sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O deus Lugh



LUGH
Deus de todos os ofícios e artes, dos guerreiros e dos juramentos

Fonte: Classic Mythology

Então Bres, filho de Elathan  disse: “Estou surpreso que o sol esteja levantando-se hoje no oeste, e não no leste como nos outros dias.” “Melhor seria para nós se fosse o sol,” disseram os druidas. “O que é então?” disse ele. “É a face brilhante de Lugh mac Ethlinn.”

                Lugh (pronuncia-se ) é outro deus bastante conhecido nas terras gaélicas, tanto que sua fama foi tão grande que seu nome é conhecido até mesmo na Ilha de Man. Embora pertença aos Tuatha Dé Danann, Lugh é fruto de uma união interclânica entre um Tuatha Dé Danann e uma divindade fomoriana. Ele possui uma rica tradição mitológica e folclórica, mas é difícil traçar seus atributos valendo-se apenas dessas evidências; é uma divindade complexa para ser descrita, pois possui tantos atributos que talvez possam ser resumidos em apenas uma característica principal: o deus de todas as artes.


                Lugh (ou Lug) é uma divindade que possui muitos títulos e epítetos; seu nome em si também pode receber duas interpretações diferentes: uma delas vem possivelmente do termo leuk, que significa “luz”, e outra teoria mais provável de ser verdadeira é que a origem de seu nome seja lugio, que significa “juramento”. Alguns estudiosos acreditam que seja pouco provável que seu nome derive-se de leuk, por questões linguísticas, visto que futuramente o termo nunca se transformaria em Lugh. Ele é conhecido principalmente como Lugh Lámhfada (“Do Braço Longo”), Lonnbeimnech (“Atirador feroz”), Ildánach (“O de muitas artes”) e Samildánach (“Habilidoso em muitas artes”), mas também encontramos Lugh Lonnannsclech como um de seus nomes. Às vezes, ele se apresenta como Lugh mac Cian (“Filho de Cian”), ou unicamente em toda a mitologia gaélica, como Lugh mac Eithlinn (“Filho de Eithlinn”), sendo o único deus cujo nome se deriva do nome de sua mãe. Há um poema no Lebor Gabála sobre os Tuatha Dé Danann, que chama Lugh de “a lança mortífera”, “cheio de vitórias”, e um dos Dindshenchas o chama de “Lugh das lanças vermelhas”. 

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Fonte: Autoria desconhecida
                O principal atributo de Lugh é sua multi-habilidade. É uma divindade versada em todas as artes e ofícios humanos, e tal atributo pode ser confirmado através do significado de dois de seus títulos mostrado acima – Ildánach e Samildánach – assim como na mitologia. O principal mito que comprova esse seu atributo é o que conta sua chegada em Tara; ele chega com seu bando de guerreiros (guerreiros que segundo a lenda manêsa, são seus irmãos adotivos, filhos de Manannan mac Lir, com quem foi criado) e o porteiro lhe pergunta qual é sua habilidade, pois qualquer um que entrasse em Tara, precisava dominar uma. Ele se apresenta como um carpinteiro, ferreiro, campeão, herói, harpista, poeta, historiador, feiticeiro, médico, copeiro e trabalhador em bronze, mas para cada ofício que ele diz, o porteiro diz que sua presença não seria justificada, já que existem esses profissionais em Tara. Lugh então manda o porteiro perguntar ao rei se existe alguém em Tara que possui todas essas habilidades juntas, e que se tivesse, ele não entraria. Nuada, o rei dos Tuatha Dé Danann naquela ocasião, enviou vários tabuleiros de fidchell (um antigo jogo irlandês de tabuleiro que pode ter dado origem ao nosso xadrez moderno), e Lugh ganhou todas as partidas. Sendo assim, ele é admitido em Tara, e ao ver as incríveis habilidades do guerreiro, Nuada prepara para ele o “Assento do Sábio”, pois ele “é um sábio em todas as artes”, e depois disso, Nuada organiza um conselho com os deuses, e todos concordam que Lugh deveria ser rei, e sendo assim, Nuada passa seu reinado para o deus habilidoso, onde permanece sendo rei durante quarenta anos após a Segunda Batalha de Moytura. Suas habilidades eram tão grandes e tão estimadas por todos que, na Segunda Batalha de Moytura, todos os Tuatha Dé Danann concordam em não deixa-lo ir à vanguarda das tropas e colocaram nove guerreiros para protegê-lo, pois todos temiam a morte de um deus tão dotado e habilidoso. 
Fonte: Autoria desconhecida
                 Logo ao entrar em Tara, Lugh mostra sua habilidade como harpista, atendendo ao pedido das tropas. Primeiro, ele toca a Melodia do Sono, fazendo com que todas as tropas dormissem daquela hora até a mesma hora do dia seguinte; depois, ele toca a Melodia do Choro, e todos ficam tristes e chorosos, e por último, a Melodia do Riso, fazendo todos ficarem felizes e alegres. Sabe-se também que ele é um habilidoso médico, pois no Táin Bó Cualnge (o épico irlandês que relata uma tentativa de roubo do touro encantado Donn Cualnge, sendo impedido por um jovem herói chamado Cuchulainn) ele aparece para seu filho semi-mortal, o herói Cúchulainn, quando ele estava com seu cocheiro Laég. Ele caminha até os dois por entre a tropa sem que ninguém o veja, apenas os dois. Vendo que seu filho estava extremamente machucado e não dormia por dias, ele o coloca para dormir através de um encantamento, e durante seu sono, coloca diversas ervas, plantas medicinais sobre suas feridas de batalha e canta encantamentos de cura, e ao acordar, todas as suas feridas haviam sido curadas.

Fonte: Site "Hubpages"
                Assim como Dagda e Ogma, Lugh também é descrito tendo uma força sobrenatural. Ao entrar em Tara no mesmo mito já mencionado, Ogma pega uma laje de pedra que fica no meio do palácio e a arremessa para fora, como uma provocação para Lugh. Ele, para mostrar que também é capaz, pega a laje de pedra, e a arremessa novamente para dentro, no mesmo lugar onde estava – essa laje de pedra, no entanto, requer a força de oitenta bois para movê-la; sua habilidade como campeão então também está comprovada. Acredita-se também que Lugh seja a primeira pessoa (ou o inventor) a trazer o fidchell para a Irlanda, assim como o “jogo de bola” (provavelmente seja o hurling ou o futebol gaélico) e a corrida de cavalos. Além de todas essas habilidades, ele também é muito sábio, pois matou Bres através de um estratagema muito inteligente: com a ajuda de Nechtán, que jogou cinza em todas as vacas da Irlanda para deixa-las com o pelo escuro, Lugh mandou fazer várias vacas de madeira e preencheu-as com um líquido vermelho (em outras fontes diz ser uma “substância do pântano”, mas em ambos os casos, significa veneno). Essas vacas são levadas para Carn Ui Neit, e Bres é convocado até lá. Lugh “ordenha” esse “leite” através das tetas de madeira das vacas falsas, e oferece um copo para Bres, que não podia rejeitar qualquer hospitalidade, e então morre envenenado. Além disso, foi ele que organizou todas as estratégias e provisões de guerra para a Segunda Batalha de Moytura, junto com Dagda, Diancecht, Goibniu e Ogma.

                Outra provável característica de Lugh é ele sendo um deus dos guerreiros, da guerra, ou pelo menos das estratégias militares. Há algumas referências na mitologia que podem ajudar a comprovar esse fato: ele sempre é descrito com um guerreiro, um deus que fica furioso rapidamente e que não foge de combate, segundo um poema que mostra a conversa de Lugh com o porteiro de Tara. Na Segunda Batalha de Moytura, ele se reúne com Dagda, Goibniu, Ogma e Diancecht para discutir as táticas de batalha, e é ele que manda o Dagda para espionar o acampamento dos fomorianos e de alguma forma tentar atrasá-los, além disso, no início da batalha ele escapou de seus nove guardas e foi para a vanguarda das tropas, fortalecendo os homens, encorajando-os, para que cada um ficasse com o espírito de um rei e de um nobre e valente guerreiro; ele os estimula, dizendo que é melhor morrer protegendo sua prática do que vivendo sob os tributos dos fomorianos. Ele coloca-se em um pé, e com um olho fechado, canta um encantamento sobre a tropa. Ainda, diz-se que durante o Táin Bó Cualnge, Lugh lutou ao lado de seu filho Cúchulainn na Batalha de Sesrech Breslinge, e em outra ocasião quando Lugh vem para curar as feridas de Cúchulainn, enquanto ele dormia, Lugh combateu seus inimigos no lugar do filho. 

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Lugh. Fonte: Parte de uma obra de John Duncan.
                Lugh ainda possui muitas armas de guerra, o que pode suportar a crença dele sendo um deus-guerreiro: sua principal arma é a Lança de Lugh que tinha sido trazida de Findias (uma das quatro ilhas ao norte do mundo onde os Tuatha Dé Danann tinham aprendido todas as suas habilidades até serem melhores que seus mestres) – dizia-se que nenhuma batalha era vencida contra essa lança ou contra qualquer pessoa que a empunhasse (outras fontes, no entanto, diz que Lança de Lugh não pertencia à ele, e sim à Nuada, que por sua vez, sua Espada vinda de Gorias pertencia à Lugh, e não a Nuada. Ainda, outra versão diz que a Lança de Lugh não veio de Findias, e sim de Gorias). Lugh possui uma relação muito forte com lanças; além dessa já citada, ele pediu a Lança Luin que pertencia ao Rei da Pérsia como parte da punição que ele deu aos Filhos de Tuirenn por ter matado seu pai Cian – essa lança mortal deveria sempre estar mergulhada em um balde de água para não queimar tudo o que ela tocasse. Lugh também é chamado de “a lança mortífera” ou “Lugh das lanças vermelhas”, conforme já foi citado, e quando ele aparece para Cúchulainn, ele empunha uma lança de cinco pontas. Curiosamente, ele também morre com um golpe de lança no pé. Ele vestia uma cota de malha que ninguém poderia ferir quem a usava, e um peitoral que nenhuma arma podia perfurar – ambos presentes de Manannan mac Lir para ele. Seu capacete tinha duas pedras preciosas brilhantes, uma na parte da frente, e outra atrás. Ele também empunhava a espada Freagarthach, “Ela que responde”, também dado ou emprestado por Manannan, e nenhum homem poderia se recuperar de um golpe dado por essa espada. Lugh é também descrito usando o “manto da filha de Flidais”, mas não se sabe se esse item tinha alguma propriedade encantada que fosse ajudar na batalha. Por último, mas nunca menos a importante, o famoso estilingue que matou seu avô Balor na Batalha de Moytura. Era uma divindade tão terrível em batalha, que em uma versão da chegada dos Tuatha Dé Danann na Irlanda, estes queimam seus barcos para que Lugh não os encontrasse e disputasse o reinado com Nuada.

                Com essa característica de deus-guerreiro, é provável que ele também tenha alguma ligação com cavalos e a cavalaria. Ele é descrito sempre acompanhado com os “Cavaleiros do Sídhe”, que são seus irmãos-adotivos, filhos de Manannan, criados junto com ele em Emain Abhlach (ou em Tír Taírnge, em algumas versões, ambos provavelmente indicando a Ilha de Man como o local real). Acredita-se também que ele foi o inventor das corridas de cavalos, e ele também cavalga o Enbárr, o cavalo de Manannán que podia correr tanto na terra como no mar, e que era tão rápido como “o claro e frio vento de primavera”.

                Curiosamente, Lugh também possui associações com o clima e os raios. No folclore do Condado de Mayo, Irlanda, diz-se que quando há uma tempestade as pessoas dizem “O vento de Lugh do Braço Longo está voando essa noite” e “Sim, e as faíscas de seu pai”. As faíscas no caso, são os raios, e o “pai”, é Balor. No Lughnassadh, festival que leva seu nome, é comum ter tempestades do final de verão, e alguns estudiosos acreditam que a luta de Lugh e Balor na Segunda Batalha de Moytura pode ser uma explicação teológica para essas tempestades: Balor Béimeann, que é conhecido por ter um “olho venenoso e mortal” – seu único olho permanecia sempre fechado em sua cabeça com nove dobras de sua pálpebra, e só era aberto no campo de batalha, matando qualquer guerreiro que apenas olhasse para o olho – é derrotado pelo seu neto Lugh (conforme havia sido profetizado por um druida) com uma pedra através de um estilingue que o deus da Mão Longa arremessa em seu olho na Segunda Batalha de Moytura, quando ele pede para seus guerreiros abrirem seu olho para que ele possa ver: quando a pedra é lançada, o olho voa por trás de sua cabeça, matando centenas de guerreiros com o olhar, e as coroas de suas cabeças são jogadas no peito de Indech – um rei Fomoire – matando-o. Seus epítetos Lámhfada (“Mão Longa”) e Lonnbeimnech (“Atirador feroz”) parecem comprovar isso, e alguns acreditam que uma possível tradução de seu nome seja “Luz”, embora seja pouco provável por alguns estudiosos. No entanto, há alguma ligação entre Lugh e a luz: o próprio rosto dele brilha tanto que é comparado ao brilho do sol no entardecer, e eles não eram capazes de olhar seu rosto devido a esse brilho. Quando Bres avista o que parecia ser o sol nascendo no oeste, ele se pergunta por que o sol não nasceu no leste como nos outros dias, mas seus druidas respondem que não é o sol – era o rosto de Lugh. Contudo, isso não torna a divindade um “deus da luz” e tampouco, deus do sol; Ogma também tem o epíteto de Grianainech (“Ensolarado” ou “Do sol”), e isso não o torna uma divindade solar.

                Ainda citando seus atributos, é provável que Lugh tenha sido uma divindade que presidia sobre os juramentos. O primeiro fato que parece corroborar com isso é uma provável tradução de seu nome como “juramento”, e no conto do Destino dos filhos de Turenn, ao pedir a multa a Brian, Iuchar e Iucharba, Lugh faz questão de jurar que não pediria a eles nada mais que o que ele havia dito, e também pede para que eles jurem que cumprirão a tarefa – sendo ou não coincidência, é um ponto extra; ademais, Lugh é uma das três divindades junto com o Dagda e Ogma que dão garantias à Fuamnach que Midhir não a mataria, após ela ter transformado Etaín em um inseto (ou seja, a palavra – o juramento – do deus é verdadeira). Ainda nas terras gaélicas, no Ciclo de Ulster encontramos frequentemente o juramento, “Juro o juramento que minha tribo jura” (Luigim luigi luigis mo tuath). Sendo assim, através de estudos comparativos, é provável que Lugh também tenha sido um deus patrono do comércio e do dinheiro – o próprio manuseio do dinheiro tem a ver com contratos, assim como o comércio. Nas evidências gaélicas, encontramos que o Lughnassadh também é um festival onde o comércio e as feiras de venda e troca eram um aspecto muito relevante, assim como atividades legais e políticas e esperava-se também que o Rei de Tara realizasse uma grande assembleia. Entretanto, devemos ser cautelosos no estudo comparativo, especialmente no que tange à Lugh, já que alguns atributos que são atestados na divindade gaélica não são encontrados, por exemplo, em Lugus ou Llew Llaw Gyffes (duas divindades que parecem ter tido uma origem comum com Lugh e que compartilham atributos semelhantes) e vice-versa.

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Fonte: Autoria desconhecida.
                O festival associado à Lugh é o Lughnassadh, cujo nome significa “a assembleia de Lugh”. Pode ter sido que Lugh tenha recebido honrarias no festival, mas o que está mais certo é que a verdadeira homenageada é Tailtiu, sua mãe adotiva, pois Lugh institui o festival após Tailtiu morrer de exaustão após limpar a floresta de Coill Cuan, transformando-a em uma planície. Ele cria o festival para fazer jogos e lamentações em honra à sua mãe adotiva, e os guerreiros também faziam proezas com armas em homenagem à ela, uma quinzena antes e uma quinzena após o festival. O Lughnassadh marca o início das colheitas, e de fato, há uma associação entre o festival, as colheitas e o deus Lugh. Na Segunda Batalha de Moytura, Lugh encontra Bres desprotegido no campo de batalha, e se fosse poupado, Bres diz que faria com que as vacas da Irlanda sempre dessem leite e que os irlandeses teriam uma colheita a cada trimestre do ano, mas Lugh recusa, e ao invés disso, pergunta a Bres como e quando os irlandeses deviam arar, semear e colher, e assim, ele ganha o conhecimento agrícola e Bres é liberado. No folclore irlandês, há algumas histórias associadas com o festival onde uma divindade obscura chamada Crom Dubh luta com São Patrício (que alguns estudiosos acreditam ser o substituto para Lugh) fazendo dessa história o tema central do festival: Crom Dubh é um fazendeiro possuidor de muitos bens e colheita farta que não está disposto a dividir seus ganhos, e Lugh, o jovem aventureiro, vence Crom Dubh e distribui a colheita próspera e farta com o seu povo. Pode ser que Lugh também tenha sido associado com o Mean Fomhair (“O Meio de Outono”) – primeiro por que seria o segundo festival da colheita entre os gaélicos (se uma das causas da associação de Lugh com o Lughnassadh forem de fato as colheitas) e depois que este dia também era conhecida como Latha na Marchachd (“Dia da Equitação”) na Escócia, onde corridas de cavalos aconteciam.

                Como já foi falado, existe uma rica tradição mitológica a cerca de Lugh, e além dos mitos já citados acima, existem diversos outros. Diz-se que seu avô Balor tinha uma filha chamada Eithlinn, e este a trancou em uma torre na Ilha de Tory, a Tór Mór, junto com doze mulheres para que ela nunca encontrasse nenhum homem, pois havia sido profetizado por um druida que Balor seria morto pelo seu neto. Cian, filho de Diancecht, consegue acesso à torre disfarçado de rainha com a ajuda de Biróg, uma druidesa (ou uma mulher dos Sídhe) através de uma rajada de vento que o transporta para lá. Ele se une com Eithlinn, que gera Lugh. Quando a criança nasce, Balor ordena que seu povo leve a criança para o mar para afoga-lo, mas ao chegar ao mar, o pino que envolvia a criança em um manto se solta, e a criança cai no mar, sendo resgatada posteriormente por Biróg, que dá para Cian e que por sua vez, dá o filho para Tailtiu, para adoção. Em outras versões do mito, os Fomoire e os Tuatha Dé Danann fazem uma aliança, e para selar essa aliança, dá Eithlinn para Cian, que juntos concebem Lugh. Em outras histórias, Lugh é levado para a Corte de Manannán para ser criado em Emain Ablach, a terra dos teixos e cisnes, ou em Tír Taírnge (“Terra da Promessa”), e lá, é revelado que ele precisa ir para Temair. Ele também assume um papel importante no mito “O destino dos filhos de Turenn”: seu pai Cian é morto pelos filhos de Turenn – Brian, Iuchar e Iucharba – e quando Lugh descobre, impõe uma multa e uma punição sobre eles, mandando-os em buscas supostamente “impossíveis” de armas e itens encantados, pois ele saberia que eles não sobreviveriam à viagem já que todos os itens eram poderosamente guardados. Alguns desses itens – as maçãs douradas do Jardim Ocidental que curavam todas as doenças, a pele do porco de Tuis que curava todas as feridas e transformava água em vinho, a sua mortal Lança Luin, os dois cavalos e a carruagem de Dobar, que eram os mais velozes do mundo e podiam andar no mar também, a cachorrinha que era o animal mais bonito do mundo, os sete porcos cuja carne curava todas as doenças, o espeto de cozinhar de Cenn-fhinne – seriam posteriormente utilizados na Segunda Batalha de Moytura. A última tarefa dada à eles por Lugh resultou na sua morte – dar os três gritos na colina de Miochaoin, onde foram gravemente feridos e Lugh recusou-se dar a pele do porco para curá-los. Em outra versão, Lugh mata os três irmãos no mar – provavelmente uma interpretação diferente da mesma história. Lugh também tinha um poeta que se chamava Abean, o filho de Bec-Felmas, e que havia sido morto por Angus. Lugh junto com o Dagda e Ogma vai até o acampamento dos fomorianos para recuperar a harpa que havia sido roubada do Dagda após a Segunda Batalha de Moytura.

                Lugh é o pai divino de Cúchulainn. A filha do rei Conchobar, Dechtire, tinha fugido com cinquenta donzelas na forma de um bando de pássaros até Emain Macha, e lá, destruíram as colheitas dos homens. Bricriu, Conchobar e outros homens procuraram por elas durante três anos, até que um dia, Bricriu escuta a melodia encantada de Cnu Deiroil (“A Pequena Avelã”, que em outros contos diz ser filho de Lugh; era um homem pequeno e cabelo loiro que chegava até sua cintura. Era um harpista que também já apareceu para Finn e os Fianna para tocar música para eles) que o atrai para a bela e ornamentada mansão de Lugh, e lá, ele encontra Dechtire com suas cinquenta donzelas, e ao ser levada para seu pai, ela já estava tendo as dores do parto. Quando todas acordam na manhã seguinte, o bebê Cuchulainn estava enrolado no manto de Conchobar, que disse que criaria o menino como se fosse seu próprio filho.

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Lugh em parte da obra de Jim Fitzpatrick.

                Lugh também aparece para o rei Conn das Cem Batalhas com seus druidas e poetas, que chegaram até sua mansão encantada através de uma névoa, convidados por um cavaleiro. Sua casa tinha cerca de trinta pés de comprimento e a trave horizontal (uma viga) era feita de bronze branco. Na mansão, Conn e os druidas encontram Lugh sentado em seu trono, sendo descrito como o homem mais belo, nobre e maravilhoso que já existiu em Tara, junto com uma mulher que se apresenta como “A Soberania da Irlanda”. A mulher dá a Conn uma costela de boi e javali, e quando divide as bebidas, pergunta a Lugh para quem deve dar o cálice dourado com a cerveja dourada. Após dá-la a Conn, ela enumera todos os reis que governariam Tara e a extensão de seu reinado, e posteriormente, tudo havia sumido, e Conn se encontra novamente na planície de onde veio com seus druidas, poetas, um barril com cerveja vermelha e o cálice dourado.

                Há um mito que diz que Lugh matou Cermait Milbél por ele ter dormido com sua esposa Buach, a filha de Daire Donn (outras fontes dizem que isso era mentira de um druida, entretanto). Por consequência disso, os três filhos de Cermait – Mac Cuill, Mac Greine e Mac Cecht – armam um plano para matar Lugh em Uisnech, e Mac Cuill arremessa uma lança em seu pé, mas ele foi capaz de fugir para Loch Lugborta devido a sua agilidade, mas lá ele morre afogado. Uma pedra foi erguida para enterrar seu corpo – o Carn Lugdach, “Túmulo de Lugh” – e o Lugh também dá seu nome ao lago. Em outras versões, ele não morre afogado, mas assassinado por Mac Cuill. É curioso que ele morre pelos três filhos de um pai que ele mata, e mata os três filhos que mataram o seu pai Cian.

                Lugh é filho de Cian mac Diancecht e Eithlinn ní Bhaloir, sendo neto de Balor e Ceithlenn por parte de mãe, e neto de Diancecht por parte de pai. Eblenn da Pele Radiante é sua irmã, também filha de Cian e Eithlinn. Seus filhos são Cúchulainn e Cnu Deiroil, e ele teve muitas esposas: Duach que o traiu com Ogma, Buí e Nas – as duas filhas de Ruadri Ruad (Buí provavelmente é a mesma que Cailleach Beara), Dechtire e provavelmente uma mulher apresentada como “A Soberania da Irlanda” (Ériu, talvez?). Seus pais adotivos são Tailtiu, a filha de Mag Mór e esposa de Eochaid mac Eirc, e Manannan mac Lir.

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Fonte: Site "Hd Wallpapers Cool"
                Existe uma vaga associação entre Lugh e o teixo (a Luin pode ter sido feita de teixo), portanto, essa pode ser uma árvore relacionada a ele, assim como a Ogham da mesma árvore; como ele é associado intimamente com o Lughnassadh, que era a época onde a colheita de trigo e cevada começava na Irlanda, assim como a uva-do-monte e fruta da groselheira, estas podem ter sido associadas com ele (sabe-se que no Lughnassadh na Irlanda, o primeiro maço da colheita era enterrado em agradecimento, mas essa pode ter sido uma prática mais associada com Tailtiu do que com Lugh em si). Não consigo imaginar nenhuma cor associada a ele, mas o dourado é uma cor nobre assim como é a cor dos trigais e campos de cevada (e de algumas moedas, se fomos vê-los como um deus do comércio). Os lugares que tem ligação com ele são: Uisnech, Tara, Emain Ablach, Tír Taírnge, a Ilha de Man e o Lago Lugborta (a localização atual desse lago não foi encontrada). As oferendas para ele podem ser: ramos de teixo, maços de trigo e cevada, a cerveja (ale) vermelha irlandesa, uva-do-monte, groselheira, leite, mel, bannocks, pão, manteiga, ovos, carne (talvez de javali ou boi), e especialmente, trabalhos artísticos. Seus animais podem ter sido os cavalos, e provavelmente, o javali e o boi. Lembrando que, apesar do que escrevi nesse parágrafo ter uma base, tudo é pura especulação (tirando a parte dos lugares que realmente tem a ver com ele, e as ofertas tradicionais do Creideamh-sí).

                Você pode orar para ele diante do fogo ou durante uma tempestade (especialmente aquelas do final do verão). A melhor época para homenageá-lo é o Lughnassadh, e suas oferendas podem ser queimadas. Ele é o deus de todas as artes e habilidades, então trabalhos manuais e artísticos serão muito bem-vindos para ele, assim como dedicar esses trabalhos a ele, ou qualquer tarefa artística. Se o vermos como o deus do comércio, então o comércio, o dinheiro e as trocas também são suas atribuições, e ele pode abençoar um negócio fazendo-o prosperar; cumprir e manter com sua palavra e seus juramentos também é uma forma de honrá-lo. Lugh é o deus de todos os ofícios, o nobre e destemido guerreiro que protege sua tribo e seus filhos. Para toda arte, ele tem o domínio; para todo problema, ele tem a solução.

Resumo

Nomes e títulos: Lugh, Lug, Samildánach (“Habilidoso em muitas artes”), Ildánach (“O de muitas artes”), Lonnbeimnech (“Atirador feroz”), Lámhfada (“Braço Longo”), Lonnannsclech, “A lança mortífera”, “O cheio de vitórias”, “Das lanças vermelhas”, Lugh mac Eithlinn (“Filho de Eithlinn”) e Lugh mac Cian (“Filho de Cian”). Ele se apresenta para Conn como Scál (“Fantasma”).  

Parentescos e linhagem divina: Seus pais são Cian e Eithlinn, sendo neto de Balor e Ceithlenn por parte de mãe e neto de Diancecht por parte de pai. Tem Eblenn da Pele Radiante como irmã, e seus filhos são Cúchulainn e Cnu Deiroil. Teve como esposas Duach, Buí, Nas, Dechtire e provavelmente uma mulher que se apresenta como “A Soberania da Irlanda”. Ele foi o filho adotivo de Tailtiu, e em outros casos, também de Manannan mac Lir.

Características físicas e temperamento: Na maior parte dos mitos é descrito como um nobre, formoso e belo guerreiro sempre usando vestes reais. Ele possui um semblante nobre e se irrita facilmente, assim como não foge de uma batalha. Ele é descrito sendo um homem alto, forte, com um longo cabelo loiro encaracolado e com as bochechas rosadas. Usava um manto verde preso por um broche prateado e uma túnica vermelha com bordados em ouro vermelho, empunhando uma lança de cinco pontas, um dardo bifurcado e um escudo negro com o aro de bronze branco. Há relatos de que ele foi o rei mais maravilhoso, belo e extraordinário que Tara já teve, e nunca existiu antes um homem como ele.  

Atributos: É o deus de todas as artes – ele domina todas as habilidades e é patrono de todos os ofícios. Pode ser que exista uma relação entre a guerra, os guerreiros e as estratégias militares. Através do significado do seu nome, também podemos supor que ele seja um deus que presida sobre os juramentos e promessas, e através de estudos comparativos, podemos imaginar que ele também seja um deus do comércio e do dinheiro, assim como de aspectos legais e políticos; como o Lughnassadh (o seu festival) também tem os mesmos aspectos citados anteriormente, este fato pode ajudar a confirmar essa teoria.  

Contos e histórias: Há uma rica tradição mitológica associada com essa divindade. Podemos encontra-lo na Segunda Batalha de Moytura, no conto folclórico que relata seu nascimento, na concepção do guerreiro Cúchulainn com sua amante Dechtire, no Táin Bó Cualnge onde ele ajuda seu filho Cúchulainn, na sua chegada em Tara, em sua aparição como um fantasma para o rei Conn das Cem Batalhas, no Destino dos Filhos de Turenn, ele também aparece no mito de sua mãe adotiva Taltiu e há uma história que relata sua morte pelos filhos de Cermait Milbél.

Cores: Não nos restou nada que possa indicar sua relação com alguma cor em especial, mas acredito que o dourado possa ter alguma relação com ele, visto que é uma cor dos nobres, assim como é a cor dos trigais e campos de cevada prontos para a colheita e das moedas de ouro, se o vermos como um deus do comércio e do dinheiro – mas claro, tudo isso é pura especulação.

Árvores e plantas: O teixo, provavelmente. Se traçarmos uma ligação também com o Lughnassadh, então também a groselheira e a uva-do-monte, assim como o trigo e a cevada.

Animais: Bastante provável que ele tenha uma relação com cavalos, e acredito que possa ter tido alguma relação com bois e javalis – na sua casa, é oferecido para Conn das Cem Batalhas a carne desses dois animais.

Lugares: Uisnech, Tara, Emain Ablach, Tír Taírnge (acredita-se que esses dois lugares sejam na verdade a Ilha de Man), a Ilha de Man e Loch Lugborta.

Instrumentos/armas: A Lança de Lugh que veio de Findias (ou Gorias, em outras versões), a lança Luin do Rei da Pérsia, o estilingue, “a capa da filha de Flidais”, a espada Freagarthach, a cota de malha e o peitoral – ambos emprestados por Manannán, assim como o barco Scuabtuinne e o capacete com duas pedras preciosas.  

Símbolos: Nenhum que se saiba, mas seus instrumentos citados acima podem ser usados para simbolizá-lo, especialmente a lança e o estilingue.

Festivais: Embora o foco seja sua mãe adotiva Tailtiu, como o Lughnassadh foi um festival criado por ele em honra à sua mãe, ele possui uma forte ligação com a festa. Pode ser também que ele tenha recebido homenagens no Mean Fomhair, o equinócio de outono, pelo fato de ser realizadas corridas de cavalo no festival e por ser também a segunda festa da colheita.   

Oferendas: Qualquer tipo de arte feita por você ou não, dedicar a ele um trabalho manual ou o seu ofício, cumprir com a sua palavra e honrar seus compromissos, cerveja vermelha irlandesa, groselhas, uva-do-monte, trigo, cevada e moedas e ramos de teixo - talvez. O creideamh-sí também prescreve leite, mel, pães, manteiga, carne, ovos, poesia, flores, e etc. para todos os seres encantados.  


Bibliografia e leitura recomendada    

Lebor Gabála Érenn (“O Livro das Invasões”)
Cath Dédenach Maige Tuired (“A Segunda Batalha de Moytura”)
Tuatha De Danand na set soim (“Os quatro tesouros dos Tuatha Dé Danann”)
Oidhe Chloinne Tuireann (“O destino dos filhos de Turenn”)
Tochmarc Étaine (“O cortejo de Etain”)
Ar an doiseoir ris an deaghlaoch (“O porteiro fala ao nobre guerreiro”)
Báile in Scáil (“O êxtase do fantasma”)
Compert Con Culain (“O nascimento de Cúchulainn”)
Táin Bó Cúailnge (“O roubo do gado de Cualnge: primeira revisão”)
Táin Bó Cúailnge (“O roubo do gado de Cualnge: a versão de Leinster”)
Os métricos Dindshenchas, vol. 3, poema 4: Cnogba
Os métricos Dindshenchas, vol. 3, poema 5: Nás
Os métricos Dindshenchas, vol. 3, poema 40: Carn Hui Neit
Os métricos Dindshenchas, vol. 4, poema 33: Taltiu
Os métricos Dindshenchas, vol 4, poema 86: Loch Lugborta
Gods and Fighting Men: The Coming of Lugh, de Lady Gregory.
Gods and Fighting Men: Finn’s Household, de Lady Gregory.
Folklore of the Isle of Man: capítulo 1, de A. W. Moore.
The Festival of Lughnasa: página 598, “Lugh and the Weather”, de Maire MacNeill.
Site: Celtocrabiion, O deus multi habilidoso, de Condeuios Andilixtos
Site: Tairis, Lùnastal, de Annie Loughlin. Tradução do texto aqui.
Site: Tairis, Là Fhèill Mìcheil, de Annie Loughlin.
Site: Ildiachas, Celebrando o Equinócio de Outono, de Leonni Moura.   

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