domingo, 4 de setembro de 2016

O leito de Cuchulain e o único ciúme de Emer

O leito de Cuchulainn e o único ciúme de Emer
Serglige Con Culainn ocus Óenét Emire
O Livro da Vaca Parda

                Os ultonianosA tinham o costume de realizar uma feira a cada ano, que durava os três dias antes do Samhain (primeiro de novembro), o próprio dia do Samhain e os três dias que o seguiam. Esse era o período do ano em que os ultonianos se empenhavam em realizar a Feira de Samhain na Planície de Muirtheimne todos os anos, e eles não faziam nada além de jogos e corridas, prazer e divertimento, comidas e bebedeiras; e foi a partir desse fato que os Tertiae (três dias) do Samhain ainda são observados por toda Erin.


                Em uma ocasião, uma feira foi realizada pelos ultonianos na Planície de Muirtheimne e o motivo (ou origem) dessa feira era para que todos exibissem seus troféus de guerra e coragem sempre no Samhain. Assim, era um costume deles, além dos troféus, realizar a feira. Os troféus eram: a ponta da língua de todos os homens que eles matavam, guardadas em suas bolsas, e eles levavam também as línguas do gado para multiplicar seus troféus. Cada homem então exibia seus troféus, mas cada um por vez, e a forma como eles exibiam os troféus era deitando suas espadas sobre suas coxas quando mostrassem o troféu para que suas espadas se virassem contra eles se eles mostrassem um troféu falso. O motivo disso era o fato dos demônios estarem acostumados a falar com eles através de suas armas, e por isso, suas armas eram invioláveis.1

                Todas as pessoas de Ulster vieram para a feira nessa ocasião, exceto apenas Conall Cearnach e Fergus Mac Roigh.

                “Vamos começar a feira,” disseram os ultonianos. “Não começará,” disse Cuchulain, “até Conall e Fergus chegarem.” Ele disse isso pois Fergus era seu tutor militar e Conall, seu amigo.

                Sencha (o poeta) então disse: “Vamos jogar xadrezB para os aqui presentes, cantem poemas para nós e organizem os jogos.” E isso então foi feito.

                Enquanto eles estavam participando das festividades, uma revoada de pássaros pousou no lago na presença deles, e não existiam na Irlanda pássaros tão bonitos quanto esses.

                As mulheres presentes desejaram ter os pássaros que se moviam no lago. Todas elas então começaram a brigar uma com a outra sobre a posse dos pássaros.

                Eithne Aitenchaithrec (isto é, do rosto peludo), a esposa do Rei Conchobar, disse: “Preciso ter um pássaro desses em cada um dos meus dois ombros.” “Todas nós precisamos da mesma coisa,” disse a outra mulher. “Se alguém for pegá-los, eu devo ser a primeira a ganhar,” disse Eithne Inghuba, a amante de Cuchulain.

                “O que faremos?” disse as mulheres. “Eu lhes direi,” disse Lebharcaim, a filha de Oa e Adarc, “Irei pedir para Cuchulain pegá-los.”

                Ela então foi até Cuchulain e disse: “As mulheres desejam que você pegue esses pássaros.” Ele ameaçou bater nela com sua espada e disse: “As cortesãs de Ulster não tem nada melhor para fazer do que nos mandar em uma caça de pássaros hoje!” “De fato, não é apropriado para ti,” disse Lebharcaim, “ficar furioso com elas, pois é por sua causa que as mulheres de Ulster tem uma de suas três deformidades, que é, um olho cego.” As três deformidades das mulheres de Ulster eram a cifose, a balbuciação e a cegueira de um olho, pois cada mulher que amasse Conall Cearnach se tornaria corcunda, cada mulher que amasse Cuscraidh Menn, o filho de Conchobar, teria um impedimento em sua fala, e da mesma forma, cada mulher que amasse Cuchulain se tornaria cega de um olho, assim como Cuchulainn, e também dependia da intensidade de seu amor por ele, pois era costume de Cuchulainn, quando estava de mau humor, puxar um de seus olhos para trás para que uma grua não pudesse alcançá-lo em sua cabeça, e o outro olho pressionava para fora de forma que ficasse tão grande quanto um caldeirão de novilha.

                “Coloque o jugo na biga para nós, Laegh”, disse Cuchulain. Laegh colocou o jugo na biga, Cuchulain entrou nela e feriu os pássaros com um tath-beim (que é, um golpe vertical) de sua espada de forma que seus pés e suas asas foram cortados na água.

                Eles então pegaram todos os pássaros e os levaram para serem distribuídos entre as mulheres, de forma que nenhuma mulher entre eles não receberam dois pássaros, apenas Eithne Inghuba. Por fim, ele foi até sua esposa. “Seus espíritos parecem tristes,” disse Cuchulain para ela. “Eles não estão,” disse ela. “É por que,” disse ele, “foi eu que distribuí os pássaros entre elas.” “Tens uma boa razão,” disse ela, “pois não há uma mulher entre elas que não lhe daria seu amor e amizade, enquanto que eu não daria meu amor para ninguém além de você.”

                “Não deixe seus espíritos se entristecerem por isso,” disse Cuchulain, “pois pássaros virão para a Planície de Muirtheimne ou para o Boyne e tu terás os dois pássaros mais belos entre eles.”

                Não demorou muito até eles verem dois pássaros no lago, unidos por uma corrente de ouro vermelho. Eles cantaram uma baixa melodia que fez toda a assembleia adormecer e Cuchulain foi em direção aos pássaros. “Se você escutar nosso conselho,” disse Laegh (o cocheiro de Cuchulain), “tu não se aproximaria deles”, e disse Eithne, “pois há um poder nas costas desses pássaros; arrume outros pássaros para mim ao invés destes.” “É possível que tu questiones minha palavra?” disse Cuchulain.

                “Coloque uma pedra na minha fundaC, Laegh,” disse ele. Laegh então pegou uma pedra e a colocou na funda. Cuchulain então fez a pedra voar neles e errou os alvos. “Ai!” disse ele. Ele pegou outra pedra, arremessou neles, e a pedra passou por eles. “Sou um desgraçado,” disse ele, “desde o dia que peguei nas armas pela primeira vez, nunca errei um tiro até esse dia.”

                Ele então atirou sua pesada lança (croisech) que atravessou a asa de um dos pássaros, fazendo-os cair na água.

                Cuchulain foi embora de mau humor, deitou sobre uma rocha e o sono abateu-se sobre ele. Ele então viu duas mulheres vindo em direção a ele em seu sonho. Uma delas tinha uma capa verde e a outra uma capa vermelha com cinco dobras.

                A mulher com a capa verde foi até ele, sorriu e lhe deu um golpe com um chicote de cavalo. A outra foi até ele, sorriu e lhe golpeou da mesma forma, e elas continuaram fazendo isso por muito tempo, cada uma batendo nele por vez até ele quase morrer, e então, eles foram embora.

                Todos os ultonianos perceberam o que tinha acontecido e se perguntaram se deveriam acordá-lo. “Não,” disse Fergus, “não mexa nele antes da noite.”

                Mais tarde, Cuchulain acordou de seu sono. “Quem fez isso com você?” disseram os ultonianos para ele.

                Ele, no entanto, não estava em condições de conversar com eles.

                “Levem-me,” disse ele posteriormente, “para meu leito de declínio, que é Teti Breac2, não para Dun Imrith3 e nem para Dun Delca4.”

                “Vamos levá-lo para sua esposa Emer, em Dun Delca,” disse Laegh. “Não,” disse ele, “levem-me para Teti Breac.” Ele então foi levado para lá, onde ficou por um ano sem falar com ninguém.

                Um dia antes do próximo mês de novembro, no final do ano, os ultonianos estavam na casa de Cuchulain ao redor dele: Fergus estava entre ele e a parede, Conall Cearnach entre ele e a porta Lugaidh Reo-derg entre ele e seu travesseiro (segurando-o) e Eithne Inghuba em seus pés.

                Enquanto eles estavam situados dessa forma, um homem entrou na casa e sentou-se na parte de frente da cama na qual Cuchulain estava deitado.

                “O que lhe traz aqui?” perguntou Conall Cearnach. “Vou lhes dizer,” disse ele, “se o homem que está aqui estivesse saudável, ele seria uma proteção contra todos os ultonianos; e na grande doença e debilidade na qual ele está agora, ele é uma proteção maior contra eles.” “Não temo a nada,” disse ele, “pois vim para conversar com ele.” “Tu és bem vindo, não precisas temer a nada,” disseram os ultonianos. Ele então parou e cantou para eles os seguintes versos:

“Ó Cuchulain! Em tua doença,
Tua estadia não seria longa;
Se elas estivessem contigo – e elas viriam –
As filhas de Aedh Abrat.

Liban, na planície de Cruaich, disse: -
Ela que senta do lado direito de Labraid o veloz, -
Que seria uma alegria sincera para Fand
Ser desposada por Cuchulain.

Feliz seria o dia, de verdade,
No qual Cuchulain viesse para minha terra;
Ele teria prata e ouro,
Ele teria vinho para beber em abundância.

Se nesse dia meu amigo fosse
Cuchulain, o filho de Soalte,
Tudo o que ele sonhou
Ele obteria sem seu exército.

Na planície de Muirthemne, aqui ao sul,
Na noite do Samhuin, sem má sorte,
Eu mandarei Liban,
Ó Cuchulain, para curar sua doença.

Ó Cuchulain!”

                “Quem é você?” disseram eles. “Eu sou Aengus, o filho de Aedh Abrat,” disse ele. O homem então foi embora e eles não sabiam de onde ele tinha vindo e nem para onde tinha ido. Cuchulain então se sentou e falou.

                “Chegou a hora,” disseram os ultonianos, “de você nos falar o que aconteceu.”

                “Eu vi,” disse ele, “uma visão sobre esse tempo no ano passado.” Ele então lhes contou tudo o que tinha visto.

                “O que deve ser feito, meu mestre, Conchobar?” disse Cuchulain. “Isso será feito,” disse Conchobar, “irás até aquela mesma rocha.”

                Cuchulain então saiu até alcançar aquela mesma rocha, e então, ele viu a mulher com a capa verde indo em direção a ele. “Isso é bom, Cuchulain,” disse ela. “Não é bom, na verdade; qual o objetivo de sua visita até nós no ano passado?” disse Cuchulain.

                “Na verdade não viemos para lhe ferir,” disse ela, “mas para buscar teu amor. Venho agora para falar contigo,” disse a mulher, “enviada por Fand, a filha de Aedh Abrat, que foi abandonada por Manannan Mac Lir5, e que desenvolveu uma afeição por ti. Liban, de fato, é meu nome. Também tenho uma mensagem para ti, de meu marido Labraid da mão veloz na espada. Ele lhe dará a mulher se você ajudá-lo um dia na batalha contra Senach o deformado, contra Eochaidh n-Iuil e contra Eoghan Inbhir.6

                “Não estou bem o suficiente, na verdade,” disse ele, “para batalhar contra homens hoje.” “Curto é o tempo em que esse será o caso,” disse Liban, “você será curado e o que perdeu de sua força será restaurado para ti, e você deve fazer isso para Labraid, pois ele é o mais nobre dos campeões do mundo.”

                “Onde ele está?” disse Cuchulain. “Ele está em Magh Mell7 (Planície de Mell)”, disse ela.

                “Eu estaria melhor indo para outro lugar,” disse a mulher. “Deixe Laegh ir com você,” disse Cuchulain, “para examinar a terra de onde vens.” “Deixe-o vir então,” disse Liban.

                Eles seguiram em diante até alcançarem (recte, alcançar) o lugar no qual Fand estava. Liban foi até Laegh e pegou em seu ombro. “Não escaparás hoje, ó Laegh,” disse Fand (recte, Liban), “a menos que sejas protegido por uma mulher.” “Essa não é uma coisa com a qual estamos acostumados até agora,” disse Laegh, “a proteção de uma mulher.” “Ai, eternamente ai! Não é Cuchulain que está no seu lugar agora,” disse Liban. “Eu ficaria feliz que fosse ele a estar aqui,” disse Laegh.

                Eles caminharam até chegarem à margem da ilha.8 Eles viram o barquinho de cobre no lago diante deles. Eles então entraram no barco e foram em direção à ilha, chegando então até a porta de uma casa, lá viram um homem indo em direção a eles e Liban disse para ele:

“Onde está Labraid da mão veloz na espada
Sobre as tropas vitoriosas;
Vitorioso no corpo de uma forte biga.
Ele que olha sobre espadas sangrentas?”

                O homem então a respondeu, dizendo:

“Labraid está estimulando os clãs, -
Não é lento, ele sempre está bem, -
Reunindo uma batalha, uma matança será feita,
Da qual a planície de Fidghae estará cheia.”

                Eles então entraram na casa e lá viram três vezes cinquenta divãs e três vezes cinquenta mulheres neles. Todas elas receberam Laegh. Todas elas disseram para ele: “Tu és bem vindo, Laegh, por conta da pessoa com quem vem contigo, por conta da pessoa quem te enviou e por conta de quem tu és.”

                “O que farás agora, ó Laegh?” disse Liban, “irá falar com Fand de uma vez?” “Irei se eu souber o lugar no qual ela está,” disse Laegh. “Eu lhe direi: ela está em uma câmara separada,” disse Liban. Eles então foram para conversar com ela, e ela deu as boas vindas para eles da mesma forma como feito acima.

                Fand era a filha de Aedh (Hugh) Abrad, isto é, Aedh é o fogo, o fogo do olho é a pupila. Assim, Fand é o nome da lágrima que passa pela pupila. Ela foi assim chamada por conta de sua pureza e beleza, pois não existia nada na vida com a qual ela poderia ser comparada.

                Enquanto estavam lá, eles escutaram o rolar da biga de Labraid vindo em direção à ilha. “O espírito de Labraid está triste hoje”, disse Liban, “vamos saudá-lo.” Eles então saíram e Liban o recebeu, dizendo:

                “Bem vindo, Labraid da mão veloz na espada; o representante de legiões; o atirador de lanças leves; o cutelo de escudos; o disseminador de lanças pesadas; o que fere corpos; o assassino de nobres; o que procura matanças; o mais belo em aparência; o destruir de tropas; o disseminador de riqueza; o agressor de campeões; bem vindo, bem vindo, Labraid!”

                Labraid não falou ainda, e a donzela disse novamente:

                “Bem vindo, Labraid da mão veloz na espada de batalha; rápido é seu estipêndio; magnânimo para todos; buscador de batalha; ferido está seu flanco; fiel é sua palavra; rigorosa é sua justiça; benigna é sua soberania; forte é seu braço direito; vingativa é sua façanha; gentis são seus cavalos; Labraid, bem vindo; bem vindo, Labraid.”

                Labraid ainda não respondeu e ela cantou outra canção novamente:

                “Bem vindo, Labraid, da mão veloz na espada; o mais valente dos guerreiros; o mais altivo dos chefes; o destruidor de força; o lutador de batalha; o exterminador de campeões; o que eleva o fraco; o subjugador do forte; bem vindo, Labraid; bem vindo, Labraid.”

                “O que dizes não é verdade, ó esposa!” disse o homem Labraid, que depois disse:

                “Não é altivez nem orgulho, ó esposa, nem um alto espírito de felicidade que confundem nossos sentidos: uma batalha se aproxima, de muitas lanças de dois gumes, de perigosas camadas de espadas vermelhas sobre os punhos das mãos direitas e esquerdas; igual para muitos é o único coração de Echaidh Iuil: não podemos ter qualquer arrogância. Não tenho arrogância nem orgulho, ó esposa!”

                “Seus espíritos estão alegres, de fato,” disse a esposa, disse Liban, para ele, “Laegh, o cocheiro de Cuchulain está aqui e tem uma mensagem dele para ti, dizendo que ele se juntará a ti em sua expedição.” Labraid então lhe deu as boas vindas e disse:

                “Tu és bem vindo, ó Laegh, por conta da mulher com quem vem contigo e por conta do homem quem te enviastes. Retorne para sua casa, ó Laegh,” disse Labraid, “e Liban irá depois de você.”

                Laegh então voltou para Emania e contou toda a história para Cuchulain.

                Cuchulain então se levantou, passou sua mão sobre seu rosto e agradavelmente conversou com Laegh, sentindo que as histórias que o jovem contava para ele estavam fortalecendo seus espíritos.

                Houve então um encontro das quatro grandes províncias da Irlanda naquela época, para ver se eles poderiam encontrar uma pessoa a quem selecionassem para dar a soberania da Irlanda, pois eles consideraram que era algo ruim a Colina da Supremacia e o Senhorio da Irlanda, que é Tara, ficasse sem o governo de um rei; eles consideraram ser algo ruim que as tribos ficassem sem o governo de um rei para julgar suas casas. Os homens da Irlanda estavam sem o governo de um rei durante um período de sete anos, após a morte de Conaire9, em Bruighean Da Derga, até esse grande encontro das quatro províncias da Irlanda, em Tara dos Reis, na corte de Cairbre Niafear.

                Esses eram os reis que estavam naquele encontro: Medbh e Ailill, Curoi e Tighernach Tetbannach, filho de Luchta, e Finn Mac Rossa.

                Esses homens não realizariam um conselho para a eleição de um rei com os ultonianos, pois estes homens tinha um acordo de se opuserem a eles.

                Lá então foi preparada uma festa-do-touro para que eles descobrissem através dela quem eles deveriam dar a soberania.

                A festa-do-touro foi preparada dessa forma: um touro branco foi morto, um homem comeu sua carne e seu caldo, ele dormiu debaixo daquela refeição e um encantamento de verdade foi pronunciando sobre ele por quatro druidas, e ele viu em um sonho a silhueta de um homem que deveria ser rei, assim como sua aparência, sua descrição e o tipo de trabalho que ele fazia. O homem despertou de seu sono e descreveu o que viu para os reis – um jovem, nobre e forte homem, com duas listras vermelhas ao seu redor e sentado sobre o travesseiro de um homem em um declínio em Emain Macha (Emania).

                Uma mensagem foi então enviada com essa descrição para Emania.

                Naquela hora, os ultonianos estavam reunidos em volta de Conchobar em Emania, e Cuchulain em seu declínio estava lá. O mensageiro relatou sua história para Conchobar e para os nobres de Ulster também.

                “Há entre nós um descendente jovem e livre com essa descrição,” disse Conchobar, “e ele é Lugaidh Reoderg, o filho dos Três Nobres Gêmeos; o aluno de Cuchulain, sobre cujo travesseiro ele senta em sua cama lá dentro, consolando seu tutor, que é Cuchulain, que está em seu leito de declínio.”

                Cuchulain levantou-se então e começou a instruir seu aluno, dizendo:

A instrução verbal de Cuchulain.

                “Tu não deves ser um homem amedrontado em uma batalha furiosa, vil, opressiva, severa e feroz. Tu não deves ser um inconstante, inacessível, arrogante. Tu não deves ser um rebelde, orgulhoso, precipitado, impulsivo. Tu não deves se curvar diante da intoxicação de muita riqueza. Tu não deves ser uma pulga10 manchada de cerveja na casa de um rei provincial. Tu não deves fazer muitas festas para dispensar aos estrangeiros. Tu não deves visitar pessoas desonrosas, incapaz de lhe entreter como um rei. Tu não deves deixar a prescrição próxima a uma posse ilegal.11 Deixe as testemunhas examinarem quem é o herdeiro da terra. Deixe os historiadores12 combinarem em ação verdadeira em sua presença. Deixe as terras dos juízes serem verificadas em sua vida, e seu aumento. Se as gerações se multiplicarem em ramos, quem gerou cada ramo? Deixe-os serem chamados; deixe-os reviver um juramento.13 O lugar que os mortos, seus ancestrais, residiram. Deixe o herdeiro ser preservado em sua posse legal. Deixe que os estrangeiros sejam expulsos do patrimônio através da força da batalha.”

                “Tu não falarás tagarelamente. Tu não discutirás ruidosamente. Tu não zombarás, não insultarás e não ridiculizarás os velhos. Tu não terás uma opinião ruim (não pensarás mal) de alguém. Tu não farás pedidos difíceis. Tu não recusarás uma vaca a qualquer um. Tu terás uma lei de empréstimo, uma lei de extorsão e uma lei de penhora. Tu serás obediente no ensinamento dos sábios. Tu serás recordatório das instruções dos velhos. Tu serás um seguidor das regras dos seus pais. Tu não terás o coração frio para seus amigos. Tu serás forte para teus inimigos. Tu não serás uma retaliação de abuso em suas muitas batalhas. Tu não serás tagarela e abusador. Tu não desperdiçarás; tu não guardarás tesouros; tu não serás alienado. Tu aguentarás a reprovação para os atos impróprios. Tu não sacrificarás sua veracidade a desejo dos homens. Tu não serás um libertador de fiadores e prisioneiros sem tirar deles a segurança de que não serão repetentes. Não seja um competidor que tu não serás invejoso. Não seja preguiçoso que tu não serás inerte. Não seja inoportuno que tu não serás malvado. Você consente em seguir essas palavras, meu filho?”

                Lugaidh então falou o seguinte para Cuchulain:

“Enquanto isto for bom, elas serão mantidas;
Pois todos devem saber
Que nada deve ficar deficiente disto;
Isto será comprovado, se for praticável.”

                Lugaidh então se dirigiu para Tara junto com os mensageiros e ele foi proclamado como rei. Ele dormiu em Tara aquela noite, e depois daquela noite, toda a assembleia retornou para seus lares.

A história de Cuchulain é contada abaixo.

                “Você irá, ó Laegh,” disse Cuchulain, “até Emer e contará para ela que foram as mulheres das colinas (mulheres fadas) que vieram até mim e me machucaram, e diga-lhe que estou melhorando cada vez mais e diga-lhe para ela vir e morar comigo.”

                O criado disse o seguinte para fortalecer Cuchulain:

                “Está uma grande preguiça em um campeão que cede para um sono de uma cama de declínio, pois as genaiti (isto é, mulheres) de Ten-mhagh Trogaighi (isto é, Maigh Mell) apareceram pra ti, te derrotaram, te restringiram, te colocaram no poder de mulheres preguiçosas. Saia da morte (isto é, doença), infligida pelas donzelas (isto é, pelas mulheres das colinas), pois toda sua força chegou (isto é, a força do campeão), entre os guerreiros chefes (isto é, heróis), até tu avançares para o lugar dos guerreiros – até tu teres feito (isto é, realizado) – até tu ter conquistado poderosas proezas aonde o ativo Labraid conduz seus homens apressados. Levante! Que tu possas ser grande. Esta é uma grande preguiça.”14

                O criado foi até Emer e lhe contou como Cuchulain estava.

                “Ruim para ti, ó criado,” disse ele, “que tu não encontraste um método de curar teu mestre já que visitou as colinas. É uma pena para os Ultonianos,” disse ela, “não buscar uma perfeita cura para ele. Se fosse Conchobar que estivesse em amarras, Fergus que não pudesse dormir ou Conall Cearnach que tivesse sido ferido, Cuchulain ajudá-los-ia.”

                Ela então cantou uma canção depois disso:

“Ó Filho de Riangabhra, ai!
Embora tu frequentemente visites a colina,
Não trouxestes logo para cá
A cura do belo filho de Dectere.15

Que pena para os ultonianos, de valor ilimitado.
Tanto os tutores como os alunos,
Não procuraram na vastidão do mundo
A cura para seu amigo Cuchulain.

Se fosse Fergus que não pudesse dormir,
E a habilidade de qualquer Druida não pudesse curá-lo,
O filho de Dectere não dormiria em casa
Até ter encontrado um Druida que o curasse.

Se fosse Conall, dessa mesma forma,
Que sofresse com as feridas e dores,
O Cão de Caça (Cuchulain) procuraria pelo vasto mundo,
Até ele encontrar um médico que o curasse.

Se sobre Laeghaire Buadhach (o dotado),
Tivessem chegado intoleráveis feridas de batalha
Ele procuraria por toda a terra da Irlanda
Para curar o filho de Connaid, filho de Iliach.

Se fosse sobre o vingativo Celtchair,
Que tivesse se abatido o sono e doença permanente, -
Tanto a noite e o dia veriam as jornadas,
Entre as colinas, de Setanta.16

Se tivesse sido Furbaidhe, chefe dos guerreiros,
Que deitasse em sua cama de doença enfadonha,
Ele teria procurado pelo mundo curvado
Até ele encontrar o que o salvaria.

A tropa de fadas da colina de Trim17 o matou,
Eles o separaram de sua grande coragem,
O Cão de Caça (Cuchulain) não se sobressai sobre os cães de caça,
Desde que ele caiu no sono da colina do Brugh.17

Ai! Fui agarrada pela doença,
Pelo Cão de Caça (Cuchulain) do ferreiro de Conchobar18,
Será para mim uma doença de coração e de corpo,
Eu não serei sucedida em curá-lo.

Ai! Sangra meu coração,
Que a doença fique no cavaleiro da planície,
Que ele não venha para cá
Para a Feira da planície de Murtheimne.

A razão pela qual ele não vem de Emain, é
Devido a nobre forma que partiu dele:
Minha voz está fraca e morta,
Por causa da má condição em que ele se encontra.

Um mês, um trimestre e um ano
Sem sono – é minha regra fixa,
E nenhuma pessoa cujas palavras são doces,
Eu escutei, ó filho de Riangabhra.

Ó filho de Riangabhra.”

                Emer depois disso foi até Emania para cuidar de Cuchulain; ela sentou-se na cama em que Cuchulain estava e disse: “É uma desgraça para ti,” disse ela, “deitar-se para o amor de uma mulher, pois o deitar constante trará doença para ti”, ela continuou a conversar com ele e falou um poema:

“Levante, ó campeão de Ulster.
Que tu possas acordar de teu sono em saúde e felicidade;
Contemple o Rei de Macha19 da adorável forma,
Ele não permitirá teu grande sono.

Contemple seu ombro cheio de cristais,
Contemple seus chifres com troféus,
Contemple suas bigas que varrem os vales,
Contemple os movimentos de seus guerreiros do xadrez.

Contemple seus campeões em seu poder,
Contemple suas nobres e educadas damas.
Contemple seus reis de carreira valorosa,
Contemple suas rainhas extremamente nobres.

Contemple o início do claro inverno.
Contemple todas as suas maravilhas em suas vezes.
Contemple tudo o que ele produz.
Seu frio, sua extensão, sua ausência de beleza.

Sua inércia, não é um sono bom, pesado,
Seu enfraquecimento adicional para a incapacidade para o combate.
O longo sono é o mesmo que a bebedeira além da saciedade.
A debilidade perde apenas para a morte.

Acorde do teu sono das fadas que bebeste:
Expulse-o com grande e excessivo ardor.
Muitas palavras floridas já amou;
Levante, ó campeão de Ulster.

Levante, ó campeão de Ulster.”

                Cuchulain levantou-se depois disso, colocou sua mão sobre seu rosto e afastou dele sua inércia e seu peso. Ele então se levantou e posteriormente caminhou até chegar no lugar que procurava**. Depois disso, ele viu Liban indo em direção a ele, a mulher falou com ele e o convidou para a mansão das fadas (Sidh). “Onde Labraid está?” disse Cuchulain. “Eu lhe direi,” disse ela.

“Labraid está agora sobre um lago puro,
Para onde as companhias de mulheres recorrem.
Tu não te sentirias fatigado indo para sua terra,
Tu não te sentirias visitando Labraid o rápido.

Uma feliz casa que uma mulher agradável cuida,
Uma centena de homens instruídos que estão nela são peritos;
O carmesim dentro dela é a nuança mais bonita
Com a semelhança da bochecha de Labraid.

Ele sacode a cabeça de um lobo da matança da batalha
Diante de sua fina e vermelha espada;
Ele esmaga a armadura de tropas abundantes,
Ele despedaça os grandes escudos dos campeões.

Um deleite para os olhos é sua pele na luta,
Em todas as ocasiões ele trabalha com seus feitos corajosos;
Ele é o mais digno dos homens,
Um homem que derruba muitos milhares.

O mais valente dos guerreiros, o mais famoso na história,
Chegou à terra de Eochaidh Iuil;
O seu cabelo é como anéis de ouro, -
O cheiro do vinho vem com sua respiração.

O mais ilustre dos homens que procuram batalhas,
Cuja ferocidade é sentida por fronteiras distantes;
Suavemente deslizam os botes e corcéis
Que passam pela ilha na qual Labraid reside.

Um homem de muitos feitos exóticos,
Labraid da mão veloz na espada;
Ele não racha os homens até então compelidos,
Ele mantém a sustentação de suas tropas.

Rédeas e coleiras de ouro vermelho para seus cavalos,
E não é apenas isso, -
Colunas de prata e de cristal
São o que sustenta a casa na qual ele está.

Labraid está agora, etc.”

                “Não devo ir,” disse Cuchulain, “com o convite de uma mulher.” “Deixe então Laegh ir para lá,” disse a mulher, “para conhecer tudo.” “Deixe-o ir, então,” disse Cuchulain.

                Laegh então foi com a mulher, passaram por Magh Luada20, passaram por Bilé Buadha21, passaram por Oenach Emna22, passaram por Oenach Fidhga23 e era lá que Aed Abrat estava com suas filhas.

                Fand deu as boas vindas para Laegh. “Por que Cuchulain não veio?” disse ela. “Ele não queria vim pelo convite de uma mulher e também para saber se foi por ti que o convite foi feito,” disse Laegh. “Eu convidei,” disse ela, “e deixe-o vir nos visitar em breve, pois é nesse dia que a batalha será travada.”

                Laegh voltou para Cuchulain e Fand foi junto com ele. “O que é isso, ó Laegh?” disse Cuchulain. Laegh respondeu dizendo: “É tempo de ir,” disse ele, “pois a batalha será travada hoje.” E enquanto ele estava dizendo, ele falou um poema:

“Eu cheguei, em minha feliz esportividade.
Em uma residência incomum, apesar de ela ser comum;
Até o Card24 D com números de bandos;
Onde encontrei Labraid do cabelo longo e fluido.

E eu o encontrei no Card,
Sentado entre milhares de armas;
O cabelo loiro dele é da mais esplêndida cor.
Uma maçã dourada o encerra.25

E quando ele me reconheceu lá,
Com sua capa carmesim cinco vezes dobrada,
Ele me disse, ‘Tu virás comigo
Para a casa na qual Faelbe Finn26 está?’

Os dois reis então na casa, -
Failbe Finn e Labraid, -
Três vezes cinquenta homens ao redor de cada um deles;
É o número de uma casa.

Cinquenta camas em seu lado direito, ao sul,
E cinquenta à sua direita.    
Cinquenta camas em seu lado esquerdo, ao norte,
E cinquenta à sua esquerda.

Uma variedade de camas, carmesim,
Verde, branca, com adornos dourados;
A nobre vela que está lá
É a brilhante pedra preciosa.

Existem na porta ocidental
No lugar onde o sol se põe,
Corcéis férteis com jubas cinza malhadas,
E outras marrons avermelhadas.

Existem na porta oriental
Três majestosas árvores de puro carmesim,
Na qual cantam os pássaros do florescer perpétuo
Para os jovens do rathE real.

Há uma árvore na porta da corte;
Ela não pode ser igualada em harmonia;
Uma árvore de prata na qual brilha o sol.
Como o ouro é seu esplêndido brilho.

Existem três vintenas de árvores,
Em contato, suas copas se relacionam;
Três centenas são alimentadas por cada árvore,
Com frutos variados e rapidamente prontos.

Há uma fonte na nobre corte.
Com suas três vezes cinquenta capas malhadas,
E um pino de ouro, cheio de brilho,
Na parte superior de cada capa malhada.

Lá existe um recipiente com um alegre hidromel,
Sendo distribuído pelo palácio.
Assim ele permanece, constante é o costume,
Estar sempre cheio, sempre e sempre.

Há uma donzela na nobre casa,
Que excede todas as mulheres da Irlanda;
Com cabelo loiro ela sai, -
E ela é linda, toda talentosa.

A conversa que ela tem com todos,
É deliciosa, é incomum;
O coração de todos os homens se parte
Pelo seu amor e afeição.

A nobre donzela disse:
‘Quem é o empregado que não conhecemos?’
Se tu fores ele, venha cá um pouco, -
O empregado do homem de Muirthemne.’

Eu fui suavemente, suavemente, -
O medo pela minha honra me pegou;
Ela disse para mim: ‘Ele virá para cá,
O único filho da assídua Dechtere?’

É uma pena que ele (você) não irá um tempo atrás,
E todos o solicitando (você);
Que ele (você) possa ver em seu real estado
A grande casa que vi.

Se toda a Irlanda fosse minha
E a soberania das colinas felizes,
Eu a daria, não é um ato trivial,
Para morar constantemente no lugar para onde fui.

Para onde fui, etc.”

                “Isso é bom,” disse Cuchulain. “Isso é bom,” disse Laegh, “e é apropriado que tu vás para lá; tudo naquele país é bom.” Laegh então relatou para ele a felicidade daquela mansão de fada:

“Eu vi um país brilhante e nobre.
No qual nem mentira nem artimanhas são faladas;
Lá está um rei de tropas muito grandes,
Labraid da mão veloz na espada.

Enquanto estava passando por Magh Luada,
Eu vi a árvore prendada;
Eu passei pela planície florida
Com dois rápidos pés adiantados.

Então Liban disse,
No lugar em que estávamos,
‘Como seria querido para mim o milagre
Se fosse Cuchulain que estivesse no teu lugar.’

As mulheres eram belas, dotadas sem limite,
As filhas de Aedh Abrat;
A aparência de Fand da famosa beleza
Ninguém poderia alcançar, apenas as rainhas do rei.

Eu direi – pois foi isso que ouvi –
Entre a raça de Adão sem transgressão,
A aparência que é de Fand, eu deverei sempre dizer,
Não há ninguém entre eles que seja igual.

Eu vi campeões em esplendor,
Com armas no corte;
Eu vi roupas de belas cores –
Estas não eram as vestes de homens ignóbeis.

Eu vi belas mulheres festejando,
Eu vi todas as suas filhas,
Eu vi nobres jovens
Indo para a colina arborizada.

Eu vi os professores de música lá,
Encantando as donzelas;
Se não fosse pela rapidez que eu sai de lá,
Eles teriam me deixado impotente.

Eu vi a colina27 que estava lá –
Uma bela mulher é Eithne Inguba;
Mas a mulher que eu falei aqui,
Tira os sentidos das tropas!

Eu vi, etc.”

                Cuchulain então foi com ele até o país e levou sua biga consigo até chegarem à ilha. Labraid os recebeu e todas as mulheres também; Fand deu boas vindas especiais para Cuchulain.

                “O que deve ser feito aqui nessa ocasião?” disse Cuchulain. “O que devemos fazer é,” disse Labraid, “iremos e rodearemos a tropa adversária.” Eles seguiram até chegar à massa das tropas, observaram e as tropas pareciam inumeráveis. “Vá e fique a vista,” disse Cuchulain para Labraid. Labraid foi embora e Cuchulain permaneceu com a tropa. Dois corvos negros crocitaram e as tropas riram. “É provável,” disseram as tropas, “que os corvos profetizaram o Riastartha28 da Irlanda.” As tropas então os perseguiram e eles não encontraram um lugar para si na terra.

                Mais tarde, Eochaid Iuil foi lavar suas mãos em uma fonte no início da manhã. Cuchulain agora viu que seu ombro estava nu através do Cochall (CucullusF). Ele lançou uma lança e ela o atravessou. Ele sozinho matou trinta e três homens deles. Depois, ele foi atacado por Senach Siabortha (o espectral), travaram uma grande batalha e Cuchulain acabou o matando. Labraid então veio e desmanchou as tropas diante dele (diante deles). Labraid implorou para Cuchulain desistir da matança. “Tememos,” disse Laegh, “que o homem ofereça sua fúria sobre nós, já que não teve o suficiente da batalha.”

                “Mande as pessoas irem,” disse Laegh, “preparar três recipientes de água fria para extinguir seu calor. A água ferverá no primeiro recipiente que ele entrar; no segundo recipiente, nenhuma pessoa será capaz de segurá-lo devido ao seu calor, e o calor do terceiro recipiente será suportável.”

                Quando as mulheres viram Cuchulain, foi Fand que cantou:

“Imponente é o cocheiro que anda pela estrada,
Se ele estiver sem barba, ele é jovem.29
Esplêndida é a corrida que ele corre sobre a planície.
Ao anoitecer, no nobre gramado de Fidgai.

Não é a música de fadas do divã que o serve,
É a profunda cor do sangue que está sobre ele,
O ruído30 que os corpos de outras bigas produzem
É cantado pelas rodas de sua biga.

Os corcéis que estão debaixo de sua firme biga,
Fico sem movimento a observá-los;
Um corcel fértil semelhante é desconhecido;
Eles são ligeiros como o vento de primavera.

Cinco vezes dez maçãs de ouro ele toca.
Elas dançam acima de sua respiração;
Nenhum rei obteve algo parecido
Entre os nobres e ignóbeis.

Há em cada uma de suas duas bochechas
Uma covinha vermelha como o sangue rubro,
Uma covinha verde, uma covinha marrom,
Uma covinha carmesim de cor brilhante.

Há sete luzes sobre seu olho –
Não é um fato para ser deixado quieto –
Sobrancelhas marrons, do mais nobre conjunto,
Pálpebras como um besouro negro.

Há sobre sua cabeça, que homem pode ser tão bom? –
Como foi escutado pela Irlanda até suas fronteiras –
Três fontes de cabelo31 de cores diferentes;
Um moço jovem e sem barba.

Uma espada avermelhada, que dissemina sangue –
Com seu cabo de prata;
Um escudo, com saliências de ouro amarelo.
E um aro de findruine.32

Ele ultrapassa todos os homens em todos os abates;
Ele atravessa a batalha até o lugar de perigo;
Não há ninguém com uma lâmina alta e ousada
Igual à Cuchulain.

É Cuchulain que vem para cá.
O jovem campeão de Murthemne;
Elas que o trouxeram de longe
São as filhas de Aed Abrat.

Pingando sangue em longos córregos vermelhos,
Para os lados de lanças grandiosas que ele traz;
Altivo, orgulhoso, alto pela valentia.
Ai daquele que se opor contra ele quando se enfurece.

Imponente, etc.”

                Liban lhe deu as boas vindas e falou o seguinte: “Bem vindo, Cuchulain; rei que socorre; grande príncipe da Planície de Murthemne; grande é sua mente nobre; um campeão vitorioso em batalha; uma forte pedra de valentia; vermelho-sangue de fúria; pronto para organizar adequadamente os campeões de coragem de Ulster; bela é sua aparência; um deslumbramento dos olhos para as donzelas; ele é bem vindo.”

                “Bem vindo, Cuchulain,” etc.

                “Eu perguntei o que fizeste, Cuchulain?” disse Liban para ele. Foi Cuchulain que disse:

“Arremessei minha lança
Na corte de Eogan de Inber,
Eu não sei – caminho de fama –
Se o que fiz foi bom ou ruim.

Se minha força foi melhor ou pior,
Até agora não lancei meu pequeno dardo
O errôneo arremesso de um homem em um nevoeiro,
Ou um que certamente não alcançaria uma pessoa viva.

A nobre tropa, de aspecto vermelho, em cima dos corcéis
Eles me atingiram em todos os lados;
O povo de Manannan, filho de Ler,
Invocado por Eogan de Inber.

Eu dei uma ferida por uma ferida, em qualquer maneira,
Quando minha força inteira voltou;
Um homem após trinta e uma centena33
Eu levei para a morte.

Escutei o suspiro de Eochaid Iuil.
Foi em boa amizade que seus lábios falaram.
Se o homem falou a verdade, ela certamente venceria a batalha.
O lance que foi arremessado.

Eu lancei, etc.”

                Cuchulain então se retirou com a donzela (Fand) e permaneceu um mês com ela. Ela lhe concedeu sua licença no final do mês e disse para ele: “Em qualquer lugar que você me desejar, eu irei.” Foi em Ibar-Cinn-Trachta (Newry) que eles tiveram seu encontro.

                Tudo isso foi contado para Emer. Ela tinha facas feitas por ela para matar a donzela. Emer veio com cinquenta donzelas até o local do encontro. Lá, Cuchulain e Laegh estavam jogando xadrez e eles não perceberam as mulheres aproximando-se deles. Fand percebeu e disse para Laegh: “Olhe, Laegh, o que vejo.” “O que é?” disse Laegh. Ele olhou e então a donzela, Emer (recte, Fand), disse isso:

                “Olhe, ó Laegh, atrás de ti; mulheres respeitáveis de bom senso estão de escutando, com grandes facas verdes em sua mão direita, com ouro em seus seios belamente formados; elas se movem da mesma forma que os campeões de coragem se movem através de uma batalha de bigas. Emer, a filha de Forgall, faz bem ao mudar de cor.”

                “Ela não se vingará,” disse Cuchulain, “e ela não te alcançará. Venha para a ornamentada biga com o assento ensolarado, de frente para meu rosto, pois eu lhe defenderei das muitas numerosas donzelas nos quatro pontos de Ulster, pois embora a filha de Forgall ameace, na força de suas companheiras, uma façanha de poder, certamente ela não ousará fazer nada contra mim.”

                Cuchulain disse ainda:

                “Eu te evito, ó mulher, como qualquer um evita sua favorita; tua lança dura e trêmula nas mãos não me fere; nem tua faca suave e fina; nem sua impotente e calma ira; por isso seria triste que minha força fosse evitada pela força de uma mulher.”

                “Eu pergunto então,” disse Emer, “o que foi que te induziu, ó Cuchulain, a me desonrar diante de todas as donzelas da província, diante de todas as donzelas da Irlanda e diante de todo o povo honrado dessa forma? Pois foi sob teu abrigo que vim, sobre tua grande força de tua firmeza; pois apesar de em teu orgulho ameaçaste uma grande briga, é certo que tu não se sucederás em me repudiar, ó jovem, embora tentes.”

                “Eu pergunto então, ó Emer,” disse Cuchulain, “por que eu não sou permitido ter a minha vez na sociedade de uma mulher? Pois primeiramente, essa mulher é pura, casta, nobre e engenhosa; digna de um belo rei; a donzela das ondas dos grandes e plenos mares; com forma e aparência, e nobreza de linhagem; com bordadura, eficácia e produção manual; com sentido, inteligência e firmeza; com uma abundância de corcéis e rebanhos de vacas; pois não há nada debaixo do Céu que seu adorável marido queira que ela não seja capaz de dar, mesmo que não tenha prometido. Ó Emer,” disse ele, “tu não encontrará um campeão adorável, que fere golpes e vitorioso em batalha de igual valor como eu.”

                “É certo,” disse Emer, “que eu não recusarei a mulher se tu a seguires. No entanto, tudo o que é vermelho é belo, tudo o que é novo é nobre, tudo o que é alto é adorável, tudo o que é comum é amargo, tudo o que não temos é valorizado, tudo o que se sabe é negligenciado, até eu me lembrar de que em tua juventude,” disse ela, “nós estávamos uma vez em dignidade contigo, e estaremos assim novamente se te agradar.” E ela foi vencida pela tristeza. “Pela minha palavra,” disse ele “tu estás me agradando e sempre me agradará enquanto eu viver.”

                “Deixe-me ser repudiada,” disse Fand. “É mais adequado me repudiar,” disse Emer. “Não,” disse Fand, “sou eu quem deve ser repudiada nesse caso, pois fui eu que me coloquei em perigo por um longo tempo.” Ela então caiu em grande pesar e tristeza de espírito, pois ela foi envergonhada ao ser repudiada e teve que ir para sua casa imediatamente; o grande amor que ela deu para Cuchulain a perturbou; ela estava lamentando e fez essa canção:

“Sou eu que devo ir à jornada;
Eu consenti com grande aflição;
Apesar de existir um homem de igual fama34,
Eu preferiria ficar.

Eu preferiria estar aqui,
Para ser tua subordinada, sem pesar,
Do que ir, apesar disso poder te espantar,
Para o palácio ensolarado de Aed Abrat.

Ó Emer! O homem é teu.
E que tu possas usá-lo bem, és uma boa mulher –
O que meu braço não pode alcançar, apenas
Sou forçada a desejar também.

Muitos foram os homens que perguntaram por mim
Tanto na corte como nos lugares ermos;
Nunca tive um encontro com estes
Pois eu estava com o correto.

Como é ruim! Dar amor a uma pessoa,
E ele não percebe isso;
É melhor para uma pessoa ir embora,
A menos que ele seja amado assim como ama.              

Com cinquenta mulheres tu vieste para cá,
Ó Emer do cabelo loiro.
Para reprimir Fand; isto não foi bom,
E matá-la em sua miséria.

Existem três vezes cinquenta, durante meus dias,
De mulheres, belas e solteiras,
Comigo em minha corte;
Elas não me abandonariam!

Sou eu que, etc.”

                Tudo isso foi revelado para Manannan – que Fand, a filha de Aed Abrat, se envolveu em um conflito desigual com as mulheres de Ulster e que Cuchulain tinha mandando-a embora. Manannan então veio do leste para procurar Fand; ele estava na presença deles e ninguém o via, apenas Fand. Um grande terror e tristeza apoderaram-se da donzela ao ver Manannan e ela fez um poema:

“Contemplem o valente filho de Ler,
Das planícies de Eogan de Inber –
Manannan, senhor sobre as colinas de fadas do mundo,
Houve uma época em que ele era querido para mim.

Mesmo se hoje, ele estivesse nobremente constante,
Minha mente não amaria a inveja,
Afeição é algo sutil;
Ela faz seu caminho sem trabalho.

No dia que eu estava com o filho de Ler,
No palácio ensolarado de Dun-Inber;
Nós pensamos, sem dúvida,
Que nunca nos separaríamos.

Quando o grande Manannan me desposou,
Eu fui sua digna esposa –
Ele não poderia me vencer
Uma partida de xadrez.

Quando o grande Manannan me desposou,
Eu fui sua digna esposa;
Uma pulseira de ouro duplamente provado
Ele me deu como o preço dos meus rubores.

Eu tinha comigo ao viajar pelo mar
Cinquenta donzelas de beleza variada;
Eu dei-as para cinquenta homens,
Sem reprovação – as cinquenta donzelas.  

Quatro vezes cinquenta, sem tolice,
Era a família de uma casa;
Duas vezes cinquenta homens, felizes e perfeitos –
Duas vezes cinquenta mulheres, nobres e saudáveis.

Eu vi vindo do mar para cá –
Nenhuma pessoa errante o vê –
O cavaleiro da onda com crista;
Ele não adere aos seus grandes barcos.

Sua vinda até nós, até aqui,
Ninguém vê, apenas um sidhaighe35;
Teu bom sentido é exaltado por toda tropa gentil,
Embora eles estejam bem longe de ti.

Quanto a mim, eu teria uma causa,
Pois as mentes de mulheres são tolas;
A pessoa a quem amei muito
Deixou-me aqui em desvantagem.

Eu lhe dou adeus, ó belo Cu;
Aqui nós te deixamos com um bom coração;
Apesar de nós não retornarmos, que tua boa vontade esteja conosco;
Toda condição é nobre em comparação com a condição de ir embora.

Esta é a hora de partir;
Há uma pessoa que não vê um pesar nisso;
É, no entanto, uma grande desgraça,
Ó Laegh, ó filho de Riangabhra.

Eu devo ir com meu próprio esposo.
Pois ele não me mostrará desobediência.
Para que não digam que é uma partida secreta,
Se a desejarem, observem.

Observem, etc.”

                A mulher então seguiu Manannan, que a recebeu e disse: “Bom, ó mulher,” disse ele, “irás cuidar de Cuchulain daqui em diante ou virás comigo?” “Pela nossa palavra, agora,” disse ela, “eu preferiria ficar com um do que com outro, mas é contigo que deverei ir, não esperarei por Cuchulain pois ele me abandonou; e outra coisa, tu és um bom homens, tu não tens uma rainha digna, mas Cuchulain, no entanto, tem.”

                Quando Cuchulain viu que a mulher estava indo até Manannan, ele disse para Laegh: “O que é isso?” disse ele. “Isso,” disse Laegh, “é Fand que está indo para Manannan, o filho de Ler, pois ela não está te agradando.”

                Cuchulain então deu três grandes saltos e três saltos para o sul de Luachair36, onde permaneceu por um longo tempo sem bebida, sem comida, entre as montanhas, e onde ele dormiu cada noite em Slighi (estrada) de Midhluachair.

                Emer, nesse tempo, visitou Conchobar em Emania e lhe contou o estado em que Cuchulain estava.

                Conchobar enviou os poetas, os profissionais e os druidas de Ulster para visitá-lo, prendê-lo e o trazerem com eles para Emania. Ele, no entanto, tentou matar o grupo dos homens profissionais, que pronunciaram encantamentos druídicos contra ele para que suas pernas e braços ficassem presos até ele recuperar um pouco de seus sentidos. Ele então suplicou uma bebida para eles e os druidas lhe deram uma bebida do esquecimento. No momento em que ele bebeu a bebida, não se lembrou de Fand e de todas as coisas que eles fizeram. Foram dadas também bebidas do esquecimento do ciúme para Emer, pois ela não estava em melhor condição do que ele. Enquanto isso, Manannan sacudiu seu manto entre Cuchulain e Fand para que eles nunca se encontrassem novamente. Assim, esta era uma visão sendo acometida pelo povo do sídhe (ou mansões das fadas) para Cuchulain: pois o poder demoníaco era grande antes da Fé, e tal era sua grandeza que os demônios costumavam tentar corporalmente o povo, costumando mostrar-lhes deleites e segredos de como eles ficariam na imortalidade. Era nisso que eles acreditavam. Os ignorantes costumavam nomear os fantasmas como Sidhe e Aes Sidhe.

[Um poema de trinta e seis estrofes, escrito por Fann, o professor de Monasterboice, que morreu em 1056 d.C., preservado no antigo Livro de Leinster, fol. 6, na Library of Trinity College, Dublin, sobre a morte dos chefes dos Tuatha De Danann, mostra que Eogan de Iuber foi morto por Eochaid Iuil, e que Eochaid foi morto por Aed Abrat e Labraid da mão veloz na espada.]

Notas de Eugene O’Curry

1. E por isso, suas armas eram invioláveis. – Quer dizer: Se um rei ou cavaleiro jurasse pela sua espada ou pelas suas armas, esse juramento era inviolável; e se uma espada, lança ou arma de um rei, chefe, guerreiro ou poeta chefe fossem dados ou penhorados como uma proteção para a pessoa, abusar dessa proteção era vergonhoso e ilegal. Veja a Segunda Batalha de Magh Tuiredh e a História de Cormac Gaileng no Glossário de Cormac.

2. Teti Breac: o palácio malhado. Esse era um dos três palácios de Emania, a cidade principal da antiga Ulster. Os outros eram Craebh-ruadh, ou Ramo Real, e o Craebh Dhearg, ou Ramo Vermelho.

3. Uma das casas de Cuchulain.

4. A principal casa ancestral de Cuchulain. Foi nomeada em homenagem à Dealga, um chefe dos Firbolgs, que a construiu.

5. Manannan Mac Lir. – Manannan, o filho de Ler, o grande chefe dos Tuath de Danann, mercador e navegador, cuja residência principal era Inis Manannain ou Manainn, que é, a Ilha de Man, agora corruptamente chamada de Ilha de Man.

6. Eoghan Inbhir, que é, Eoghan da Foz do Rio. A foz do rio mencionada aqui é, acredito, Inbher Mor, a foz do rio Abhainn Mhor, no condado de Wicklow, onde fica a cidade de Arklow. A identificação de Eoghan Inbhir é derivada do Livro de Leinster, folio 5, onde é relatado que Fiachna, um filho de Delbaeth, monarca da Irlanda, e os seis filhos de Ollam, foram mortos por Eoghan de Inbher Mor. Todos eles eram da raça dos Tuath De Danann, e esse evento, de acordo com a cronologia dos Annals of the Four Masters, 3470 a.m.

7. Magh Mell, que é, a planície da felicidade. Este era um dos nomes mitológicos dos Campos Elísios ou Terra das fadas dos antigos gaélicos.

8. Esta é Inis Labraid ou Ilha de Labraid e a exata posição dela, até onde sei, é desconhecida. O nome aparece duas vezes nos Annals of the Four Masters; primeiro, no ano de nosso Senhor, 919, onde é relatado que o príncipe dinamarquês, Goffraigh, o filho de Imar, saqueou a cidade de Armagh e toda a região ao seu redor, até Inis Labrada no oeste, e até o Rio Banna ao leste; e na segunda vez, foi relatado no ano 1108, que Inis Labrada foi demolida pelo Feara-Manach (o povo de Fermanagh). A partir desse relato, é evidente que Inis Labrada, na época mencionada, era um lugar fortificado, e é muito provável que estivesse situado em Loch Erne.

9. Conaire Mor, o monarca da Irlanda, foi morto pelos fora-da-lei britânicos e irlandeses, em Bruighean Da Derga, próximo a Dublin em 5160 a.m.

10. Uma pulga manchada de cerveja: Essa frase, como todas as frases desse difícil discurso, contém uma alusão às formas de expressão usadas nas Leis, que necessitaria de muito espaço para explicar aqui nessa nota; todas essas alusões irão, no entanto, se tornar completamente inteligíveis quando o grande trabalho em andamento realizado pela Royal Commissioners para a publicação das “Brehon Laws” for publicado. O significado geral da frase é uma exortação a um jovem rei, para evitar que ele seja conduzido para a intemperança nas festas preparadas para ele pelos reis provinciais, durante suas visitas às diferentes províncias da Irlanda.

11. Tu não deves deixar a prescrição próxima a uma posse ilegal: Isso está em conformidade com as “Brehon Laws”, que decreta que, não importa o longo prazo durante o qual uma terra podia ser obtida secretamente ou ilegalmente, ela não equivaleria à uma prescrição.

12. Isso também foi decretado pelas “Brehon Laws”.

13. Que são, suas antigas reinvindicações reestabelecidas em juramentos.

14. As primeiras palavras dos discursos repetidas; como de costume dos antigos escribas, para mostrar onde um fragmento ou poema termina.

15. Dectere: Ela era a mãe de Cuchulain e irmã de Conchobar Mac Nessa, Rei de Ulster.

16. Setanta foi o primeiro nome de Cuchulain.

17. Colina de Trim e Colina do Brugh: Antigas colinas e palácios de fadas na margem esquerda do Rio Boyne, acima e abaixo de Slane.

18. Culann era o nome do ferreiro de Conchobar Mac Nessa, e foi por sua causa que Setanta ganhou o nome Cu-Chulainn, ou “Cão de Caça de Culann”.

19. Rei de Macha. – Esse era Conchobar Mac Nessa, rei de Ulster, mas assim chamado aqui por causa de Emain Macha, a capital de sua província.

**. Em ZCP 8, Paul Walsh relata: A segunda versão de Serglige Conculaind, do qual falta o início, começa com ‘os feitos de C. serão agora descritos aqui’ (LU 56 b37 = Ir. Texte I 214, 18). Cuchulainn envia Laeg até Emer para anunciar sua doença e chamá-la até seu leito. Ela repreende o cocheiro que, apesar de ter tido acesso ao sid, não buscou uma cura para seu mestre. Ela vai para Emania e canta uma canção de exortação para ele. “Cuchulainn então se levanta, passa sua mão sobre seu rosto, deixou sua fraqueza e peso de lado e ficou de pé, indo co mboi in airbi roir” (LU 47b15). O que é airbi roir? Windisch op. cit. p. 200 traduz ‘bis er sich na dem Orte befand, den er suchte’. Thurneysen em sua Sagen aus dem alten Irland, p. 92, torna “bis er zu der Einfriedigung kam, die er suchte”, e adiciona a observação de que o primeiro encontro com as mulheres do síd parece ter acontecido em um lugar que Cuchulainn posteriormente procurou (p. 89). Nas Contribuições de Kuno Meyer, s.v. 4 airbre, nossa passagem é citada e traduzida como “até ele estar no caminho que procurava”. Todas essas traduções são errôneas. Como o Sr. T. F. Rahilly apontou primeiramente para mim, Airbe Rofir é o nome de um lugar em Conaille Murthemne. Ele aparece nos dindshenchas de Lecht Oenfir Áife (RC XVI p. 47) como o lugar onde Conla foi enterrado pelo seu pai: rosfuc leis Cuchulainn iarsin co roadnacht oc Airrbe Rofir, e em um poema atribuído à Cendfaelad mac Ailella, o lugar onde Cuchulinn caiu (LL 121b 43): doceir Cúchuaind cáin tuir trénfer inn-Airbiu Rofir. A origem do nome é dado como o seguinte no LL 122a 24ff: Conall Cernach coloca seu pé na pegada do morto Cuchulinn e diz: ‘bid ed ainm in tíri-seo co bráth Airrbe Rofir’. Outra explicação do nome é dada na versão moderna da história de Cuchulainn-Conlaoch, ver Éigse Suadh is Seanchaidh (Gill and Co. 1919), p. 70.

20. Magh Luada, que é, a Planície da Corrida. Esse lugar não é conhecido, pelo menos para mim.

21. Bilé Buadha, que é, a antiga Árvore Sagrada, ou a árvore da vitória – o poste de vitória da planície das corridas, talvez. É desconhecida para mim.

22. Oenach Emna, que é, a feira ou local da assembleia de Emania, que acredito ter sido um jardim público, ou faithche, daquela cidade famosa.

23. Oenach Fidhgha, que é, a Feira ou Assembleia de Fidhgha, ou dos Bosques. O nome desse lugar coincidiria muito bem com o lugar agora chamado Fews (feadha, ou bosques), mas esse lugar é situado ao sul de Emania, enquanto que a Oenach Fidhgha aparece, em nosso texto, ao norte de Emania. O lugar pode, no entanto, ter sido situado nesse distrito, como é encontrado em um antigo tratado em minha posse, agrupado com os seguintes lugares em Ulster: Lurg, Lothar, Callainn, Fearnmhuighe, Fidhgha, Sruibh Bruin, Bemas, Dabhall, etc. Callainn, que o precede nesse grupo, é um rio famoso próximo da cidade de Armagh, e Fearnmuighe, que o segue, é a presente Farney ao sul da região de Monaghan. É evidente, no entanto, que todos os lugares mencionados nesse texto estão dentro de uma curta distância de Emania, uma vez que sabemos que Laegh voltou para o lugar de seu mestre, e com ele, retornou para lutar a batalha no mesmo dia.

24. Card. – A palavra Carn as vezes é escrita dessa forma.

25. Uma maçã dourada o encerra. – O cabelo era longo, amarrado ou chapeado, caindo nas costas e terminando em uma bola oca ou globo de ouro, tal como, provavelmente, aqueles que podem ser vistos no nobre Museum of the Royal Irish Academy.

26. Faelbe Finn, que é, Failbe do cabelo loiro. Não existem menções sobre esse homem em nosso texto, e também não sei de nada mais sobre ele.

27. A Colina, que é, a colina na qual os Sidhe, ou Mansão de fadas, estava situado.

28. Riastartha, que é, o homem enfurecido; o homem cuja face se distorce com a fúria, como Cuchulain estava acostumado.

29. Se ele estiver sem barba, ele é jovem. – Um guerreiro sem barba de idade madura era desprezado pelos antigos irlandeses, daí a desculpa de Fand para a necessidade de um caráter masculino para Cuchulain.

30. O ruído, que é, o ruído ou o murmúrio que o movimento que a vime ou qualquer parte de uma biga faz e que não é menos barulhento que o rolar das rodas da biga.

31. Três fontes de cabelo – Cf. “Três fontes de cabelo estavam nele. Castanho na pele de sua cabeça; carmesim no meio; um diadema dourada na superfície”. (Tain-Bo-Chuailgne, no Lebhor na h-Uidhre, foilio 58).

32. Findruine. – A natureza precisa desse metal ainda não está clara, mas, a partir da comparação com diversas passagens, parece que ele era uma espécie de bronze branco, entalhado e ornamentado.

33. Trinta e uma centena. – Na prosa é trinta e três.

34. Apesar de existir um homem de igual fama. – Que é, apesar dela ter um pai tão famoso quanto Cuchulain, para ir até ele, ela ainda preferiria ficar com este último.

35. Um sidhaighe. – Que é o nome que Benshee, quando aplicado à uma mulher, ou Fershee, quando aplicado à um homem. É um ser dos Sidhes, ou mansões dos imortais do mundo invisível – as chamadas fadas em nossa época.

36. O Luachair, que é, o lugar ou distrito dos juncos. Essa era uma região de juncos que ficava ao sul de Emania, através do qual a grande estrada de Midh-luachair, que conduzia Emania para Tara, passava. Seus limites são desconhecidos.                           

Fonte: “The Sick-bed of Cuchulain, and the only jealousy of Emer”, tradução por Eugene O’Curry, disponível em: <http://sejh.pagesperso-orange.fr/keltia/version-en/cu-sickbed.html>. Acesso em: 03 de setembro de 2016.

Notas de tradução

A. Ultonianos. Chama-se ultonianos o povo de Ulster.

B. Xadrez. No texto em inglês, o termo é chess que se traduz como xadrez, porém, no manuscrito original em irlandês, aparece a palavra fidchell que não significam a mesma coisa. O fidchell, segundo o site “Wikipédia” foi um antigo jogo irlandês de tabuleiro com contraparte no País de Gales. Embora hoje não se saiba o método do jogo, as regras e as peças, acredita-se que este seja a origem do nosso moderno xadrez.

C. Funda. Mais conhecido como estilingue, a funda, segundo o site “Wikipédia”, é uma arma de arremesso constituída por uma correia, e onde no centro é colocado o objeto que se quer arremessar, normalmente uma pedra.

D. Card. Eugene O’Curry diz que essa é uma grafia alternativa para Carn, que acredito ser a mesma coisa que Cairn, uma pilha de pedras.

E. Rath. Um montículo de terra remanescente de habitações circulares na Irlanda.

F. Cucullus. É o nome romano para um tipo de vestimenta gaélica que consiste em um capuz atado a uma espécie de “manto” que cobre até um pouco abaixo dos ombros.

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