domingo, 24 de abril de 2016

A lenda de Knocksheogowna

A lenda de Knocksheogowna

                Em Tipperary está uma das colinas conformadas mais singulares do mundo. No seu topo, há um cume na forma de uma cônica touca de dormir que você atira descuidadamente sobre sua cabeça quando acorda pela manhã. Lá em cima no topo foi construída uma espécie de cabana, onde a senhora que a construiu e seus amigos costumavam ir durante o verão em festas de prazer, mas isso foi há muito tempo após os dias das fadas, e a cabana está hoje, acredito, abandonada.


                Mas antes da cabana ser construída ou a terra ser semeada, existia perto do topo dessa colina uma grande pastagem, onde um pastor passava seus dias e noites entre o rebanho. O local havia sido um antigo solo das fadas, e o bom povo estava furioso pelo cenário de suas luzes e cambalhotas aéreas sendo esmagado pelos rudes cascos de touros e vacas. O mugido do gado soava triste para seus ouvidos, e a chefa das fadas daquela colina determinou que ela mesma expulsaria os novos visitantes, e pensou da seguinte forma. Quando as noites da colheita chegassem, a lua brilharia clara e cintilante sobre a colina e o gado estaria deitado calado e quieto, e o pastor, enrolado em seu manto, estaria refletindo com seu coração alegrado pela gloriosa companhia de estrelas cintilando acima dele e ela viria e dançaria diante dele – em uma forma, e depois, em outra – mas todas elas formas feias e terríveis de se olhar. Uma hora ela seria um grande cavalo com asas de uma águia e a cauda de um dragão, chiando alto e cuspindo fogo. Logo em seguida ela se transformaria em um homenzinho manco de uma perna, com a cabeça de um touro com uma chama cintilante brincando ao seu redor. Depois então ela seria um grande macaco, com os pés de pato e cauda de peru, mas eu ficaria aqui durante o dia inteiro contando as formas que ela se transformava, e então ela rugiria, relincharia, chiaria, bramiria, uivaria ou silvaria,  e tal rugido, relincho, chiado, bramido, uivo ou silvo jamais foi escutado no mundo e jamais seria. O pobre pastor cobriria seu rosto e pediria a ajuda de todos os santos, mas seria inútil. Como uma lufada de sua respiração ela sopraria para longe seu belo casaco, deixando-o preso firmemente sobre seus olhos, e nenhum santo no céu prestaria a mínima atenção. E para piorar, ele não poderia se mexer e nem fechar seus olhos, mas era obrigado a ficar pelo poder oculto, encarando essas terríveis visões até o cabelo de sua cabeça levantar seu chapéu meio pé¹ acima da coroa de sua cabeça, e seus dentes ficariam pertos de cair devido ao rangido, mas o gado poderia fugir loucamente como se tivesse sido picado por um inseto, e isso duraria até o sol nascer sobre a colina.

                O pobre e cansado gado foi definhando, e a comida não o fazia melhorar, e, além disso, sofria acidentes sem fim. Não tinha uma única noite em que um deles não caísse em um buraco, fosse mutilado ou morto. Alguns tombariam em um rio e se afogariam. Resumindo, aqueles acidentes nunca pareciam ter fim, mas o que piorava ainda mais era que nenhum pastor poderia cuidar do gado durante a noite. Uma visita daquela fada enlouqueceria o coração da pessoa mais valente. O dono daquela terra não sabia o que fazer. Ele ofereceu pagamentos em dobro, em triplo e em quádruplo, mas nenhum homem foi encontrado para enfrentar o terror de ver aquela fada em troca de dinheiro. Ela se regozijou ao ver o sucesso de seu projeto, e continuou com suas armações. Com o gado diminuindo e nenhum homem ousando permanecer naquela terra, as fadas voltaram em grande número, dando cambalhotas tão felizes como antes, embebedando-se de gotas de orvalho das bolotas e espalhando suas festas nos topos de espaçosos cogumelos.

                “O que seria feito?”, o fazendeiro confuso pensou em vão. Ele viu que seu gado estava diminuindo diariamente, seu povo estava aterrorizado e o dia dos alugueis² estava chegando. Não era de se espantar que ele parecia triste, e caminhava lamentosamente pela estrada. Agora, naquela parte do mundo morava um homem de nome Larry Hoolahan, que tocava gaita de foles melhor que qualquer outro gaiteiro em cinquenta paróquias. Larry era um cara andarilho e arrojado, e nada temia. Dê a ele bastante licor e ele desafiará o diabo. Ele enfrentaria um touro louco ou lutaria com uma única mão contra uma feira inteira. Em uma de suas tristes caminhadas, o fazendeiro encontrou-se com ele, e quando Larry perguntou o porquê dele andar de cabeça baixa, ele respondeu contando-lhe todos os seus infortúnios. “Se isso for tudo que te prejudica,” disse Larry, “não se preocupe. Mesmo que as fadas em Knocksheogowna fossem tão numerosas quanto as flores de batata em Eliogurty, eu as enfrentaria. De fato seria uma coisa estranha, se eu, que nunca tive medo de um homem respeitável, virasse as costas para o fedelho de uma fada menor que um polegar.” “Larry”, disse o fazendeiro, “não fale tão corajosamente, pois você não sabe quem está escutando, mas, se você cumprir com sua palavra e cuidar dos meus rebanhos por uma semana no topo da montanha, suas mãos nunca ficarão vazias até o sol ter se deteriorado até brilhar não mais que a chama de uma vela de um ceitil³.

A barganha foi feita e Larry foi até o topo da colina, quando a lua começou a espreitar sobre sua testa. Ele tinha se deliciado na casa do fazendeiro e estava com a aparência viva e forte como o extrato do grão de cevada. Ele se sentou em uma grande pedra debaixo da abertura de uma saliência com suas costas viradas para o vento, e puxou suas gaitas. Ele não tocou por muito tempo até escutar a voz das fadas no vento, como uma lenta melodia. Logo em seguida eles deram uma alta gargalhada e Larry podia escutar claramente um deles dizer, “O que!? Outro homem em cima do anel das fadas? Vá até ele, rainha4, e faça-o se arrepender de sua imprudência”, e eles correram. Larry os sentiu passar pela sua face como se voassem igual um enxame de mosquitos, e olhando rapidamente, ele viu entre ele e a lua um grande gato preto, parado bem em cima das pontas de suas garras, com sua cauda levantada e miando com a voz de um moinho d’água. Logo a seguir o gato foi crescendo em direção ao céu, e, girando sobre sua perna esquerda traseira, rodopiou até cair no chão, no qual agora estava na forma de um salmão, com uma gravata ao redor de seu pescoço e um par de botas novas e altas. “Vai, preciosidade,” disse Larry, “se você dançar, eu toco”, e então ele pegou sua gaita. Ela depois se transformou nisso, naquilo e em outra coisa, mas Larry continuou tocando, e ele sabia bem como fazer. Por fim, ela perdeu sua paciência, assim como as garotas fazem quando você não se importa com suas zombarias, e se transformou então em um bezerro branco como o leite, tal como o creme de Cork, e com os olhos tão meigos como os da garota que amo. Ela veio gentilmente e bajulando, na esperança de desarmá-lo quietamente e depois fazer alguma maldade com ele, mas Larry não seria enganado tão facilmente, pois quando ela chegou perto, ele, derrubando suas gaitas, saltou em suas costas.

Do topo de Knocksheogowna, se você olhar para o oeste, em direção ao grande Atlântico, verá o Shannon, a rainha dos rios, espalhando-se como o mar e correndo em um curso gentil pela nobre cidade de Limerick para se unir ao oceano. Nessa noite o rio brilhava sob a lua e estava lindo olhando a partir da distante colina. Cinquenta barcos deslizavam na doce corrente e o som dos pescadores surgia alegremente na praia. Larry, como já disse antes, pulou nas costas da fada, e ela, alegrou-se pela oportunidade e pulou rapidamente do topo da colina, e livre de amarras, em um salto foi até o Shannon, movendo-se como se estivesse a apenas dez milhas da base da montanha. Isso foi feito em um segundo, e quando ela pousou na distante margem, levantando seus calcanhares, ela jogou Larry na macia turfa. Logo após ser jogado, ele a olhou diretamente em sua face, e coçando sua cabeça, gritou, “Muito bem! Não foi um salto ruim para um bezerro!”

Ela olhou para ele por um momento, e então voltou para sua própria forma. “Laurence,” disse ela, “você é um cara corajoso; voltarás pelo caminho de onde veio?” “É isso que farei,” disse ele, “se você me deixar ir.” Então, ao transformar-se em um bezerro novamente, Larry pulou em suas costas, e em um salto eles estavam novamente no topo de Knocksheogowna. A fada mais uma vez retomou sua forma, e dirigiu-se a ele: “Você me mostrou muita coragem, Laurence,” disse ela, “e por isso, enquanto você cuidar dos rebanhos nessa colina, nunca será perturbado por mim ou pelos meus. Está amanhecendo, vá até o fazendeiro e lhe diga isso, e se tiver algo que eu possa fazer por você, peça-me e você terá.” Ela então desapareceu e manteve sua palavra, nunca visitando a colina durante a vida de Larry, mas ele nunca a perturbou com pedidos. Ele tocou sua gaita e bebeu à custa do fazendeiro, alojou-se no canto de sua chaminé, ocasionalmente vigiando o rebanho. Por fim ele morreu e foi enterrado em um vale verde da agradável Tipperary, mas se as fadas voltaram para a colina de Knocksheogowna após sua morte, é mais do que posso dizer.

*Knocksheogowna significa “A Colina do Bezerro Fada”   

Fonte: CROKER, Thomas Crofton. Fairy Legends and Traditions. 1825. Disponível em: <http://www.sacred-texts.com/neu/celt/flat/flat01.htm>. Acesso em: 24 de abril de 2016.    

Notas de tradução

1. Pé. O pé é uma unidade de medida utilizada nos Estados Unidos, Reino Unido, e com menor frequência, no Canadá. Equivale a aproximadamente 30,5 centímetros. O “meio pé” do texto seria equivalente a aproximadamente 15,25 centímetros.

2. Nas feiras do Lughnassadh, os alugueis eram pagos aos proprietários das terras.

3. Ceitil. O ceitil era uma antiga unidade monetária usada no Reino Unido, equivalendo a um quarto de centavo.

4. A rainha das fadas de Knocksheogowna que aparece aqui e que aparecerá novamente como uma transmorfa, é a deusa Úna, a quem dá o nome à colina. Ela também aparece em “A Lenda de Knockmany” (com uma grafia diferente de seu nome, “Oonagh”), onde aparece como esposa do guerreiro Finn, protegendo-o do herói Cuchulainn.   
           


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