domingo, 20 de dezembro de 2015

O destino dos filhos de Lir


O destino dos filhos de Lir
Oidheadh Chloinne Lir

                Aconteceu dos cinco Reis da Irlanda se encontrarem para determinar quem teria o reinado chefe sobre eles, e o Rei Lir da Colina do Campo Branco esperava certamente que ele fosse o eleito. Quando os nobres se reuniram em um conselho, eles escolheram Dearg, o filho de Daghda, para ser o rei chefe, pois seu pai tinha sido um grande druida e ele era o mais velho dos filhos de seu pai. Lir deixou a Assembleia dos Reis e foi para sua casa, a Colina do Campo Branco. Os outros reis teriam seguido Lir para lhe ferir com lanças e espadas por não ter rendido obediência ao homem a quem eles deram o reinado, mas o rei Dearg não os escutou e disse: “Ao invés disso, vamos liga-lo a nos através dos elos do reinado, para que a paz possa habitar na terra. Mande para ele as três donzelas da mais nobre forma e com a melhor reputação em Erin para ele escolher sua esposa, as três filhas de Oilell de Aran, minhas três próprias crias de confiança.”


                Os mensageiros então disseram a Lir que o rei Dearg lhe daria uma de suas filhas adotivas. Lir achou isso bom e no dia seguinte foi embora da Colina do Campo Branco com cinquenta carruagens, chegando até o Lago do Olho Vermelho próximo a Killaloe. Quando Lir viu as três filhas de Oilell, o rei Dearg disse a ele:

                “Escolha uma das donzelas, Lir.” “Eu não sei,” disse Lir, “quem é a melhor, mas a mais velha é a mais nobre e é ela que escolherei.” “Se é assim,” disse o rei Dearg, “Ove é a mais velha e ela será dada para ti, se quiser.” Lir e Ove então se casaram e voltaram para a Colina do Campo Branco.

                Após isso, veio para eles dois gêmeos, um filho e uma filha, e eles lhe deram os nomes Fingula e Aod, e mais dois filhos vieram, Fiachra e Conn. Quando vieram, Ove morreu e Lir lamentou amargamente por ela, e se não fosse o grande amor que tinha pelos seus filhos, ele teria morrido de tristeza. O rei Dearg lamentou por Lir, foi até ele e disse: “Nós lamentamos por Ove por tua causa, mas, para que nossa amizade não se prejudique, eu lhe darei sua irmã Oifa para ser sua esposa.” Lir concordou e eles se uniram, levando-a consigo para sua própria casa. No início, Oifa sentiu afeição e honra pelos filhos de Lir e sua irmã, e de fato, qualquer um que visse os quatro filhos não poderiam ajudar, dando-lhes o amor de sua alma. Lir amava os filhos, e eles sempre dormiam em camas na frente de seu pai, que costumava levantar-se bem cedo todas as manhãs para deitar-se com suas crianças. Por isso, o dardo da inveja acertou em Oifa, que passou a ver as crianças com raiva e inimizade. Um dia, sua carruagem foi preparada para ela, que levou os quarto filhos de Lir. Fingula não desejava ir com ela na viagem, pois teve um sonho durante a noite que a alertou contra Oifa, mas ela não evitou seu destino. Quando a carruagem chegou ao Lago dos Carvalhos, Oifa disse para o povo: “Matem os quatro filhos de Lir e eu os recompensarei com todo tipo de recompensa no mundo.” Eles recusaram e disseram a ela que este era um mau pensamento. Ela então ergueu uma espada para matar e destruir as crianças, mas sua situação como mulher e sua fraqueza não deixou. Ela então fez com que os filhos de Lir entrassem no lago, e estes fizeram conforme ela falou. Assim que entraram, ela os atingiu com uma vara de feitiços e feitiçaria druídica e os transformou em quatro belos cisnes perfeitamente brancos, e cantou essa canção:

“Com vocês estão as ondas selvagens, filhos do rei!
Doravante, seus choros estarão com as revoadas de aves.”

                E Fingula respondeu: 

“Sua bruxa! Conhecemos-te pelo seu nome correto!
Podes ter nos conduzido de onda para onda,
Mas às vezes, descansaremos na terra
Receberemos descanso, mas tu receberás punição.
Apesar de nossos corpos estarem sob o lago,
Nossas mentes pelo menos voarão para casa.”

                E novamente ela disse: “Ordene um fim para a ruína e infortúnio que tu nos trouxestes.”

                Oifa riu e disse, “Vocês nunca estarão livres até a mulher do sul se unir ao homem do norte, até Lairgnem de Connaught casar-se com Deoch de Munster, e ninguém terá poder para tirá-los destas formas.”

                “Por novecentos anos vocês deverão vagar pelos lagos e rios de Erin. Isto é apenas o que eu garanto a vocês: que vocês mantenham a sua fala e não haverá música no mundo igual à de vocês, a música lamentosa que irão cantar.” Ela disse isso pois o arrependimento se apoderou dela pelo mal que havia feito.

                Ela então cantou a canção¹:

“Longe de mim, filhos de Lir,
Doravante, o passatempo dos ventos selvagens
Até Lairgnem e Deoch juntarem-se,
Até vocês estarem no nordeste da Vermelha Erin.

Uma espada de traição está atravessada no coração de Lir,
De Lir, o poderoso campeão,
Ainda que apesar de ter sido eu a acertar a espada,
Minha vitória corta meu coração.”

                Ela então virou seus cavalos e seguiu para o Salão do rei Dearg. Os nobres da corte perguntaram onde estavam os filhos de Lir e Oifa disse: “Lir não os confiara ao rei Dearg.” Mas Dearg imaginou que a mulher estivesse jogando alguma traição sobre eles, e, portanto, enviou mensageiros para o Salão do Campo Branco.

                Lir perguntou aos mensageiros, “Qual o motivo para a vinda?”

                “Para buscar teus filhos, Lir,” eles disseram. 

                “Eles não chegaram até vocês com Oifa?” disse Lir.

                “Não chegaram,” disseram os mensageiros, “e Oifa disse que você não deixou as crianças irem com ela.”

                Lir então ficou melancólico e com o coração triste ao escutar essas coisas, pois sabia que Oifa tinha feito algo errado com seus filhos, e ele então foi em direção ao Lago do Olho Vermelho. Quando os filhos de Lir viram-no chegando, Fingula cantou a canção: 

“Recebam a cavalgada de cavalos
Aproximando-se do Lago do Olho Vermelho,
Uma companhia temível e mágica
Que certamente nos procura.

Vamos nos mover para a costa, Ó Aod,
Fiachra e gracioso Conn,
Nenhuma tropa debaixo do céu podem ser estes cavaleiros
Senão o Rei Lir com sua poderosa criadagem.”

                Ao dizer isso, o Rei Lir foi até a costa do lago e ouviu os cisnes falando com vozes humanas. Ele falou com os cisnes e perguntou quem eles eram. Fingula respondeu dizendo: “Somos os teus próprios filhos, arruinados por tua esposa, irmã de nossa mãe, através de sua mente doentia e de sua inveja.” “Por quanto tempo o feitiço estará sobre vocês?” disse Lir. “Ninguém poderá nos socorrer até a mulher do sul e o homem do norte se unirem, até Lairgnem de Connaught casar-se com Deoch de Munster.”

                Lir e seu povo então ergueram seus gritos de dor, choro e lamentação, permanecendo na costa do lago escutando a música selvagem dos cisnes até estes irem embora, e o Rei Lir foi para o Salão do rei Dearg. Ele contou ao rei Dearg o que Oifa tinha feito com seus filhos. Dearg colocou seu poder sobre Oifa e a fez dizer qual forma da terra era considerava ser a pior, e ela disse que a pior forma era a de um demônio do ar. “É nesta forma que eu te colocarei,” disse o rei Dearg, que bateu nela com uma varinha de feitiços e feitiçaria druídica, transformando-a em um demônio do ar. Ela então voou para longe e ainda é um demônio do ar, e será para sempre.

                Mas os filhos de Lir continuaram a encantar os clãs dos milesianos com a doce melodia fada de suas canções, de forma que nenhum encanto foi escutado em Erin que poderia comparar-se com sua música, até chegar a hora deles deixarem o Lago do Olho Vermelho.

                Fingula então cantou essa canção de despedida:

“Adeus, rei Dearg,
Mestre de todo o conhecimento druídico
Adeus, nosso querido pai,
Lir da Colina do Campo Branco.

Nós iremos, no tempo determinado,
Ir embora e deixar as tocas dos homens
No curso de Moyle²,
Nossas vestes estarão penosas e salgadas.

Até Deoch ir até Lairgnem,
Então venham, irmãos das bochechas coradas de outrora
Vamos embora desse Lago do Olho Vermelho,
Vamos nos separar tristemente da tribo que nos amou.”

                Após isso, eles voaram bem alto e bem leve, aéreos, até chegarem ao Moyle, entre Erin e Albain.

                Os homens de Erin ficaram tristes com a partida, e foi proclamado por toda Erin que desse dia em diante, nenhum cisne deveria ser morto. Eles então ficaram solitários, sozinhos, cheios de frio, dor e tristeza, até uma densa tempestade vir sobre eles, e Fingula disse: “Irmãos, vamos designar um local para nos encontrarmos novamente se o poder dos ventos nos separar.” Eles disseram: “Vamos nos encontrar, Ó irmã, na Rocha das Focas.” As ondas então se levantaram e o trovão rugiu, o relâmpago piscou e a tempestade varredora passou sobre o mar, separando os filhos de Lir um do outro no grande mar. Chegou, no entanto, uma plácida calma depois da grande tempestade, e Fingula encontrou-se sozinha e cantou a canção:

“Ai de mim por estar viva
Minhas asas estão congeladas em meus flancos.
Ó três amados, Ó três amados,
Que escondi sob o esconderijo de minhas penas,
Até a morte voltar para o vivo
Eu e os três nunca nos encontraremos novamente!”

                Ela voou para o Lago das Focas e logo viu Conn indo em direção a ela com seu passo pesado e penas encharcadas, e Fiachra também, frio, molhado e fraco, e não podiam dizer uma única palavra, de tão frios e fracos que estavam, mas ela os aninhou sob suas asas e disse: “Se Aod pudesse vir até nós, nossa felicidade estaria completa.” Mas logo viram Aod vindo em direção a eles, com a cabeça seca e as penas lisas. Fingula o colocou debaixo das penas de seu peito, Fiachra sob sua asa direita e Conn sob sua asa esquerda, e fez essa canção:

“Nossa madrasta foi má conosco,
Ela colocou sua magia em nós,
Mandando-nos para o mar ao norte
Na forma de cisnes mágicos.

Nosso banho sobre o cume da praia
É a espuma da maré de crista salgada,
Nossa parcela na festa da cerveja³
É a água salgada do mar de crista azul.”

                Um dia eles viram uma esplêndida cavalgada de cavalos de puro branco vindo em direção a eles, e ao se aproximarem, viram que eram os dois filhos do rei Dearg que estavam procurando por eles para lhe dar as notícias do rei Dearg e de seu pai Lir. “Eles estão bem,” disseram, “e vivem juntos felizes com todas as coisas, exceto por vocês não estarem com eles e por não saberem para onde vocês foram desde o dia que deixaram o Lago do Olho Vermelho.” “Não estamos felizes,” disse Fingula, que cantou essa canção:

“Feliz essa noite está a casa de Lir,
Abundante é sua carne e seu vinho.
Mas quanto aos filhos de Lir – qual é sua porção?
Para camas nós temos nossas penas,
E para nossa comida e vinho –
A areia branca e a amarga água salgada,
A cama de Fiachra e o lugar de Conn
Sob a proteção de minhas asas no Moyle,
Aod tem o esconderijo de meu peito,
E lado a lado descansamos.”

                Então os filhos do rei Dearg foram para o Salão de Lir e lhe contou a condição de seus filhos. 

                Então chegou o tempo para os filhos de Lir comprimem seu destino, e eles voaram na corrente do Moyle até a Baía de Erris, permanecendo lá até a hora de seu destino, e depois voaram para a Colina do Campo Branco e encontraram tudo desolado e vazio, com nada além de verdes raths4 sem telhado e florestas de urtigas – nenhuma casa, nenhum fogo, nenhuma morada. Os quatro se juntaram e erguerem três gritos altos de lamentação, e Fingula cantou a canção:

“Uchone5! É uma amargura para meu coração
Ver o lugar do meu pai abandonado –
Sem cães-de-caça, sem matilhas de cães,
Sem mulheres e sem corajosos reis.

Sem chifres de bebida, sem copos de madeira,
Sem bebida em seus luminosos salões.
Uchone! Eu vejo o estado dessa casa
Que seu senhor, nosso pai, não vive mais.

Muito sofremos em nossos anos vagando,
Esbofeteados por ventos, congelados pelo frio;
Agora chegou a maior de nossas dores –
Não vive nenhum homem que nos conhecia na casa onde nascemos.

                Os filhos de Lir então voaram para a Ilha da Glória de São Brandão, e ficaram sobre o Lago das Aves até o sagrado Patrício chegar a Erin e o sagrado Mac Howg chegar à Ilha da Glória.

                Na primeira noite que ele chegou à ilha, os filhos de Lir escutaram o som de seu sino soando para as preces matinais, e pularam com medo ao escutar isso, e seus irmãos deixaram Fingula sozinha. “O que é isso, amados irmãos?” disse ela. “Não sabemos que som débil e medonho é esse que ouvimos.” Fingula então recitou essa canção:

“Escutem o sino do clérigo,
Equilibrem suas asas e levantem-se
Graças a Deus por ele ter vindo,
Fiquem agradecidos por terem o escutado.

Ele vos libertará da dor,
E os tirará das rochas e pedras.
Filhos adoráveis de Lir
Escutem o sino do clérigo.”

                E Mac Howg desceu para a beira da praia e disse para eles, “Vocês são os filhos de Lir?” “Somos, de fato,” disseram eles. “Graças a Deus!” disse o santo, “é por sua causa que vi para essa Ilha além de todas as outras ilhas em Erin. Venham para a terra agora e confiem em mim.” Eles então foram para a terra, e ele fez para eles correntes de um brilhante prata branco, e colocou uma corrente entre Aod e Fingula e outra entre Conn e Fiachra.

                Aconteceu então de Lairgnem ser o príncipe de Connaught e se casaria com Deoch, a filha do rei de Munster. Ela escutou o relato dos pássaros e encheu-se de amor e afeição por eles, mas ela disse que não se casaria até ter as maravilhosas aves da Ilha da Glória. Lairgnem mandou enviados para o Santo Mac Howg, mas ele não os daria, e tanto Lairguen como Deoch foram para a Ilha da Glória. Lairgnem foi para pegar as aves no altar, mas assim que colocou suas mãos neles, suas peles de penas caíram e os três filhos de Lir se tornaram três mirrados e ossudos homens velhos, e Fingula, uma magra e murcha mulher velha sem sangue ou carne. Lairguen levantou-se depois disso e rapidamente deixou o lugar, mas Fingula cantou a canção:

“Venha e nos batize, Ó clérigo,
Limpe nossas manchas
Hoje vejo nosso túmulo –
Fiachra e Conn nos dois lados,
E em meu colo, entre meus dois braços,
Coloque Aod, meu belo irmão.”

                Após essa canção, os filhos de Lir foram batizados. Eles morreram e foram enterrados conforme Fingula tinha dito: Fiachra e Conn nos dois lados e Aod diante de seu rosto. Um cairn6 foi erguido para eles e seus nomes foram escritos em runas, e essa foi a história do destino dos filhos de Lir.

Fonte: JACOBS, Joseph. Celtic Fairy Tales. Baseado na versão de P.W. Joyce em Old Celtic Romances. Disponível em: <htttp://www.maryjones.us/ctexts/lir.html>.  

Notas de tradução
1. Canção. O termo original em inglês é lay, que possui um significado diferente, embora a tradução se adeque. Lay é o termo que significa um pequeno poema narrativo ou lírico que deve ser cantado.
2. Moyle. Os Estreitos de Moyle (Sruth na Maoile em irlandês) são uma área do Mar da Irlanda que separa a Irlanda da Escócia.
3. Cerveja. O termo original é ale, que apesar da tradução ser cerveja, a palavra tem um sentido diferente da nossa cerveja brasileira. O ale, segundo o site “Wikipédia”, é um tipo de cerveja produzida a partir da cevada maltada onde se usa uma levedura capaz de fermentar a cerveja rapidamente e proporcionar um sabor de frutas devido a componentes químicos encontrados nessa levedura.
4. Rath. Um montículo de terra remanescente de habitações circulares na Irlanda.
5. Uchone. Termo intraduzível para o português.
6. Cairn. Monte ou pilha de pedras.

Para ter a versão em .pdf, clique aqui.   

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