quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Caos e ordem tripartida: a cosmovisão céltica


Essa é uma tradução de um artigo original em inglês cujo link se encontra no final do texto. A tradução foi feita pelo autor do blog; como sua escritora faleceu, a autorização foi concedida por uma das organizadoras do projeto "Land, Sea and Sky", Shae Clancy. 

5. Caos e ordem tripartida: a cosmovisão céltica
Francine Nicholson


                O capítulo anterior mostrou como as recentes pesquisas científicas revelam o ambiente natural no qual os celtas antigos e medievais viviam. Nesse capítulo, veremos como eles viam o mundo ao seu redor, como interpretavam a realidade do dia-a-dia e como eles aplicavam o significado religioso e mitológico no seu mundo.

                Muito da antiga religião céltica pré-cristã era uma resposta ao mundo físico na qual os celtas viviam. As deidades foram concebidas no início como forças da natureza. Quando os druidas cantavam encantamentos ou maldições, eles invocavam ritualisticamente os poderes das partes do cosmos, e acreditava-se que os homens eram feitos a partir dos elementos do cosmos. As festas sazonais marcavam os pontos essenciais da agricultura e ciclos de pastoreio, e os ritmos do mundo natural governavam as vidas e o comportamento ritual dos antigos celtas.

                Limpando planícies e mantendo-as limpas, os antigos celtas criavam a ordem a partir de um fértil e natural caos, uma ordem que tornou possível seu estável modo de vida. Domar as regiões selvagens e mantê-las domadas não era tarefas fáceis, e nunca acabavam. Apesar de sua intimidade com a natureza, no entanto, eles não estavam cientes dos muitos processos e fatores envolvidos no sucesso das plantações e criações de animais, então, suas explicações de o porquê das doenças ocorrerem ou as colheitas falhassem diferiam de nossa abordagem moderna e mais científica. Para limitar essas forças hostis, os celtas faziam oferendas para apaziguar as forças naturais e ofereciam orações para atrair ajuda e proteção de seres que tinham o poder e conhecimento necessário para canalizar a energia fértil para o benefício humano. A consciência da dependência humana na cooperação das forças naturais permeava toda a religião céltica pré-cristã e persistiu na era cristã quando estas forças foram transformadas na Trindade e nos santos. No entanto, a postura permanece consistente. Os humanos precisam aprender a viver em equilíbrio com as forças naturais ao invés de tentar controla-las. Parte da colheita precisa ser paga aos poderes invisíveis como seu tributo. Nem todas as regiões selvagens devem ser domadas; algumas devem ser deixadas selvagens para que criaturas selvagens tenham seu lugar e para que as rotas para o Outro mundo mantenham-se sem serem molestadas.

O reinado sagrado como um canal e ponto de equilíbrio

                Questões e atitudes similares são refletidas na antiga instituição céltica do reinado sagrado. Essa instituição social era destinada a garantir as condições sociais e naturais favoráveis necessárias à prosperidade em cada tribo ou grupo tribal. Quando o rei de uma tribo era inaugurado, entendia-se que ele acasalou com a deusa da terra, desse modo, estabelecendo uma ligação e um canal pelos quais a energia criativa fluiria a partir da deusa para a terra da tribo, seu povo e seus animais. Enquanto o rei governasse sabiamente e a terra prosperasse, o rei era considerado “correto”. No entanto, se ele falhasse, acreditava-se que o clima se tornaria desfavorável, os animais morreriam, as colheitas fracassariam e a ilegalidade aconteceria. Se tais condições prevalecessem, era um sinal que o rei não era mais “correto”.

A dimensão mítica

                Diferente da maioria dos povos de hoje, um celta pré-cristão olhando para a terra ao seu redor não via apenas a realidade física, mas também sua dimensão mítica. As colinas eram montes de terra e também seios de deusas aparentadas. O rio era formado quando uma deusa olhava para um poço do Outro mundo e, ao seu olhar, uma onda se levantava e fluía do poço através da terra até chegar no mar. Pedras altas marcavam os lugares onde os heróis tribais morreram defendendo a terra contra inimigos. Uma fonte não dava apenas água – circulá-la no sentindo horário e deixar uma oferenda poderia curar uma doença.

                As criaturas também não eram o que pareciam. Acreditava-se que muitos animais tinham inerentes poderes ou sabedoria mágica. Um ortha escocês invoca os poderes do corvo. Acreditava-se que alguns grous eram capazes de falar com humanos. As focas, se retirassem suas peles, podiam acasalar-se com humanos e a partir de tais encontros, viria uma família de olhos escuros que contam para cada geração: “nós não somos permitidos caçar focas pois eles são nossos parentes.” E as vezes, animais e pássaros podem ser diferentes formas de divindades.

O mundo tripartido

                A imagem tripartida do mundo – terra, céu e mar – pode ser encontrada associada com os povos célticos em alguns dos mais antigos materiais que mencionam os celtas. Quando Alexandre o Grande estava nos Bálcãs (cerca de 335 a.C.), ele encontrou vários guerreiros célticos que foram enviados como emissários de seu povo. 

                “O que vocês temem?” Alexandre perguntou impressionado. “Apenas que o céu caia sobre nós ou que o mar se levante e nos afogue,” responderam os líderes.

                Aparentemente, considerando que era provavelmente bom serem diplomáticos, eles adicionaram, “mas apreciamos ter a amizade de um homem como você.” O que Alexandre e os historiadores que recontaram a história falharam em aprecia era que os celtas estavam dizendo que temiam apenas a destruição do mundo físico e social, e que ambos estavam entrelaçados. Enquanto o equilíbrio social prevalecesse, o equilíbrio físico também prevaleceria. O tema é encapsulado em uma passagem de uma história do Ciclo de Ulster. Na vigília de um assalto bem sucedido em Ulster, um guerreiro apavorado tenta incitar o rei Conchobhar a fazer uma rápida vingança, mas o rei o censura:

                “Esse choro está um pouco alto demais,” disse Conchobar, “pois o céu está acima de nós, a terra debaixo de nós e o mar ao nosso redor, mas a menos que o céu com suas chuvas de estrelas caiam sobre a superfície da terra ou a menos que o céu se abra em um terremoto ou a menos que o mar de bordas azuis e abundante de peixes venha sobre a superfície da existência, eu trarei de volta cada vaca para sua vacaria e recinto, cada mulher para sua própria morada e lar, após a vitória em batalha, combate e luta.”

                Isso faz lembrar um ortha escocês do século XIX, citado no capítulo 1, que desejava o “poder” ou a “virtude” do mar, da terra e do céu no beneficiário. Esse uso desse paradigma cósmico que sobreviveu na tradição folclórica irlandesa até o século XX é mostrado por uma história irlandesa escrita em 1904 descrevendo um rei como aquele a quem “o céu e o chão dependem para evitar que caíam juntos.”

Associações entre as deidades e os elementos cósmicos

                Os celtas antigos associaram as deidades com cada parte do cosmos? As deusas parecem ter sido associadas com a terra e lugares aquáticos, enquanto que os deuses são mais associados com o clima e os elementos do céu. Na mitologia irlandesa, os Tuatha Dé Danann aparecem vindos do céu e escurecem o sol por três dias. O Dagda para o sol por um espaço de tempo necessário para seu filho Óengus desenvolver-se no útero de sua mãe e nascer. Lugh empunha um relâmpago como uma arma. Um número de deidades continentais e britânicas são comparados com Júpiter e Apollo, ambas divindades celestes. Provavelmente, o clima é a chave para prever a conexão entre muitos deuses e o céu. Pensava-se que os elementos do céu eram governados pelos deuses que rolavam por ele em bigas e cujas armas eram relâmpagos. Com seu poder para controlar o vento e o clima, pensava-se que esses deuses desempenhavam um papel crucial nas plantações e nas colheitas. No entanto, pode ser que a cristianização do conceito céltico de céu fosse tão completa que nós não temos certeza se existiam tais divisões entre as deidades. 

I) Terra

                Para os celtas pré-cristãos, a terra era conectada com a deusa que podia abençoar ou amaldiçoar a vida daqueles que prestavam homenagem a ela. Como um dos três componentes do cosmos, a terra era a força estabilizadora entre o céu acima e a mar abaixo e ao redor. A harmonia na terra, de certo modo, mantinha todo o cosmos equilibrado. Era a parte do universo que nutria, alimentava e abrigava os celtas. Era o lar. 

                Os antigos irlandeses pensavam em sua terra tendo divisões que eles conceituavam e usavam nos rituais e nos mitos. Primeiramente, existia a metade superior e a metade inferior, Leth Cuinn e Leth Moga. Depois, eles associaram vários aspectos das atividades com as direções geográficas: o oeste com o conhecimento, o norte com batalhas, o leste com tesouros, o sul com música e o centro com a soberania. Os galeses podem ter tido associações ritualísticas similares para as divisões de sua terra. Enquanto que alguns estudiosos acreditam que essas associações ritualísticas com as direções representem uma inovação medieval tardia, outros afirmam que a função ritualística das direções datam as origens da religião indo-europeia. Qualquer que seja sua origem, as imagens das direções são consistentes com os propósitos gerais do ritual céltico pré-cristão que era promover, e se necessário, recriar o equilíbrio entre as partes desse mundo e reestabelecer o livre fluxo de energia entre esse mundo e o outro.

                Os territórios tribais tinham suas deidades protetoras. Acreditava-se que a terra em si estava imbuída com poder. Cada marco divisório tinha sua própria energia, identidade e associações míticas. Na verdade, de acordo com o folclore, os humanos às vezes encontravam as deidades em tais lugares, especialmente tarde da noite ou quando uma neblina envolvia a área. Pensava-se que alguns lugares eram tão poderosos e sagrados que eles não deviam ser usados para propósitos humanos comuns. Ao invés disso, eles eram deixados de lado para serem usados como locais para os rituais onde as divindades eram endereçadas e veneradas, e onde os rituais de proteção, prosperidade e fertilidade eram oferecidos em favor da tribo. 

                Os antigos contos irlandeses retratam deusas limpando planícies para a agricultura e depois morrendo e sendo enterrada na planície para torna-la fértil, mas, como uma deusa, sua morte não é necessariamente permanente. Algumas deusas reaparecerem mais tarde em outras histórias. Os rios também eram criados a partir de seu corpo, trazendo a força fértil e inundada do Outro mundo para esse. Qualquer que seja a imagem precisa empregada, os mitos persistiam em ver a Terra inextricavelmente ligada a sua deusa.

                Aparentemente, cada território tinha sua própria deusa, uma força que podia tomar a forma de animais, uma mulher fértil ou uma velha. Ela poderia ser encontrada no topo de montanhas ou próxima a lagos. Ela pertencia a seu povo e eles pertenciam a ela. Enquanto eles a honravam, ela abençoava suas atividades com prosperidade. Se o território era atacado, a Terra, como uma mãe protegendo seus filhos, se tornaria feroz e inflamaria seus guerreiros, guiando-os em batalha, aterrorizando seus inimigos com visões de sua fúria e lamentando suas perdas. Semelhantemente, lendas folclóricas e genealogias “oficiais” frequentemente nomeiam tais deusas como sendo as ancestrais derradeiras do povo mais proeminentemente associado com o território. Quando o líder se aproximava da morte, a deusa patrona aparecia para anunciar sua passagem e lamentar ritualisticamente.

                Cada deusa territorial – a Terra – dava sua aliança, devoção e poder para o governador escolhido em uma cerimônia inaugural chamado (na Irlanda) de banfeis, um casamento. Apesar de ser escolhido pela tribo, em termos míticos o rei era a escolha da deusa. Assim, no Tochmarc Étaine, Étain Echraide procura o rei e diz que ela veio para ser sua noiva. No primeiro ramo do Mabinogi, Rhiannon cavalga perto de Pwyll; ele não pode pegá-la, mas eventualmente ela para e lhe diz que ela veio por ele.

                Pensava-se também que o rei precisava provar se ele era digno do título. Em uma história bem conhecida, a própria deusa testa os filhos de Eochaid Mugmedón. Na forma de uma velha mulher, ela se aproxima dos filhos um de cada vez, do mais velho ao mais jovem, pedindo a cada um deles para dormir com ela. Todos recusam, exceto um. Niall, reconhecendo o valor de seu presente, aceita seu convite e abraça a deusa. E, conforme a história se desenrola, o reinado é garantido para Niall e seus descendentes por causa de sua escolha perspicaz. 

                A harmonia e o equilíbrio eram mantidos através do relacionamento entre a deusa da Terra e o rei, que conduzia a tribo associada com o território. Através da imagem do rei, a deusa canalizava sua energia para o povo, plantas, árvores e animais para tornar tudo fértil e próspero. Enquanto o rei agisse “corretamente”, a Terra e o povo viveriam em paz e abundância. Essa adesão aos modos “corretos” de um rei era chamada de ‘a verdade do governante’, fírinne flátha. Este era um conceito básico da sociedade céltica que eram os comportamentos apropriados para um rei, assim como para qualquer um.

II) Mar

                A parte cósmica normalmente identificada com o mar na verdade inclui todos os corpos de água: rios, lagos, mares, fontes e poços. A água mediava entre os outros reinos, viajando do céu como chuva e retornando como orvalho após tornar a terra fértil. A água também conectava os humanos com o Outro mundo. De acordo com as histórias irlandesas, acreditava-se que pelo menos alguns rios tinham sua origem em poços no Outro mundo que então fluíram para esse mundo. Tais rios, assim como poços e fontes sagradas, acreditava-se levar o poder e o conhecimento do Outro mundo para esse. O conhecimento poderia ser adquirido comendo um salmão especial que vivia em certos poços e rios, bebendo de certos locais ou inalando as bolhas que fluíam sobre o rio em certas épocas e lugares. 

                Ainda, embora os lugares aquáticos tenham fascinado as pessoas e tenham sido usados por eles para trabalho e lazer por milênios, a atração é mais profunda, mais essencial, para alguns. Dois poemas medievais irlandeses expressam o amor e a fascinação pela beleza do mar:

(I)
Fégaid úaib
Olhe tu
sair fo thúaid
para o nordeste
in muir múaid
sobre o poderoso oceano
mílach;
cheio de vida marinha;
adba rón
lar das focas,
rebach, rán,
de curto-circuito, esplêndida
ro-gab lán
sua maré alcançou
línad.
a plenitude. 

(II)
Is lán ler, is lomnán muir,
O oceano está inundado, o mar está cheio,
is álaind inn ethat-bruig,
delicioso é o lar dos navios,
ro-lá curu in gaeth ganmech
o vento arenoso fez turbilhões
im Inber na dá Ainmech
ao redor da Foz das Duas Chuvas
is luath luí re lethanmuir.
rápido é o leme contra o amplo mar.

                Apesar de sua associação com a produtividade, os corpos d’água eram altamente imprevisíveis. Apesar de ser necessária para a vida, a água podia ser uma força extremamente destrutiva. Na Irlanda e na Escócia, numerosos encantamentos e orações buscam apaziguar o mar e persuadi-lo a garantir segurança aos pescadores e viajantes. No continente europeu, os santuários para Nehalennia, uma deusa do mar, buscavam proteção e orientação para a próxima vida. Nos Highlands da Escócia, até mesmo no período cristão, oferendas eram feitas para Shony, o mestre do mar. Poemas irlandeses falam das ondas como sendo o cabelo de deusas. A atenção de uma deusa podia guia-lo para a segurança, mas ela também poderia te puxar para debaixo das ondas se você chamasse sua atenção ou desagradasse ela. 

                A aquicultura sempre foi uma vida difícil e arriscada, e é assim até hoje. Aqueles que trabalham no mar, especialmente pescadores, estão sujeitos a seus caprichos e corretamente consideravam-no com respeito, medo e um amor não entendido por todos. Em partes da Grã-Bretanha e Irlanda, o mar era frequentemente o único meio para ganhar a vida, mas também frequentemente tirava a vida. Em uma peça irlandesa moderna, a Maurya de J.M. Synge lamenta:

                “Todos eles se foram, não há mais nada que o mar possa fazer para mim... Não terei mais nenhuma chamada para chorar e orar quando os ventos quebrarem do sul, e você pode escutar a ressaca no leste, a ressaca no oeste, fazendo uma grande agitação com os dois barulhos, e eles batem um contra o outro. Eu não terei chamado agora para estar descendo e pegando Água Benta nas noites escuras depois do Samhain, e eu não me importarei em que caminho o mar estará quando as outras mulheres estiverem lamentando.”

                Acreditava-se que as fontes e os rios tinham suas origens no Outro mundo, e traziam com eles a possibilidade de adquirir o conhecimento sobrenatural. Talvez, o conto mais memorável de conhecimento e água é aquele associado com a deusa do rio Boyne. Boánn desejava obter o conhecimento do poço que estava sob a proteção de seu marido Nechtán. Ao se aproximar do poço, buscando o conhecimento de suas profundezas, uma onda jorrou levando-a pela terra. A onda correu para o mar, fazendo-a perder um braço e uma perna. Junto com a onda, essas partes de seu corpo foram transformadas no rio Boyne.

                Os poços tinham seus espíritos guardiões ou serviam como acesso para seu protetor territorial. Mesmo hoje em dia, os poços servem como locais de devoção para buscar cura ou outras bênçãos. Muitos territórios tinham poços aonde as pessoas iam para buscar favores e fazer oferendas, especialmente no início de cada estação ou quando precisavam de cura. Essas devoções sobreviveram no contexto cristão, mas ainda preservam objetos e ações cuja origem é obviamente não cristã, tais como sentar em “cadeiras” megalíticas de pedra ou deitar em grandes “camas” de pedra para encorajar a gravidez. Hoje em dia, os poços são mais comumente devotados a santos patronos, mas os rituais realizados neles podem preservar uma tradição da busca de bênção da deusa territorial.

                Os arqueólogos descobriram muitos locais onde itens extraordinários – espadas maravilhosamente trabalhadas, caldeirões e joalheria – foram aparentemente depositadas em locais aquáticos como oferendas ritualísticas. Nas histórias medievais, parece que a água, o mundo dos mortos e o Outro mundo eram conectados. Corpos da Idade do Ferro encontrados em pântanos, aparentemente sacrifícios humanos, levantam questões que relatam a essas possíveis associações. Os pântanos são áreas liminares, uma combinação de terra e água. Essas pessoas ofereciam para os deuses da fertilidade, patronos da água ou para os governantes dos mortos? Ou as mesmas deidades tinham todas essas funções? Nós podemos nunca saber das respostas, mas está claro que, mesmo no período cristão, as pessoas que lidavam com o mar regularmente faziam oferendas e pedidos para os espíritos e poderes que pudesse protegê-los, e nem todos esses poderes eram santos.

III) Céu

                Em muitas formas, o céu era a parte do cosmos que era a mais misteriosa e inacessível para os celtas pré-cristãos. A terra era o reino natural dos humanos. Apesar de poderem se aventurar no mar, era um ato arriscado e sua permanência podia ser apenas temporária. Eles não podiam se aventurar no céu. O mais próximo que podiam chegar era escalando uma montanha ou viajar em um sonho ou visão. Assim, o céu era exclusivamente o reino das deidades e dos pássaros. As deidades celestes frequentemente tomavam a forma de pássaros. Ocasionalmente, os feiticeiros podiam assumir a forma de pássaros e viajar no céu. Dizia-se que, para esse propósito, os druidas usavam capas de penas. 

                Os topos de montanhas, sendo mais perto do céu, eram às vezes locais de rituais. Na Irlanda e na Grã-Bretanha, as celebrações para marcar o início da colheita incluíam procissões cerimoniais até o topo das montanhas, provavelmente para buscar a proteção das tempestades destrutivas. Lugh pode ter estado entre as deidades honradas nessas cerimônias, que na mitologia irlandesa, descobriu o segredo das plantações dos Fomoire. Sua arma era uma lança de relâmpago, vista às vezes durante as últimas tempestades de verão.

                O sol, e por extensão, o fogo, eram fontes de cura e energia protetora. O aparecimento do sol na água era pensado ser muito poderoso, especialmente o primeiro sol do dia 1º de Maio, o início do verão. Circular no sentido horário – imitando o movimento do sol – tinha sido uma parte importante das ações cerimoniais célticas, tanto seculares como religiosas. As pessoas eram saudadas com três circulações no sentido horário e despedidas com uma ação similar. Os reis afirmavam controle sobre seus reinos e abades sobre seus recintos monásticos circulando no sentido horário. Pessoas comuns tomavam posse de suas novas casas primeiramente circulando o novo local no sentido horário. O foco de muitos rituais nos poços mesmo hoje em dia é circular o poço no sentido horário. Enquanto o significado simbólico do ato tenha se perdido, este pode remontar a um costume há muito tempo estabelecido associado com o sol.

Fertilidade

                Nos dias de hoje, a fertilidade é quase sempre associada com a reprodução humana, e não há dúvidas de que a sexualidade e as imagens sexuais eram de fato componentes vitais da antiga teologia e dos rituais célticos. A iconografia do antigo ritual céltico está cheio de imagens enfatizando a sexualidade das deidades; as estátuas de alguns deuses até mesmo ostentavam três falos. Os locais ritualísticos tipicamente continham objetos imóveis simbolizando as genitálias masculinas e femininas. As cerimônias rituais – o que conhecemos delas – frequentemente incorporavam imagens sexuais. Mas antigamente, no entanto, como mostrado nos mitos, a fertilidade também era aplicada a outros numerosos aspectos da vida diária, incluindo saúde, o crescimento das plantações, a justiça na lei, o sucesso na troca e a harmonia entre os povos. A maioria dos rituais conhecidos era destinada a garantir as condições naturais e sociais favoráveis que eram necessárias para trazer a fertilidade para toda a tribo.

                Apesar dos conceitos ocidentais modernos sobre o sexo vê-lo como algo separado da religião ou pelo menos, separado do divino, a imagem do sexo entre figuras designadas macho e fêmea – mortal e imortal – subjaz alguns dos mais importantes comportamentos ritualísticos dos quais temos conhecimento, tais como a inauguração do reinado, a magia da batalha e ritos de fertilidade. Na verdade, a imagem sexual está implícita em muitas práticas folclóricas designadas para promover a fertilidade da terra, do povo e dos animais. Essa imagem deixa claro que a energia transferida entre o homem e a mulher era pensada ser espelhada por eventos similares por todo o cosmos.

                Pensava-se que a transferência da energia fértil contribuía para o sucesso da batalha também. Antes da segunda batalha em Mag Tuired, a deusa Morrígan se uniu com o Dagda, a deidade protetora dos Tuatha Dé Danann. Esse ato pode ter sido planejado para transferir sua energia aos guerreiros da tribo. Tal propósito pode ter sido sugerido por Cú Chulainn, ao deixar o campo de batalha para passar a noite com uma mulher pouco antes de Connachta invadir Ulster no Táin. Ambos os incidentes sugerem que rituais similares possam ter sido realizados entre um representante tribal e a figura de uma deusa antes de algumas batalhas para garantir a vitória.

Rituais agrícolas

                Os celtas pré-cristãos sabiam que a generosidade da terra podia nutri-los, mas eles também entendiam que seu próprio trabalho duro era necessário. Manter o equilíbrio que trazia prosperidade para a comunidade não era simplesmente a responsabilidade do rei. Todos na comunidade tinham um papel a desempenhar. Cada fase do cultivo tinha rituais correspondentes para garantir que a energia da terra fosse canalizada adequadamente.

                O preparo da semente para o plantio, como muitas outras tarefas, era uma combinação de métodos ritualísticos e comprovados. Ambos eram realizados juntos como sendo essencial para o sucesso da colheita. Tais crenças e práticas permaneceram vivas quando o cristianismo se tornou dominante. Alexander Carmichael escreveu sobre os Highlands escoceses no século XIX:

                “O grão é preparado em certas estações do ano, que são raramente desviadas. O centeio é debulhado para permitir o gaoth bhog nan Duldachd, o suave vento de Novembro e Dezembro, para joeirar a semente; a aveia para permitir o gaoth fhuar nam Faoilleach, os frios ventos de Janeiro e Fevereiro, para joeirar a semente; e a cevada para permitir o gaoth gheur nam Mart, os ventos afiados de Março e Abril, para joeirar a semente. Todas essas preparações são feitas para auxiliar a Natureza na chegada da Primavera. Três dias antes de ser plantada, a semente é borrifada com água pura e fria, em nome do Pai, do Filho e do Espírito, com a pessoa borrifando a semente caminhando no sentido horário por um tempo.

                (…) O umedecimento da semente tem o efeito de apressar seu crescimento quando comprometida com o solo, o que geralmente começa em uma sexta-feira, o dia sendo auspicioso para todas as operações sem necessitar o uso do ferro.”

                Note a ênfase em certas épocas e ações assim como a crença na necessidade de reconhecer as forças do cosmos. 

                Similarmente, a primeira colheita era um ato cerimonial, como Carmichael descreve: “O dia em que as pessoas começavam a colher os grãos era um dia de comoção e cerimônia na cidade. A família inteira dirigia-se para o campo vestidos em suas melhores roupas para saudar o Deus da colheita.”

                O primeiro corte era uma cerimônia em si:

                Colocando seu gorro no chão, o pai da família pega sua foice e, de frente para o sol, corta um punhado de trigo. Passando o punhado de trigo três vezes ao redor de sua cabeça, no sentindo horário, o homem começava a Iolach Buana, a saudação da colheita. Toda a família pegava a música e louvava o Deus da colheita, que lhes deram grão e pão, comida e rebanho, lã e vestuário, saúde e força, e paz e abundância.

                Na era pré-cristã, o primeiro corte provavelmente era oferecido aos deuses invisíveis da colheita, os patronos da tribo, ou para a deusa do território.

Os vizinhos

                Os celtas pré-cristãos reconheciam que eles dividiam a terra e seus recursos com seres invisíveis, outros seres humanos, e ainda, com outras criaturas: animais, pássaros, plantas e árvores.

                Um número de mitos e histórias retratam os animais como ajudantes e guias, especialmente em áreas liminares tais como a floresta, o mar ou a entrada para o Outro mundo. Artefatos célticos abundam de imagens animais. Os sistemas de divinação eram baseados no comportamento animal. A poesia está cheia de ideias de animais e metáforas.

                A partir de nossa distante perspectiva, pode ser impossível de determinar exatamente como os antigos celtas se relacionavam com os animais em um nível místico ou mágico. Como muitos outros povos caçadores, os antigos celtas provavelmente desenvolveram um profundo conhecimento de sua presa e identificação com a mesma. A evidência sugere que eles admiravam as qualidades que viam nos animais, buscavam emulá-las e talvez, até mesmo adquiri-las ritualisticamente. Muitos guerreiros tinham nomes que incluíam elementos animais: Cão de Culann, Lábios de Cavalo, Parecido com cavalo. Nos mitos irlandeses, Cú Chulainn era proibido de comer carne de cão, pois seu animal patrono era o cão, e Conaire Mór não podia caçar pássaros, pois a tribo de seu pai regularmente se transformava em pássaros. Na poesia irlandesa e galesa, os guerreiros eram frequentemente ligados aos animais costumeiramente associados com a maior parte dos cultos de guerreiros indo-europeus:

                “Como um javali selvagem, ele conduziu os homens até a fortaleza da colina.”
                “Ele tinha a vitória – ele era um lobo sangrento...”
                “… um urso que abraçou os campos de batalha até a morte…”

                A evidência sugere uma ligação mística entre guerreiro e animal, similar aos cultos de guerreiros no mundo inteiro. Na mitologia irlandesa e galesa, os deuses e deusas constantemente se transformam em animais. Às vezes, uma deidade em forma animal se acasalava com outra em forma humana. As deusas que se acasalam com humanos davam a luz tanto a animais como crianças humanas. As deidades foram retratadas na escultura e nos mitos em forma animal ou com características animalescas. O professor Bo Almqvist traçou uma tradição irlandesa em que a alma habitava o corpo na forma de um salmão, enquanto outras tradições retratam a alma deixando o corpo na forma de uma borboleta.

                Mas os antigos celtas não hesitaram em usar os animais ou suas partes. Em alguns casos, a carne animal era tira como poderosa e sagrada. Os poetas e videntes mastigavam a carne de cães e gatos para inspiração poética, e consumiam carne antes da divinação. O sacrifício animal parece ter ocorrido regularmente. Mas os celtas também usavam os animais como fonte da comida de cada dia e vestuário. Eles comiam vacas, porcos, ovelhas, veados, lebres e outros animais. As peles dos animais eram usadas para o vestuário, e os ossos e outras partes eram recicladas em objetos úteis. Então, a atitude céltica em relação aos animais combinava respeito, emulação, um sentido de sacralidade e pragmatismo.

                Quase tudo que foi dito sobre os outros animais também podem ser dito da atitude dos antigos celtas em relação aos pássaros. No entanto, como falado antes, os pássaros tem a habilidade adicional de ser capaz de viajar no céu para os lugares inacessíveis aos seres humanos. A ave aquática que pode existir tanto no céu, na água, como na terra, pensava-se ser especialmente mágica e capaz de viajar para o Outro mundo ou comunicar suas mensagens. As deidades frequentemente se transformavam em pássaros ou usava-os como mensageiros. Também, o comportamento de vários pássaros era usado na divinação. Os corvos eram também considerados pássaros de presságios e inteligência incomum; eles eram associados tanto com a divinação como no campo de batalha. Pensava-se que eles e outros corvos eram especialmente queridos para as deusas da batalha e para o deus Lugos. Corvos de pena branca eram bons presságios.

                Os celtas pré-cristãos tinham sentimentos particulares pelas árvores. Os autores clássicos repetidamente falam das árvores em lugares sagrados célticos e associam as florestas com os locais ritualísticos célticos na Gália. A floresta bretã de Brocéliande reteve sua reputação mágica até os tempos modernos.

                Na Irlanda, uma árvore sagrada ou bile ficava no centro do território de cada tribo; a árvore aparentemente representava a tribo ou sua soberania. Talvez, o bile tinha outro significado ritualístico que se perdeu no período cristão. Pensava-se que várias árvores tinham propriedades mágicas especiais. Os escritores clássicos associaram os druidas ao carvalho em particular, mas na Irlanda, o teixo, a sorveira e o pilriteiro foram considerados, pelo menos, como poderosas árvores. As leis ordenavam rígidas multas se as árvores fossem cortadas, com a multa variando com cada tipo de árvore. Em uma versão do ogham – o alfabeto desenvolvido pelos antigos irlandeses medievais – cada letra era associada com um tipo de árvore. 

O tempo e as estações

                Nas comunidades rurais, há pouco tempo para contemplação e análise. O tempo passava e os humanos precisavam manter suas tarefas, caso contrário, as forças naturais recapturariam a terra e venceriam a ordem do lar. Como Henry Glassie escreve:

                “Sob os céus de Fermanagh, você não tem o luxo da pausa para colocar as coisas em ordem mentalmente antes de coloca-las em ordem fisicamente... Tudo está se movendo, interdependente, é muito complicado para o fazendeiro que pensa além do tempo, conspira para a perfeição dentro de uma realidade circunscrita, então, jubilosamente anuncia o progresso enquanto o resto do mundo se desfaz... Vivendo em todas as estações, pacientemente, uma pessoa precisa planejar enquanto age. O plano é ação. Ação é história. Cada gesto tem precedente e consequência.”

                O tempo, então, deve ser visto como outra parte do cosmos, adicionando uma dimensão que os antigos celtas consideraram na conquista do equilíbrio cósmico. Não sabemos muita coisa sobre os métodos que eles usavam para calcular e traçar o tempo. A maioria de nossas ideias é baseada em algumas descobertas arqueológicas combinadas com os comentários de escribas medievais e antigos historiadores, concretizados pela evidência do folclore. No entanto, um conceito claramente persistiu durante as gerações: que alguns dias eram bons, e outros não. Uma das mais antigas peças de evidência, o calendário de Coligny, separava cada mês em dias que eram auspiciosos e dias que não eram. Como vimos antes, os escoceses no século XIX achavam a sexta-feira o dia “auspicioso para todas as operações que não necessitassem do uso do ferro.”

                Ao considerar as características do antigo ano céltico, é importante lembrar que os antigos celtas usavam um calendário diferente do que usamos hoje. A evidência para o calendário céltico original deriva principalmente das inscrições em placas de bronze encontradas em Coligny, Burgundy, em 1897, mas que data ao período romano na Gália. As placas mostram um calendário lunar de doze meses, cada um consistindo de 29 ou 30 dias. Para alinhar esse calendário com os movimentos do sol, um mês extra foi inserido a cada 30 meses. Os meses eram marcados sendo mat (‘bom’ ou ‘auspicioso’) ou anm (de anmat, ‘não auspicioso’). Cada mês era dividido em dois, talvez de acordo com o crescer e o minguar da lua. 

                Acreditava-se que o ano era dividido em duas partes – a escura e a clara – mas tinha quatro estações. Plínio nota que os celtas começavam seus meses no sexto dia da lua, o que sugere que os festivais célticos originalmente eram móveis comparados ao calendário juliano que era solar e fixo, imposto pelos romanos. No entanto, com a adoção do calendário juliano, e mais tarde o calendário gregoriano, os festivais célticos foram estabilizados, pelo menos nominalmente, nos chamados dias trimestrais: o primeiro dia de Novembro, Fevereiro, Maio e Agosto. Mesmo hoje em dia, alugueis são pagos nesses dias. Na prática moderna, como MacNeill nota, as festas tendem a ser celebradas no domingo mais próximo do dia trimestral. Talvez, essa tendência começou quando o parlamento proibiu de dar tempo livre para os trabalhadores celebrarem os dias de santos.

                Tradicionalmente, o ano novo céltico, agora modernizado como tendo o início no dia 1º de Novembro, começava no inverno. O ano começava com as épocas frias e sombrias, assim como o dia céltico começava ao por do sol, enfatizando o nascer da lua e da vida começando na escuridão do útero. Apesar de ser associado com a morte em muitas formas, o inverno também era quando a terra descansava em preparo para a regeneração para a nova vida. Deste modo, o inverno era o início do ciclo agrícola, que era seguido pelo plantio (primavera), crescimento (verão) e colheita (outono). O verão (modernizado no dia 1º de Maio) começava quando todos os fatores para o crescimento estavam em seu auge.

                As quatro estações do antigo ano céltico era baseado mais na perspectiva e atividades de uma cultura agrícola e de pastoreio que na posição astronômica do sol. Cada estação começava com uma festa a costumes associados. Tarefas agrárias específicas e costumes especiais eram associados com cada festival. Os recentes estudos folclóricos mostraram que muitas das práticas antigas sobreviveram até o século XX, especialmente nas áreas rurais. Nerys Patterson nota sobre a antiga Irlanda medieval que “subjacente à organização social do tempo jazia os ritmos cíclicos dos animais que sustentavam a vida humana,” mas os mesmos princípios se aplicavam também para outras áreas célticas ao norte da Europa. 

                Os rituais em cada dia trimestral eram destinados a garantir o sucesso das atividades humanas e agrícolas que ocorriam durante a chegada da estação. No período cristão, as festas foram reatribuídas aos festivais da igreja e vários santos se tornaram o foco dos rituais. No entanto, como Patterson nota,

                “A igreja não poderia apagar totalmente o calendário social nativo, pois este estava ligado a práticas agrícolas importantes. A roda do ano das atividades humanas seguiam os ciclos justapostos de crescimento em diversos recursos de vida – grãos, vegetais, frutas, linho, nozes, gado, ovelhas, porcos, jogos, e abelhas, para nomear apenas os mais importantes.”

Antropologia

                Apesar de não termos um mito de criação céltico sobrevivente, as fontes irlandesas e galesas preservam uma tradição que descreve como os corpos humanos foram feitos das várias partes do mundo: a carne a partir da terra, o sangue a partir do mar, a respiração a partir do vento/céu. Parte dessa evidência é encontrada em textos médicos medievais e em alguns mitos. Bruce Lincoln, uma autoridade nas tradições e fontes indo-europeias, estudou as similaridades entre os vários mitos de criação indo-europeus e os comparou com as tradições medievais galesas e irlandesas. Ele argumenta que essas ideias derivam de uma tradição indo-europeia muito antiga, pois eles foram encontrados preservados não apenas nos manuscritos da era cristã, mas nos mitos pré-cristãos de algumas culturas indo-europeias modernas. Dessa evidência comparativa, Lincoln reconstruiu uma história que ele acredita incorporar os elementos básicos do mito de criação indo-europeu original.

                Existiam dois irmãos, provavelmente gêmeos. Um era um rei, o outro era um sacerdote. Eles podem ter tido uma irmã que também era a esposa de um ou de ambos. Como o resultado de uma batalha, luta ou assassinato ritualístico intencional, um irmão morre. Na maior parte dos casos, o irmão morto era o rei, o ancestral de seu povo, que então se torna o senhor do mundo dos mortos. O irmão sobrevivente cria o mundo a partir das partes do corpo do irmão morto.

                Por sua vez, os primeiros humanos foram feitos das partes do mundo, revertendo o processo pelo qual o cosmos foi criado. Esse ciclo de criação e recriação nunca realmente para. Pensava-se que sempre que alguém morre, as partes do corpo retornavam para o material básico do cosmos, eventualmente para ser usado para criar um corpo de uma criança recém-nascida ou talvez para seu renascimento no Outro mundo. Assim, o mundo está em um constante estado de fluxo e tensão dinâmica entre a criação e a recriação. O funcionamento adequado de todas as partes exigia um equilíbrio entre a criação e a recriação, caos e ordem. Se o equilíbrio fosse perturbado, o caos prevaleceria.

                A história, contada no Lebor Gabála Érenn, de como Donn e seu irmão Amergin chegaram à Irlanda contém alguns dos elementos essenciais de um mito de criação. Nessa história, Amergin é um poeta/sacerdote e Donn é o rei que conduz as forças para invadir a Irlanda. Amergin faz as pazes com as forças sobrenaturais e é permitido entrar na terra seguramente. Donn insulta a deusa da terra e por isso ela o amaldiçoa. Mais tarde, ele é fatalmente ferido e se torna o senhor de Teach Duinn, a ilha para onde se diz que os mortos irlandeses vão. A tradição gaulesa, também, aparentemente tem uma figura parecida com Donn, pelo menos de acordo com Júlio César, que disse que o ancestral dos gauleses era Dis Pater, um personagem romano que era considerado o senhor dos mortos.

                Voltando para a história irlandesa, conforme Amergin conduz as forças para a terra, ele recita um longo poema cheio de ideias de criação. Em parte se lê:

“Eu sou um deus que forma o indivíduo para um governante.
Quem explica as pedras das montanhas?
Quem invoca as eras da lua?
Onde fica o lugar onde o sol se põe?
Quem carrega o gado da casa de Tethra?
Quem é o gado de Tethra que sorri?
Que homem, que deus forma as armas?”

                A linguagem do poema é complexa e está aberta para muitas traduções. Qualquer que seja a interpretação correta, Amergin traz a ordem da sociedade humana para as forças naturais da terra, o que é em si uma ação criativa. 

                O exposto acima é uma sinopse de um sistema de longe muito complexo para ser dado mais que um tratamento superficial nessas poucas páginas, mas aqui está o sumário de Lincoln de o que nós consideramos ser a base física da antiga cosmologia céltica:

·         O homem e o cosmos são todos formas um do outro;
·         A matéria é eterna em sua existência, mas está sujeita a infinitas recombinações;
·         O tempo é infinito;
·         A mudança é constante, mas o mesmo processo recorre ciclicamente. 

O Outro mundo e a morte

                Uma característica principal da mitologia irlandesa e galesa era o Outro mundo. Existindo paralelo ao nosso mundo, o Outro mundo era o principal lar das antigas deidades célticas. O Submundo está intimamente ligado ao Outro mundo e às vezes é equiparado a ele. Ambos representam dimensões onde seres e criaturas misteriosas moravam.

                Os humanos podiam entrar no Outro mundo em certas épocas sob circunstâncias especiais. Fionn Mac Cumhaill e seus companheiros frequentemente cruzavam para lá, as vezes acidentalmente e as vezes intencionalmente, em busca de uma presa ou objeto roubado. Chegando lá, nem sempre é possível escapar. Por exemplo, comendo a comida do Outro mundo, a pessoa nunca podia sair de lá.

                Reciprocamente, quando alguém realmente morria, os antigos celtas acreditavam que alguma parte humana sobreviveu e seguiu para a vida em outro lugar. Nicandro de Colofon falava de celtas dormindo próximo às tumbas de seus mortos famosos para que recebessem mensagens nos sonhos. Oferendas enviadas para o Outro mundo em piras funerárias seriam recebidas pelos ancestrais no outro lado, de acordo com Deodoro da Sicília. A evidência arqueológica sugere que os mortos eram venerados e que os celtas mais primitivos acreditavam ser necessário enterrar com o morto as suas posses, para fornecê-las na outra vida. As referências clássicas confirmam isso. Conforme o tempo passou, no entanto, os túmulos se tornaram menos elaborados em algumas áreas, e às vezes, a cremação era substituída pelo enterro do cadáver. Nós não sabemos o significado dessas mudanças.
 
                Não está claro quem, além dos humanos, habitam o mundo para onde os mortos vão. Numerosas histórias no mito e no folclore falam dos mortos retornando para esse mundo para transmitir mensagens aos vivos. Tradicionalmente, acreditava-se que o ano novo era a época habitual quando os espíritos ancestrais retornavam e visitavam suas famílias. Os mitos do Outro mundo não mencionam humanos que morreram, mas o folclore não faz distinção entre as fadas (deidades e poderes) e os espíritos de humanos mortos. O que está claro é que todas as histórias do Outro mundo usam as mesmas ideias literárias para retratar um mundo muito parecido com esse onde a beleza e os sentidos estão entrelaçados.

                O mundo dos mortos era o destino final? Uma hipótese popular nos dias de hoje é que os antigos celtas acreditavam na reencarnação, que a alma repetidamente renasceria. A evidência citada consiste de afirmações feitas por alguns autores clássicos mais as histórias da mitologia irlandesa, onde os personagens são retratados movendo-se de um corpo para o outro. No entanto, existem duas objeções para essa evidência. Enquanto alguns autores clássicos especificam a “migração da alma”, a maioria desses autores fazem afirmações do tipo: “a alma não morre, mas cruza após a morte de um lugar para o outro.” Isso pode se referir simplesmente a pós-vida. A outra objeção é que os mitos que aparentemente mencionem a reencarnação na verdade fala de um ser imortal que se transforma sequencialmente de uma forma a outra. Algumas exceções mortais incluem Cú Chulainn e Mongan, mas seus atributos sobre-humanos excedem os dos meros mortais. Suas encarnações e qualquer coisa associada a eles provavelmente eram vistas como extraordinárias. A pergunta da crença na reencarnação permanece aberta por enquanto.

Escatologia: o fim do mundo

                Muitos mitos indo-europeus expressam uma crença que o mundo como o conhecemos acabará como o resultado de uma catastrófica batalha entre dois exércitos de deidades, depois da qual o cosmos seria renovado ou renasceria. Diz-se que essa destruição e recriação se repetem ciclicamente. À primeira vista parece que, se os antigos celtas tinham tais mitos, eles não foram preservados. No entanto, o mito irlandês Cath Maigh Tuired, na qual os Tuatha Dé Danann lutam com os Fomoire, na verdade contem a maior parte dos mesmos elementos místicos e a trama da história do Ragnarok, a história nórdica na qual o mundo é destruído e um novo é criado.

                O tema principal da Cath Maigh Tuired é sobre o ganho do direito da colheita, mas pode ter havido dimensões mais cósmicas na história nos tempos antigos. Talvez significantemente, a batalha começa no início de Novembro, o ano novo céltico, quando se pensava que o cosmos passava por uma recriação conforme a terra se regenerava. Os autores clássicos dizem que os líderes rituais e filósofos dos gauleses acreditavam que o mundo não acabaria completamente, apesar de que a água e o fogo pudessem prevalecer em algumas épocas. Essa noção da água dominando e cobrindo a terra persistiu até o folclore moderno da Irlanda, Cornualha e Grã-Bretanha, nos contos de cidades afogadas tais como Ys. Antigamente, deuses irlandeses como Lí Ban e Manannán lembram-se de lugares e planícies cheias de pessoas, animais e plantações que agora estão cobertos pelo oceano ou lago. Os cristãos irlandeses e britânicos prontamente aceitaram o conto de Noé e incorporaram em suas próprias histórias. Talvez essa prontidão se dê por causa de tradições pré-cristãs mais antigas que falem sobre dilúvios.

O inerente poder do ‘entre’ e ‘no meio’

                Nesses dias de aparelhos digitais, tendemos a ver a vida como uma coisa ou outra: preto ou branco, ligado ou desligado, certo ou errado. De fato, entre esses estados de ser existem tons de cinza, intervalos de amanhecer e anoitecer, os momentos quando um ano termina e o outro começa. A liminaridade é a qualidade desses estados liminares que podem se referir ao tempo do dia ou ano, identidade sexual, localização física, estado da mente, de ser, clima ou papel social. Algumas áreas ou personalidades são obviamente liminares, mas outros podem ser mais difíceis de descrever, como Victor Turner escreve,

                “Os atributos da liminaridade ou de personalidades liminares (“pessoas liminares”) são necessariamente ambíguas, uma vez que essa condição e essas pessoas iludem ou deslizam através da teia de classificações que normalmente localizam estados e posições em um espaço cultural. As entidades liminares não estão aqui nem lá; eles estão entre e no meio dessas posições atribuídas e arrumadas pela lei, costume, convenção e cerimônias.”

                Pessoas liminares incluíam poetas, videntes e músicos, pois se acreditava que eles eram capazes de contatar o Outro mundo. O conhecimento céltico está cheio de locais e manifestações liminares tais como pássaros que são deusas na verdade, touros que são pastores de porcos, montes funerários que são entradas para o Outro mundo, e uma pobre velha que é a deusa da soberania. Aqueles nas margens da sociedade frequentemente tinham o poder de trazer a mudança, pois se esperava que a mudança viesse deles. Esperava-se que videntes e poetas que viajavam para o Outro mundo trouxessem direção e guia, que poderia incluir mudanças. Músicos e artistas viajantes reuniam novas ideias que incorporavam em seu trabalho e compartilhava durante sua estadia em cada área.

                Lugares liminares incluíam florestas, praias, encruzilhadas, fronteiras territoriais, cavernas, vaus, poços, pontes e montes funerários. Tais locais continham um poder inerente e eram sites prováveis para se encontrar deidades, os mortos e outras entidades não humanas. Até hoje, muitos acreditam que construir em tais lugares é convidar o desastre para o empreendimento.

                Como Henry Glassie escreve sobre a forma que uma comunidade rural irlandesa via a vida: “A realidade não está no presente, mas entre o passado e o futuro.” Assim, os seres humanos também estão. 

                “… uma parte da natureza… [e agindo como] mediadores entre a terra e o céu, eles se tornam os agentes da terra, seus meios para a conversão de seu potencial em realidade, sua água em fogo. Começando a agir, eles são compelidos para uma ação adicional. Seu ser se torna ação no tempo.”

                Assim é a vida, também é tripartida em um cosmos tripartido: ser-ação-tempo em um mundo de terra-céu-mar. 

Sumário

                Como já vimos, a cosmovisão da antiga religião céltica imaginava um cosmos cheio de poder criativo, porém caótico, que requeria controle para torna-lo produtivo à sobrevivência humana. Controlar essa poder requeria contrato com os poderes invisíveis e guardiões para a proteção e realizar as ações que eram apropriadas para ganhar sua cooperação. A liderança da tribo era investida através de cerimônias que casavam o líder com a deusa patrona, garantindo que sua energia fluísse para a terra, para o povo e para os animais, trazendo prosperidade para todos. O conhecimento de o que fazer e quando fazer, era em grande medida, um assunto de sabedoria tradicional passado oralmente de uma geração a outra. A fonte original dessa tradição era o Outro mundo, e era suplementado por infusões de novo conhecimento adquirido pelo contato contínuo com o Outro mundo. Através de longos períodos de treinamento, os líderes religiosos e poetas cultivaram as habilidades e técnicas necessárias para se comunicar com o Outro mundo e adquirir o conhecimento necessário para conquistar uma vida harmoniosa no presente, mas todos na sociedade tinham algum conhecimento de como viver em equilíbrio com as forças que compartilhava o mundo com eles.

Fonte: Site “Land, Sea and Sky”. Capítulo 5, “Chaos and Tripartite Order: Celtic Worldview” por Francine Nicholson. Disponível em: <http://homepage.eircom.net/~shae/chapter5.htm>. Acesso em: 31 dez 2015.       

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