domingo, 12 de abril de 2015

O ciclo mitológico irlandês


Fonte: MACCULLOCH, J.A. “The Religion of the Ancient Celts”. 1911. Disponível em: <http://sacred-texts.com/neu/celt/rac/index.htm>

Capítulo IV
 O Ciclo Mitológico irlandês

 Três ciclos divinos e heroicos são conhecidos na Irlanda, um falando dos Tuatha Dé Danann e os outros de Cúchulainn e dos Fians. Os personagens e os conteúdos são diferentes, mas os deuses do primeiro ciclo frequentemente ajudam os heróis dos outros, assim como os deuses da Grécia e Índia ajudavam os heróis dos épicos. Nós veremos que alguns personagens desses ciclos podem ter sido conhecidos na Gália; são lembrados no País de Gales, mas, nas Terras Altas da Escócia, onde as histórias de Cúchulainn e Fionn ainda são contadas, os Tuatha Dé Danann são menos conhecidos hoje do que em 1567, quando o bispo Carsewell lamentou o amor dos Terras Altas pelas “inúteis, desordenadas, mentirosas e profanas histórias sobre os Tuatha Dé Danann.”¹


 Da mesma forma que a nova religião acaia na Grécia e os livros védicos sagrados da Índia consideravam os deuses e heróis nativos como demônios ou duendes, assim fez o Cristianismo na Irlanda quando falava dos antigos deuses de lá. Por outro lado, foram principalmente escribas cristãos que transformaram a velha mitologia em história, transformando os deuses e heróis em reis. Sem dúvidas os mitos já existiam, falando da descendência de governantes e povos de divindades, assim como os gauleses falavam de sua descendência de Dispater, ou como os Incas do Peru, os Mikados do Japão e como os reis de Uganda se consideravam a prole dos deuses. Esta é uma prática universal, e deixou mais fácil para os cronistas cristãos transformar seus mitos em história. Na Irlanda, como em qualquer outro lugar, os mitos sem dúvidas falam sobre raças monstruosas que habitavam a terra em dias antigos, da luta dos nativos contra os intrusos e de seus deuses, embora os deuses nativos possam em alguns casos terem sido identificados com os deuses célticos, ou cultuados em suas próprias pessoas. Muitos elementos míticos podem então ter sido procurados nas crônicas evemerizadas da antiga Irlanda. Mas os próprios cronistas foram os continuadores de um processo que deve ter funcionado assim que a influência do Cristianismo começou a ser sentida.² Sua paixão, no entanto, era mostrar a descendência dos irlandeses e de povos antigos a partir de personagens bíblicos – um processo querido para os modernos anglo-israelitas, cujos argumentos de alguns são baseados em uma selvagem fantasia dos cronistas.

 Várias histórias foram contadas sobre os primeiros povoamentos da Irlanda. Banba, com duas outras filhas de Caim, chegou com cinquenta mulheres e três homens, apenas para morrer por uma peste. Três pescadores foram os próximos em descobrir a Irlanda, e “a ilha de Banba das Nobre Mulheres que com audácia tomaram posse.” Quando partiram para buscar suas esposas, morreram no dilúvio em Tuath Inba.³ Um relato mais popular é o da chegada de Cessair, a neta de Noé, com seu pai, seu marido, cinquenta donzelas e um terceiro homem, Ladru, “o primeiro homem morto de Erin”. Sua chegada foi o resultado do conselho de um laimh-dhia - ou “deus-de-mão” – mas seu navio naufragou e todos morreram no dilúvio, exceto seu marido Finntain, que sobreviveu por séculos.4 O navio de Cessair estava menos útil do que seus avós! E então veio a raça de Partholan, “não mais sábia que a outra”, que incrementou a terra até uma praga os varrer para longe, com a exceção de Tuan mac Caraill, que sobreviveu muitas transformações, contando a história da Irlanda para São Finnen séculos mais tarde.5 A sobrevivência de Finntain e Tuan, diferentes uma da outra, foi uma invenção dos cronistas para explicar a sobrevivência da história dos colonos que tinham todos morridos. Keating, por outro lado, rejeitando a única teoria de sobrevivência como contraditória à Escritura, sugere que “demônios aéreos”, seguido dos invasores, revelaram tudo aos cronistas, a menos que na verdade, eles tenham encontrado tudo gravado “nas rochas com uma caneta de ferro.”6

 Duzentos anos antes da chegada de Partholan, os fomorianos já tinham chegado,7 e seu chefe Cichol Gricenchos lutou contra Partholan em Mag Itha, onde foram derrotados. Cichol não tinha pés, e alguns de sua tropa tinham apenas um braço e uma perna.8 De acordo com alguns cronistas, eram demônios e descendentes do infeliz Cam. Nennius faz de Partholan e seus homens os primeiros Scots que vieram da Espanha para a Irlanda. O próximo a chegar foi o povo de Nemed que voltou para a Espanha, de onde vieram (segundo Nennius), ou foram mortos por um homem (segundo Tuan). Eles também foram descendentes do inevitável Noé, e sua permanência temporária na Irlanda foi muito perturbada pelos fomorianos que haviam se recuperado de sua derrota, e finalmente dominaram os nemedianos após a morte de Nemed. 9 Da Ilha de Tory, os fomorianos governavam a Irlanda e forçavam os nemedianos a lhes pagarem anualmente – na véspera de Samhain (1º de novembro) – dois terços de seus grãos, leite e das crianças nascidas durante o ano. Se os fomorianos são deuses da escuridão, ou, preferencialmente, divindades nativas, o tributo pode ser explicado como uma sombria memória do sacrifício oferecido no início do inverno, quando os poderes da escuridão e do mal estão predominantes. Os fomorianos tinham uma torre de vidro na Ilha de Tory. Um dia, a torre foi vista pelos milesianos, a quem pareceu em suas ameias o que parecia ser homens. Um ano depois disso, eles atacaram a torre e foram afogados no mar.10 Dos sobreviventes de um navio destruído da sua frota, os irlandeses descendem. Outra versão diz que são os nemedianos os assaltantes. Trinta deles sobreviveram à derrota: alguns deles foram para a Escócia ou Man (os britânicos), alguns para a Grécia (para voltar como os Firbolgs) e alguns para o norte, onde aprenderam magia e voltaram como os Tuatha Dé Danann.¹¹ Os Firbolgs, “homens dos sacos,” ressentindo seu vergonhoso tratamento recebido pelos gregos, fugiram para a Irlanda. Eles incluíam os Firbolgs propriamente ditos, os Fir-Domnann e os Galioin.¹² Os fomorianos são os seus deuses, e isso, com os epítetos desdenhosos colocados neles, pode apontar o fato de que os Firbolgs foram os povos pré-célticos da Irlanda e os fomorianos, suas divindades, hostis aos deuses dos celtas, ou considerados como divindades sombrias. Os Firbolgs são vassalos de Ailill e Medb, e com os Fir Domnann e Galioin, são hostis a Cúchulainn e seus homens,¹³ assim como os fomorianos são para os Tuatha Dé Danann. As lutas das raças e de seus deuses são inextricavelmente confusas.

 Os Tuatha Dé Danann vieram do céu – uma ideia para manter sua característica como deuses beneficentes, mas lendas tardias contam que eles vieram do norte. Eles chegaram à Irlanda em Beltane, envoltos em uma névoa mágica, e finalmente, depois de uma ou, em alguns relatos, duas batalhas, derrotaram os Firbolgs e os fomorianos em Magtured. A história mais antiga de uma batalha pode ser considerada como um relato evemerizado de um suposto conflito dos poderes da natureza.14 A primeira batalha é descrita em um manuscrito do século quinze ao dezesseis,15 e se refere a um relato do século quinze da segunda batalha, cheio de memórias arcaicas e composto por vários documentos mais antigos.16 Os Firbolgs, derrotados na primeira batalha, se juntam aos fomorianos após grandes perdas. Enquanto isso, Nuada – líder dos Tuatha Dé Danann – perde sua mão, e como nenhum rei maculado pode sentar no trono, a coroa é dada à Bres, filho do fomoriano Elatha e de sua irmã Eri, uma mulher dos Tuatha Dé Danann. Um dia, Eri observou um barco prateado navegando rapidamente até ela. Do barco, saiu um herói magnífico, e sem demora, como os amantes em Teócrito, “regozijaram em seu matrimônio.” O herói, Elatha, previu o nascimento do filho de Eri, tão belo que seria um padrão para todas as coisas belas. Ele lhe deu seu anel, mas ela o partilharia apenas com aquele cujo dedo se encaixasse. Este foi seu filho Bres e foi através desse presente que ele, como um exilado, foi reconhecido pelo seu pai e obteve sua ajuda contra os Tuatha Dé Danann. Assim como outras crianças maravilhosas, Bres crescia duas vezes mais fácil que qualquer outra criança até chegar aos sete anos.17 Apesar de Elatha e Eri serem irmãos, ela é uma dos Tuatha Dé Danann.18 Há uma comum inconsistência do mito neste e em outros relatos das uniões dos fomorianos e Tuatha Dé Danann.  Estes últimos assim que desembarcaram já se uniram por casamento com os fomorianos. Essa inconsistência escapou aos cronistas, mas isto aponta ao fato de que ambos são divinos, e não humanos, e que apesar do conflito, eles são unidos por casamento assim como membros de tribos hostis frequentemente faziam.

 A segunda batalha aconteceu vinte e sete anos após a primeira, no Samhain. Assim como na primeira, foi travada na planície de Mag-tured, apesar de relatos tardios contarem que uma batalha aconteceu na Mag-tured em Mayo, e a outra, na Mag-tured em Sligo.19 Inconsistentemente, os subjugados Tuatha Dé Danann nesse intervalo, enquanto Bres era seu rei, precisavam pagar o tributo imposto pelos fomorianos. Obviamente, em relatos mais antigos, esse tributo pode ter sido imposto antes da primeira batalha e pode ter sido a sua causa. Mas por que os deuses, como os Tuatha Dé Danann, ficaram sendo sujeitados? Isto continua a ser visto, mas a resposta provavelmente está nos mitos paralelos de sujeição ou morte de divindades como Ishtar, Adônis, Perséfone e Osíris. Bres tendo exigido um tributo de leite de todas as vacas pardas sem chifre, as vacas da Irlanda foram passadas através do fogo e manchadas com cinzas – um mito baseado talvez em um ritual de fogo de Beltane.20 O avaro Bres foi satirizado, e “nada além da decadência estaria sobre ele a partir daquela hora”²¹ e quando Nuada, tendo se recuperado, voltou ao trono, ele reuniu um exército de fomorianos, que se reuniam contra os Tuatha Dé Danann. Na batalha, Indech feriou Ogma e Balor matou Nuada, mas foi mortalmente ferido por Lug. Logo a seguir, os fomorianos fugiram para sua região.

 Os Tuatha Dé Danann permaneceram sendo os mestres da Irlanda até a chegada dos milesianos, assim chamados a partir de um homônimo Mile, filho de Bile. Ith, tendo sido enviado para reconhecimento, foi morto, e os milesianos então invadem a Irlanda à força. Irritados com uma névoa criada pelos druidas, eles desembarcaram, e quando se encontraram com os três príncipes que mataram Ith, pediram batalha imediata ou a entrega da terra. Os príncipes concordaram em permanecer com a decisão do poeta milesiano Amairgen, que fez seus amigos reembarcaram e se retiraram até uma distância de nove ondas. Se eles então conseguissem desembarcar novamente, a Irlanda seria deles. Uma tempestade mágica foi criada destruindo muito de seus barcos, mas Amairgen recitou versos e fragmentos de talvez, algum antigo ritual, que venceu os perigos. Após sua derrota, os sobreviventes dos Tuatha Dé Danann se retiraram para as colinas para se tornarem o povo das fadas, e os milesianos (os goidélicos ou Scots) se tornaram os ancestrais dos irlandeses.
 Durante toda a longa história das conquistas da Irlanda, houve muitas reduplicações: os mesmos incidentes frequentemente são atribuídos a personagens diferentes.²² Diferentes versões de ocorrências similares, baseados em mitos e tradições mais antigas, podem já ter existido, e práticas rituais vagamente lembradas, precisam de explicações. Nas mãos dos cronistas, escrever história com um propósito e combinando sua informação com pouca consideração à coerência, tudo isso foi reduzido a uma narrativa mais ou menos conectada. Nas mãos de cronistas prosaicos, a divindade passa dos deuses, apesar de suas raças ainda perdurarem.

“Vós sois deuses, e vede, vós morrereis, e as ondas estarão sobre vocês no final.
Na escuridão do tempo, na profundidade dos anos, nas mudanças das coisas,
Vós dormireis como um homem morto dorme, e o mundo esquecerão vocês pelos reis.”

 Do ponto de vista analítico, os fomorianos são demônios marítimos ou piratas, seu nome deriva-se de muir, “mar”, de onde descendem junto de outros seres monstruosos. O professor Rhŷs, enquanto conecta o nome com o galês foawr, “gigante” (do gaélico famhair), deriva o nome de fo, “debaixo”, e muir, e os considera seres submarinos.²³ O doutor MacBain os conecta com os poderes ferozes do mar ocidental personificado, como a Muireartach, um tipo de bruxa do mar de uma balada de Fionn.24 Mas essa associação dos fomorianos com o oceano pode ter sido o resultado de uma tardia etimologia folclórica, que erroneamente deriva seu nome de muir. A experiência céltica dos Lochlanners, ou nórdicos, com os quais os fomorianos são associados,25 ajudaria a concepção deles como piratas do mar com uma característica mais ou menos demoníaca. O doutor Stokes conecta a segunda sílaba mor com mare em “pesadelo,” de moro, e os considera como sendo subterrâneos e submarinos.26 Mas a mais provável derivação é a de Zimmer e D’Arbois, de fo e morio (mor, “grande”),27que concordaria com a tradição que os considera gigantes. Provavelmente eles eram deuses benéficos dos nativos, a quem os conquistadores célticos geralmente os consideravam maus, talvez os comparando com os poderes sombrios que já conheciam. Eles ainda eram lembrados como deuses e são chamados de “campeões do síd,” assim como os Tuatha Dé Danann.28 Assim, o Rei Bres procurou salvar sua vida prometendo que as vacas da Irlanda sempre dariam leite, e depois, que os homens da Irlanda sempre colheriam a cada trimestre, e finalmente, revelando os dias auspiciosos para o arado, o plantio e a colheita.29 Apenas um deus autóctone poderia saber isso, e a história é sugestiva da verdadeira natureza dos fomorianos. A característica hostil atribuída à eles é vista a partir do fato de que destroem os grãos, o leite e as frutas. Mas na Irlanda, como em qualquer outro lugar, esse poder destrutivo é censurado quando implorado para não destruir “os grãos nem o leite em Erin, além de seu justo tributo.”30 O tributo era pago a eles no Samhain, a época quando os poderes do mal temidos pelos homens eram predominantes. Novamente, o reinado de Balor, seu chefe, é ainda descrito como um reinado de frio.³¹ Mas quando nos lembramos que um “tributo” similar era pago a Cromm Cruaich, um deus da fertilidade, e que após a derrota dos Tuatha Dé Danann eles também foram considerados hostis à agricultura,³² nós percebemos que os fomorianos podem ter sido nativos deuses da fertilidade a quem os conquistadores célticos consideravam como hostis à eles e seus deuses. Similarmente, na crença folclórica, o benéfico espírito do grão tem às vezes um aspecto sinistro e destrutivo.³³ Assim, as histórias de “tributo” podem ser uma distorcida memória de rituais aos deuses do solo, diferindo pouco em característica daqueles das similares divindades célticas. O que nos dá certeza de que os fomorianos foram deuses nativos é o fato de que foram encontrados na Irlanda antes da chegada do antigo colono Partholan. Eles foram os deuses do povo pré-céltico – os Firbolgs, Fir Domnann e Galioin34 – de todos eles na Irlanda antes da chegada dos Tuatha Dé Danann e de todos eles considerados escravos, que foram tratados com o máximo de desprezo. Outra possibilidade, no entanto, deve ser considerada. Como os deuses célticos eram personagens locais, e como as tribos eram frequentemente hostis a outras tribos, os fomorianos podem ter sido deuses locais de um grupo em inimizade com outro grupo que cultuava os Tuatha Dé Danann.

 A luta dos fomorianos e Tuatha Dé Danann sugere o dualismo de todas as religiões naturais. Demônios, gigantes ou monstros lutam com os deuses nas mitologias hindu, grega e teutônica, e na Pérsia, o dualismo primitivo dos poderes benéficos e maléficos da natureza se transformou em um dualismo ético – a eterna oposição do bem e do mal. O sol é vencido pelas nuvens e tempestades, mas brilha plenamente de novo. A vegetação morre, mas sofre uma renovação anual. Assim, na mitologia, os deuses imortais são feridos e mortos na batalha, mas não devemos nos alongar muito com a analogia da aparente briga dos elementos e a guerra dos deuses. Uma sugere a outra, especialmente onde os deuses são poderes elementais, mas o homem criador do mito facilmente desenvolve a sugestão; os deuses são como os homens e “podem nunca se cansarem de atrair.” Os celtas conheciam os combates divinos antes de sua chegada à Irlanda, e seus próprios poderes hostis foram facilmente assimilados aos deuses hostis dos nativos.

 Os principais fomorianos são descritos como reis. Elatha era filho de Nét, descrito por Cormac como “um deus da batalha dos gaélicos pagãos,” isto é, ele é um dos Tuatha Dé Danann, e tinha como esposas duas deusas-guerreiras: Badb e Nemaind.35 Assim, ele se assemelha com o fomoriano Tethra, cuja esposa é uma badb ou “corvo-de-batalha,” devorando os mortos.36 O nome de Elatha, conectado com palavras que significam “conhecimento,” sugere que ele foi um nativo deus da cultura.37 Nas genealogias, os fomorianos e os Tuatha Dé Danann estão inextricavelmente misturados. A posição temporária de Bres como rei dos Tuatha Déa pode refletir algum mito de uma supremacia ocasional dos poderes do mal. Deficiência e lentidão caracterizaram seu reinado, e após sua derrota, um estado melhor das coisas prevaleceu. A consorte de Bres era Brigit, e seu filho Ruadan foi morto quando enviado aos Tuatha Dé Danann para espioná-los. O lamento de sua mãe por ele foi o primeiro lamento escutado em Erin.38 Outro deus, Indech, é filho de Déa Domnu, uma deusa fomoriana do abismo, isto é, do submundo e provavelmente também da fertilidade, que pode ter tido uma posição entre os fomorianos similar a de Danu entre os Tuatha Dé Danann. Indech foi morto por Ogma, que morreu devido aos ferimentos dados por seu adversário.

 Balor tinha uma consorte, Cethlenn, cujo veneno matou o Dagda. Seu único olho se tornou perverso através do contato com as fumaças venenosas de uma mistura que os druidas de seu pai preparavam. A pálpebra precisava de quatro homens para levantá-la e seu olho maligno destruía todos onde seu olhar caia. Dessa forma, Balor teria matado Lug em Mag-tured, mas o deus atingiu o olho com um estilingue e o matou.39 Balor, como a Medusa grega, é a personificação do olho maligno, tão temido pelos celtas. Influências saudáveis e encantamentos mágicos o evitam, e assim, Lug que é um deus benéfico, destrói a malignidade de Balor.

 Tethra, com Balor e Elatha, governavam Erin na chegada dos Tuatha Dé Danann. A partir de uma frase usada na história da visita de Connla ao Elísio, “Você é um herói dos homens de Tethra,” M. D’Arbois presume que Tethra foi um governante do Elísio, que o associa com a terra dos mortos. A passagem, no entanto, carrega uma interpretação diferente, e apesar de ser um fomoriano, Tethra, um deus da guerra, pode ser considerado o senhor de todos os guerreiros.40 O Elísio não era a terra dos mortos, e quando M. D’Arbois compara Tethra com Cronos, que após sua derrota se tornou o governante de uma terra de heróis mortos, a analogia, como outras analogias com a mitologia grega, é enganadora. Ele também compara Bres, como rei temporário dos Tuatha Dé Danann, com Cronos, o rei do céu na Era de Ouro. Cronos, novamente, morto por Zeus, é um paralelo à Balor, que foi morto pelo seu neto Lug; assim, Tethra, Bres e Balor são fragmentos separados de uma divindade equivalente à Cronos,41 ainda que suas personalidades sejam um pouco distintas. Cada raça trabalha sua própria mitologia, e, enquanto paralelos são inevitáveis, não devemos permitir que estes passem por cima dos mitos reais, da forma como chegaram até nós.

 O professor Rhŷs faz de Bile - ancestral dos milesianos que vieram da Espanha - uma contraparte goidélica do gaulês Dispater, o senhor dos mortos de quem os gauleses alegam descender. Mas Bile, nem fomoriano nem Tuatha Dé Danann, é uma criação sombria e imaginária. Bile é depois comparado com o britônico Beli, supostamente o consorte de Dôn, cuja família é equivalente aos Tuatha Dé Danann.42 Beli foi um rei mítico cujo reinado foi um tipo de era dourada, e se ele foi o pai dos filhos de Dôn, o que é duvidoso, Bile então poderia ser o pai dos Tuatha Dé Danann. Mas ele é o ancestral dos milesianos, seus oponentes, de acordo com os analistas. Beli também é comparado com Elatha, e uma vez que Dôn, a consorte de Beli, foi avó de Llew, comparado com o irlandês Lug, neto de Balor, Balor seria equivalente à Beli, cujo nome é considerado pelo professor Rhŷs como sendo etimologicamente relacionado com o de Balor.43 Bile, Balor e Elatha são então os equivalentes goidélicos do sombrio Beli, mas eles também são personalidades um pouco diferentes, e nunca foi sugerido que fossem os deuses ancestrais dos celtas, ou os deuses de um sombrio submundo. Na crença céltica, o submundo era provavelmente uma região fértil e um lugar de luz, e seus deuses não eram nocivos e malignos como Balor era.

 No todo, os fomorianos são considerados os poderes da natureza em seu aspecto hostil. Eles personificavam o mal, o inverno, a escuridão e a morte, diante dos quais os homens estremeciam, ainda que estes não fossem completamente humilhados, uma vez que os deuses imortais do crescimento e da luz, governantes de um brilhante “outro mundo”, estavam a seu lado, e lutavam contra seus inimigos. Todo ano os deuses sofriam um dano mortal, mas voltavam como conquistadores para renovar a batalha mais uma vez. O mito fala sobre isso como tendo acontecido de uma vez por todas, mas isso continuou constantemente.44 Os deuses eram imortais e apenas davam a impressão de que morriam. A luta era representada no ritual, uma vez que os homens acreditavam que eles pudessem ajudar os deuses através da magia, do rito ou da oração. Por que, então, os hostis fomorianos e os Tuatha Dé Danann se casavam entre si? Isso acontece em todas as mitologias, e provavelmente reflete, na esfera divina, o que acontece entre os homens. Os povos hostis frequentemente roubam as mulheres de outros povos, ou tem períodos de amizade e consequentemente, casamento. Os homens fazem seus deuses à sua própria imagem, e o problema é melhor explicado através de fatos como estes, exagerados sem dúvidas, pelos analistas irlandeses.

 Os Tuatha Dé Danann, apesar de sua evemerização, são mais que humanos. No norte, onde aprenderam magia, eles habitavam em quadro cidades, e de cada uma, trouxeram um tesouro mágico – a pedra de Fal, “que rugia diante de cada rei,” a lança invencível de Lug, a irresistível espada de Nuada e o inexaurível caldeirão do Dagda. Mas eles eram mais que feiticeiros ou druidas. Eles eram renascidos como mortais; eles têm um mundo divino e interferem e influenciam os assuntos humanos. Os evemeristas não foram longe o suficiente, e mais do que nunca, sua divindade é praticamente reconhecida. Quando o Fian Caoilte e uma mulher dos Tuatha Dé Danann aparecem diante de São Patrício, ele pergunta, “Por que ela é jovem e bela, enquanto você é velho e enrugado?” e Caoilte responde, “Ela é uma dos Tuatha Dé Danann, que são inalteráveis e cuja duração é perene. Eu sou dos filhos de Milesius, que são perecíveis e desaparecem.”45

 Após sua conversão, os celtas, filhos de Milesius, achavam que seus deuses ainda existiam nas colinas ocas, suas antigas habitações e santuários, ou em longínquas ilhas, ainda se importando com seus antigos adoradores. Essa tradição teve lugar com essa que os tornou uma raça de homens conquistados pelos milesianos – a vitória do cristianismo sobre o paganismo e seus deuses tendo sido transformados em uma luta de raças pelos evemeristas. A nova fé, não o povo, conquistou os deuses antigos. Os Tuatha Dé Danann se tornaram o Daoine-sidhe, um povo das fadas, ainda ocasionalmente chamados pelos seus antigos nomes, assim como individuais reis ou rainhas fadas carregam os nomes de antigos deuses. Os evemeristas deram aos fomorianos uma característica monstruosa e demoníaca, que não deram aos Tuatha Dé Danann, e isso deu continuidade à velha tradição de que os fomorianos são hostis e os Tuatha Dé Danann, benéficos e compassivos.

 O ciclo mitológico não é um completo “corpo de divindade”; sua aparente plenitude resulta de uma ordem cronológica dos analistas. Fragmentos de outros mitos são encontrados nos Dindsenchas; outros existem como contos românticos, e não temos razão para acreditar que todos os antigos mitos foram preservados, porém, vestígios suficientes sobreviveram para mostrar a verdadeira natureza dos Tuatha Dé Danann – sua característica sobrenatural, seus poderes, suas divinas e infalíveis comida e bebida e suas misteriosas e belas moradas. Em seus conteúdos, seus personagens, em ações que são atribuídas a eles e os materiais do “ciclo mitológico” mostram o quão este ciclo difere grandemente dos ciclos de Cúchulainn e Fionn.46 “O esplendor branco da eternidade” o inunda; os ciclos heroicos, mágicos e românticos que são, pertencem muito mais à terra e ao tempo. 



Notas de rodapé

1. Para algumas referências escocesas dos deuses na saga e em contos de fadas, veja o Book of the Dean of Lismore, 10; Campbell, Popular Tales of the West Highlands, volume II, página 77. O deus do mar Lir é provavelmente o Liur das baladas ossiânicas (Campbell, Leabhar na Feinne, 100, página 125), e seu filho Manannan é talvez “o Filho do Mar” em uma canção gaélica (Carmichael, Carmina Gadelica, volume II, página 122). Manannan e suas filhas também são conhecidas (Campbell, Witchcraft and Second Sight in the Highlands and Islands of Scotland, 83).
2. O processo de evemerização foi visto pela primeira vez nos poemas do século X, escritos por Eochaid hua Flainn, mas foi largamente o trabalho de Flainn Manistrech, ob. 1056. É encontrado completamente emplumado no Livro das Invasões.
3. Keating, History of Ireland, páginas 105-106.
4. Keathing, History of Ireland, página 107; Leabhar Laignech (Livro de Leinster) 4b, vide Revue Celtique, volume XVI, página 155.
5. Leabhar Laignech (Livro de Leinster), 5.
6. Keating, History of Ireland, página 111. Giraldus Cambrensis, History of Ireland, capítulo 2; na obra, Roanus sobrevive e conta a história de Partholan para São Patrício. Ele é Caoilte mac Ronan em outros contos, um sobrevivente dos Fians, que tem muitas conversas vigorosas com o santo. Keating calunia Giraldus por igualar Roanus com Finntain em sua “história mentirosa,” e por chama-lo de Roanus ao invés de Ronanus, um erro no qual ele, “o touro guia do rebanho”, é seguido pelos outros.
7. Keating, History of Ireland, página 164.
8. Leabhar Laignech (Livro de Leinster), 5a.
9. Keating, History of Ireland, página 121; Leabhar Laignech (Livro de Leinster), 6a; Revue Celtique, volume XVI, página 161.
10. Nennius, History of Brittany, página 13.
11. Leabhar Laignech (Livro de Leinster), 6, 8b.
12. Leabhar Laignech (Livro de Leinster), 6b, 127a; Windisch Stokes, Irische Texte, volume III, página 381; Revue Celtique, volume XVI, página 81.
13. Leabhar Laignech (Livro de Leinster), 9b, 11a.
14. Ver Cormac, Cormac’s Glossary,  s.v. “Nescoit,” Leabhar na h-Uidhre (Livro da Vaca Parda), 51.
15. Harl. MSS. 2, 17, páginas 90-99. Vide o fragment do Livro das Invasões no Leabhar Laignech (Livro de Leinster), 8.
16. Harl. Materials of Ancient Irish History. 5280, traduzido na Revue Celtique, volume XII, 59f.
17. Revue Celtique, volume XII, 60; D’Arbois, Cours de litterature celtique, v. 405 f.
18. Para as uniões célticas de irmão com irmã, veja a página 224. (Nota de tradução: página 224 do livro original em inglês).
19. O’Donovan, Annals, i. 16.
20. Revue Celtique, volume XV, 439.
21. Revue Celtique, volume XII, 71.
22. O professor Rhŷs acredita que a história de Partholan é nativa, e a de Nemed é a versão céltica do mesmo evento. Partholan, com o p inicial não pode ser goidélico (Scottish Review, 1890, “Myth. Treatment of Celtic Ethnology”).
23. Rhŷs, Hibbert Lectures on Celtic Heathendom, 591.
24. Celtic Magazine, IX, 130; Campbell, Leabhar na Feinne, 68.
25. Revue Celtique, volume XII, 75.
26. Stokes, Urkeltischer Sprachschatz, 211.
27. D’Arbois, Cours de litterature celtique, II, 52; Revue Celtique, volume XII, página 476.
28. Revue Celtique, volume XII, página 73.
29. Revue Celtique, volume XII, página 105.
30. Revue Celtique, volume XXII, página 195.
31. Larminie, West Irish Folk-tales and Romances, “Kian, filho de Kontje.”
32. Veja a página 78 (Nota de tradução: página do livro original em inglês); Leabhar Laignech (Livro de Leinster), 245b.
33. Mannhardt, Mythol. Forsch. 310 f.
34. “Fir Domnann,” “homens de Domna,” uma deusa (Segundo Rhŷs em Hibbert Lectures on Celtic Heathendom, 597), ou um deus (segundo D’Arbois em Cours de litterature celtique, II, 130). “Domna” está conectado com palavras irlandesas que significam “abismo” (Segundo Windisch em Irische Texte,I, 498; Stokes, Urkeltischer Sprachschatz, 153). Domna ou Domnu pode portanto ter sido uma deusa do abismo, não o mar tanto quanto o submundo, e talvez uma Mãe-terra que deu origem aos Fir Domnann.
35. Cormac, Cormac’s Glossary, s.v. “Neith”; D’Arbois, Cours de litterature celtique, v. 400; Revue Celtique, volume XII, página 61.
36. Leabhar na h-Uidhre (Livro da Vaca Parda), 50. Tethra é glosado como badb (Windisch em Irische Texte, I, 820).
37. Windisch, Irische Texte, I, 521. Rhŷs, Hibbert Lectures on Celtic Heathendom, 274, f.
38. Revue Celtique, volume XII, página 95.
39. Revue Celtique, volume XII, página 101.
40. Ver página 374. (Nota de tradução: página do livro original em inglês).
41. D’Arbois, Cours de litterature celtique, II, 198, 375.
42. Rhŷs, Hibbert Lectures on Celtic Heathendom, páginas 90-91.
43. Rhŷs, Hibbert Lectures on Celtic Heathendom, 21-4, 319, 643. Para Beli, veja a página 112. (Nota de tradução: página do livro original em inglês).
44. Seja qual for o significado da batalha de Mag-Tured, o lugar onde aconteceu está cheio de megalíticos do Neolítico, dólmenes, etc. Mais tarde, foi fantasiado que estes eram tumbas de guerreiros mortos em uma grande batalha travada lá, e essa batalha se tornou a luta entre os fomorianos e os Tuatha Dé Danann. Mag-tured pode ser sido a cena de uma batalha entre seus respectivos adoradores.
45. O’Grady, Silva Gadelica, II, 203.
46. Deve-se ser observado que, como nos Vedas, na Odisséia, no Kojiki japonês ou assim como nas mitologias selvagens e bárbaras, a fórmula dos contos de fadas abundam no ciclo mitológico irlandês.                                        

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