domingo, 14 de fevereiro de 2016

A deusa Morrígan



MORRÍGAN
Deusa da guerra, da morte e da destruição

A Morrígan. (Autoria desconhecida)
“Aqui, ali e ao nosso redor estão muitas pilhagens sangrentas; horríveis são as enormes entranhas que Morrígan lava. Ela veio até nós, uma visita maligna; é ela que nos incita. Muitas são as pilhagens que ela lava, horrível é a odiosa risada que ela dá.”

                Antes de iniciarmos este capítulo, preciso dizer que este não descreverá somente essa deusa tão difundida e adorada dentro do Politeísmo gaélico, mas sim suas outras “irmãs” – ou pelo menos, “companheiras de batalha”. Em todos os casos, estas deusas possuem características semelhantes: às vezes aparece juntas uma com a outra e dividem um único título comum a todas, o de deusa da guerra. Elas são Badb, Nemain e Fea. Macha não foi colocada aqui propositalmente, pois a extensa e vasta literatura a cerca dessa deusa requer um capítulo a parte para ela que será mais abordado em outra ocasião (mas ela também será citada aqui por via de comparação), o que, no entanto, é o contrário de Nemain e Fea, que possuem pouco material disponível que as descrevam, apenas um ou outro verbete em dicionários antigos e menções aqui ou ali nos textos mitológicos, além é claro, de ter uma semelhança com a Morrígan que as tornam associada à ela, como já explicado.


                Morrígan (pronuncia-se móriguen ou móregan), alternativamente conhecida como Morrigu, é uma deusa que causa tanto medo como admiração. De uma forma bastante simples, normalmente ela é definida como a “deusa da batalha”, associada à morte e matança, mas além destes aspectos, ela possui muitos outros que serão abordados ao longo desse texto. Pertencendo a raça dos Tuatha Dé Danann, ela é a deusa que causa a guerra e a batalha, ela vai à vanguarda das tropas aniquilando o exército inimigo, ela exalta os guerreiros, zomba deles para incitá-los, e junto com suas irmãs Badb e Macha, promovem nada mais que a destruição e carnificina, seja por meios físicos ou por feitiçaria.

                O significado de seu nome é motivo de debate para muitos estudiosos. Um de seus possíveis significados pode ser “Rainha dos Fantasmas”, originando-se a partir de rígan, “rainha” e mar. Outros estudiosos, no entanto, argumentam que a tradução para seu nome seria “Rainha dos Mortos” ou “Rainha da Morte”, de mor derivando-se da palavra indo europeia *mor-o-s, “morte”. Por último, e um pouco contestado, é traduzido como “Grande Rainha”, devido à uma etimologia popular, porém incorreta, do prefixo mor originando-se de mór, “grande”. Essa última tradução é infundada pelo fato de que, por motivos linguísticos, o prefixo nunca se desenvolveria na palavra atual. Muitos são os seus títulos, que incluem “Rainha Severa” e “Sagaz Senhora-Corvo”. Em uma passagem onde ela aparece como a Lavadeira dos Rios (como veremos mais abaixo), ela se apresenta como Brónach, que significa “A Infeliz”.

                O primeiro atributo dessa deusa que estudaremos é sua associação com a batalha. De fato, Morrígan possui alguns atributos que alguns estudiosos considerariam ser de divindades ligadas à guerra: gritos terríveis, incitação de guerreiros, ataque (físico ou mágico), proclamação de vitória, dentre outros. Todos os textos mitológicos que ilustram Morrígan mostram sua ligação com a guerra e com a batalha, sendo os exemplos mais clássicos as duas batalhas de Moytura. Na Primeira Batalha, ela vai junto com outros deuses na vanguarda das tropas para aniquilar o inimigo, e na Segunda Batalha, quando Lugh pergunta à ela qual poder ela exerceria, sua resposta incluía nada além de matança, e quando a Segunda Batalha acaba, ela proclama a vitória para toda a tropa (ela também pode ser entendida como a deusa que traz a vitória, como sugere um poema no Livro de Leinster). Ela incita os guerreiros em ambas as batalhas, e dando gritos terríveis e medonhos com suas irmãs e companheiras (Badb, Macha, Nemain e Fea), matam (literalmente!) de medo centenas de guerreiros em outras histórias. Esses gritos apavorantes também eram armas de terror usadas nas guerras dos celtas continentais, e de fato, o terrível grito é uma ação típica de Morrígan, o que normalmente ela realiza na noite anterior a batalha (assim como Nemain), como uma forma de amedrontar os soldados, não deixando que durmam, e em outros casos, matando-os de medo, conforme já mencionado. Junto com Badb e Macha, ela também é descrita como a “origem de uma luta implacável”.

                Ainda sobre o mito da Segunda Batalha de Moytura, há uma passagem curiosa envolvendo Morrígan e Dagda. Nas vésperas da Batalha, o Dagda vai ao encontro de Morrígan para deitar-se com ela. Essa passagem levou alguns estudiosos a crerem que Morrígan possui certa ligação com a fertilidade, no entanto, outros acreditam que essa união sexual tem o único objetivo a troca de informações sobre a batalha (Morrígan conta ao Dagda onde os fomorianos irão desembarcar e seus planos) e promover, ao invés da “fertilidade” (resultante daquela união sexual), o sucesso da batalha. O resultado dessa união não é a progenitura, e sim o derramamento de sangue, e o local onde eles tiveram essa união é ao mesmo tempo conhecido como “Cama do Casal” e “Vau da Destruição” – essa passagem nos mostra claramente o sexo e a carnificina estando intrinsecamente relacionados (no entanto, outras fontes parecem indicar que o local da união foi o Brug na Boinne). Alguns podem imaginar que ela possui alguma ligação com a fertilidade, e de fato, uma dupla de montanhas conhecidas como Da Chich na Morrígna ou “As duas tetas de Morrígna” (é conhecida também como Da Chich Anu, “As duas tetas de Anu”, e de fato, Morrígan é conhecida como Anu em algumas fontes) podem sugerir uma função reprodutiva associada à essa deusa, e ela também possui uma forte associação com o gado que pode liga-la à fertilidade e prosperidade por motivos óbvios – a riqueza de um fazendeiro poderia ser contado pelo número do seu gado. No entanto, em todos os casos que mencionam ela e o gado, a ligação entre eles é de roubo: no épico O Roubo do Gado de Cualnge (que relata uma grande guerra devido a um roubo de gado), ela rouba um touro de Cruachan, e esse ato mais tarde culminaria nesse grande épico. Em outra ocasião, ela aparece para o Donn Cualnge (um dos dois touros que são o motivo da guerra), e o alerta sobre a possível batalha que aconteceria por sua causa, incitando-o ao combate. Em ambos os casos, suas maquinações promovem a batalha, uma façanha adequada para ela – se ela é uma deusa da guerra, nada mais justificável que seja ela a começar uma. Podemos então concluir que sua relação com o gado e o sexo não tornam ela uma deusa da fertilidade, e sim a deusa da destruição, e sua união não promove a vida, mas a morte.

                Como deusa da guerra, imagina-se também ela tenha alguma relação com os guerreiros, seus feitos e sua fama. Alguns estudiosos sugerem que Morrígan poderia agir também como uma deusa “padroeira” ou “promovedora” de heróis, e disseminadora de seus feitos e fama. De fato, essa teoria não é ao todo infundada quando percebemos que a guerra é a oportunidade que guerreiros e heróis têm de mostrarem o quão forte e corajoso são, de realizarem feitos heroicos e morrerem de forma gloriosa protegendo e lutando por aquilo que eles acreditavam. Morrígan promoveu a guerra do Roubo do Gado de Cualnge através de suas maquinações: primeiro, sequestrando o touro de Cruachan e mais tarde, incitando o touro Donn Cualnge a lutar; e por falar em incitação, essa é outra de sua característica como já foi abordada anteriormente. Vale destacar que nessa mesma história, Morrígan incita ambas as tropas de guerreiros (os homens de Ulster e os homens da Irlanda, que estão em confronto), zombando de ambos os exércitos para instiga-los à batalha. Formando a tríade (com Nemain e Macha) que vou chamar de “Deusas corvo”, Morrígan incita os guerreiros a realizarem atos heroicos e louváveis, enquanto Nemain espalha a loucura para confundir suas vítimas e Macha festeja nos corpos dos mortos, formando assim o terrível cenário do campo de batalha. Em muitas de suas profecias (como veremos adiante), Morrígan usa a poesia para realiza-las, e como alguns estudiosos apontam, ela também tem uma ligação com a poesia, o que é razoável associá-la com isto, já que os poetas eram os responsáveis por disseminar os atos beligerantes e feitos heroicos de guerreiros durante a época de guerras – sendo assim, é justificável que ela use a poesia como um meio de espalhar a fama dos guerreiros nas batalhas que ela mesma criou, comprovando então sua função como a deusa que espalha a fama dos guerreiros.

                Outro atributo conhecido de Morrígan é sua relação com a feitiçaria. O primeiro mito que comprova essa sua associação é a Primeira Batalha de Moytura, onde ela vai com duas de suas irmãs – Badb e Macha – até o acampamento dos Fír Bolg, e através de sua feitiçaria, faz chover fogo e sangue sobre eles durante três dias e três noites, quando são então impedidas pelos feiticeiros dos Fir Bolg. Ela também é descrita tendo as feiticeiras Bé Chuille e Diannan como suas madrinhas, pode-se imaginar então que, como tendo madrinhas feiticeiras, Morrígan possa ter supostamente aprendido sua arte com elas. Junto com Badb, Macha, Bé Chuille, Diannan, Nemain e Étaín, elas são conhecidas como as deusas feiticeiras dos Tuatha Dé Danann. Em um poema do Livro das Invasões, Morrígan recebe o título de “fonte dos encantamentos”. Através de sua feitiçaria, ela transforma a donzela Odras em um rio, quando ela entra em Cruachan para recuperar o touro que a Morrígan roubou. É interessante destacar que em algumas literaturas, Morrígan é descrita como uma deusa “que muda de formas”, é uma transmorfa, capaz de assumir diferentes formas humanas e animais; sendo assim, se no imaginário gaélico a feitiçaria e o transmorfismo tiver alguma relação, esta se torna mais uma evidência de que no passado essa deusa tenha associações com a feitiçaria.  Vale a pena dizer também que, em todos os episódios que relaciona a Morrígan com a feitiçaria, sua magia aparece na forma mais destrutiva possível; sendo assim, é justificável dizer que sua feitiçaria tem o único intento de promover a ruína e a devastação.

                O terceiro atributo da deusa corvo é a profecia. Comparado com um dos atributos de sua irmã Badb, que é a profecia de forma mais explícita, a “profecia” que aqui é associada com Morrígan é pouco contestado pelos estudiosos, isto é, em todos os casos em que ela supostamente esteja fazendo uma “profecia”, pode ser que ela esteja simplesmente incitando, zombando ou alertando o guerreiro/personagem, ou ainda, simplesmente dizendo algo sobre o qual ela tem o conhecimento. Sendo em todos os casos associados à assuntos de batalha ou morte, Morrígan realiza profecias em muitas histórias, algumas de forma explícita, e outras não. Na Segunda Batalha de Moytura, após sua união com o Dagda, ela diz à ele onde os fomorianos iriam desembarcar, quais seriam seus planos de guerra e que mataria Indech, rei dos fomorianos, e daria dois terços do sangue de seus testículos para o povo que estariam esperando por ela. O fato de Morrígan saber onde os fomorianos desembarcariam, levou alguns estudiosos a acreditarem que esta era uma profecia que estava sendo feita por ela, assim como estava pressagiando a morte de Indech. Durante o Roubo do Gado de Cualnge, ela aparece para o Donn Cualnge para pressagiar a batalha que aconteceria. Ao encontrar-se pela primeira vez com o herói Cuchulainn (o guerreiro principal que luta no Roubo do Gado de Cualnge), ela oferece a ele o mesmo que ofereceu ao Dagda em troca de favores sexuais – informação e conhecimento da batalha (ou até mesmo a garantia de vitória, já que vimos que ela também era conhecida como uma deusa que concede vitórias), sejam por profecia ou simplesmente por conhecimento bélico, o que é justificável para uma deusa da guerra. Após Cuchulainn rejeitar sua ajuda (e consequentemente, sua “amizade das coxas”, ou sexo), a relação de Morrígan com o guerreiro se torna extremamente negativa, e em seguida, ela profetiza que o atacaria através de três formas diferentes: na forma de uma enguia, de uma loba e de uma vaca. Ela também aparece no acampamento das tropas durante o Roubo do Gado de Cualnge, pressagiando (ou mesmo os incitando?) que seu sangue correria e que eles não seriam capazes de lutar a guerra que viria. Ela também pressagia a morte de Cuchulainn, o que nos faz lembrar um personagem bastante conhecido também no folclore irlandês, que é a Lavadeira dos Rios.

                A Lavadeira dos Rios, que se acredita ser uma característica ou uma faceta de Morrígan, é uma criatura sobrenatural que aparece diante de um rio ou lago lavando as peças de roupa ou armaduras ensanguentadas (em alguns casos, até mesmo partes do corpo) de um guerreiro que está fadado a morrer. A Lavadeira dos Rios é um personagem que aparece desde os contos mitológicos até os relatos folclóricos e orais dos irlandeses. Ela é descrita tanto como uma linda donzela como uma velha feia. Normalmente, a Lavadeira dos Rios aparece na forma de Morrígan ou Badb (como veremos mais adiante); Morrígan assume essa face no poema mitológico citado no início do texto, quando aparece para Fothad lavando as pilhagens e entranhas sangrentas. Presságios de morte também nos faz lembrar outra criatura folclórica encontrada nas terras gaélicas: a banshee (de bean sí, “mulher dos síd”), uma personagem que normalmente está vinculada à uma família famosa, aparecendo quando alguém desta mesma família morrerá, pressagiando sua morte através de choros. Se ela possui ou não alguma ligação com a Morrígan, é improvável dizer, apesar de ser bastante curiosa a similaridade entre essas três personagens.

                Seu último e menos conhecido papel é o de psicopompo, ou seja, a deusa que guia/leva a alma dos guerreiros mortos através do corvo e a gralha-preta, animais incontestavelmente associado a ela, e de fato, em muitos mitos ela aparece na forma de um corvo. A primeira evidência que pode comprovar essa teoria é através da arqueologia: sabe-se que os irlandeses durante a Idade do Bronze tinha um curioso rito fúnebre que era conhecido como “enterro de céu”, onde o corpo era deixado a céu aberto para que sua carne fosse consumida pelos pássaros, e após restarem apenas os ossos, estes eram levados para outro lugar, seja para um túmulo propriamente dito ou enterrado perto da casa do morto. Se formos considerar a situação de um campo de batalha após uma guerra, com a centena de guerreiros mortos, os corvos se reúnem para alimentar-se da carne desses guerreiros, e assim, podemos imaginar que os corvos ou outras aves, ao alimentar-se dessa carne, levam também sua alma. Sendo assim, ao comer a carne de Cuchulainn na forma de um corvo após sua morte, Morrígan na verdade estaria levando sua alma para o outro mundo. Apesar dessas evidências que define Morrígan (ou talvez outras “deusas corvos”) como um psicopompo serem bastante indiretas, como sugerem alguns estudiosos, é tentador compará-la com as valquírias da mitologia nórdica.

                Conforme já foi citado em algumas partes do texto, Morrígan tem uma relação bastante estreita com suas irmãs Badb e Macha e duas outras deusas que possuem uma semelhança muito grande com ela, Nemain e Fea, que chamo aqui de “companheiras de batalha”. Existem muitas dúvidas e confusões entre alguns estudiosos sobre os títulos que essas deusas recebem, o que nos confunde e pode nos levar a acreditar que todas essas deusas são facetas de uma única divindade, Morrígan; no entanto, assim como outros estudiosos, estou inclinado a acreditar que essas deusas são personalidades diferentes que possuem atributos similares. A primeira origem dessa confusão é o título de Morrígna (note que é diferente de Morrígan), que é dado à três deusas: Badb, Macha e a própria Morrígan. Esse título é usado para designar essas três divindades que são conhecidas como “as três Morrígna” em algumas literaturas, fazendo então a pessoa acreditar que de fato pode ser apenas uma única deusa com facetas diferentes. Outra confusão também é em relação à deusa Badb, irmã de Morrígan. Seu nome ora é usado para designar tal deusa como uma personalidade própria, ora para designar todo esse grupo de deusas, onde todas são chamadas de badb. Se são ou não deusas iguais, acredito que sejam deusas diferentes, e que badb, que significa literalmente “corvo” (como em badb-catha, “corvo de batalha”), seja meramente um título para designar tais deusas, o que seria razoavelmente aceitável, já que todas elas possuem ligação com esse animal, como já expliquei, além de ser um nome também para uma deusa individual, Badb. Os mitos relacionados à essas deusas e suas aparições na mitologia comprovam essa teoria, onde todas elas aparecem como personalidades individuais; contudo, a interpretação e a conclusão fica com o leitor.

                Morrígan aparece pouco no Ciclo mitológico, tendo menções junto com outras “deusas corvo” nas duas batalhas de Moytura, mas é no Ciclo de Ulster, em especial no Roubo do Gado de Cualnge, que vemos a proeminência dessa deusa, além de outros poemas dos dindshenchas que encontramos referências a ela também. Sua primeira aparição no Ciclo de Ulster acontece em uma história precedente, um prelúdio, ao Roubo do Gado de Cualnge (ou, Táin Bó Cualnge), conhecida como Táin Bó Regamna (ou, O Roubo do Gado de Regamna). É nessa história que ela se apresenta pela primeira vez para Cúchulainn (o herói irlandês e o principal guerreiro da saga do Táin Bó Cualnge), e o encontro acontece da seguinte forma: Cuchulainn acorda uma noite com um grito terrível e apavorante vindo do norte, e então, segue na direção do grito com seu cocheiro Laeg e sua esposa. Chegando até a origem do grito, ele vê uma biga puxada por um cavalo vermelho com uma única pata, e a carruagem era ligada ao cavalo através de um pau que atravessava seu corpo, chegando até o rosto do animal. Na biga, ele vê uma mulher ruiva com um manto vermelho, e na conduzindo a biga, um cocheiro ruivo segurando uma vara bifurcada de aveleira, conduzindo uma vaca em sua frente. Como todo o gado da região de Ulster estava sob o cuidado de Cuchulainn, eles começam a discutir pela posse da vaca que carregavam, mas a mulher até então desconhecida diz que a vaca não pertence à região. Cuchulainn salta sobre os ombros da mulher e a ameaça com sua lança, e ela diz que é uma satirista e que ganhou a vaca como o prêmio de um poema. Cuchulainn novamente vai para atacar a mulher, mas tudo desaparece e ela se transforma em um pássaro negro (um corvo, provavelmente). Ao perceber que ela não era uma mulher comum, e sim a Morrígan, ele se arrepende dizendo que se soubesse quem era ela, não teriam chegado nesse ponto, mas ela diz que o que ele fez traria desgraça para ele e então diz que “estava guardando sua morte” e que continuaria fazendo isso (essa passagem é motivo de debate para alguns estudiosos, que não sabem o verdadeiro significado). Ela então revela suas verdadeiras intensões: ela trouxe a vaca do monte encantando de Cruachan para que pudesse copular com o Touro (ou Boi?) Negro de Cualnge, e que o bezerro dessa união seria o motivo do Roubo do Gado de Cualnge. Cuchulainn então diz que essa guerra traria muita fama à ele, mas Morrígan diz que quando ele lutasse com um homem que fosse igual à ele, ela o atacaria na forma de uma enguia enroscando-se em seu pé, mas ele responde que ele a quebraria contra uma rocha, ela então diz que depois o atacaria na forma de uma loba cinza, e ele novamente responde que arrancaria seu olho direito ou esquerdo, e por último, ela o atacaria na forma de uma bezerra branca com orelhas vermelhas, e ele responde que quebraria sua pata da frente ou de trás. Em todos os casos, Cuchulainn diz que ela não se recuperaria desses ferimentos a menos que ele a curasse. No término da discussão, Cuchulainn volta para casa e Morrígan segue para Cruachan com sua vaca.

                No texto do Táin Bó Cualnge (Roubo do Gado de Cualnge), temos um capítulo que descreve uma conversa que Morrígan tem com Cuchulainn, que mostra provavelmente uma versão diferente da mesma história contada acima, com a mesma fórmula: ela oferecendo sua ajuda para Cuchulainn, e ele recusando. Nesse caso, no entanto, ela lhe oferece ajuda em troca de favores sexuais. Cúchulainn vê se aproximando dele uma mulher muito bonita vestindo uma roupa de muitas cores, que se apresenta como “a filha do rei Búan”, e diz que havia ido até lá, pois tinha se apaixonado por ele quando ouviu seus feitos, e lhe oferece então seu tesouro e seu gado. Cuchulainn recusa sua oferta e diz que não está na batalha “pela bunda de uma mulher”. Ao recusar sua ajuda, Morrígan lhe faz a mesma ameaça citada acima, e no final da briga, ela vai embora. Mais tarde, Cuchulainn mata Long, o irmão de Loch, que então busca vingança pela morte de seu irmão. Eles então vão até um rio, e quando começam a briga, Morrígan na forma de uma enguia se enrosca em três voltas em sua perna, fazendo-o cair e tomar um golpe de Loch. Cuchulainn se levanta e golpeia a enguia, quebrando suas costelas. Morrígan insiste e então o ataca na forma de uma loba, e Cuchulainn então arremessa uma pedra em um de seus olhos, cegando-a. Por último, Morrígan o ataca na forma de uma bezerra, e novamente Cuchulainn lança uma pedra em suas patas, quebrando-a. Ele então vence a Morrígan das três formas como havia sido profetizado em seu encontro anterior com ela, e por último, mata Loch com sua lendária espada, Gae Bolga.

                No próximo capítulo da saga, Cuchulainn encontra Morrígan disfarçada de uma velha com um olho cego, ordenhando uma vaca de três tetas. Ele a pede uma bebida, e ela lhe dá o leite de uma das tetas. Ele agradece e a abençoa com uma cura, fazendo primeiro com que sua cabeça fosse curada. Ele ganha então outra bebida, e a abençoa pela segunda vez, fazendo com que seu olho ficasse sadio novamente. E ao ganhar a bebida pela terceira vez, ele a abençoa pela última vez, fazendo com que sua perna fosse curada. Morrígan, até então disfarçada, diz que ele havia lhe dito que não se curaria a menos que ele a abençoasse. Ele então reconhece Morrígan e disse que nunca teria lhe curado se soubesse que era ela. Em um outro episódio, Morrígan também aparece para o Donn Cualnge, que pastava com seus cinquenta filhotes. Ela vai até ele na forma de um corvo e pousa em um pilar de pedra, e o avisa que os homens da Irlanda estariam indo para leva-lo, pois em uma disputa de posses entre a rainha Medb e seu marido Ailill, Medb pediu emprestado por um ano Donn Cualnge, um boi (ou touro?) que seria o equivalente ao boi Finnbhennach de seu marido Ailill. Ela obtém então a posse do boi por um ano através de um trato com seu dono, mas seus soldados se embriagam e diz que os planos da rainha Medb era roubar o boi a força se não o emprestassem para ela. O acordo então é quebrado e ela reúne um exército para roubar o boi Donn Cualnge.

                A deusa Morrígan também aparece no conto conhecido como Aided Conculaind (ou, “A morte de Cuchulainn”). No dia em que Cuchulainn vai para sua última batalha, ele recebe muitos avisos de que não deveria ir, pois seria a última luta de sua vida. O primeiro sinal acontece quando ele vai vestir seu manto e o broche cai, perfurando seu pé. Quando ele vai para arrear seu cavalo, Liath Macha (“Cinza de Macha”), ela recusa a ser arreada três vezes, e na noite anterior, Morrígan destrói a biga de Cuchulainn para que ele não pudesse ir. Liath Macha chora lágrimas de sangue, mas Cuchulainn mesmo assim monta em sua biga e vai até o seu destino. No caminho, ele encontra três velhas cegas do olho esquerdo (que provavelmente podem ser Morrígan disfarçada), assando carne de cachorro em um espeto de sorveira. As velhas oferecem a carne de cachorro para ele, mas o herói recusa pois era proibido que ele comesse a carne do animal cujo nome ele levava (Cuchulainn vem de Cu Culainn, “O Cão de Culann”). Após instigação e zombaria, ele aceita a carne e come. Ao chegar até seus inimigos, ele luta e mata todos eles, mas no final, é surpreendido por Lugaid, que arremessa uma lança em sua barriga. Ele pede para ir até o rio para beber água, pois está sedento, e após matar sua sede, ele vai até um pilar de pedra e se amarra com seu cinturão contra a pedra, para que não morresse sentado ou deitado, e sim de pé. Naquela rocha então, Cuchulainn morre, e nenhum homem da Irlanda ousou se aproximar para verificar se ele realmente estava morto, pois todos pensavam que ele estava vivo, parado de pé contra aquela rocha. Morrígan então aparece na forma de um corvo, e para em cima da rocha, comendo então a sua carne, e assim, todos sabiam que ele havia morrido.

                Morrígan teve um filho monstruoso chamado Mechi, que nasceu com três corações em formato da cabeça de uma cobra. Mac Cecht (ou em outros casos, Diancecht), mata a criança pois se ele vivesse, as cobras se desenvolveriam e poderia matar toda forma de vida na Irlanda. Após matar, Mac Cecht queima seus corações e joga as cinzas em Berba (atual Rio Barrow), e ao fazer isso, o rio ferveu e matou todos os seus peixes. Em uma outra história, Morrígan vem para roubar o touro (boi?) Sleman que pertencia a Odras e Buchat, um senhor do gado, para copular com sua vaca. A esposa de Buchat, Odras, vai então até o Sid Cruachan atrás de Morrígan para recuperar o touro. Chegando lá, o sono se abateu sobre ela e, através de encantamentos, Morrígan a transformou no Rio Odras. Como já foi explicado, a associação de Morrígan com o gado está sempre relacionado com o roubo, e existe um conto de uma menina chamada Brega que amava muito um boi chamado Falga, pois eles haviam nascido na mesma hora. O druida Tulchain queria levar Brega até Mag mBrega, mas ela sempre estava relutante para ir. Um dia, Tulchain orou para Morrígan, e ela fez com que ele pudesse roubar o boi, e assim, atraindo Brega para o lugar, que ganhou seu nome por causa dela.

                Morrígan é descrita como sendo a filha de Delbaeth e Ernmas, que foi morta na Primeira Batalha de Moytura. Ela possui cinco irmãs: Badb, Macha, Ériu, Banba e Fotla, e dois irmãos, Fiachna e Ollom. Em alguns textos, Morrígan aparece como Anand, ou Anu, nomeando duas montanhas em forma de seios conhecidas como Da Chich Anann, “As duas tetas de Anann”, ou Da Chich Morrígan, “As duas tetas de Morrígan”, e em algumas histórias, ela aparece como a esposa de Dagda, e possui um filho chamado Mechi, que morreu por Diancecht (ou Mac Cecht) para que as serpentes que nasceram dentro dele não exterminassem a vida na Irlanda. Em algumas versões, através de incesto com seu próprio pai, ela dá a luz à Brian, Iucharba e Iuchar.

                Morrígan pode ter sido associada com o espinheiro-branco, cujo correspondente em Ogham é Uáth, que significa “terror” ou “medo”, duas palavras-chave que intuitivamente associamos a essa deusa. Existem menções à sorveira, cujo correspondente em Ogham é Luis, em algumas passagens envolvendo a Morrígan, como quando Cuchulainn encontra três velhas cozinhando carne de cachorro em um espeto de sorveira; além disso, ela tem relações com locais conhecidos como fullacht-na-morrigan, que se acredita ser áreas destinadas ao preparo e cozimento de carnes, e as madeiras usadas para os espetos desse lugar eram sempre de sorveira. As cores preto e vermelho me parecem associadas à ela, já que o preto é a cor dos corvos e gralhas-negras, animais associados à ela, e o vermelho, que nos remete ao derramamento de sangue nas batalhas. Seus animais sagrados são os corvos, gralhas-negras, lobos, vacas, enguias e bezerros. Como uma deusa belicosa, pode ser também que os cavalos tenham relação com ela. Seus lugares sagrados são a planície de Muirthemne, onde foi lutada a batalha de Moytura, os rios Unshin (onde ela se encontrou com o Dagda), Barrow e Odras, Da Chich Morrígan (as duas montanhas em formato de seios), localizada em Luachair, e Cruachan (sua morada mágica). No Condado de Louth, existe um bairro conhecido como Gort-na-Morrigan, ou “Campo de Morrígan”, que se acredita ter sido dado à ela pelo Dagda. No Brug na Boinne, existe uma colina chamada Mur na Morrigan (“monte de Morrígan”), e dois montes conhecidos como Cirr e Cuirrel, que significam respectivamente “pente” e “escova”. Em um contexto moderno, podemos associa-las aos campos de batalha e rios em geral (pois ela aparece também como a Lavadeira), e como possue relações com a morte, cemitérios e túmulos de heróis e guerreiros famosos. Hoje, podemos oferecer a ela miniaturas ou réplicas de lanças, escudos, espadas ou qualquer tipo de arma, visto que ela é uma deusa da guerra. Atividades marciais também podem ser feitas para homenageá-la, assim como poesias proféticas ou referentes à batalhas e guerras famosas, escritas ou não por você. Penas de corvo e ramos de sorveira e espinheiro branco me parecem razoáveis para ela, e já ouvi falar de pessoas que oferecem algumas gotas de seu sangue para ela. A carne de animais, prescrita como oferenda pela Creideamh-sí também me parece aceitável.

                Ela fez sexo com o Dagda durante a época do Samhain, então essa é uma data para homenageá-la. O Samhain é o festival onde se acreditava que o espírito dos mortos juntava-se aos vivos, logo é justificável que o festival tenha associações com ela, visto que é uma deusa sempre relacionada à morte e presságios de morte. A guerra hoje possui um significado diferente do que possuía no passado nas terras gaélicas (quase sempre associada aos roubos de gado), e a grande maioria de nós até mesmo nunca presenciou ou viveu durante uma. Sendo assim, ela pode ser chamada em assuntos que envolvam força e perseverança diante de situações difíceis na vida. Ela é chamada quando se precisa de motivação e força de vontade para esses casos, e não deixar-se ser esmagado pelo peso dessas situações – ela nos incita, ela nos convoca para a batalha da vida. Sanguinária e ameaçadora, ela é a deusa que traz a proclama a vitória para seu povo, e através de seus gritos medonhos, feitiçaria imbatível e luta implacável, ela amedronta nossos inimigos e protege sua tribo.

Resumo

Nomes e títulos: Morrígan (“Rainha dos Fantasmas”, “Rainha dos Mortos” ou “Rainha da Morte”), Morrígu, Corvo de Batalha, Rainha Severa Sagaz Senhora-Corvo, Lavadeira do Rio, Brónach (“Infeliz”), Anann e Anu. 

Parentescos e linhagem divina: Filha de Delbaeth e Ernmas, irmã de Badb, Macha, Fodla, Ériu, Banba, Fiachna e Ollom. Mãe de Mechi, de pai desconhecido, e Brian, Iuchar e Iucharba, com quem teve com seu próprio pai através de incesto.

Características físicas e temperamento: Em alguns mitos, é descrita como uma mulher ruiva, frequentemente usando roupas vermelhas, ou em outros casos, usando roupas coloridas. Ela é uma deusa transmorfa, ou seja, pode se transformar em qualquer coisa que deseja, e muitas vezes ela aparece na forma de uma mulher velha ou na forma de um corvo. Ela também pode se transformar em uma bezerra branca com orelhas vermelhas, em uma loba cinza e uma enguia. Tem um grande apetite sexual, frequentemente oferecendo sua “amizade das coxas” (metáfora para o sexo) para os homens. Acredita-se que tenha um porte gigantesco, como as montanhas conhecidas como seus dois seios sugerem, e em uma ocasião, ela é descrita com nove tranças sobre seu cabelo. Como deusa da guerra, ela é conhecida por zombar os guerreiros para instiga-los a batalha, e seus atos frequentemente causam guerra, tumulto e destruição. 

Atributos: É principalmente a deusa da guerra, mas também está associada com a feitiçaria, profecia, carnificina, destruição, morte e matança. Como promovedora e patrona de guerreiros, ela cria as batalhas para que estes realizem façanhas heroicas e atos notáveis. É associada com a poesia, pois é por intermédio dos poetas que a fama dos heróis e guerreiros é espalhada. Ela também é a deusa encarregada de transportar a alma dos guerreiros mortos para o outro mundo, ao comer a carne deles na forma de um corvo.  

Contos e histórias: Ela aparece na primeira e na segunda Batalha de Moytura, onde realiza atos de matança e feitiçaria, junto com suas irmãs Badb e Macha. Seu papel mais proeminente, no entanto, está no Táin Bó Cualnge, onde primeiro ela aparece para Cuchulainn oferecendo sua “ajuda”, mas quando o herói a rejeita, ela o persegue na forma de uma enguia, loba e bezerra, atacando-o todas as vezes, e em todas as vezes, ela sai ferida. Posteriormente, ela aparece para Cuchulainn na forma de uma velha ordenhando uma vaca, e é curada de seus feridas que somente o guerreiro poderia curar. Ainda mais tarde, ela é uma das causas da morte do guerreiro por fazê-lo comer a carne de cachorro, que era um tabu para ele. No último dia de vida de Cúchulainn, Morrígan aparece para quebrar sua carruagem a fim de impedir que ele fosse para a guerra, e quando ele morre, ela pousa sobre o pilar de pedra onde ele morreu e come sua carne, assim, transportando sua alma para o outro mundo. Ela também aparece ajudando o druida Tulchain a roubar um boi, e também rouba o boi de Odras, transformando a mulher posteriormente em um rio.    

Cores: Intuitivamente, podemos associá-la ao preto, que é a cor dos corvos – seu animal sagrado – e ao vermelho, representando o sangue que é derramado nas batalhas, além de ser uma cor frequentemente associada à ela nos mitos.

Árvores e plantas: O espinheiro-branco e a sorveira, provavelmente.

Animais: O corvo, principalmente, e a gralha-preta. Além desses, encontramos ela sendo associada (e se transformando) em uma enguia, loba e bezerra branca com orelhas vermelhas. Pode ser que o gado também tenha alguma relação com ela, embora em uma interpretação mais profunda, vemos que a única função do gado para essa deusa é promover guerra e discórdia.

Lugares: A planície de Muirthemne, onde foi lutada a batalha de Moytura, os rios Unshin (onde ela se encontrou com o Dagda), Barrow e Odras, Da Chich Morrígan (as duas montanhas em formato de seios), localizada em Luachair, e Cruachan (sua morada mágica). No Condado de Louth, existe um bairro conhecido como Gort-na-Morrigan, ou “Campo de Morrígan”, que se acredita ter sido dado à ela pelo Dagda. No Brug na Boinne, existe uma colina chamada Mur na Morrigan (“monte de Morrígan”), e dois montes conhecidos como Cirr e Cuirrel, que significam respectivamente “pente” e “escova”. Hoje, podemos associá-la aos campos de batalha, cemitérios e rios em geral (pois são nos rios que ela aparece como a Lavadeira).

Instrumentos e armas: Como deusa da guerra, espadas, lanças e escudos são podem ser razoavelmente associados com ela. Além destes e do ataque físico propriamente dito, a feitiçaria e seus gritos de terror também são uma arma.

Símbolos: Nenhum que se saiba, mas muitos devotos hoje usam o corvo para representa-la, e realmente, o corvo é visto como um símbolo dessa deusa. Armas de guerra também podem ser usadas como seus símbolos.

Festivais: Ela faz sexo com o Dagda na época do Samhain, então, parece razoável honrá-la durante esse festival, que também representa a morte e os mortos.

Oferendas: Através de minhas gnoses, penso que podemos oferecer a ela miniaturas ou réplicas de lanças, escudos, espadas ou qualquer tipo de arma. Atividades marciais também podem ser feitas para homenageá-la, assim como poesias proféticas ou referentes à batalhas e guerras famosas, escritas ou não por você. Penas de corvo e ramos de sorveira e espinheiro branco, algumas gotas do seu sangue e carne de animais.

Material devocional: Música “Morrígan” do Omnia, Música “Morrígan” do Damh the Bard, Oração para Morrígan I, Oração para Morrígan II e Invocação à Morrígan.

BADB
Deusa da guerra, dos corvos e da profecia

                A deusa Badb (pronuncia-se báv ou báib) é a irmã de Morrígan e descrita como uma das três morrígna, junto com Macha e Morrígan. Sua personalidade como uma deusa individual é motivo de debate para alguns estudiosos, que oram a veem como uma deusa distinta das outras, ora como um título aplicado para essas outras deusas, e de fato, todas as deusas-corvo recebem o título de badb, que significa literalmente “corvo”. Como já explicado, estou inclinado a acreditar que Badb se refira de fato à uma deusa diferente, embora que com características e atributos similares às de Morrígan, pois em muitos contos e mitos, ela aparece sendo a irmã de Morrígan e Macha, logo, é improvável que o nome seja usado apenas para designar um título ao invés de uma deusa própria. No entanto, existem muitas referências nos contos mitológicos que descrevem um grupo de seres ou entidades conhecido como badba (o plural de Badb, “corvos”) – se está se referindo às deusas da batalha, a alguma classe de espíritos ou aos corvos propriamente ditos, não sabemos.

                Junto com Morrígan e Macha, ela aparece inicialmente na Primeira Batalha de Moytura para fazer chover sangue e fogo sobre a tropa dos Fir Bolg através de sua feitiçaria. As vezes, ela é conhecida como “a vermelha Badb”, provavelmente uma referência ao sangue que é derramado nas guerras, e como um corvo que se alimenta da carne dos guerreiros mortos (ela também é conhecida como bélderg, ou “boca vermelha”), encontramos em algumas poemas que ela fica “agradecida” quando vê um campo de batalha, e assim como a Morrígan, ela se manifesta nas guerras pelo seu grito apavorante que amedronta e mata os soldados; existe uma passagem onde Cuchulainn vê Badb gritando entre os corpos dos guerreiros morto. Ainda, ela também se manifesta como a Lavadeira do Rio, lavando os espólios e armaduras de guerreiros fadados a morrer. Ela aparece na luta de Cuchulainn e Fer Diad, presenciando o combate, e em uma versão da morte do herói, é Badb que voa perto da rocha onde o guerreiro se amarra para dar o sinal ao rei Erc de que Cuchulainn estava morto.  

                Provavelmente mais do que Morrígan, Badb aparece como uma deusa intrinsecamente ligada à profecia. Na Segunda Batalha de Moytura, é Badb proclama a vitória e em seguida faz uma profecia relatando o fim do mundo, onde os homens ficarão sem coragem, as mulheres sem modéstia, filhos enganando os pais, incesto, e outras coisas que pareciam abomináveis aos olhos dessa deusa.

                No conto do Táin Bó Cualnge, existe uma interessante prática de guerra relacionada à Badb, que são as cúailli Badhba, ou “Estacas de Badb”. A cabeça dos inimigos eram perfuradas nessas longas estacas cravadas no chão do campo de batalha, sendo vista também por alguns estudiosos como uma forma de vingança. Essa prática ecoa com o mesrad Macha, ou “Mastro de Macha”, um grande mastro onde a cabeça de guerreiros mortos eram colocadas lembrando uma árvore com frutos pendurados em seus troncos. Alguns estudiosos acreditam que essas duas práticas são na verdade a mesma. Além disso, existe uma interessante passagem que cita as desconhecidas “tochas de Badb”, que aparecem no céu na forma de nuvens de chuva e fogo brilhante quando os guerreiros estão enfurecidos, mas uma explicação mais complexa fica para o próximo tópico, o texto de Nemain.

Resumo

Nomes e títulos: Badb (“Corvo”), Corvo de Batalha, A Vermelha Badb, Badb Bélderg (“Badb da boca vermelha”).

Parentescos e linhagem divina: Filha de Ernmas e Delbaeth, irmã de Morrígan, Macha, Ériu, Banba, Fotla, Fiachna e Ollom.

Características físicas e temperamento: É descrita como selvagem, violenta, impaciente, insana, cruel e briguenta. Assume frequentemente a forma de um corvo, e, apesar de não termos quaisquer ideias sobre suas características físicas, muitas das vezes é descrita como uma “mulher vermelha”, então parece justificável dizer que provavelmente ela seja ruiva.

Atributos: Deusa da guerra, morte, corvos, feitiçaria, carnificina e profecia.

Contos e histórias: Ela aparece na primeira Batalha de Moytura, junto com Morrígan e Macha para fazer chover fogo e sangue sobre a tropa dos fomorianos através de sua feitiçaria. Nos mitos, ela frequentemente aparece como um corvo agradecido pela guerra, alimentando-se da carne dos homens mortos, banqueteando-se. Ela testemunha a briga de Cuchulainn e Fer Diad, e em uma das versões da morte de Cuchulainn, ela na forma de um corvo, anuncia a sua morte para o rei Erc.

Cores: As mesmas que as da Morrígan, pelos mesmos motivos.

Animais: Corvos e gralhas-negras.

Lugares: Campos de batalha e cemitérios.

Instrumentos e armas: As mesmas que as da Morrígan.

Festivais: Apesar de não tenha nenhuma relação direta entre ela o festival, provavelmente o Samhain.

Oferendas: As mesmas que as da Morrígan.


NEMAIN
Deusa da guerra, profecia, confusão e medo

                Nemain (pronuncia-se névin) é uma deusa pouco citada na mitologia e existem poucas passagens sobre ela em manuscritos irlandeses medievais. Em todos os casos, ela é conhecida como a esposa de Néit, que por sua vez é chamado de “deus da guerra dos irlandeses pagãos”, logo, como a esposa de um deus belicoso, espera-se que ela também seja. Seu nome é traduzido como “veneno” de acordo com etimologias populares, e de fato, ela é descrita juntamente com seu marido Néit como um “par venenoso”, e às vezes, recebe o título de Bé Néit (“Mulher de Néit” ou “Mulher da Batalha”); Fea também aparece como esposa de Néit e recebe esse mesmo título, e curiosamente, as duas são citadas como irmãs e filhas de Elcmair do Brug (provavelmente, o mesmo que o deus Nechtán). Outros glossários, no entanto, traduzem seu nome como “pânico”, “frenesi” ou “fúria de batalha”.

                Badb e Morrígan são associadas com a profecia a partir de relatos ou interpretações de discursos feitos por elas, mas, no entanto, Nemain é a única das deusas-corvo que realmente tem seu nome ligado à profecia, pois em um poema do Livro das Invasões, há uma passagem que diz que as “estrofes proféticas” estão sob a tutela de Nemain. Além disso, existe uma passagem no Táin Bó Cualnge que diz que quando Nemain visitou as tropas com seus gritos e espectros, os soldados tiveram sonhos proféticos e premonições de suas mortes. Assim, mais do que uma deusa das profecias, Nemain induz as pessoas a terem sonhos proféticos.   

                Novamente, Nemain se manifesta na guerra através de seus gritos, da mesma forma que Badb e Morrígan (sempre manifestando-se na noite anterior à batalha). Através disso, ela trás confusão e loucura para a tropa inimiga, atacando então os guerreiros de forma mais psicológica (induzindo o medo neles através dos gritos apavorantes) do que de forma física em si. Faz sentido então se considerarmos a tradução de seu nome como “veneno” – através de seus gritos, ela envenena a tropa, introduzindo neles medo, pavor, loucura, confusão e até mesmo a morte. Como ela “ataca” durante a noite, ela apavora os guerreiros desencorajando-os a lutarem na manhã seguinte. Além disso, existe uma passagem obscura onde Nemain é descrita como “a esposa que dá julgamentos”; sendo assim, pode ser que no passado ela tenha tido um papel como juíza ou legisladora, contudo, nunca saberemos se ela realmente exercia esse papel.

                Acredita-se que Nemain tenha dois lugares associados com ela, sendo o primeiro uma floresta conhecida como Fíd Nemain, e Brú Nemaine, um palácio ou rio que leva seu nome. A localização atual desses dois lugares, no entanto, é desconhecida para nós. Muitos poemas também a descrevem morando junto com Néit em Ailech.

                Nemain é também associada com um atributo bastante obscuro. Em algumas verbetes, ela é associada com Nemain dega, ou “fogo/faísca de Nemain”. Essas “faíscas de Nemain”, assim como as “tochas de Badb” recebem o título de aíble tened, que significa “faíscas de fogo”, e essas tochas de Badb são descritas como nuvens de chuva e de fogo brilhante que surgia na cabeça dos soldados quando estavam em fúria. Alguns estudiosos acreditam que esse “fogo” ou essas “faíscas” representam uma epifania dessa deusa no campo de batalha, da mesma forma que as valquírias do politeísmo nórdico. Contudo, não podemos concluir nada a cerca dessa associação, já que o material é incrivelmente escasso e muitas vezes, as comparações não são as melhores alternativas.   

Resumo

Nomes e títulos: Nemain (“Venenosa, fúria de guerra, pânico ou frenesi), Corvo de Batalha, Bé Néit (“Mulher de Néit” ou “Mulher da Guerra”).

Parentescos e linhagem divina: Filha de Elcmar, com mãe desconhecida. Irmã de Fea, e esposa de Néit, o deus da guerra.

Atributos: Deusa da guerra, profecia, confusão e medo.

Contos e histórias: Em todos os seus contos, ela aparece na noite anterior às batalhas, para dar gritos tão apavorantes que fazem com que os guerreiros fiquem com medo e desencorajados de lutarem no dia seguinte. Junto com ela, ela traz espectros e fantasmas que induzem os guerreiros a terem sonhos proféticos e premonições sobre sua morte.

Cores: As mesmas que as da Morrígan e Badb, pelas mesmas razões; no entanto, o preto como a cor da escuridão, ilustra melhor a confusão e o medo, atributos dessa deusa.

Animais: Corvos.

Lugares: Fíd Nemain (“Floresta de Nemain”), Brug Nemaine (“Palácio de Nemaine”) e Ailech.

Instrumentos e armas: Armas de guerra, mas principalmente, o grito que aterroriza e causa pânico é sua principal arma.

Festivais: Apesar de não tenha nenhuma relação direta entre ela o festival, provavelmente o Samhain.

Oferendas: Miniaturas ou réplicas de armas de guerra e composição ou recitação de poesias proféticas.

Material devocional: Oração para Badb II (apesar da autora criar essa oração destinada à Badb para ajuda-la com as profecias, Badb pode ser facilmente substituída aqui por Nemain).


FEA
Deusa da morte

                Fea (pronúncia não encontrada) é a última desse grupo de deusas, sendo descrita como a irmã de Nemain, com a qual também é esposa de Néit, o deus da batalha, e ambas são filhas de Elcmar (ou Nechtán). ou Fee são variações de seus nomes, e assim como Nemain, ela também recebe o título de Bé Néit, ou “Mulher de Néit” ou “Mulher da Batalha”. Alguns estudiosos acreditam que seu nome seja na verdade uma interjeição de dor, da mesma forma que o nosso “Ai!”. Diferente de todas as deusas citadas nesse texto, Fea é a única que não está associada com os corvos ou gralhas-negras.    

             Fea, de acordo com os manuscritos medievais, é descrita não como a deusa da morte, mas personificando a própria morte ou algo que será a causa da morte de alguém. Essa sua associação com a morte é atestada também em outras fontes, onde ela é associada com uma varinha de álamo (ou faia negra) que era usada pelos irlandeses pré-cristão para medir o tamanho dos mortos ou de seus túmulos. Essa varinha ficava no cemitério e todos acreditavam ser de má sorte pegar numa dessas. Em outras fontes, ela é a deusa que personifica a agressão. Sabe-se também que ela era associada com a planície de Magh Fea, e como seu marido Néit e sua irmã Nemain habitavam em Ailech, é provável que ela more lá também.

Resumo

Nomes e títulos: Fea (“Ai!”,  interjeição de medo e dor), Fé, Fee, Bé Néit (“Mulher de Néit” ou “Mulher da Guerra”).

Parentescos e linhagem divina: Filha de Elcmar, é irmã de Nemain e esposa de Néit.

Atributos: Deusa da morte e ataques.

Contos e histórias: Não desempenha papel em nenhum mito conhecido, tem apenas menções em genealogias.

Cores: O preto, como a cor da morte, provavelmente.

Lugares: Magh Fea e Ailech.

Instrumentos e armas: Armas de ataque e a varinha de álamo (ou faia negra) usada para medir o corpo dos mortos e túmulos.

Festivais: Como deusa que personifica a morte e como o Samhain é o festival dos mortos, me aprece apropriado honrá-la nessa data, apesar de não me parecer muito razoável cultuar uma deusa com atributos tão negativos.

Oferendas: Varas de álamo, provavelmente.

Bibliografia e leitura recomendada

The Ancient Irish Goddess of War, de W. M. Hennessey.
War Goddess: The Morrígan and her Germano-Celtic Counterparts, dissertação de Angelique Gulermovich Epstein. (Nota: o material mais completo sobre a deusa Morrígan, suas irmãs e companheiras de batalha. Altamente recomendado).
Lebor Gabala Erren, ou “O Livro das Invasões”
Cét-chath Maige Tuired, ou “A Primeira Batalha de Moytura”
Cath Dédenach Maige Tuired, ou “A Segunda Batalha de Moytura”
Táin Bó Regamna, ou “O Roubo do Gado de Regamna”
Táin Bó Cualnge, ou “O Roubo do Gado de Cualnge: recessão 1”
Táin Bó Cualnge, ou “O Roubo do Gado de Cualnge: versão do Livro de Leinster”
Aided Conculaind, ou “A morte de Cuchulainn”
The Bodleian Dindshenchas, 15: Berba
The Bodleian Dindshenchas, 2: Mag nBreg
The Metrical Dindshenchas, vol. 2, 13: Berba
The Metrical Dindshenchas, vol. 4, 49: Odras



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