domingo, 30 de outubro de 2016

O culto aos mortos

Capítulo X
O culto aos mortos

                O costume de enterrar os bens junto com o morto ou o abate de esposa ou escravas no túmulo, não necessariamente apontam para um culto dos mortos, no entanto, quando tais práticas sobrevivem por um longo período, elas assumem a forma de um culto. Estes costumes floresceram entre os celtas, e, ao conectarmos com a reverência pelas sepulturas dos mortos, eles apontam para um culto de espíritos ancestrais assim como dos grandes heróis que já se foram. As cabeças dos mortos eram oferecidos às “fortes sombras” – os fantasmas dos heróis tribais cujos louvores eram cantados pelos bardos.1 Quando tais cabeças eram colocadas nas casas, pode ser que elas tenham sido devotadas aos fantasmas da família. A honra com a qual os heróis míticos ou reais eram estimados pode apontar para um real culto, com o herói sendo cultuado depois de morto, onde ele ainda continua protegendo a tribo. Sabemos também que a tumba do Rei Cottius nos Alpes era um lugar sagrado, assim como que os reis irlandeses eram frequentemente inaugurados em ancestrais montes funerários, e que os deuses irlandeses foram associados com os montículos dos mortos.2

                O culto aos mortos culminou na lareira da família, ao redor da qual os mortos eram até mesmo enterrados, como entre os Éduos (Aeduii), podendo este último costume ter sido geral.3 De qualquer forma, a crença na presença de espíritos ancestrais ao redor da lareira era muito difundida, como as supertições existentes mostram. Na Bretanha, os mortos buscavam o calor da lareira à noite, e um banquete era preparado para eles na véspera do Dia de Todos os Santos, ou migalhas eram deixadas para eles após um encontro familiar.4 Mas geralmente, o fantasma da família se tornava um brownie, lutin ou pooka, habitando a lareira e fazendo o trabalho doméstico.5 As fadas correspondem, em todos os aspectos, aos velhos espíritos ancestrais, e um se sucedeu no lugar do outro, enquanto diz-se que as fadas são até mesmo os espíritos dos mortos.6 Certos achados arqueológicos também tem uma conexão com esse culto ancestral. Entre os registros célticos na Gália foram encontrados andirons (NT: utensílios de ferro para sustentar a madeira enquanto ela é queimada na lareira) de barro, ornamentados com a cabeça de um carneiro. M. Dechelette vê nos andirons “o símbolo do sacrifício oferecido às almas dos ancestrais no altar da lareira.”7 O carneiro já foi associado como um animal sacrificial com o culto do fogo na lareira, e através de uma fácil transição, foi conectado com o culto dos mortos. O carneiro é encontrado como um emblema em antigas tumbas, e o doméstico Lar (NT: espírito romano da casa) era purificado através da imolação de um carneiro.8 Estatuetas de carneiros foram encontradas em tumbas gaulesas e são associadas com o deus do submundo.9 O carneiro dos andirons era então um representante permanente da vítima oferecida no culto aos mortos. Uma inscrição mutilada em um destes andirons pode ter sido feita para Laribus augustis, e certas marcas nos outros podem representar as guirlandas enroscadas ao redor da vítima.10 Serpentes com cabeças da carneiro ocorrem em monumentos do deus do submundo. A serpente era um deus ctônico ou o emblema de tal divindade, e imagina-se que seja apropriado dar para a serpente a cabeça de um animal associado com o culto aos mortos.

                Os mortos também eram alimentados nos túmulos ou nas casas. Assim, taças eram colocadas no recuo de um poço no cemitério de Kilranelagh para aqueles que sepultaram uma criança menor que cinco anos, e acreditava-se que o fantasma da criança fornecia a água dessas taças para os outros espíritos.11 Na Irlanda, após uma morte, comida era deixada do lado de fora para os espíritos, ou, nozes eram colocadas no caixão em um enterro.12 Em algumas partes da França, leite era derramado no túmulo, e tanto na Bretanha como na Escócia, acreditava-se que os mortos participavam da festa funerária.13 Estas são reminiscências de tempos pagãos e correspondem aos ritos realizados por aqueles que ainda cultuam os ancestrais. Nos distritos célticos, um cairn ou uma cruz é colocada sobre o lugar onde uma morte violenta ou acidental aconteceu com o propósito de apaziguar o fantasma, e uma pedra era frequentemente adicionada ao cairn por todos os que passavam por ele.14

                Os festivais eram realizados na Irlanda no dia dos aniversários de morte de reis ou chefes, e tais festivais também eram utilizados para propósitos de troca, prazer ou política. Eles as vezes aconteciam nos grandes festivais, como Lugnasad e Samhain, e ocasionalmente, localizavam-se em lugares funerários.15 Assim, diz-se que o encontro em Taillti no Lugnasad foi fundado por Lug em memória de sua mãe adotiva, Tailtiu, e os homens de Leinster se encontravam em Carman no mesmo dia para comemorar o Rei Garman, ou em um relato diferente, uma mulher chamada Carman. Ela e seus filhos tentaram arruinar as colheitas dos Tuatha Dé Danann, mas os filhos foram expulsos e ela morreu de tristeza, implorando que uma feira devesse sempre ser realizada em seu nome, prometendo assim uma abundância de leite, frutas e peixe se fizessem esta observância.16 Estes podem ser mitos etiológicos para explicar a origem destes festivais em analogia aos festivais funerários, mas o mais provável é que, uma ve que o Lugnasad foi um festival da colheita, estejam conectados com o costume de abater um representante do espírito do grão. O festival se tornaria uma comemoração de todas estas vítimas, mas quando o costume em si cessasse, ele se tornaria associado com um personagem em particular, a deusa do grão tida como uma mortal.

                Este seria o caso em que a vítima era uma mulher, mas quando um homem era abatido, a analogia da morte do rei divino ou de seu substituito levaria os festivais a serem vistos como comemorativos de um rei, como Garman, por exemplo. Isto concorda com a afirmação de que a observância do festival produziria abundância, e a não observância, a escassez. As vítimas eram abatidas para obter abundância, e o festival comemoraria também aqueles que morreram por essa boa causa, enquanto que também apaziguaria os seus espíritos caso ficassem furiosos com suas mortes violentas. Assim, certos mortos eram então comemorados no Lugnasad, um festival da fertilidade. Tanto o espírito do grão ou a divindade morta na colheita como as vítimas humanas era apaziguados através da observância da festa.17 A lenda de Carman a torna hostil aos grãos – uma curiosa forma de consideração de uma deusa dos grãos. Mas, já vimos que os deuses da fertilidade eram as vezes vistos causando escassez, e na crença folclórica, acreditava-se que o espírito do grão poderia ser ocasionalmente perigoso. Essas inversões acontecem sempre que revoluções aconteciam na religião.

                A grande comemoração dos mortos acontecia na véspera do Samhainn, um festival que buscava ajudar os poderes moribundos da vegetação, cuja vida, no entanto, ainda se manifestava em arbustos sempre-verdes, no visco e nos feixes de grãos da última colheita – a morada do espírito do grão.18 Provavelmente, representantes humanos da vegetação ou do espírito do grão eram abatidos e isto pode ter sugerido a presença de seus espíritos no festival. Ou, como o festival era celebrado na época da morte da vegetação, os mortos seriam naturalmente comemorados nele. Ou, como na Escandinávia, eles possam ter tido uma influência na fertilidade, como uma extensão da crença de que certas pessoas mortas representam espíritos da fertilidade, ou pelo fato de que plantas e árvores que crescem nos túmulos dos mortos sejam creditados como sendo a morada de seus espíritos.19 Na Escandinávia, os mortos eram associados com espíritos femininos, ou fylgjur, identificadas com as disir, um tipo de deusas da terra que viviam em colinas ocas.20 A mais próxima analogia céltica à estas entidades são as Matres, deusas da fertilidade. Bede diz que a véspera do Natal era chamada de Modranicht, “Noite das Mães,”21 e como muitos dos ritos do Samhain foram transferidos para o Yule, a data antiga do Modranicht pode ter sido o Samhainn, assim como o Disablot escandinavo, realizado em novembro, era um festival das disir e dos mortos.22 Já vimos que o deus céltico da terra era o senhor dos mortos e que ele provavelmente assumiu o lugar de uma deusa ou deusas da terra, a quem as Matres certamente correspondem. Por esse motivo, a época de decadência da terra foi a estação em que os mortos, os filhos dessa deusa, eram comemorados. Qualquer que seja a razão, os celtas, os teutônicos e outros povos comemoravam os mortos no início do inverno, que era o início de um ano novo, enquanto que um festival similar dos mortos no Ano Novo acontecia em muitas outras terras.

                Tanto na Irlanda como na Bretanha, comida era colocada do lado de fora para os mortos que visitavam as casas e que vinham aquecer-se na lareira na quietude da noite na véspera de novembro, e na Bretanha, uma grande tora queimava na lareira, e aqui, voltamos para a questão do culto dos mortos na lareira.23 Possivelmente, a tora de Yule pode ter sido uma tora que queimava na lareira – o lugar dos espíritos da família – durante o Samhain, quando um fogo novo era aceso em todas as casas. Na lareira, libações eram feitas, que destinava-se então para os mortos. A tora de Yule e a tora dos camponeses bretões seriam então o aspecto doméstico do fogo ritualístico, que tinha seu aspecto público nas fogueiras de Samhain.

                Tudo isso foi em parte afetado pela festa cristã do Dia dos Finados. O Dr. Frazer acredita que a festa de Todos os Santos (1º de novembro) destinava-se a assumir o lugar do culto pagão aos mortos. Como falhou, o Dia dos Finados, um festival de todos os mortos, foi adicionado no dia 2 de novembro.24 Até certo ponto, mas não inteiramente, o dia neutralizou os ritos pagãos, pois as velhas ideias conectadas com o Samhainn ainda sobreviveram aqui e ali. Deve-se observar também que, em alguns casos, o aspecto amigável dos mortos foi se perdendo, e assim como o povo do síd, eles foram popularmente conectados com os poderes malignos que estão em ascensão na véspera do Samhain.  




Notas de rodapé

1. Sílio Itálico, v. 652; Lucano, i. 447. Cf. p241, infra.

2. Ammian. Marcell. xv. 10. 7; Joyce, SH i. 45.

3. Bulliot, Fouilles du Mont Beuvray, Autun, 1899, i. 76, 396.

4. Le Braz, ii. 67; Sauvé, Folk-lore des Hautes Vosges, 295; Bérenger-Féraud, Superstitions et Survivances, i. 11.

5. Hearn, Aryan Household, 43 f.; Bérenger-Féraud, i. 33; Rev. des Trad. i. 142: Carmichael, ii. 329; Cosquin, Trad. Pop. De la Lorraine, i. 82.

6. Kennedy, 126. O malicioso brownie que derruba os móveis e quebra as louças é uma reprodução exata do Poltergeist.

7. Dechelette, Rev. Arch. xxxiii. [1898], 63, 245, 252.

8. Cícero, De Leg. ii. 22.

9. Dechelette, 256; Reinach, BF 189.

10. Dechelette, 257-258. Em outro exemplo, o carneiro é marcado com cruzes como aquelas gravadas nas imagens do deus do submundo com o martelo.

11. Kennedy, 187.

12. Lady Wilde, 118; Curtin, Tales, 54.

13. Le Braz, i. 229 Gregor, 21; Cambry, Voyage dans le Finistère, i. 229.

14. Le Braz, ii. 47 Folk-lore, iv. 357; MacCulloch, Misty Isle of Skye, 254 Sébillot, i. 235-236.

15. Os nomes dos lugares associados com os grandes festivais também são os nomes de grandes cemitérios pagãos: Tara, Carman, Taillti, etc. (O’Curry, MC ii. 523).

16. Rennes Dindsenchas, RC xv. 313-314.

17. Cf. Frazer, Adonis, 134.

18. Cf. Chambers, Mediaeval Stage, i. 250, 253.

19. Ver Vigfusson-Powell, Corpus Poet. Boreale, i. 405, 419. Talvez, por uma razão similar, um culto aos mortos pode ter acontecido no festival do solstício de verão.

20. Miss Faraday, Folk-Lore, xvii. 398 f.

21. Bede, de Temp. Rat. c. xv.

22. Vigfusson-Powell, i. 419.

23. Curtin, Tales, 157; Haddon, Folk-Lore, iv. 359; Le Braz, ii. 115 et passim.

24. Frazer, Adonis, 253 f.

Fonte: MACCULOCH, J. A. “The Religion of the Ancient Celts”. 1911. Disponível em: <http://sacred-texts.com/neu/celt/rac/rac13.htm>. Acesso em: 30 de outubro de 2016. 



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