domingo, 8 de fevereiro de 2015

Fath-fith


  Fath-fith [133]  


 “Fath-fith” e “fith-fath” são termos intercambiáveis e indiscriminadamente usados. Eles são aplicados ao poder oculto que torna invisível uma pessoa aos olhos dos mortais e que transforma um objeto em outro. Homens e mulheres ficavam invisíveis, ou homens eram transformados em cavalos, touros ou veados, enquanto as mulheres eram transformadas em gatos, lebres ou corças. Esses transformações as vezes eram voluntárias, e as vezes, involuntárias. O “fith-fath” era especialmente útil aos caçadores, guerreiros e viajantes, tornando-os invisíveis ou irreconhecíveis aos inimigos e animais.


 Fionn tinha uma amante fada, uma filha do povo dos montes, mas Fionn a abandonou e se casou com a filha dos filhos dos homens. A fada ficou furiosa por essa desconsideração e lançou um feitiço fith-fath na esposa de Fionn, transformando-a em uma corça da colina. A esposa de Fionn deu a luz a um filho na ilha de Sanndraigh em Loch-nan-ceall, em Arasaig. A mãe possuía tanto a natureza da corça que lambia a têmpora da criança quando nasceu, mas ela possuía tanto a natureza de mulher que deu apenas uma lambida. Mas o cabelo como o pelo de um gamo cresceu na parte da têmpora que a língua da mãe-corça tinha tocado. E devido a essa parte de pelo de gamo em sua têmpora, a criança foi chamada de “Oisein”, o gamo. Quando ainda era um menino, Ossian seguiu Fionn e os Feinne a uma colina de caça para caçar o cervo da montanha. No meio da caçada, uma névoa mágica mais escura que a noite veio até os caçadores, cegando-os um do outro e da sua volta – ninguém sabia onde estava ou onde estava o outro. Um sentimento de caça se abateu sobre Ossian e ele vagou sozinho e cansado até se encontrar em um profundo vale verde rodeado de altas montanhas azuis. Conforme caminhava, viu uma tímida corça pastando em um verde corrie¹ diante dele. Ossian achou que nunca tinha visto uma criatura tão adorável como essa tímida corça e ficou parado observando-a com alegria. O espírito de caça, porém, era forte em Ossian e o sangue do caçador estava quente em suas veias, e então sacou sua lança para atirá-la na corça. A corça virou e olhou para Ossian, observando-o com seus olhos cinza cheios de saudade, mais adoráveis e encantadores que os olhos azuis do amor. “Não me machuque, Ossian,” disse a corça, “eu sou sua mãe sob o ‘fith-fath’, na forma de uma corça quando estou fora e na forma de uma mulher quando estou em casa. Você está faminto, sedento e cansado. Venha comigo para casa, gamo do meu coração.” Ossian acompanhou a corça passo-a-passo até chegarem a uma rocha na base da colina. A corça abriu uma folha em uma porta na rocha onde não parecia ter porta alguma, e entrou com Ossian a seguindo. Ela fechou a porta-folha na rocha e não havia mais porta. A graciosa corça se transformou em uma linda mulher, como a adorável mulher do vestido verde e cachos de ouro. Havia luz no interior da montanha como a luz de “trath-nona la leth an t-samhraidh” – o meio dia do solstício de verão. Esta não era a luz do sol, nem a luz da lua, nem a luz da estrela da orientação². Sua mãe preparou comida, bebida e música para Ossian. Ela colocou comida em um lugar para ele comer, colocou bebida em um lugar para ele beber e colocou música em um lugar para ele escutar. Ossian comeu, bebeu e escutou música até ficar satisfeito – suas sete saciedades. Após festejar, Ossian disse para sua mãe, “Estou indo mãe, para ver o que Fionn e os Feinne estão fazendo na colina de caça.” Sua mãe colocou os braços ao redor de seu pescoço e beijou Ossian com os três beijos de uma mãe, e abriu a porta-folha na casa e o deixou sair. Quando ela fechou, não havia porta na rocha.


 Ossian comeu, bebeu e escutou música na casa com sua mãe por um espaço de três dias, como pensou, mas ao contrário, ele tinha estado na casa por um espaço de três anos. Ele fez uma canção, a primeira canção que fez, alertando sua mãe contra os homens e os cães dos Feinne. 


 No Leabhar na Feinne, Iain Campbell de Islay disse que tinha recebido catorze versões dessa canção de Ossian. Seis dessas foram enviadas por ele ao presente escritor. Uma dessas versões foi obtida de Oirig Nic Iain – Effric ou Effie Mac Iain – descendente, ela disse, de Alexander Mac Iain, chefe dos massacrados Macdonalds de Glencoe.


 Effric Mac Iain não era alta, mas era muito bonita, inteligente e agradável. Ela me deu um broche prateado, que ela disse ter herdado das gerações do massacrado chefe de Glencoe. O broche é circular e belamente gravado, apesar de muito gasto. 



‘sanas Oisein d’a mhathair

'MA ’s tu mo mhathair ’s gur a fiadh thu,
      Bheir mi hoirion ho a hau,
Eirich mu ’n eirich grian ort.
      
Bheir mi hoirion ho a hau,
      Eho hir ir i-ibhag o,
      Na hao hi ho a ro hau.

Ma ’s tu mo mhathair ’s gur a fiadh thu,
Siubhail sliabh mu ’n tig an teasach.
Ma ’s tu mo mhathair ’s gur a fiadh thu,
Faicill ort romh fhearaibh Fianna.
Ma ’s tu mo mhathair ’s gur a fiadh thu,
Faicill ort romh chonaibh Fianna.
Ma theid thu do choiribh dona,
Faicill ort romh ghniamh nan conu,
Conaibh conachar, conaibh confhach,
Is iad air mhire-chatha romhad.

O aviso de Ossian para sua mãe 

Se és minha mãe e és uma corça,

Levante-se antes do sol surgir sobre ti.


Se és minhas mães e és uma corça,
Viaje pelas colinas antes do calor da caçada.
Se és minha mãe e és uma corça,
Tenha cuidado com os homens dos Fianna.
Se és minha mãe e és uma corça,
Tenha cuidado com os cães dos Fianna.
Se se deve ir aos nocivos corries,
Tenha cuidado com os atos dos cães
Cães de tumulto e cães de rugido,
Estarão em fúria de batalha diante de ti.


Seachainn Caoilte, seachainn Luath,
Seachainn Bruchag dhubh nam bruach,
Seachainn saigh an earbail dhuibh,
Bran mac Buidheig, namh nam fiadh,
Agus Geolaidh dian nan damh.
Ma theid thu do ghleannaibh iosal,
Faicill ort romh chlanna Baoisge,
Clanna Baoisge ’s an cuid con,
Da chiad diag a dh’ aireamh fhear,
A lann fein an laimh gach laoich,
A chu fein an deigh gach fir,
Is iad air eil aig Leide mac Liannain,
Is fearan beag ri sgath creaige,
Is da chu dhiag air lothain aige,
Is eagal air nach tig thige.

Evite Caoilte, evite Luath,
Evite o negro Bruchag das margens,
Evite a cadela de rabo preto,
Bran filho de Buidheag, inimigo da corça,
E o pequeno Geolaidh, afiado dos veados.
Se se deve ir aos vales baixos,
Tenha cuidado com o clã Baoisge,
O clã Baoisge e seus cães,
Doze centenas de homens numerados,
Sua própria lâmina na mão de cada heroi,
Seu próprio cão atrás de cada homem,
E eles estão na correia de 'Lide' filho de 'Liannan,'
E um pequeno manequim na sombra de uma rocha,
Enquanto doze cães ele tem na coleira,
Ele teme que a caçada não chegue até ele.


Ma theid thu do bheannaibh mora,
Faicill ort romh Chlanna Morna,
Clanna Morna ’s an cuid con,
Da chiad diag a dh’ aireamh fhear
A lann fein an laimh gach laoich.
Ma theid thu do bheannaibh arda,
Faicill ort romh Chlanna Gaisge,
Clanna Gaisge ’s an cuid con,
Da chiad diag a dh’ aireamh fhear,
A lann fein an laimh gach laoich.
Ma theid thu gu fairir frithe,
Faicill ort romh Chlanna Frithir,
Clanna Frithir ’s an cuid con,
Da chiad diag a dh’ aireamh fhear,
A lann fein an laimh gach laoich.'

Se se deve ir à grandes montanhas,
Cuidado com o clã Morni,
O clã Morni e seus cães,
Doze centenas de homens numerados,
Sua própria lâmina na mão de cada heroi.
Se se deve ir à altas montanhas,
Cuidado com o clã Gaisge,
O clã Gaisge e seus cães,
Doze centenas de homens numerados,
Sua própria lâmina na mão de cada heroi.
Se se deve ir à floresta da terra da neblina,
Cuidado com o clã Frithir,
O clã Frithir e seus cães,
Doze centenas de homens numerados,
Sua própria lâmina na mão de cada heroi.








F
Fath fith
Ni mi ort,
Le Muire na frithe,
Le Bride na brot,
Bho chire, bho ruta,
Bho mhise, bho bhoc,
Bho shionn, ’s bho mhac-tire,
Bho chrain, ’s bho thorc,
Bho chu, ’s bho chat,
Bho mhaghan masaich,
Bho chu fasaich,
Bho scan foirir,
Bho bho, bho mharc,
Bho tharbh, bho earc,
Bho mhurn, bho mhac,
Bho iantaidh an adhar,
Bho shnagaidh na talmha,
Bho iasgaidh na mara,
’S bho shiantaidh na gailbhe.

Fath fith
Farei eu em ti,
Por Maria do augúrio,
Por Bride do corselete,
Da ovelha, do carneiro,
Da cabra, do macho³,
Da raposa, do lobo,
Da porca, do javali,
Do cachorro, do gato,
Do urso deprimido,
Do cão selvagem,
Do vigilante scan4,
Da vaca, do cavalo,
Do touro, da novilha,
Da filha, do filho,
Dos pássaros no ar,
Das coisas rastejantes da terra,
Dos peixes do mar,
Dos duendes5 da tempestade.




Notas de tradução:


1. Corrie. Segundo a Wikipédia, “é um vale em forma de anfiteatro”. O termo é conhecido assim na Escócia.

2. Estrela da orientação. De acordo com as lendas cristãs gaélicas, a estrela da orientação foi a estrela que guiou Santa Brígida até os estábulos onde Maria dava a luz a Jesus.

3. Macho. Original em inglês buck, que significa “o masculino de alguns animais chifrudos”.

4. Scan. Não foi encontrado o significado desse termo.

5. Duendes. Original em inglês imp, que quer dizer “diabinho” ou “duende”. A palavra original em escocês shiantaidh pode significar algum ser, mas de acordo com as minhas pesquisas, a palavra significa “sagrado”.


Fonte: CARMICHAEL, Alexander. “Carmina Gadelica: Hymns and Incantations, volume 2.” Disponível em: <http://www.sacred-texts.com/neu/celt/cg2/index.htm>


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