sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O deus Dagda

DAGDA
Deus do clima e da terra

An Dagda. Fonte da imagem: Land of Ever-Living Ones

“E tu, ó Dagda,” disse Lugh, “qual poder exercerá contra a tropa fomoriana?” “Não é difícil responder,” disse ele, “Ficarei ao lado dos homens de Erin, batendo, destruindo ou encantando. Seus ossos sob minha clava serão como pedras de granizo sob as patas das manadas de cavalos”

                Dagda (pronuncia-se dá-da) é o deus principal da religião gaélica, visto por todos como uma figura divina paternal e muito poderosa. Líder dos Tuatha Dé Danann1 e pai de muitos deuses conhecidos dentro da mitologia gaélica, Dagda é o protagonista de diversos contos eróticos e engraçados. Ele possui itens mágicos e é dotado de grande conhecimento, tal característica que lhe atribui o título de o homem que possui todo a sabedoria do mundo – ele é o cavaleiro que parenteia todos, o deus que controla o clima proporcionando aos seus filhos nada menos que a fartura de colheitas abundantes e generosas.


                O Dagda é talvez a divindade que mais possua títulos e epítetos conhecidos, cada um dele ilustrando um atributo diferente. Seu primeiro título “Dagda” pode receber duas traduções: a primeira e a mais comumente aceita é “Bom Deus” (não no sentido de que sua índole seja boa, mas sim por ser bom em tudo o que fizesse e ser aclamado pelos homens por fazer maravilhas). A segunda tradução possível vem do Glossário de Cormac – um glossário irlandês contendo o significado de mais de mil nomes e palavras – e é “fogo de deus” ou “deus do fogo”. Vale ressaltar aqui que Dagda, ao invés de um nome, é um título; embora não se saiba qual seja seu nome exatamente antes de aderir ao título, ele é assim chamado por todos os Tuatha Dé Danann após um evento que aconteceu na Segunda Batalha de Moytura2, como será explicado mais pra frente. Outros títulos incluem: Eochaid Ollathair (“Cavaleiro Pai de Todos”), Rúad Rhofessa (“O Vermelho de Todo o Conhecimento” ou “Senhor do Grande Conhecimento”), Aed Abaid (tradução desconhecida), Dagda donn (“O marrom Dagda”), Dagda deirg (“O vermelho Dagda”), Dagda dein (“O poderoso Dagda” ou “O rápido Dagda”), Dagda duir (“O duro Dagda”), Fer Benn (“Homem dos picos”), Cerrce (possivelmente, “Golpeador”), Labair (“Barulhento”), Athgen mBethai (“Regeneração/Renascimento do Mundo”). “Dagda” também pode variar para Dagdae ou Dagán. Devido à sua complexidade, alguns nomes serão explicados individualmente nos parágrafos seguintes.

                Um de seus títulos Fer Benn, pode nos dar pistas de atributos muito curiosos do Dagda. Existem muitas traduções possíveis para o título de acordo com alguns estudiosos, como “homem dos picos”, “homem forcado”, “homem da montanha”, “homem da ponta”, “homem dos chifres”, dentre outras. Outro estudioso, no entanto, sugere que Fer seja uma corrupção de Fir, que significa “branco”, traduzindo então o título para “cume nevado”, mas penso não ser muito provável. O estudioso Scott A. Martin sugere que todos esses adjetivos possam ser aplicados ao Dagda: a referência às montanhas, cumes ou picos pode ser uma conexão com o seu tamanho gigantesco, e o “forcado”, “da ponta” possa ser uma referência à sua clava que é descrita como uma “forquilha com rodas”, na Segunda Batalha de Moytura (há explicações maiores sobre essa clava nos próximos parágrafos).

                O seu epíteto donn, pode conectá-lo com a cor marrom. Donn, pode ser traduzido tanto como “marrom” como “escuro”. No conto conhecido como a Intoxicação dos Homens de Ulster3, a túnica do Dagda é descrita como sendo “da cor do leite: cinza, parda”, e na Segunda Batalha de Moytura, sua túnica é parda. O estudioso Gwynn em sua tradução dos métricos dindshenchas4 traduz donn como “nobre” ou “principesco”, fornecendo vários exemplos em seu glossário para corroborar com a tradução. Por último, o estudioso Scott A. Martin diz que a cor possa ser uma referência ao marrom do carvalho, uma árvore com a qual o Dagda está intimamente ligado, como veremos mais abaixo. Além do marrom, Dagda é muito associado ao vermelho, onde encontramos diversas referências em seus nomes e títulos a essa cor. Além de Rúad Rhofessa, temos o Dagda deirg, que é traduzido como “o Dagda vermelho”. Sua relação com o vermelho pode conectá-lo a uma característica real, e Scott A. Martin escreve que, ele é associado com Ess Ruaid (Assaroe), da mesma forma que o rei Aed Rúad (que morre afogado nesse mesmo lugar). Na hipótese de Martin, ele diz que Aed Rúaid é pai de uma deusa com atributos intimamente relacionados aos cavalos – Macha Mongruad, “da juba vermelha” – e um dos títulos do Dagda é “Cavaleiro Pai de Todos”. Vale a pena observar também que o vermelho é frequentemente usado relacionando-se com personagens sobrenaturais do outro mundo, assim como o Dagda.

                Seu título Dagda dein, pode ser traduzido tanto “rápido” como “poderoso”. Outras traduções também incluem “puro”, “limpo” ou “sagrado”. No entanto, assim como Scott A. Martin, estou inclinado a acreditar que signifique “poderoso”, corroborando com a frase do manuscrito Cóir Anmann5 que diz que o poder do Dagda era imenso – e um deus que tem um poder imenso, é obviamente, poderoso. E por último, o Cóir Anmann diz que Eochaid Ollathair pode ter dois significados: Ollathair pode vir de uilliu, significando “maior”, o que indica que ele era maior que seu pai, athair; ou, a tradução mais bem aceita e conhecida, é oll para “grande” e athair para “pai”, indicando que ele era “um grande pai para os Tuatha Dé Danann”.

O primeiro atributo do Dagda, e injustamente esquecido, é o clima, e existem muitas evidências que comprovam essa teoria muito provável de ser possível, e mesmo que ele não seja necessariamente um deus do trovão, sua associação com o clima e as tempestades é bastante clara. A primeira hipótese para dar força a essa teoria é um de seus títulos, Cerrce, que alguns estudiosos acreditam ser uma derivação do prefixo indo-europeu *perkw- (que significa, “Golpeador”) que deu origem aos nomes de algumas divindades do trovão europeias como o báltico Perkunas e o Perun eslavo. Sabemos que grande parte, ou senão todas, das divindades europeias “trovejantes” recebem tal título e normalmente são retratados com armas cujos golpes fazem ressoar os trovões, como machados, martelos, e no caso do Dagda, uma clava, como veremos mais adiante; na Segunda Batalha de Moytura, a clava do Dagda é chamada de “forquilha com rodas” (gabol gicca rothach), e o estudioso Scott A. Martin interpreta a forquilha sendo o relâmpago, e o barulho das rodas, o trovão. Outro de seu título, Labair, é traduzido pela estudiosa Elizabeth Gray como “falador, arrogante ou orgulhoso”, e o estudioso Sayers acrescenta, “barulhento”; assim, se considerarmos que o Dagda é uma divindade relacionada aos trovões e ao clima, “barulhento” e “falador” seriam adjetivos apropriados. Existe também uma associação do Dagda com o carvalho, e aqueles familiarizados com mitologias europeias perceberão a ligação que divindades “trovejantes” possuem com tal árvore, como o nórdico Thor ou o helênico Zeus, por exemplo. Um de seus “sobrenomes”, duir (de Dagda duir), é traduzido como “firme, duro ou forte”, e estudiosos colocam que a origem de tais adjetivos se encontram na raiz indo-europeia *dorw-, que também deu origem à dair, “carvalho”. Além disso, na Segunda Batalha de Moytura, quando Dagda se encontra com Ní Indech, a filha de um dos reis fomorianos, ela diz que será uma pedra e um carvalho em cada vau que ele atravessar, e prontamente ele responde que pisará em cada pedra e golpeará “com seu machado” (veja aqui que a arma do Dagda é referida como um machado, e não uma clava) cada carvalho que encontrar, e a marca desses golpes permaneceriam naqueles lugares para sempre, levando-nos a ver que tais marcas são realmente associadas a divindades trovejantes, deixando marcas na paisagem através de seus golpes de relâmpagos; além disso, na Primeira Batalha de Moytura6, Dagda se encontra com Cirb da raça dos Fir Bolg7 e ambos lutam uma furiosa briga, e nessa luta, é dito que os golpes do Dagda eram “ressoantes”. Por último, a referência mais clara que o associa com o clima se encontra no mito O Cortejo de Etain8, onde logo no início do texto há uma passagem que diz que Dagda era capaz de controlar o clima e as colheitas, e fazer maravilhas para seu povo, sendo por isso chamado de o “Bom Deus”. Com isso, a arma, os títulos e a clara referência fazem do Dagda um deus do clima e do trovão, ou pelo menos, um deus relacionado com esses atributos.

                O texto medieval conhecido como Cóir Anmann, ou “A Conveniência dos Nomes” diz que Dagda era para os Tuatha Dé Danann um deus da terra (dia talmhan), mas, como alguns estudiosos colocam, a palavra para “terra” (talmhan) pode significar a terra propriamente dita, o barro e a argila, ou o reino terrestre separado do céu e do mar ou até mesmo a terra como planeta, no sentido de mundo, e, portanto, o Dagda poderia reger esses três elementos ou todos eles. Há referências claras que o associa com a terra nos mitos “O cortejo de Etain” e “A tomada do monte encantado”9; no primeiro mito, há uma passagem que diz que o Dagda realizava maravilhas para os homens e Tuatha Dé Danann, incluindo o poder sobre as colheitas, conforme já foi mencionado – supõe-se então que um deus da terra logicamente possa ter também o controle sobre tudo o que cresce sobre ela, incluindo as plantações, e consequentemente, ele determina se a colheita será boa ou ruim. No segundo mito, diz-se que os Filhos de Mil, ou os milesianos10, só tiveram boas colheitas depois de fazerem um pacto com o Dagda. Se levarmos em conta que o Dagda seja o deus da terra no sentido de mundo, vale notar que o seu título Athgen mBethai é traduzido como “A Regeneração/Renascimento do Mundo”, e uma passagem no Cortejo de Etain possa talvez explicar um pouco esse título: na história citada, Angus pede Etain para seu pai Ailill, e em troca, Ailill pede para que Angus limpe doze planícies tornando-a propícias para as atividades humanas (o que pode incluir agricultura) e criar doze rios para que os homens possam se beneficiar de sua produção, e vendo-se incapaz de realizar tais atos, Angus recorre ao seu pai Dagda, que realiza prontamente as duas tarefas em duas únicas noites. Assim, conforme o estudioso Scott A. Martin relata, a partir de uma perspectiva humana, fazer surgir doze rios e limpar doze planícies em uma única noite, é indubitavelmente uma transformação na natureza, e portanto, um renascimento daquela terra. Todavia, outros estudiosos sugerem que Athgen mBethai possa ser uma referência à sua capacidade de dar/tirar vidas, como no atributo explicado mais abaixo. A partir desses relatos, podemos então concluir mais uma atribuição do Bom Deus como o deus da terra, incluindo o controle dos grãos e das colheitas, e, curiosamente, o nome prefixo dag de “Dagda” pode significar tanto “bom” como “trigo” (ou “fogo”, como visto acima).

                Além dos relatos citados acima, vale a pena mencionar um famoso tesouro mágico do Dagda, que é a sua harpa das estações, conhecida como Uaitne (tradução desconhecida) e alternativamente chamada de Daur-da-bla (Carvalho dos Dois Verdes) e Coir-cetharcuir (Música de Quatro Ângulos). Supõe-se que através das melodias dessa harpa, o Dagda era capaz de mudar as estações do ano, pois no final da Segunda Batalha de Moytura, quando a harpa é roubada pelos fomorianos11, Dagda vai junto com Ogma e Lugh até o acampamento deles para recuperar sua harpa. Chegando lá, ele a vê pendurada em uma parede, e quando a chama através de um encantamento, ela voa até sua mão matando nove homens no caminho, e nesse encantamento, ele chama o verão e o inverno. Ao recuperar seu tesouro, ele canta primeiro a melodia da tristeza, fazendo todas as mulheres chorarem; depois, ele canta a melodia do riso, fazendo todas as mulheres e crianças sorrirem, e por último, a melodia do sono, fazendo toda a tropa dormir, conseguindo então escapar ileso do acampamento dos fomorianos. O nome “Música de quatro ângulos” pode ser uma analogia às quatro estações do ano, assim como “Carvalho dos dois verdes” pode representar as duas metades do ano segundo a tradição gaélica, a metade escura (outono e inverno) e a metade clara (primavera e verão), mas isto é apenas uma teoria.

                Dagda é um deus que tem poder sobre a vida e a morte, e tal característica lhe é atribuída a partir de outro item mágico: a sua clava. No mito “Como o Dagda obteve sua clava mágica”, como o título sugere, é contada a história de como o Bom Deus conseguiu sua clava, e a história que se passa é a seguinte: quando seu filho Cermait é morto por Lugh por ter dormido com sua esposa Buach, Dagda espalha mirra, olíbano e outras ervas pelo corpo de Cermait, mas vendo que seu filho não se recuperava, o Bom Deus o carrega em suas costas e vai até o oriente do mundo, onde se encontra com três irmãos, cada um possuindo um item mágico: o primeiro possuía uma camisa que quem a usasse não seria atingido por nenhuma doença, o segundo possuía uma capa que daria ao seu usuário a capacidade de se transformar em qualquer coisa, e o terceiro, uma clava cuja uma extremidade matava o vivo, e a outra extremidade ressuscitava o morto. O Dagda então pede o bastão emprestado, e quando o teve em suas mãos, matou os três irmãos e ressuscita Cermait. Quando seu filho acorda, Dagda explica o que aconteceu e Cermait questiona se o mesmo poder que lhe deu a vida também não poderia ser usado para aqueles três irmãos. Dagda então os ressuscita os irmãos e pede emprestado novamente o bastão para ser usado na batalha de Moytura a fim de matar seus inimigos e ressuscitar seus amigos, jurando pelo sol, pela lua, pela terra e pelo mar que o bastão seria devolvido, e assim, o bastão foi emprestado. Os irmãos então perguntam como dividiriam seus tesouros, e Dagda sugere que eles se revezassem entre si, onde cada irmão ficaria sem um tesouro durante um turno. Apesar de o mito deixar explícito que o Dagda apenas pegou emprestado sua clava, vemos em outros mitos que tal clava é indissociável do Dagda, estando com ele a todo instante e pertencendo a ele. A clava é descrita tendo uma extremidade dura e áspera capaz de matar uma pessoa, e a outra extremidade era lisa, capaz de ressuscitar um morto. Como já mencionado nos parágrafos anteriores, a clava era descrita também como uma “forquilha com rodas” (gabol gicca rothach), e era conhecida como lorg arfaidh (“clava da fúria” ou “clava do trovão”, de anfad/anfud) ou adúathmar (“terrível)”, e era feita de ferro (íarnaidi). Dizia-se também que a clava era tão pesada que era necessário oito homens para carregá-la, e ela deixava um rastro profundo por onde passasse; além disso, dizia-se também que a clava poderia matar nove homens com um único golpe. Em outro caso muito isolado, a arma que o Dagda empunha não é uma clava, e sim o machado, conforme é contado no encontro de Dagda com Ní Indech na Segunda Batalha de Moytura, onde ele diz que deixará a marca do golpe de seu machado em cada carvalho que ele encontrasse.

                Seu título Rúad Rhofessa nos deixa claro que ele é uma divindade extremamente sábia, o conhecedor de toda a sabedoria do mundo. Rúad Rhofessa, como já explicado, é traduzido como “O Homem Vermelho de Todo Conhecimento” ou “Senhor do Grande Conhecimento”. O texto Cóir Anmann nos diz que Rhofessa significa “grande ciência”, e que o Dagda tinha a perfeição da “ciência pagã”, levando-nos a crer que ele dominava todas as áreas do conhecimento antigo. Além disso, o mesmo texto também fala que Dagda possuía as tríades, e com isso, pode-se então presumir que ele tenha sido o inventor das conhecidas tríades irlandesas. Junto com seu filho Angus, ele é o senhor dos truques e estratégias, e é através de sua artimanha que Angus ganha o Brugh na Boinne12 em uma versão da história: o Samhain era o dia em que todos os homens da Irlanda estavam em paz e em amizade, e nenhum deles portava armas nesse dia. Sendo assim, como já tinha feito as divisões de terras entre os Tuatha Dé Danann, o Dagda não tinha mais propriedades para dar ao seu filho Angus, e então o envia até Elcmar no Brugh na Boinne instruindo-lhe a ameaçá-lo de morte se ele não lhe emprestasse o palácio por “dia e noite”. O pedido foi concedido e no dia seguinte, Elcmar vai reclamar sua propriedade, mas Angus diz que não o dará até terem uma reunião com o Dagda, pois naqueles dias, era ele quem julgava os acordos dos homens. Na reunião, Dagda então diz que o adequado seria que a terra fosse dada à Angus, já que ele a pediu em troca de sua vida, dizendo então que a vida de Elcmar era mais importante que sua terra, e o seu pedido de “dia e noite” não era de fato “um dia e uma noite”, mas para sempre, pois a eternidade é composta por dias e noites, e em troca disso, Dagda dá a terra de Cleitech para Elcmar. Em outra variação do mito, após terminar a divisão entre os Tuatha Dé, Angus foi pedir uma terra para si, mas todas elas já haviam sido distribuídas. Como o Brugh na Boinne pertencia ao Dagda, Angus então pede emprestada sua própria casa por “dia e noite”, e Dagda consente, mas quando se passa o tempo que até então ele acreditava ter se passado, Angus se recusa a devolver o palácio, alegando que a eternidade é composta de “dias e noites”. Outra de sua artimanha conhecida é a história do nascimento de Angus, encontrada no Cortejo de Etain. Dagda se sente grandemente atraído por Boann, a deusa-rio, mas sendo casada com Elcmar, o Dagda o envia em uma missão até o rei Bres com grandes incumbências para mantê-lo afastado pelo tempo necessário. Enquanto Elcmar está longe, Dagda e Boann se unem em uma união e Angus é concebido. Para que Elcmar não descubra a traição, ele fez o sol parar e mandou a escuridão da noite para ficar em volta de Elcmar, fazendo-o pensar que sempre estava de noite, durante um período de nove meses que para Elcmar parecia ser apenas um dia. Nesse meio tempo Angus foi concebido e dado à luz em um “único dia”. Depois disso, Dagda mandou Angus para Midir criá-lo como seu filho adotivo e Elcmar não percebesse o fruto da traição em sua própria casa. Ademais, vale a pena comentar que o nome “Dagda” também pode ser traduzido como “fogo de Deus", e na religião irlandesa o fogo é frequentemente usado para descrever sabedoria e conhecimento. Sendo assim, podemos então concluir que Dagda é uma divindade intrinsecamente relacionada à sabedoria e ao conhecimento, sendo o detentor de todo o conhecimento do mundo e o mestre dos estratagemas e artifícios.

                Como uma divindade certamente ligada ao conhecimento e à sabedoria, não é de se estranhar que ele tenha uma conexão com a feitiçaria. Em muitos contos, o Dagda é descrito como um feiticeiro, como no mito “Como o Dagda ganhou sua clava”, onde ele mesmo diz ser o “Bom Deus da feitiçaria dos Tuatha Dé Danann”. Na Primeira Batalha de Moytura, há uma passagem dizendo que os Tuatha Dé Danann tinha um deus da magia que se chamava “O Grande Dagda”, e que ele era um excelente deus, relacionando-se o seu título como o “Bom Deus”, e frequentemente tal título é conectado com esse aspecto do Dagda, assim como no Cóir Anmann, onde foi descrito como o “belo deus dos pagãos” que possuía um poder mágico muito grande. Igualmente na Segunda Batalha de Moytura, quando Nuada pergunta ao seu copeiro, ao seu feiticeiro e ao seu druida que poder eles exerceriam em batalha, eles respondem o que farão através de seus poderes mágicos, e Dagda então diz por último que todos os poderes que eles se vangloriavam, ele sozinho era capaz de dominar. Os homens então respondem, “É por que és o Dagda!”, e foi a partir desse dia que esse título foi dado a ele. Mais adiante no mesmo mito, ao ser questionado por Lugh que poder ele exerceria na batalha, ele responde que ficaria ao lado dos irlandeses, “batendo, destruindo e encantando”, deixando claro para nós então que os seus ataques incluíam investidas mágicas.

                Além desse seu poderio mágico, a força física do Dagda também é digna de ser mencionada, assim como seu poderio bélico. Em primeiro lugar, devemos falar sobre o suposto tamanho gigantesco do Bom Deus; apesar de não estar claro que ele seja um gigante, ou pelo menos, de um tamanho maior que o normal, é de se supor que uma divindade que empunha uma clava que precisa de oito homens para levá-la e que deixa o rastro de uma trincheira quando é arrastada no chão, é no mínimo, uma divindade com o tamanho maior do que o normal, assim como a descrição de sua colher, que era grande o suficiente para um homem e uma mulher dormirem dentro dela, e seu título “Fer Benn” (Homem da Montanha/Homem Montanha) também pode ser uma sugestão do tamanho dele. Além disso, no conto “A Intoxicação dos homens de Ulster”, Dagda é descrito como um homem de grandes olhos e coxas, tendo ombros largos e imensamente alto. Assim como Ogma, ele é descrito como um campeão entre os Tuatha Dé Danann, e como sabemos, os campeões são sempre descritos como homens/divindades com uma força sobrenatural (da mesma forma que Ogma era capaz de levantar uma laje de pedra e arremessá-la para bem longe). Essa sua descrição como campeão aparece na Segunda Batalha de Moytura, e o mesmo mito diz que seu status de campeão foi reduzido durante o reinado de Brés, assim como o status de Ogma, onde os dois foram obrigados a serem construtores de raths, sendo o Dagda o construir do Dún Brése, a fortaleza de Bres. Ainda sobre sua força física, os métricos dindshenchas nos contam que uma monstruosidade marinha assombrava a planície de Muirthemne (atual Moytura), que antes era inundada pelo mar, e foi o Dagda que expulsou essa criatura que assolava a área, atingindo-a com os golpes de sua clava (esse mito será melhor explicado posteriormente). Na Primeira Batalha de Moytura, é o Dagda que começa a batalha, massacrando os guerreiros da tropa inimiga de forma que abria um caminho para cento e cinquenta guerreiros por onde ele passava. Mais tarde, em mais uma das lutas, os Tuatha Dé Danann pergunta quem deveria liderá-los naquele dia, e Dagda responde que o apropriado seria ele, pois como ele diz, “em mim, vocês tem um excelente deus”. Mais uma vez, Dagda vai na vanguarda da tropa, devastando o inimigo e arrasando com os batalhões dos Fír Bolg. Em todas as guerras da Primeira Batalha, o Dagda é sempre descrito como indo na vanguarda. Nesse mesmo mito, quando a mão de Nuada é cortada pelos Fír Bolg, Dagda vai até o lugar onde Nuada estava e seus passos eram tão sonoros como “o rugir de uma queda d’água”. Ele ficou perto de Nuada, trazendo com ele cinquenta guerreiros e curandeiros, tirando-o dali posteriormente. Depois disso, Bres é morto por Eochaid, e junto com Ogma, Alla e Delbaeth, Dagda mata Eochaid para vingar seu irmão (é curioso que Bres seja morto na Primeira Batalha de Moytura, quando aparece na Segunda Batalha como rei!). Quando a Batalha de Moytura finalmente termina com a queda dos Fír Bolg, o Dagda é convocado por Nuada para descrever tudo o que havia acontecido na batalha antes e após ele ter perdido seu braço, descrevendo todas as lutas e quais guerreiros dos Fír Bolg e dos Tuatha Dé morreram no campo de batalha. Na Segunda Batalha de Moytura, Dagda junto com Lugh, Ogma, Goibniu e Dian-cecht são convocados e discutem secretamente durante um ano inteiro as provisões para a batalha, e após isso, eles ficaram durante sete anos se reunindo para a luta, fazendo suas armas. Finalmente, vale a pena lembrar que é Dagda quem vai espionar o acampamento dos fomorianos a pedido de Lugh, para pedir a eles também uma trégua para a batalha; da mesma forma, durante o encontro com a Morrígan, a mesma lhe conta todos os seus planos de batalha. Com essas evidências, concluímos então que o Dagda é possuidor de uma força sobre-humana, capaz de devastar e massacrar tropas e batalhões, e que possui certo conhecimento bélico, sendo capaz de discutir as provisões e táticas de batalha com outros deuses.  

                Outro item mágico do Dagda nos diz muito sobre sua personalidade e mais de um de seus atributo: o caldeirão da fartura. Comumente conhecido como Undry, o caldeirão do Dagda é um dos quatro tesouros mágicos dos Tuatha Dé Danann. Segundo o mito “As quatro joias dos Tuatha Dé Danann”13, o caldeirão veio da cidade de Murias, uma das quatro cidades onde os Tuatha Dé Danann aprenderam suas artes, e em cada uma delas, existia um feiticeiro que os ensinava. Dizia-se que esse caldeirão nunca deixava uma assembleia insatisfeita, pois seu conteúdo sempre estava cheio, não importando o quanto já se havia consumido. Esse caldeirão pode talvez denotar que Dagda esteja intimamente ligado à fartura, abundância e fertilidade, além do já citado relato de que ele tinha o poder sobre as colheitas – uma divindade ligada às colheitas é inevitavelmente considerada uma divindade da fertilidade. Ademais, o Dagda às vezes é descrito com características que nos faz supor que sejam apropriados para uma divindade da fertilidade, tais como a barriga cheia, aspecto faminto e o pênis grande, que é visto em todas as religiões politeístas da Europa como um sinal de fertilidade e masculinidade. Tal descrição é encontrada na Segunda Batalha de Moytura, quando Lugh envia o Dagda até o acampamento dos fomorianos para pedir um tempo a fim de que os homens da Irlanda pudessem chegar a tempo no campo de batalha. A trégua é concedida e os fomorianos preparam um mingau para ele, já que a fama do amor de Dagda por mingau era conhecida por todos. Os fomorianos então enchem um caldeirão de cinco punhos de profundidade com quatro galões de leite, farinha e gordura, adicionando cabras, ovelhas e porcos ao mingau. Quando estava pronto, eles cavaram um buraco no chão derramando o mingau lá, obrigando o Dagda a comer tudo para que “não reprovassem sua hospitalidade”, segundo eles. Faminto, o Dagda diz que se “o gosto do mingau for igual ao seu cheiro, então o conteúdo é gostoso”, e pega sua gigantesca colher que cabia um homem e uma mulher deitados e começa a comer; ao terminar, ele passa seu dedo no buraco para pegar as sobras, misturadas com cascalho e terra. Sua barriga ficou do tamanho de um caldeirão e ele vai embora para a praia de Eba, movendo-se com dificuldade devido ao tamanho de sua barriga, e no lugar por onde passou, sua clava deixou um rastro que posteriormente foi chamado de “O Rastro da Clava do Dagda”. Quando caminhava, diz-se que seu pênis era tão longo que ficava a mostra, e no encontro com a filha de Indech, ao carregá-la nas costas, seus testículos se assemelhavam às pedras que caíam no chão. Aqueles que estão familiarizados com as esculturas irlandesas conhecidas como Sean-na-Gig (apesar de ser muito raro na Irlanda, encontrando-se em maior quantidade entre os celtas continentais) – esculturas grotescas de um homem mostrando um falo ereto; é a versão masculina de sua contraparte feminina, a Sheela-na-Gig, uma figura feminina em uma pose abrindo sua larga vagina, representando supostamente a fertilidade ou funcionando como um agente apotropaico, isto é, afastando o mal – pode supor certa similaridade com esse aspecto itifálico do Dagda, mas com a escassez de evidências, não podemos traçar uma conexão firme entre essas esculturas e o deus em questão.

Seu apetite sexual revelado nos diversos mitos onde ele se une sexualmente com deusas também pode ser indicativo de uma divindade da fertilidade, sempre com um apetite sexual voraz, ele aparece no mito já citado do nascimento de Angus, no seu encontro com Ní Indech, com a qual ele posteriormente faz sexo, e na célebre passagem da Segunda Batalha de Moytura onde ele se acasala com Morrígan, a deusa da guerra. A história nos conta que uma semana antes do Samhain e nas vésperas da batalha de Moytura, o Dagda tinha um encontro com Morrígan em Glenn Etin. Quando chega no lugar, ele vê a deusa se banhando no rio com um pé ao sul do vau e o outro pé ao norte, e então, eles fazem sexo. Após o sexo, ela conta para o Dagda seus planos de batalha, dizendo que os fomorianos desembarcariam em Magh Scetne e que ela chamaria os homens das artes da Irlanda para encontrar com ela no Vau de Uinius, onde ela ofereceria aquele povo dois punhados do sangue do coração e do testículo de Indech, o rei fomoriano que ela mesma mataria, e posteriormente, aquele lugar seria chamado de o “Vau da Destruição” por conta daquela façanha. Alguns estudiosos interpretam essa passagem como um ato de fertilidade, uma magia imitativa do ato sexual capaz de criar vida para assegurar a vitória da Segunda Batalha, mas, no entanto, outros estudiosos afirmam que o objetivo desse ato não era criar vida ou assegurar a vitória, mas promover morte e destruição. Os métricos dindshenchas nos conta que foi no Brugh na Boinne que o Dagda e uma grande senhora fizeram sexo após a batalha de Moytura, mas a identidade dessa “grande senhora” não é revelada. Outrossim, no Brugh na Boinne há um lugar conhecido como “A Cama do Vermelho Dagda”, que foi o local onde ele fez sexo com uma nobre mulher “livre da velhice e tristeza”. A mulher é descrita como sendo a filha de Nemed e tendo levado a sua cachorra para o encontro – podemos adivinhar que a cachorra seja Dabilla, e a mulher, Boann.

Existem diversos contos dentro da mitologia gaélica onde o Dagda aparece, alguns dos quais são histórias engraçadas e eróticas envolvendo o Bom Deus. Na Primeira Batalha de Moytura, ele não desempenha um papel primário, aparecendo somente como um deus guerreiro que vai à vanguarda das tropas e massacrando com a tropa inimiga dos Fír Bolg. Já na Segunda Batalha, há diversas aparições onde ele se destaca como o personagem principal do conto. A primeira aparição dele no mito é quando sua função de campeão é reduzida à um construtor de raths, sendo ele próprio o construtor da fortaleza de Brés. O Dagda ficava sempre muito cansado com esse árduo trabalho atribuído a ele por Bres, e sempre que chegava em casa, se deparava com um satirista cego chamado Cridenbél, cuja boca se localizava em seu peito. Cridenbél achava que a porção de comida do Dagda era muito maior que a sua, e todas as noites exigia dele as três melhores partes de sua comida. Dagda então dava as três melhores partes de sua comida para Cridenbél todas as noites, e como começou a se alimentar pouco, sua saúde foi prejudicada. Ao contar sua história para seu filho Angus, este lhe dá três moedas de ouro e pede para coloca-las em sua comida e oferecer para Cridenbél, já que as três moedas de ouro seriam as três melhores partes que estava na comida do Dagda. Ele então faz conforme Angus tinha lhe instruído, e Cridenbél ao engolir as moedas, morre. Como um deus da fartura, Dagda não poderia simplesmente negar comida para Cridenbél, sem falar nas leis de hospitalidade e também que como um satirista, Cridenbél poderia destruir toda a honra do Dagda através de suas sátiras caso se recusasse a alimentá-lo. Sendo assim, o Dagda fez exatamente o que o satirista pede: dá as três melhores partes de sua comida para ele. Mais adiante, quando Dagda termina seu trabalho e Brés lhe pergunta qual será sua recompensa desejada, ele lhe diz para reunir todo o gado da Irlanda, e de todos eles, ele escolheu uma bezerra preta conforme Angus tinha instruído para fazer; quando a Segunda Batalha é ganha e os fomorianos são derrotados, Dagda chama essa bezerra preta e quando ela muge, todo o gado que os fomorianos tinham pegado como tributo voltam a pastar na Irlanda. Junto com Lugh, Ogma, Diancécht e Goibniu, ele faz os preparativos da batalha e prepara as táticas da mesma. Uma semana antes do Samhain e nas vésperas da batalha de Moytura, o Dagda faz sexo com Morrígan. Ela lhe conta seus planos de batalha e onde os fomorianos tinham desembarcando. Posteriormente, Lugh o envia até o acampamento dos fomorianos para pedir um atraso a fim de que os homens da Irlanda consigam chegar a tempo para a batalha. Ele consegue a trégua e os fomorianos lhe preparam um mingau em proporções gigantescas obrigando-o a comer tudo, conforme já foi relatado nos parágrafos anteriores. Após comer o mingau, Dagda vai até a praia de Eba e encontra com a filha de Indech, um dos reis fomorianos. A bela garota começa a zombar do Dagda e depois o empurra de forma que seu traseiro afunda no chão, e ao bater em sua barriga, a grama ao redor se encheu de fezes. A menina o satirizou três vezes e o pediu para levá-la nas costas até a casa de seu pai, mas Dagda diz que não poderia levar ninguém nas costas que não lhe chamasse pelo seu verdadeiro nome; a garota então pergunta seu nome, e ao responder, ela pede novamente para ser levada, e pula nas costas do Dagda deixando aparecer seus pelos pubianos, e assim, os dois fizeram sexo, e a marca onde os dois se deitaram permanece até hoje na Costa de Beltraw. Ao carregar Ní Indech em suas costas, ele colocou três pedras em seu cinto, que posteriormente caíram, assemelhando-se aos seus testículos. Após o sexo, a menina tenta impedir o Dagda de ir para a batalha, dizendo que será uma pedra e um carvalho em cada vau que ele passar, mas o deus responde que ele pisaria em cada pedra e seu machado atingiria cada carvalho que ele encontrasse, e as marcas desses golpes perdurariam para sempre e que as pessoas falariam sobre isso depois. Finalmente, ela então diz que atrapalhará os fomorianos e ela sozinha praticará sobre a nona parte da tropa fomoriana a sua “mortal arte da varinha”, cantando feitiços contra eles. No final da batalha então, quando os fomorianos haviam sido derrotados e roubado a harpa do Dagda, ele vai até seu acampamento com Lugh e Ogma para recuperar sua harpa, que mata nove homens no caminho até chegar na mão do Bom Deus. Ele então canta a melodia do sono para que a tropa fomoriana durma para que eles conseguissem fugir de lá ilesos.

O Dagda aparece também em um conto nos métricos dindshenchas. A Planície de Muirthemne (Moytura) é assim chamada pois o mar ocupou-a por trinta anos. Seu nome Muirthemne significa “escuridão do mar” ou “está sob o teto do mar”. Dentro desse mar encantado vivia um polvo com um poder de sucção que era capaz de sugar para dentro de si até mesmo um homem dentro de sua armadura. O Dagda então veio com a sua “clava da fúria”, enterrando-a no polvo, dizendo: “Vá embora com sua cabeça oca! Vá embora com teu corpo faminto! Vá embora com sua fronte reabsorvível! Vá embora! Desapareça!”, e então o mar mágico foi embora da planície com o polvo. 
  
Dizia-se que Dagda era o dono e construtor do Brugh na Boinne e que havia sido ele a distribuir os montes encantados para os Tuatha Dé Danann após terem sido derrotados pelos Filhos de Mil. Quando ele terminou essa divisão entre os Tuatha Dé Danann, Angus perguntou qual terra ele lhe daria, mas todas já haviam sido distribuídas. Então a partir da estratégia do “dia e noite” já explicado acima, Angus conseguiu o domínio do Brugh na Boinne. Dizia-se que esse palácio tinha três árvores sempre frutíferas, um recipiente com um maravilhoso licor que nunca acabava e um porco que, ao ser assado e consumido, voltava à vida no dia seguinte. Além do Brugh na Boinne, Dagda tinha as terras: Síd Leithet Lachtmaige, Oí Asíd, Cnocc Báine, Brú Ruair e Síd in Broga, mas os nomes atuais dessa terra são desconhecidos. Há uma referência também da colina de Uisnech em Meath sendo a casa do Dagda. 

                O Bom Deus também aparece em “O Sonho de Angus”, quando Angus se apaixona pela misteriosa donzela Caer, que o visita em seus sonhos, mas como não pode tê-la, fica doente. Sendo assim, o médico Fergne é chamado e o diagnostica com a “falta de amor”, que o deixou com o coração doente por não ter contado a ninguém. Sendo assim, Boand faz uma busca sem sucesso por um ano para encontrar a garota, e então, chama o Dagda para ajudar na procura. Dagda então manda seus mensageiros para seu filho Bodb, informando o que estava acontecendo com Angus, e Bodb encontra a donzela misteriosa. Angus e Dagda então são convocados até o lugar para que Angus pudesse reconhecer a garota. Quando chegaram em Loch Bel Drácon, eles viram cento e cinquenta donzelas acorrentadas, e uma delas era Caer. Como a menina não estava nos territórios que Bodb governava, ela não poderia ser dada à Angus por ele, e sendo assim, Ailill e Medb foram chamados, mas também disseram que não tinham o poder de dar a menina para Angus, mandando então mensageiros para o pai da menina, Ethal Anbúail, que se recusa a dar sua filha. A criadagem de Ailill e do Dagda então invade o palácio de Ethal, matando alguns de seus homens e o aprisionam em Crúachu14, o palácio de Ailill e Medb, fazendo com que Ethal finalmente ceda. No Samhain do ano seguinte, quando Caer estava sob a forma de um cisne, Angus vai até ela, também se transforma em um cisne e os dois voam juntos até o Brugh na Boinne, e lá cantaram uma melodia que fez todos adormecerem por três dias e noites.

                Em outro mito, Dagda tinha uma filha chamada Ainge, para quem tinha feito um tonel de madeira para conter água de alguma suposta enchente. No entanto, esse tonel de madeira deixava a água vazar quando o lugar enchia com a maré alta (presumivelmente, estamos falando do Brugh na Boinne, e as enchentes, serem do rio Boyne, mas o texto não deixa claro que lugares são esses). Ela então colheu madeiras para fazer seu próprio tonel, mas seu feixe de galhos foi roubado por Gaible, neto de Nuada, que o arremessou em um lugar, fazendo nascer uma floresta conhecida hoje como Fid nGaible, “A floresta de Gaible”.

                Dagda possuía um filho muito garanhão, Aed, pelo qual ele se mete em várias enrascadas. A história conta que Aed desejava a esposa de seu soldado Codal, Eachrad. Quando Eachrad recusa seu pedido de se deitar com ele, Aed vai se queixar para seu pai que o instrui a aprisionar Codal e raptar sua esposa para si. Aed age dessa forma e quando o pai de Eachrad com sua família sabe da notícia, ele vai até a casa de Aed para buscar Eachrad, destrói o lugar e mata a família de Aed, mas ele próprio consegue escapar. Dagda então reúne sua família e seus filhos, e os parentes de Eogan também se reúnem para travar batalha um contra o outro, mas o juiz Elcmar propõe que seja feita a paz entre todos e sugere que a terra onde Codal tinha sido injustiçado fosse dada à ele em reparação pelos atos praticados por Aed contra ele, e quanto a Codal, nunca poderia se vingar de Aed. Todos aceitam os termos e a paz foi feita. Em outras versões do mito, Codal destrói a casa de Aed e luta cara-a-cara com ele, pedindo que seu nome seja dado a terra.

                Ainda sobre os galanteios de Aed, existe uma história que relata a morte dele próprio. Apesar de haver muitas variações do mito, a sinopse é mais ou menos a mesma: Aed se deita com a esposa de Corrgend, Tethra. Logicamente, Corrgend não aprova o ato de Aed e o mata, e depois disso, foge para Connacht e todos os homens da Irlanda o procuram. Ao ser encontrado, todos desejavam sua morte, mas Dagda o obrigou a carregar o corpo do próprio filho morto em suas costas e procurar por uma pedra que tenha seu mesmo tamanho e cavar um túmulo para ele. Corrgend parte com o corpo em suas costas até encontrar a rocha procurada no lago Foyle, carregando-a junto com seu corpo até chegar em Ailech, onde enterra Aed e crava a pedra para marcar seu túmulo, e lá, seu coração explode com o cansaço, e morre. No caminho até lá, Corrgend profere interjeições de dor: ail, que em irlandês é semelhante ao nosso “Ai!”, e depois, ach, a palavra irlandesa para “pedra”, dizendo que era a pedra que o afligia. Assim, o Dagda pensou ser apropriado que o lugar onde ele morreu ganhasse esse nome, “Ailech”. Em outras variações do mito, diz-se que foi Garban, o pedreiro-arquiteto do Dagda que construiu Ailech.

                Não podemos nos esquecer, é claro, que Dagda também já foi o rei dos Tuatha Dé Danann, e segundo o Livro das Invasões15, ele reinou por um período de oito anos. Por último, a mesma fonte diz que o Dagda foi morto pela rainha fomoriana Ceithlenn, esposa de Balor, por um dardo na Grande Batalha de Moytura, presumivelmente, o texto se refere à segunda batalha.

                O Dagda é filho de Elatha, neto de Delbaeth mac Net, e bisneto de Net, o deus da guerra, e sua mãe é desconhecida para nós. Seus filhos são Angus mac Og, Midir, Finnbarr, Cermait Milbel (ou Cermait Coem), Aed (existem três Aed sendo descritos como o filho do Dagda: Aed Minbhreac, Aed Caem e Aed Luirgnech; se são o mesmo deus ou deuses diferentes, não sabemos) e Bodb Dearg. Suas filhas incluem Áine, Ainge (não sabemos se Ainge é uma corrupção de Áine) e Brígh (ou Brígid). Até onde sabemos, Dagda não possui uma esposa fixa, mas sim diversas amantes com as quais ele fez sexo, conforme constatado nos mitos, incluindo as deusas Boann e Morrígan, e a fomoriana Ní Indech, filha de Indech, mas seu nome verdadeiro não nos foi revelado.

                Como já vimos, Dagda possui uma relação bastante clara com o carvalho (seja por um de seus títulos Dagda duir, ou pela sua relação com os golpes nos carvalhos, como outras divindades europeias ligadas ao trovão), e presumivelmente, o Ogham16 duir que representa a mesma árvore. Como era o protetor das colheitas, me parece razoável associar a cevada, o trigo, a aveia e o centeio com ele, já que eram os principais cereais dos antigos irlandeses. A cor marrom e o vermelho são notoriamente associados com o Bom Deus, a partir de seus títulos conforme já foi discutido aqui. Os lugares que tem ligação com ele são: o Brugh na Boinne, Tara, a colina de Uisnech, Ess Ruaid (Assaroe), Ailech, Tulach Dér (“a colina das lágrimas”, que ganhou seu nome com as lágrimas que o Dagda derramou por Cermait; a atual localização dessa colina nos é desconhecida) e o Vale de Etin (não se sabe sua localização). Através de um de seus títulos, Fer Benn, podemos supor que ele possa ter tido alguma ligação com montanhas ou cumes, em geral (assim como as divindades trovejantes da Europa são associadas com montanhas e lugares altos). As oferendas que me parecem apropriadas para ele são: ramos e bolotas de carvalho, mingau de algum dos cereais citados (apesar de ser da crença popular que o mingau do Dagda era feito de aveia, o mito nos diz que o ingrediente era farinha, podendo ser ou não farinha de aveia), uma chama, pães de cereais e maços de trigo, cevada, aveia e/ou centeio. O folclore e o creideamh-sí17 dizem que queijo, leite, manteiga, caudle, bannocks, cerveja, mingau, bolos de aveia, ovos, carne, sal, flores, música, poesia, dentre muitos outros, são oferendas aceitáveis para todo o povo do Sídhe, logo, qualquer uma dessas oferendas são apropriadas para qualquer divindade que pertença à raça dos Tuatha Dé Danann. Seus animais podem ter sido os cavalos, bezerros negros, porcos, cabras e ovelhas. Orações para o Dagda serão bem recebidas em qualquer ocasião, mas me parece apropriado honrá-lo diante de uma chama ou durante uma tempestade. Como uma divindade com fortes características ctônicas, é razoável que algumas de suas ofertas sejam enterradas na terra em pequenas covas, ou também queimadas no fogo. Como ele uniu-se com a Morrígan uma semana antes do Samhain, me parece que essa ocasião seja favorável para cultuá-lo, e ao considerarmos um deus da fertilidade, o Beltane também possa ter associações com o deus, assim como o Solstício de Verão, se o vemos como um deus do trovão (divindades europeias do trovão são frequentemente cultuadas no solstício de verão). Como um deus da fartura e da generosidade, portando-se como um deus comilão, é de consenso geral de todos os devotos que as ofertas sejam feitas em grandes quantidades. Vale ressaltar que, tirando a parte dos lugares que realmente tem ligação com ele e as oferendas do creideamh-sí, o restante desse parágrafo é composto inteiramente de especulações e teorias; não há nada comprovado de que se oferecia mingau para o Dagda, por exemplo, ou que ele era cultuado no Samhain e em Beltane.  

Com tudo o que citamos, podemos concluir que o título de Bom Deus é extremamente apropriado para ele – um deus de excelência, maravilhoso em tudo o que faz. Com o seu caldeirão, ele sorri para seus filhos e estende sua mão divina para nos oferecer suas dádivas com generosidade e abundância, suprindo sua tribo e afugentando seus inimigos com sua força e feitiçaria, e marcando a natureza com seus golpes ressoantes que perdurarão para todo o sempre.   

Resumo

Nomes e títulos: Dagda (“Bom Deus” ou “fogo de Deus”), Dagán, Dagdae, Eochaid Ollathair (“Cavaleiro Pai de Todos”), Rúad Rhofessa (“Vermelho do Grande Conhecimento”), Aed Abaid, Dagda donn (“O marrom Dagda”), Dagda deirg (“O vermelho Dagda”), Dagda dein (“O poderoso Dagda”), Dagda duir (“O duro Dagda”), Fer Benn (“Homem das montanhas”), Cerrce (“Golpeador”, possivelmente), Labair (“Barulhento”), Athgen mBethai (“Regeneração/Renascimento do Mundo”), Grande Dagda, Amado Dagda, Dagda das grandes façanhas.

Parentesco e linhagem divina: Filho de Elatha, neto de Delbaeth mac Net e bisneto de Ned. A identidade de sua mãe é desconhecida. Seus filhos incluem Angus mac Og, Midir, Finnbarr, Cermait Milbel, Aed, Bodb Dearg, Áine, Ainge e Brígh. Teve como amantes as deusas Boann, Morrígan e Ní Indech.

Características físicas e temperamento: É descrito tendo uma aparência muito primitiva e rudimentar. Ele usa uma túnica curta que chega até seus quadris e uma capa com capuz que mal cobre os ombros, devido ao seu porte quase gigantesco, e usa também botas de pele de cavalo; é um deus com grandes olhos e coxas, ombros largos e imensamente alto, usando esplêndidas vestes cinza ou parda. Ele arrasta sua clava pelo chão, cavando uma trincheira que poderia ser o suficiente para separar um país de outro. É descrito tendo um grande apetite tanto por comida como por sexo, e se apresenta como uma divindade extremamente ameaçadora no campo de batalha, capaz de ele sozinho devastar batalhões inteiros.

Atributos: É uma divindade incontestavelmente associado ao clima e a terra. Ele tinha o poder sobre as colheitas, fazendo dele um deus da fertilidade, fartura e abundância. Era também o detentor de toda a sabedoria do mundo e portador de uma força sobre humana, além de ser um exímio feiticeiro. É um deus que tem o poder sobre a vida e a morte, e pode também estar relacionado ao fogo, relâmpago, às montanhas e as estações do ano.

Contos e histórias: Ele faz aparições rápidas na Primeira Batalha de Moytura e desempenha papeis mais importantes na Segunda Batalha, como na sua façanha com o satirista Cridenbél, o qual ele mata, sua viagem até o acampamento dos fomorianos, seu sexo com a deusa Morrígan, seu encontro com a filha de Indech e a passagem na qual ele recupera sua harpa roubada pelos fomorianos. Ele aparece no mito da concepção de Angus mac Og, que faz nove meses se passar como se fosse um único dia, e na história onde ele perde o Brugh na Boinne para Angus através de uma estratégia de “um dia e uma noite” que já tinha sido usada por ele mesmo. Ele também desempenha um papel importante no mito do Sonho de Angus, ajudando na busca pela donzela a quem Angus havia se apaixonado. Há também um mito no qual ele faz um tratado com os milesianos para manter a paz na Irlanda, e em outro mito, ele destrói uma besta marítima que assolava uma planície irlandesa. Ele aparece na história de Codal, onde seu filho Aed sequestra a esposa desse soldado seguindo as instruções do Dagda, e na história de Ailech, onde Aed é morto e o Dagda obriga seu assassino a carregar seu filho nas costas até encontrar uma pedra do mesmo tamanho do corpo que fosse apropriada para fazer um túmulo, e por último, no mito onde ele ganha a sua clava mágica capaz de ressuscitar os mortos.    

Cores: A partir de dois de seus títulos, podemos associá-lo com a cor vermelha, encontrado em dois de seus títulos, e com a cor marrom, que é encontrada na descrição de sua túnica e podendo fazer uma referência à cor do carvalho.

Árvores e plantas: Ele possui uma relação clara com o carvalho, e como um deus das colheitas, presume-se que possa ter alguma ligação com o trigo, a cevada, o centeio e a aveia, os cereais principais da dieta dos antigos irlandeses.

Animais: Provavelmente, bezerros pretos, cavalos, cabras, porcos e ovelhas.

Lugares: Os lugares que tem ligação com ele são: o Brugh na Boinne, Tara, a colina de Uisnech, Ess Ruaid (Assaroe), Ailech, Tulach Dér (“a colina das lágrimas”, que ganhou seu nome com as lágrimas que o Dagda derramou por Cermait; a atual localização dessa colina nos é desconhecida) e o Vale de Etin (não se sabe sua localização). Montanhas em geral também estão relacionadas a ele.

Instrumentos/armas: A harpa mágica Uaitne que provavelmente é capaz de mudar as estações do ano e que possuí três melodias capazes de fazer as pessoas chorarem, rirem e dormirem, a clava Lorg Arfaidh que possuem duas extremidades, uma lisa e uma áspera, a primeira capaz de ressuscitar os mortos, e a última, de matar os vivos e o caldeirão da fartura Undry, cujo conteúdo era inesgotável não importando o quanto era consumido. 

Símbolos: Nenhum que se saiba, mas seus itens podem igualmente serem usados para representá-lo, assim como o Ogham duir.

Festivais: Como ele se uniu com a Morrígan em uma época perto do Samhain, parece apropriado honrá-lo nesse festival, assim como em Beltane, como um deus da fertilidade. Como uma divindade com poder sobre relâmpagos, o Solstício de Verão também me parece uma época razoável, já que é uma época onde notoriamente acontecem as temidas tempestades de verão.  

Oferendas: Ramos e bolotas de carvalho, mingau de cereais, uma chama, pães de cereais e maços de trigo, cevada, aveia e/ou centeio. O creideamh-sí também prescreve leite, queijo, manteiga, caudle, bannocks, cerveja, mingau, bolos de aveia, ovos, carne, sal, flores, música e poesia para todos os seres encantados, podendo então essas oferendas serem igualmente apropriadas.



Bibliografia e literatura recomendada

Lebor Gabala Erren, ou “O Livro das Invasões”
Cét-chath Maige Tuired, ou “A Primeira Batalha de Moytura”
Cath Dédenach Maige Tuired, ou “A Segunda Batalha de Moytura”
Cath Dédenach Maige Tuired, ou “A Segunda Batalha de Moytura” (versão de Elizabeth Grey)
Cóir Anmnann, ou “A propriedade dos nomes”
De Gabail in t-Sída, ou “A conquista do monte encantado”
Tochmarc Etaine, ou “O cortejo de Etain”
Tuatha De Danann na set soim, ou “As quatro joias dos Tuatha Dé Danann”
Aislinge Oengusso, ou “O sonho de Angus”
Acallamh na Senórach, ou “O colóquio com os anciões”
Altram Tige Dá Medar, ou “A nutrição da casa dos dois baldes de leite”
Os métricos Dindshenchas, volume 2: Brug na Bóinde I e II
Os métricos Dindshenchas, volume 3: Boand I e II
Os métricos Dindshenchas, volume 3: Cnogba
Os métricos Dindshenchas, volume 4: Ailech I e II
Os métricos Dindshenchas, volume 4: Codal
Os métricos Dindshenchas, volume 4: Muirthemne
Os contos em prosa dos Rennes Dindshenchas, volume I: Dindgnai in Broga
Os contos em prosa dos Rennes Dindshenchas, volume I: Fid nGaible
Os contos em prosa dos Rennes Dindshenchas, volume III: Ailech
Os contos em prosa dos Rennes Dindshenchas, volume III: Druim Suamaich
Os Bodleian Dindshenchas: Druim Suamaich
The names of the Dagda, de Scott A. Martin.
The Dagda, de Annie Loughlinn
O Deus do Submundo, de Condeuios Andilixtos

Notas de rodapé

1. Tuatha Dé Danann. Uma das quatro tribos de deuses que chegaram à Irlanda, o título é traduzido como “A tribo dos deuses de Anu” ou “A tribo dos deuses das artes”. Eles personificam a civilização, a ordem, as práticas humanas de subsistência e os ofícios, como a tecelagem, metalurgia e medicina. Ao chegarem à Irlanda, lutaram contra os Fír Bolg, e depois, contra os fomorianos para se apossar da ilha, até serem derrotados pelos milesianos, onde se refugiaram debaixo da terra arruinando as colheitas dos homens até um pacto ser feito entre as duas tribos. Outras divindades dessa tribo incluem Lugh, Brígh, Goibniu, Angus, etc.

2. Segunda Batalha de Moytura. A Segunda Batalha de Moytura foi uma épica batalha entre os Tuatha Dé Danann e os fomorianos. Acredita-se que essa seja uma batalha cósmica entre duas tribos de deuses que representam a ordem e o caos, respectivamente. A batalha foi vencida pelos Tuatha Dé Danann e os fomorianos foram expulsos da Irlanda. Para ler o mito original traduzido, clique aqui.

3. A Intoxicação dos Homens de Ulster. Conhecido também como Mesca Ulad, é um texto medieval do século XVII que relata uma das aventuras do guerreiro Cúchulainn.

4. Os métricos dindshenchas. Os métricos dindshenchas são um corpo de histórias em formato de poesia que contam como determinado lugar foi criado ou como surgiu, a partir de forças sobrenaturais que o deram origem ou simplesmente através de atos realizados por humanos famosos. Acredita-se que os métricos dindshenchas foram criados para dois propósitos: o primeiro para educar a elite militar sobre o conhecimento necessário dos lugares da Irlanda, e o segundo para ser um conhecimento essencial para a casta bárdica, que se esperava recitar os poemas como forma de entretenimento ou sabedoria, ao serem questionados sobre as origens e histórias de determinada paisagem.

5. Cóir Anmann. Traduzido como “A propriedade dos nomes”, é um manuscrito medieval que conta a origem e o significado de alguns nomes que aparecem na mitologia gaélica. Apesar de só dizer o significado do nome de poucos deuses, é um manuscrito importante para entendermos questões linguísticas e iluminar alguns termos obscuros encontrados dentro da mitologia.

6. Primeira Batalha de Moytura. A Primeira Batalha de Moytura foi a primeira batalha travada pelos Tuatha Dé Danann, lutada contra os Fír Bolg. É nessa batalha que o deus Nuada, até então rei dos Tuatha Dé Danann, perde sua mão/braço e fica inapto para reinar, uma vez que os reis tinham que ter o corpo perfeito para ser apropriado para o reinado. A batalha foi vencida pelos Tuatha Dé Danann e os Fír Bolg foram obrigados a viverem em Connacht, no oeste da Irlanda. Para ler o mito original traduzido, clique aqui.

7. Fír Bolg. É uma das quatro tribos de deuses, cujo nome é curiosamente traduzido como “Os homens dos sacos”. Acredita-se que personifiquem aspectos ctônicos e agrícolas, pois onde quer que chegassem era capaz de transformar um solo rochoso e incultivável em um lugar fértil e propício para as práticas agrícolas. A deusa mais bem conhecida dessa tribo é Tailtiu, a mãe adotiva de Lugh, entendida como uma deusa da terra.

8. O cortejo de Etain. É um mito belíssimo que conta a história da deusa Etain Echraide. No início, a deusa é “comprada” por Angus para ser dada à Midir, seu pai adotivo. Quando é levada para o palácio de Midir, sua esposa Fúamnach a transforma em um inseto, e lança ventanias para mantê-la afastada. Em uma ocasião, o inseto cai na taça de uma rainha, que ao beber, engravida de uma encarnação de Etain, fazendo com que Midir novamente se volte para buscar sua amante, e assim, há uma luta entre os homens e o povo dos montes encantados pela posse da deusa. Para ler o mito original traduzido, clique aqui.   

9. A tomada do monte encantado. É uma história que se passa após a derrotada dos Tuatha Dé Danann pelos milesianos, contando como os Tuatha Dé Danann azedavam o leite dos humanos e destruíam suas colheitas, até um pacto ser feito entre as duas tribos. Para ler o mito original traduzido, clique aqui.   

10. Milesianos. Também conhecidos como “Os filhos de Mil”, foi a última tribo de invasores a chegar na Irlanda, e derrotarem os Tuatha Dé Danann. Acredita-se que sejam os progenitores do povo gaélico. Diz-se que eles vieram da Espanha, após um rei deles ter visto a ilha a partir de uma torre muito alta. O deus mais conhecido da tribo é Donn, o deus que guarda a casa dos mortos.

11. Fomorianos. Também conhecidos como Fomoire, é uma classe de deuses que personificam os aspectos sinistros e devastadores da natureza, incluindo a morte, o frio e o inverno. Seu nome pode ser traduzido como “Aqueles que vêm de baixo do mar” ou “Gigantes do submundo”, e muitos dessas tribos não são cultuados. Eles já estavam na Irlanda antes de todas as tribos chegarem, e são entendidos como as forças primordiais do planeta. Seu deus e rei mais conhecido é Balor Béimnech, que se acredita que seja o deus das pragas e da seca, representando também um aspecto devastador do sol.

12. Brugh na Boinne. Mitologicamente falando, é o palácio encantando de Angus mac Óg, localizando próximo ao Rio Boyne, de onde vêm seu nome. Foi construído pelo Dagda, que teve seu domínio no início, até ser conquisto por Elcmar, e depois, por Angus. Dizia-se que existia dentro do palácio três árvores sempre frutíferas, um barril cheio de vinho que nunca acabava e um porco que, ao ser assado e consumido, voltava à vida no dia seguinte. Secularmente falando, é um complexo de montes, pedras e túmulos do neolítico localizado no Condado de Meath, Irlanda.  

13. As quatro joias dos Tuatha Dé Danann. Um poema mitológico que descreve a origem dos quatro tesouros que os Tuatha Dé Danann trouxeram de sua primeira morada, as quatro ilhas encantadas no “norte do mundo” ou “no céu”. De cada uma delas foi trazido um tesouro específico: a pedra de Fál, o caldeirão do Dagda, a espada de Nuada e a lança de Lugh. Para ler o mito original traduzido, clique aqui.  

14. Crúachu. Secularmente falando, é um complexo de sítios arqueológicos localizados próximo ao Condado de Roscommon, Irlanda. É também conhecido como Rathcrogan ou Cruachan, e mitologicamente falando, é o lar de várias entidades sobrenaturais conhecidas na mitologia irlandesa, como a rainha Medb e a deusa Morrígan.  

15. O Livro das Invasões. É um dos principais textos mitológicos da religião gaélica, e relata as histórias das invasões das tribos de deuses que chegaram à Irlanda. Tem um alto teor de elementos cristãos adicionado pelos escribas católicos, e as histórias pagãs frequentemente se fundem com acontecimentos bíblicos.   

16. Ogham. Um alfabeto cuja criação é atribuído a Ogma, o deus gaélico da fala, da escrita e da eloquência. Possui 20 letras chamadas de fedas, divididas em 4 grupos de 5 fedas chamados de aicme. Um quinto aicme foi adicionado posteriormente para suprir os sons fonéticos que não existiam na língua irlandesa, mas muitos praticantes não o consideram em seus estudos e práticas por ter tido uma origem externa. Cada feda representa uma árvore e tem associações com rios, animais, ofícios e outros correlatos. Acredita-se que o Ogham possa ter tido usos divinatórios no passado, pois há relatos que os pagãos gaélicos usavam uma técnica de divinação conhecida como fidlanna, ‘adivinhação pela madeira’, ou ainda, que seja parte de um sistema mágico-religioso, onde cada feda representa um atributo mágico diferente.

17. Creideamh-Sí. É traduzido como a “Fé das Fadas”, e é um conjunto de crenças e práticas que perdura até hoje em algumas áreas rurais da Irlanda. Consiste em vários contos e práticas folclóricas como ofertar leite e manteiga para o Povo Encantado, ou o Povo das Fadas, e tomar medidas para se proteger deles.     



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