terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Videntes e curandeiros



Notas preliminares: Esse é o capítulo "Seers and Healers" do livro "Visions and Beliefs in the West of Ireland", de Lady Augusta Gregory. É um texto bastante longo e formado quase que inteiramente de relatos de pessoas que viviam em áreas rurais da Irlanda, falando sobre curandeiros, formas de cura, videntes famosos, e principalmente, sobre o povo do Sídhe, a quem eles se referem por todo o texto simplesmente como eles. É frequentemente usado as palavras muros, rath, fortes, etc., e você precisará ver as notas de rodapé que ajudarão a compreender o texto inteiramente. Há algumas passagens que falam também sobre "adquirir o toque", "pegar o toque", "ser tocado", "tomar o susto" ou similares, que quer dizer na verdade que a pessoa pegou uma doença jogada por eles, pelo povo do Sídhe.

Videntes e curandeiros

                Conversando com as pessoas, eu frequentemente escutava o nome de Biddy Early, e comecei a reunir muitas histórias sobre ela, algumas a chamando de curandeira, e outras, de bruxa. Alguns disseram que ela morreu há muito tempo atrás, e outros, que ela ainda está viva. Eu tive a certeza depois de um tempo que ela estava morta, mas me disseram que sua casa ainda está de pé, e que estava no outro lado de Slieve Echtge, entre Feakie e Tulla. Então um dia conduzi Shamrock, meu pônei, até um pavilhão de caça construído pelo meu avô aos pés de uma montanha, e onde eu ficava às vezes, quando era criança, com meus irmãos quando eles estavam caçando veados selvagens que vinham se abrigar nas florestas. Como muitos outros lugares em nosso estado, o pavilhão tinha nome de fronteira que veio de Northumberland, mas embora o chamássemos de Chevy Chase, o povo se referia a suas florestas como Daire-caol, a Estreita Floresta de Carvalho, Daroda, as Duas Estradas, e Druim-da-Rod, seu Cume. Eu fiquei até a noite na pequena casa, indo no dia seguinte para Feakle, “oito fortes milhas sobre a montanha.” Era uma estrada difícil, e o pônei teve que seguir por dois rios sem pontes, cheios com as chuvas de verão. A lama vermelha da estrada, a urze roxa e a dedaleira, os pântanos marrons faziam contraste com as rochas cinza e muros¹ de Burren e Aidline, e lá haviam muitas colinas baixas, que eram marrons quando estávamos perto dela, e um azul de névoa quando a víamos na distância; e então, a Montanha Dourada, Slieve nan-Or, “onde a última grande batalha será travada antes do fim do mundo.” Então eu fui de Connacht até Clare, com a paisagem marrom se transformando em pastos verdes conforme eu seguia pelo Lough Greine.


                Eu coloquei meu pônei em uma pequena hospedaria. Havia dois retratos de John Dillon e Michael Davitt pendurados na sala de visitas, e a dona da casa me contou da semelhança de Parnell com eles, até o padre dizer a ela que não gostava das fotos penduradas ali. Havia também na parede, em uma moldura, uma autorização para a prisão de um de seus filhos, assinado por, eu acho, Lord Cowper, nos dias da Land War². “Ele ficou meio ano na prisão no mesmo ano que Parnell ficou preso. Ele ficou doente lá, e apesar de viver por alguns anos, o médico disse que quando ele morreu, a doença que ele pegou na prisão tinha sido a causa.”

                Disseram-me como achar a casa de Biddy Early, “além de uma pequena ponte convexa,” caminhei até lá, era uma pobre casa de campo que ficava acima de uma massa de rocha na beira da estrada. Havia apenas uma garotinha na casa, mas sua mãe veio posteriormente e me disse que Biddy Early tinha morrido vinte anos atrás, e que depois eles tinham vindo para morar na casa e que ela tinha sido “perturbada por um tempo” pelo povo que vinha procurar por ela. Ela os mandava embora, dizendo-lhes que Biddy Early estava morta, embora um amigável padre tivesse dito para ela, “Por que você não deixa a casa dela e faz uma para você?” Ela me contou algumas das histórias que coloquei abaixo, e me mostrou o abrigo onde a curandeira se consultava com seus amigos invisíveis. Um de seus pacientes já tinha me dado uma “garrafa” preparada para a cura, mas o paciente tinha medo de usar. Ela continua fechada em uma prateleira na minha despensa. Quando eu voltei à noite até a hospedaria nas florestas, encontrei muitos vizinhos reunidos lá, querendo ouvir as notícias da “Mulher de Tulla” e para ter certeza que ela estava morta. Acredito que conforme o tempo passar, a fama dela crescerá e alguns dos mitos que sempre pairaram no ar se reunirão em volta dela, pois penso que a primeira coisa que me disseram dela foi que, “Existiam certamente em tempos antigos encantadores, mágicos e maçons. O poder da velha Biddy Early vinha da mesma coisa.” [11]  

Uma Velha na cozinha do alojamento disse:

                Você se lembra da época que John Kevin foi procurar Biddy Early, pois sua esposa estava doente? Biddy Early sabia de tudo, e lá havia um forte³ atrás de sua casa, e ela disse, “Sua esposa gosta muito de ir lá à noite.”

Um porteiro me disse:

                Havia um homem em Cranagh que teve uma de suas ovelhas tosada a noite e toda a lã foi roubada. Ele pegou seu cavalo e seguiu até Feakie, onde Biddy Early lhe disse o nome do homem que havia feito aquilo e onde a ovelha estava, e assim, ele a recuperou.

                Havia um homem que foi até Biddy Early, e ela lhe disse que a mulher que ele se casaria teria seu marido morto pelo irmão dela. Assim aconteceu, pois a mulher que ele se casou estava sentada perto do fogo com seu marido, o irmão entrou, um pouco bêbado, e atirou uma panela em sua cabeça o matando. Foi o homem que se casou com ela depois que me contou isso.

Sra. Kearns:

                Você já conheceu alguém que foi levado por eles4? Bom, eu nunca conheci ninguém que foi trazido de volta. Um homem foi uma vez até Biddy Early, pois seu tio Donohue, estava doente, e ele a encontrou lá com seus dedos todos cobertos com grandes anéis de ouro, e dando-lhe uma garrafa, ela disse: “Não entre em nenhuma casa quando estiver indo embora, e não pare em nenhum lugar, ou você a perderá.” Mas no caminho para casa, ele sentiu sede e entrou em uma casa pública; ele não entrou, mas parou na porta e pediu para um menino lhe trazer uma bebida. Porém, um pouco mais além quando estava indo embora, o cavalo caiu e a garrafa se quebrou.

Sra. Cregan:

                Eu estava com essa mulher aqui na casa de Biddy Early. Quando ela me viu, sabia que era pelo meu marido que vinha; ela olhou na garrafa e disse, “Não foi meu povo que colocou algo errado nele.” Ela me avisou então para lhe dar algumas laranjas frias e algumas outras ervas. Ele ficou melhor depois.

Daniel Curtin:

                Se eu já ouvi falar de Biddy Early? Não há um homem no campo que tenha mais de quarenta anos que não já esteve com ela uma vez ou outra. Havia um homem que morava naquela casa e ficou doente uma vez, foi até ela, e ela o curou, mas lhe disse, “Você terá que perder alguma coisa, mas não se incomode com isso.” Ele então tinha uma égua cinza que estava prenha, mas uma manhã quando ele saiu, viu que o potro tinha nascido e estava morto ao lado de um muro de rath5. Ele então se lembrou do que ela havia lhe dito, e não se incomodou.

                Um dos Dillane em Kinvara foi até ela para uma cura, o Sir William o conhecia muito bem. O Padre Andrew foi até a casa dele e ficou enfurecido por ele ter ido lá, e disse, “Você tirou a cura das mãos de Deus.” A Sra. Dillane disse, “Vossa Reverência, nenhum de nós pode fazer isso.” “Bem,” disse o Padre Andrew, “então verei o que o diabo pode fazer; vou mandar meu cavalo amanhã, pois sua perna está machucada há muito tempo, e provaremos se ela é capaz de curá-lo.”      
    
                No dia seguinte, ele então enviou um homem com seu cavalo, e quando chegou até a casa de Biddy Early, ela foi para fora e lhe disse cada palavra que o Padre Andrew havia dito, e ela curou a ferida. Depois disso, ele deixou as pessoas em paz, pois antes disso, ele vestia uma capa frisa e com um chicote em suas mãos, expulsava as pessoas que iam vê-la.

                Ela teve quatro ou cinco maridos, e todos eles morreram de cirrose, um após o outro. Talvez vinte ou trinta pessoas vão lá procurando por cura, e cada um deles leva uma garrafa de uísque. Figurinhas selvagens eles eram, ou se não, não teriam se casado com ela. Ela também ajudava a recuperar a manteiga roubada. Sempre no dia primeiro de maio, manteiga costuma ser roubada, e talvez, o que pode ser tirado de um homem, pode ser dado a outro. 

Sr. McCabe:

                Biddy Early? Ela morava acima de Feakle, não muito longe aqui. Eu fui curado por ela uma vez. Olhe para esse polegar – eu o machuquei uma vez, fui para o campo depois disso e estava arando o dia inteiro, muito ganancioso por aquele trabalho. Quando então fui deitar na cama com aquela dor, o dedo e o braço incharam, ficando do tamanho da coxa de um cavalo. Eu fiquei dois ou três dias de cama com a dor, então minha esposa foi até Biddy Early e lhe contou sobre isso; ela voltou pra casa e no dia seguinte, a ferida estourou, e você nunca viu na vida algo parecido com as coisas que saíram da ferida. Um tempo depois eu fui até ela, pois uma parte não estava completamente curada, e ela disse, “Você perderia seu dedo se sua esposa não tivesse vindo tão rápido.” Ela então me levou a uma sala pequena, disse algumas palavras sagradas e aspergiu água benta, me dizendo para acreditar. Os padres eram grandemente contra ela, mas eles estavam errados. Como pode ser uma coisa ruim toda aquela caridade, bondade e cura?

                Ela era uma mulher decente, não diferente de qualquer outra mulher do campo. O rapaz que ela se casou uma vez ficava deitado bêbado na cama. Havia carroças e carros comuns, alguns ricos e pessoas do campo na porta dela, igual ao mercado de Gort, um banquete para todos que vinham, e todos levavam algo para ela, mas ela não se importava com isso. Fazendeiros ricos levavam para ela um porco inteiro. Eu mesmo levei uma garrafa de uísque e um pão digno de alguns xelins, um quarto de açúcar e um quarto de chá. Ela era muito rica, pois lá não havia um fazendeiro que não daria a ela um casal de bois castrados ou uma potra. Ela teria um campo cheio de potras se juntasse todos lá. Ela não teve filhos, e não há dúvidas de que a razão para ela ser capaz de fazer as curas era que ela tinha passado sete anos . Ela não me contou sobre isso, mas ela falava disso com os outros.

                Quando eu estava vindo embora, encontrei um grupo de camponeses em uma carroça de Limerick, eles perguntaram onde era a casa dela e eu lhes contei: “Vá para o cruzamento e vire para a esquerda, siga a estrada reta até você chegar a uma pequena ponte convexa, e logo depois disso você encontrará a casa dela.”

                Os padres ficariam furiosos se eu falasse para alguém o caminho até a casa dela.

                Ela morreu a cerca de vinte anos atrás; Eu não fui para a vigília, nem para o funeral, mas eu ouvi falar que a causa de sua morte foi natural.

                Não, a Sra. Early não tem relação com Biddy Early – as freiras perguntaram a mesma coisa para ela quando se casou. Uma prima dela teve sua mão cortada com um jarro que quebrou, ela foi até lá e quando chegou, Biddy Early disse, “Essa é uma coisa que você nunca deve fazer: bater em uma criança que quebre um copo ou uma jarra.” Com certeza foi uma criança que quebrou a jarra, e ela bateu nela por fazer isso. Mas Biddy Early a curou, sem dúvidas.

Bartley Coen:

                Havia um vizinho meu, Andrey Dennehy. Ele bateu em minha porta uma noite para irmos até sua casa, pois dizia que eles estavam o chamando. Mas quando chegamos lá, não havia ninguém. Alguns veem essas coisas, outros não. É contra o nosso credo acreditar nelas. Os padres também não deixarão nós acreditarmos Neles, mas são eles que têm mais medo de sair à noite do que nós. Os padres também eram contra Biddy Early. Havia um homem que vivia perto do mar que foi até Biddy Early uma vez. No caminho, ele foi até a casa do seu cunhado, o padre estava na casa e disse para ele não ir até a mulher. “Bem, Padre,” ele disse, “me cure então se você não me deixa ir até ela para ser curado.” E quando o padre não fez (pois os padres podem fazer muitas curas, se eles quiserem), ele foi até ela. No minuto que ele chegou, “Bem,” disse ela, “você teve uma grande briga por mim no caminho.” Apesar de ser contra nossa fé acreditar nisso, ela podia ouvir qualquer coisa em qualquer parte, a milhas de distância. Mas ela tinha dois olhos vermelhos, e alguns costumam dizer, “Se ela pode curar tanto, por que ela não pode curar seus próprios olhos?”

                Não, ela não foi para . Dizem que foi de seu filho que ela ganhou o conhecimento, um pequeno companheiro que estava desnorteado. Um dia, quando estava na cama, doente, ele disse: “Há uma mulher que tem uma galinha na panela, e se você conseguir a sopa da galinha, acho que isso me curará.” A mãe foi até a casa e quando chegou lá, havia uma galinha dentro da panela no fogo. Ela ficou envergonhada em dizer por que veio, ela disse que veio apenas para uma visita, e sentou-se. Logo depois, no calor da conversa, ela contou o que seu filho tinha dito. “Bem,” disse a mulher, “pegue a sopa e a galinha também, se ela fizer algum bem para ele.” Ela então levou a galinha, e quando o menino viu a sopa, “Isso pode me curar,” disse ele, “pois não há nada terrestre que possa fazer isso. Mas vendo você sendo tão bondosa, de boa fé, fazendo o melhor para mim, eu lhe deixarei um modo de vida.” E assim ele fez, ensinando para ela tudo o que ela agora sabe. É isso o que dizem.

Sr. Fahy:

                Bem, acredita-se que foi de seu filho que Biddy Early ganhou seu conhecimento. Depois que ele morreu, ela ficava sempre lamentando por ele, até ele voltar e dar a ela o dom da cura.

                Ela não tinha olhos vermelhos, ela era uma mulher de aparência limpa, mas pode ter contraído olhos vermelhos depois que teve uma febre.

                Ela não rejeitava nem mesmo uma pessoa que vinha do âmago do negro Norte.

                Eu estava com Biddy Early uma vez, e ela curou minha menininha que estava doente. Eu levei uma garrafa de uísque, e a primeira coisa que ela fez foi abri-la e me dar um copo de uísque. “Pois,” ela disse, “você talvez queira isso, meu pobre homem.” Eu tinha muita coragem nesses dias.

                Os padres eram contra ela; frequentemente o Padre Boyle falava dela em seus sermões. Eles podem fazer todas as curas, mas não é algo certo ficar falando disso.

A garotinha da casa de Biddy Early:

                O povo tem muitas histórias das curas que ela fazia. Um tempo depois que viemos morar aqui, uma carrada de pessoas vieram e perguntaram se Biddy Early estava aqui, mas minha mãe disse que ela tinha morrido. Quando ela falou com o padre, ele disse que ela tinha o direito de sacudir a garrafa, dizer que era Biddy Early e conseguir algo deles. Era com a garrafa que Biddy Early fazia as curas, ela a balançava e via tudo quando olhava dentro dela. Às vezes, ela dava uma garrafa de cura para as pessoas que vinham, mas se ela dissesse, “Você nunca deve leva-la para casa,” eles a quebravam para ir para casa, com todo o cuidado que tinham em cuidar da garrafa.

                Ela era boa tanto para o pobre como para o rico. Qualquer pobre que passasse pela estrada ela o chamava, dava um copo de chá ou de uísque, pão e qualquer coisa que eles quisessem.

                Ela tinha um grande baú dentro daquela sala, e estava cheio de chá, garrafas de vinho e uísque, vinho tinto e todas as coisas no mundo. Uma vez, ela chamou um homem que estava passando e lhe deu uma garrafa de uísque, e então disse a ele, “Não vá para a estrada que você está passando.” Ele perguntou por que não, ela pegou a garrafa – uma longa garrafa – e olhou dentro dela, segurando-a no alto, ela então pediu para ele olhar para a garrafa, pois ele veria o que aconteceria com ele. O marido dela disse, “Não mostre para ele de novo, isso pode dar um susto a ele que nunca se recuperará.” Ela apenas disse, “Bem, vá por outra estrada.” E assim ele seguiu a viagem chegando em casa seguro, pois na garrafa ela viu um grupo de homens que não o deixariam passar vivo. Ela teve os ritos na Igreja quando morreu, mas primeiro, ela teve que quebrar a garrafa.

                Ela ganhou o poder de seu irmão, quando ela tinha que ir para o hospício, ele voltava e ensinava pra ela um jeito de curar as pessoas. 

O Ferreiro que conheci perto de Tulla:

                Eu sei que você é uma dama respeitável e honrada, pois conheci um de seus irmãos, encontrando-os na feira de Scariff. Não teria feira se eles não tivessem lá. Eu conheci bem Biddy Early, ela era uma mulher de boa aparência. O povo costumava se reunir para vê-la, nas portas e nas janelas, e se eles chegassem tarde, não tinha chance de se consultar com ela, então teriam que procurar por hospedarias para passar a noite na cidade. Ela era uma grande mulher. Se algum homem entrasse bêbado na casa dela, ela os expulsaria se dissessem alguma palavra desrespeitosa. Se algum deles brigassem, discutissem ou fizessem algo de errado, ela diria, “Mantenha contato, você pode governar o mundo.” Os padres eram contra ela, e costumavam roubar as capas e cestas dos camponeses para mantê-los longe dela.

                Eu mesmo nunca fui até ela – até por que você deve saber que nenhuma doença ou mal pode vir para um ferreiro. 

Uma velha Parteira:

                Me diga agora se há algo errado com você ou seu filho para querer ir naquela casa? Eu já fui lá uma vez, quando minha filha casada estava doente, após seu segundo filho ter nascido. Eu fui até lá e contei a ela sobre isso, ela pegou a garrafa, sacudiu e olhou para ela, ela então se virou para seu marido e disse algo para ele que não pude escutar – ela apenas acenou sua mão para mim, me mandando ir para casa, pois sabia que não tiraria nada de mim. O marido dela saiu de casa e me disse que ela havia visto na garrafa que minha filha estaria ao lado de um caixão. Eu fui embora para casa, e no décimo dia, Biddy Early estava morta.

                O povo da hospedaria veio correndo ver a casa da Biddy Early e perguntaram, “Ela deixou o poder para mais alguém?” e eu falei da garrafa quebrada. Mas o Sr. McCabe disse, “Ela apenas tem o poder para ela, e ninguém mais pode tê-lo.”

                Eu perguntei ao velho Sr. McCabe se ele tinha perdido algo quando ela o curou, e ele disse: “Não naquele momento, mas às vezes, eu penso que isso veio para minha família, quando vejo que perdi tantos filhos. Uma garota robusta me deixou, grande e robusta, que doença a mataria?” 

Mat King me disse:

                Biddy Early fez com certeza milhares de curas. Ela costumava ir até o estábulo, onde seus amigos se encontravam e lhe diziam tudo. Havia um pequeno padre há um tempo que costumava fazer curas – Soggarthin Mina, como eles o chamavam – e uma vez ele foi para essa casa, olhou para cima e disse, “Lá – está cheio Deles – lá Eles estão.”

                Havia um homem, um dos Flaherty, foi até a casa do seu cunhado um dia para pegar um cavalo emprestado. No dia seguinte, o cavalo foi mandado de volta, mas não foi por ele. Alguns dias depois ele foi procurar por ele, mas ele não apareceu. O cunhado então foi até Biddy Early, e ela e outros estavam bebendo uísque, e se desculparam pela bebida estar acabando. Ela disse: “Não importa, há um homem vindo agora, e ele trará mais.” Com certeza estava, pois o homem trouxe uma garrafa com ele. Quando ele entrou, ele contou a ela sobre um dos Flaherty que havia desaparecido. Ela descreveu para ele um canto de um jardim no fundo de uma casa, e disse, “Vá procurar e você o encontrará lá,” e assim ele fez, encontrando-o morto e enterrado.

                Outra vez, o gado de um homem estava morrendo, ele foi até ela e ela disse, “Há um local como Benburb, tendo um forte acima da colina além de lá? Pois é para lá que eles estão indo.” E com certeza, o gado ia para aquele forte antes de morrer.

Um velho homem na praia:

                Os padres eram grandemente contra Biddy Early.  Não há dúvidas que as fadas deram o conhecimento a ela. Mas quem iria para o inferno por uma cura se algum dos seus estivesse doente? Os padres em si não gostavam de fazer curas. O Padre Flynn disse para mim (muito incoerente), “Se eu fizer as curas, o diabo entrará em mim.” Mas havia o Padre Carey que costumava fazer as curas, mas o povo começou a trazer muito uísque para ele – e o Padre Mahony fez com que ele parasse.

Maher de Slieve Echtge:

                Eu conheci um homem que foi até Biddy Early, e enquanto ela estava no outro quarto, ele fez com que algumas pinças ficassem quentes e as colocou no chão, e quando Biddy Early saiu, pegou as pinças e se queimou. Ele disse, se ela soubesse alguma coisa, ela saberia para não tocar na pinça, que estava quente. Ele então foi embora, e não pediu cura. 

A Fiandeira:

                Biddy Early era uma bruxa, seja de onde for que ela ganhou isso. Havia um padre em Feakle que falou contra ela uma vez, e logo após isso, ele estava passando perto de sua casa e ela colocou algo no cavalo de forma que este foi como um dardo até um rio e parou no meio, não andando nem pra frente nem pra trás. Algumas pessoas da vizinhança foram até ela, que lhe disse sobre o lugar, e que em uma época havia uma grande batalha perto do castelo, e que existia uma passagem de lá até a Dromore Hill, e até outro lugar que é próximo da casa dos Maher. Ela disse que existia uma cura para todas as doenças escondidas entre as duas rodas do moinho de Ballylee. Como ela sabia que existia um moinho lá? Bruxaria, seja lá como ela tenha conseguido; ela pode ter estado em transe. Ela tinha um filho, que uma vez estava jogando hurling6 em algum lugar perto de Tipperary e ninguém conseguia ser melhor que ele – ele era como um veado.  

                Eu mesma fui até Biddy Early uma vez, por causa do meu menininho – que agora está na América – que estava doente. No caminho até a casa dela, eu encontrei com um sargento de polícia e ele me perguntou pra onde eu estava indo, e quando eu disse a ele, ele zombou de mim dizendo, “Biddy Early está morta.” “Que o diabo morra com ela,” eu disse. Bom, quando eu cheguei na casa dela, ela sabia o que eu havia dito. Ela ficou aborrecida no início e não fez nada por mim. Eu tinha umas libras para ela em meu bolso. Quando as coloquei pra fora, ela não aceitou, e apenas ficou rodando os anéis em seus dedos, pois ela tinha um anel em cada um, e disse, “Um xelim para esse e seis centavos para o outro.” Tudo o que ela me disse era que meu filho estava nervoso, e assim ele estava, ela estava certa de que ele ficaria bem, e ele ficou.

                Havia um homem em Cloon que estava andando perto do portão dela no mesmo dia com seu filho, ele virou seu pé e o machucou, e ela soube disso. Ela me contou que dormiu no moinho de Ballylee noite passada, e que lá existia uma cura para todas as coisas no mundo entre as duas rodas. É certo que ela esteve com Eles, e quanto ao filho dela, ela o trouxe de volta, que por oito ou nove anos ele ficou deitado na cama. Ele nunca se mexia enquanto ela estava na casa, mas logo que ela ia embora para algum lugar, ele ia para a aldeia ficar com as pessoas, e depois voltava para casa antes dela chegar.

                Ela tinha três maridos, eu vi um deles quando fui pra lá, mas eu soube pela sua aparência que ele não viveria por muito tempo. Eu conheci um homem que foi até ela, mas ela o mandou para uma mulher em Kilrush – uma mulher da laia dela, e elas ajudavam uma à outra. Ela disse para uma mulher que conheço: “Se você tem uma tigela ou prato quebrado, ponha para fora de casa e não faça nada para consertá-los, pois isso os aborrece.” 

Sra. McDonagh:

                Nossa religião não nos permite ir até videntes. Eles não recebem o conhecimento de Deus, então deve recebê-lo de demônios.

                Os padres pegaram a garrafa de Biddy Early antes de ela morrer e encontraram coisas negras nela.

                Eu mesma nunca fui até Biddy Early. Eu acredito que tem um pouco de coisas diabólicas nas coisas que ela faz. Os padres podem fazer curas assim como ela fazia, mas eles não gostavam de fazê-las, apenas os párocos auxiliares que gostavam de ganhar dinheiro.

                Havia um homem em Cloughareeva cuja esposa estava doente, e eles foram até ela à noite. Quando chegou lá, Biddy Early disse, “Dentro de três dias um padre rejeitado virá até você e irá curá-la.”

                Depois de três dias, o padre rejeitado que tinha sido afastado por bebidas chegou até a casa dela, e eles beberam uma garrada de uísque da prateleira. O Padre Boyle ficou louco quando ouviu isso, mas o padre a curou.

                Havia um homem de sessenta anos nesse estado que ficou de cama, e sua esposa foi até Biddy Early, que disse, “Ele não pode ter sido levado por Eles, que uso ele teria para Eles sendo tão velho.” Biddy Early era a única que com certeza sabia. Eu já fui até ela uma vez para pedir uma cura quando caí descendo uma colina que tem lá, e ralei meu joelho. Ela me deu a cura e me disse tudo o que tinha acontecido, e que havia uma tigela quebrada em minha casa, e lá estava. Os padres podem fazer as curas pelo mesmo poder que ela tinha, mas aqueles que tem muita coisa em seus estoques não gostam de fazê-las, pois estão certos que perderão tudo.

                Eu conheço um que foi até Biddy Early por conta de sua esposa, e assim que ela o viu, disse, “No quarto dia, um padre rejeitado será chamado e curará sua esposa,” e assim ele fez – o padre James.

Sra. Nelly:

                Um velho homem aqui foi forçado e persuadido a ir até Biddy Early por ele ter perdido seu cabelo, mas ele não queria ir. Quando ele chegou até a casa dela, ela disse, “Não é por sua vontade que você vem,” e ela não fez nada por ele.

                Ela também não gosta que você chegue lá muito tarde. A irmã de Dolan ficou doente por um longo tempo, e quando finalmente seu irmão foi até Biddy Early, ela lhe deu uma garrafa com a cura. Mas no caminho para casa, a garrafa e a carroça quebraram, e o cavalo teve um pavor súbito e fugiu. Ela então disse pra ele, “Por que você cortou o arbusto de espinheiro branco que crescia na sua janela?” Ela então lhe contou que uma velha mulher na aldeia tinha negligenciado ele – a irmã de Murphy – e lhe deu uma garrafa para aspergir sobre a casa dela. Suponho que ela não gostou que ele tivesse mexido com o arbusto, ela tinha muitos encantamentos. 

                Quando o Doutor Folan foi vê-la, ele desviou-se de seu caminho e se deu conta que estava além de Ballylee. E tenho certeza que ela foi levada por eles.  

Uma velha mulher:

                Fui até Biddy Early uma vez com outra mulher. Ela era uma mulher robusta, sentada ereta em sua cadeira. Ela me olhou e disse que meu filho estava pior do que eu, e para mim, ela me fez tomar o que estava tomando antes, isto é, dente-de-leão. Ela me instruiu a colher cinco folhas e coloca-las na mesa com três pitadas de sal nas três folhas médias. Quanto ao meu filho, ela me deu uma garrafa para ele, embora ele não tenha tomado e melhorou sem ela.

                Os padres eram contra ela, porém um deles passou perto de sua casa um dia e seu cavalo caiu. Ele enviou seu menino até ela e ela disse, “Diga a ele para cuspir no cavalo e dizer – ‘Deus abençoe’,” e assim ele fez e o cavalo levantou. Olhou para o cavalo com um olhar orgulhoso, sem ter dito “Deus abençoe” em seu coração.

Daniel Shea:

                Isto era tudo o que você pode fazer para chegar até Biddy Early com sua pele intacta, os padres eram contra ela. Fui até ela uma vez, e é difícil quando se está perto de saber o caminho para a casa dela, pois todo mundo tem medo de dizer onde é.  

                Foi por causa de um camarada que fui até ela, pois alguma coisa estranha tinha se abatido sobre ele. Quando fui até a casa dela, havia cerca de cinquenta pessoas para serem atendidas antes de mim, e quando minha vez chegou, ela olhou para a garrafa – de um tipo comum, daqueles verdes, que não parecia ter nada nela. Ela me disse de onde vim, a forma da minha casa e a aparência dela, do lago que você vê ali e de tudo que tinha em volta. Ela me falou de um forno de cal que estava perto e então disse, “O mal que está em seu amigo veio daquele forte ali mais além.” Nunca soube que existia um forte lá, mas depois que cheguei em casa, fui até Jook e tive a certeza de que existia. 

                Ela me contou como o mal se abateu sobre ele, e me fez lembrar um dia que certo cavalheiro parou e falou comigo quando eu estava trabalhando em um campo de feno e a criança comigo estava brincando. Lembrei-me bem disso, era o velho James Hill de Creen que estava passando, parou, conversou comigo e elogiou a criança. Foi perto daquele forte que James Hill nasceu.

                Logo depois daquele dia, eu e minha mãe fomos até Loughrea, e quando voltamos, a criança escorregou na soleira da casa e caiu; ele chorou e gritou que seu joelho estava machucado, e daquele tempo em diante ele não melhorou, definhou e tinha sempre dor no joelho. 

                Biddy Early disse, “Enquanto você fala comigo agora, a criança está deitada morrendo,” e aquilo era meio dia. Ela preparou uma garrafa para mim, feita de ervas creio eu, e me disse, “Tome cuidado com isso ao ir para casa, e seja lá o que acontecer não a derrube”; e amarrou a garrafa em muitas dobras no meu lenço. Quando estava indo para casa, passei por Tillyra e escutei vozes falando além do muro7, e quando cheguei aos portões de Roxborough tinham muitas pessoas falando e vindo até onde eu estava. Eu podia vê-los e escutá-los, assim como o homem que estava comigo. Mas quando os escutei, lembrei-me do que Biddy Early havia me dito e segurei a garrafa em minhas duas mãos e a levei para casa em segurança. Quando cheguei em casa, me disseram que a criança havia piorado, e que ao meio dia ele havia se deitado de uma forma que pensaram que ele fosse morrer. Quando levei a garrafa até ele, ele pulou dos lençóis e tivemos todo o trabalho do mundo para fazê-lo provar. Mas a partir da hora que ele tomou, a dor em seu joelho o deixou e ele começou a melhorar, e Biddy Early me disse para não deixar passar muito tempo até vê-la novamente, quando havia me dado a garrafa.

                Mas ao vê-lo tão bem, achei que não seria necessário ir até ela novamente; não foi no dia Primeiro de maio, mas foi durante o mês de maio que ele morreu. Ele ficou de cama depois disso e sempre me chamava para ficar onde estava, e se eu entrasse, ele mal me deixava ir. Mas eu fiquei com medo e não gostava de ficar muito com ele.

                Ele tinha oito anos quando morreu, mas Ned Cahel que morava mais além me disse em particular que quando eu saía de casa e ele entrava, o pequeno amigo pedia uma gaita de foles, a pegava e tocava, mas ele nunca me deixaria vê-lo fazendo isso. Ele era um antiquado em todas as suas formas.

                Outra coisa que Biddy Early me disse para fazer foi sair antes do nascer do sol e ir até o muro de uma fronteira entre dois ou três estados, levar uma garrafa, coloca-la na grama e colocar o orvalho dentro dela. Tinha centenas de pessoas que ela mandava embora, pois dizia, “O que há de errado com você não tem nada haver comigo.”

                Tinha uma mulher de Clare comigo quando fui lá, e ela me disse que havia um menino de uma aldeia próxima a dela que foi levado amarrado em um carrinho até Biddy Early, e ela disse, “Se eu lhe curar, você estaria disposto a se casar comigo?” e ele disse que sim. Ela então o curou e se casaram. Eu o vi em sua casa. Pode ter sido que ela tenha colocado a doença sobre ele primeiro.

                Os padres não fazem as curas pelos mesmos meios, e não gostam de fazê-las de qualquer forma. Foi em minha casa que você viu o Padre Gregan fazer para o Sr. Phayre. Depois ele curou uma menina nas montanhas, e hoje ele está em um hospício. Eles tinham medo do poder que tinham, tinham medo que fosse muito forte para eles. Alguns dizem que os bispos não gostam de fazer as curas, pois o uísque que eles tomam antes que lhe dão coragem, é bem provável de deixa-los bêbados depois. Eles não leem o livro de orações, e sim o ritual romano, e esse é um livro que você por ler o mal assim como o bem.

                Havia um menino dos Saggartons que foi até Biddy Early e ela lhe disse a casa de sua solteira (a menina que ele se casaria) e ele se cassou com ela depois. Ela a curou de uma fraqueza e curou muitos, mas era raro a garrafa que ela dava poder se levada para casa sem ser entornada. Pergunto-me se ela foi com eles quando morreu. Ela ganhou as curas entre eles, de qualquer maneira.

Sra. Dillon:

                Minha mãe ficou aleijada em sua cama uma noite – Deus salve o ouvinte – e demorou muito para ela poder voltar a andar com a dor que tinha em suas costas. Meu pai estava sempre dizendo a ela para ir até Biddy Early, até que finalmente ela foi, mas ela não podia fazer nada pela minha mãe, pois disse, “O que te aflige não tem nada a ver comigo.” E disse, “Você perdeu três filhos, e um é um grandioso loirinho, e se você quiser vê-lo de novo, vou mostra-lo a você.” Quando ela disse isso, minha mãe não teve coragem de olhar e ver o filho que ela perdeu, e desmaiou. Ela então disse, “Há um campo de trigo do outro lado da sua casa e um campo com feno, e não tem muito tempo que o pequenino que usa uma capa de Llanberis8 adormeceu no campo de feno. E diante do estoque de trigo que estão em pilhas, ele será tirado de vocês, mas eu posso salvá-lo se puder.” E foi verdade o que ela disse, meu irmãozinho que estava usando uma capa de Llanberis tinha ido até o campo e adormeceu no feno alguns dias atrás, mas nenhum mal aconteceu a ele, e ele é o único irmão vivo que tenho hoje. Ela costumava ir até o estábulo encontrar o povo dela.

Sra. Locke:

                Foi o meu filho que estava colocando a palha no telhado da casa dos Heniff quando ele adquiriu o toque9 e voltou para casa com uma dor em suas costas e ombros, e foi para cama. Algumas noites após isso, eu estava dormindo e a minha menininha me acordou e disse, “Nenhum de nós consegue dormir com todos os carros e carruagens fazendo barulho em volta da casa.” Mas apesar de eu ter acordado e escutado o que ela havia dito, eu adormeci novamente e não acordei até o dia seguinte. Em uma noite, escutei duas pancadinhas na janela, uma após a outra, e todos escutamos, mas não havia ninguém lá. Finalmente mandei meu filho mais velho até Biddy Early e ele a encontrou em sua casa. Ela então estava casada com seu quarto marido. Ela lhe disse que ele havia vindo muito rápido e que não faria nada por ele. Ele teve que voltar na chuva. No dia seguinte ele foi até lá e ela disse, “Três dias depois e você teria chegado muito tarde.” Ela lhe deu duas garrafas, uma era para ele levar até a água de uma fronteira e enchê-la, e esta era para ser esfregada nas costas, e a outra, para beber. No minuto que ele fez isso, começou a melhorar; ele então deixou a cama e pôde andar, mas estava sempre delicado. Quando esfregamos em suas costas, vimos uma marca preta, como a mordida de um cão, e seu rosto estava branco como uma folha de papel.

                Eu ainda tenho a garrafa aqui, apesar de tê-la recebido há trinta anos. Ela disse para o garoto levar o que tinha sobrado até um rio e derramar na água corrente. Quando ele melhorou, eu não fiz nada disso e não disse nada sobre isso – e agora ela está aqui, como você pode ver. Nunca contei ao Padre Folan que fui até ela, mas uma vez o bispo MacInerny veio pra cá. Eu sabia que ele era um homem rude e fui até ele fazer minha confissão, e disse, “Faça o que quiser comigo, mas eu andaria no mundo inteiro pelo meu filho quando ele estava doente.” E tudo o que ele disse foi, “Eu não me espantaria se os dois pés fossem cortados da mensageira.” Ele então não disse mais nada e não colocou nada em mim.

                Eu vi um menino indo até Biddy Early e ela lhe deu uma garrafa e disse para se lembrar de não perdê-la quando estivesse cruzando alguma estrada. Quando ele chegou em casa, a garrafa estava quebrada.

                Frequentemente eu ouvia falar de Biddy Early, e conheci uma menininha que estava doente e o seu irmão foi até Biddy Early para perguntar se ela melhoraria. Ela disse, “Eles tem um lugar pronto para ela, um espaço para ela eles tem.” Ele então sabia que ela morreria, e assim aconteceu.

                Os padres podiam fazer essas coisas também, da mesma forma que ela podia, pois o Sr. Lyne estava morrendo, um protestante, e o padre foi até ele para batizá-lo como católico antes dele morrer e disse para o povo, “Ele está bem agora, em outro mundo.” E foi mais que o batismo que fê-lo ter certeza disso.

                A Sra. Brennan, na casa do outro lado, foi uma vez até Biddy Early quando o seu velho homem estava perdendo sua saúde. Tudo o que ela lhe disse foi para ele parar de beber tanto uísque. Após ela ter dito isso, ele costumava beber apenas gim.

                Havia um menino que foi até Biddy Early por causa de seu pai, e ela disse, “Não é da minha conta o que está nele, mas foi bom para você ter vindo até mim. Não foi você que estava semeando batatas no campo um dia e encontrou uma garrafa de uísque, levando-a e bebendo?” E aquilo era verdade, e pode ter sido uma garrafa que eles tiraram de alguma adega e deixaram lá, pois eles podem tirar as coisas de seu lugar e colocar em outro.

                Havia um menino próximo a Feakle que recebeu o toque em três lugares e ficou com um grande desejo de sair à noite para caminhar e ficou doente. Eles então perguntaram para Biddy Early e ela disse, “Observe as galinhas quando elas vão para o galinheiro à noite e pegue a última que entrar.” A mãe então pegou a galinha e pensou que gostaria de ver o que Biddy Early faria com ela. Ela então levou para a casa de Biddy Early e colocou no chão, e ela começou a mexer as asas, deitou e morreu. Foi de seu irmão que Biddy Early ganhou as curas. Ele estava doente há muito tempo e havia um espinheiro-branco no campo, no qual ele costumava ir e deitar debaixo de sua sombra. Depois de ele ter morrido, durante um ano ela chorou todos os dias. Um dia então ele foi até ela e lhe deu as curas. Foi após ela ter trabalhado do outro lado de Kinvara. Ela fez sua primeira cura em um menino após os médicos terem desistido dele.

Um velho de Kinvara:

                Minha esposa está paralisada nesses trinta e seis anos, e os vizinhos disseram que ela ficaria bem se a criança morresse, pois ela havia adquirido a paralisia após o seu parto, tudo em um minuto. Mas a criança morreu em um ano e onze meses e ela não melhorou. Eles então disseram que ela teria sido levada após vinte e um anos, mas os anos passaram, e ela continua da mesma forma. Ela foi uma boa cristã por todo esse tempo.

                Eu fui até Biddy Early uma vez por causa dela. Ela era uma mulher muito velha, toda trêmula e a mais curvada que já vi na minha vida. O marido dela era um belo jovem e estava deitado na cama. Eu trouxe comigo um homem de Kinvara que estava meio paralisado, e ela não fez nada por ele na primeira vez, mas então seu marido disse para ela fazer o que pudesse. Ela então pegou a garrafa, balançou e olhou dentro dela, e disse que o que estava nele não era de sua conta. Tive um trabalho para leva-lo até a hospedagem naquela noite em Feakle, pois os padres tinham colocado todos contra aqueles que iam até ela. Ela não tomou o uísque que eu levei, mas o marido dela e eu abrimos e bebemos entre nós.

                Ela me deu uma garrafa para a minha esposa, mas quando eu cheguei na workhouse10, onde eu tinha que colocá-la no hospital, eles não me deixaram passar pelo portão quando ouviram falar onde eu estava. Eu tive então que esconder a garrafa por uma noite em um muro, na grama, e enviei o irmão de minha esposa para encontra-la e levar até ela no dia seguinte na workhouse, mas a garrafa não a curou, pois Biddy Early havia dito que ela deveria tomar imediatamente, mas eu deixei no chão durante a noite.

                Biddy Early batia em todas as mulheres. Nenhuma podia tocá-la. Conheci uma menina, uma amiga de meu amigo, em Burren, e ela estava há muito tempo doente e os médicos não podiam fazer nada por ela, os padres oravam mas não conseguiam fazer nada. Por último seu marido então foi até Biddy Early e ela disse, “Eu não posso curá-la, e a mulher que pode mora na aldeia com ela.” Ele então foi para casa contando isso, e as mulheres da aldeia foram até a casa dele e disseram, “Deus a abençoe,” todas exceto uma, e nada podia fazê-la entrar na casa. Todas ficaram observando ela, e uma noite quando muitas delas estavam sentadas ao redor da fogueira, ela cuspiu no chão. Elas então pegaram (com respeito a você) e levaram até a mulher doente e esfregaram nela, fazendo com que ela melhorasse. Poderia funcionar também se elas trouxessem um pedaço de sua anágua, queimasse-a e esfregasse as cinzas nela. Há algo estranho com cuspidas, e se você cuspir em uma criança ou em um animal seria tão bom como se você dissesse, “Deus abençoe.”

John Curtin:

                Eu estava com Biddy Early uma vez por causa do meu irmão. Ela estava em Ennis quando chegamos em sua casa, junto com seu marido que ela chamava de Tommy. A cozinha estava cheia de gente esperando por ela. Quando ela chegou toda molhada devido ao dia chuvoso, ela foi até o fogo e começou a sacudir suas roupas para secá-las e então disse para seu marido: “Tommy, pegue a garrafa e dê a todos eles um gole.” Ele pegou a garrafa e deu uma bebida a cada um. Meu irmão estava atrás da porta e Tommy não o viu, e quando ele voltou para o fogo, ela disse: “Você se esqueceu do homem que tem o melhor coração de todos eles, e lá está ele atrás da porta.” Quando meu irmão saiu ela disse, “Dê-nos um verso de uma canção,” e ele disse, “Não sou um cantor,” mas ela disse, “Eu sei bem que você é, e também um bom dançarino.” Ela então o curou, junto com sua esposa depois disso.

                O meu vizinho também já foi até ela, e ela disse:

                 “A primeira vez que você pegou o toque foi no dia que você trouxe um carrinho de relva daquele pântano em Ballinabucky até Scahanagh. Você pegou o toque quando estava na estrada e teve que se deitar no cabaz de relva até você pegar a estrada pública.” Ela lhe disse que ele tinha uma vidraça quebrada em sua janela, e aquilo era verdade. Ele deve ter estado caminhando com as fadas todas as noites ou como ela sabia daquilo, ou onde a aldeia de Scahanagh estava?

                A Sra. Kenny esteve duas vezes com Biddy Early. Uma vez foi por causa de seu irmão que estava doente, tonto e foi enviado para Galway. Biddy Early sacudiu a garrafa duas vezes e disse, “Não é de minha conta, foi um resfriado que ele pegou.” Ela então não pegou os xelins. Ela era uma mulher vermelha, muito vermelha.

Masy Glyn: 

                Eu sou uma mulher de Clare, mas passei os últimos cinquenta anos em Connacht. Morei próximo de Feakle, mas só vi Biddy Early uma vez, na época em que ela foi levada até o comitê e ao tribunal. Ela morava em uma pequena casa perto de Feakle naquela época, e seu senhorio era o Dr. Murphy de Limerick, que enviou homens para expulsá-la e colocar sua casa abaixo. Ela os segurou na porta e disse: “Qualquer um que for o primeiro a colocar uma barra na casa se lembrará disso.” Um homem então colocou sua barra entre duas pedras, e ao fazer isso ele se virou e caiu de alguma forma que quebrou a coxa. Após isso, o Dr. Murphy a levou até o tribunal, “Fadas, é claro,” ele disse, pois havia trazido a garrafa junto com ela. Ela então foi expulsa, mas Murphy se lembraria disso, pois enquanto morava em uma casa, uma noite ela pegou fogo e tudo o que sobrou dele foi um pé encontrado em um canto das paredes. Ela teve quatro maridos e os padres não queriam casá-la com o último, e foi o professor que a casou. Ela estava bonita no dia em que a vi. Meu marido foi até ela na época em que Johnny, meu menininho, estava doente. Ele estava com dores nas têmporas e ela disse: “Ele tem dor o suficiente para matar uma centena, mas se ele sobreviver até segunda-feira, venha me dizer.” Mas ele morreu antes disso. Ela disse, “se você viesse até mim antes disso, eu não deixaria você parar naquela casa que estava.” Mas Johnny morreu e havia uma vermelhidão em seu rosto quando ele estava indo, e após isso, não consegui olhar para ele, mas aqueles que o viram disseram que ele não estava lá. Nunca o vi desde então, mas frequentemente o pai saía achando que podia vê-lo. Eu sei bem que ele não gostaria de voltar e me ver desgastada por causa dele.

                Nós deixamos aquela casa depois disso e viemos pra cá. Uma mulher viajante veio me ver uma vez naquela casa e disse, “Essa é uma boa casa arejada,” e disse isso três vezes e depois, “Mas naquele canto você perderá seu filho,” e então isso aconteceu e desejava agora que tivesse me importando com o que ela disse. Um homem e sua família foram para aquela casa e no primeiro verão que passaram nela, ele e seus filhos estavam montando uma pilha de louros no campo com forcados e o forcado em sua mão se virou de alguma forma para seu estômago e ele morreu.

                Biddy Early tinha um grande nome, mas os padres eram contra ela. Uma vez um padre foi até ela para pará-la e quando ele chegou perto da porta, o cavalo na carroça caiu. Biddy Early saiu e disse para ele cuspir três vezes no cavalo, e ao fazer isso, o cavalo se levantou. Foi o próprio padre que colocou o olho maligno no cavalo. “Você mesmo fez isso, seu bodach11,” disse ela para o padre, que disse, “Você pode fazer o que quiser de agora em diante, e não me meterei com você novamente.”

Sra. Crone:

                Eu estava uma vez escavando batatas no campo do outro lado e uma mulher passou na estrada; não a ouvi falando nada, mas uma dor veio até a minha cabeça e caí, e tive que ficar de cama por três semanas. Minha mãe então foi até Biddy Early, você já ouviu falar dela? Ela olhou na garrafa azul que tinha e disse meu nome. Ela me viu de pé diante dela, sabia tudo sobre mim e disse, “Sua filha estava escavando batatas com seu marido no campo, uma mulher passou e disse, “É bom para ela mesma que esteja com uma pá como o homem,” pois eu era uma jovem mulher na época. Ela deu à minha mãe uma garrafa para mim, tomei três goles na cama e então levantei tão boa como antes.

Peter Feeney:

                Biddy Early disse para um homem que conheci na América que foi até ela uma vez, que o lugar entre Finevara e Aughanish é o mais assombrado em toda a Irlanda. 

                Certamente a própria Biddy Early foi levada. É isso que sempre ouvi falar. Escutei que em um jogo de arremesso perto de Feakle outro dia, tinha um pequeno homem que diziam ser um amigo dela e que tinha o seu dom.

SRA. SHERIDAN: 

                A Sra. Sheridan, como eu a chamo, era enrugada e meio cega, e andava descalça por toda a sua vida. Ela era velha, pois uma vez ela conheceu Raftery, o poeta gaélico que morreu antes da Grande Fome de 1847, em uma dança. Ela deve ter sido graciosa, pois ele disse para ela: “Você é bem lisa; o carpinteiro que aplainou você sabia trabalhar”; ela estava pronta para responder e disse, “Conhecia melhor que você conhece os seus,” pois seu violino tinha duas ou três cordas quebradas. Ele então falou de um vizinho de forma que aborreceu seu pai que não o deixou falar mais com ela. Ela carregou esse ressentimento durante sua longa vida, pois disse: “Se ele não falasse aquilo e meu pai não ficasse aborrecido, ele poderia ter feito textos sobre mim como fez para Mary Hynes ou para Mary Brown.” Ela me disse que nunca esteve na escola, pois seu pai não pagaria o centavo que custava. Ela nunca viajou muitas milhas além da paróquia de seu nascimento e estou certa de que nunca tenha visto imagens que não fossem as sagradas das paredes da capela; e ainda que ela fale de um castelo cromwellian12 construído, de uma ponte levadiça e de uma mulher loira de rosto comprido, e ainda de uma casa circular e um vestido cor de açafrão dos tempos heroicos, não sei se ela teve uma visão direta disso, ou se é como Myers escreve: “Pode ser que uma alma mundana saiba de todo o seu passado e que almas individuais, quando entrarem em uma consciência profunda podem entrar em algo que são reminiscências e realidades. […] Fatos do passado são conhecidos para os homens da terra, não apenas na memória, mas em registros escritos; e isto podem ser registros, do tipo que não conhecemos, que persistem no mundo espiritual. Nossas retro cognições parecem ser muitas vezes uma recuperação de fragmentos isolados de pensamentos e sensações, seixos ainda duros e redondos entre as areias indecifráveis sobre as quais as poderosas águas estão ‘sempre rolando’.”

                Ela nunca ouviu falar do grande místico Jacob Behman, e quando um visitante sublime disse a ela de que a Terra dos Jovens13 não fica muito longe do lugar em que moramos, ela se aproximou de sua ideia raiz de que “o mundo está no Paraíso e o Paraíso está no mundo, e um está no outro como o dia e a noite.”

A Sra. Sheridan me disse:

                Havia uma mulher, a Sra. Keevan, que foi morta perto da grande árvore em Raheen, e seu marido depois foi até Biddy Early e ela disse que não foi a mulher que tinha morrido, e sim uma vaca que morreu e foi colocada em seu lugar. Eu os vi durante toda a minha vida, e vi o suficiente deles. Um dia eu estava com Tom Mannion perto de uma grande choupana próxima a sua casa, e vimos um homem e uma mulher saindo de lá com uma grande tropa de crianças que pareciam ser pequenos meninos, eles passaram pelo portão até Coole e lá podíamos vê-los correndo e correndo ao longo do muro. Eu disse para Tom Mannion, “Pode ser um chamado para um de nós.” E ele disse, “Talvez seja para outra pessoa,” e naquela semana ele morreu.

                Uma vez vi o velho coronel de pé próximo à estrada, e sabia bem que era ele. Mas enquanto eu olhava para ele, ele mudou sua forma para a de um asno.

                Eu mesma já me perdi um dia em Coole quando estava juntando lenha para o fogo. Eu estava fazendo um feixe delas e vi um menino ao meu lado com um pequeno cachorro cinza, no início achei que fosse William Hanlon, e então vi que não era. Ele caminhou comigo e perguntei se não queria um pouco de lenha e ele disse que não, e enquanto estávamos andando, parecia que ele crescia cada vez mais. Quando chegamos no lugar da entrada das cavernas ele parou e eu perguntei seu nome, e ele disse, “Você deve me conhecer, pois me vê frequentemente.” Ele então se foi e eu sabia que ele não era uma coisa viva.

                Eu já tive um filho de um ano e meio que teve uma amidalite e se engasgou enquanto eu o segurava em meus braços perto do fogo, e em um minuto ele morreu. Os homens estavam trabalhando no rio, lavando ovelhas, e escutaram o grito de uma criança sobre eles no ar, e disseram, “É o filho da Sra. Sheridan.” Então eu tive a certeza de que ele havia sido levado.

                Chegue mais perto e eu lhe direi o que vi no velho castelo ali embaixo (o Ballinamantane). Eu estava passando lá à noite e vi uma grande casa com uma grade (moitas de árvores) no final dela, e a janela se abriu – a casa Coole não é nada comparada a essa pelo tamanho ou grandeza. E lá tinha pessoas e damas conversando, e havia uma ponte do outro lado do rio – eles conseguem construir essas coisas todas em um minuto. Dois coches vieram sendo conduzidos sobre a ponte até o castelo, e em um deles eu vi dois cavalheiros que eu sabia bem que estavam mortos há muito tempo. Quanto aos coches e aos cavalos, não prestei muita atenção, pois fiquei muito tempo olhando para os dois cavalheiros. Um homem veio e gritou se eu queria cruzar a ponte e eu disse que não. Ele disse, “Será melhor pra você se vier, você voltará mais pesada do que veio.” Eu suponho que eles me dariam coisas boas. Os dois homens então pegaram a ponte e a jogou contra a parede. Eu vi essa mesma coisa duas vezes, a casa, os coches e a ponte, e eu sei bem que verei uma terceira vez antes de morrer [12].

                Quando eu morava em Ballymacduff, dois menininhos se afogaram no rio, um tinha oito anos e o outro, onze. Eu estava nos campos e as pessoas olhavam para seus corpos no rio, e vi um homem saindo de lá com os dois meninos segurando a mão de cada um e os levando. Quando ele me viu, parou, olhou para eles e disse, “Tome cuidado se tirá-los de mim, pois você tem apenas um em sua casa, e se você tirar esses de mim, ela nunca mais voltará para casa de novo.” Um dos meninos escapou de sua mão e correu até mim, e o outro gritou, “Ó Pat, você vai me deixar!” e ele então voltou e o homem os levou embora. Eu vi então outro homem, curvado e muito alto, que me observava com a cabeça baixa e conduzia dois cães para o outro lado, e eu sabia bem para onde ele estava indo e o que ele iria fazer com os eles.

                Quando eu ouvi que os corpos haviam sido colocados para fora, eu fui até a casa para olhá-los e aqueles não eram os garotos que estavam deitados lá, e sim os dois cães que foram colocados em seu lugar. Eu sei disso pelo tipo de listras nos corpos tais como os que você vê na cobertura de um colchão; eu soube que os garotos não podiam estar nesses corpos, depois de eu ter os visto sendo levados embora.

                Foi nessa época que perdi meu olho, algo veio sobre ele e nunca recuperei a visão novamente. Por toda a minha vida eu os vi, e vi o suficiente. Uma vez eu vi um dos campos ali em baixo cheio deles, alguns estavam colhendo pedras e outros estavam arando, mas na outra vez que passei pelo campo, não havia nenhum sinal de que o campo tinha sido arado. Eles não podem fazer nada sem alguma pessoa viva olhando para eles, é por isso que eles ficam tanto atrás de mim. Mesmo quando eu era criança eu podia vê-los, e uma vez, eles prejudicaram o meu andar me dando um pé ruim, mas meu pai me curou, e ao fazer isso, depois de cinco dias ele morreu.

                Mas não há muita maldade neles – não muito.

                Havia uma mulher que morava perto de mim em Ballymacduff que costumava sair para cuidar de mulheres; seu nome era Sarah Redington. Ela foi levada uma vez por um homem que foi até ela, para uma colina através de uma porta, mas ela não sabia onde a colina estava. Havia pessoas lá dentro com berços e uma mulher em trabalho de parto, e ela a ajudou e o bebê nasceu, e a mulher lhe disse que ela tinha sido levada até lá apenas por uma noite. O homem a conduziu para fora novamente e a colocou na estrada próximo de sua casa e lhe deu algo enrolado em uma bolsa, orientando-a não olhar até chegar em casa e tirar um punhado do saco, mas ela não esperou chegar em casa para olhar, tirou de suas costas e abriu, e não havia nada no saco além de esterco de vaca. O homem foi até ela e disse, “Você quase nos destruiu olhando para isso, e nunca mais traremos você até nós.”

                Havia um homem que eu conhecia bem que frequentemente ele era levado por eles, e um dia ele estava passando perto de uma grande árvore vestindo um novo par de calções14 e eles vieram até ele e um cortou seus calções, outro rasgou um pouco mais e todos eles vieram correndo e rasgando pequenos pedaços até não sobrar um trapo. Eles fizeram aquilo apenas para enganá-lo. Eles lhe deram uma boa ajuda, pois ele não tinha nada além de um acre de terra, e então tinha tanta coisa no acre como outra pessoa teria em uma grande fazenda. Sua esposa não gostava dele sendo levado e alguém falou para ela sobre uma cura para ele, e quando ela foi procurar para usá-la, dentro de duas horas estava morta; eles a mataram antes dela tentar usá-la. Ele costumava dizer que era levado para uma enorme casa redonda e os cairns que foram com ele me disseram a mesma coisa [13].

                Nas três vezes que fui até o poço buscar água, a água espirrou em mim, e disse para Bridget depois disso que eles deviam estar levando a água para eles, e que não iria mais lá. Na terceira vez que fui um menino estava lá, um dos Heniff, e quando ele ouviu o que aconteceu comigo ele disse, “Deve ter sido a mulher que estava no poço com você que fez aquilo.” Eu disse então que não havia nenhuma mulher no poço comigo. “Tinha sim,” disse ele, “eu a vi do seu lado com duas latinhas em sua mão.”

                Um dia depois que vim morar aqui em Coole, uma mulher estranha veio até aqui em casa e eu perguntei qual era seu nome e ela disse, “Eu estava aqui antes de você,” e ela entrou em um cômodo e não a vi mais.

                Bridget e Peter a viram chegando e me perguntando quem ela era, pois nunca a haviam visto. Em uma noite quando eu estava dormindo ao pé da cama, ela veio e me jogou no chão, e na junta de meu braço tenho uma marca até hoje. Toda noite ela vinha, para me fazer mal ou me irritar de alguma forma, até que finalmente nós trazemos o Padre Nolan até aqui para expulsá-la. Assim que ele começou a ler a bíblia, uma grande rajada de vento saiu da casa com um som tão alto como o de um trovão, e o Padre Nolan disse, “Foi melhor para você ela não ter te matado antes de ir.”

                Algo não está certo com gatos velhos e também é melhor não perturbá-los. Eu estava em casa uma noite e um desses entrou, tentando levar a vela que estava acesa no candelabro em cima da mesa. Eu tinha uma varinha ao meu lado e bati nele com ela, e com isso ele derrubou a vela e me olhou como se fosse me rasgar. Eu me ajoelhei e pedi seu perdão três vezes, e quando pedi a terceira vez, ele ficou quieto em um minuto e saiu pela porta.

                Quanto a lebres, Master Robert recomenda nunca atirar em uma, pois não se sabe o que pode estar nela. Eu conhecia duas mulheres, mãe e filha, que morreram. Um dia eu estava no bosque e vi duas lebres sentadas perto de um muro, e no minuto em que as vi, sabia bem quem eram. A mãe tinha uma aparência como se fosse me matar, mas a filha a parou. Elas deviam estar malvadas por terem sido colocadas naquela forma, e na verdade, sei que elas não eram muito boas. Eu vi a mãe outra vez se aproximar da porta para me ver, e quando ela chegou perto, se transformou em uma lebre vermelha.

                Os padres podem fazer curas com o seu livro, e quando a cura está feita, eles viram a página. Havia um menino perto de Kinvara que se machucou e foi levado até uma casa, e o Padre Grogan precisou curá-lo. Ao fazer, dentro de dois dias o irmão do padre ficou louco e está trancado em um hospício desde então, e isso foi sete anos atrás [14].

                Um menino da família Nally morreu há um ano, e quando ouvi que ele estava morto fui até sua casa e o vi do lado de fora com dois homens o levando embora, e um deles disse para mim, “Não poderíamos fazer isso se você não estivesse nos observando.” Essa foi a última vez que vi qualquer um deles.

                Um menino caiu de uma carroça perto da casa do outro lado e ele foi levado até a Sra. Raynor, foi colocado na cama e eu fui vê-lo. Ele disse que o que viu foi um menininho cruzando a estrada em frente a carroça, o cavalo tomou um susto e fugiu, atirando-o da carroça. Ele pediu para ser levado para a minha casa, pois ele não ficaria onde estava; “pois,” disse ele, “a mulher dessa casa não me deu nenhuma bebida e não me mostrou bondade, e isso será retribuído.” E certamente foi, pois dentro de um ano ela teve hidropisia e morreu. Ele foi levado pela porta dos fundos, mas a mãe o levou para sua própria casa e não o deixou vir para a minha, e foi melhor assim, pois mesmo que eu não o recusasse, eu não queria ser perturbada por eles mais do que já sou.

                Você conhece a Sra. Byrne que morava em Doolin? Ela foi expulsa depois que seu filho nasceu. Um ano depois, eu a vi descendo a estrada perto do velho castelo. “É você, Mary?” eu disse para ela, “você está vindo me ver?” Mas ela seguiu em frente. É em Maio que eles ficam fazendo essas transformações [15]. O Padre Waters me contou uma vez que enterrou um menino da família Fahy no cemitério de Kilbecanty. Ele estava passando pelo local novamente à noite, e lá ele viu uma grande fogueira queimando, mas se era de relva ou lenha ele não sabia dizer, e o menino que ele tinha enterrado estava sentado no meio dela.

                Eu sei que costumava estar entre eles, mas como eles me levavam eu não sei, e quando eu voltava, ficava irritada com meu marido e com todos. Acredito que quando eu estava com eles, ficava irritada por eles não me deixarem ir, e é por isso que eles não me mantinham lá ao todo: eles não gostam de pessoas irritadas com eles. Meu marido sempre perguntava onde eu estava, e é por isso que parei de ir durante muito tempo, mas eu acho que ele sabia que eu era levada e isso o atormentava, mas ele nunca falou muito sobre isso. Minha mãe sabia bem disso, mas ela tentava esconder. Os vizinhos vinham e perguntavam onde eu estava, e ela dizia que eu estava doente na cama – pois o que quer que seja que ela colocava na cama em meu lugar teria a cabeça debaixo dos lençóis.15Quando um vizinho me trazia um copo de leite, minha mãe colocava ao lado e dizia, “Deixe-a agora, talvez ela beba amanhã.” Talvez em um ou dois dias eu encontrava alguém que dizia, “Por que você não falou comigo quando fui para sua casa te ver?” Eu era uma mulher jovem naquela época. Para onde eles me levavam eu não sei, ou como eu chegava lá, mas eu costumava ficar em uma casa muito grande, redonda, e as paredes eram tão longes que você mal podia vê-las, e muitas pessoas em volta. Lá eu vi vizinhos e amigos que conhecia, com suas próprias roupas e sua aparência, mas eles não falavam comigo e nem eu com eles, e quando eu os encontrava de novo, nunca falei com eles que os vi lá. Os outros tinham roupas listradas de muitas cores, longas faces e ficavam conversando, rindo e andando. Em que língua falavam? Irlandês, é claro, o que mais seria?

                Tinha uma mulher deles, muito alta e com um rosto longo, parada no meio, era a mulher mais alta que você já viu nesse mundo, e o cabo de um bastão estava em sua mão; ela era a senhora. Ela tinha uma coisa amarela bem alta em sua cabeça, não era cabelo, seu cabelo estava por trás, debaixo disso, e tinha uma longa capa amarela que chegava até seus pés pendendo. Ela tinha alguma coisa igual aquilo na imagem na sua mão(?) [uma coroa de bolas ou maças douradas]. Não estava em sua cabeça, estava mais abaixo perto do corpo, e brilhava, e uma coisa [um broche] como aquele na imagem, mas pendendo em baixo como o outro. E essa imagem que você tem ai na sua mão, nunca vi outra como ela, mas vi uma imagem igual pendurada na parede [16]. Era um lugar bem grande e imponente, com uma grande mesa, mas eu não queria ficar lá e comecei a chorar querendo ir pra casa. Ela me tocou aqui no peito com sua vara, ela ficou aborrecida vendo-me querendo ir embora. Eles nunca me levaram desde então. Ofereceram-me uma comida magnífica e vinho, mas eu não tocava nela, e às vezes, tinha que dar peito para uma criança.

                Ele mesmo morreu, mas foram eles que o tiraram de mim. Foi durante a noite e ele estava deitado do meu lado, eu acordei e escutei ele se mover, e pensei ter escutado alguém com ele. Eu coloquei minha mão para fora e toquei em uma mão de ferro, parecendo agulhas tricotando. Escutei os ossos de seu pescoço estalarem, e ele deu um tipo de risada sufocada, e eu sai da cama, acendi a luz e não vi nada, mas pensei ter visto alguém saindo pela porta. Eu chamei Bridget e ela não veio, eu chamei de novo e ela veio e disse que acendeu a luz quando escutou um barulho e ela veio e alguém apagou a luz de sua mão. Quando olhamos para a cama, ele estava morto, sem uma marca nele.

                Havia uma mulher, a Sra. Leary, que tinha algo errado com ela, e foi até Biddy Early. Ela não fez nada a não ser levar meu filho com ela, e fiquei aborrecida. O que a fez leva-lo? Quando Biddy Early o viu ela disse, “Você viajará para muito longe, mas para onde quer que vá, não escapará deles.” A mulher que foi com ele morreu cerca de seis meses depois, mas ele foi para a América, e não demorou muito lá quando o que ela disse se tornou verdade, ele morreu. Eles o seguiram tão longe quanto foi.

                Desde então, um dia estava na estrada de Gort e Madden disse para mim, “Seu filho está na estrada diante de você.” Eu disse, “Como pode, se ele está morto?” Mas ainda estava apressada. No portão de Coole encontrei um menininho e perguntei se ele via alguém e ele disse, “Você sabe bem que eu vi.” Mas eu não o vi, de qualquer forma.

                Eu vi o cocheiro uma noite perto da Capela de Kiltartan. Ela estava longa e escura, e não vi ninguém nela. Mas eu vi quem estava sentado conduzindo uma carruagem, e eu sabia que era um dos Miskells que foi levado antes disso [17].

                Um dia eu estava seguindo uma cabra para pegar um gole de leite, ela virou no campo e foi até o castelo de Lydican e foi passo-a-passo até as escadas e depois até o topo, e quando eu a seguia, uma mulher passou por mim, e eu sabia que era a esposa de Colum. Quando eu cheguei ao cômodo no topo, eu olhei para cima e estava de pé na parede uma mulher olhando para baixo, para mim, ela tinha um rosto comprido e era alta, com roupas majestosas, e em sua cabeça tinha algo amarelo e escorregadio, não era o cabelo, era algo como o mármore [18]. Eu a chamei para perguntar se ela não estava com medo de ficar lá em cima, e ela disse que não. Um pastor que costumava morar lá em baixo, no castelo, viu a mesma mulher uma noite, ele foi até o topo e chegou até um cômodo com uma fogueira e ela estava sentada em volta, mas quando ele foi lá novamente, não havia sinal dela nem do cômodo, nada além de pedras como antes.

                Eu nunca os vi em cavalos, mas quando eu vim morar no Peter Mahony, ele costumava trazer aquelas flores vermelhas [tasneira] que crescem perto da ferrovia, quando suas hastes estavam murchas, para fazer fogo. Um dia eu estava na estrada e dois homens vieram até mim, e um deles usava um longo vestido cinza. Ele disse para mim, “Não temos cavalos para cavalgar e temos que ir a pé, porque você tem muito fogo.” Então eu soube que eram seus cavalos que estávamos queimando [19].

                Uma vez eu fui para um forth16 além de Raheen para pegar algumas varetas, e eu estava batendo uma das varas no chão para quebra-la e uma voz disse atrás de mim, “É a casa que você quer quebrar?” Algo apareceu que parecia um gato, mas maior que qualquer gato que já vi. E outra vez em um forth um homem disse, “Aqui está ouro para você, mas não olhe para ele até você chegar em casa.” Eu olhei, vi esterco de cavalo e disse, “Fique para você, pode lhe fazer muito bem.” Eles nunca me deram nada que fosse bom, mas tive muita tormenta com eles. Eles frequentemente caminhavam pela estrada, e se você os encontrar, você não os reconheceria, mas eu os conheço bem o suficiente, e não digo nada – e já passamos por um grande arbusto – se pertencia à eles eu não sei, mas onde quer que eles se escondam, deve ser lá, mas de qualquer forma é um arbusto muito bonito – Deus abençoe.

                Quando você for falar deles, você sempre deve dizer o dia da semana. Talvez você não tenha percebido o que disse, “É sexta-feira”, assim que estávamos no portão.

                Ontem eu estava muito fraca e fui para minha cama. Eles saíram de onde estavam, próximo do castelo, e agora estão dentro da propriedade de Coole. Foi um homem velho que me disse isso, eu o encontrei na estrada lá embaixo. Primeiro achei que ele fosse um jovem, então eu vi que não era, ele foi ficando muito bonito e usava roupas enxadrezadas. “Estamos nos mudando de lá agora,” ele disse, “estranhos estão chegando até lá. E você deve me conhecer,” ele disse. Quando olhei para ele, achei que conhecesse.

                Um dia eu estava em Coole e a casa deles, parecia uma vacaria, com telhas vermelhas e uma chaminé alta com muita fumaça saindo; tinha uma mulher na porta e duas ou três dentro da casa. Eles não te fazem mal algum, um homem me disse isso. “Eles não precisam ter medo,” ele disse, “nós somos bons vizinhos, mas não os deixe falar muito se o leite puder sair das vacas agora e depois.”

                Uma vez estava depois de Raheen e vi uma mulher ordenhando do lado errado da vaca. Quando me viu, ela levantou-se e tinha um balse que parecia um prato; estava cheio de leite e ela deu para um homem que estava esperando lá, que primeiro eu achei que fosse um dos O’Heas, e então eles foram embora. A bela vaca era muito majestosa, mas eu não sei a quem ela pertence – talvez pertença a eles.

                Foi cerca de uma semana atrás, uma noite alguém veio até meu quarto no escuro e vi que era meu filho que tinha perdido – aquele que foi para América – James. Ele não morreu, ele foi levado para um lugar distante – eu sabia que ele não estava morto pois o vi um dia na estrada para Gort em uma carruagem, ele olhou para baixo e disse, “Essa é minha pobre mãe.” Quando ele chegou aqui, não pude vê-lo, mas eu sabia que era ele pela sua fala. Ele disse, “Ela está dormindo,” e colocou suas duas mãos em meu rosto e não me mexi. Ele disse, “Não estou muito longe de você agora.” Ele estava com os outros dentro de Coole, perto de onde o rio desce para um buraco. Ele veio para me ver e acho que ele poderá vir novamente em breve. Na última noite, tinha uma luz sobre minha cabeça a noite inteira, e não havia velas no quarto.

                Sim, os Sidhe cantam, e eles têm tocadores de flautas entre eles, uma gaita de foles por todos os lados e uma flauta na boca, acho que nunca te contei de um que vi.

                Estava passando por um campo perto de Kiltartan uma vez quando vi uma menina onde fica um pequeno Lisheen17 e um campo de trigo, e quando estava passando escutei um flautista começando a tocar e eu não pude não dançar, era uma boa música; tinha um menino parado lá e ele começou a dançar também. Então meu pai chegou e perguntou por que estávamos dançando pois não havia ninguém tocando para nós. Eu disse que tinha e comecei a procurar nos trigos pelo flautista, mas não pude encontra-lo, e escutei uma voz dizendo, “Você ainda me verá, e será em uma cidade.” Bom, em uma véspera de Natal eu estava em Gort com meu marido, e naquela noite escutei a mesma melodia novamente – a melhor que já tinha escutado – e eu não pude não dançar. Glynn, o fazedor de cadeiras, escutou também e ele começou a dançar comigo na rua, meu homem achou que eu tinha enlouquecido, e o povo se juntou ao redor de nós, pois não podiam ver ou escutar nada. Mas eu vi bem o flautista e ele tinha roupas enxadrezadas, azul e branca, e ele disse, “Eu não te disse que eu te veria novamente em uma cidade?”

                Eu nunca vi o fogo subindo pelo ar, mas no bosque depois de uma árvore em Raheen eu costumava ver algo como uma porta aberta a noite, e uma luz brilhava por ela, assim como podia brilhar através da porta de uma casa, com uma vela e o fogo dentro dela, se estivesse sido deixada aberta.

                Já vi muitos deles – eles são como nós, apenas usam roupas listradas[20], seus corpos não são tão fortes ou grossos como os nossos, e seus olhos são mais brilhantes que nossos olhos. Eu não vejo muitos deles aqui, mas Coole está cheio deles, tão abundantes como gramas; frequentemente saio por um tempo e sento perto do portão ali. Eu os vi construindo uma casa uma vez perto de uma ponte natural e os vi vindo sobre a fenda duas vezes perto da capela, um monte de menininhos, dois homens e uma mulher, e eles tinham uma fala senil e uma juvenil. Um deles veio aqui duas vezes e eu lhe dei um pedaço de pão, mas ele disse, “Tem sal nele” e colocou de lado [21].

                Quando Annie River morreu outro dia, houve dois funerais, um grande funeral com um caixão novo e o outro que aconteceu na frente deles, com homens andando, os mais belos que já vi, e eles usavam roupas pretas. Eu estava lá fora olhando para eles e tinha uma vaca na estrada, eu disse, “Tenham cuidado com a vaca”, e um deles disse, “Não tenha medo, temos muitas vacas do outro lado do muro.” Ninguém podia vê-los além de mim. Frequentemente os via e foram eles que tiraram a visão de meus olhos. Annie Rivers não estava no grande caixão, ela estava com eles por um bom tempo antes do funeral.

                Naquela hora em que vi os dois funerais que estava te contando na casa dos Rivers, eu escutei Annie chamar aqueles que estavam com ela, “Vocês poderiam também me deixar ter Bartley, seria melhor para os dois castelos se juntarem.” E desde aquele dia, a mãe ficou inquieta em relação à Bartley, e ele caiu no chão um dia e soube que ele tinha sido levado desde o dia em que Annie foi enterrada. Eu vi outros no funeral, e algumas pessoas que você conhece bem estava entre eles. Agora olhe, você mandará um casaco para alguma pobre pessoa, e seus próprios amigos entre os mortos serão cobertos, pois você pode ver a pele aqui. [E ela fez um gesto passando sua mão debaixo de seu braço, exatamente o mesmo gesto que a velha Mary Glynn de Slieve Echtge tinha feito ontem quando disse, “Você tem um casaco para me dar, pois meus braços estão descobertos.” E eu prometi um para ela.]
 
***

                Eu estaria entre eles se tivesse morrido mês passado? Acho que não. Acho que eu teria vivido a minha vida, desde que meu pai foi levado.

                Ele era um jovem naquela época, e uma vez eu estava no campo, bati o pé e nasceu um inchaço; ainda tenho uma marca. Depois disso, fui para a estrada com meu pai, próximo a Kinvara, um homem veio e começou a bater nele. Pensei que ele fosse me bater, fui para perto de um muro e meu pai disse, “Poupe a garota!” “Eu farei isso, pouparei ela,” disse o homem. Ele então foi embora e dentro de uma semana meu pai morreu.

                Minha mãe me disse que antes do enterro, ela viu o corpo na cama, sentado em seu lado da cama com seus pés balançando. Eu via meu pai frequentemente desde então, mas não o vejo muito agora. Ele sempre tinha um semblante jovem quando o via. 

                Uma grande mulher veio até a janela e olhou para mim, naquela época eu ficava na cama ultimamente. “Levanta daí,” disse ela. Eu a vi outra vez na estrada, o vento fez com que seu vestido abrisse e pude ver que ela não tinha nada debaixo da roupa.

                Em Maio, todos os lugares estão cheios deles como a grama, mas no geral você não deve ter medo ou o Mestre Robert. Eu sei disso, pois um deles disse para mim.

                ‘Tir-nan-og’ não é muito longe de nós. Uma vez eu estava na capela em Labane com um alto homem sentado perto de mim, vestido em cinza, e depois da Missa eu perguntei de onde ele vinha. “De Tir-na-nog,” disse ele. “E onde é isso?” eu perguntei. “Não é muito longe de você,” ele disse, “é perto do lugar onde você mora.” Eu me lembro bem do olhar dele e ele me dizendo isso. O padre estava olhando para nós enquanto conversávamos [22].”

                Disseram-me que ela morreu alguns anos atrás.

                “Há um fantasma na casa da Sra. Sheridan. Eles conseguiram um padre para fazer a Missa lá, mas com tudo isso, não havia um lá que tinha a permissão de deitar a cabeça no travesseiro até a hora do galo cantar.”18

Sr. Saggarton:

                Nosso médico, um bom passarinheiro e médico que já se foi, coitado, nos falou de um velho homem em Glare que tinha o conhecimento “dos Outros”, e eu levei o Sr. Yeats até ele.

                Nós o encontramos em seu campo de feno, e ele nos levou para sua casa de cal branca com a cobertura de palha e nos contou muitas coisas. Um pouco mais tarde nós fomos lá novamente para verificar o que eu tinha escrito. Eu me lembro dele como muito gentil e cortês, e arrumou um pano na mesa e sua filha fez chá para nós, com ele próprio sentado na cabeceira da mesa. 

                O Sr. Yeats naquela época usava roupas pretas e um macio chapéu preto, mas depois se desfez disso, pois frequentemente ele era saudado como um padre. Mas dessa vez, outra visão foi tomada, e me disseram um pouco depois que a curadoria da paróquia de Glare tinha escrito para a curadoria de uma paróquia de Connacht que Lady Gregory tinha vindo para a orla com “um Leitor da Escritura” para tentar e comprar crianças para propósitos proselitistas, mas a curadoria de Connacht escreveu de volta para a curadoria de Glare dizendo que sempre achou que ele era um tolo, mas agora tinha certeza.

O velho homem a quem eu chamei de Sr. Saggarton disse:

                     Nossa família diminuiu tanto que no final só restaram três irmãos que se separaram. Um foi para Erris, outro veio para cá e o outro foi para seu próprio lugar acolá. Foi há muito tempo em que um podia fazer o outro sair. Meu tio costumava ficar entre eles. Quando eu era um rapaz, eu costumava ficar no campo trabalhando com ele, e ele me fez entregar uma mensagem, mas quando voltei, eu o encontrei desmaiado. Ele próprio havia sido levado, somente sua sombra ou algo parecido com sua forma que havia sido deixado. Ele era um homem muito forte. Você pode se lembrar do homem forte que Ger Kelly era, e robusto, e sua altura era seis pés e duas polegadas. Bom, ele e meu tio tiveram uma disputa uma vez, e ele foi para atingir meu tio, mas meu tio, se esforçando tanto quanto para tirar o casaco, lhe deu um golpe que o deixou caído no chão. No celeiro em Bunahowe, ele e meu pai costumavam arremessar um doze avos de uma tonelada através da viga, algo que ninguém podia fazer [23]. Meu pai não tinha noção dessas coisas de gestão. Ele viveu oitenta anos, e toda a sua vida ele parecia tão inocente quanto um rapazinho virando o feno. Meu tio tinha a mesma aparência inocente; penso que eles morreram bem felizes.

                Uma vez minha esposa adquiriu o toque, e depois adquiriu de novo, e na terceira vez, ela se levantou pela manhã, saiu da casa e não disse para onde estava indo. Mas eu a observei e disse para o menino segui-la e não tirá-la de vista, eu lhe dei o sinal para ser feito19 caso ele encontrasse qualquer coisa ruim. Ele então a seguiu, ela continuava na sua frente e enquanto ele caminhava pela estrada, algo estava no topo de um muro com um salto, um homem ruivo sem pernas e com um rosto magro [24]. O menino fez o sinal, o segurou e o levou até chegar à ponte. A princípio, ele não podia levantar o homem, mas após fazer o sinal, ele ficou bastante leve. A mulher voltou para casa novamente, e nunca mais adquiriu o toque. Foi um bom trabalho o menino ter aprendido o sinal. Faça esse sinal com seus polegares se quando você estiver caminhando e sentir um tipo de calafrio na pele, pois isso mostra que algo ruim está próximo, mas se você segurar suas mãos dessa forma, mesmo que você entre em um forth, nada poderia te fazer mal. Se você a qualquer hora sentir uma dor em seu dedo mindinho, a coisa mais certa a se fazer é tocar o dedinho em fezes humanas. Não se descuide, pois se eles ficam alegres quando pega um de nós, eles ficam sete vezes mais felizes quando pegam a sua forma.

                Eles pegam os jovens mais para fazerem o trabalho para eles e matam pessoas bonitas, pois eles mesmos são bonitos. Eles os colocam para fazer todo tipo de trabalho, cavar batatas e algo parecido, eles têm vinho de lugares estrangeiros e cargas de ouro vindo até eles. Suas casas são dez vezes mais bonitas e dez vezes maiores que qualquer casa nesse mundo. Eles podem construir uma dessas naquele campo em dez minutos. Eles usam roupas de todas as cores, e coroas como aquela na imagem e de outros tipos [25]. Eles têm rainhas diferentes, nem sempre as mesmas. As pessoas que eles levam precisam morrer algum dia; quanto a eles, eles vivem desde eras passadas e nunca podem morrer até a hora em que Deus se importar em libertá-los.

                E aqueles que eles levam sempre ficam felizes em ser trazidos de volta. Se você trouxer uma novilha lá daquelas montanhas e coloca-la em um prado, ela ficaria feliz em voltar novamente para a montanha, pois este é o lugar que ele conhece.

                Eles fazem bigas quando querem dirigir, com rodas e tudo, mas não querem cavalos. Podem ter uns vinte bigas saindo juntas às vezes, e todas estão cheias deles. Eles estão em todo o lugar ao nosso redor, e podem estar a uma jarda de nós agora na grama. Mas se eu te perguntar, “Que dia é amanhã?” e você disser, “Quinta-feira,” eles não são capazes de nos escutar secretamente. Eles têm o poder de ir para qualquer lugar, até mesmo para o gancho que o padre está usando.

                John Curran morava lá em Bunahower, ele tinha uma vaca que morreu e eles estavam esforçando-se para criar o bezerro – davam feno cozido, o suco onde o feno havia sido cozido, e você nunca viu algo se desenvolver tão bem quanto o bezerro. Um dia um homem estava olhando para ele e disse, “Você pode ter certeza que a mãe volta e dá leite para ele,” e John Curran disse, “Como, se ela está morta?”, mas o homem disse, “Ela não está morta, está no forth acolá. Se você for naquela direção na metade da hora antes do nascer do sol você a encontrará, você deverá pegá-la, trazê-la para casa e ordenha-la, e quando ela ir embora novamente, pegue sua cauda e a siga.” Ele então saiu na manhã seguinte, na metade da hora antes do alvorecer, em direção ao forth, a trouxe para casa e a ordenhou, e quando a ordenha havia acabado, ela se virou para ir embora e ele pegou sua cauda e foi levado com ela. Ela o trouxe até o forth, através de uma porta. Atrás da porta tinha um barril, e eles colocavam o seu dedo no conteúdo do barril e tocavam em suas testas quando eles saíam, pois se eles não fizessem isso, todos seriam capazes de vê-los. Assim que ele entrou, havia vozes em todos os lados. “Bem-vindo, John Curran, bem-vindo, John Curran.” Ele disse: “O diabo levou vocês, como vocês sabem meu nome? Não é uma recepção que quero, é levar minha vaca para casa.” No final ele pegou a vaca e levou para casa. Lá ele viu uma mulher da aldeia que tinha morrido cerca de dez anos antes, e ela amamentava uma criança [26].

                Sem dúvida conheci Biddy Early, e meu tio era amigo dela. Eles faziam a cura a partir do mesmo poder. Meu tio me deixou o poder e eu fui capaz de fazer as curas e fiz muitas, mas meus cavalos20 estavam todos morrendo e o que eu poderia fazer? Então dei uma parte do poder para a Sra. Tohin que mora em Gort, e ela pode curar bastante coisa. A própria Biddy Early me disse que ela obteve o poder quando era uma servente em uma casa, e lá havia um bebê deitado no berço, e ele cresceu por alguns anos. Ele era amigável e costumava tocar melodias para ela, e quando foi embora, ele lhe deu a garrafa e o poder.

                Ela só tinha que olhar para a garrafa e via tudo o que tinha acontecido e tudo o que iria acontecer, mas ele a fez prometer que nunca ganharia mais que um xelim para qualquer cura que fizesse, e ela não aceitava cinquenta libras se você oferecesse para ela, embora pudesse aceitar presentes de pão, vinho e tais coisas.

                A cura para todas as coisas do mundo? Certamente ela a tinha e sabia onde estava. Eu também sabia – mas eu não poderia te dizer. Eu usava sete itens para fazê-la, e uma deles é um item que tem em todas as casas.

                Há um lago ali, e meu tio uma vez nos disse o nome de um homem que seria afogado lá ao meio dia daquele dia, e assim aconteceu. 

                Uma vez eu estava caminhando na estrada para Galway, próximo ao mar, com outro homem comigo. Eu vi em um campo além da estrada uma mulher muito pequena caminhando em direção à gente, ela sorria e carregava um jarro de água em sua mão, e ela vestia um spencer²¹ azul. Eu perguntei ao outro homem se ele podia vê-la, e ele disse que não, e quando nós chegamos até um muro, ela havia ido embora.

                Uma vez eu sai para procurar uma esposa, eu saí de casa e havia um galo e algumas galinhas diante da porta. Bom, depois que eu cheguei em casa uma das galinhas morreram. O que você acha que eles disseram se não que eu me descuidei da galinha.

                Eles me odeiam, pois posso curar, e eles odiavam Biddy Early também. Os padres fazem as curas, mas não da mesma forma – eles fazem através do poder do Deus Onipotente.

                Minha esposa adquiriu o toque e eles a observam desde então. Um dia depois do meu casamento fui para a feira em Clarenbridge. Quando eu voltei, a casa estava cheia de fumaça, mas não tinha nada na lareira que não fosse cinza, e a fumaça era mais como a fumaça de uma forja. Ela estava lá dentro deitada na cama e seu irmão estava sentado chorando do lado de fora. Fui então até a mãe e pedi para ela entrar, ela chorava também. Ela sabia bem o que tinha acontecido, mas não me contou e me enviou para o padre. Quando ele veio, me enviou para Geoghegan e isso era apenas uma desculpa para me ter longe, e o que ele e a mãe tentariam era fazê-la para enfrentar a morte, e sabiam que eu não permitiria se eu estivesse lá. Mas minha esposa era muito robusta e não se submeteria a eles. O padre então compreendeu e perguntou se eu estaria disposto a perder algo, e eu disse que se fosse uma vaca ou um bezerro, não me importaria. Bom, ela se recuperou parcialmente, mas a partir daquele dia, o ano não se passava se eu não perdesse dez cordeiros talvez ou outras coisas. Duas vezes eles pegaram meus filhos de suas camas, perdi dois deles, e os outros, ganharam o toque. Aquela garota ali – veja o modo como está, não pode andar. Em um minuto o toque veio até ela no campo, com a queda de um muro [27].

                Eles queriam minha esposa entre eles. Víamos frequentemente uma mulher e um menino vindo até a porta, e ela era a casamenteira. Quando nós saíamos, eles desapareciam.

                A cura de Biddy Early que você ouviu falar era de musgo da água de um moinho entre as duas rodas de Ballylee. Esta pode curar todas as coisas feitas por eles, mas não as doenças comuns. Não existe cura para o golpe dado por uma rainha ou por um tolo. Existe uma rainha em cada casa ou regimento deles. Eles a roubam para tornarem-na rainhas enquanto elas viverem ou enquanto eles ficarem satisfeitos com elas.

                Existiam duas mulheres que estavam brigando em uma fonte de água, e uma bateu na cabeça da outra com um jarro e a matou. Após isso, seu filho começou a morrer. O marido da mulher então foi até Biddy Early e assim que ela o viu disse, “Não há nada que posso fazer por você, sua esposa foi uma mulher perversa e a pessoa que ela bateu é uma rainha entre eles, e ela está levando seus filhos, um por um, e você precisará sofrer até vinte e um anos se passarem.” E assim ele fez.

                Também não existe cura para o golpe de um tolo. Existem muitos tolos entre eles, vestidos em roupas estranhas como os mummers²² que costumavam andar pela cidade, mas pode ser que os tolos sejam os mais sábios de todos. Existem duas classes, os Dundonians23 que são como nós, e outra raça, mais perversa e maldosa. Eles são muito pequenos e largos, sua barriga cai para fora, e o que quer que carreguem, não carregam nas costas, mas na frente, em uma bolsa na barriga [28].

                Eles brigaram quando Johnny Casey morreu; é isso que acontece frequentemente. Todo mundo tem amigos entre eles, e os amigos ficam tentando te salvar quando os outros tentam te levar com eles. Os mais jovens são abduzidos aqui e ali, para ajuda-los em suas lutas e em seu trabalho. Eles têm gados e cavalos, mas todos eles têm apenas três pernas.

                Eles próprios não têm crianças, apenas as mulheres que são levadas até eles que tem, mas as crianças não vivem para sempre como os Dundonians

                Eles gostam dos belos e dos dançarinos. Se eles levarem um menino para eles, a primeira a tocá-lo pertencerá a ela que tocou.

                Existia um menino que era um dançarino esplêndido, reto e firme, pois eles não gostam daqueles que vão para lá e cá quando andam. Bem, uma noite ele estava indo para uma casa onde teria uma dança, e quando ele estava na metade do caminho, foi até outra casa, onde estava tendo música e dança. Ele então se virou e tinha uma sala toda fechada com cortinas e biombos, e tinha uma sala dentro dessa sala onde haviam pessoas sentadas, e somente as pessoas que estavam dançando vinham para a sala de fora.

                Quanto ao tesouro deles, é melhor ficar sem. Tinha um homem que vivia perto de um forth, e onde sua casa tocava o forth ele construiu uma pequena sala e a deixou para eles, limpa e em bom estado, do jeito que eles gostam. Sempre que ele precisava de dinheiro, como por uma troca, ele encontrava o dinheiro em uma mesa pela manhã, e quando ele tinha dinheiro de novo, deixava lá, e eles levavam durante a noite, mas depois de ficar nisso por um tempo, ele perdeu seu filho. 

                Tinha um quarto na casa dos Crags onde as coisas costumavam ser atiradas, e todos podiam escutar os barulhos de lá. Eles tinham o direito de limpar o compartimento e deixar do jeito que eles gostavam. Você devia fazer isso em sua casa grande. Arrume um pequeno quarto para eles – com água de uma fonte, e você pode deixar vinho – não, sem flores – eles não querem tanta coisa assim, mas você deve mostrar sua boa vontade.

                Agora te contei mais do que contei para minha esposa.

“Um grande guerreiro no trabalho”:

                Ouvi falar desse curandeiro nas fronteiras de Connemara, e fui para ver sua esposa em sua pequena barraca de pedra entre os pedregulhos, para pedir uma cura para o Sr. Yeats, que estava perto da casa de um amigo e que estava sendo incomodado com uma visão incerta.

                Tarde da noite estávamos caminhando perto do mar até o chalé onde encontraríamos o curandeiro; uma tempestade estava soprando e ficamos felizes quando a porta foi aberta e encontramos uma brilhante fogueira de turfa.

                Ele era pequeno e gordo, com características comuns, e seu cabelo era cheio e negro, apesar de ser um velho. Ele usava um colete com mangas de flanela e suas calças estavam remendadas nos joelhos. Ele se sentou em um banco baixo em um canto da grande chaminé, segurando em suas mãos um chapéu macio que balançava nervosamente. A mulher da casa veio e olhou para o tripé de ferro na lareira. Ela, como o curandeiro, falava apenas em irlandês. O homem da casa sentou-se entre nós e interpretou, segurando uma vela em suas mãos. Um cachorro rosnava sem parar de um lado da lareira, e um gato avermelhado sentou-se do outro lado. A mulher parecia assustada e irritada às vezes quando o homem falava, e apertava o bebê contra seu peito.

Coneely, o homem da casa, me disse:

                Há um homem ali que é um grande guerreiro em seu trabalho, e nenhum homem dentro de milhas construirá uma casa, uma cabana ou qualquer outra coisa sem ele ir lá e dizer se será construída no lugar correto.

                Foi Fagan que me curou de uma dor que tinha em meu braço, eu não podia me livrar dela. Ele me deu algo para beber, me fez ir até uma pedreira e tocar em algumas das pedras que estavam lá, mas não tocar nas outras. De qualquer forma, melhorei. 

                Uma vez lá embaixo perto da montanha estávamos catando algas vermelhas, e tinha um menino que estava conduzindo um jovem cavalo, da mesma forma em que o conduzia em um ano ou mais. Mas nesse dia, de repente ele fez um barulho para mordê-lo, depois o cavalo empinou como se fosse saltar em cima dele, e então se virou e o atingiu com os cascos. O garoto se jogou para escapar, mas com o medo que ele teve, foi para sua cama e parou por lá. No dia seguinte, Fagan veio e lhe contou tudo o que tinha acontecido, e disse, “Vi milhares deles na costa perto de onde o cavalo estava na última noite.”

A esposa do pagão me disse em sua casa: 

                Você está certa? Está? Então é minha amiga. Venha cá e me diga se há algo que ele possa fazer por você?

                Eu não faço mais fortunas desde que o padre me insultou grandemente por isso. Ele próprio sofreu grandes insultos do padre também, o Padre Haverty, que lhe deu um emplastro de Paris – quero dizer que ele falou suavemente e tagarelou, mas ele faz a mesma coisa com todos eles, e o Padre Kilroy lhe deu férias quando ele estava aqui.

                Ele ganhou a cura de sua irmã. Ela foi levada quando teve seu bebê. Ela morreu pela manhã, e o bebê, à noite. Não contamos isso ao John um mês depois, enquanto ele estava fora cuidando de cavalos, mas ele sabia disso antes de chegar em casa, pois ela o seguiu até lá um dia quando ele estava no campo, e quando ele não a reconheceu, ela disse, “Sou sua irmã Kate”, e disse, “Eu lhe trouxe uma cura que pode curar tanto você como os outros.” Ela lhe contou sobre uma erva e o campo onde ela crescia, e que ele deveria escolher uma planta com sete galhos, a metade deles sobre a terra e a metade deles debaixo dela. Ela lhe disse como usá-la.

                Ela se foi há vinte anos, mas ainda não está morta, mas a última vez que ele a viu, disse que ela estava ficando velha. Em todo mês de maio e novembro ele a vê, ele a verá em breve. Quando chegar a hora dela morrer, ela será colocada no lugar onde alguns outros foram levados, e assim ela terá absolvição [29]. 

                Ele curou muitos, mas às vezes, eles ficavam aborrecidos com ele, pois ele curou algumas pessoas que eles estavam pretendendo levar. Eles deram a ele uma boa surra nos campos por fazer isso.

                Eles já me tocaram, aqui na coxa, e então perdi meu andar; eles ficaram aborrecidos comigo por eu ter desistido de derrubar o copo.

                Ela foi uma ama durante todo o tempo que esteve com eles. Não acredite naqueles que dizem que eles não têm crianças. Um garoto deles é tão esperto quanto qualquer garoto aqui, mas ele precisa se acasalar com uma mulher da terra, e é da mesma forma com suas mulheres, elas precisam ter um marido daqui. Elas não podem amamentar uma criança, e por isso, conseguem uma ama daqui.

                Uma vez eu já os vi em um campo quando eles estavam arremessando²4. Eles usavam capas e roupas listradas de todas as cores.

                Existem tantos deles no mar como existe na terra, e às vezes, voam como pássaros sobre a baía.

                A primeira vez que ele fez uma cura foi em uma pessoa pobre como nós, e não ganhou nada com isso, e durante a noite sua irmã veio e lhe disse para não fazer mais isso sem um pagamento. Naquela época, perdemos um bom menino.

                Eles todos ficam observando quando uma pessoa está morrendo; suponho que quando for comigo, meus amigos estarão chorando e chorando, e eles, ficarão rindo e zombando, felizes por eu ir até eles [30]. 

                Sempre há uma amante entre eles. Quando um de nós vai até eles, eles ficam rindo e zombando, mas quando aquela amante alta que você ouviu falar inclina sua bengala para o chão, todos eles ficam em silêncio.

                Diga o nome cristão do seu amigo para quem você quer a cura. “William Buttler”, guardarei o nome [31]. Quando ele mesmo estiver colhendo as ervas, se for para um homem, ele precisa chamar o nome de algum outro homem e chama-lo de rei – Righ – e se for para uma mulher, ele precisa chamar o nome de alguma outra mulher e chama-la de rainha, que está chamando pelo rei ou pela rainha da planta.

O pagão disse para W. B. Yeats e para mim:

                Seus olhos não ficaram ruins por causa deles. Eu os vejo em todos os lugares – e não há um homem que apara a grama do prado que não os vê uma vez ou outra. Eles mudam de cor, forma e roupas enquanto você olha em volta, e sempre usam capas listradas. Há um rei, uma rainha e um tolo em cada casa deles, e isso é verdade – mas eles não te fazem mal. O rei e a rainha são bons e gentis, e qualquer coisa que você pedir, eles te darão. Eles não fazem mal a não ser que você os prejudique. Você pode falar com eles se os encontrarem na estrada, e eles te responderão, se você falar cortesmente, tranquilamente e mostrar respeito, e não rindo ou mentindo – eles não fariam isso. Uma noite eu estava na cama com minha esposa ao meu lado e meu filho perto de mim, próximo ao fogo. Eu me virei e vi uma mulher sentada perto do fogo e ela deu uma dentada no meu filho, eu era muito rápido para ela e para segurá-la, ela então foi para a porta e saiu em um minuto antes que eu pudesse segurá-la.

                Outra vez no campo uma mulher veio ao meu lado, fui até uma abertura no muro e ela estava lá diante de mim. Ela então parou e disse: “Sou sua irmã que foi levada; você não se lembra de quando eu fiquei com febre e você cuidou de mim, e depois, ficou com febre também, e um tinha que ser levado e esse alguém era eu.” Ela me ensinou a cura e como usá-la. Ela me disse que tinha estado nos melhores lugares e me contou muitas coisas que ela me disse para não contar. Perguntei se era aqui que ela havia ficado desde então e ela disse que sim, mas disse, “Em seis meses eu terei que se mudar para outro lugar, e outros virão para onde estou agora, seria melhor para vocês se parássemos aqui, pois a maioria de nós aqui somos seus vizinhos e amigos.” E foi ela que me deu a segunda visão [32]... 

                Ano passado eu estava colhendo batatas e um homem veio, um deles, um homem que eu conhecia bem no passado. Ele disse, “Você tem as batatas esse ano, e nós teremos nos próximos dois anos.” Você sabe que as batatas estavam boas no ano passado, mas agora você vê que elas estão ruins e foram levadas [33]. Minha irmã me disse que metade da comida da Irlanda vai para eles, mas se eles quiserem, podem transformar em esterco de vaca tudo o que quiserem, eles podem vir até nossas casas e usar tudo o que quiserem, e nunca daremos falta durante a manhã. 

                O velho de repente parou e pegou um punhado de brasas em sua mão e as colocou em meu bolso. Dentro de pouco tempo ele me disse que estava com medo de ir para casa pela estrada essa noite. Quando perguntamos o porquê, ele disse que teria que falar sobre sua incumbência.

                Ele disse que um olho do W. B. Yeats estava pior que o outro, e perguntou se ele tinha dormido durante a noite. Nós perguntamos se ele iria perguntá-los (aos Outros) o que há de errado com aqueles que vieram até eles e ele disse, “Sim, quando tem a ver com eles – mas nesse caso, não tem [34].”

Coneely me disse no dia seguinte:

                Eu fui para casa com o velho homem na última noite, ele estava com medo de ir sozinho. No caminho, ele apontou para um cemitério onde havia levado uma surra deles uma noite. Ele desmaiou depois de estar em um funeral, foi até lá e pegou a planta errada. Eles vieram e o puniram, e sua cabeça não é a melhor desde então.

                Ele me contou a forma que ele conhece de colher uma planta que é errada para a pessoa que está procurando por uma cura. Ele tinha que ir de joelhos e dizer uma oração para o rei, a rainha, para os bondosos e simples entre eles, e então ele a colhe, e se a planta tiver folhas negras ou brancas, mas principalmente uma folha negra dobrada para baixo, ele saberá que a doença é culpa deles; mas para esse jovem, a planta veio fresca, verde e limpa. Ele já esteve entre eles e viu o rei e a rainha, e disse que eles não são maiores que os outros, mas a rainha veste uma longa capa enquanto os outros usam capas listradas.

                Ele nunca permitiu que eu construísse uma choupana ali ao lado da casa, apesar de eu  mesmo nunca ter visto nada lá.

O VELHO DERUANE

                O Velho Deruane morava na ilha do meio de Aran, Inish-maan, onde eu já estive mais de uma vez. Ele foi um dos que me visitaram a noite no chalé em que fiquei, quando os pescadores tinham vindo e comido, o fogo estava agitado e brilhava na cavala seca e nos congros pendurados na grande lareira e o pequeno balde com óleo de bacalhau tinha um pavio aceso nele. Os homens sentaram em um meio círculo no chão, passando um cachimbo aceso um para o outro; as mulheres encontraram trabalho com o fio ou com a roda. A conversa frequentemente mudava para anjos caídos ou mortos, pois os habitantes daquelas ilhas não tinham sido moldados naquele dogma que ao mesmo tempo tornava a crença na vida após a morte como algo essencial, tornando a crença na sombra – a visita de um espírito ansiando por aqueles que amaram a vaidade, uma falha do grande e essencial uso comum, e põe para baixo alguém que acredita em tais coisas que Burton chama em sua Anatomy como “uma melancolia idiota”.

O Velho Deruane me disse:

                Eu nasci e fui criado em North Island, e meus dez velhos pais estão enterrados lá.

                Eu sei falar inglês porque fui trabalhar na Inglaterra em épocas difíceis e fiquei por cinco trimestres em uma cidade chamada Manchester; eu tinha sessenta25 e quinze anos.

                Conheci duas belas mulheres que foram levadas por eles depois do parto, e depois disso elas eram vistas em North Island saindo com eles. Eu já vi uma delas lá, uma vez eu sai tarde da noite indo para a aldeia do leste. Vi ela caminhando do lado norte do muro26, na estrada perto de mim, mas ela não disse nada. Meu corpo começou a tremer e eu ia para o lado sul do muro para que este ficasse entre nós, mas então eu disse, “Onde está Deus?” e eu caminhei e passei por ela, ela olhou para mim mas não falou nada. Eu a escutei atrás de mim por um bom tempo, mas não olhava para trás, pois não é bom olhar para eles quando estão atrás de você.

                A outra mulher morreu, e tarde da noite eu deixei o diretor da escola, pois ele e eu éramos muito próximos e frequentemente ele fazia caridade para mim. Eu a vi ou vi sua forma caminhando por aquele campo de pedra que você acabou de passar. Eu parei e não falei com ela, ela desceu a estrada e quando estava a cerca de quarenta braças abaixo de mim, pude escutar ela abusando de alguém, mas não havia ninguém lá. Achei que talvez ela estivesse aborrecida comigo por eu não questioná-la. Ela também era uma mulher jovem. Eu garanto que eles nunca pegariam um velho ou uma velha – o que eles fariam com velhos? Se por acaso os velhos fossem até eles, eles o atirariam de volta novamente.

                Outra noite eu estava fora e a lua brilhava, e soube pela sua aparência que a noite já estava desgastada. Quando eu fui para o canto da estrada, minha carne começou a tremer e fiquei arrepiado, cada pelo estava tão duro quanto uma vara. Então eu soube que algum ruim estava próximo e voltei para casa. Essa ilha está cheia deles como gramas ou como a areia, mas bons vizinhos fazem bons vizinhos, e nenhuma dona de casa deve esconder algumas das primeiras batatas no guarda-roupa, pois não há casa que eles não visitem uma vez ou outra. Eu mesmo sempre limpo minha pequena casa de noite antes de dormir, e a noite em que mais faço isso será uma dura noite. Como saberemos qual pobre alma pode querer entrar?

                Eu os vi brincando com bola um dia quando a saia com a qual você veio estava sendo feita, e eu desci para observar o trabalho. Havia centenas deles no topo do campo, com cerca de três pés de altura com pequenas capas neles, mas os homens que estavam trabalhando lá não podiam vê-los [35]. Em uma manhã desci até o poço para deixar meus pampooties27 nele para encharca-lo – era uma manhã de sábado e eu estava indo para a Missa – os pampooties estavam duros e desgastaram meus pés, e então os deixei lá. Quando voltei em alguns minutos os sapatos haviam sumido, procurei em cada fenda, mas não pude encontra-los. Quando eu estava indo embora, eu os senti perto de mim, e vindo entre minhas duras varas com as quais estava caminhando. Eu parei, olhei para baixo e disse, “Eu sei vocês estão ai,” e disse, “Cavalheiros, sei que vocês estão perto de mim,” e assim que disse essas palavras eles foram embora. Foram eles que levaram meus pampooties? Não – o que eles iriam querer com isso? Foi alguma criança que deve ter pegado, e não vi os sapatos desde então.

                Uma vez eu quis me limpar, tirei meu colete e algumas coisinhas que tenho para lavá-los no mar e deixa-los secar em uma pedra, e deixei uma de minhas varas em cima dessas coisas. Quando eu voltei depois de um tempinho, a vara tinha sumido. Fiquei aborrecido no início por tê-la perdido, mas eu sabia que eles pegaram para zombar de mim, ou talvez para usá-la em suas lutas, pois não há nada que eles fazem mais do que brigar entre si. Então eu disse, “Acolham bem a vara, Cavalheiros, que ela traga sorte a vocês; talvez vocês a usem mais do que eu já usei.”

                Uma noite quando eu estava dormindo em minha casinha, escutei um grande barulho de luta, e eu pensei que era na casa da Sra. Jordan, que talvez fossem as crianças perturbando na cama, ela tinha muitos filhos. De manhã quando passei pela casa dela eu disse, “O que estava acontecendo em sua casa durante a noite?” Ela disse que não aconteceu nada e que não escutou nenhum barulho. Então disse nada e segui em frente, quando cheguei até umas lajes de pedra perto de sua casa, elas estavam cobertas com grandes manchas e gotas de sangue. Também não disse nada sobre isso e segui em frente. Qual época era? Espere até eu pensar – era nessa mesma época do ano: no mês de maio.

                Uma vez eu estava semeando a terra, os montinhos estavam todos prontos e espalhei alga sobre eles; era um belo dia, mas escutei uma tempestade no ar e soube então através de sinais que uma estava se aproximando. Eles vieram para o campo e espalharam as algas e as sementes sobre ela, eu falei com eles de forma cortês e eles foram até o campo do vizinho, e depois desceram para o mar, e lá se transformaram em um navio, o maior navio que já vi.

                Três homens passaram por aquele lugar Sheogney28 ali em baixo, pescando em seu curragh29, e quando estavam a cerca de uma milha longe, viram um navio vindo em direção a eles, e ao olharem novamente, ao invés de ter três mastros, ele só tinha um, e assim que iam pegar o curragh para leva-lo a praia, uma grande onda veio e virou o curragh. O dono levou um susto de forma que não podia andar, e os outros dois que estavam com ele tiveram que segurá-lo debaixo dos braços para leva-lo para casa. Ele foi para sua cama e dentro de uma semana, morreu.

                Uma noite escutei um choro na estrada, e no dia seguinte, um filho de Tom Regan estava morto. Alguns meses depois disso, ouvi um choro novamente, e no dia seguinte outro filho dele estava morto.

                Um belo homem foi enterrado no cemitério ai em baixo, e um bom tempo depois disso estava sendo feito um trabalho lá, eles foram até seu caixão e sua mãe o abriu, mas não encontrou nada lá, apenas uma vassoura enrolada com um pedaço de corda.

                Um homem estava passando por aquele lugar Sheogney ali em baixo que nós chamamos de “Breagh”. Ele viu um homem saindo de lá cavalgando em um cavalo branco. Quando ele chegou em casa aquela noite, não havia nada para ele ou para qualquer um deles comer, pois ainda não tinham batatas. Pela manhã ele perguntou a sua esposa se havia algo para comer, e ela disse que um vizinho tinha mandando uma panela de aveia. Ela então fez um stirabout30 com isso e ele pegou um pequeno pedaço da mão dela e deixou o restante para os outros. Ele então pegou um lençol e pediu para ela fazer uma bolsa com isso, ele pegou seu cavalo e foi até o lugar onde viu o homem cavalgando, pois ele sabia que ele era o mestre deles. Ele então pediu por uma bolsa cheia de aveia e disse que devolveria quando tivesse. O homem pegou a bolsa, encheu para ele e a trouxe de volta. Quando a aveia tinha sido colhida, ele a moeu no moinho e levou até o lugar onde o homem havia lhe dado aveia. O homem saiu e pegou a aveia, e disse que sempre que ele precisasse de algo para ele ir até lá que conseguiria. 

                Dizem que em um ano ruim, eles levam as batatas, e deve ser assim mesmo. Eles querem provisões e precisam consegui-las em um lugar ou outro.

O Sr. McArdle se junta à conversa e diz: 

                O que vou lhe contar é verdade, e eu me lembro bem que o homem que morava na terceira casa após essa morreu depois de ter ficado doente por muito tempo. Sua esposa morreu também, e ela seria enterrada no mesmo lugar; quando eles chegaram até o caixão do marido, eles o abriram e não havia nada lá, nem vassouras nem qualquer coisa.

                Eu conhecia bem um menino que estava naquele forth acima de sua casa um dia, e um golpe de vento soprou seu chapéu. Quando ele viu o chapéu voando no ar ele gritou, “Faça o que quiserem para agradá-los, mas devolvam meu chapéu!” e naquele momento o chapéu foi colocado novamente em sua cabeça.

O Velho Deruane continua:

                Existem muitas pessoas que podem fazer curas, pois eles têm algo caminhando com eles, algo que uma pessoa poderia dizer ser um fantasma entre os Sheogue. Eu mesmo posso fazer algumas curas, e foi assim que consegui o poder. Eu te contei que morei por cinco trimestres em Manchester, e onde eu estava hospedado tinha duas mulheres da parte mais distante de Mayo – elas fugiram de Mayo aquela época por causa da fome. Eu soube que seria provável que elas soubessem curar, pois São Patrício abençoou mais os lugares em que não esteve do que os lugares em que esteve, e com a cura e os anjos caídos que ele deixou, há muitas pessoas em Mayo que podem fazê-las.

                É costume na Inglaterra nunca limpar a mesa a não ser que seja uma vez na semana e no sábado à noite. Naquela noite, tudo estava limpo, todas as migalhas de pão, pedaços de carne e essas coisas foram colocadas em um vaso de lata e atirados na rua, e as mulheres que não tem outro modo de vida vem com uma bolsa com a capacidade de duas pedras e pegam tudo o que é atirado na rua, e conseguem se manter por uma semana. Frequentemente eu não comia metade do que estava na minha frente, eu não jogava fora, mas levava para as duas mulheres que estavam na casa e assim elas se tornaram muito amigas minha. 

                Bom, quando chegou a hora que achei que ia para casa, eu as levei até uma taberna e fiz um pouco de ponche, então eu peguei a cura delas, pois eu era sábio naqueles dias.

                Para aqueles que foram tocados, eu posso salvá-los de serem levados, mas não posso trazer de volta um homem que já foi levado, pois apenas aqueles que já viveram entre eles por um tempo pode fazer isso. O filho de um vizinho ficou doente, fiquei sabendo e fui até a casa, pois a mulher de lá me mostrou bondade. Fui até o berço e tirei a colcha do rosto da criança e você pode ver através disso, eu soube pelo sinal que era trabalho deles. Eu disse, “Não é provável que a criança continue com você, minha senhora.” Ela disse, “Na verdade eu sei que não o terei por muito tempo.” Não disse nada e sai e o que quer que eu tenha feito, onde quer que eu tenha ganhado isso, eu o trouxe de volta e o dei para a criança, que começou a melhorar. No dia seguinte eu trouxe a mesma coisa de novo e dei para a criança, olhei para ela e disse para a mãe, “Ele viverá para pentear seu cabelo grisalho.” A partir daquele tempo ele melhorou, e agora, não há criança mais forte na ilha, e ele é o mais jovem na casa.

                Depois disso, o marido ficou doente e a mulher disse para mim um dia, “Se tiver qualquer coisa que você possa fazer para curá-lo, tenha pena de mim e de meus filhos, e eu darei o que você quiser.” Mas eu disse, “Eu farei o que puder para você, mas não terei nada de você exceto um chá ou um copo de cerveja preta, pois eu não ganho dinheiro por isso e já recusei £2 por uma cura que fiz.” Então eu fui e trouxe de volta a cura, misturei com farinha e fiz três pequenas pílulas que não poderiam ser perdidas e as dei para ele, e a partir daquela hora, ele melhorou.

                Uma mulher morava ali em baixo na estrada, um dia fui até sua casa depois dela ter vindo da cidade de Galway e pedi a ela uma caridade. Isso foi no mês de agosto quando acontecia a pesca de brema, e ela disse, “Agora não tem ninguém com necessidade, com os peixes frescos no mar e as batatas nos jardins”; e não me deu nada. Mas quando eu saí pela porta ela disse, “Bem, volte aqui.” Eu disse, “Se você me oferecesse tudo o que tivesse trazido de Galway, eu não levaria mais.”

                Daquela época em diante ela começou a enfraquecer, se desgastar e perder sua riqueza, e no final de três anos, ela saiu de sua casa um dia e quando estava a duas jardas da sua soleira ela caiu no chão, os vizinhos vieram e a levantaram, levando-a para casa, e ela morreu. 

                Acho que poderia ter salvado ela – acho que poderia, quando a vi deitada lá, mas eu me lembrei daquele dia, e não estiquei uma mão ou falei uma palavra.

                Eu vou parar de fazer as curas e não farei mais muitas delas, pois eles me deram um toque aqui na perna direita, e é a mesma coisa que a morte. Uma mulher da minha aldeia que faz curas foi atingida com uma dor na mão.

                Ali por baixo do caminho até a colina – este é o caminho que eles seguem na maioria das noites, centenas ou milhares deles. Tem dois velhos na ilha que ganharam uma surra deles; um deles me disse e me levou até o lugar para que eu pudesse ver onde havia sido. Ele estava em um pequeno campo aparando a grama, o céu ficou escuro em cima dele, muito escuro. Ele foi atirado no chão e levou uma surra, mas não podia ver nada. Ele não tinha feito nada para aborrecê-los, apenas ocupando-se com seu trabalho no campo.

                O outro também era um velho, ele estava na estrada e eles o atiraram lá e começou a bater nele até ele ficar inconsciente por um tempo.

                Uma noite eu estava dormindo na minha casinha e eu os escutei passar, e puder escutar pelas patas de seus cavalos que havia uma longa linha deles.

                Essa é uma história que aconteceu a cerca de vinte anos atrás. Tinha uma curadoria nessa ilha, e um dia ele foi chamado até a outra ilha no dia seguinte. Durante a noite, ele disse para sua servente limpar suas botas e deixa-las boas, pois ele encontraria boas pessoas onde estava indo. Ela disse, “Irei, Padre Sagrado, se você me der sua mão e sua palavra para me casar por nada30, eu as limparei”, e ele disse, “Irei; quando você arrumar um companheiro eu lhe casarei por nada, eu dou minha mão e palavra.” Ela então tinha botas limpas para ele na manhã seguinte. Bem, ela teve uma doença depois disso, e depois de sete meses ela foi enterrada. Seis meses depois disso, a curadoria estava em sua saleta uma noite com a lua brilhando, ele viu um menino e uma menina do lado de fora da casa, eles vieram até a janela e ele soube que era a sua servente que tinha sido enterrada. Ela disse, “Tenho um companheiro agora, e vim até você para nos casar conforme deu sua palavra.” Ele disse, “Cumprirei minha palavra uma vez que a dei,” e ele então os casou e eles foram embora novamente [36]. 

Fonte: GREGORY, Lady Augusta. "Visions and Beliefs in the West of Ireland". 1920. Disponível em: <http://www.sacred-texts.com/neu/celt/vbwi/index.htm>. Acesso em: 12 de janeiro de 2016.  

Notas de tradução

1. Muros. Refere-se talvez aos muros de um dólmen, uma tumba megalítica coberta com uma grande laje de pedra. Ou, também podem se referir aos muros irlandeses que separam estradas e campos.
2. Land War. Conhecida em irlandês como Cogadh na Talún, foi um grande período de agitação civil que causou muitos acidentes e mortes, apesar de ser chamada de guerra. A agitação foi conduzida pela Irish National Land League que buscava uma melhor posição aos inquilinos de terra e a redistribuição do solo dos senhores aos seus inquilinos.
3. Forte. Provavelmente mesmo que rath, um montículo de terra remanescente de habitações circulares na Irlanda.
4. Levado por eles. É uma expressão comum na Irlanda e nesse artigo, significando que uma pessoa foi abduzida pelo povo dos sídhe, isto é, as “fadas”.      
5. Rath. Um montículo de terra remanescente de habitações circulares na Irlanda.
6. Hurling. Segundo o site “Wikipédia”, o hurling é um jogo nacional irlandês semelhante ao hóquei.
7. Muro. Mesmo que a nota 1.
8. Llanberis. Aldeia galesa localizada em Gwynedd.
9. Adquiriu o toque. No sentido de ter pegado a doença.
10. Workhouse. Essa palavra pode ter duas traduções: na primeira, workhouse é uma instituição pública do Reino Unido onde uma pessoa destituída de paróquia recebe alojamento e comida em troca de trabalho; na segunda, pode significar “hospício”, mas o tradutor não sabia qual termo aplicar, já que a mulher estava paralisada, e não louca.
11. Bodach. Provavelmente usado como uma forma de insulto, bodach é um espírito escocês semelhante ao Bicho papão. A palavra significa literalmente “homem velho”, e segundo o site “Wikipédia”, historicamente se usava para se referir a uma pessoa madura, já que bod significa “pênis”, e a palavra então ficava literalmente como “alguém que tem um pênis.”
12. Cromwellian. Segundo o site “The Free Dictionary”, significa qualquer coisa relativa à Cromwell, um político, militar e religioso inglês que conduziu a vitória parlamentar na Guerra Civil inglesa (1642-1649).
13. Terra dos Jovens. Tír na nÓg, uma das ilhas encantadas do Outro mundo localizada no mar à oeste.
14. Calções. O termo original em inglês é breeches, que significa “calções que vão até o joelho”.
15. Nessa parte, ela diz que a mãe dela colocava coisas na cama para tentar parecer que era ela que dormia lá.
16. Forth. Provavelmente mesmo que rath, um montículo de terra remanescente de habitações circulares na Irlanda.
17. Lisheen. A Mina Lisheen é uma mina de zinco e chumbo localizado entre as aldeias de Moyne e Templetuohy no Condado de Tipperary.
18. A tradução me pareceu um pouco confusa. Parece-me que ninguém pode dormir, pois a Missa pode ter durado um dia inteiro.
19. O sinal da cruz, provavelmente.
20. Cavalos. O termo original em inglês é stock que pode significar muitas coisas; a tradução mais cabível para mim era “cavalos”.
21. Spencer. Uma jaqueta pequena e apertada usada por mulheres e crianças no início do século XIX.    
22. Mummers. Também conhecidos como wrenboys ou guisers, são um grupo de atores amadores que se fantasiavam e iam em grupos dançando e cantando pelas ruas.  
23. Dundonians. As notas do Yeats dizem que estes são os Tuatha Dé Danann.
24. Arremessando. O arremesso, em inglês hurling. Ver nota 6.
25. Sessenta. O termo original em inglês é threescore, que ao pé da letra se traduz como “três vezes vinte”, isto é, sessenta. No entanto, essa foi a única tradução que encontrei para a palavra, mas me parece pouco provável que o Velho Deruane na época tinha 75 anos.
26. Muro. Nesse caso é bem provável que se refira aos famosos muros de pedra irlandeses que separam campos, terrenos, estradas, etc., já que são uma característica famosa em Inish-maan (Inish meáin, “Ilha média”).
27. Pampooties. Pampooties são sapatos de pele de cavalo usados nas Ilhas Aran, local onde a história está sendo contada.
28. Sheogney. Algo relativo aos Sídhe, as fadas.
29. Curragh. Também conhecido como currach, é um tipo de barco irlandês feito de madeira e coberto com peles em seu interior.
30. Stirabout. Um tipo de mingau de aveia originalmente feito na Irlanda.
31. “Me casar por nada” acredito que seja no sentido de não cobrar por isso.

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