domingo, 19 de julho de 2015

O cortejo de Etain


O Cortejo de Etain
O Livro Amarelo de Lecan
I. Aqui começa o Cortejo de Etain
 Existia na Irlanda um famoso rei da raça dos Tuatha De: Eochaid Ollathair era seu nome. Ele também era chamado de Dagda (isto é, o bom deus), pois costumava fazer maravilhas para seu povo e controlar o clima e as colheitas; por isso, os homens costumavam chamá-lo assim. Elcmar do Brug tinha uma esposa cujo nome era Eithne, também chamada de Boand, e o Dagda a desejou em uma união carnal. A mulher teria cedido ao Dagda se não fosse por medo de Elcmar, de tão grande que era seu poder. Por isso, o Dagda enviou Elcmar em uma viagem até Bres filho de Elatha em Mag nInis, trabalhando em grandes feitiços sobre Elcmar para que ele não voltasse em breve, dissipando sobre ele a escuridão da noite e mantendo-o longe da fome e da sede. Ele o enviou em grandes incumbências de forma que nove meses se passaram em um dia, pois ele disse que não voltaria para casa novamente entre o dia e a noite. Entretanto, Dagda foi até a esposa de Elcmar que lhe gerou um filho, Aengus, e a mulher ficaria preocupada quando Elcmar voltasse, mas ele não percebeu sua ofensa: ter dormido com o Dagda.

2. O Dagda, entretanto, levou seu filho até a casa de Midir em Bri Leith em Tethba, para ser adotado. Lá, Aengus foi criado por um espaço de nove anos. Midir tinha um grande campo de jogos em Bri Leith. Três vezes cinquenta rapazes dos jovens nobres da Irlanda estavam lá junto com três vezes cinquenta donzelas da terra da Irlanda. Aengus era o líder de todos eles, pois era grande o amor que Midir tinha por ele, e também pela beleza de sua forma e nobreza de sua raça. Ele também era chamado de Mac Oc (o Filho Jovem), pois sua mãe disse: “Jovem é o filho que foi gerado no romper do dia e nascido entre o amanhecer e o crepúsculo.”
3. Aengus havia brigado com Triath filho de Febal (ou Gobor) dos Fir Bolg, que era um dos dois líderes no jogo e também um filho adotivo de Midir. Não era uma questão de orgulho com Aengus que Triath devesse falar com ele, e disse: “Me aborrece o filho de um servo falar comigo,” pois Aengus acreditava até então que Midir era seu pai e o reino de Bri Leith era sua herança, e não sabia de seu parentesco com o Dagda.
4. Triath respondeu e disse: “Não ficarei mal por um mercenário cuja mãe e pai são desconhecidos fale comigo.” Após isso, Aengus foi até Midir chorando e lamentando por ter sido envergonhado por Triath. “O que é isso?” disse Midir. “Triath me difamou e jogou em minha cara que não tenho pai nem mãe.” “Isso é mentira,” disse Midir. “Quem é minha mãe e de onde é meu pai?” “Não é difícil. Teu pai é Eochaid Ollathair,” disse Midir, “e Eithne, a esposa de Elcmar do Brug é sua mãe. Eu te criei escondido de Elcmar para que não lhe causasse dor o fato de você ter sido gerado em seu ultraje.” “Venha comigo,” disse Aengus, “para que meu pai me reconheça e eu não me esconda mais dos insultos dos Fir Bolg.”
5. Então Midir saiu com seu filho adotivo para falar com Eochaid, e chegaram a Uisnech de Meath, no centro da Irlanda, pois lá era a casa de Eochaid, onde a Irlanda se estendia igualmente para cada lado, sul e norte, leste e oeste. Diante deles na assembleia, encontraram Eochaid. Midir chamou o rei para conversar com o rapaz. “O que deseja esse jovem que não veio até agora?” “Seu desejo é ser reconhecido pelo seu pai e terra ser dada a ele,” disse Midir, “pois não é próprio que seu filho seja um sem terra enquanto tu és o rei da Irlanda.” “Ele é bem vindo,” disse Eochaid, “ele é meu filho. Mas a terra que desejo que ele tenha ainda não está vaga.” “Que terra é essa?” disse Midir. “O Brug, ao norte do Boyne,” disse Eochaid. “Quem está lá?” perguntou Midir. “Elcmar,” disse Eochaid, “é o homem que está lá e que não desejo perturbar mais.”
6. “Suplico, que conselho você dá para este rapaz?” disse Midir. “Tenho esse para ele,” disse Eochaid. “No dia de Samain deixe-o ir até o Brug, e deixe-o ir armado. Este é um dia de paz e amizade entre os homens da Irlanda, o dia no qual ninguém tem inimizade com seu companheiro. Elcmar estará em Cnoc Side em Borga, desarmado, salvo apenas por uma forquilha de aveleira branca em sua mão, sua capa com um broche dourado lhe envolvendo e três vezes cinquenta pessoas diante dele no campo de jogos; deixe que Aengus vá até ele e o ameace de morte. É apropriado que ele não o mate, prevendo que ele cumprirá seu desejo. E esse será o desejo de Aengus: ele será rei por um dia e uma noite no Brug, e ele não devolverá a terra para Elcmar até submeter-se à minha decisão; quando ele chegar, o pedido de Aengus será para a terra ser dele e que a simples recompensa será poupar Elcmar e não mata-lo, e o que ele pedirá é o reinado de um dia e noite, e,” disse ele, “são em dias e noites que o mundo se passa.”
7. Midir então voltou para sua terra com seu filho adotivo, e no Samain seguinte, Aengus, tendo se armado, foi até o Brug e fez um estratagema em Elcmar lhe prometendo em troca de sua vida, o reinado de dia e noite de sua terra. O Mac Oc imediatamente habitou lá naquele dia e noite como o rei daquela terra com toda a criadagem de Elcmar submetendo-se a ele. Na manhã seguinte, Elcmar veio pedir sua terra de volta e após isso, o ameaçou poderosamente. O Mac Oc disse que não devolveria sua terra até a decisão ser colocada ao Dagda na presença dos homens da Irlanda.
8. Eles então apelaram ao Dagda, que julga cada acordo dos homens em conformidade com seu cometimento. “Esta terra então conformemente pertencerá a esse jovem daqui em diante,” disse Elcmar. “É o adequado,” disse o Dagda. “Você foi pego de surpresa em um dia de paz e amizade. Tu deste sua terra pela misericórdia que foi lhe mostrada, pois sua vida é mais querida para ti que sua terra, ainda que tu tenhas outra terra de mim que não será menos rentável a ti que o Brug.” “Onde ela está?” disse Elcmar. “Cleitech,” disse o Dagda, “com as três terras ao redor dela, teus jovens jogarão diante de ti todos os dias no Brug, e tu terás os frutos do Boyne em sua terra.” “Está bem,” disse Elcmar, “que assim seja feito.” Ele partiu para Cleitech e construiu uma fortaleza lá, e Mac Oc habitou no Brug em sua terra.
9. Midir foi então aquele ano até o Brug para visitar seu filho adotivo, e encontrou o Mac Oc no monte de Síd em Broga, no dia de Samain, com duas companhias de jovens jogando diante dele no Brug, e Elcmar no monte de Cleitech ao sul, observando-os. Uma briga rompeu entre os jovens no Brug. “Não se mexa,” disse Midir para o Mac Oc, “por causa de Elcmar, para que ele não desça para a planície. Eu mesmo irei fazer a paz entre eles.” Midir então foi até eles e não foi fácil apartá-los. Um pedaço de azevinho foi atirado em Midir enquanto ele estava intervindo, e bateu em um de seus olhos. Midir foi até o Mac Oc com seu olho em sua mão e disse: “Não deveria vir visita-lo para ser envergonhado, pois com esse ferimento não posso mais ver a terra para onde vim e a terra que deixei, não poderei retornar agora.”
10. “Não é prudente ficar assim,” disse o Mac Oc. “Irei até Dian Cecht para que ele venha e lhe cure, e sua terra será sua, essa terra será sua e seu olho ficará inteiro novamente, sem vergonha ou mácula por causa dele.” O Mac Oc foi até Dian Cecht. […] tu deves vir comigo,” disse ele, “para salvar meu pai adotivo que foi ferido no Brug no dia de Samain.” Dian Cecht foi e curou Midir para que ele ficasse inteiro novamente. “Boa é minha jornada agora,” disse Midir, “já que estou curado.” “Certamente é,” disse o Mac Oc. “Tu habitarás aqui por um ano para que possas ver minha tropa e meu povo, minha família e minha terra.”
11. “Não ficarei,” disse Midir, “a menos que eu tenha minha recompensa.” “Qual recompensa?” disse o Mac Oc. “Fácil dizer. Uma carruagem que vale sete cumals¹,” disse Midir, “um manto apropriado para mim e a mais linda donzela da Irlanda.” “Eu tenho,” disse o Mac Oc, “a carruagem e o manto apropriado para ti.” “Há mais que isso,” disse Midir, “a donzela que ultrapassa em forma todas as donzelas na Irlanda.” “Onde ela está?” disse o Mac Oc. “Está em Ulster,” disse Midir, “é Etain Echraide, filha de Ailill, o rei da parte nordeste da Irlanda. Ela é a mais querida, gentil e adorável na Irlanda.”
12. O Mac Oc foi procurá-la até chegar a casa de Ailill em Mag nInis. Ele foi bem recebido e ficou lá durante três noites. Contou sua missão e anunciou seu nome e raça. Ele disse que veio em busca de Etain. “Não a darei para você,” disse Ailill, “pois não terei lucro de ti, devido à nobreza de sua família e a grandeza de seu poder e de seu pai. Se você envergonhar minha filha, não terei de ti nenhuma compensação.” “Não será assim,” disse o Mac Oc. “Eu a comprarei imediatamente.” “Terás isso,” disse Ailill. “Declare sua demanda,” disse o Mac Oc. “Não é difícil,” disse Ailill. “Tu limparás para mim doze planícies em minha terra que estão debaixo de lixo e madeira, de forma que elas estejam a todo tempo boas para o gado pastar, para habitações para mim, para jogos, assembleias, encontros e fortalezas.”
13. “Isso será feito,” disse o Mac Oc. Ele voltou para casa e lamentou para o Dagda o aperto que passava. Este último fez com que as doze planícies ficassem limpas em uma única noite na terra de Ailill. Estes eram os nomes das planícies: Mag Macha, Mag Lemna, Mag nItha, Mag Tochair, Mag nDula, Mag Techt, Mag Li, Mag Line, Mag Murthemne. Agora que o trabalho tinha sido feito pelo Mac Oc, ele foi até Ailill pedir por Etain. “Tu não obterás ela,” disse Ailill, “até que tire dessa terra e leve para o mar os doze grande rios que estão nos poços, pântanos e brejos, para que eles possam trazer a produção do mar para os povos e famílias e drene a terra e o terreno.”
14. Ele novamente foi até o Dagda para lamentar o aperto que passava. Depois disso, este ultimo fez com que as doze grandes extensões de água fluíssem em direção ao mar em uma única noite. Eles não tinham sido vistos lá até então. Estes eram os nomes dos rios: Find, Modornn, Slena, Nas, Amnas, Oichen, Or, Banda, Samair e Loche. Agora que esses trabalhos haviam sido realizados, o Mac Oc foi falar com Ailill a fim de pedir por Etain. “Tu não a terá até compra-la, pois depois que você a levar, eu não terei o lucro da donzela além do que eu terei agora.” “O que você exige de mim agora?” disse o Mac Oc. “Eu exijo,” disse Ailill, “o peso da donzela em ouro e prata, pois esta é a minha parte de seu preço; e o que você fez até agora, o lucro irá para seu povo e sua família.” “Isso será feito,” disse o Mac Oc. Ela então foi colocada no chão da casa de Ailill, e seu peso em ouro e prata foi dado por ela. A riqueza foi deixada com Ailill e o Mac levou Etain para casa com ele.
15. Midir deu as boas vindas à companhia. Aquela noite, Etain dormiu com Midir, e na manhã seguinte, um manto apropriado e uma carruagem foram dados a ele, que ficou satisfeito com seu filho adotivo. Após isso, ele morou por um ano inteiro no Brug com Aengus. Naquele ano, Midir voltou para sua própria terra, para Bri Leith, e levou Etain com ele. No dia que ia embora, Mac Oc disse para Midir, “Tenha cuidado com a mulher que leva contigo, por causa da terrível e sábia mulher que te aguarda, com todo o conhecimento, habilidade e arte que pertencem a raça dela,” disse Aengus, “ela também tem minha palavra e minha salvaguarda diante dos Tuatha De Danann”. Esta é Fuamnach esposa de Midir, da descendência de Beothach filho de Iardanel. Ela é sábia, prudente e versada no conhecimento e magia dos Tuatha De Danann, pois o druida Bresal a criou até ela ser desposada por Midir.
16. Ela deu as boas vindas ao seu marido Midir, e a mulher falou muito de [...] para eles. “Venha, oh Midir,” disse Fuamnach, “para que eu possa te mostrar minha casa e teu galardão de terra [...]” Midir rodeou sua terra com Fuamnach e ela mostrou sua posse para ele e [...] para Etain. Após isso, ele levou Etain novamente até Fuamnach. Fuamnach seguiu diante deles até o dormitório² onde ela dormia e disse para Etain: “Você chegou ao assento de uma boa mulher.” Quando Etain sentou-se na cadeira no meio da casa, Fuamnach bateu nela com uma varinha de sorveira escarlate e ela se transformou em uma poça de água no meio da casa; Fuamnach foi até Bresal, seu pai adotivo, e Midir deixou a casa para a poça que Etain havia se transformado. Após isso, Midir ficou sem esposa.
17. O calor do fogo, o ar e o fervilhar do chão auxiliou a água de forma que a poça que estava no meio da casa se tornou uma minhoca, e depois disso, a minhoca se tornou uma mosca³ roxa. Era tão grande quanto à cabeça de um homem, e a mais graciosa da terra. Mais doce que gaitas, harpas e chifres era o som de sua voz e o zumbido de suas asas. Seus olhos brilhavam como pedras preciosas na escuridão. A fragrância e o seu resplandecer levaria embora a fome e sede de qualquer um que estivesse onde ela estava. O borrifar das gotas que derramava de suas asas curariam todas as doenças, males e pragas em qualquer lugar que ela fosse. Ela costumava observar Midir e ficar com ele em sua terra conforme ele caminhava. Escutá-la e olhar para ela nutria as tropas em encontros e assembleias nos acampamentos. Midir sabia que era Etain que estava naquela forma, e enquanto aquela mosca ficou com ele, ele não tomou outra esposa, e qualquer um que não o amasse se aproximasse, ela o acordava.
18. Depois de um tempo, Fuamnach veio visitar Midir, e trouxe com ela como garantia os três deuses de Dana: Lug, Dagda e Ogma. Midir repreendeu Fuamnach excessivamente e lhe disse que ela não iria embora novamente se não fosse o poder das garantias que havia trazido ela. Fuamnach disse que não se arrepende do ato que fez, pois ela preferiria fazer o bem para ela mesma do que para outra pessoa, e que onde quer que fosse na Irlanda ela não faria nada além de prejudicar Etain enquanto ela vivesse e em qualquer que fosse a forma que ela estivesse. Ela trouxe poderosos encantamentos e [...] feitiços de Bresal Etarlam, o feiticeiro, para banir e acautelar Etain de Midir, pois ela sabia que a mosca roxa que deliciava Midir era a própria Etain, pois onde quer que ele visse a mosca, Midir não amava outra mulher, não encontrava prazer na música, na bebida ou na comida quando não a via e escutava sua música e sua voz. Fuamnach agitou um vento de assalto e magia de forma que Etain foi soprada de Bri Leith e por sete anos ela não pôde encontrar um cume, uma árvore, uma colina ou uma altura na Irlanda onde pudesse se acomodar, apenas as rochas do mar e as ondas do oceano, e flutuou no ar durante sete anos até que pousou na franja no peito do Mac Oc enquanto ele estava no monte do Brug.
19. O Mac Oc disse: “Bem vinda Etain, viajante cansada, tu que tem encontrado grandes perigos através das artes de Fuamnach. Ainda não encontrastes seu lado seguro em aliança com Midir. Quanto a mim, ele me achou capaz de ações com tropas, o abate de uma multidão, o limpador de lugares selvagens, a abundância do mundo para a filha de Ailill. Uma tarefa inútil, pois sua ruina miserável se seguiu.”
20. O Mac Oc deu as boas vindas à garota, que é a mosca roxa, e a colocou em seu peito na lã de sua capa. Ele a levou até sua casa e ao seu solário4 com suas brilhantes janelas para passagem, e vestes roxas foram colocadas nela; onde quer que fosse o solário era carregado pelo Mac Oc, e ele costumava dormir todas as noites ao lado dela, confortando-a, até sua alegria e cor voltar para ela novamente. Esse solário foi preenchido com maravilhosas e fragrantes ervas e ela desenvolveu-se na fragrância e resplendor dessas graciosas e preciosas ervas.
21. Contaram para Fuamnach o amor e a honra que era concedida a Etain pelo Mac Oc. Fuamnach disse para Midir, “Chame seu filho adotivo para que eu possa fazer a paz entre ambos, enquanto eu mesma buscarei Etain.” Um mensageiro de Midir foi até o Mac Oc e este veio falar com ele. Enquanto isso, Fuamnach foi por um caminho sinuoso até chegar ao Brug, e enviou a mesma rajada de vento em Etain que a expulsou de seu solário no mesmo sopro que ela estava antes por sete anos através da Irlanda. A rajada de vento a levou em miséria e fraqueza até ela pousar na trave horizontal5 de uma casa em Ulster, onde o povo bebia, e caiu dentro de uma taça dourada que estava diante da esposa de Etar, o campeão de Inber Cichmaine, na província de Conchobar, que então engoliu o líquido da taça e dessa forma Etain foi gerada em seu útero e se tornou posteriormente sua filha. Ela foi chamada de Etain, filha de Etar. Agora, se passaram mil e doze anos desde a primeira concepção de Etain por Ailill até sua última concepção por Etar.
22. Depois disso, Etain foi trazida para Inber Cichmaine por Etar, e cinquenta filhas dos chefes junto com ela, e era ele quem as alimentava e as vestia para que sempre dessem assistência a Etain. Aconteceu de um dia todas as donzelas se banharem em um estuário quando, na água, viram um cavaleiro entrando na planície em direção a elas. Ele estava montado em um grande corcel marrom, curveteando e empinando-se, com uma juba e rabo encaracolados. Em sua volta, um manto verde em dobras, uma túnica bordada em vermelho e um broche dourado em seu manto que prendia em seus ombros de ambos os lados. Um escudo de prata com uma borda de ouro estava pendurado em suas costas com uma correia de prata e um ornamento de ouro nela. Em sua mão, uma lança de cinco dentes com faixas de ouro ao redor, do punho até o encaixe. Ele tinha um brilhante cabelo loiro que chegava até sua testa, onde uma faixa de ouro ficava pressionada sobre ela para que seu cabelo não caísse sobre sua face. Ele parou por um instante na margem do rio olhando para as donzelas, e todas elas amaram ele. Logo a seguir, ele proferiu essa canção6:
23. Essa é Etain, hoje aqui
Em Sid Ban Find a oeste de Ailbe,
Entre garotinhos está ela
Na beira de Inber Cichmaine.
Foi ela que curou o olho do Rei
A partir do poço de Loch Da Lig:
Foi ela que foi engolida em uma bebida
De uma taça pela esposa de Etar.
Por causa dela o rei deverá perseguir
Os pássaros de Tethba,
E afogar seus dois corcéis
Na lagoa de Loch Da Airbrech.
Uma numerosa guerra acontecerá
Em Eochaid de Meath por sua causa:
Haverá destruição nos montes encantados
E batalha contra muitos milhares.
Ela que foi cantada de (?) na terra;
Ela que se esforça para ganhar o Rei;
Ela (...) Be Find,
Ela é nossa Etain mais tarde.
 O guerreiro partiu depois disso e ninguém sabia de onde ele tinha vindo ou para onde que ele tinha ido.
24. Quando o Mac Oc chegou para aconselhar-se com Midir, não encontrou Fuamnach lá, e Midir disse para ele: “A mulher nos enganou, e se disseram para ela que Etain está na Irlanda, ela irá lhe fazer mal.” “Também penso que isso seja provável,” disse o Mac Oc. “Etain está em minha casa no Brug por um curto tempo na forma que ela foi soprada para longe de ti, e talvez seja ela que a mulher esteja compelindo.”
25. O Mac Oc voltou para casa e encontrou o solário de cristal sem Etain. O Mac Oc voltou-se para os rastros de Fuamnach e chegou até ela em Aenech Bodbgna na casa de Bresal Etarlam. O Mac Oc a atacou e decepou sua cabeça, levando-a consigo até a beira do Brug.
26. Contudo, há uma versão em outro lugar, onde Fuamnach e Midir são mortos por Manannan, em Bri Leith, do qual foi dito:
Fuamnach, a tola, foi a esposa de Midir,
Sigmall, uma colina com árvores antigas,
Em Bri Leith eram uma combinação impecável,
Eles foram queimados por Manannan.
II. O Cortejo de Etain
 Eochaid Airem tomou o reinado da Irlanda. Os cinco Quintos7 da Irlanda se submeteram a ele, isto é, o rei de cada Quinto. Estes eram os reis naquela época: Conchobar filho de Nesa, Mess Gegra, Tigernach Tetbannach, Cu Rui e Ailill filho de Mata Murisc. As fortalezas de Eochaid eram: Dun Fremainn em Meath e Dun Fremainn em Tethba. Fremainn em Tethba era a mais querida das fortalezas da Irlanda para ele.
2. Eochaid, no ano depois que ele se tornou rei, ordenou aos homens da Irlanda a realizarem o Festival de Tara, a fim de avaliar seus tributos e taxas por cinco anos. Os homens da Irlanda responderam Eochaid dizendo que não podiam convocar o Festival de Tara para um rei que não tinha uma rainha, pois Eochaid não tinha uma quando ele tomou o reinado. Logo a seguir, Eochaid despachou enviados para todos os Quintos da Irlanda para procurar a mais nobre donzela (ou mulher) da Irlanda, pois ele disse que sua esposa deveria ser uma mulher que nenhum dos homens da Irlanda tivessem conhecido antes dele. Foi encontrada para ele em Inber Cichmaine, Etain, a filha de Etar, e Eochaid então se casou com ela, pois correspondia em beleza, forma e linhagem, em esplendor, juventude e fama.
3. Os três filhos de Find, o filho de Findlug, os filhos da rainha eram: Eochaid Feidlech, Eochaid Airem e Ailill Anguba. Ailill Anguba veio para amar Etain no Festival de Tara depois dela ter se deitado com Eochaid, pois estava acostumado a olhar para ela continuamente, e tal olhar é um sinal de amor. O coração de Eochaid reprovou Ailill pelo seu ato, mas tal ato não lhe ajudou de modo algum. O desejo era mais forte que o caráter. Ailill declinou para que sua honra não ficasse constrangida, e também não falou com a própria mulher.
4. Quando ele esperava a morte, Fachtna, o médico de Eochaid, foi levado para vê-lo. O médico disse para ele, “Você tem uma das duas dores que mata os homens e nenhum médico pode curar: a dor do amor e a dor da inveja.” Ailill não confessou para ele, pois estava envergonhado. Então Ailill foi deixado em Fremainn Tethba morrendo e Eochaid saiu em um circuito pela Irlanda. Etain foi deixada com Ailill para que seus últimos ritos fossem realizados por ela, que são: cavar seu túmulo, fazer a lamentação e matar o seu gado.
5. Todos os dias Etain costumava ir até a casa onde Ailill estava para falar com ele, e assim sua doença foi aliviada, e enquanto Etain permanecia lá, ele ficava admirando ela. Etain observou isso e ponderou o assunto. Um dia quando estavam juntos em sua casa, Etain o perguntou a causa de sua doença. “É por amor a ti,” disse Ailill. “É uma pena que ficastes tanto tempo sem dizer,” disse ela. “Se soubéssemos, teríamos lhe curado há um tempo.” “Mesmo hoje eu posso estar inteiro novamente se você estiver de boa vontade.” “Estou de boa vontade, de fato,” disse ela.
6. Todos os dias então ela vinha para banhar sua cabeça, cortar carne para ele e derramar água em suas mãos. Após três vezes nove dias, Ailill foi curado. Ele disse para Etain, “E quando eu terei de ti o que está faltando para me curar?” “Terá isso amanhã,” disse ela, “mas não na residência do príncipe para ele ser envergonhado. Venha até mim amanhã na colina acima da corte.”
7. Ailill ficou acordado por toda a noite, mas na hora de seu encontro ele adormeceu e não conseguiu acordar até a terceira hora da manhã. Etain foi para encontra-lo e viu um homem parecido com Ailill esperando ela, e lamentou sua fraqueza devido a sua doença. Ele então falou o discurso que Ailill teria desejado. Na terça hora, Ailill acordou. Ele começou a lamentar por um longo tempo até Etain chegar em casa. “Por que está triste?” disse ela. “Pois lhe enviei para um encontro comigo e não estava lá para te encontrar, pois o sono se abateu sobre mim e somente agora acordei. É evidente que ainda não atingi minha cura.” “Isso não importa,” disse Etain, “um dia segue o outro.” Ele ficou acordado aquela noite com um grande fogo em sua frente e água em seu lado para banhar seus olhos.
8. Na hora de seu encontro, Etain saiu para encontra-lo e viu o mesmo homem parecido com Ailill. Etain voltou para casa e Ailill caiu no choro. Três vezes Etain foi e Ailill não compareceu ao encontro. Ela sempre encontrava o mesmo homem. “Não foi com você que marquei o encontro,” disse ela. “Quem é tu que vieste me encontrar? O homem com quem marquei o encontro não foi por pecado ou ferida que o encontro foi feito, mas para que alguém adequado para ser o rei da Irlanda pudesse ser salvo da doença que se abateu sobre ele.” “Seria mais adequado para ti vir comigo, pois tu és Etain Echraide, filha da Ailill, e eu sou seu marido. Eu paguei teu enorme dote em grandes planícies e rios da Irlanda, e deixei em seu lugar o seu peso em ouro e prata.” “Me diga,” disse ela, “qual é o seu nome?” “Não é difícil: Midir de Bri Leith,” disse ele. “Me diga,” disse ela, “O que foi que nos separou?” “Não é difícil: a feitiçaria de Fuamnach e os feitiços de Bresal Etarlam.” Midir disse para Etain, “Você virá comigo.” “Não,” disse ela, “Não trocarei o rei da Irlanda por um homem cuja raça ou família é desconhecida.” “Foi eu,” disse Midir, “que coloquei amor por ti na mente de Ailill para que sua carne e sangue fosse embora. Foi eu que tirei dele todo o desejo carnal para que sua honra não fosse afetada. Mas venha para minha terra comigo se Eochaid te ofertar.” “De bom grado,” disse Etain.
9. Ela então foi para sua casa. “Estamos bem cumpridos,” disse Ailill. “Pois agora estou curado e sua honra não foi afetada.” “É bom, sim,” disse Etain. Depois disso, Eochaid voltou de seu circuito e alegrou-se que seu irmão ainda estava vivo, e Etain recebeu gratidão pelo que havia feito até Eochaid voltar.
III. O Cortejo de Etain
 Em outra ocasião, em um adorável dia de verão, Eochaid Airem, o rei de Tara, levantou-se e subiu no pátio de Tara para observar Mag Berg. Ela estava radiante com o resplandecer de todas as cores. Quando Eochaid olhou a sua volta, viu um estranho guerreiro no pátio diante dele. Um manto roxo estava em sua volta e ele tinha um cabelo loiro que chegava até os ombros. Tinha um olho azul em sua cabeça, uma lança de cinco pontas em uma mão e um escudo com o aro branco com gemas douradas em outra. Eochaid ficou silencioso, pois não sabia de sua estadia em Tara na noite passada e as cortes não tinham abrido naquela hora.
2. Logo a seguir ele foi até Eochaid. Eochaid então disse, “Boas vindas ao guerreiro que não conhecemos.” “É por isso que viemos,” disse o Guerreiro. “Nós não os conhecemos,” disse Eochaid. “Eu lhe conheço, no entanto,” respondeu o guerreiro. “Qual é o seu nome?” disse Eochaid. “Não é famoso,” disse ele, “Midir de Bri Leith.” “O que te trouxe aqui?” disse Eochaid. “Jogar xadrez8 contigo,” disse ele. “É verdade que sou bom em xadrez,” disse Eochaid. “Vamos verificar isso,” disse Midir. “A rainha está dormindo,” disse Eochaid, “e é na casa dela que o tabuleiro de xadrez está.” “Eu tenho aqui,” disse Midir, “um tabuleiro de xadrez que não é inferior.” E era verdade: um tabuleiro prateado e peças douradas, e cada canto do tabuleiro era iluminado por pedras preciosas e para as peças, uma bolsa de fios de bronze entrançados.
3. Logo a seguir Midir organizou o tabuleiro. “Você joga,” disse Midir. “Eu não vou jogar exceto por uma aposta,” disse Eochaid. “Qual será a recompensa?” disse Midir. “Isso tudo para mim,” disse Eochaid. “Você terá de mim,” disse Midir, “se tu ganhar minha aposta, cinquenta corcéis cinza escuro com cabeças salpicadas de vermelho-sangue, orelhas pontiagudas, peito amplo, narinas dilatadas, membros delgados, rápidos, sagazes, grandes, jugo firme facilmente atado, com suas cinquenta rédeas esmaltadas. Eles estarão aqui na terça hora de amanhã.” Eochaid disse o mesmo para ele, e em seguida, eles jogaram. Midir perdeu a aposta. Ele foi embora levando o tabuleiro com ele. Quando Eochaid levantou-se pela manhã, foi até o pátio de Tara assim que o sol estava nascendo, e viu seu oponente também indo em direção a ele pelo pátio. Ele não sabia para onde ele tinha ido e nem de onde tinha vindo, e viu cinquenta corcéis cinza escuro com suas rédeas esmaltadas. “Isso é honroso,” disse Eochaid. “Promessa é dívida,” disse Midir.
4. “Vamos jogar xadrez?” disse Midir. “De boa vontade,” disse Eochaid, “que seja então por uma aposta.” “Terás isso de mim,” disse Midir, “cinquenta javalis jovens, com pelagem enrolada, barriga cinza, costas azul, com cascos de cavalo, juntos com uma cuba de madeira de espinheiro negro na qual todos eles caberiam. Mais ainda, cinquenta espadas com o cabo dourado e cinquenta vacas de orelhas vermelhas com bezerros brancos de orelhas vermelhas com um spancel 9de bronze para cada bezerro. Mais ainda, cinquenta carneiros cinza castrados com três cabeças vermelhas e três chifres, mais cinquenta espadas com o cabo de marfim. E mais ainda, cinquenta mantos malhados, mas cada um deles em seu próprio dia.”
5. O pai adotivo de Eochaid o questionou e perguntou de onde ele tinha trazido sua grande riqueza. Ele disse, “Isso é realmente adequado de se contar.” “Verdadeiramente, você deve ter cautela com ele; é um homem de poder mágico que veio até você, meu filho, coloque cargas pesadas sobre ele.” Depois disso, seu oponente veio até ele e Eochaid colocou sobre ele as famosas e grandes tarefas, que são: tirar as pedras de Meath, colocar juncos sobre Tethba, construir uma ponte sobre Moin Lamraige e uma floresta sobre Breifne. Sobre isso, o poeta proferiu as seguintes estrofes:
Foram quatro coisas
Que Eochaid Airem impôs
Em uma multidão com o rosto masculino
Com lança e escudo:
Uma ponte sobre Moin Lamraige,
Uma floresta sobre Breifne, sem dificuldade,
Tiras as pedras dos montículos da grande Meath,
E junco sobre Tethba.
6. Estes então foram os penhores e as dificuldades que foram impostas. “Você colocou muita coisa sobre mim,” disse Midir. “Não coloquei de fato,” disse Eochaid. “Então me conceda um pedido e um privilégio. Enquanto você espera, deixe que nenhum homem ou mulher esteja fora de casa até o sol nascer de amanhã.” “Isso será feito,” disse Eochaid. “Ninguém nunca pisou naquele pântano antes.”
7. Eochaid então ordenou que seu mordomo fosse observar o esforço que estavam tendo para fazer a ponte. O mordomo foi até o pântano, e parecia para ele que todos os homens do mundo, do nascer do sol ao por do sol, estavam no pântano. Todos eles fizeram um monte de suas roupas e Midir subiu naquele monte. Na parte inferior da ponte, eles continuavam derrubando uma floresta com seus troncos e raízes e Midir estava de pé, apressando a tropa de todos os lados. Uma pessoa poderia pensar que embaixo dele, todos os homens do mundo estavam criando um tumulto.
8. Depois disso, barro, cascalho e pedras foram colocadas sobre o pântano. Até aquela noite, os homens da Irlanda costumavam colocar o esforço na testa dos bois, mas foi visto que o povo dos montes encantados estava colocando a força10 em seus ombros. Eochaid fazia o mesmo, e por isso é chamado de Eochaid Airem [isto é, o lavrador], pois ele foi o primeiro homem dos homens da Irlanda a colocar o jugo sobre o pescoço dos bois. Estas eram as palavras que estavam nos lábios das tropas enquanto faziam a ponte: “Coloque na mão, lance na mão, bois excelentes, nas horas após o crepúsculo; solidez é a exação; ninguém sabe de quem é o ganho, de quem é a perda, da ponte sobre Moin Lamraige.”
 Não teria existido ponte melhor no mundo se uma vigia não tivesse sido colocada sobre eles. Os defeitos foram deixados neles. Depois disso, o mordomo foi até Eochaid para levar as notícias do vasto trabalho que ele havia testemunhado, e disse que não existia no cume do mundo um poder mágico que ultrapassasse isso.
9. Enquanto estavam conversando, eles viram Midir vindo em direção a eles com seus lombos cingidos e um mau olhado. Eochaid ficou com medo, mas lhe deu as boas vindas. “Foi por isso que viemos,” disse Midir. “É cruel e irracional de sua parte colocar tal dificuldade e inflição sobre mim. Eu poderia ter trabalhado em algo a mais para te agradar, mas minha mente está irada contra ti.” “Você não obterá raiva em troca de sua cólera: tua mente deve estar sossegada,” disse Eochaid. “Isso será aceito então,” disse Midir, “vamos jogar xadrez?”. “Qual será a aposta?” disse Eochaid. “A aposta que quisermos,” disse Midir, e naquele dia, Eochaid perdeu a aposta. “Você tomou minha aposta,” disse Eochaid. “Queria eu ter a tomado antes,” disse Midir. “O que quer de mim?” disse Eochaid. “Meus braços em volta de Etain e um beijo dela,” disse Midir. Eochaid ficou silencioso. “Venha daqui a um mês e isso será dado a ti.”
10. No ano antes de Midir vir jogar xadrez com Eochaid, ele cortejava Etain, mas não podia tê-la; o nome pelo qual Midir a chamou foi Be Find [Dama Loira] e ele disse para ela:
Ó Be Find, você virá comigo
Para a maravilhosa terra onde a harmonia está,
Lá, o cabelo é como a coroa de uma prímula
E o corpo é liso e branco como a neve.
Lá, nem o meu ou seu,
Brancos são os dentes, negras as sobrancelhas.
Um deleite para os olhos é o número de nossas tropas,
Lá cada bochecha é da cor da dedaleira.
Uma flor de cravo está no pescoço de cada um,
Um deleite para os olhos são os ovos dos melros.
Apesar de nobre a paisagem de Mag Fail,
Ela será desolada depois de frequentar Mag Mar.
Apesar de você considerar de boa qualidade a cerveja¹¹ de Inis Fail,
Mais intoxicante é a cerveja de Tir Mar.
Uma maravilhosa terra é a terra que eu falo;
A juventude não sai de lá antes da velhice.
Mornos rios doces fluem através da terra,
A boa qualidade de hidromel e vinho.
Majestoso povo sem mácula,
Concepção sem pecado, sem luxúria.
Nós vemos todos em todos os lados,
E ninguém nos vê.
Essa é a escuridão da transgressão de Adão
Que nos impediu de sermos contados.
Ó mulher, se você vier para meu povo orgulhoso,
Uma coroa de ouro estará sobre sua cabeça
Mel, vinho, cerveja, leite fresco e bebida,
Você terá comigo lá, ó Be Find.
 “Eu irei contigo,” disse Etain, “se você me obteve de meu marido, se não me obteve, não irei.”
11. Depois disso, Midir foi até Eochaid e deu sua aposta imediatamente a fim de poder brigar com Eochaid, pois foi ele que realizou as condições onerosas e foi por essa razão que ele estipulou a recompensa não nomeada para que pudesse nomeá-la depois. Quando Midir e seu povo estavam executando os termos da noite, isto é, a ponte sobre Moin Lamraige, tirando as pedras de Meath e colocando os juncos sobre Tethba e a floresta sobre Breifne, estas foram as palavras que o povo dizia, de acordo com o Livro de Druim Snechta:
12. Cuirthe i iland toche i iland airderg damrudh trom an coidben cluinitar fir ferdi buidne balethruim crandchuir forderg saire fedhar sechuib slimprib snithib sciathu lama indrochad cloena fo bith oenmna duib in digail duib an tromdam tairthrim flatho fer ban fomnis in fer mbraine cerpai fomnis diadh dergage fer arfeidh solaid fri ais estild fer bron fort ier techta in delmnad o luachair for di Teithbi dictlochad Midi indracht coich les coich aimles.¹²
13. Midir fez um encontro daqui a um mês a partir daquele dia, mas Eochaid reuniu a elite dos guerreiros e os melhores bandos bélicos da Irlanda em Tara, cada um circulando o outro ao redor de Tara, no meio, fora e dentro, e o rei e a rainha no meio da casa; as cortes foram trancadas, pois eles sabiam que um homem de grande poder mágico viria. Etain ficou servindo os lordes aquela noite, pois servir bebidas era um dom especial dela.
14. Depois disso, enquanto estavam conversando eles viram Midir vindo em direção a eles no meio da casa real. Ele sempre estava belo, mas naquela noite, estava mais ainda. As tropas estavam atônitas. O silêncio então se abateu sobre eles e o rei lhe deu as boas vindas. “Foi por isso que viemos,” disse Midir, “o que foi prometido para mim,” disse ele, “deixe que seja dado a mim. Promessa é dívida. O que prometi, eu lhe dei.” “Não pensei em nada além disso até agora,” disse Eochaid. “A própria Etain me prometeu que te deixaria,” disse Midir. Logo a seguir, Etain enrubesceu. “Não se envergonhe, ó Etain,” disse Midir. “Isso não é pouco feminino para ti. Eu estive um ano,” disse ele, “te procurando com presentes e tesouros, a mais bela na Irlanda, e não lhe tomarei até eu ter a permissão de Eochaid. Não será através de qualquer [...] pensamento que eu lhe ganharei?” “Eu te falei,” disse ela, “que não iria com você até Eochaid me vender. Quanto a mim, você pode me levar se Eochaid me vender.”
15. “Eu não lhe venderei, na verdade,” disse Eochaid, “mas deixe ele por seus braços a sua volta no meio da casa onde tu estás.” “Isso será feito,” disse Midir. Ele pegou suas armas com a mão esquerda e colocou a mulher debaixo de seu braço direito e a levou através da claraboia da casa. A tropa se levantou envergonhada ao redor do rei. Eles viram dois cisnes voando ao redor de Tara.
 E eles seguiram para Sid ar Femuin e Eochaid foi com a elite dos homens da Irlanda a sua volta para Sid ar Femuin, que é o Sid Ban Find. E o conselho dos homens da Irlanda foi cavar e cavar cada monte encantado da Irlanda até que sua esposa fosse encontrada.
16. Eles cavaram Sid Ban Find e certa pessoa saiu de lá e lhes disse que a mulher não estava. “O rei dos montes encantados da Irlanda, ele é o homem que foi até você. Ele está em sua fortaleza real com a jovem. Vão para lá até chegarem.” Eles foram para o norte e começaram a cavar o monte encantado e ficaram um ano e três meses nisso. O que eles cavavam em um dia, era restaurado na manhã seguinte. Dois corvos brancos saíram do monte e vieram dois cães de caça: Schleth e Samair. Eles foram novamente para o sul, para Sid Ban Find, e começaram a cavar o monte encantado. Alguém saiu de lá e disse para eles, “O que você tem contra nós, ó Eochaid?” disse ele. “Não pegamos sua esposa. Nenhum mal foi feito a ti. Tome cuidado em dizer qualquer coisa que possa ser prejudicial para um rei.” “Eu não irei embora por isso,” disse Eochaid, “até que você me diga como eu consigo minha esposa de volta.” “Pegue cãezinhos13 e gatos cegos e deixe-os ir. Esse é o trabalho que você deve fazer todos os dias.” Eles foram embora e isso foi feito por eles, e dessa forma eles estabeleceram.
17. Quando eles estavam demolindo Sid Bri Leith, eles viram Midir vindo em direção a eles. “O que você tem contra mim,” disse Midir. “Você me fez mal. Você colocou grandes tribulações sobre mim. Você vendeu sua esposa para mim. Não me faça mais mal,” disse ele. “Ela não ficará com você,” disse Eochaid. “Ela não ficará,” disse Midir. “Vá para casa; sua esposa irá até você na terça hora da manhã seguinte [...],” disse Midir. “Não me faça mais mal se estiver contente comigo dessa vez.” “Eu aceito,” disse Eochaid. Midir delimitou seu trato e foi embora. Quando estava lá na terça hora da manhã, viram cinquenta mulheres de forma e vestes iguais as de Etain. O silêncio se abateu sobre as tropas. Havia uma cadela cinza diante deles. Disseram para Eochaid, “Escolha sua esposa agora ou convide uma das mulheres para ir com você. É adequado irmos para casa.”
18. “O que vocês fariam,” disse Eochaid aos homens da Irlanda, “se a dúvida se abatesse sobre vocês?” “Não temos nenhuma decisão quanto ao que devemos fazer,” disseram os homens da Irlanda. “Eu tenho,” disse Eochaid. “Minha esposa é a melhor servindo bebidas na Irlanda. Eu a reconhecerei pelo seu serviço.” Vinte e cinco das mulheres foram colocadas em um lado da casa e vinte e cinco no outro, e ainda assim ele não encontrou Etain. Finalmente só faltavam duas mulheres. Uma delas derramou a bebida primeiro. Disse Eochaid, “Essa é Etain, e essa não é ela.” Então todos eles se aconselharam. “Verdadeiramente que é Etain, mas não é o serviço dela.” O resto das mulheres partiram. O ato que ele fez foi uma grande satisfação aos homens da Irlanda, o grande feito que os bois haviam realizado e o resgate da mulher dos homens dos montes encantados.
19. Em um belo dia Eochaid se levantou, e ele e sua rainha estavam conversando no meio da corte e viram Midir vindo em direção a eles. “Bom, Eochaid,” disse Midir. “Bom,” disse Eochaid. “Você não jogou de forma justa comigo com as dificuldades que infligiu sobre mim, considerando o suporte que tu tinhas e tudo o que [...] foi me pedido. Não havia nada em que você não suspeitava de mim.” “Eu não te vendi minha esposa,” disse Eochaid. “Responda, você considerou sua consciência em relação a mim?” disse Midir. “Até você oferecer outra promessa, não irei considerar,” disse Eochaid. “Responda, sua mente está tranquila?” disse Midir. “Está,” disse Midir. “Assim como a minha,” disse Midir. “Sua esposa estava grávida quando foi levada, ela deu a luz a uma menina, e é esta que está com você. Sua esposa, além disso, está comigo e aconteceu de você tê-la deixado ir pela segunda vez.” Logo a seguir, ele partiu.
20. Depois disso, Eochaid não ousou cavar novamente um monte encantado de Midir, pois existia um vínculo contra ele. Entristeceu Eochaid a sua esposa ter fugido e sua própria filha ter se deitado com ele, estar com uma criança dele e ter dado a luz a uma menina. “Ó Deuses,” disse Eochaid, “eu e a filha de minha filha nunca olharemos um para o outro.” Dois de sua criadagem foram atirá-la em um fosso entre bestas. Eles visitaram a casa de Findlam, o pastor14 de Tara, em Sliab Fuait, no meio de uma região selvagem. Não havia ninguém em casa. Eles comeram a comida de lá e atiraram a menina para a cadela e seus filhotes que estavam no canil da casa, e foram embora. O pastor e sua esposa voltaram para casa e viram a nobre bebê no canil e ficaram espantados com aquilo. Eles tiraram a menina do canil e a criaram sem saber de onde ela tinha vindo, e ela cresceu forte, além disso, sendo a filha de um rei e uma rainha. Ela ultrapassou todas as mulheres no bordado e seus olhos não viam nada que suas mãos não pudessem bordar. Dessa forma ela foi criada por Findlam e sua esposa, até um dia o povo de Etarscel a ver e contar ao rei, e ela foi levada à força por Etarscel e, depois disso, foi sua esposa. Deste modo, ela é a mãe de Conaire, filho de Etarscel.
21. Após isso, Eochaid Airem estava em Fremain de Tethba, e depois de ter perdido Etain, sua mente ficou perturbada. Sigmall Cael, neto de Midir, que é o filho da filha de Midir cujo nome era Oicnis, veio e queimou o Dun Fremainn de Eochaid, matando-o e sua cabeça foi levada por ele até Sid Nennta em vingança pela honra de seu avô Midir.
Não foi assim, no entanto, pois Sigmall e Fuamnach, a esposa de Midir, caíram pelas mãos de Manannan em Bri Leith muito antes daquilo, no reinado dos Tuatha De Danann, do qual o poeta disse:
Fuamnach, a tola, foi a esposa de Midir,
Sigmall, uma colina com árvores antigas,
Em Bri Leith eram uma combinação impecável,
Eles foram queimados por Manannan.15
22. No entanto, é dessa forma que Eochaid Airem morre, conforme aprendido no antigo conhecimento:
Eochaid estava em Fremainn de Tethba, como já dissemos, e lá estava sua mansão e seu domínio ancestral em direção ao fim. Daqui surgiu um árduo tributo de serviço além da conta no povo do distrito e da terra, pois o sustento do rei geralmente caía sobre eles, por isso Tethba é chamada de a sétima parte da Irlanda, pois a sétima parte do tributo e sustendo do rei caía sobre eles. Os Fir Chul dos Luaigne de Tara estavam em Tara nessa época, e foi neles que o tributo foi colocado. Normael foi o rei dos Fir Chul e era o pastor em Fremainn. O filho de sua mãe era Sigmall de Brestine, filho de Midir, rei de Bentraige. Uma conspiração foi armada por eles e resolveram matar Eochaid.
23. Os dois então saíram: Bentraige subordinada a Sigmall e os Fir Chul subordinados a Mormael, e tomaram Dun Fremainn, a fortaleza de Eochaid, a queimaram e mataram-no lá. Após isso, eles foram para Connacht com seus espólios, e ergueram a cabeça de Eochaid com eles até o Sid Nennta iar nUsicu (oeste da água), de forma que para comemorar aquela façanha, o historiador proferiu o seguinte:
Eochaid Airem, nobre, justo e gracioso,
Eminente Alto Rei da Irlanda,
Estendeu seu tributo árduo e arrojado,
O espalhou através de Banba dos mantos marrons.
 O povo de Tethba das lutas obstinadas
Receberam o tributo do Rei da Irlanda.
O Rei legislador que [...] eles, colocou
A sétima (parte) apenas neles.
Uma pesada tristeza da tropa veio
Devido à lei monstruosa e injusta,
A raiva foi acesa entre eles por causa disso,
Até Eochaid Airem ser morto.
O povo de Tethba, poderoso de outrora,
Matou Eochaid de Fremaind
A causa não foi a força de sua parte,
Foi devido à lei monstruosa e injusta.
Mormael foi o nome do Rei no princípio
Por quem o grande ato foi feito,
Fir Chul foi o nome dos homens de Tethba no leste
Quando Dun Fremainn foi dominado.
Apesar de ser dito que Sigmall das lanças
Matou Eochaid Airem,
Ele mesmo morreu antes de Eochaid de Fremaind
 Na sucessão de líderes.
Sigmall das lanças de batalha morreu
Pela lustrosa e brilhante face de Manannan;
Há um vasto e longo tempo no leste, sem fraqueza,
Antes de Eochaid encontrar sua morte.
Os dois Sigmall de Sid Nennta,
Seus pés intrépidos, poderosa sua proeza,
Sigmall filho de Coirpre das batalhas,
Sigmall que estava na morte de Eochaid.
Sigmall filho de Brestine da memória duradoura,
Rei de Bentraige com grande triunfo,
E o grande Mormael da planície,
Por eles Eochaid pereceu.
Fonte: Heroic Romances of Ireland, volume II, editado e traduzido por A.H. Leahy. Londres: David Nutt, 1906. Disponível em: <http://www.maryjones.us/ctexts/etain.html>      

Notas de tradução
1. Cumal. De acordo com o site “Everything 2”, é a antiga unidade irlandesa de valor ou medidor de riquezas, mencionado nos mais antigos textos legais irlandeses. O significado original da palavra é “escrava”, que pode significar que as mesmas eram usadas como “mercadorias” para troca, e que mais tarde se tornou um medidor de terras. Portanto, o cumal se tornou a unidade legal de medida de terra na Irlanda que equivale a 34 acres ingleses ou 13,85 hectares, espaço considerado suficiente para três vacas pastarem; este espaço era chamado de tír-cumaile, ou, “a terra do cumal”.
2. Dormitório. O termo original em inglês é sleeping chamber, que traduzido literalmente ficaria “câmara/quarto/aposento de dormir”.
3. Mosca. O termo do texto em inglês está fly, que se traduz como mosca, porém, encontram-se em outros lugares traduções tais como borboleta ou libélula.
4. Solário. O termo original em inglês é sun bower, que traduzido literalmente ficaria “habitação/residência solar”. O tradutor acredita que o termo “solário” – um espaço destinado a banhos de sol - se aplicaria à tradução.
5. Trave horizontal. O termo original em inglês é rooftree, sinônimo de ridgepole que consiste em uma viga horizontal localizada na parte mais alta do telhado onde os dois planos inclinados do telhado se encontram.
6. Canção. O termo original em inglês é lay, que possui um significado diferente, embora a tradução se adeque. Lay é o termo que significa um pequeno poema narrativo ou lírico que deve ser cantado. 
7. Os Quintos. Referem-se provavelmente as cinco divisões da Irlanda: Leinster no leste, Munster ao sul, Connacht a oeste, Ulster ao norte e Meath, o centro.
8. Xadrez. No texto em inglês, o termo é chess que se traduz como xadrez, porém, no manuscrito original em irlandês, aparece a palavra fidchell (“‘In imberum fidchell?’ ol Midir.”) que não significam a mesma coisa. O fidchell, segundo o site “Wikipédia” foi um antigo jogo irlandês de tabuleiro com contraparte no País de Gales. Embora hoje não se saiba o método do jogo, as regras e as peças, acredita-se que este seja a origem do nosso moderno xadrez.
9. Spancel. Segundo o site “Wiktionary”, spancel é uma corda ou grilhão usado para manquear um cavalo ou outro animal; deixa-los mancos ou coxos.
10. Força. As palavras “força” e “esforço” simbolizando o jugo, que segundo o site “Dicionário Informal”, é peça de madeira colocada sobre a cabeça dos bois ligando-os a uma carroça ou arado.
11. Cerveja. O termo original é ale, que apesar da tradução ser cerveja, a palavra tem um sentido diferente da nossa cerveja brasileira. O ale, segundo o site “Wikipédia”, é um tipo de cerveja produzida a partir da cevada maltada onde se usa uma levedura capaz de fermentar a cerveja rapidamente e proporcionar um sabor de frutas devido a componentes químicos encontrados nessa levedura.
12. Trecho não traduzido para o inglês.
13. Cãezinhos. O termo em inglês é whelp, que significa algum mamífero pequeno de espécies carnívoras, podendo ser principalmente um cachorro, um urso ou um leão (filhotes).
14. Pastor. O termo em inglês é herdsman, que significa o dono ou o criador de um coletivo de animais domesticáveis.
15. Notem que aqui há uma contradição. Na primeira vez o poema é dito, o autor do mito diz que foi Fuamnach e Midir que foram mortos por Manannan e Sigmall era apenas uma colina com “árvores antigas”. Agora, foram Sigmall e Fuamnach mortos por Manannan. 

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