sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O conto de Tuan mac Carill


O conto de Tuan mac Carill
Scél Túain maic Cairill
O Livro da Vaca Parda

1. Depois de Finnen de Moville ter levado o Evangelho para a Irlanda, para o território dos homens de Ulster, ele foi até um rico guerreiro de lá que não os deixou ir até ele na fortaleza, mas os deixou jejuando durante o domingo. A fé do guerreiro não era boa. Finnen disse para seus seguidores: “Virá até vocês um bom homem, que confortará vocês e lhes contarão a história da Irlanda desde o tempo em que foi colonizada pela primeira vez até o dia de hoje.”

2. Então na manhã seguinte, veio até eles um respeitável clérigo que deu as boas vindas a eles. “Venham comigo para meu eremitério,” disse ele, “que será melhor para vocês.” Eles foram com ele realizando os deveres do dia do Senhor, com salmos, pregação e oferendas. Logo a seguir, Finnen perguntou a ele seu nome. Ele disse para eles: “Dos homens de Ulster, eu sou Tuan, o filho de Cairell, o filho de Muredach do pescoço vermelho. Tomei esta ermida, na qual vocês estão, sobre a terra hereditária do meu pai. Tuan, o filho de Starn, o filho de Sera, o filho do irmão de Partholon, este era meu nome de outrora, no princípio.”

3. Finnen então perguntou a ele sobre os eventos da Irlanda que aconteceram desde a época de Partholon, o filho de Sera. Finnen disse que eles não comeriam com ele até ele contar as histórias da Irlanda. Tuan disse para Finnen: “É difícil para nós não meditar sobre a Palavra de Deus que você acabou de nos contar.” Mas Finnen disse: “A permissão foi dada a ti para nos contar agora suas aventuras e a história da Irlanda.”

4. “Cinco vezes, na verdade,” disse ele, “a Irlanda foi tomada após o Dilúvio, e após isso não foi tomada até 312 anos terem se passado. Então Partholon, o filho de Sera, a tomou. Ele tinha ido a uma jornada com vinte e quatro casais. A habilidade de cada um deles contra o outro não era grande. Eles se estabeleceram na Irlanda até serem 5.000 de sua raça. Entre dois domingos, uma mortalidade se abateu sobre eles de forma que todos morreram, exceto um homem apenas, pois não é habitual ter uma matança sem alguém se livrar dela para contar a história. Este homem sou eu,” disse ele.

5. “Eu então fiquei indo de colina a colina, de penhasco a penhasco, me protegendo de lobos por vinte e dois anos, durante o tempo em que a Irlanda estava vazia. Finalmente, a velhice veio sobre mim e eu estava em penhascos e em restos, incapaz de me mover e tendo beirais especiais para mim. Então Nemed, o filho de Agnoman, o irmão do meu pai, invadiu a Irlanda e os vi a partir de precipícios continuando a evita-los, e eu, peludo, ferido, murcho, grisalho, nu, lamentável e miserável. Então uma noite eu adormeci e me vi passando para a forma de um veado. Eu estava naquela forma, eu era jovem e tinha um coração alegre. Foi quando então eu falei essas palavras:

Sem força está hoje o filho de Senba,
Do vigor, ele se separou,
Não sob nobre fama com nova força,
O filho de Senba é um velho.

Esses homens que vieram do leste
Com suas lanças que alcançam o valor,
Eu não tenho força nos pés ou nas mãos
Para evitá-los.

Starin, feroz é o homem,
Eu temo Scemel do escudo branco,
Andind não me salvará, apesar de ser bom e nobre,
Se fosse Beoin, (...)

Apesar de Beothach me deixar vivo,
A grosseira luta de Cacher é dura,
Britan conquista o valor com suas lanças,
Há um ataque de fúria em Fergus.

Eles estão vindo em minha direção, ó gentil Senhor,
A prole de Nemed, o filho de Agnoman,
Robustamente eles estão esperando pelo meu sangue,
Para planejar minha primeira ferida.

Então cresceu sobre minha cabeça
Duas galhadas com três marcas,
De forma que estou rugoso e grisalho em forma
Após minha idade ter mudado da fraqueza.

7. “Depois disso, desde a época que eu estava na forma de um veado, eu era o líder dos rebanhos da Irlanda, e onde quer que eu fosse, tinha um bando de veados atrás de mim. Naquela forma passei minha vida durante o tempo de Nemed e de sua prole. Quando Nemed veio com suas frotas para a Irlanda, seu número era trinta e quatro barcas, com trinta em cada barca, e o mar os extraviou pelo tempo de um ano e meio no Mar Cáspio, onde foram afogados e morreram de fome e sede, exceto quatro casais apenas, juntos com Nemed. Depois disso sua raça cresceu e se reproduziram até ficarem 4.030 casais. No entanto, todos estes morreram.”

8. “Finalmente, a velhice veio sobre mim e fugi de homens e lobos. Uma vez que estava na frente de minha caverna – eu ainda me lembro – eu sabia que estava passando de uma forma para outra. Eu então passei para a forma de um javali selvagem. Então eu disse isso:

Um javali eu sou hoje entre rebanhos,
Um poderoso senhor eu sou com grandes triunfos,
Ele me colocou em uma maravilhosa tristeza,
O Rei de tudo, em muitas formas.

Na manhã em que estava em Dun Bré,
Lutando contra velhos seniores,
Nobre era minha tropa sobre os charcos,
Uma bela tropa estava nos seguindo.

Minha tropa, eles eram rápidos
Entre as tropas em vingança,
Eles atiraram minhas lanças alternadamente
Nos guerreiros de Fál em cada lado.

Quando estávamos em nossa reunião
Decidindo os julgamentos de Partholon,
Doce para todos era o que eu dizia,
Aquelas eram as palavras de verdadeira aproximação.

Doce foi meu brilhante julgamento
Entre as mulheres com beleza,
Imponente foi minha nobre biga,
Doce foi minha música sobre a estrada escura.

Rápido foi meu passo sem me perder
Em batalhas na investida,
Nobre foi minha face, em um dia,
Apesar de hoje eu ser um javali.

9. “Naquela forma,” ele disse, “eu fiquei então verdadeiramente, eu era jovem e tinha a mente alegre. Eu fui o rei das varas de javali da Irlanda, e ainda rodeava minha casa quando costumava vir para essa terra de Ulster na época de minha velhice e miséria, pois no mesmo lugar eu me transformei em todas essas formas. Portanto, eu sempre visitava aquele lugar para esperar a renovação.”

10. “Logo a seguir, Semion, o filho de Stariath, apoderou-se dessa ilha. Deles são os Fir Domnann, os Fir Bolg e os Galiuin, e estes habitaram essa ilha pelo tempo que eles moraram na Irlanda. A velhice então veio sobre mim e minha mente se entristeceu, e eu era incapaz de fazer tudo o que costumava fazer antes, e estava sozinho em cavernas escuras e em penhascos escondidos.”

11. “Então eu fui para a minha casa de sempre. Lembrei-me de cada forma que havia estado antes. Jejuei por três dias e tinha tudo pronto. Não tinha mais força. Logo a seguir, me transformei em um grande falcão. Minha mente então ficou feliz de novo. Eu era capaz de fazer qualquer coisa. Eu era ardente e vigoroso. Eu voava pela Irlanda, eu encontrava tudo. Então eu disse:

Um falcão hoje, um javali ontem,
Maravilhosa (...) inconstância!
Querido para mim são os dias
Deus, o amigo que me transforma.

Muitos são os filhos de Nemed
Sem obediência (...) a certo Rei,
Poucos hoje são da raça de Sera;
Eu não sei o que causou isso.

Entre varas de javalis eu estava,
Apesar de hoje eu estar entre revoadas de aves;
Eu sei o que virá disso:
Eu ainda estarei em outra forma.

Maravilhosamente o querido Deus dispôs
Eu e os filhos de Nemed;
Eles estão à disposição do demônio de Deus,
Enquanto Deus me ajuda.

12. “Beothach, o filho de Iarbonel, o profeta, tomou essa ilha das raças que habitavam nela. Deles são os Tuatha Dé e os Andé, cujas origens os sábios não sabem, mas parece provável que eles vieram do céu, por conta de sua inteligência e pela excelência de seu conhecimento.”

13. “Então eu fiquei por um longo tempo na forma de um falcão, de forma que vivi mais que todas essas raças que invadiram a Irlanda. No entanto, os filhos de Mil tomaram essa ilha a força dos Tuatha Dé Danann. Eu estava então na forma de um falcão e fiquei em um buraco de uma árvore em um rio.”

14. “Então eu jejuei por quarto dias e três noites até o sono se abater sobre mim, e passei para forma de um salmão do rio. Deus então me colocou no rio. Mais uma vez então eu me senti feliz, estava vigoroso e bem alimentado, meu nado era bom e estava acostumado a escapar de cada perigo e armadilha – das mãos dos pescadores, das garras de falcões e das lanças de pesca – de forma que as cicatrizes de cada perigo deixado por eles ainda estão em mim.”

15. “Uma vez, no entanto, quando Deus, a minha ajuda, considerou ser a hora, quando as bestas estavam me perseguindo e cada pescador nos charcos me conhecia, o pescador de Cairell, o rei dessa terra, me pegou e me levou até a esposa de Cairell, que tinha um desejo por peixe. De fato eu me lembro disso; o homem me colocou em uma grelha e me assou. A rainha me desejou e me comeu, de forma que fiquei em seu útero. Novamente, eu me lembro do tempo que fiquei em seu ventre, e o que cada um dizia para ela na casa, e o que era feito na Irlanda durante aquela época. Eu também me lembro de quando a fala veio até mim, como vai para qualquer homem, e eu sabia tudo o que estava sendo feito na Irlanda, eu era um vidente; um nome foi dado a mim: Tuan, o filho de Cairell. Logo a seguir, Patrício veio com a fé para a Irlanda. Eu era então bem velho; fui batizado e acreditei apenas no Rei de todas as coisas com seus elementos.”

16. Logo a seguir, eles celebraram a missa e foram para o refeitório, Finnen com seus seguidores e Tuan, após ele ter contado essas histórias. Lá eles ficaram por uma semana conversando. Cada história e cada linhagem que está na Irlanda, a origem da história é de Tuan, o filho de Cairell. Ele tinha conversado com Patrício antes dele e tinha lhe dito; ele conversou com Colum Cille que profetizou para ele na presença do povo da terra. E Finnen ofereceu que Tuan poderia ficar com ele, mas ele não obteve isso de Tuan. “Sua casa será famosa até o fim dos tempos,” disse Tuan.

Fonte: Mary Jones, The Celtic Literature Collective. The Tale of Tuan mac Carill. Disponível em: <http://www.maryjones.us/ctexts/tuan.html>. Acessado em: 08 de agosto de 2015.

Para ter a versão em .pdf, clique aqui. 

Um comentário:

  1. Lindo texto, que possamos passar aos nossos esse legado maravilhoso de sabedoria, onde a roda gira sempre e nos permite agregar conhecimentos e partilhá-los para a nossa evolução.

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