domingo, 16 de agosto de 2015

O sonho de Oengus


O sonho de Oengus
Aislinge Oengusso

 Oengus estava dormindo uma noite até que viu algo como uma jovem garota vindo em direção à cabeceira de sua cama e ela era a mulher mais linda em Eriu. Ele foi pegar sua mão para puxá-la para sua cama, mas quando foi recebê-la, ela desapareceu subitamente e ele não sabia quem a tinha levado. Ele ficou na cama até a manhã seguinte e ficou com a mente perturbada: a forma como ele tinha a visto, mas não pôde falar com ela o deixou doente. Nenhuma comida entrou em sua boca naquele dia. Ele esperou até anoitecer, e então viu o mais doce timpán¹ na mão dela, e ela tocou para ele até ele adormecer. Ele ficou assim durante todas as noites, e na manhã seguinte, ele não comeu nada.

 Um ano inteiro se passou e a garota continuava visitando Oengus até ele se apaixonar por ela, mas ele não contou a ninguém. Ele ficou doente e ninguém sabia o que tinha o infligido. Os médicos de Eriu se reuniram, mas não podiam descobrir o que havia de errado. Eles então chamaram Fergne, o médico de Cond, e ele veio. Ele podia ver qual doença o homem estava apenas olhando para sua face, assim como podia dizer a partir da fumaça que saia de uma casa quantos doentes estavam dentro dela. Fergne levou Oengus para um canto e lhe disse, “Isso não é um encontro, e sim amor em falta.” “Você adivinhou minha doença,” disse Oengus. “Você ficou com o coração doente,” disse Fergne, “e não ousou contar a ninguém.” “É verdade,” disse Oengus. “Uma jovem menina veio até mim; sua forma era a mais bonita que já vi e sua aparência era excelente. Um timpán estava em sua mão e ela tocava para mim todas as noites.” “Não importa,” disse Fergne, “o amor por ela te prendeu. Nós chamaremos Bóand, sua mãe, para que ela venha e fale com você.”

 Eles chamaram Bóand e ela veio. “Eu fui chamado para ver esse homem, pois uma misteriosa doença se apoderou dele,” disse Fergne, que contou para Bóand o que tinha acontecido. “Deixe sua mãe cuidar dele,” disse Fergne, “e que ela procure por Eriu até ela achar a figura que seu filho viu.” A procura durou um ano, mas a garota não foi encontrada. Fergne então foi chamado novamente. “Nenhuma ajuda foi encontrada para ele,” disse Bóand. “Então chamem o Dagda e deixe-o vim falar com seu filho,” disse Fergne. O Dagdae foi chamado e veio perguntando, “Por que eu fui chamado?” “Para aconselhar seu filho,” disse Bóand. “É certo que você o ajude, pois sua morte seria uma pena. Um amor ausente se apoderou dele e nenhuma ajuda para isso foi encontrada.” “Por que me diz isso?” perguntou o Dagdae, “meu conhecimento não é maior que o seu.” “De fato, é,” disse Fergne, “pois tu és o rei do Síde de Eriu. Mande mensageiros para Bodb, pois ele é o rei do Síde de Mumu, e seu conhecimento se espalha por toda Eriu.”

 Mensageiros então foram enviados para Bodb e eles foram recebidos. Bodb disse, “Bem-vindos, povo do Dagdae.” “É por isso que viemos,” eles responderam. “Quais são suas notícias?” Bodb perguntou. “Nós temos: Oengus, o filho do Dagda, está apaixonado por dois anos,” eles responderam. “Como foi isso?” Bodb perguntou. “Ele viu uma jovem garota quando estava dormindo,” eles disseram, “mas não sabemos onde ela pode ser encontrada em Eriu. O Dagdae pediu para você procurar por toda Eriu por uma garota com a sua forma e aparência.” “Essa busca será feita,” disse Bodb, “e durará um ano, para que eu possa ter certeza em encontrá-la.” No fim do ano, o povo de Bodb foi até ele em sua casa em Síd ar Femuin e disseram, “Fizemos um circuito por Eriu, e encontramos a garota em Loch Bél Dracon em Cruitt Cliach.” Mensageiros então foram enviados ao Dagdae, que os recebeu e disse, “Vocês têm novidades?” “Boas notícias: a menina com a aparência que você descreveu foi encontrada,” eles disseram. “Bodb pediu para que Oengus viesse conosco para ver se ele reconhece a garota que viu.”

 Oengus então foi levado em uma biga para Síd ar Femuin, e foi recebido lá com uma grande festa preparada para ele que durou três dias e três noites. Depois disso, Bodb disse para Oengus, “Vamos agora, para ver se você reconhece a garota. Você poderá vê-la, mas não está em meu poder dá-la para ti.” Eles foram até chegar a um lago, e lá, viram três vezes cinquenta jovens meninas, e a menina de Oengus estava entre elas. As outras garotas não eram mais altas que o ombro dela; cada par delas estava acorrentada por uma corrente de prata, mas a menina de Oengus usava um colar de prata e sua corrente era de ouro polido. “Você reconhece essa menina?” perguntou Bodb. “De fato, conheço,” Oengus respondeu. “Não posso fazer mais nada por você, então,” disse Bodb. “Não importa, pois ela é a garota que vi. Eu não posso pegá-la agora. Quem é ela?” Oengus disse. “Eu a conheço, é claro: Cáer Ibormeith, a filha de Ethal Anbúail de Síd Uamuin, na província de Connachta.”

 Após isso, Oengus e seu povo voltaram para seu lar, e Bodb foi com eles para visitar o Dagdae e Bóand no Bruig ind Maicc Oic. Eles contaram suas notícias: como era a forma e a aparência da garota conforme Oengus tinha a visto, eles contaram o nome dela, do pai dela e de seu avô. “Uma pena que não conseguimos tê-la,” disse o Dagdae. “O que você deve fazer é ir até Ailill e Medb, pois a menina está em seu território,” disse Bodb.

 O Dagda então foi para Connachta com três vintenas de bigas com ele, e lá, eles foram bem recebidos pelo rei e pela rainha e passaram uma semana festejando e bebendo. “O porquê da jornada?” perguntou o rei. “Há uma menina em seu território,” disse o Dagdae, “que pela qual o meu filho se apaixonou e lhe deixou doente. Eu vi para ver se você pode me dá-la.” “Quem é ela?” Ailill perguntou. “A filha de Ethal Anbúail,” o Dagda respondeu. “Não temos o poder para dá-la a você,” disseram Ailill e Medb. “Então a melhor coisa a se fazer é chamar o rei do síd aqui,” disse o Dagdae. O mordomo de Ailill foi até Ethal Anbúail e disse, “Ailill e Medb pediu para você ir até eles falar com eles.” “Eu não irei,” Ethal disse, “e não darei minha filha para o filho do Dagdae.” O mordomo repetiu isso para Ailill, dizendo, “Ele sabe o porquê de ter sido chamado e não virá.” “Não importa,” disse Ailill, “pois ele virá, e a cabeça de seus guerreiros com ele.”

 Após isso, a criadagem de Ailill e o povo do Dagda se levantaram contra o sid e o destruiu; eles trouxeram três vintenas de cabeças e confinou o rei a Crúachu. Ailill disse a Ethal Anbúail, “Dê sua filha para o filho do Dagdae.” “Eu não posso,” disse ele, “pois o poder dela é maior que o meu.” “Que grande poder ela tem?” Ailill perguntou. “Ela fica na forma de um pássaro todos os dias durante um ano e na forma humana todos os dias do ano seguinte,” Ethal disse. “Qual ano ela estará na forma de um pássaro?” Ailill respondeu. “Não é para eu revelar isso,” Ethail respondeu. “Sua cabeça será cortada,” disse Ailill, “a menos que você nos diga.” “Não vou mais esconder isso então, e sim irei lhe contar, já que você é tão obstinado,” disse Ethal. “No próximo Samuin, ela estará na forma de um pássaro; ela estará em Loch Bél Dracon, e belos pássaros serão vistos com ela, três vezes cinquenta dos cisnes ao seu lado, e eu as prepararei.” “Isso não importa,” disse o Dagdae, “uma vez que eu já saiba a natureza que você colocou sobre ela.”

 Então foi feito a paz e amizade entre Ailill, Ethal e o Dagdae, e este último se despediu deles e foi para casa contar as notícias para seu filho. “No próximo Samuin, vá até o Loch Bél Dracon,” ele disse, “e chame-a até você.” O Macc Oc foi até Loch Bél Dracon e lá ele viu três vezes cinquenta pássaros brancos, em correntes de prata, e cabelo dourado sobre suas cabeças. Oengus estava na forma humana na beira do lago e chamou a menina, dizendo, “Venha falar comigo, Cáer!” “Quem está me chamando?” perguntou Cáer. “Oengus está chamando,” ele respondeu. “Eu irei,” ela disse, “se você me prometer que eu possa voltar para a água.” “Eu prometo,” ele disse. Ela então foi até ele, que colocou seus braços em volta dela e dormiram na forma de dois cisnes até darem três voltas no lago. Assim, ele manteve sua promessa. Eles deixaram o lugar na forma de dois cisnes brancos e voaram para o Bruig ind Maicc Oic, e lá eles cantaram até as pessoas adormecerem por três dias e três noites. A menina permaneceu com Oengus após isso. Foi assim que surgiu a amizade entre Ailill e Medb e o Mac Oc, e é por isso que Oengus levou trezentos para o roubo do gado de Cúailnge.

Fonte: GANTZ, Jeffrey. Early Irish Sagas. Disponível em: <http://www.maryjones.us/ctexts/oengus.html>.
                        
Notas de tradução
1. Timpán. De acordo com o site “Oxford Index”, o timpán é uma palavra em irlandês médio usada para descrever um instrumento musical que é uma espécie de lira, embora escritores medievais do Continente usassem a palavra tympanun para denotar uma espécie de tambor. 

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