sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O cortejo de Luaine e a morte de Athirne

O cortejo de Luaine e a morte de Athirne
Tochmarc Luaine 7 Aidedh Aithairne Andso1
O Livro Amarelo de Lecan, o Livro de Ballymote

Introdução do tradutor do texto em irlandês, Whitley Stokes

                O seguinte conto foi retirado de dois manuscritos do século XIV, o Livro Amarelo de Lecan (Y) e o Livro de Ballymote (B), cujas versões se correspondem tão bem parecendo que ambas as cópias foram tiradas do mesmo códice, mas o escriba do Livro de Ballymote alterou a ortografia da versão original um pouco mais que o escriba do Livro Amarelo. O conto pertence ao ciclo de romance de Conchobar e se volta à crença irlandesa nos poderes sobrenaturais de poetas que foram ofendidos. Deste modo, o conto faz um paralelo à história de Nede e seu tio Caiar, contada no Glossário de Cormac, Códice B, s.v. gaire, e impressa com uma tradução em inglês em Three Irish Glossaries, Londres, 1862, p. XXVI-XXX. Ele foi pela primeira vez editado com a omissão de alguns versos desinteressantes e ocasionalmente incompreensíveis, mas O’Curry dá um resumo destes em sua obra Manners and Customs, III, 373. Esse resumo é tanto impreciso como incompleto. Para apoiar a declaração de que Luain (como ele chama inadequadamente a heroína Luaine) foi “trazida em triunfo para Emain, onde ela foi solenemente desposada pelo Rei, que após esse feliz evento ele logo se esqueceu de sua dor e recuperou sua alegria”, não há uma palavra na história irlandesa que conta o destino triste da garota e a punição pelos seus assassinatos com uma simplicidade breve e séria. A vingança dada pelos homens de Ulster aos poetas concupiscentes e aos seus filhos era murá-los (algo similar às vestais e freiras impuras) e depois queimar sua fortaleza. O’Curry suaviza o fato, “eles mataram, não apenas ele próprio, mas seus dois filhos e suas duas filhas, e derrubaram sua casa”. Dr. Atkinson também, prefixado nos “conteúdos” os fac-símiles do Livro Amarelo e do Livro de Ballymote, fez um resumo da nossa história, mas assim como O’Curry, ele omite toda menção da extensa interpolação que estraga sua continuidade. Essa interpolação dá um relato de quatro Manannan e a conduta de Manannan, filho de Athgno, com os homens de Ulster após a morte de Derdriu e seu amante. Esse relato contém alguns detalhes que não encontrei em outros lugares e que 
complementa o conto trágico dos filhos de Uisnech.


O cortejo de Luaine e a morte de Athirne aqui

                1. Após ter matado Derdriu2, Conchobar mac Nessa3 ficou triste, infeliz e grandemente melancólico; nenhuma música, brilho, beleza ou deleite no mundo apaziguava seu espírito, pois ele estava sempre triste e lamentoso. Os magnatas de Ulster lhe disseram para procurar nas províncias de Erin, pois talvez ele pudesse encontrar nelas a filha de um rei ou de um senhor que tiraria sua pesar por Derdriu. Ele concordou.

                2. Suas duas mensageiras foram levadas até ele: Lebarcham, a filha de Ae e Adarc4, e Lebarcham Rannach, a filha de Uangamain. Verdadeiramente medonha e horrível era a aparência daquelas mensageiras.5

                3. As duas mensageiras então procuraram em Erin, tanto em fortes como em vistosas vilas, e em nenhum desses lugares elas encontraram uma mulher solteira que podia curar a dor de Conchobar. Por acaso, Lebarcham, a filha de Ae e Adarc, chegou até a casa de Domanchenn, o filho de Dega, na província de Ulster, e lá ela viu uma adorável donzela de cor pura e cabelos encaracolados, que ultrapassava todas as mulheres do mundo em sua época, e seu nome era Luaine, a filha de Domanchenn. Lebarcham perguntou de quem ela era filha. “A filha de Domanchenn, filho de Dega”, eles responderam. Lebarcham disse que foi Conchobar que a tinha enviado para buscar Luaine para ele, pois ela era a única menina na Irlanda que tinha os jeitos de Derdriu, tanto na aparência como na sensibilidade e utilidade. “Tudo bem,” disse seu pai, que aceitou em compensação de um dote adequado para ela.

                4. A mensageira voltou para o lugar onde Conchobar aguardava e lhe contou sobre a garota, dizendo: “Lá eu vi uma donzela gentil e bonita, pronta para o casamento, de cabelos loiros, etc.”6

                5. Ele então se encheu de amor pela menina e não conseguiu se segurar ir até ela e vê-la claramente. Quando ele viu a donzela, não havia um osso nele, nem um centímetro, que não estava preenchido por um amor duradouro pela menina. Ela posteriormente foi desposada, o dote foi dado, e ele voltou para Emain.

                6. Naquela época, Manannán, o filho de Athgno, rei de Mann e das Ilhas Estrangeiras veio com uma vasta frota marítima para saquear e pilhar Ulster e vingar-se pelos filhos de Uisnech, pois Manannán tinha sido um amigo deles e foi ele que criou os filhos de Náisi e Derdriu, cujos nomes eram Gaiar, o filho, e Áib-gréne, a filha.

                7. Existiam quatro Manannán e eles não viveram na mesma época. Manannán, o filho de Allot, era um esplêndido feiticeiro dos Tuath Dé Danann e foi na época dos Tuath Dé Danann que ele viveu. O seu nome adequado agora é Orbsen. Foi esse Manannán que morou em Arran, deu seu nome para Emain Ablach e morreu na batalha de Cuillen por Uillenn das Sobrancelhas Vermelhas, filho de Caither, filho de Nuada da Mão de Prata, lutando pelo reinado de Connaught. Quando seu túmulo foi cavado, o Lago n-Oirbsen7 rompeu da terra e foi esse primeiro Manannán que deu seu nome ao lago.8

                8. Manannán, o filho de Cerp, rei das Ilhas e de Mann. Ele viveu na época de Conaire, o filho de Etirscél9, e foi ele que cortejou Tuag, a filha de Conall Collamair, filho adotivo de Conaire, que deu seu nome para Tuag Inber.10

                9. Manannán “filho do mar” foi um famoso comerciante que negociou entre Erin, Alba e a Ilha de Mann. Ele também foi um feiticeiro e era o melhor navegante que frequentava a Irlanda. Foi ele também que descobriu a ciência celestial, isto é, ele saberia se o tempo seria bom ou tempestuoso através da observação do ar. Eles o chamavam de Manannan e por esse motivo os escoceses e britânicos o chamavam de deus do mar, eles alegavam que ele era o filho do mar e um deus, sendo por esse motivo cultuado pelos pagãos como tal, pois ele assumia muitas formas entre eles.11

                10. Manannán, o filho de Athgno, foi o quarto Manannán. Ele veio com uma grande frota para vingar os filhos de Uisnech e foi ele que os criou em Alba. Os filhos de Uisnech ficaram dezesseis anos em Alba e conquistaram de Slamannan12 até o norte de Alba; foi ele que expulsou daquele território os três filhos de Gnathal, o filho de Morgann, cujos nomes eram Iatach, Triatach e Mani Mão-dura, pois seu pai dominou aquela terra e foram os filhos de Uisnech que o matou. O trio então veio em exílio até Conchobar e foram eles que mataram os três filhos de Uisnech como representantes de Eogan, o filho de Durthacht.13

                11. Manannán então saqueou Ulster grandemente. Os homens de Ulster reuniram-se para batalhar contra Manannán. Eles disseram que a provação de batalha de Conchobar contra os filhos de Náisi não eram boas. Um movimento de paz foi feito entre os homens de Ulster e Manannán; o poeta Bobarán, o criador de Gaiar filho de Náisi, foi enviado naquele tempo de paz, e disse:

“Gaiar, filho do famoso Náisi, filho adotivo do grande e puro Manannán, por esse motivo ele vem para cá, para saquear esse país, etc.”

                12. A paz então foi feita entre Conchobar e Manannán, e ambos tornaram-se amigos, e o eric foi dado à Gaiar por desejo dos senhores de Ulster por conta de seu pai, e os outros dois, Annli e Ardan, foram deixados contra a honra de Conchobar. Uma parte de Liathmaine14 foi dada para Gaiar, esta é a terra de Dubthach Chafertongue, pois ele estava pegando em armas contra Ulster junto com Fergus. Eles então partiram em paz, e desde então, se tornaram amigos.

                13. Os acontecimentos de Luaine, no entanto, serão agora investigados aqui.

                14. Quando Athirne15, o Importuno, e seus dois filhos Cuindgedach e Apartach ouviram falar do comprometimento da donzela para Conchobar, eles foram até ela para implorar por favores. Quando eles viram a donzela, os três se apaixonaram por ela e o desejo por ela apoderou-se deles de forma que eles preferiam morrer do que não poder unir-se a ela. Eles se revezavam para implorar a donzela, declaravam que iriam deixar de viver e que cada um deles faria um glám dicinn para ela, a menos que ela negociasse com eles.

                15. A donzela disse: “Isso que dizem é impróprio, eu sou a esposa de Conchobar.” “Não podemos permanecer vivos,” disseram eles, “a menos que nos deitemos contigo.” A donzela recusou-se a deitar com eles, que fizeram então três sátiras para ela deixando três marcas em suas bochechas: a Vergonha, a Deformidade e a Desgraça – preta, vermelha e branca16. Depois disso, a donzela morreu de vergonha e embaraço.

                16. Athirne então fugiu com seus filhos para Benn Athirni acima do Boyne, pois ele temia a vingança que Conchobar e os homens de Ulster fariam contra eles pelo que tinham feito.

                17. Quanto à Conchobar, ele achou que estava muito tempo sem dormir com sua esposa. Ele então foi, junto com os magnatas de Ulster, cujos nomes eram Conall Cernach, Cuchulainn, Celtchair, Blai Brugaid, Eogan filho de Durthacht, Cathbad e Sencha17, até o forte de Domanchenn filho de Dega – ele era parente dos Tuatha Dé18, e lá estava sua terra. Eles encontraram a donzela morta e o povo do forte lamentando por ela. Um grande silêncio abateu-se sobre Conchobar por conta disso, e nenhuma dor pareceria maior para ele, exceto seu pesar por Derdriu.

                18. Conchobar disse, “Que vingança seria justa?”. Os magnatas de Ulster responderam que matar Athirne, seus filhos e sua família seria uma punição apropriada; “e muitas vezes,” disseram eles, “Ulster encontrou vergonha de batalha por causa dele.”

                19. Depois disso veio a mãe da donzela, Bé-guba, que estava chorando triste e lamentosamente na presença de Conchobar e dos magnatas de Ulster. “Ó rei,” disse ela, “não será apenas a morte de uma pessoa resultante desse ato, pois eu e o pai dela morreremos de tristeza por ela. Essa morte que nos devastaria foi profetizada e prometida de acordo com a profecia de um feiticeiro, quando ele dizia:

‘As tropas de mulheres se afligem pela destruição de homens pelas palavras de Athirne, etc.’”

                20. Cathbad então disse: “Animais de rapina,” disse ele, “serão enviadas contra vocês por Athirne, e estes serão a Sátira, a Desgraça e a Vergonha, a Maldição, o Fogo e a Palavra Amarga. Ele tinha os seis filhos da Desonra, e estes são a Preguiça, a Recusa e a Negação, a Dureza, a Severidade e a Rapacidade. Estes serão arremessados contra vocês,” disse ele, “de forma que batalharão contra vocês.”

                21. Domanchenn também estava incitando e censurando os homens de Ulster.

                22. “Uma pergunta,” disse Conchobar, “como irão agir, ó homens de Ulster?” Foi Cuchulainn que aconselhou a destruição do severo Athirne. Foi o combativo Conall, o justo, que considerou. Foi Celtchair, o que causa feridas, que conspirou. Foi Munremar, o famoso, que planejou. Foi Cumscraid19, o zelador, que decidiu. Foram os heroicos, altivos, severos e de dois gumes jovens de Ulster que determinaram aquele conselho: ir e destruir a casa de Athirne.

                23. Então Domanchenn disse para a mãe de Luaine:

“Realmente isto é triste, ó Bé-guba, triste é a sina que se abate sobre ti:
uma grande dor vem disto, te ver sobre o túmulo de Luaine, etc.”

                24. Uma poderosa lamentação foi então feita ao redor da donzela, seu canto fúnebre e seus jogos funerários foram feitos, a pedra de seu túmulo foi erguida. Tristes e lamentosos, de fato, estavam seu pai e sua mãe, e triste era estar na presença dos lamentos que eles faziam.

                25. Conchobar então disse:

“Nessa planície está o túmulo de Luaine, a filha do vermelho Domanchenn:
nunca veio para a amarela Banba20 uma mulher que era mais difícil de suplicar.”

                Celtchair:

“Você irá nos contar, ó campeão, ó Conchobar,
 entre as companhias de Luaine e Derdriu, quem tinha a conversa mais nobre?”

                Conchobar:

“Vou lhe contar de quem era, ó Celtchar filho de Uthechar:
A melhor era de Luaine, que nunca proferiu falsidade, nunca houve rivalidade entre elas.
Triste é qualquer profecia que a leva embora, que diz que ela deve ir para a morte,
Que seu túmulo deve ser cavado, que seu túmulo deve ser conspícuo.
Bé-guba e o filho de Dega, e Luaine – essa é a morte que vai me ferir –
No mesmo dia eles seguiram em uma jornada, então eles terão apenas um túmulo.
Athirne dos quatro filhos, ruim para ele é o que fez:
Todos eles cairão, homens, filhos, esposas, em vingança por esse enterro.”

                26. Conchobar estava lamentando grandemente pela donzela, e depois disso, ele começou a incitar os homens de Ulster contra Athirne.

                Os homens de Ulster então seguiram Athirne para Benn Athirni, murou ele junto com seus filhos e toda a sua família, matou Mór e Midseng, suas duas filhas, e queimou sua fortaleza sobre ele.

                27. Aquela façanha foi mal vista pelos poetas de Ulster, por isso Amargen21 disse:

“Grande dor, grande pesar é a destruição de Athirne, o grandemente famoso, etc.
O túmulo de Athirne está aqui, não deixem serem vocês que irão cavar, ó poetas, etc.
Ai daquele que causou a destruição desse homem, ai daquele que causou essa matança!
Ele tinha um árduo dardo – duradouro é seu brilho – que o satirista22 Cridenbél costumava fazer.
Ele tinha uma lança que mataria um rei, etc.
Eu farei seu canto fúnebre aqui, eu farei sua lamentação, eu colocarei seu túmulo aqui e construirei seu nobre monte funerário.”

                Fert Athairni. Fim.

Notas de Whitley Stokes

1. O título foi tirado do Livro de Ballymote;

2. Ver Ir. Texte, I, 82; II 2, 150, 177;

3. Ver Revue Celtique, XXIII, 331;

4. Ingen Oa 7 Agairce, Seirgl. Conculainn;

5. Aqui eu omiti noventa e seis linhas aliterativas e hendecassílabas, com cada uma terminando em um trissílabo acentuado na antepenúltima, e descrevendo as duas mensageiras de Conchobar;

6. Aqui eu omiti cerca de quinze linhas retóricas (a maioria delas eram hendecassílabas terminando em um trissílabo) nas quais Luaine é associada com belezas lendárias e comparada com Clothru, com Sadb a filha de Ailill e Medb, com Emer, com Medb e com Mugaine;

7. Agora conhecido como Lough Corrib, Co. Galway;

8. Ver os dindshenchas, Rev. Celt., XVI, 276, e quanto a esse Manannán, Ver. Celt., XVI, 143;

9. Ver o Bruden Dá Derga, Rev. Celt., XXII, pág. 20 et seq.;

10. Ver os dindshenchas, Rev. Celt., XVI, 150;

11. O latim aqui está tão corrompido que não pude corrigi-lo. Ver o Glossário de Cormac, s.v. Manannan.[A passagem significa mais ou menos: Eles o chamavam de Manannan e por esse motivo os escoceses e britânicos o chamavam de deus do mar, eles alegavam que ele era o filho do mar e um deus, sendo por esse motivo cultuado pelos pagãos como tal, pois ele assumia muitas formas entre eles. (E.S.)];

12. Ver Ver. Celt., XXIV, pág. 42, nota 1. Slamannan (Sliab Maanann) é uma freguesia “no sudeste de Stirlingshire” (Reeves);

13. Ver Ir. Texte I, 76, onde o assassinato é atribuído a Eogan, e Ir. Texte II 2, 143, 170, onde o assassino é chamado Maine Mão-vermelha;

14. Liathmuine i n-Ultaib LU. 39b, que parece ter se tornado o leito de Lough Neagh: ver os dindshenchas, Revue Celtique, XVI, 153, e Tigernach, ibid., 413;

15. Para saber mais sobre Athirne ver Talland Etair, Revue Celtique, VIII, 48 et sq. e o Livro de Leinster, p. 117. Em seu Lectures on Ms. Materials, p. 383, Rev. Celt., XVI. 328, O’Curry o confunde com Ferchertne, que foi seu pai;

16. Destas mesmas cores eram as manchas causadas por um julgamento injusto;

17. Quanto à esses heróis, ver Rev. Celtique, XXIII, 303 et seq.;

18. Consequentemente, sua casa talvez foi chamada de sid (leg. Síth) Domnanchinn, supra §3;

19. Ou seja, Causcraid Mend Macha, LL. 97b 28;

20. Um dos nomes da Irlanda;

21. Poeta chefe de Ulster, cria e pupilo de Athirne, ver LL. 118a 5;

22. Ver Revue Celtique, XII, 125.

Fonte: STOKES, Whitley. “Revue Celtique”, 24, The Wooing of Luaine and the Death of Athirne. Disponível em: <http://sejh.pagesperso-orange.fr/keltia/version-en/luaine.html>. Acesso em: 19 de agosto de 2016.

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