sexta-feira, 22 de julho de 2016

A visão, o dom dos videntes célticos

Essa é a tradução de um artigo original em inglês, parte de um projeto chamado “Land, Sea and Sky” cujo link se encontra no final da página. A tradução foi feita pelo autor do blog, e, como sua escritora faleceu, a autorização foi concedida por uma das organizadoras do projeto, Shae Clancy.

16. A visão, o dom dos videntes célticos
Francine Nicholson

            Uma comprida cavalgada de guerreiros, alguns em cavalos, a maioria a pé, estão viajando pelo norte da Irlanda, do oeste para o leste, contra o caminho do sol, com cascos e pés socando a terra. Em sua vanguarda cavalga uma mulher poderosa, vestida em tecidos bordados e decorados com joias artisticamente colocadas. Seu nome é Medbh e ela é Rainha de Connacht, conduzindo suas tropas em uma invasão para roubar um grande touro. Ela está confiante da vitória. Então, aproximando-se deles em uma carruagem, eles veem uma jovem, tecendo filamentos em um tear manual enquanto ela caminha. Medbh pede para a jovem se identificar. Ela diz que seu nome é Fedelm e que ela vem do monte sídhe de Cruachain, uma entrada para o outro mundo. Ela também diz que está juramentada ao serviço de Medbh e diz que é uma fáith, uma vidente. Medbh pede para ela pressagiar o resultado da invasão. Fedelm canta:

            “Eu vejo carmesim. Eu vejo vermelho.”

            Usando a habilidade chamada imbas forosnai, a vidente olhou, viu, e falou a verdade. Conforme a história se desenrola, a invasão terminará em um grande derramamento de sangue.


            Os contos dos celtas, sejam relatos históricos, mitos medievais ou contos folclóricos mais modernos, estão cheios de referências à habilidade de algumas pessoas verem e saberem o que está oculto para a maioria. Essa habilidade deu aos celtas como um todo a reputação de serem sonhadores místicos, quando na verdade, apesar da crença em tais habilidades ser muito difundida, sempre acreditou-se que apenas alguns poucos recebiam o que em português é chamado de a “visão”.

Tradição céltica: A visão

            Aqueles que têm o dom obtém o conhecimento seja por um súbito saber ou através de uma visão. Tais visões frequentemente são simbólicas e facilmente mal interpretadas, como veremos mais adiante nesse capítulo. Às vezes, elas podem ser assustadoramente reais, como assistir um vídeo em sua mente, porém, frustrantemente incompletas. Um vidente pode ver um acidente acontecendo, mas não faz ideia de quando ou onde o evento supostamente acontecerá. Outras vezes, o vidente simplesmente sabe a resposta; de repente, o conhecimento está simplesmente na mente da pessoa. A resposta pode até mesmo vim como uma sensação de que o conhecimento é passado pelo corpo da pessoa como uma carga elétrica de modo que a experiência pode ser um conhecimento mais corpóreo do que intelectual. Há também evidências de que os videntes célticos falam de um estado que pode ser comparado com o transe, na qual os videntes não chegam a perceber o que estão dizendo e podem lembrar-se do que disseram, uma vez já recuperados do seu estado de transe. Às vezes, a experiência combina diversos desses elementos de modo que, por exemplo, o vidente vê os eventos em uma visão e sabe quando e onde eles ocorrerão.

            É difícil, e em certa medida impossível, descrever tais experiências, uma vez que os próprios videntes podem estar apenas parcialmente cientes do que está acontecendo. Aqueles que observam o vidente podem ser capazes de descrever o que ele está fazendo externamente, mas nunca terão ideia da intensa experiência interna do vidente.

            Nós supomos que as artes da vidência céltica alcançou seu pico no período pré-cristão quando tais habilidades eram valiosas. Naqueles dias, crianças e jovens adultos dotados eram provavelmente guiados e treinados por anciões com experiência e habilidade. Remanescentes dessas tradições podem ser encontradas nas descrições da arte dos poetas deixadas por poetas seculares da Irlanda medieval. Apesar de algumas das habilidades dos videntes terem sido banidas com o estabelecimento dos cristãos, outras foram permitidas. Devemos muito de nosso conhecimento das práticas medievais a essas referências. No entanto, muitas vezes elas são descritas com termos cujo significado está perdido para nós, e frequentemente nos resta supor.

            Toda cultura tem suas próprias palavras ao falar sobre o que os videntes fazem. Como muitas, as tradições célticas usam palavras e imagens relacionadas à visão para falar de experiências inefáveis de praticantes xamãs e de outros que viajaram para o outro mundo. Por exemplo, o termo irlandês imbas (iomas, em irlandês moderno) significa “visão que ilumina”. Como tal, o termo se refere à habilidade de ver o que não está visível para a maioria das pessoas. Imbas também significa a experiência de ter a visão. Combinado com forosnai, o termo também se refere a um método de indução à visão. O awen galês tem um significado e uso similar, e awenyddion se refere ao conhecimento que vem quando se recebe o awen. Awenyddion também se refere aos praticantes que entram em transe e proferem falas extáticas.

            Todos esses conceitos são o oposto de sous, o termo irlandês para o conhecimento obtido através do estudo e da investigação científica ou racional. O termo irlandês fios se refere ao conhecimento obtido através de inspiração, contato com o outro mundo ou através de adivinhação. Em irlandês moderno, fios ou fios feasa pode se referir ao que às vezes é conhecido como ‘segunda visão’. A pessoa que tem essa habilidade é chamada de fer (homem) feasa ou bean (mulher) feasa. Se o dom incluir a habilidade de cura, então o praticante está apto para ser chamado de ‘médico fada’ ou ‘médico das ervas’ em português.

            Em escocês, essa habilidade é mais suscetível de ser chamada de da shealladh – ‘duas visões’ ou ‘visão dupla’. A frase se refere à habilidade de ver os dois mundos – esse e o outro – de uma única vez. A visão em si é conhecida como taibhs (a mesma palavra é usada para ‘fantasma’ ou ‘espectro’). O vidente é chamado de taibhsear, e o processo, taibhsearachd. A visão inclui a habilidade de ver os mortos e seres não humanos, e também pode incluir a habilidade de saber o que está acontecendo a certa distância ou o que acontecerá. Às vezes, o conhecimento vem porque é solicitado, ou pode vir espontaneamente. Este último motivo pode ser um pouco perturbador, especialmente se for uma má notícia. Imagine você dizer ‘tchau’ para alguém em uma festa, e de repente perceber que ele irá morrer em um futuro muito próximo. Martin Martin falava dessas visões espontâneas quando escreveu, no século XVII, o seguinte relato:

            “A segunda visão é uma capacidade singular de ver um objeto até então invisível, sem quaisquer métodos prévios usados pela pessoa que o vê para uma finalidade; a visão faz tal impressão vívida sobre os videntes que eles não veem e nem pensam em qualquer outra coisa além da visão, enquanto ela durar: e então eles parecem pensativos ou joviais, de acordo com o objeto que está sendo apresentado para eles. Em uma visão, as pálpebras da pessoa ficam erguidas, e os olhos continuam observando até o objeto desaparecer da mente. Quando a pessoa tem uma visão, isso é óbvio para os outros que estão pertos, e aconteceu mais de uma vez perto de mim e de outros que estavam comigo.”

            Pensa-se que a visão também inclui o conhecimento de como curar doenças, especialmente aquelas resultantes de uma maldição ou um ataque de “fadas”. Uma vez que videntes frequentemente conheciam uma grande quantidade de tratamentos com ervas, eles podiam combinar estes tratamentos com seu conhecimento racional e inspirado. As visões podem vir como visões literais do que está acontecendo ou o que acontecerá – como assistir um vídeo – ou podem ser simbólicas. Entre os videntes escoceses, por exemplo, o sinal comum de uma morte iminente era ver um corpo coberto com uma mortalha. A posição da mortalha indica quando a morte ocorrerá. Se a mortalha cobrir o corpo inteiro, a morte então é iminente, uma questão de horas. Se a mortalha cobrir até a cintura, a morte então pode ser adiada por vários meses. Às vezes, o vidente pode interpretar mal os símbolos ou outras partes de uma visão, e assim como as pessoas podem ter uma visão errada do que seus olhos veem, o vidente pode interpretar mal o que ele vê com sua segunda visão da mesma forma. No século XVII, Robert Kirk descreveu um taibhsear vendo o que parece ser um defunto, mas na verdade a pessoa se recuperou após ser ferido quase fatalmente. Na visão, a pessoa apenas parecia morta. Um não identificado “místico irlandês” disse para W. Y. Evans-Wentz:

            “Eu posso fechar meus olhos e ver você como uma imagem vívida em minha memória, ou posso te olhar e te ver como uma imagem real. Ao ver esses seres dos quais eu falo, os olhos físicos podem estar abertos ou fechados: os seres místicos em seu próprio mundo e índole nunca serão vistos com olhos físicos.”

As primeiras ideias de videntes célticos

            As mais antigas evidências de crença religiosa na cultura céltica vêm de objetos encontrados em túmulos ou em locais religiosos. Uma vez que os antigos celtas não registraram suas crenças, podemos apenas supor o significado desses objetos. No entanto, muitos estudiosos tem sugerido que as gravuras nas rochas do Vale Camonica na Itália tem uma notável semelhança com as representações siberianas de atividades xamânicas. Elas parecem ilustrar um bando de caçadores perseguindo uma figura que é tanto um humano como um veado. Foi interpretado que essa figura tenha sido representada como um “mestre dos animais”, um espírito cuja permissão deve ser solicitada antes dos animais serem caçados. Para uma caçada ser tanto segura como bem sucedida, a maioria das sociedades de caçadores-coletores acreditavam que a deidade que “possui” os animais “selvagens” devia ser convocada e apaziguada previamente. A próxima notória evidência é o painel no caldeirão de Gundestrup. Os estudiosos divergem se o caldeirão é de origem céltica. Se for céltico, certamente traz marcas das culturas circundantes, em particular, a Dácia. Um painel mostra uma figura masculina sentada, aparentemente perdida em um transe meditativo e tendo chifres de veado. Vários tipos de animais pinoteiam ao redor da figura. Alguns estudiosos acreditam que a figura retrata um xamã contatando os espíritos dos animais ou o outro mundo, enquanto outros sugerem que a figura é um “mestre dos animais”, uma deidade que vigia os animais. É claro que não é certo que foram artistas “célticos” que criaram o caldeirão, mas figuras similares com chifres de veado usando torcs foram encontradas em outros lugares da Europa e Grã-Bretanha.

O período clássico: os druidas e ovates

            No período clássico, os escritores não célticos geralmente concordavam que existiam três tipos de especialistas religiosos entre os celtas da Europa continental. Enquanto os títulos e ocupações variam um pouco, eles podem ser geralmente vistos como:

1. Druidas: são os especialistas na lei e precedentes, incluindo o comportamento adequado, e líderes de rituais comunitários, especialmente o sacrifício sobre o qual eles conduziam ou supervisionavam;

2. Ovates ou videntes: eles faziam previsões baseados em sonhos ou rituais;

3. Bardos ou poetas cantantes: eles contavam histórias e compunham poesia louvando líderes ou heróis;

Os arqueólogos têm descoberto todo o tipo de evidência de devoções de cura em sítios célticos, mas os escritores clássicos nunca falaram dos curandeiros célticos. É difícil acreditar que os especialistas religiosos não eram envolvidos com a cura, então esta pode ter sido uma omissão por parte dos escritores, embora seja algo curioso. Talvez em sua visão, as funções de cura não fossem algo religioso, e essa visão era imposta em suas descrições dos grupos célticos. Nas fontes clássicas, os videntes são retratados como os praticantes dos templos romanos ou gregos realizando rituais específicos para obter conhecimento ou lendo sinais. Estrabão, por exemplo, escreveu em sua obra Geografia: “...eles apunhalavam com uma espada as costas de um homem que tinha sido consagrado para o sacrifício e faziam profecias baseadas nos seus espasmos...”.

Diodoro da Sicília, ao escrever durante essa mesma época (séc. 60-30 a.C.), fez um relato similar:

“Eles também fazem uso de videntes, que são grandemente respeitados. Estes videntes, tendo grande autoridade, usam augúrios e sacrifícios para prever o futuro. Então, buscando um conhecimento de grande importância, eles usam um método estranho e inacreditável: escolhem uma pessoa para morrer e apunhala ele ou ela no peito, acima do diafragma. Através da convulsão dos membros da vítima e o jorro do sangue, eles predizem o futuro, confiando nesse antigo método.”

Um relato mais tardio de Tertuliano reporta outro método de se obter um conhecimento: “os nasamones recebem oráculos especiais ao ficar nos túmulos de seus parentes... Os celtas, pela mesma razão, passam a noite perto dos túmulos de seus homens famosos, como Nicandro afirma.” Como veremos mais adiante, a prática de buscar conhecimento através dos sonhos em túmulos também pode ser encontrada na tradição irlandesa.

Vários escritores relatam previsões para os futuros imperadores romanas feitas por “druidesas” gaulesas. Pode-se quase sentir que o termo era usado para mulheres que tinham o mesmo papel popular que as “ciganas” tem hoje na era moderna: uma mulher anônima de uma cultura estrangeira creditada com poderes misteriosos.

Por último, Tácito descreve uma vidente que vivia em uma área que hoje é conhecida como Alemanha. Na época, as fronteiras entre os grupos célticos e germânicos não eram rígidos e firmes, e muitas vezes, as culturas se misturavam. Uma vez que o nome ou o título da mulher parece ser céltico, os estudiosos concluíram que seu povo seguiam caminhos célticos, apesar de Tácito identificá-la como germânica. Tácito a chamava de Veleda, que aparentemente é cognato com o gweled galês, comumente pensado derivar-se da raiz céltica *wel- (ver). Assim, pode ser que Veleda seja o título de uma vidente ao invés de ser um nome pessoa usado no sentido usual. Tácito escreveu que seu povo atribuía poderes proféticos à Veleda e ela servia como um tipo de negociadora com outros grupos. Ele a descrevia morando no topo de uma torre. Quando uma delegação romana chegou para encontrá-la, sua assistente levava as perguntas para ela e voltava com as respostas. Michael Enright sugere que ela funcionava como um tipo de oráculo. Seus métodos, no entanto, são desconhecidos.

Em resumo, a evidência da era clássica nos conta que alguns grupos célticos do continente tinham videntes, mas sabe-se muito pouco sobre como eles agiam.

Videntes medievais

            No período medieval, nós procuramos as evidências principalmente nos mitos e nas leis. Existem tanto vantagens como desvantagens nessas fontes. Os mitos não descrevem personagens humanos e reais, então temos que ser cuidados ao fazer conclusões sobre a vida real, e ainda, eles também reflete a perspectiva cristã. As leis nos contam sobre a vida real na Irlanda e no País de Gales, mas elas tendem a reunir todos os precedentes sem nos dizer qual o período em que elas foram usadas. Vemos então leis que mencionam os druidas sem termos qualquer ideia de qual período elas começaram a ter efeito ou quando elas deixaram de serem usadas pelo fato de não existirem mais druidas.

Tipos de videntes

            No período medieval, encontramos vestígios de cinco tipos de videntes. Na Irlanda, existiam os druí, fáithi, fili e fénnidi. No País de Gales, existiam os awenyddion e relatos de outros que se comunicavam com os espíritos.

            I. druí: as fontes irlandesas retratam os druidas como sacerdotes, videntes, astrólogos (em um sentido antigo), professores do conhecimento e testemunhas de juramentos. No entanto, na época dos primeiros textos de lei (séculos XVII e XVIII), os druidas foram reduzidos à condição de feiticeiros (em um sentido pejorativo) e sua posição se misturou com outras.

            A seguinte passagem do Táin Bó Cuailnge apresenta uma visão de druidas que era típica dos textos medievais irlandeses:

            “Um homem idoso entre eles lança um olhar para o céu e observa as nuvens, e ele dá a resposta para a maravilhosa tropa ao seu redor. Todos eles levantam seus olhos para as alturas e observam as nuvens, e lançaram seus feitiços na face dos elementos de forma que estes começaram a brigar entre si, e lançaram nuvens de chuvas de fogo na fortaleza onde os Homens da Irlanda estavam. ‘Quem é aquele, Fergus?’ perguntou Ailill. ‘Isso eu sei,’ disse Fergus. ‘Ele é a fundação da sabedoria, o senhor dos elementos, o esforço para os céus. Ele cega os olhos. Ele tira o vigor dos estrangeiros através de seu conhecimento druídico. Ele é Cathbad – o druida, com os druidas de Ulster ao seu redor. E isto é o que ele traz: ele é o chefe no julgamento dos elementos, para examiná-los e decidir qual resultado a grande batalha terá... Será difícil os Homens da Irlanda suportarem o canto dos druidas.”

            II. fáith: um fáith era um vidente, apesar da visão também ser uma das funções do poeta.

       III. fili, éces: um poeta poderia ser uma figura poderosa na antiga sociedade irlandesa. A principal função do poeta era satirizar e honrar através da poesia. Assim, o poeta controlava a distribuição da honra, uma comodidade extremamente importante em todas as sociedades célticas. Reciprocamente, aqueles satirizados sem causa estavam sujeitos a penas severas. Nos mitos, os fili e outros poetas eram retratados adquirindo suas habilidades no outro mundo, apesar de estar claro nas leis e nos textos sobre a arte do poeta que eles passavam longos anos aprendendo os complexos esquemas de rimas e outras regras métricas que eram obrigatórios para os artistas poéticos entre os celtas.

            IV. fénnidi: historicamente, os fénnidi eram guerreiros jovens, normalmente sem terras, que deixavam suas famílias para viverem em áreas marginais, como as florestas. Eles viviam em um grupo de guerra chamado de fian, liderado pelo righfénnid. Eles viviam majoritariamente com o que coletavam ou caçavam na floresta. As hagiografias, especialmente a de Santa Bridget, escrita por Cogitosus, retratam os fénnidi como as últimas resistências pagãs, escondendo-se nas florestas, marcando-se com “símbolos diabólicos” e engajando-se em ritos “pagãos” antes de saírem para matar. É muito provável que dentro dos bandos de guerreiros-caçadores dos fénnidi existissem rituais que precisavam de videntes para encontrar animais, apaziguar os protetores de animais e afastar as forças hostis com os quais os fénnidi conviviam nas florestas. Talvez isso incluísse um tipo de xamanismo-caçador.

            Dizia-se que uma das figuras mais bem conhecidas da mitologia irlandesa, Fionn mac Cumhaill, era um righfénnid, um poeta-vidente-caçador-guerreiro que vivia com seu fiel bando de homens nas periferias da sociedade irlandesa. Ele recebeu seus dons como um vidente do outro mundo. Uma história diz que ele estava trabalhando como o criado de um poeta que estava esperando perto de um rio, tentando capturar o salmão do conhecimento. Finalmente, o poeta pega o peixe e ele coloca o criado para assá-lo no fogo, mas o outro mundo tinha planos diferentes para o peixe: quando Fionn viu uma bolha crescendo na pele do peixe que assava, ele a pressionou para baixo com seu polegar, e então, instintivamente chupou seu polegar para amenizar a queimadura. Quando o mestre poeta comeu o peixe, ele percebeu que o dom já havia sido passado, e questionou Fionn que admitiu ter chupado seu polegar queimado. O mestre poeta se conformou com o fato de Fionn ter recebido o dom, mas Fionn vai viver na floresta, e não na corte. Apesar de não serem mais uma sociedade caçadora-coletora, os celtas continuaram a ter um forte componente em suas crenças que era focado no modelo do caçador-coletor. Os mitos que envolvem a caça tem claramente um componente sobrenatural. Provavelmente não é acidental que uma figura tão xamânica como Fionn esteja intimamente relacionado com as florestas e com um estilo de vida caçador-coletor. De fato, isso sugere que um antigo modelo/associação foi passado para os mitos de Fionn. Apesar de Fionn e seus companheiros serem caçadores, eles eram intimamente identificados com todos os animais da caça. Fionn tinha um capuz que podia transformá-lo em um veado ou em um cão de caça – presa ou predador – com um simples ajuste. Seus cães eram seus sobrinhos transformados, seu filho tinha um tufo de pelo de veado em sua testa e uma de suas esposas era uma corça. Tais características sugerem que a imagem de Fionn adotou atributos uma vez associados com uma divindade caçadora ou protetora das florestas, não importando quais características originais ele possa ter tido. Tais associações com os animais também eram verdadeiras para os históricos fénnidi. Eles também eram descritos uivando como lobos quando se preparavam para caçar. Todos os guerreiros eram comparados com lobos – até mesmo Lugh era chamado de “lobo sangrento” em uma batalha – mas os fénnidi absorveram todos os atributos negativos dessa comparação, como o seguinte exemplo do Cóir Anmann (“A conveniência dos nomes”) mostra:

“[Laignech Fáelad] era um homem que costumava caçar, isto é, na forma de lobos, isto é, ele costumava ir na forma de lobos e seus filhos costumavam segui-lo, e eles costumavam matar os rebanhos na forma de lobos, de forma que é por isso que ele costumava ser chamado de Laignech Fáelad, pois ele foi o primeiro deles que se transformava em lobo.”

            V. awenyddion: no século XX, Gerald de Gales escreveu sobre suas viagens no País de Gales e na Irlanda. Em um de seus livros sobre o País de Gales, ele descreveu as atividades de alguns poetas. Uma vez que essa passagem muitas vezes é fortemente editada, eu a citarei na íntegra:

            “Entre os galeses existem certos indivíduos chamados de awenyddion que se comportam como se estivessem possuídos por demônios. Você não os encontrará em qualquer lugar por ai. Quando você os consulta sobre algum problema, eles imediatamente entram em transe e perdem o controle de seus sentidos como se estivessem possuídos. Eles não responderão as perguntas feitas a eles de uma maneira lógica. As palavras saem de suas bocas, incoerentes, aparentemente insignificantes e sem sentido, mas as mesmas são bem expressas: se você escutar cuidadosamente o que dizem, receberás a solução para seu problema. Quando tudo isso acaba, eles se recuperam de seu transe como se fossem pessoais normais acordando de um sono pesado, mas você tem de dá-los uma boa chacoalhada antes de eles recuperarem o controle de si mesmos, e quando voltam para seus sentidos, eles podem não se lembram de nada do que disseram durante o intervalo. Se por acaso eles são questionados uma segunda ou uma terceira vez sobre o mesmo assunto, eles darão respostas completamente diferentes. É possível que eles falem através de demônios que os possuem, espíritos que são ignorantes, mas ainda assim, de alguma forma inspirados. Eles parecem receber esse dom da adivinhação através de visões que tem em seus sonhos. Alguns deles têm a impressão de que mel ou leite açucarado está sendo besuntado em suas bocas: outros dizem que uma folha de papel com palavras escritas é pressionada contra seus lábios. Assim que são despertados de seu transe e voltam depois de suas profecias, isso é o que eles dizem que aconteceu.”

            Esses videntes galeses parecem ser videntes de transe. Infelizmente, isso é tudo o que sabemos de seus métodos.

Os métodos

            Os textos medievais frequentemente oferecerem uma variedade de evidências sobre os métodos usados para induzir a comunicação com o outro mundo.

I. Imbas forosnai: uma compilação medieval conhecida como Sanas Cormaic (O Glossário de Cormac) contêm algumas das descrições mais concretas já encontradas. O problema é que Cormac e outros escribas que compilaram o glossário evidentemente não hesitaram em moldar seu material para adequar-se às suas percepções de como as coisas deveriam ser. Também, sua linguagem às vezes é difícil de interpretar. Todavia, vale a pena considerar o que Cormac tem a dizer.

“O imbas forosna revela a coisa que o fili quer saber e tem que revelar. É dessa forma que ele é feito. O fili mastiga um pedaço de carne crua de porco, cachorro ou gato e então a coloca em uma pedra atrás da porta. Ele canta sobre o pedaço e o oferece para os deuses ídolos. Ele os chama até ele e não vão embora até o dia seguinte. Ele canta sobre suas duas palmas e chama os deuses ídolos até ele para que seu sono não seja perturbado. Ele coloca suas duas palmas sobre suas duas bochechas e dorme; ele é vigiado para que não se vire ou seja perturbado por alguém. Então é revelado para ele o que quer que vai acontecer com ele nos próximos nove, dezoito ou vinte e sete dias ou até o final do período durante o qual ele pode fazer o sacrifício. E é por isso que é chamado de imbas: a partir da palma (bas) em cada lado de sua face ou cabeça. Patrício também baniu isso, assim como o teinm laída, e decretou que qualquer um que praticasse essas coisas não seriam nem do céu nem da terra, uma vez que fazer isso era uma negação do batismo. Mas o díchetal di chennaib foi deixado no sistema da arte, pois é o conhecimento (soas) que está por trás. O díchetal di chennaib não requer o sacrifício para demônios; ao invés disso, a informação é instantaneamente obtida a partir das pontas de ossos.”

            Nora Chadwick conclui que, “Não pode haver dúvida, portanto, que imbas forosnai, tenm laída e díchetal do chennaib são três termos técnicos, que estão intimamente e constantemente relacionados com a arte do filid.”

            Os mitos irlandeses apresentam alguns exemplos do imbas forosnai. É usado por Fedelm para prever o resultado do Táin, conforme mencionado no início do capítulo. Similarmente, quando Scathach profetiza a carreira de Cú Chulainn, diz-se que ele falava através do imbas forosnai. Então, o imbas forosnai é obviamente uma técnica usada para prever o futuro. A descrição no Sanas Cormaic sugere que era uma técnica de viagem, mas a outra evidência é menos clara.

            O imbas forosnai também é frequentemente mencionado conectado com uma das figuras mais famosas da literatura irlandesa, Fionn mac Cumhaill, e muitos outros videntes nos mitos. Parece que conforme o tempo passava, o termo veio a significar qualquer técnica usada para gerar a inspiração sobrenatural.

            II. teinm láida: literalmente, “mastigando o âmago”, esse era um método de se obter o conhecimento que aparentemente envolvia a recitação de um encanto enquanto se chupava o polegar. Ao usar essa técnica, Fionn disse versos obscuros que incluía a informação que ele buscava. Assim, parece que a técnica provocava os versos inspirados que continham a informação ou resposta que era buscada.

            III. díchetal do chennaib: literalmente, “cantando pelas pontas,” esse foi um método de divinação ou arte poética; adquirir essa habilidade, junto com o teinm láida e o imbas forosnai, era necessário para alcançar os graus mais altos de realização poética. No entanto, não se sabe o que exatamente acontecia.

            IV. O Caldeirão da Poesia: apesar de ter chegado até nós em um texto do século XVI, o tratado popularmente conhecido como o “Caldeirão da Poesia” é de origem muito mais antiga. É indiscutivelmente uma das fontes mais importantes sobre a arte do fili, apresentando o que um poeta (ou uma poetisa) pensava sobre sua própria arte. Como temos, o tratado é uma fusão notável de ideias nativas e cristãs. O processo poético é retratado como a interação de três caldeirões. Grande parte do tratado usa uma linguagem que não está imediatamente clara para leitores modernos. O espaço não permite uma discussão minuciosa de suas ideias, mas algumas citações podem prover um sentimento para a forma como os poetas irlandeses medievais aproximavam-se de sua arte, especialmente a forma como recebiam inspiração. Por exemplo, o poeta começa:

“Meu próprio Caldeirão...
Levado por Deus a partir dos mistérios dos elementos
Uma decisão apropriada que enobrece uma pessoa a partir de seu centro
Que derrama da boca um amedrontador fluxo de fala.”

            Essa é a definição de poesia que nada tem a ver com doces rimas. Nesse contexto também, a poesia não é a arte de papel e caneta. Ela nasce no centro da pessoa e sai pela boca. Ela está associada com as mesmas profundezas elementares a partir das quais o mundo foi criado, e como um deus, os lábios do poeta derramam a nova criação em uma torrente de palavras. Esse verso lembra outras descrições de falas inspiradas, seja o teinm laída ou o awenyddion.

            Mais adiante nesse texto, o poeta escreve:

            “Onde está raiz da poesia em uma pessoa: no corpo ou na alma? Eles dizem que está na alma, pois o corpo não faz nada sem a alma. Outros dizem que é no corpo, onde as artes são aprendidas, passadas através dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que esse é o assento do que resta sobre a raiz da poesia; e o bom conhecimento na ancestralidade de cada um não vem para todos, mas vem para todas as outras pessoas.

            Qual então é a raiz da poesia e toda outra sabedoria? Não é difícil; três caldeirões nascem em cada pessoa, isto é, o Caldeirão da Incubação, o Caldeirão do Movimento e o Caldeirão do Conhecimento.”

            Em resumo, a sugestão inicial para “poesia” é uma combinação de biologia e espírito, de ancestralidade e dom. Apenas “todas as outras pessoas” recebem o chamado, e o restante precisa cultivar o dom se desejam usá-lo. Em outras linhas do texto, o poeta discute os fatores que evocam a inspiração:

            “Deus toca uma pessoa através de alegrias divinas e humanas de forma que eles são capazes de falar poemas proféticos, distribuir sabedoria e realizar milagres, assim como a oferta de um sábio julgamento e dar precedentes e sabedoria em resposta aos desejos de qualquer pessoa. Mas a fonte dessas alegrias está fora da pessoa, apesar da causa real da alegria ser interna.”

            Como o poeta explica, “Deus” usa as experiências da vida para trazer inspiração:

            “Quantas divisões da tristeza transformam os caldeirões dos sábios? Não é difícil; quatro. Saudade, dor, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sacros. Estes nascem internamente apesar da causa ser externa.

            Existem então duas divisões da alegria que transformam o Caldeirão da Sabedoria, isto é, a alegria divina e a alegria humana. Entre os sábios, existem quatro divisões na alegria humana. A intimidade sexual, a alegria da saúde imperturbável pela abundância de incitações quando uma pessoa pega a prosperidade das artes bárdicas, a alegria de unir o princípio da sabedoria após da boa construção (poética), e a alegria do apropriado frenesi poético a partir da mastigação das nobres avelãs das nove aveleiras do Poço de Segais no reino sídhe. Elas se lançam em grande quantidade como a lã de um carneiro sobre as cristas do Boyne, movendo-se contra o fluxo, mais velozes que cavalos de corrida conduzidos na metade do mês no magnífico dia a cada sete anos.”

            Então, apesar da aparência cristã que atribui a inspiração a “Deus” e a sugestão da “peregrinação sagrada” como uma fonte de inspiração, os poetas medievais ainda continuam buscando o conhecimento que vem do outro mundo no Poço de Segais no sídhe.

            V. Tarbfheis e Taghairm: parece que essas duas palavras são aplicadas à mesma técnica. Declaradamente, o Tarbfheis era o método usado para selecionar os reis da Irlanda.

            “Era assim que a festa-do-touro costumava ser feita: matavam um touro branco, um homem comia sua carne e bebia seu caldo, dormia depois daquela refeição e quatro druidas cantavam um feitiço da verdade sobre o homem.”

            Outra história, “A Batalha de Findchora”, relata:

            “Quando os Quintos da Irlanda estavam em Findchora com Ailill, Medb e Eochaid mac Luchta esperando lutar com Conchobar e os Homens de Ulster, os Homens da Irlanda pediram um conselho sobre como eles deveriam travar a batalha. Eles disseram para seus druidas descobrirem para eles quais seriam as consequências da batalha e qual lado seria derrotado. Então os druidas recorreram à sua sabedoria e ao seu aprendizado, que são, Crom Deroil, Adnae mac Uthidir, Mael Cenn Mianach, Daire e Ferchertne. Eles fizeram sacrifícios para Marte e Osíris, para Júpiter e Apollo, e esses eram os sacrifícios oferecidos: a carne de cães, porcos e gatos. Posteriormente, eles entraram nas peles de velhos touros sem pelos e em cercas de sorveiras, virando seus rostos para o inferno. Os deuses a quem eles sacrificaram lhes disseram... (o resultado da batalha).”

            Esses relatos vieram dos mitos, mas parecerem refletir uma prática real. Em sua “History of Ireland (História da Irlanda)”, Geoffrey Keating escreveu:

            “Os druidas usavam as peles de touros oferecidos em sacrifício para adivinhação e aquisição de sabedoria. Muitas são as formas pelas quais eles adquiriam sabedoria, tais como olhar para sua própria imagem na água, observar as nuvens no céu, escutar o barulho do vento ou o tagarelar dos pássaros. Mas quando todas essas coisas falhavam, eles eram obrigados a fazer coisas extremas, e o que eles faziam eram cercas circulares com ramos de sorveira e as espalhavam nas peles do touro oferecido em sacrifício, colocando para cima o lado que estava próximo à carne, e assim, adquiriam a sabedoria conjurando demônios para conseguir a informação.”

            VI. Jornadas: os contos célticos estão cheios de exemplos de heróis que viajaram para um ou mais mundos em busca de fama, prêmios mágicos, conhecimento ou poder. Duas classes de contos irlandeses caracterizam o tema das jornadas: o imrama (viagens) e echtra (aventuras).

            A palavra imram significa “remar”, um lembrete de como as embarcações marítimas eram poderosas nos tempos medievais. O imrama normalmente envolve um herói, às vezes com companheiros, que viaja pelo mar, envolvendo assim a parte de um paradigma tríplice frequentemente associado com o outro mundo. Em tais jornadas, os viajantes encontram com todo tipo de seres estranhos enquanto viajam de uma ilha para outra. Rees e Rees sugeriram que esses contos podem, juntos, representar um tipo de “Livro céltico dos mortos”, que instruía os mortos no que se espera que eles encontrassem enquanto cruzassem para a outra vida. Os melhores exemplos são o Imram Brain e o Imram Maíle Dúin. A Navigatio Sancti Brendani, uma história hiberno-latina, é uma tentativa de aplicar o tipo de conto a um santo. Em uma história galesa similar ao imram irlandês, Arthur viaja até Annwn, o Submundo na tradição galesa, em busca de um misterioso Caldeirão da Inspiração e Renascimento. Ele viaja em seu navio Prydwen com três companheiros de homens, mas “ninguém retorna, apenas sete” e sua missão falha – uma lição sobre os perigos de buscar os tesouros do outro mundo.

            Originalmente, a palavra echtra referia-se às aventuras que envolvia literalmente a saída de um herói desse mundo, frequentemente em resposta à atração ou convite de uma bela mulher ou de um misterioso guerreiro. As histórias mais antigas sempre descreveram as interações do herói com os habitantes do outro mundo. Conforme o tempo passou, no entanto, o echtra veio a se tornar qualquer tipo de história que envolvia encontros com maravilhas e poderosos oponentes. O componente sobrenatural ou transcendental se tornou menos explícito.

            As viagens de caça desempenhavam um papel importante tanto nos contos irlandeses como nos contos galeses. O herói pode ser enviado em uma missão em busca de algo, ou ele pode estar fugindo de perseguidores. No caminho ele encontra com todo tipo de criaturas sobrenaturais.

            VII. Sonhos: como vimos anteriormente, Tertuliano registrou que os sonhos nas tumbas dos ancestrais eram um método céltico de se obter conhecimento. Nos mitos medievais, os sonhos desempenhavam um papel significativo como comunicadores de conhecimento de personagens sobrenaturais. Por exemplo, a história de recuperação do Táin é atribuída a um sonho ou visão do poeta Emine. Emine, um poeta em treinamento, e Muirgen, o filho do professor de Emine, saíram de Connacht até o leste para encontrar um poeta que dizia saber o Táin. Quando Emine procurava um lugar para passar a noite, Muirgen descansou no túmulo de Fergus mac Róich em Enloch, Connacht. Como se estivesse falando com o próprio Fergus, Muirgen cantou um poema sobre as razões de sua viagem. Em resposta, uma névoa rodeou Muirgen, uma névoa tão espessa que ninguém conseguiu encontrá-lo por três dias e três noites. No meio da névoa, Fergus apareceu e recitou o Roubo do Gado de Cooley inteiro, e assim Muirgen aprendeu a história do início ao fim, mas um escriba que escreveu a história contestou e adicionou um final alternativo: “alguns dizem que a história foi contada pelo próprio Senchán (o professor de Emine), depois de ele ter ido para um jejum com certos santos da linhagem de Fergus. Isso soa sensato.” Esse comentário lacônico nos diz que um escriba medieval acreditava que era mais provável que a inspiração viesse dos santos do que de túmulos, mas a conexão ancestral permaneceu.

            Aislinge, os sonhos ou visões, era uma classe de história irlandesa que os poetas eram obrigados a aprender. A história mais conhecida, Aislinge Óengusso, contém temas que recordam os encontros de xamãs com suas noivas espirituais. Óengus, o filho do Dagda e Boann, teve uma visão em sua cama de uma bela jovem que desaparecia quando ele tentava levá-la para cama. Ela o visitou todas as noites durante um ano, tocando uma doce música em um instrumento com cordas. Conforme o tempo se passava, ele começou a ficar doente por causa de seu desejo por ela. Fingen, descrito em outros lugares como um fáithliag – ou médico-vidente, vai até Óengus e escuta os seus sintomas. Ele então diz para Bóann fazer seu melhor para encontrar a jovem pela qual seu filho sofria. Em breve, toda a família de Óengus estava envolvida na busca pela jovem. Finamente, ela é encontrada em uma forma encantada como um cisne em um lago. No Samhain, a noite mais limiar do ano, Óengus vai procurá-la. Mas para tê-la, ele precisava se transformar em cisne. Quando assim faz, eles voam juntos até sua casa, o monte síd do Brug na Boinne.

            No entanto, talvez a maior evidência dos sonhos e visões é um comentário feito por um escriba cristão que registrou o conto Serglige Con Culainn:

            “O poder diabólico era grande antes da fé, tão grande que os demônios (demna) costumavam lutar com os homens em forma corpórea, e costumavam mostrar deleites e mistérios para eles como se realmente existissem.”

            XI. Amantes fadas e ajudantes: A definição de Harner de um xamã diz que este tem “pelo menos um, e normalmente mais, ‘espíritos’ a seu serviço pessoal”. Muitos personagens nos mitos e contos folclóricos célticos, fato e fantasia, antigos ou modernos, se encaixam nessa definição. Os maiores heróis até mesmo alegam ter parentes sobrenaturais. Por exemplo, no Togail Bruidne Dá Derga, Conaire é retratado como o filho de um personagem sobrenatural que alterna entre a forma de um pássaro e uma forma humana. No início da história, Conaire é favorecido pelo síd; eles até mesmo o treinam para ser selecionado rei. O reinado de Conaire é abençoado com prosperidade até ele começar a quebrar seu geasa. Quando seu reinado começa a cair no caos e na destruição, os personagens do outro mundo contribuem para os momentos finais de Conaire.

            Diz-se que o deus Lugh era o pai de Cú Chulainn. Quando Cú Chulainn precisava desesperadamente de ajuda durante o Táin, Lugh apareceu na aparência de Cú Chulainn e lutou enquanto seu filho tinha um descanso extremamente necessário. No início de sua carreira, Cú Chulainn viajou para “Alba” (possivelmente uma analogia para o outro mundo) para buscar um treinamento avançado como guerreiro, mas primeiro, ele teve que passar pelos obstáculos e lutar com sua professora-mestra, Scathach, para convencê-la que ele era digno de ser seu aluno – assim como muitos xamãs devem superar os espíritos no outro mundo. Depois de ensiná-lo os feitos que ele usa para vencer todas as pessoas com quem lutou em sua carreira, Scathach lhe dá o conhecimento de seu futuro. Apesar de Cú Chulainn ser claramente um guerreiro, qualquer cultura xamânica veria em seus contos os análogos para suas próprias histórias de xamãs que aprendiam a batalhar com os espíritos no outro mundo.

            Os contos célticos estão cheios de humanos que tinham suas amantes “fadas”. O taibhsear escocês do século XVII, Robert Kirk, falava com desaprovação de videntes humanos que aceitavam amantes fadas, mas ele afirmou que isso acontecia frequentemente. Isso parece ser uma tradição longa e consistente. Podemos até mesmo encontrar alguns traços dessa tradição na condenação de Agostinho de Hipona de uma mulher gaulesa consorciando-se com o que ele considerava serem demônios (“... et quosdam daemones, quos Dusios Galli nuncupant...), apesar de os gauleses os chamarem por um nome que provavelmente significa algo semelhante à “espíritos”.

A tradição folclórica moderna

            Nos escritos dos celtas sobre eles mesmos e em coleções do folclore, encontramos evidências de que as crenças, atitudes e algumas técnicas usadas pelos antigos videntes sobreviveram e persistiram.

Os poetas

            A tradição dos fili não morreu completamente, se acreditarmos no relato de Martin Martin do século XVII. Ele escreve:

            “...eles fecham suas portas e janelas durante um dia, deitam em suas costas com uma pedra em sua barriga e um tecido enxadrezado sobre suas cabeças cobrindo seus olhos, eles bombeiam seus cérebros para um elogio retórico ou panegírico; e de fato eles fornecem tal forma a partir de sua cela sombria, como é entendido por muitos poucos; e se eles comprarem dois cavalos como recompensa de sua meditação, eles acham ter feito um bom negócio.”

Os encantadores e curandeiros galeses

            Na tradição folclórica galesa, existem dois tipos de praticantes: os “encantadores” e o “povo astuto”.

            Os encantadores normalmente não possuem outros poderes mágicos e trata apenas as doenças que se acredita terem uma causa “natural”, o que incluía acidentes (hemorragias, queimaduras, mordida de cobra e picadas) e doenças como micose, dor de dente, escrófula e verrugas. Os encantadores não interagiam com o outro mundo ou tratavam as doenças que eram atribuídas às ações das “fadas”. Os encantadores normalmente herdavam o trabalho junto com o encanto ou objeto encantado e o conhecimento de como usá-lo.

            O que o grupo Davies chama de “povo astuto” ou “os sábios”, os irlandeses chamam de “médicos-fadas”. A eles é atribuído a habilidade de ver e/ou interagir com os habitantes do outro mundo, para diagnosticar as doenças causadas pelas ações das fadas, e encontrar a forma de curar uma doença através da interação com o outro mundo. Davies nota que entre as comunidades rurais, uma distinção era feita entre a aceitabilidade de cristãos consultando encantadores contra misturar-se com os “sábios”. Pensava-se que os encantos tinham se originado com os santos ou continham palavras da Bíblia, então eles eram inteiramente aceitáveis (apesar do clero frequentemente discordar). No entanto, muitos viam que não tinha problema em usar os encantos e consultar-se com os encantadores que não iam até os “sábios” pois eles acreditavam que estes últimos interagiam com anjos caídos ou até mesmo com o diabo.

Os médicos-fadas irlandeses

            A maior parte das evidências sobre o trabalho dos médicos-fadas na Irlanda vem dos antiquários do século XIX que coletavam o folclore nas áreas rurais. Em 1771, o bispo Sweetsman emitiu uma proclamação dizendo que:

            “Nenhum pastor, padre ou eclesiástico, seja o que for, na diocese de Ferns, deve presumir... ler os exorcismos ou evangelhos para os que já são muito ignorantes, e... o povo muito iludido, ou agir com médicos-fadas de qualquer forma, sem a expressa licença escrita de um bispo da diocese.”

            Na época que a proclamação foi emitida, o catolicismo romano ainda era essencialmente ilegal na Irlanda. Os padres eram discretos e a missa era feita principalmente dentro de casa ou em construções que nos dias de semana eram usadas como escolas ou como eiras. O povo se sentia livre em manter sua “religião popular” que combinava tradições cristãs e pré-cristãs. A situação começou a mudar após o Ato de Emancipação Católica de 1829 quando o clero teve mais liberdade para agir, organizar e construir estruturas.

            No entanto, está claro que o povo continuava a consultar os médicos-fadas apesar da oposição dos padres. Como Timothy Corrigan Correl nota, “O desespero era certamente um fato chave que fazia com que as pessoas buscassem métodos alternativos de cura apesar das condenações da igreja.” Em apoio à sua conclusão, Correll cita os seguintes exemplos dos escritos de Lady Gregory:

            “Os padres eram grandemente contra Biddy Early. E não há dúvidas de que ela ganhou o seu conhecimento das fadas. Mas quem não iria pro inferno por uma cura, quando um dos seus estivesse doente?”

            Apesar das objeções clericais, muitos chegaram à mesma conclusão de uma mulher que falou com Lady Gregory sobre Biddy Early: “Os padres eram grandemente contra ela, mas estavam errados. Como pode ser uma coisa ruim toda a caridade, bondade e cura?”

Os métodos

            I. Objetos e ferramentas: Nas tradições célticas, os videntes frequentemente usavam objetos nos quais focavam sua atenção enquanto procuravam por respostas. Dizia-se, por exemplo, que Biddy Early usava uma garrafa para extrair suas visões. Existem histórias contraditórias sobre a origem da garrafa, mas as fontes concordam que ela a usava para obter respostas. Um informante disse à Lady Gregory, “Ela tinha apenas que olhar para a garrafa e veria tudo o que tinha acontecido e tudo o que aconteceria.”

            II. Augúrio do osso de ovelha: Uma história de fadas de Munster registrada por Jeremiah Curtin em 1895 contém a seguinte passagem adereçada por Maurice Griffin, um pai moribundo, para seu filho mais novo:

            “Saia durante a noite, mate uma ovelha e a cozinhe, deixe o ombro direito tão limpo quanto qualquer osso sem carne, e a noite olhe sobre o osso, e a terceira vez que você olhar, verá qualquer pessoa que você sabe que está morto. Tenha sempre o osso com você e durma com ele, e o que você quiser saber sobre como curar qualquer doença virá do osso para ti. Quando uma pessoa precisa ser curada de um golpe fada, olhe sobre o osso e um mensageiro das fadas virá até você, e você será capaz de curar aqueles que vêm até você.”

            Por volta de trezentos anos antes, Robert Kirk escreveu uma prática similar usada por aqueles que ele chamou de “o tipo menor de videntes” para “diagnosticar muitos eventos futuros, apenas durante um mês”. Kirk especifica que seja:

            “... o osso do ombro de uma ovelha, no qual uma faca nunca tenha se aproximado, pois... o ferro impede todas as operações daqueles que trabalham nas intrigas daqueles domínios ocultos. Essa ciência é chamada de silinnenaith.”

            “... Ao olhar para o osso, eles irão te contar se a devassidão é feita na casa de alguém, quanto de dinheiro o mestre de uma ovelha tem, se alguém morrerá naquela casa aquele mês, se o gado pegará um trake (NT: não encontrei a tradução para o termo), como se o planeta fosse atingido, denominado earchal. Então eles prescreverão um preservativo e a prevenção.”

            A coisa notável em ambas as histórias é que temos dois exemplos de práticas bem similares, separadas por trezentos anos e por tradições gaélicas diferentes (Dingle e as Terras Altas da Escócia). As diferenças parecem ser menores. Kirk especifica qual o tipo de osso e estipula que o ferro não pode ser usado para limpá-lo; a instrução do relato irlandês de “limpar” o osso implica que uma faca não deve ser usada. O uso irlandês também parece estar restrito ao que o relato diz, que é curar, mas não proporciona a presciência, enquanto que o relato escocês permite o augúrio, mesmo que apenas na duração do mês corrente. No entanto, ambos os relatos parecem preservar traços do que parece ser tradições muito anteriores: um animal era essencialmente sacrificado e seus ossos usados como uma ferramenta divinatória em uma forma recordativa dos contos clássicos dos videntes gauleses lendo as entranhas. O osso permite o usuário cruzar o outro mundo, simbolizado pela frase, “você verá todas as pessoas que você sabe que estão mortas.” Por último, o osso continua extraindo a ajuda do outro mundo: “olhe sobre o osso e um mensageiro das fadas virá até você, e você será capaz de curar aqueles que vêm até você.”

            III. Frith: Provavelmente de origem nórdica, o frith era uma técnica de augúrio usado como meios de trabalhar as épocas certas para ações e esquemas. Essa técnica era usada como a primeira coisa da manhã. Após se levantar e recitar uma oração, o frithir circulava a casa no sentido horário e então olhava para a paisagem através de um círculo feito com o dedo indicador e o polegar. O que quer que passasse na linha de visão era considerado um presságio das perspectivas para aquele trimestre. O outro método era levantar-se, fechar os olhos, posicionando-se em uma soleira (um local limiar) com uma mão em cada lado do batente. Então, a pessoa recitava uma oração e abria os olhos. O que quer que aparecesse primeiro na visão da pessoa era considerado um presságio. Tradicionalmente, existia um longo vocabulário de símbolos que ajudava o frithir a interpretar os sinais.

Recebendo e passando o poder

            Em algumas culturas, os xamãs passam seu poder antes de morrerem. Um exemplo irlandês disso é encontrado na história mencionada acima, coletada no século XIX, na Irlanda, por Jeremiah Curtin. Maurice Griffin era um vaqueiro que dizia ter recebido seu poder de um leite mágico conforme descrito abaixo:

            “... em uma manhã enquanto ele estava fora com o gado, ele viu algo descendo pelo ar na forma de uma nuvem branca e pousou em um montículo de terra. Parecia ser um pedaço de espuma branca, e um grande calor saia daquilo. Uma das vacas foi até o montículo de terra e lambeu a espuma até engoli-la completamente.

            Quando ele foi para o café-da-manhã, Maurice contou sobre a nuvem para o homem da casa, e disse ter se espantado em ver a vaca lambendo o que tinha caído naquele montículo de terra. ‘E era branco como qualquer linho,’ disse ele.”

            O dono da propriedade, reconhecendo que o leite da vaca teria algum tipo de poder, instrui a leiteira a ordenhar a vaca cuidadosamente e trazer seu leite para ele. No entanto, Maurice planejou beber o leite primeiro, assim como Fionn experimentou primeiro o salmão de Finn Eces, e Taliesin com o primeiro gole da poção de Cerridwen. Quando o dono da propriedade percebe que Maurice já tinha bebido do balde, ele admite, “Foi a sorte dele que lhe deu; aquilo havia sido prometido a ele, não a mim,” e a história continua, “Maurice começou a prever as coisas e curar pessoas.” É notável ver a forma como certos motivos persistem na tradição, seja na irlandesa ou galesa. Parece que possa ter existido uma crença continuada de que a comida abençoada por forças mágicas poderia ser usada para transmitir certos dons sobrenaturais do conhecimento.

            Maurice Griffin desejava passar seus dons para alguém de sua família, mas percebeu que apenas seu filho mais velho podia carregar ambas as partes do dom: a habilidade de curar e a habilidade de dizer o futuro e eventos remotos. Infelizmente, quando Maurice sentia a morte se aproximando, o filho mais velho escolheu viajar com os amigos, e Maurice tentou dar o dom de cura, usando o osso de ovelha, para seu outro filho. Porém, o filho mais novo decidiu não pegar o dom de cura temendo que “talvez em alguns anos quando eu tiver filhos, as doenças que eu curei estarão neles.” Esse conceito de “penalidade”, a reparação pelos dons concedidos, será discutido mais tarde. Maurice passou seu dom para sua esposa que curou por muitos anos após sua morte. No entanto, como Curtin registrou, “a Sra. Griffin não foi capaz de dar o dom para qualquer pessoa; o osso foi enterrado com ela.”

            Acredita-se que às vezes o dom venha como uma forma de agradecimento por favores prestados, como na seguinte história registrada por Curtin:

            “Uma mulher com grande fama de médica ganhou seu poder da seguinte forma: três mulheres estavam indo para uma aldeia à uma milha de Dingle. Na estrada, elas chegaram até um pequeno rio que não dava para atravessar, mas teriam que caminhar através da água. De repente, uma bela senhora apareceu diante delas, falando muito bondosamente com a primeira mulher perguntando se ela poderia carregá-la pelo rio. “Certamente que não: já é o suficiente eu me carregar.” A senhora perguntou para a segunda mulher e obteve a mesma resposta mas quando a terceira mulher foi questionada, ela disse: “Eu lhe carregarei de bom grado, por que não?” Ela então pegou a bela senhora em suas costas e a carregou pela água, colocando-a na margem seca. A senhora a agradeceu muito amavelmente e disse, “Quando você acordar amanhã pela manhã, conhecerá todas as plantas e ervas, saberás seus nomes e quais virtudes estão nelas.” Na manhã seguinte quando a mulher acordou, ela chamou todas as plantas e ervas pelo nome, sabia onde cresciam e conhecia o poder de cada uma delas, e daquele dia em diante ela foi uma grande médica.”

            Existem muitos ecos de contos antigos nessa história. Como a história de Niall Noigiallaig e seus irmãos com a bruxa, as mulheres foram abordadas por um estranho pedindo por ajuda que envolvia toque físico. É claro, como essa história envolve mulheres do século XIX na Irlanda rural, o sexo não estava envolvido. No entanto, as mulheres são convidadas a carregar a jovem mulher pelo rio – ações com fortes paralelos com o abraço sexual exigido de Niall. Tanto Niall como a agradável mulher de Dingle são transformados pela experiência. Ele se torna um rei, servo do povo e da terra, e ela é imbuída com um extraordinário conhecimento que usará para ajudar sua comunidade.

A “penalidade” revisitada

            De acordo com Curtin, existiam boas razões para não pegar o dom se pudesse evitar. Ele citou uma fonte que dizia, “Às vezes, os melhores médicos [fadas] paravam de curar, pois eles diziam que a cura trariam infortúnios para os médicos ou para seus filhos. Acredita-se firmemente que existe uma compensação para todo esse conhecimento sobrenatural e para tudo o que fugia do curso normal das coisas.”

            Lady Gregory registrou:

            “Foi Flaherty que deu sua vida pela da minha irmã, que era sua esposa. Quando ela adoeceu, ele a levou até Biddy Early além das montanhas. Ela a curou pela primeira vez, mas disse, “Se você a trouxer de novo, pagará a penalidade.” Quando ela ficou doente de novo, ele a levou até ele e parou há uma milha da casa, mas ela [Biddy Early] sabia bem disso e contou para sua esposa onde ele estava, e naquela hora, o cavalo morreu. Na terceira vez que ela ficou doente, ele a levou mais uma vez, sabendo bem que ele pagaria a penalidade; assim ele fez, e morreu, mas ela foi curada e casou-se com um dos O’Dea posteriormente.”

            Outro informante relatou, “Teve um homem que curou seu filho que veio doente da América. Ele não gostava de vê-lo doente e uma noite o curou, mas antes do nascer do sol, a visão de um de seus olhos tinha ido embora.”

Pagamento pelos serviços

            Os médicos fadas habitualmente são pagos com qualquer tipo de coisa, menos com dinheiro. Um paciente de Biddy Early contou para Lady Gregory:

            “Tinha side-cars, carros comuns, a pequena nobreza e os camponeses em sua porta, assim como o mercado de Gort, e janta pata todos os que vinham, e todo mundo trazia algo para ela, mas ela mesma não se importava com o que era. Os fazendeiros ricos levavam um porco inteiro para ela. Eu mesmo levei uma garrafa de uísque e um pão digno de um xelim, um quarto de açúcar e um quarto de chá triturado. Ela era muito rica, pois não existia um fazendeiro que não a daria um par de bois castrados ou uma potranca.”

Adivinhação e videntes

I. O que é adivinhação?

            Entre acadêmicos e antropólogos, existem tantas definições de adivinhação como de xamanismo. O Cambridge Internation Dictionary of English (Dicionário de inglês internacional de Cambridge) define a adivinhação como “a habilidade ou ato de dizer o que acontecerá no futuro ou descobrir algo que está oculto ou em segredo através de métodos mágicos.” Observe que a adivinhação é mais do que “ler a sorte” ou prever o futuro. Pelo contrário, envolve a descoberta de qualquer informação que não pode ser obtida através de métodos normais. Assim, os videntes escoceses eram retratados sendo consultados sobre o destino dos familiares que tinham ido para outro país ou eram pedidos para dizer o destino de um cargueiro que estivesse muito atrasado. De fato, um vidente escocês foi supostamente executado por dar a uma nobre senhora as notícias sobre seu marido que ela não gostou: o marido estava vivo, na verdade, e seu retorno de Paris tinha sido atrasado não por um desastre, mau tempo, ou complicação nos negócios, mas por uma agradável companhia feminina.

II. Exemplos de adivinhação céltica

            Esse capítulo foi iniciado com um exemplo de adivinhação, uma cena da primeira parte do grande épico irlandês, o Táin. Nos contos dos santos medievais irlandeses, os anjos podem assumir o papel de mensageiros celestiais, mas nas sagas heroicas e nos contos folclóricos, os videntes e personagens do outro mundo pré-cristão frequentemente apareciam para chamar a atenção sobre o curso de eventos ou para advertir os atores principais quais consequências terríveis estariam mais a frente. Mas as tentativas de contar o fim antes de acontecer não estavam confinadas nas histórias. Um historiador fala de uma rainha histórica e mortal que tomou medidas para prever o resultado da batalha antes dela ser travada. Como Dião Cássio descreve os eventos, Boadicéia, que tinha a liderança dos britânicos icenos após a morte de seu marido, montou um monte de terra e reuniu as tropas, e então:

            “Ela usou um tipo de augúrio, liberando uma lebre das dobras de sua vestimenta. Pelo fato da lebre ter corrida em uma direção na qual [seu povo] considerava ser auspiciosa, toda a tropa gritou sua aprovação. Levantando sua mão para o céu, Boadicéia disse: ‘Eu te agradeço, Andrasta, e te chamo de mulher para mulher... Eu imploro e oro para ti pela vitória e pela manutenção da vida e liberdade contra homens arrogantes, injustos, insaciáveis e profanos’.”

            Similarmente, os celtas, antes e após a chegada do cristianismo, tomavam medidas para prever o futuro, seja o resultado de uma batalha ou as perspectivas de um casamento. Provavelmente todo mundo conhecia alguns encantamentos para dizer o futuro. Uma mulher colhendo cenouras selvagens nas Terras Altas da Escócia, por exemplo, sabia como usar a ocasião para prever como seu futuro marido se pareceria: ela sabia o encantamento a dizer e quais sinais procurar na aparência das cenouras. Mas alguns membros da comunidade eram – e são – dotados com o que em português normalmente é chamado de visão ou ‘o conhecimento’, a habilidade de ver e saber coisas que a maioria das pessoas não sabem. Se observarmos cuidadosamente essas tradições, veremos que esse conhecimento e habilidade são frequentemente ditos virem do outro mundo. Diz-se também que esses dons permitem a comunicação com o outro mundo e seus habitantes.

Avaliando a evidência para os adivinhos célticos

I. Os videntes célticos eram xamãs?

            Ao longo da história existiram videntes célticos – praticantes religiosos que se acreditava comunicar-se com o outro mundo e obter o conhecimento não disponível através de meios “normais”. Entretanto, ter a habilidade de ver as coisas ou o futuro à distância não torna alguém um xamã. Os escritores clássicos falam de videntes célticos que liam presságios. Os escritores medievais descreveram diversas formas de transe, usadas para prever o futuro ou adquirir uma informação. Os antiquários do século XIX falavam de videntes que eram creditados com a habilidade de encontrar um objeto perdido ou descobrir o destino de uma pessoa desaparecida. Mesmo hoje em dia, diz-se que algumas pessoas tem a “visão dupla”, significando que elas podem ver esse e o outro mundo de uma única vez, e também observar como eles interagem. No passado, os estudiosos geralmente se referiam aos praticantes célticos como videntes. No entanto, como o termo xamã se tornou usado mais amplamente em estudos e na literatura religiosa, os estudiosos de estudos célticos cada vez mais usam o termo ‘xamânico’ para se referir aos comportamentos mostrados nos mitos e hagiografias. A evidência sugere que alguns dos métodos e comportamentos atribuídos aos praticantes célticos são similares às tradições xamânicas universais.

II. O aprendizado

            A pessoa que está sendo treinada aprende as canções e as ações tradicionais que foram passadas oralmente de geração a geração. Enquanto que os praticantes religiosos de muitas culturas compartilham características comuns que hoje chamamos de ‘xamânicas’, os procedimentos, as ferramentas exatas, as palavras e as canções que um xamã usa vêm de sua cultura circunjacente. Por fim, cada grupo tem suas próprias formas de induzir o transe – seja através de batidas de tambor, danças, cantos ou com a ingestão de substâncias. Cada sociedade tem seus próprios símbolos e nomes para os seres encontrados nessas jornadas extáticas. Esses costumes culturais e o tipo de “trabalho” que um xamã faz – seja a cura, divinação, ou a orientação para a alma dos mortos – ajuda a determinar as atividades do xamã. Também, os sonhos e experiências que um xamã experimenta irão conduzi-lo a um caminho pessoal dentro das fronteiras da tradição cultural.

            O aprendizado envolve viagens ao outro mundo onde o aprendiz se encontra com espíritos e aprende a trabalhar com eles. Eventualmente, há um ponto quando o aprendiz aprende a dominar os espíritos e obrigá-los a ajudarem-no. Um xamã também pode formar um intenso relacionamento com um espírito em particular, frequentemente conhecido como “noiva espírito”. Uma vez comprometidos como aliados ou colocados sob controle, esses espíritos se tornam ajudantes e professores em futuras jornadas, ajudando o xamã a adquirir conhecimento, derrotar poderes hostis e negociar com forças teimosas.

            Com o poder garantido pelos espíritos, o xamã cruza as fronteiras invisíveis entre os mundos para ver o que está escondido para a maioria das pessoas e para dominar as forças hostis em favor de outras. O número e a natureza dos mundos visitados pelos xamãs durante o transe variam de cultura para cultura, refletindo as crenças de cada sociedade sobre a composição do cosmos. Piers Vitebsky sugere, “Quando os xamãs falam de outros mundos, eles não querem dizer que estes estão desconectados desse mundo. Pelo contrário, esses mundos representam a verdadeira natureza das coisas e as verdadeiras causas dos eventos neste mundo.” Os espíritos que escolhem trabalhar com o xamã podem conceder total ajuda ou podem dar ao xamã o conhecimento de como realizar uma cura ou encontrar uma solução. Enquanto está no outro mundo, o xamã pode também batalhar com as forças que estão causando doenças, mau tempo ou alguma outra condição adversa. Alguns espíritos-aliados também tem a habilidade de adotar a forma de animais. Os xamãs que recebem essa habilidade de metamorfose através de seus aliados podem transforma-se em suas jornadas para o outro mundo.

III. O que um xamã faz?

            O que um xamã precisamente faz depende de vários fatores principais:

·         Os dons e habilidades que receberam dos poderes sobrenaturais
·         As tradições que lhe foram ensinadas pelos seus professores
·         As necessidades da comunidade

            Em comunidades onde a caça é a principal fonte de comida, os xamãs realizam cerimônias para encontrar os animais, garantir sua cooperação na caça e proteger os caçadores para que todos retornem seguramente. Os xamãs frequentemente operam como videntes que viajam para o outro mundo a fim de encontrarem objetos perdidos ou saber o destino de pessoas desaparecidas. Os xamãs mais dotados e experientes frequentemente operam como curandeiros. Como parte de seu treinamento, eles estudam as ervas e aprendem outros conhecimentos medicinais, mas seus tratamentos são guiados através de suas interações com os espíritos.

            Onde quer que existam, os xamãs tipicamente ocupam um lugar único em suas comunidades. Nas sociedades onde tais habilidades são aceitas e estimadas por todos, o xamã pode ser um repositório do conhecimento tradicional assim como de técnicas sagradas. Em sociedades que são menos homogêneas, o xamã pode ser um personagem mais marginal, um objeto de admiração e medo para alguns, e escárnio para outros. Em países como o Tibete, os xamãs continuam a praticar junto com os líderes de religiões mais “estabelecidas” – os sacerdotes budistas. Mais adiante nesse capítulo, consideraremos uma situação similar na Irlanda e na Grã-Bretanha, onde os “médicos fadas” e o “povo astuto” continuaram a praticar com ou sem a aprovação do clero cristão e dos oficiais governamentais que também pertenciam à comunidade.

IV. Sendo um xamã

            Enquanto os antropólogos falam sobre o que os xamãs fazem, a respeito de seu papel, os praticantes indígenas frequentemente falam mais sobre quem eles são, e apenas secundariamente, sobre o que fazem. Em sua percepção, alguém é chamado para ser um xamã. Não importa o que você faz, você é um xamã – alguém chamado pelos espíritos e iniciado em seu mundo. Os xamãs são tanto pessoas iguais ou diferentes as outras pessoas. John Fire Lame Deer, um nativo xamã norte-americano, acredita que “ser um homem da medicina, mais que qualquer outra coisa, é um estado da mente, uma forma de olhar e entender essa terra, de entender o que tudo isso é.”

            Os xamãs não se encaixam nos estereótipos dos clérigos ocidentais. Como o mesmo xamã observa:

            “Você já me viu bêbado e sem dinheiro. Você já me ouviu amaldiçoar ou contar uma piada sexual. Você sabe que não sou mais sábio ou melhor que os outros homens. Mas eu estive no topo da colina, ganhei minha visão e meu poder; o resto é apenas enfeites. Essa visão nunca me abandona, não me abandonará na cadeia, não enquanto eu estiver pintando símbolos engraçados em algum restaurante barato, nem quando eu estiver em um salão e nem quando eu estiver com uma mulher, especialmente nesse caso.

            Eu sou um homem da medicina por que um sonho me disse para ser um, por que eu fui ordenado a ser um, por que um velho santo (...) me ajudou a ser um. Não há nada que eu possa fazer, ou querer, sobre isso.”

            As experiências dos xamãs tem os transformado de formas que não são visíveis a olhares comuns. Uma vez que é chamado, você nunca para de ser um xamã, mesmo que pare de fazer as coisas que normalmente são esperadas de um xamã. Um xamã dedicado ao chamado nunca realmente para de crescer e de aprender com suas próprias experiências, com as discussões e o feedback dos outros. Ser um xamã, servir aos espíritos e à comunidade, não é uma vida fácil. Os xamãs tipicamente passam por provações excepcionais em suas missões para o poder de cura e conhecimento mágico. A própria natureza do sofrimento e tentativas do xamã coloca os iniciados do lado de fora da sociedade comum, onde o pensamento de submeter-se a tais buscas é uma anátema aos homens e mulheres normais. Isso contribui para a liminaridade do xamã, o estado de “em-entre” que é o tema central do poder sagrado e sobrenatural na tradição céltica.

Xamãs ou adivinhos? Avaliando a evidência

            Usando nosso conhecimento sobre xamanismo moderno, veremos como os modelos célticos se contrapõem.

I. Um xamã é chamado por um termo que identifica seu papel na comunidade

            O povo astuto galês e os médicos fadas irlandeses que são conhecidos para nós através de descrições modernas e através do folclore, têm papeis similares aos dos xamãs, apesar de, como discutido acima, seus métodos não serem os mesmos. No entanto, há uma separação real entre a tradição aristocrática dos mitos medievais e as tradições folclóricas dos médicos fadas. Talvez, os “sábios” não representam uma sobrevivência da religião pré-cristã oficial, ao invés disso, eles podem ter continuado uma tradição que estava viva nos tempos pré-cristãos junto com a religião oficial – uma tradição que sobreviveu ao início do cristianismo, servindo os membros mais humildes da sociedade, adaptando-se e aprendendo a viver com a nova religião oficial, assim como sobrevivia ao lado das antigas.

II. Um xamã acredita que o mundo é habitado por espíritos inteligentes e conscientes que podem controlar ou afetar os eventos nas vidas dos humanos

            Essa crença sempre foi uma parte essencial da visão de mundo céltica.

III. Um xamã se submete a experiências preparatórias transformadoras que envolvem visões, transes, e frequentemente, uma doença debilitante. Essas experiências moldam a visão de vida e mundo de um xamã definitivamente

            Não sabemos se essas experiências eram parte do treinamento comum e do aprendizado dos videntes nos tempos pré-cristãos ou medievais. No entanto, esses motivos às vezes aparecem nos mitos no contexto de encontros do outro mundo, e às vezes, caracterizam a carreira dos médicos fadas e do povo astuto.

IV. Um xamã “viaja” em transe para outras dimensões ou modos de consciência, mais ou menos por vontade própria, apesar de cerimônias serem usadas normalmente para induzir o transe

            O outro mundo certamente desempenhou um grande papel nas tradições medievais dos irlandeses, galeses e bretões, embora seja difícil determinar até que ponto esse papel tenha sido herdado do passado ou de tradições inativas ao invés de práticas atuais. Como Leslie Ellen Jones nota, se olharmos para os contos célticos, “não existe um conto que fale sobre a viagem de um druida para o outro mundo,” apesar dos druidas certamente serem retratados trabalhando com todo tipo de magia. Com exceção à Taliesin, aqueles que viajam são reis ou guerreiros. Fionn é identificado como um poeta, mas ele também é um caçador, guerreiro e o rei (righfénnid) dos Fianna. Os relatos histórias nos dão pouco esclarecimento, e se dão. Seja o vidente dormindo em uma pele de touro, deitado em transe após mastigar carne de porco crua ou rodopiando como os awenyddion, os relatos históricos medievais retratam uma mudança de consciência na qual o vidente se comunica com os espíritos. Dada à crença céltica que tais espíritos habitam o outro mundo, devemos assumir que um tipo de viagem era envolvido? Em outras palavras, enquanto os videntes medievais buscavam sua inspiração a partir de fontes sobrenaturais, não está claro que eles se imaginavam viajando. Isso é importante por que a viagem difere um xamã de um vidente. Também, enquanto uma viagem para o outro mundo possa ser uma parte da fórmula inicial de “conhecimento” do vidente, não é necessariamente uma parte contínua de sua prática. Devemos assumir que cada transe ou visão é por definição uma viagem pelo fato de envolver um estado alterado de consciência?

V. Um xamã adquire espíritos aliados que o fornecem o conhecimento durante os encontros sobrenaturais. O processo de encontrar aliados pode também envolver o recebimento das formas animais usadas nas “viagens” para o outro mundo

            Nos mitos irlandeses, os heróis frequentemente adquirem aliados sobrenaturais, muitas vezes na forma de “amantes fadas”, mas também na forma de poderosos reis, como Lugh ou Manannán. A descrição do imbas forosnai no Sanas Cormaic especifica que o vidente invoca seus “deuses.” Robert Kirk fala de obter o conhecimento dos habitantes da “comunidade secreta.” Biddy Early tinha o que ela chamava de “meus amigos” ou “meu povo.” Os informantes de Lady Gregory concordavam que os poderes de um médico fada vinham do outro mundo.

            Os mitos célticos estão repletos de divindades adotando formas animais tão frequentemente como as formas humanas, e os contos folclóricos modernos falam sobre “fadas” que aparecem na forma animal. No entanto, os videntes modernos não falam de seus guias assumindo formas animais, embora as tradições folclóricas falem sobre ler presságios a partir do comportamento dos animais. Esse aspecto de uma prática anterior pode ter se perdido.

VI. Um xamã assume um papel de serviço para a comunidade com uma ou mais capacidades, tais como vidente, psicopompo ou curandeiro

            A evidência clássica deixa claro que os videntes-ovates desempenhavam um papel significativo na vida ritualística das comunidades gaulesas. Podemos apenas supor que as figuras correspondentes desempenhavam papeis equivalentes na Irlanda pré-cristã e no País de Gales. Após a chegada do cristianismo, o papel do vidente foi passado para o fili que continuou a ler os presságios e prever o futuro para aqueles que o consultava. Na era moderna, os praticantes folclóricos desempenhavam papeis importantes em suas comunidades como fontes de cura e conselho, apesar da oposição do clero cristão. Com os avanços da medicina científica e da tecnologia, e uma ruptura geral com a cultura tradicional, seu papel diminuiu em importância. Interessantemente, os praticantes folclóricos não serviam com um papel de psicopompo, exceto para prever mortes. Nas comunidades célticas tradicionais, quando as pessoas estavam morrendo, elas normalmente se voltavam para os padres e ministros cristãos. As histórias dizem que até mesmo Biddy Early foi atendida por um padre em sua morte. Mesmo se as histórias não forem verdadeiras, sua existência sugere que ter um padre por perto era a coisa “adequada” a se fazer por qualquer um.

VII. Um xamã assume uma posição de liminaridade ou de magia na comunidade. Alguns xamãs deliberadamente vivem separados da comunidade, enquanto outros simplesmente são vistos como “diferentes” devido aos seus dons e suas práticas

            Não sabemos o quão próximo os videntes eram integrados em suas comunidades antes da era moderna. Certamente, os relatos modernos retratam os videntes como parte de suas comunidades, ainda que distintos dentro das mesmas. A forma como os médicos fadas eram apartados e atacados pelo clero cristão em si lhe deu um tipo de condição limiar. A associação dos praticantes com as “fadas” também os tornavam “diferentes,” mas isso era um tipo de distinção que também era aceito dentro da comunidade. Apesar de alguns condenarem os médicos fadas por consorciarem-se com o que eles consideravam ser “demônios,” a maioria os aceitava para desempenhar um papel que fazia uma contribuição positiva, ainda que de certa forma heterodoxa, para o bem estar da comunidade.

VIII. Um xamã segue um caminho firmemente enraizado na cultura da comunidade que serve. Essa cultura determina os métodos, a cosmologia e outras ideologias nas quais a prática é baseada

            Tradicionalmente, os métodos, práticas e as crenças dos praticantes célticos refletiam aquelas da comunidade e da cultura que serviam. Isso não é simplesmente uma questão de educação, ou a falta da mesma. O vidente escocês do século XVII, Robert Kirk, foi bem educado. Sua interpretação do que o “bom povo” era e o porquê de certas práticas serem feitas, refletem sua exposição a outras culturas, crenças, tecnologias e ciências como eram entendidas em sua época. Apesar disso, ele seguia as práticas de sua cultura. Em ambos os aspectos – sua aderência à tradição, assim como sua boa vontade em desenvolver suas próprias ideias sobre sua prática – Kirk era um praticante típico de qualquer época ou lugar.

IX. Um xamã usa cerimônias e rituais para comunicar-se com os espíritos e buscar sua ajuda. O contexto cultural determina os detalhes do rito ou cerimônia

            Talvez devêssemos também notar o que pode ser uma diferença crucial entre os praticantes célticos e os xamãs indígenas: a falta ou o mínimo uso de cerimônias. As culturas xamânicas clássicas intensivamente usam a cerimônia para induzir a viagem de transe e trazer o “paciente” na estrutura correta da mente. Enquanto os rituais podem ser conduzidos por alguém que não esteja presente fisicamente, a condução do ritual é ainda crucial. Nos relatos escoceses, irlandeses e galeses, no entanto, a falta de rituais é notável.

            Vamos tomar o caso de Biddy Early como exemplo. Não sabemos o que Biddy Early fazia quando ia sozinha para seu estábulo. Apesar de seus clientes terem certeza que ela estava se comunicando com as “fadas,” talvez ela só estivesse tentando ter um pouco de paz daqueles que se aglomeravam em sua cozinha! Além disso, em contraste com os xamãs siberianos ou com os praticantes de qualquer religião indígena, não existem relatos de Biddy Early vestindo um traje especial ou entoando cânticos específicos para induzir o transe. Ao invés disso, o mais perto que conseguimos chegar de “cerimônia”, é Biddy Early olhando para a garrafa e dizendo ao povo o que fazer. Se isso é uma cerimônia, é uma minimalista!

            Nos tempos modernos, alguns dos sábios – médicos fadas, povo astuto ou seja lá como eram chamados em suas comunidades – desempenhavam um papel análogo ao dos xamãs nas comunidades indígenas, mas isso não justifica usar o termo “xamã” ao discutir sobre os praticantes célticos. Alice B. Kehoe adverte contra a precipitação em chamar de “xamãs” os videntes europeus pelo fato do contexto cultural ser crucial. Como ela coloca, “o transe não é igual ao xamanismo.” David Holmberg comenta:

            “Apesar de uma rica literatura etnográfica ser agrupada sob o termo ‘xamanismo’, o xamanismo permanece insociável como um objeto de estudo geral, em parte pelo fato das práticas díspares terem sido dissociadas de contextos culturais maiores e ligado a motivações universais... [A] reconstrução do xamanismo como um termo isolado parece ser uma ilusão antropológica...”

            Como notado anteriormente, a noção do xamanismo como uma religião universal ou um fenômeno dissociado da religião é uma construção antropológica, não a crença do povo que a pratica. Enquanto os praticantes desempenham papeis similares em suas culturas, isso não faz com que suas práticas sejam as “mesmas”. As diferenças nas abordagens é o que torna cada cultura única. Em que ponto as similaridades são mais cruciais que as diferenças? Um antropólogo observando um xamã siberiano e um ben feasa irlandês pode focar-se no fato de que ambos usam a tradicional fitoterapia, alegam receber seu conhecimento do outro mundo e servem a comunidade. A partir desse ponto de vista, o antropólogo pode concluir que ambos devessem ser chamados de ‘xamãs’, mas os praticantes como John Fire Lame Deer e Biddy Early podem concluir que: “Sim, nós dois servimos ao povo e quando conversamos, podemos entender um ao outro, mas nossos caminhos são diferentes.” As diferenças são tão importantes como as similaridades, e a precipitação em retratar todas as culturas sendo “as mesmas” ajuda a extinguir culturas, especialmente as minoritárias.

            Como já vimos, os celtas sempre tiveram videntes – pessoas que receberam seu conhecimento do outro mundo – mas, se estes eram xamãs no sentido completo da palavra, eles morreram com o último fénnidi. Os videntes célticos certamente tinham contato com as forças do outro mundo, contatos que poderiam resultar em uma “amizade” ou em alianças com as quais podiam beneficiar-se regularmente. Suas experiências provavelmente incluíam o que pode ser chamadas de viagens em sonhos ou transes. As viagens podem ter ajudado a construir relacionamentos e comunicação entre o vidente e os espíritos. No entanto, ao servir aos outros, os videntes célticos buscavam o conhecimento do que os outros precisavam fazer; eles não conduziam cerimônias de cura como regra. Uma vez ou outra, as descrições enfatizam a mediocridade dos videntes célticos e seus caminhos. De qualquer maneira que fosse mais apropriado para eles – seja olhando para uma garrafa ou sentando-se em uma cadeira – os videntes célticos reestabeleciam a linha de comunicação e esperavam pela “visão que ilumina”. Nos tempos medievais, a visão pode ter sido algo seguido por uma torrente de versos com uma resposta oculta em suas linhas.  Na era moderna, a visão pode ser seguida por uma sugestão de que o paciente coma algumas “laranjas frias” ou beba uma garrafa com uma mistura de ervas, uma reafirmação de que a pessoa desaparecida está bem e que logo mandaria uma carta, ou um balançar de cabeça seguida pela frase, “Não é do meu negócio”. Sem batidas de tambor, sem capas de penas, sem danças ao redor de fogueiras. O mais próximo que temos de uma cerimônia é quando o frithir diz uma oração e então caminha no sentido horário ao redor da casa ou fica parado na soleira da porta. Pode ser que os tambores, vestimentas especiais e movimentos ritualísticos possam ter sido parte de cerimônias e ritos pré-cristãos, mas seus traços se perderam.

            Igualmente, as palavras que os celtas usavam em conexão com as práticas dos videntes enfatizam dois conceitos ou ideias: conhecimento e visão. Barbara Tedlock define adivinhação como, “uma forma de explorar o desconhecido a fim de extrair respostas para as perguntas que estão além do alcance do entendimento humano ordinário,” e essa definição descreve precisamente os métodos dos videntes célticos. Eles buscavam o conhecimento, que frequentemente vinha na forma de visões, apesar de também poder vir em forma de frases inspiradas. Assim, os praticantes célticos devem ser considerados videntes ou, eventualmente, adivinhos, mas não xamãs. Enquanto a adivinhação e o xamanismo estão relativamente relacionados, não são a mesma coisa.

Conclusão

            Agora que já vimos as evidências dos comportamentos xamânicos e as práticas dos videntes nas culturas célticas, vamos ver o que era realmente a tradição.

            1. Os escritores clássicos do continente falam dos praticantes religiosos célticos como filósofos ou sacerdotes. No entanto, alguns retratam os videntes – ovates – lendo presságios a partir da observação do comportamento de animais ou interpretando outras evidências físicas. As descrições das tribos célticas que habitavam o que hoje é conhecido como a Alemanha, descrevem uma mulher vidente cujas frases extáticas eram interpretadas e anunciadas por uma assistente. Os comportamentos xamânicos não são mencionados.

            2. Apesar da falta dos comentários clássicos, os antigos celtas pré-cristãos podem ter tido praticantes xamânicos associados com suas atividades de caça. Os traços dessas práticas podem ser vistos na iconografia continental. Os contos medievais irlandeses e as histórias dos santos sugerem que as tradições do xamã-caçador possam ter persistido entre os bandos que habitavam nas florestas conhecidos na Irlanda como fiana. Esses grupos de guerra se tornaram assimilados como guarda-costas do rei o mais tardar no século XVII.

            3. A ênfase principal da produção céltica de comida eram o pastoreio e a agricultura. A comunidade ritualística se focava em garantir um bom tempo e outras circunstâncias favoráveis. Essas necessidades requeriam um clero que era especializado na condução de rituais. Igualmente, alguns destes se tornaram especialistas da lei e de outros conhecimentos ancestrais, enquanto que outros se especializavam no aprendizado e na recontagem dos mitos. Trabalhando ao lado desses especialistas de rituais e do conhecimento ancestral, estavam os videntes – chamados de fáithi em irlandês – que provavelmente se comunicavam com as forças sobrenaturais para obter o conhecimento e derrotar espíritos não amigáveis.

            4. Alguns guerreiros possam ter se submetido a um tipo de iniciação visionária que envolvia encontros com as forças do outro mundo.

            5. Após o cristianismo se tornar dominante nas sociedades célticas, três tipos de práticas tipo xamânicas continuaram no mainstream e nas tradições populares:

·         Os poetas continuaram a usar as técnicas de viagem de transe para invocar a inspiração. Com o declínio das aristocracias nativas, o papel do poeta também declinou;
·         Os videntes populares, através do contato com o outro mundo e com os dons recebidos de lá, serviam suas comunidades prevendo o futuro, encontrando objetos perdidos ou desvendando o destino de uma pessoa desaparecida, assim como identificando e lutando contra o que eles percebiam serem atividades de uma magia maliciosa;
·     Os curandeiros populares – médicos fadas ou povo astuto – frequentemente eram creditados com a habilidade de realizar curas ao invocar o poder sobrenatural ou ativando talismãs. Os médicos fadas e o povo astuto tipicamente também tinham um grande conhecimento fitoterápico.

Se qualquer tradição céltica viva de hoje em dia pode ser chamada de “xamânica”, estas tradições pertencem aos médicos fadas e ao povo assunto que permaneceram nas comunidades célticas tradicionais. Seu abastecimento de conhecimento e prática permite nossa maior ligação com as tradições xamânicas do passado. Talvez, ao invés de nos voltarmos ao xamanismo com o “aroma céltico” ou outras adaptações modernas, o interesse nas práticas dos videntes célticos possam nos conduzir a essas práticas tradicionais. Eles são tesouros vivos. 

Fonte: Site “Land, Sea and Sky”. Capítulo 16, “The Sight, Gift of Celtic Seers” por Francine Nicholson. Disponível em: < http://homepage.eircom.net/~shae/chapter16.htm>. Acesso em: 21 jul 2015.      


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