode-se associar as letras Ogham14 quert e coll com o deus. A mitologia e o folclore não nos fala de nenhuma cor específica relacionada com Manannan, mas como um deus do mar, podemos intuitivamente eleger o azul como sua cor, representando as águas do oceano. Os lugares que a tradição associa com ele são: o mar, obviamente, assim como praias, baías (como um de seus títulos sugerem) e promontórios. Toda a Ilha de Man é de seu domínio, em especial, Snaefell, Barrule do Norte, Bayr ny Managhan (“A Estrada de Managhan”), o Castelo de Peel, Barrule do Sul (onde são feitas suas oferendas) e Keanmool (onde também são feitas suas oferendas). Na Irlanda, temos Slieveluachra (onde o Bodach passou a noite com Cael), Lago Ruidi, Lago Cuan, Lago Dacaech (estes três quando seu filho Ibel foi morto), Lago Conn (onde sua matilha morreu afogada), Umall (onde ele criou uma barreira de bronze ao seu redor), o condado de Limerick, Bekan (no condado de Mayo e onde tinha seu castelo), Lago Foyle (onde acredita-se que ele possui seu castelo encantado), Derry, Donegal, as Ilhas Arran (onde algumas tradições dizem ser seu lar, e são meio que ilhas de pescadores), Lago Corrib (que surgiu após ser enterrado em sua planície) e a província de Connaught (diz-se que ele morreu em uma batalha para ter o domínio sobre a província). Como um deus do outro mundo, ele tem ligação com tal, em especial a Terra da Promessa, Emain Ablach e Cruitin na Cuan. As oferendas tradicionais para ele é o feixe de juncos (que ele recebe na Ilha de Man), o ale, sangue de cabras e ovelhas e mingau amanteigado (estas três últimas são as oferendas que Shony recebia na Escócia), mas me parece razoável ofertar também maçãs, amoras, avelãs, algas marinhas, sal marinho, água, água do mar, conchas, pedras do mar e miniaturas de barcos. O folclore e o creideamh-sí15 dizem que queijo, leite, manteiga, caudle, bannock, mingau, bolos de aveia, ovos, carne, sal, flores, música, poesia, dentre muitos outros, são oferendas aceitáveis para todo o povo do Sídhe, logo, qualquer uma dessas oferendas são apropriadas para qualquer divindade que pertença à raça dos Tuatha Dé Danann. Seus animais podem ter sido os cavalos (as ondas do mar são chamadas de ‘os cavalos do filho de Lir’), porcos, peixes no geral (como deus associado à pesca), baleias (ele possuía um cinto feito com os “ossos de uma grande baleia”), cães de caça, gruas, cabras e ovelhas. Como deus marinho, me parece apropriado que toda criatura marítima tenha relação com Manannan. Orações para o deus podem ser feitas em qualquer ocasião, mas me parece mais razoável fazê-las, assim como os ritos, em praias ou lagos, em uma ocasião com muita neblina ou no topo de montanhas. Como deus do mar, suas ofertas podem ser jogadas lá (tomando o devido cuidado de ofertar alimentos ou outras oferendas biodegradáveis para não poluir seu reino natural), e o solstício de verão é a melhor época para homenageá-lo assim como as noites de lua cheia, conforme atestado no folclore.

E finalmente terminamos! Com toda a informação dada, podemos ver a quão poderosa e importante foi a figura de Manannan mac Lir na mitologia gaélica em geral. Sempre descrito como um exímio feiticeiro, ele presenteou os deuses com a grande dádiva da imortalidade. O Filho de Lir é o rei do outro mundo, e foi ele quem também presenteou os Tuatha De Danann com os seus palácios encantados no interior das colinas e acolheu outros em suas ilhas localizadas no mar ocidental – seu reino natural. Ele é o deus do mar e de tudo o que envolve: pesca, prognosticação do tempo, barcos e muito mais. Ele é o senhor que transita para lá e cá, entre esse mundo e outro, convidando guerreiros, reis e heróis até seu reinado, tentando-os e testando, para no fim, conceder suas bênçãos, seu conhecimento e seus presentes.      

Resumo

Nomes e títulos: Manannan (supõe-se que signifique “Ele de Man”) mac Lir (“Filho de Lir/Mar”), Orbsen, Bodach (“Velho”), Manannan mac y Leirr, Manannan Beg mac y Leirr (“Pequeno Manannan filho de Leirr/Mar”), Maninagh (“O manês”), Managhan Beg (“Pequeno Managhan”), Manannan o Ree, O Velho Rei, Rei dos Andarilhos, Amigo dos Navegantes, Grande Companheiro Esfarrapado, Manannan das Chamas, Ele, Manannan da Baía, Manannan do Rico Tesouro, Gracioso Manannan, Poderoso Monarca e Onipotente Manannan.   

Parentescos e linhagem divina: Filho de Lir (o deus do mar), ou em outros casos, de Alloth, Cerp ou Athgno (é incerto que sejam nomes diferentes para Lir), com mãe desconhecida. Foi pai de muitos deuses e deusas, incluindo Curcog, Áine, Ibel, Aife, Ilbhreac, Gaidiar, Clíodna, Craoibhfinn, e o herói Mongan. Teve Fand como esposa, e em outros mitos, Uchtdelbh ou Áine (ao invés de sua filha) também são retratadas como suas esposas, teve Caintigern como amante e teve um amor não consumado por Tuag. Manannan é irmão de Fionnuala, Aodh, Fiachra, Conn, Lodan Lucharglan e Bron. Foi o filho adotivo do Dagda.

Características físicas e temperamento: Na maioria dos casos, é descrito como um homem de aparência muito nobre. Já apareceu como um guerreiro, vestindo um manto verde preso por um broche de prata, com uma camisa de cetim por baixo. Ele usava uma argola de ouro em sua cabeça e calça duas sandálias douradas. Para Cormac, ele apresentou-se como um guerreiro grisalho, usando um manto roxo franjado por cima de uma camisa estriada com fios de ouro e calçava dois rudes sapatos de bronze. Na Ilha de Man, ele foi visto como um homem alto e de cabelos negros, com as roupas e o corpo como “água jogada no fogo”; ele brilhava e tinha uma espessa neblina em sua volta, e a tradição manêsa também nos conta que ele tinha três pernas, dando origem ao conhecido símbolo gaélico – triskele. Em alguns casos, ele aparece como um velho com proporções gigantescas e rústicas, com a pele amarelada, unha dos pés grandes e vestindo uma roupa marrom – o Bodach. 

Atributos: Mar, praias, baías, promontórios, pesca, barcos, navegação, previsão do tempo, feitiçaria, outro mundo, neblina, ondas, cavalos, lagos e “artesanato divino” (itens mágicos). Protetor dos pescadores, dos navegantes, dos andarilhos, dos poetas e dos mendigos. 

Contos e histórias: Os mitos que ele desempenha um papel importante são – ‘A nutrição da casa dos dois baldes de leite’, no qual ele ajuda Óengus a ganhar o Brugh na Boinne para si, ‘A aventura de Cormac na Terra da Promessa’, onde ele dá a Taça Dourada para Cormac, no mito de morte de Aoife transformada em grua, quando ele tira sua pele para fazer uma bolsa mágica, em ‘O cortejo de Luaine e a morte de Athirne’, ao invadir e pilhar Ulster após a morte de Náisi, um de seus grandes amigos. Na ‘Viagem de Bran’, aparecendo para Bran no mar convidando-o para as suas Ilhas Encantadas, no ‘Leito de Cuchulain e o único ciúme de Emer’, indo buscar Fand e fazendo com que ela e Cuchulain esquecessem um do outro, no ‘Nascimento de Mongan’, gerando seu filho mortal após ajudar Fiachna, no conto de Tuag que morreu afogada, no Colóquio com os Anciões, quando trocou sua esposa Uchtdelbh por Áine, nas ‘Aventuras de Art mac Conn’, ao expulsar Becuma da Terra da Promessa, no ‘Velho do agasalho marrom’, quando ajudou Finn e os fianna a expulsarem um guerreiro que ameaçava controlar o país, no mito em que ele faz o seu escudo de aveleira. Na Ilha de Man, ele é lembrado em diversos contos folclóricos, protegendo a ilha com barquinhos de madeira transformando-os em poderosas embarcações bélicas, escondendo a ilha em um nevoeiro espesso, amedrontando os pastores de ovelhas, dentre outros.     

Cores: Nenhuma é mencionada no folclore ou na mitologia, mas como deus do mar, podemos intuitivamente associá-lo com o azul.

Árvores e plantas: Na mitologia é mencionada a aveleira, a macieira e a amora-silvestre como árvores com possível ligação com ele. Através do folclore, podemos associá-lo com os juncos e algas marinhas.

Animais: A tradição nos fala de cavalos, ovelhas, cabras, baleias, peixes no geral, gruas e cães de caça. Como deus do mar, podemos relacioná-lo com todos os animais marinhos.

Lugares: Como deus do mar, obviamente o próprio reino, assim como praias e baías. A Ilha de Man inteira é de seu domínio, em especial, Snaefell, Barrule do Norte, Bayr ny Managhan, Castelo de Peel, Barrule do Sul e Keanmool. Na Irlanda temos Slieveluachra, os lagos Ruidi, Cuan, Dacaech, Corrib, Conn e Foyle, Umall, o condado de Limerick, Bekan, Derry, Donegal e as Ilhas Arran e a província de Connaught.

Instrumentos, armas e posses: O Ramo Prateado de macieira com flores brancas e maçãs douradas, a Capa de Invisibilidade, a Crann Buidhe, a Armadura de Manannan, o Elmo de Manannan, a Moralltach, a Fragarach, o Cinto de Goibhne, o Porco Mágico, o Cinto de Ossos de baleia, o Escudo de Fionn, a Lã do Rei da Escócia, o Scuabtuinne, Enbarr da Juba Fluída, a Taça de Cormac e os Cães de Manannan. Fiz uma descrição mais completa desses itens em um parágrafo no texto.     

Símbolos: Tradicionalmente, temos a triskele, que é a bandeira da Ilha de Man e simboliza as três pernas do deus. Hoje, podemos supor que imagens de barcos, âncoras, peixes (e outros símbolos marinhos em geral) são símbolos apropriados para representá-lo. As letras Ogham quert e coll também podem ser usadas para ele.  

Festivais: Tradicionalmente, o solstício de verão.

Oferendas: As oferendas tradicionais são feixes de juncos, ale, sangue de cabras e ovelhas e mingau amanteigado. Me parece apropriado ofertar também maçãs, amoras, avelãs, algas marinhas, sal marinho, água do mar, conchas, pedras do mar, miniaturas de barcos, poesias sobre/louvando o mar e cânticos louvando o mar e seus tesouros. O folclore diz que queijo, leite, manteiga, caudle, bannock, mingau, bolos de aveia, ovos, carne (de peixe, no caso de Manannan) e flores (que crescem próximo de praias, no caso de Manannan) são oferendas aceitáveis para todo o povo do Sídhe. Práticas positivas em relação aos oceanos também são bem vistos por Manannan, como catar lixos de praias, evitar o consumo de peixe (através de pesquisas recentes sabemos que a pesca predatória está devastando os ecossistemas marinhos) ou não comer peixes ameaçados de extinção, não comprar pedras de corais ou pérolas, envolver-se em projetos de preservação da vida marinha, dentre muitas outras coisas.

Material devocional: Oração para Manannan mac Lir

Bibliografia e literatura recomendada

Lebor Gabála Érenn, O Livro das Invasões da Irlanda
Tochmarc Étaíne, O Cortejo de Etain
Cóir Anmann, A propriedade dos nomes (em inglês)
Tochmarc Luaine ocus Aidedh Aithairne Andso, O cortejo de Luaine e a morte de Athirne
Immram Brain, A Viagem de Bran
Serglige Con Culainn ocus Óenét Emire, O leito de Cuchulainn e o único ciúme de Emer
Gods of Landscape and Lore”, de Annie Loughlin. (em inglês)
Metrical Dindshenchas, volume 3: Carn Amalgaid (em inglês)
Metrical Dindshenchas, volume 3: Tond Clidna I e II (em inglês)
Metrical Dindshenchas, volume 4: Tuag Inber (em inglês)
Metrical Dindshenchas, volume 4: Benn Boirche II (em inglês)
Metrical Dindshenchas, volume 4: Umall (em inglês)
Prose Tales of Renne Dindshenchas, volume 1: Benn Étair (em inglês)
Prose Tales of Renne Dindshenchas, volume 2: Loch Con (em inglês)
Prose Tales of Renne Dindshenchas, volume 4: Tuag Inbir
Prose Tales of Renne Dindshenchas, volume 4: Benn Boirchi (em inglês)
Acallam na Senórach, O Colóquio com os Anciões (em inglês)
Cath Dédenach Maige Tuired, A Segunda Batalha de Moytura
Oidheadh Chloinne Tuireann, O destino dos filhos de Turenn
Aided Chloinne Uisnig, A morte dos filhos de Uisnech
Bodach an Chóta Lachtna, O Velho do agasalho marrom
Scél na Fir Flatha, Echtra  Chormaic i Tír Tairngire, As provações irlandesas e a Aventura de Cormac na Terra da Promessa
Táin Bó Cúalnge, o Roubo do Gado de Cooley (em inglês)
Duanaire Finn, O Livro das Leis de Fionn (em inglês)
SPAAN B. David, “The Place of Manannan mac Lir in Irish mythology”. Folklore, volume 3. Folklore Enterprises, ltd. (em inglês; é necessário ter conta no JSTOR para acessar o artigo)
MUHR, Kay. “Water Imagery in Early Irish”. Celtica 23. School of Celtic Studies. (em inglês)
MORRISON, Sophia. “Manx Fairy Tales”. London, 1911.
MOORE, A. W. “The Folklore of Isle of Man”. 1891. (em inglês)
WENTZ, W. Y. Evans. “The Fairy Faith in Celtic Countries”. 1911. (em inglês)
KNEEEN, J. J. “Before the Norsemen came”. 1936. (em inglês)
Manannan: The Sea God of Man”. Journal of the Folk-Song Society, vol. 7, n. 28, Manx Collection, Part I. (em inglês; é necessário ter conta no JSTOR para acessar o artigo)
Os Contos de Mongan. (em inglês)

FAND
Deusa do outro mundo

                Fand (não encontrei a pronúncia de seu nome) é uma das esposas de Manannan mac Lir, normalmente aceita como sendo a sua “oficial”. Pertencendo aos Tuatha Dé Danann, ela é uma divindade que possui atributos não muito definidos como seu marido, por exemplo. Ela faz aparição em unicamente um mito, ‘O leito de Cuchulain e o único ciúme de Emer’, onde são relatados seus esforços para trazer o guerreiro Cuchulain para seu palácio no outro mundo a fim de seduzi-lo.

                Não existe uma tradução definida para seu nome, mas no mito onde ela aparece, há pistas de que possa significar “lágrima”, como explicado na seguinte passagem: “Fand era a filha de Aedh Abrad, isto é, Aedh é o fogo, o fogo do olho é a pupila. Assim, Fand é o nome da lágrima que passa pela pupila. Ela foi assim chamada por conta de sua pureza e beleza, pois não existia nada na vida com a qual ela poderia ser comparada.”

                É difícil traçar os atributos dessa deusa. A princípio, podemos cair na tentação de que ela seja uma deusa do mar. Não que ela não seja, mas existem poucas evidências que a apontem como tal. Podemos imaginar que, assim como ela é a esposa de um deus do mar e possui uma relação muito íntima com o outro mundo (o outro mundo no mar, como veremos no próximo parágrafo), ela também seja uma deusa marítima. Além disso, nos Métricos Dindshenchas temos uma passagem de que Len, um dos ferreiros dos Tuatha De Danann, construía os “brilhantes barcos de Flidais”, e a conexão com barcos, como já vimos no texto de Manannan, pode ser uma característica de uma divindade do mar.

                Fand pode ser apontada como uma deusa do outro mundo por ter algumas características como tal. Habitando Magh Mell (“Planície do Prazer”), um dos nomes para as ilhas do outro mundo, como vimos no capítulo de Manannan mac Lir, ela aparece pela primeira vez para Cuchulain na forma de um pássaro, acorrentada junto com sua irmã Lí Ban (também na forma de uma pássaro) por uma corrente dourada. Esse tema dos pássaros sobrenaturais também aparecem em outros contos, mostrando uma íntima ligação da figura em questão com o outro mundo, como no caso de Caer Ibormeith e Óengus mac Og. Em outras passagens dos mitos, diz-se que Fand mora em Inis Labraid, uma ilha no meio de um lago, acessada através de um barco de bronze. O palácio é descrito como o lar de cento e cinquenta mulheres, possuíndo também três árvores carmesim onde os pássaros cantam melodias para os jovens da ilha, uma árvore de prata onde o sol reflete seu brilho dourado e outras sessenta árvores sempre frutíferas de frutos variados que alimentam, cada uma, cem homens, além de ter também um recipiente cheio de hidromel que nunca se acaba.

                Como deusa do outro mundo, diz-se que Fand também possuía uma beleza extraordinária, sendo esse seu aspecto enfatizado em muitas passagens do mito citado onde ela aparece, resumindo-se de forma sucinta nas seguintes passagens: “Há uma donzela na nobre casa que excede todas as mulheres da Irlanda. Com cabelo loiro ela sai, é linda e toda talentosa. (...) O coração de todos os homens se parte pelo seu amor e afeição”, e “A aparência que é de Fand, eu deverei sempre dizer: não há ninguém entre eles que seja igual. (...) Uma bela mulher é Eithne Inguba, mas a mulher de quem eu falo tira o sentido das tropas.” É difícil dizer se ela é uma divindade ligada à beleza unicamente através dessas suas características já que a beleza sobrenatural é característica de muitas mulheres (e homens também) dos Tuatha Dé Danann. Além disso, após ter causado a doença de Cuchulain junto de sua irmã Lí Ban, o mensageiro enviado pelas duas deuses até Cuchulain em seu leito diz que Fand poderia curá-lo caso ele aceitasse desposá-la. Novamente, a cura para doenças normalmente é realizado por personagens sobrenaturais (como Lugh que curou Cuchulain no campo de batalha), e portanto, não quer dizer que seja um atributo propriamente dito da deusa.

                Como já mencionado, ela aparece unicamente no mito ‘O leito de Cuchulain e o único ciúme de Emer’, aparecendo para Cuchulain e os ultonianos16 em uma assembleia no Samhain pela primeira vez junto de sua irmã Lí Ban, acorrentadas por uma corrente dourada transformadas em pássaros sobrenaturais. Na assembléia, os pássaros voam até um lago e cantam uma canção que fez toda a tropa dos ultonianos adormecerem, e Cuchulain vai em direção a elas a fim de capturá-las para sua amante Eithne Inguba. O guerreiro tacou uma pedra duas vezes nos pássaros e errou, até que arremessou sua lança, atravessando a asa de um dos pássaros, fazendo-os cair na água. Cuchulain então vai embora de mau humor e um grande sono se apodera dele, fazendo-o sentar ao lado de uma pedra, onde dorme. Em seu sono, Fand e Lí Ban aparecem para ele e o chicoteou simultaneamente até ficar bem perto da morte, e em seguida, foram embora. Cuchulain acorda muito doente e os homens o levam para sua casa em Teti Breac. Lá, Angus – filho de Aedh Abrat, não o Angus filho do Dagda – aparece para Cuchulain e o convida para o outro mundo, dizendo que as duas irmãs poderiam curar sua doença caso ele desposasse Fand. Cuchulain então volta até a pedra onde ele adormeceu e encontra Lí Ban que diz ter sido enviada por Fand, que desenvolveu um grande aferto por ele, e diz que elas o chicotearam para que Fand pudesse ganhar o seu amor. Ela o convida para o outro mundo, dizendo que seele ajudasse seu marido Labraid na guerra contra Senach, Eochaidh n-Iuil e Eoghan Inbhir, ele lhe daria Fand. Cuchulain então envia seu cocheiro Laegh em seu lugar até Magh Mell para encontrar-se com Fand e Labraid. A esposa de Cuchulain, Emer, visita Cuchulain em seu leito e depois de enconrajá-lo e animá-lo, o guerreiro se recupera. Laegh volta e relata todas as maravilhas que viu no outro mundo e Cuchulain parte com Laegh até Magh Mell para se encontrar com Fand e Lí Ban. Lá, Cuchulain e Labraid vencem a batalha, a qual Labraid pedia ajuda para Cuchulain, e ele e Fand vão até Ibar-Cinn-Trachta (Newry), onde permanecem juntos durante um mês. É revelado então para Emer que seu marido estava lá com Fand e ela vai até eles com cinquenta mulheres com o objetivo de matar Fand. Manannan então aparece para sua esposa, que, embaraçada com a situação, decide ir embora com Manannan. No final, Manannan sacode seu manto entre os dois amantes para que se esquecesse um do outro e nunca mais se encontrassem novamente.

                Fand é filha de Flidais Foltchain em algumas fontes e Aedh Abrat em outras, sendo irmã de Lí Ban e Angus (provavelmente não o Angus mac Og, filho do Dagda), ambos filhos de Aedh Abrat; mas nenhuma fonte declara que Flidais e Aedh tinham alguma relação. Pelo lado de Flidais, ela também era irmã de Argoen, Be Chuille, Dinand, Be Theite e Nia Ségamain. Foi casada com Manannan e teve relações com Cuchulain durante um tempo. Não possuí filhas ou filhos conhecidos na mitologia, mas estipula-se que alguns dos filhos de Manannan sejam também seus filhos, já que não é mencionado suas mães, como Curcog, Áine, Ibel, Aife, Ilbhreac, Gaidiar e Clíodna.

                Não há vestígios de que possa ter sido cultuada no passado, e qualquer tentativa de culto moderno à ela será uma construção ao invés de reconstrução. Os pássaros podem ter sido sagrados à ela. Ela está associada com a Planície de Muirthemne, onde apareceu para Cuchulain, com a cidade de Newry (onde ela ficou com Cuchulain durante um mês), com Magh Mell e Inis Labraid no outro mundo. Através de suas características, podemos ofertá-la miniaturas de barcos (ela possui uma ligação com barcos, como os Métricos Dindshenchas apontam) e espelhos, o que seria apropriado para uma divindade descrita possuindo uma beleza extraordinária. Além disso, as ofertas do creideamh-sí podem ser usadas para oferecê-la, como leite, flores, joalheria, poesias, música, etc. Valendo lembrar que, tirando os lugares que realmente possuem uma conexão com ela, tudo nesse parágrafo se trata de uma gnose pessoal17 minha, para fornecer uma base de culto minimamente embasada para as pessoas que desejam cultuá-la.

                Assim, podemos concluir que Fand é uma deusa com grandes ligações com o outro mundo, o que nos leva a acreditar também que ela possa ter sido uma deusa do mar. Sendo descrita como uma grande beleza, o que é comum aos Tuatha Dé Danann, podemos afirmar que se trate de uma divindade, e portanto, digna de culto.

Resumo

Nomes e títulos: Fand (significando provavelmente “lágrima”)

Parentescos e linhagem divina: Filha de Flidais Foltchain em algumas fontes e Aedh Abrat em outras, sendo irmã de Lí Ban e Angus (provavelmente não o Angus mac Og, filho do Dagda), ambos filhos de Aedh Abrat; mas nenhuma fonte declara que Flidais e Aedh tinham alguma relação. Pelo lado de Flidais, ela também era irmã de Argoen, Be Chuille, Dinand, Be Theite e Nia Ségamain. Foi casada com Manannan e teve relações com Cuchulain durante um tempo. Não possuí filhas ou filhos conhecidos na mitologia, mas estipula-se que alguns dos filhos de Manannan sejam também seus filhos, já que não é mencionado suas mães, como Curcog, Áine, Ibel, Aife, Ilbhreac, Gaidiar e Clíodna.

Características físicas e temperamento: É descrita como uma mulher loira e sendo a mais bela das deusas, tal beleza que fazia “as tropas perderem os sentidos”. Foi descrita usando uma capa vermelha, e as vezes, pode se apresentar como um pássaro acorrentado por uma corrente dourada.

Atributos: O outro mundo, a beleza e possivelmente, o mar.

Contos e histórias: Figura unicamente no conto ‘O leito de Cuchulain e o único ciúme de Emer’.

Animais: Pássaros, provavelmente.

Lugares: Planície de Muirthemene (onde apareceu para Cuchulain), Newry (onde permaneceu com Cuchulain por um mês), Magh Mell e Inis Labraid (seu lar). Praias em geral, assim como o mar, podem ter uma conexão com ela.

Instrumentos: Chicote de cavalo (ela apareceu em um sonho para Cuchulain, junto de sua irmã Lí Ban, para chicotear Cuchulain com um chicote de cavalo) e a corrente dourada (com a qual ela ficou aprisionada com sua irmã Lí Ban).

Símbolos: Barcos (em referência aos “barcos brilhantes” feitos por Len para ela).

Festivais: Ela possui relações com o Samhain, aparecendo para Cuchulain e os ultonianos nessa data.

Oferendas: Espelhos, miniaturas de barcos, as ofertas prescritas pelo creideamh-sí, podendo ser flores, poesias do mar, hinos sobre sua beleza, etc.

Material devocional: Oração para Fand

Bibliografia e leitura recomendada

Serglige Con Culainn ocus Óenét Emire, O leito de Cuchulainn e o único ciúme de Emer

LÍ BAN
Deusa dos lagos e do outro mundo

                Lí Ban, tal como sua irmã Fand, não é uma divindade que possui atributos muito definidos. Pertenendo à raça dos Tuatha Dé Danann, ela foi a esposa do guerreiro Labraid Luathlám ar Claideb (“Labraid da Mão-de-espada rápida”), e um de seus mitos conta como atraiu Cuchulain para Magh Mell a fim de que ele ajudasse seu marido a travar suas batalhas, em troca do amor de Fand. Pode ter sido uma divindade importante, já que anos mais tarde, sua imagem foi supostamente adotada pelos cristãos, sendo substituida pela St. Murgen. 

                O nome Lí Ban foi traduzido por John Koch como “beleza de mulher”, e James McKillop sugere “protótipo/modelo ideal de mulher”. Mais tarde, passou a se chamar Muirghein (“Nascida do Mar”), Muirgheilt (“Prodígio do Mar”) e Fuinche (cuja tradução é desconhecida).

                Lí Ban aparece pela primeira vez na mitologia com sua irmã Fand na forma de um pássaro acorrentado por uma corrente dourada, conforme já foi dito no capítulo de Fand. É, definitivamente, uma deusa do outro mundo, tal como Fand, pelos mesmos motivos de sua irmã: pelo fato de habitar Magh Mell (“Planície do Prazer”) junto de seu marido Labraid, transformar-se em um animal com fortes associações com o outro mundo, por ser dona de uma grande beleza sobrenatural (tal como seu nome sugere) e por ser ela a curar parcialmente a doença de Cuchulain, que ela própria e Fand causaram.

                Mais tarde, confrontamos um outro mito ainda mais curioso sobre Lí Ban. Ela aparece como a filha de Eochaid mac Mairid, sendo afogada junto de sua família após um poço deixar toda a sua água escapar e alagar uma planície dando origem a um lago hoje conhecido como Lago Neagh. Toda sua família morreu, exceto Lí Ban, que abrigando-se em uma câmara debaixo do lago, foi transformada em “sereia”, e seu cachorrinho de estimação em uma lontra, e juntos ficaram vagando pelo lago por trezentos anos até ser descoberta por monges cristãos. Essa curiosa história pode nos dizer muito dos atributos dessa deusa, associando-a com os corpos hídricos, mais especificamente os lagos. Apesar de ter características incomuns com outras lendas gaélicas (como o caso da “sereia”), possui outras bastante comuns, como o caso do alagamento da planície sendo transformada em lago e o vazamento das águas do poço, bastante comum também nas lendas folclóricas da Escócia. Embora tenham o nome em comum, as duas Lí Ban possuem características diferentes, e se se trata de uma mesma deusa com duas lendas diferentes, é difícil dizer. Podemos presumir que, tal como Fand é associada ao mar por ter ligações com o outro mundo, Lí Ban (a irmã de Fand) também seja, fazendo assim um paralelo entre as duas personagens (a irmã de Fand e a sereia) conectando-as pelo menos com os elementos hídricos, mar e lago, no caso. Vale lembrar também que os lagos, assim como o mar e as colinas, são portais para o outro mundo, reforçando a hipótese de que se tratem realmente de uma única deusa.

                Além do mito ‘O leito de Cuchulain e o único ciúme de Emer’, que não vou repetir a história aqui, Lí Ban aparece em ‘A morte de Eochaid’, um mito extraído do Livro da Vaca Parda18, que se passa da seguinte forma: Eochaid, o filho de Mairid, fugiu com Eibhliu do Brugh na Boinne, a esposa de seu pai, após ela ter pressionado-o grandemente enchendo-lhe com suas fantasias. Ribh, o irmão de Eochaid, também partiu com eles junto de mil homens e também levando os rebanhos, mas seus profetas disseram que eles não conseguiriam efetizar um assentamento humano em lugar nenhum. Ribh então vai para outro lugar, onde morre afogado após uma fonte explodir do chão e afogar a todos, dando origem ao Loch Rí, ou, Lago de Ribh. Eochaid, por outro lado, consegue chegar até o Brugh na Boinne, e ao recusar irem embora, Óengus mac Og mata todos os seus cavalos. No dia seguinte, Óengus foi até eles e Eochaid disse que não iriam embora já ele tinha matado todos os seus cavalos, fazendo com que Óengus lhe desse um capaz de carregar todas as suas coisas. Em um domingo do “mês do meio da colheita” (setembro), eles chegaram até Liathmuine (“Espinheiro Cinza”) em Ulidia, e lá nasceu uma fonte, a Linn muine (“Água do Espinheiro”). Eochaid construiu uma casa sobre essa fonte e colocou uma pedra para cobrir o poço e uma mulher para vigiá-lo. Um dia, essa mulher se esqueceu de fechar o poço e a água vazou afogando todos e originando um grande lago em Liathmuine que foi chamado de Loch nEchach (Lago de Eochaid), hoje conhecido como Lough Neagh. Todos morreram, exceto sua filha Lí Ban, que permaneceu em uma câmara debaixo do lago durante um ano após sua criação, onde orou para que Deus pudesse transformá-la em um salmão para que pudesse nadar pelo “mar” (a palavra “mar” será repetida aqui, já que o lago, um dos maiores da Irlanda, era visto como sendo o mar para Lí Ban) como um, e Deus então transformou a mulher em uma sereia, tendo metade do seu corpo na forma de um salmão, e a outra, como mulher, transformando também seu cachorrinho de colo em uma lontra que sempre a acompanhava. Lí Ban ficou trezentos anos vagando pelo mar. Após esse tempo, o cristão Beoan mac Innle navegava pelo lago com seu povo até ouvir a voz de Lí Ban cantando. Os dois se apresentam e Lí Ban conta sua história, dizendo para ele se encontrar com ela daqui há um ano a fim de capturá-la, e em troca, Lí Ban lhe daria um funeral em seu próprio monastério. Após esse tempo, Lí Ban é pega nas redes de Beoan e é colocada em um recipiente com água para que pudesse sobreviver, atraindo a atenção de muitas pessoas que vinham curiosas para vê-la. Um dos chefes dos Uí Chonaing estava lá, vestindo um manto carmesim, e ao vê-lo, Lí Ban se entristece, lembrando-se que foi com um manto carmesim que Eochaid se afogou no dia que o poço vazou. Depois disso, três homens disputaram seu amor por ela, e os três jejuraram para que Deus lhes respondesse sobre quem ela deveria “pertencer”. Um anjo veio até um desses homens e disse que na manhã seguinte, ele enviaria dois veados para que ele pudesse colocá-la em uma carruagem jungida por eles, que a levaria para onde ela deveria ir. Assim foi feito e os veados a levam até um padre, que lhe deu a escolha de ser batizada, morrer naquele instante e ir para o céu, ou viver por mais trezentos anos e ir para o céu depois. Ela escolheu ser batizada e morrer, e o nome dado à ela após o batismo foi Muirghein, “Nascida das Águas”.

                Lí Ban, em algumas versões, era filha de Aedh Abrat, e consequentemente, irmã de Fand e Angus (não o Mac Og), e esposa de Labraid Luathlám ar Claideb. Em outras versões, não tinha esposo ou filhos, e era filha de Eochaid mac Mairid.

                Podemos ver que essa deusa possuí ligações com a Planície de Muirthemne (onde apareceu para Cuchulain, junto com Fand), Magh Mell e Inis Labraid (seu lar) e o Lago Neagh, onde passou por trezentos anos na forma de uma sereia. Os animais sagrados à ela podem ter sido o salmão, os pássaros, o cachorro e a lontra. Hoje, todas as ofertas do creideam-sí podem ser usadas para ofertá-la.

                Conclui-se então que Lí Ban é uma deusa ligada aos lagos e ao outro mundo. Por ter se transformado em uma santa no período cristão, pode-se presumir que tenha sido uma deusa de considerada importância para os irlandeses pré-cristãos, tal como Brigit.         

Resumo

Nomes e títulos: Lí Ban (“modelo de mulher”), Muirghein (“Nascida do Mar”), Muirgheilt (“Prodígio do Mar”) e Fuinche (sua tradução é desconhecida).

Parentescos e linhagem divina: Em algumas versões, era filha de Aedh Abrat, e consequentemente, irmã de Fand e Angus (não o Mac Og), e esposa de Labraid Luathlám ar Claideb. Em outras versões, não tinha esposo ou filhos, e era filha de Eochaid mac Mairid.  

Características físicas e temperamento: Não há relatos da aparência física de Lí Ban, mas no mito com Fand, ela aparece como uma mulher usando uma capa verde. Além disso, como seu nome sugere, podemos presumir que seja uma deusa de grande beleza, tal como sua irmã Fand. Em outro mito, ela é descrita tendo a forma de uma sereia, com metade do corpo humano e a outra metade como salmão.

Atributos: Os lagos e o outro mundo.  

Contos e histórias: Aparece no conto ‘O leito de Cuchulain e o único ciúme de Emer’ e ‘A morte de Eochaid mac Mairid’.

Animais: Provavelmente pássaros, salmão, cachorro e lontra.

Lugares: Planície de Muirthemene (onde apareceu para Cuchulain), Magh Mell e Inis Labraid (seu lar) e o Lago Neagh (onde ficou por trezentos anos). Lagos em geral também possam ter sido seu domínio.  

Instrumentos: Chicote de cavalo (ela apareceu em um sonho para Cuchulain, junto de sua irmã Fand, para chicotear Cuchulain com um chicote de cavalo) e a corrente dourada (com a qual ela ficou aprisionada com sua irmã Fand).

Oferendas: As ofertas prescritas pelo creideamh-sí, como flores, poesias sobre lagos, etc. 

Bibliografia e leitura recomendada

Serglige Con Culainn ocus Óenét Emire, O leito de Cuchulainn e o único ciúme de Emer


LIR
Deus do mar

                Falar de Lir, o pai de Manannan, é complicado já que sabemos muito pouco sobre ele, e este pouco que temos não nos dá muitas pistas sobre sua personalidade e atributos. Lir faz parte dos Tuatha Dé Danann, mora no Síd Finnachad (“Síd do Campo Branco”), e uma passagem do ‘Colóquio com os Anciões’, diz-se que ele “excedia em proeza todos os Tuatha De Danann”.

                O nome Lir significa “mar”, de acordo com o Glossário de Cormac19. Como no mito ‘O cortejo de Luaine e a morte de Athirne’ aparece Manannan sendo filho de quatro pais diferentes, Alloth, Cerp, Athgno e Lir, alguns estudiosos supuseram que estes sejam nomes diferentes para Lir, mas a hipótese não pode ser confirmada por falta de evidências que a suportem, já que os outros personagens não aparecem em nenhum outro lugar na mitologia, e nos mitos de Lir não há nada que os mencione também. Não encontrei a etimologia desses nomes para que pudessemos ter alguns vestígios do que talvez representem, e se de fato, tenham alguma conexão com Lir.

                O primeiro e único atributo que temos sobre Lir é dele sendo possivelmente um deus do mar, tal como seu filho Manannan. Essa suposta conexão é devida ao seu nome, de acordo com o Glossário de Cormac, significar “mar”, como visto acima. Além disso, seus filhos Fionnuala, Aodh, Fiachra e Conn, transformados em cisnes e condenados a vagar pelos lagos e mares da Irlanda, possuem uma certa relação com tais corpos hídricos, mas, isso talvez não seja uma evidência forte para que possamos relacionar Lir com o mar. Alguns praticantes já sugeriram que Lir seja a personificação do mar e uma divindade mais antiga que seu filho Manannan, mas novamente, não há nada que comprove ou embase tal hipótese. 

                Lir é mais conhecido pelo seu famoso mito ‘O destino dos filhos de Lir’ que se passa da seguinte forma: após a Batalha de Tailltiu e a derrota dos Tuatha Dé Danann, houve uma Assembleia de Reis em Tara para decidir quais dos cinco reis teriam o reinado chefe sobre a Irlanda. Os irlandeses dão a soberania para Bodb Derg, o filho mais velho do Dagda, e Lir sai furioso da assembleia por achar que o reinado seria dado a ele, indo para sua casa em Síd Finnachad. Os outros reis ameaçaram seguir Lir para atacá-lo devido à sua insubordinação e rebeldia, mas Bodb os parou, dizendo que deveria hazer amizade entre eles para que a paz pudesse prosperar na Irlanda, e como um sinal de amizade, enviou suas três filhas adotivas para que ele pudesse escolher entre uma delas para se casar. Lir aceita o presente e escolhe a mais velha, Aobh, com quem tem dois filhos: Aodh e Fionnuala. Mais tarde, ela dá a luz à mais dois meninos, Fiachra e Conn, mas infelizmente morre no parto. Lir fica devastado com a situação, e se não fosse seu amor pelos seus filhos, teria morrido de tristeza. Para que a amizade entre eles não fosse prejudicada, Bodb envia a segunda filha mais velha, Aoife, para casar-se com Lir novamente. No início, Aoife amou os filhos de Lir, mas conforme foi vendo o quão apegado era ele com seus filhos, sentiu ciúmes e inveja. Certo dia, ela leva os quatro filhos até o Lago dos Carvalhos, e com sua feitiçaria druídica os transforma em quatro cisnes, condenando-os a vagar pelos lagos e mares da Irlanda durante novecentos anos. Aoife vai para a casa de seu pai adotivo, Bodb, e ao contar que as crianças não quiseram ir com ela, o povo de Bodb manda mensageiros para buscar os filhos de Lir em Síd Finnachad, desconfiando de Aoife. Quando Lir disse que seus filhos tinham ido com Aoife, ficou imediatamente preocupado, pois sabia que Aoife tinha feito algo de ruim com eles. Ele partiu imediatamente para a casa de Bodb Derg no Lago Deirgeirt (“Olho Vermelho”), e chegando lá, viu quatro cisnes falando com vozes humanas que disseram que eram seus filhos e explicaram tudo o que tinha acontecido. Lir conta para Bodb o que Aoife fez, e Bodb a transforma em um demônio do ar, condenada a ficar nessa forma para sempre. Após os filhos de Lir passarem por diversas adversidades nos Estreitos de Moyle (uma área do mar entre a Irlanda e Escócia), eles viram um dia uma tropa dos Tuatha Dé Danann indo em direção à eles para contar as notícias de Bodb e seu pai Lir, dizendo que todos estavam felizes, menos por não os terem com eles. Novecentos anos se passaram e os filhos de Lir voaram de volta para o Síd Finnachad, mas ao chegarem lá, encontraram tudo desolado e abandonado. Após isso, eles voaram para a Ilha da Glória de S. Brandão, onde encontraram-se com S. Mac Howg, que forjou uma corrente de prata para uni-los. Após então os anos terem se passado, os filhos de Lir se transformaram em quatro velhos magros e mirrados, sendo batizados depois disso e morreram logo em seguida.

                Lir também aparece em outro conto do ‘Colóquio com os Anciões’, estando em guerra com (possivelmente seu neto) Ilbhreac de Assaroe. Por conta da guerra entre o Síd de Lir e o Síd de Derg Dianscothach, onde Ilbhreac estava, ele enviava todas as noites um pássaro encantado com o bico de ferro e a cauda de fogo para empoleirar-se em uma janela dourada do Síd de Derg, e toda vez que o pássaro se sacudia, ele fazia o Síd tremer deixando cair espadas, escudos e lanças na cabeça de seus habitantes. O povo daquele Síd tentava arremessar lanças contra a ave, mas as lanças sempre acertavam a cabeça de alguém e nunca o pássaro. Uma noite, porém, Caoilte dos fianna visitou o Síd e o pássaro veio para fazer suas travessuras. Caoilte perguntou por quanto tempo a ave estava fazendo aquilo e Derg lhe disse que fazia um ano desde que ele o Síd Finnachad estraram em guerra. Caoilte então tirou uma vara de cobre de seu escudo e arremessou no pássaro, matando-o. Certa manhã, eles acordaram com o soprar de chifres, barulho de rodas de bigas, bater de escudos e o tumulto de uma grande tropa. Ao enviarem espiões para ver do que se tratava os sons, descobriram que três batalhões de Lir tinham rodeado o Síd de Derg Dianscothach para vingar seu pássaro morto. Ambos os Síd então se engajaram na batalha até Lir e Caoilte se encontrarem, e Lir sendo morto por Caoilte. Após a vitória do Síd de Derg, eles impuseram um forçado reinado e domínio sobre o Síd de Lir.

                Na mesma fonte citada no parágrafo anterior, é dito que os Tuatha Dé Danann perderam muitos de seus homens em uma certa batalha, e por não saberem como lidar com seus mortos, Midir, Fionnbarr e Bodb Derg pediram o conselho de Lir, que era o mais velho entre eles. Lir então aconselhou-os dizendo que deveriam carregar os mortos, junto de seus amigos e filhas, para seus respectivos Síd, e no lugar onde eles estavam, ele sugeriu fazer um muro de fogo de um lado, e de outro, deveriam fazer “uma defesa com água”. Lir provavelmente possa ter sugerido essa técnica para purificação e higiene, com a água para banhar-se e lavar-se e o fogo para extinguir as contaminações. Em outro conto, diz-se que os Tuatha Dé Danann se reuniram um dia e Midir apresentou-lhes suas três filhas adotivas – Doirenn, Aife e Aillbhe – e pediu um presente de todos os que se encontravam na reunião para elas. Lir disse que daria cento e cinquenta espadas e o mesmo número de lanças compridas e rebitadas. 

                Nos mitos, os pais de Lir são desconhecidos. Ele casou-se com Aobh, com quem teve seus três filhos Aodh, Conn e Fiachra, e sua filha Fionnuala, e posteriormente casou-se com Aoife, que foi transformada em um demônio do ar. Ele também teve Manannan e Lodan Lucharglan como seus filhos, mas suas mães são desconhecidas.

                Lir tem relações com o mar, como seu nome sugere, e com o seu Síd Finnachad (“Colina do Campo Branco”), que alguns estudiosos sugerem se localizar na pequena aldeia de Newtownhamilton, no Condado de Armagh. Como era muito ligado aos seus filhos, é provável que ele tenha alguma relação com cisnes e pássaros. Hoje, todas as ofertas do creideamh-sí podem ser usados para oferecê-lo, incluindo os que tem relações com o mar, como água, sal, conchas, poesias louvando o mar, etc.

                Podemos concluir que Lir possa ter sido uma divindade ligada ao mar, como seu próprio nome sugere, e que a falta de material sobre ele não nos permite muita especulação de sua natureza ou atributos, e os mitos em que ele figura não nos dão muitas pistas.

Resumo

Nomes e títulos: Lir (“mar”), e possivelmente, Alloth, Cerp e Athgno.

Parentescos e linhagem divina: Os pais de Lir são desconhecidos. Ele casou-se com Aobh, com quem teve seus três filhos Aodh, Conn e Fiachra, e sua filha Fionnuala. Ele também teve Manannan e Lodan Lucharglan como seus filhos, mas suas mães são desconhecidas.

Atributos: O mar, provavelmente.

Contos e histórias: Aparece no conto ‘O destino dos filhos de Lir’, e em dois contos no ‘Colóquio com os Anciões’, onde ele trava uma batalha com Ilbhreac e perde, e na outra, quando é chamado por Midir, Fionnbarr e Bodb para aconselhá-los. 

Animais: Provavelmente pássaros (em referência ao pássaro encantado que ele enviou para o Síd de Derg) e cisnes.

Lugares: Síd Finnachad, e como deus do mar, o próprio reino.   

Símbolos: O pássaro encantado do bico de ferro e cauda de fogo pode ser usado talvez para representá-lo ou símbolos marinhos, como conchas; no entanto, é uma gnose pessoal.

Oferendas: As ofertas prescritas pelo creideamh-sí, como conchas, água, sal marinho, poesias louvando o mar ou seus feitos, etc.

Material devocional: Oração para Lir

Bibliografia e leitura recomendada

Oidheadh Chloinne Lir, O destino dos filhos de Lir
Acallam na Senórach, O Colóquio com os Anciões (em inglês)
Sanas Chomaric, O Glossário de Cormac (em inglês)
BREATNACH, Caoimhín. “The Religious Significance of Oidheadh Chloinne Lir”. Ériu, vol. 50. Royal Irish Academy. (em inglês) (não li, mas como é um artigo acadêmico, é recomendado; é necessário também criar uma conta no JSTOR para ler o artigo)

Notas de rodapé

1. Tuatha De Danann. Uma das quatro tribos de deuses que chegaram à Irlanda, o título é traduzido como “A tribo dos deuses de Anu” ou “A tribo dos deuses das artes”. Eles personificam a civilização, a ordem, as práticas humanas de subsistência e os ofícios, como a tecelagem, metalurgia e medicina. Ao chegarem à Irlanda, lutaram contra os Fír Bolg, e depois, contra os fomorianos para se apossar da ilha, até serem derrotados pelos milesianos, onde se refugiaram debaixo da terra arruinando as colheitas dos homens até um pacto ser feito entre as duas tribos. Outras divindades dessa tribo incluem Lugh, Brígh, Goibniu, Angus, etc.

2. O Livro das Invasões da Irlanda. É um dos principais textos mitológicos da religião gaélica, e relata as histórias das invasões das tribos de deuses que chegaram à Irlanda. Tem um alto teor de elementos cristãos adicionado pelos escribas católicos, e as histórias pagãs frequentemente se fundem com acontecimentos bíblicos.

3. Os Métricos Dindshenchas. Os métricos dindshenchas são um corpo de histórias em formato de poesia que contam como determinado lugar foi criado ou como surgiu, a partir de forças sobrenaturais que o deram origem ou simplesmente através de atos realizados por humanos famosos. Acredita-se que os métricos dindshenchas foram criados para dois propósitos: o primeiro para educar a elite militar sobre o conhecimento necessário dos lugares da Irlanda, e o segundo para ser um conhecimento essencial para a casta bárdica, que se esperava recitar os poemas como forma de entretenimento ou sabedoria, ao serem questionados sobre as origens e histórias de determinada paisagem.

4. A Propriedade dos Nomes. Um texto irlandês medieval contendo o significado de diversos nomes, majoritariamente de reis, e alguns nomes de divindades como Dagda, Diancecht e Nuada, por exemplo.

5. A Segunda Batalha de Moytura. A Segunda Batalha de Moytura foi uma épica batalha entre os Tuatha Dé Danann e os fomorianos. Acredita-se que essa seja uma batalha cósmica entre duas tribos de deuses que representam a ordem e o caos, respectivamente. A batalha foi vencida pelos Tuatha Dé Danann e os fomorianos foram expulsos da Irlanda. Para ler o mito original traduzido, clique aqui.

6. Os Fianna. Foi um grupo histórico e mitológico de guerreiros que viviam às margens da sociedade irlandesa. Seu líder era conhecido como rígfennid (“Rei Fianna”), sendo Finn mac Cumaill o mais conhecido. Seus feitos e mitos são majoritariamente contados no ‘Ciclo dos Fianna’, um dos quatro ciclos da mitologia irlandesa.

7. Os Filhos de Mil. Também conhecidos como “milesianos”, foi a última tribo de invasores a chegar na Irlanda, e derrotarem os Tuatha Dé Danann. Acredita-se que sejam os progenitores do povo gaélico. Diz-se que eles vieram da Espanha, após um rei deles ter visto a ilha a partir de uma torre muito alta. O deus mais conhecido da tribo é Donn, o deus que guarda a casa dos mortos.

8. Sídhe. Sídhe ou Síd é o termo usado para designar as colinas encantadas onde vivem os Tuatha De Danann após serem derrotados pelos Filhos de Mil na Batalha de Tailtiu. O termo Aos Sídhe, significado ‘Povo do Sídhe’, é usado para denotar os povos que vivem dentro de determinada colina.

9. O Roubo das Vacas de Cooley. É considerado um épico irlandês, relatando resumidamente as tentativas da rainha Medb de Connaught roubar um boi encantado de Ulster, travando uma guerra contra a província.

10. Brugh na Boinne. Mitologicamente falando, é o palácio encantando de Angus mac Óg, localizando próximo ao Rio Boyne, de onde vêm seu nome. Foi construído pelo Dagda, que teve seu domínio no início, até ser conquisto por Elcmar, e depois, por Angus. Dizia-se que existia dentro do palácio três árvores sempre frutíferas, um barril cheio de vinho que nunca acabava e um porco que, ao ser assado e consumido, voltava à vida no dia seguinte. Secularmente falando, é um complexo de montes, pedras e túmulos do neolítico localizado no Condado de Meath, Irlanda. 

11. Immram. Significando literlamente ‘remando’, é uma categoria da mitologia irlandesa que relata as viagens marítimas até o outro mundo feito por algum rei ou guerreiro, como o Immram Brain, a Viagem de Bran, ou Immram Mael Duin, a Viagem de Mael Duin.

12. O Colóquio com os Anciões. É um importante e o mais longo texto da mitologia irlandesa, relatando os feitos dos guerreiros fianna Caoilte e Oisín, que sobrevieram até a época de S. Patrício, o evangalizador da Irlanda, para relatar suas histórias a eles.

13. O Livro das Leis de Fionn. Uma coletânea de poesias relatando eventos mitológicos, escrito por Aodh O’ Dochartaigh.

14. Ogham. Um alfabeto cuja criação é atribuído a Ogma, o deus gaélico da fala, da escrita e da eloquência. Possui 20 letras chamadas de fedas, divididas em 4 grupos de 5 fedas chamados de aicme. Um quinto aicme foi adicionado posteriormente para suprir os sons fonéticos que não existiam na língua irlandesa, mas muitos praticantes não o consideram em seus estudos e práticas por ter tido uma origem externa. Cada feda representa uma árvore e tem associações com rios, animais, ofícios e outros correlatos. Acredita-se que o Ogham possa ter tido usos divinatórios no passado, pois há relatos que os pagãos gaélicos usavam uma técnica de divinação conhecida como fidlanna, ‘adivinhação pela madeira’, ou ainda, que seja parte de um sistema mágico-religioso, onde cada feda representa um atributo mágico diferente.

15. Creideamh-Sí. É traduzido como a “Fé das Fadas”, e é um conjunto de crenças e práticas que perdura até hoje em algumas áreas rurais da Irlanda. Consiste em vários contos e práticas folclóricas como ofertar leite e manteiga para o Povo Encantado, ou o Povo das Fadas, e tomar medidas para se proteger deles.     

16. Ultonianos. Termo usado para designar alguém nativo de Ulster, uma das cinco províncias da Irlanda, junto com Leinster, Connaught, Munster e Meath.

17. Gnose pessoal. Uma gnose pessoal é um termo usado pelos reconstrucionistas em geral (não só pelos gaélicos) para designar uma informação que foi encontrada através de inspiração, meditação ou rituais, que não tem atestação histórica, isto é, que nunca foi encontrado. Quando essa informação é confirmada pela arqueologia, mitologia ou folclore, ela se torna uma gnose pessoal verificada.

18. O Livro da Vaca Parda. É um manuscrito irlandês do século XII, contendo diversos textos importantes da mitologia irlandesa, como ‘A Intoxicação dos Homens de Ulster’ ou ‘O Roubo do Gado de Flidais’. Foi assim chamado pois foi feito com o couro de uma vaca parda.

19. O Glossário de Cormac. É um antigo glossário irlandês contendo etimologias e explicações de mais de 1400 palavras irlandesas, vista sob a ótica de Cormac mac Cúileannáin, o rei de Munster.

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