domingo, 9 de fevereiro de 2014

A prática dentro do Politeísmo gaélico


A prática dentro do Politeísmo gaélico

                A seguir estão algumas sugestões simples para a prática do Politeísmo gaélico. Para começar, eu gostaria de sugerir a construção de um pequeno altar. O altar será o foco da maioria das suas práticas dentro de casa. É um lugar para você orar, cantar e fazer oferendas aos déithe – os deuses. Idealmente, o altar se localiza perto da lareira, que é considerada o centro da casa; como muitos dos praticantes aqui no Brasil não têm uma lareira, o altar pode se localizar em qualquer lugar da casa que você julgue ser o “centro”. Ele pode ser em uma prateleira em uma estante ou você pode colocar sobre uma pequena mesa. 


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                Você pode colocar o que quiser no altar. Idealmente, ele deve conter imagens e representações dos déithe, os amados sinsear – ancestrais, e os espíritos da Natureza. Essa tríplice é chamada de Na Trí Naomh – “O Trio Sagrado”. Solte sua criatividade para a decoração do seu altar, que pode incluir: um prato para oferendas, uma vela central dedicada à Brigid – a deusa do fogo, símbolos da nossa religião como o triskle, entrelaçados célticos e símbolos pictos, símbolos Ogham gravados em madeira e/ou pedra, flores, guirlanda de folhas, uma crios Bhríde – a cruz de Brigid, imagens e pertences dos sinsear, imagens dos três reinos (terra, céu e mar) e muitas outras coisas. Este é um exemplo de altar para o Politeísmo gaélico – elementos de outras culturas não são bem vindos aqui. Você pode cultuar outros deuses e praticar outras religiões em outros lugares, não em um altar gaélico. 


                Outro ponto importante na vida de um politeísta gaélico é a purificação. A purificação é conhecida em escocês como sian, e é feita para proteger um objeto, uma pessoa ou um lugar contra as influências do Olho Maligno e dos malefícios das bruxas e do sídhe. É também feita quando se quer garantir a saúde e a prosperidade da casa e da família, além de preceder qualquer prática cerimonial. Uma cerimônia de purificação pode ser feita em qualquer época, mas é especialmente feita nos dias dos féilte – os festivais. O sian pode ser feito através do fogo, da água e da queima de junípero. Um simples rito de purificação pode ser feito queimando junípero/zimbro, que pode ser encontrado em algumas lojas de ervas; entretanto, não é aconselhável para usar dentro de casa, uma vez que é uma planta altamente inflamável e produz muita fumaça. A tradição também diz que a água que tenha tido contato com ouro ou prata, também se torna purificadora. A seguir, está uma sugestão simples e prática para um rito moderno: 

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Em uma vasilha de água limpa, coloque folhas e bagas de junípero (ou uma moeda de prata). Com o auxílio de um ramo de junípero, borrife água no objeto/pessoa/lugar que você deseja purificar, enquanto diz as seguintes palavras: “Sem inveja, sem malícia, sem mal intento. Se uma língua me amaldiçoar, um coração vai me abençoar. Se um olho me arruinar, um desejo em mim irá prosperar.” (Adaptado da oração 135 do livro “Carmina Gadelica”).

                Muitos também fazem uma oração ao se levantar e ao deitar-se, que pode ser acompanhada ou não de uma oferenda. A seguir, um modelo de oração ao acordar e ao dormir.

Oração ao acordar: “Me levanto hoje na presença dos Poderosos deuses, para que Eles possam guiar os meus caminhos e que estejam presentes em meus atos, minhas palavras e em meus pensamentos.”

Oração ao deitar-se: “Deito-me esta noite na presença dos Poderosos deuses, que me guiaram e me protegeram do malefício. Que eu possa repousar suavemente em minha cama esta noite, e que possam Eles me conduzir através dos sonhos, para que amanhã, eu possa acordar para a luz brilhante de um novo dia.” 

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                Muitos politeístas podem desejar fazer uma oração ao Sol ao acordarem, seguido por oferendas ao mesmo. Diferente de algumas outras religiões reconstrucionistas onde o Sol é visto como masculino, no Politeísmo gaélico, o Sol é feminino. Ele é representado pelas deusas Áine – quando é verão – e Grían, quando é inverno. A seguir, um modelo de oração que pode ser feita ao acordar:

Oração à Áine/Grían: “Derrame sobre nós, a cada época e estação, derrame sobre nós, gentileza e generosidade. Glória a ti, gloriosa Áine/Grían! Glória a ti, brilhante face de Áine/Grían.” 

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                Para os que acordam muito cedo e desejam saudar a Alvorada, estes podem desejar louvar Brigid, já que ela é tida por alguns Politeístas gaélicos sendo também a deusa do amanhecer. Na tradição escocesa, a alvorada/crepúsculo é tido como o resultado da briga de dois Fooar, seres divinos filhos da rainha Beira, a deusa-rainha da Escócia e deusa das tempestades. Uma outra lenda escocesa mais local conta que em todo entardecer, o espírito do Rio Spey é aprisionada por um deus escuro que traz a noite e que possui um ponto vermelho em seu peito, e a cada amanhecer, o deus claro que traz o dia acerta com sua flecha dourada o ponto vermelho do deus escuro, liberando o espírito do Rio Spey, e assim, trazendo o dia. Conta-se que o orvalho matinal são as lágrimas do deus claro que chora quando sua amada é aprisionada pelo deus escuro. Para mais informações, leiam o livro “Wonder tales from Scottish myth and legend.” 

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                À parte ao culto do Sol, há também o culto da Lua, não muito difundido como deveria entre os Politeístas gaélicos. A lua é honrada normalmente quando está nova. De acordo com os relatos de escritores clássicos, sabemos hoje que os antigos célticos viam que seus dias começavam ao entardecer, e que seus meses começavam na lua nova. A lua nova é então o início do mês – uma época para se iniciar novos projetos e purificar-se para o mês vindouro. Há um rito para a Lua Nova, logo em uma postagem abaixo dessa. Apesar da lua nova receber um foco especial, qualquer fase da lua pode ser louvada. No “Carmina Gadelica” há uma bela oração que pode ser adaptada para qualquer fase da lua.

Oração à Lua: “Glória sempre a ti, brilhante lua, esta noite; será sempre a gloriosa lanterna dos homens!”


                Ainda citando os fenômenos celestiais, há também gritos de louvores aos trovões em dias de tempestade. A mesma fonte citada acima, o Carmina Gadelica, possui também uma pequena e poderosa saudação ao trovão, que adaptada, ficaria algo como: “Viva o som da grande Cailleach, que bate com seu martelo na terra!” No Politeísmo gaélico, Cailleach é dita como a deusa do trovão e das tempestades. Dagda também assume esse papel, como o deus do clima e protetor das colheitas.

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                Deixando agora de lado os fenômenos celestes, o Fogo também recebe muitas honras no Politeísmo gaélico, e tanto o Fogo do lar como o Fogo sacrificial (aquele que leva nossas oferendas aos déithe) são representados pela deusa Brigid – a deusa do lar e da chama doméstica, resumindo de uma forma bastante simples, pois ela possui muitos atributos. Acender o Fogo é a primeira coisa a ser feita em um ritual gaélico (outros preferem honrar primeiro a Terra, influenciados talvez pelo grupo ADF ou outras religiões, mas fica ao critério do devoto, sendo isso uma coisa extremamente pessoal; veremos o culto à Terra mais abaixo). O Fogo não necessariamente só é aceso nos rituais, podendo ser aceso também em qualquer cerimônia simples de ofertas. Tradicionalmente, o Fogo era aceso através da fricção. Como hoje em dia temos a tecnologia ao nosso favor, nada que alguns fósforos ou isqueiro não dê conta! Os mais tradicionais ainda podem preferir pela fricção, feita em alguns casos especiais, como nos dias dos féilte. O Fogo pode ser uma chama propriamente dita dentro de um recipiente sobre o altar, ou até mesmo uma vela. Minha sugestão é que seja uma vela daquelas de sete dias, preferencialmente nas cores branca ou vermelha – cores que intuitivamente podemos relacionar à deusa Brigid. Após a oração para o Fogo (ver abaixo), oferendas podem ser feitas a ele: o leite e a manteiga são tradicionalmente sagrados à deusa Brigid, mas sugiro que podem ser colocadas algumas gotas de óleos aromáticos no Fogo, também como oferendas à deusa. Quanto ao leite e a manteiga (por exemplo), estes podem ser colocados diretamente no Fogo, mas se for o caso de uma vela, pode ser deixado em um recipiente próximo à mesma. A questão do Fogo é essencial, pois ele será o centro de muitas das nossas práticas; tradicionalmente, no centro de um lar, uma chama era deixada sempre acesa, e ao dormir, a dona de casa “colocava o fogo para dormir” deixando somente as brasas para que no dia seguinte ela pudesse “acordar o fogo”, sendo tudo feito com muita devoção e respeito.

Oração para o Fogo: “Acendo agora o fogo na presença da radiante Brigid, chama dourada de nossa lareira e lar! Que ela possa guardar e abençoar este Fogo sagrado, para que este possa levar minhas orações e ofertas aos Deuses. Brigid, que traz um novo dia aos homens, esteja presente.”

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                Ao lado do culto do Fogo, o culto da Terra anda lado-a-lado. É desnecessário explicar aqui o porquê de a Terra ser tão sagrada pelos gaélicos e por todos os povos célticos em geral. No Politeísmo gaélico, a Terra possui muitas deusas, como Tailtiu, que pode ser honrada com ofertas de grãos e frutos. Conta-se o mito que Tailtiu morreu de exaustação após tornar uma planície propícia para o plantio. Em sua honra, o deus Lugh cria o festival de Lughnassadh com jogos em honra à esta deusa. Ériu, Banba e Fotla são também deusas que podem ser homenageadas como deusas da Terra – elas representam a própria Irlanda. Minha sugestão é que sejam dados à Elas ofertas que representem a Irlanda e sua cultura, como um prato típico, imagens de harpas, trevos, canto de músicas típicas, recitação de poesias irlandesas, fitas com as cores da bandeira da Irlanda e muitas outras coisas: solte sua imaginação... Outras oferendas para a Terra podem incluir: flores, ervas, raízes, pedras (como cristais de quartzo, por exemplo), frutas e etc. Eu sugiro que as ofertas sejam enterradas, quando forem ofertadas para a Terra, pois esta forma é uma das três formas que os antigos gaélicos faziam, junto com jogar a oferenda em um lago ou corpo d’água ou queimar. Uma simples sugestão de oração para a Terra pode ser: “Amada a Terra, que sustenta os homens com seus nutritivos grãos e frutos; aceite a oferta de teu filho, e garanta-me sempre a prosperidade de minha terra, minha casa e minha família.” Existia também o culto às árvores, que hoje, você pode fazer honrando qualquer árvore que desejar: fazendo ofertas de orações, bênçãos, água, frutas, etc. Na Irlanda, era costume amarrar uma fita nas árvores quando se desejava curar alguma doença. Para encerrar o culto da Terra, acredito também que simples ações também fazem parte do culto: não jogar lixo na rua, evitar embalagens e sacolas desnecessárias, reciclar sempre que possível, organizar o seu lixo, etc. Lembre-se que a Terra é uma deusa, e se todos passassem a vê-la assim, não haveria a poluição que existe hoje.

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                O culto aos corpos d’água também são realizados por politeístas gaélicos. O mar era visto pelos gaélicos como o lar de alguns deuses e ancestrais (as Ilhas Abençoadas ficavam no oeste). No Politeísmo gaélico, Manannán mac Lir é o deus do mar. Ele é cultuado principalmente no Solstício de Verão. Um politeísta gaélico pode fazer suas ofertas à Ele derramando líquidos no mar, enquanto recita alguma oração. Na ilhas escocesas, há o costume de ofertar à ele um tipo de cerveja conhecida como ale. Outras sugestões de ofertas podem incluir: maçãs (fruta associada à esse deus e às ilhas do Outro mundo), algas marinhas, conchas, libações de sucos naturais, etc. Em relação aos rios e fontes naturais, a deusa Boann pode ser cultuada perto dos mesmos, com ofertas de avelãs (associada à deusa), flores, e até mesmo água. Boann é a deusa dos rios – mais especificamente do rio Boyne – e em um contexto moderno, poderíamos associá-la a todos os rios, poços e fontes. Tradicionalmente, as ofertas aos deuses aquáticos eram feitas jogando as oferendas em corpos d’água, como rios e fontes. Uma outra forma de honrar esses deuses é organizando mutirões para tirar o lixo da praia, participar de projetos que visam a revitalização e despoluição de rios, lagos, e muitas outras formas.

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                O culto aos Ancestrais é de grande importância dentro do Politeísmo gaélico. Você lhes deve o fato de estar vivo. Os Mortos são honrados principalmente no festival de Samhain, e historicamente também no Solstício de Inverno (provavelmente), mas o culto a Eles podem ser feitos em qualquer época. Uma sugestão geral para as oferendas aos Ancestrais pode ser uísque, água ou sucos (se algum ancestral em questão não consumia álcool). Para casos mais específicos, você pode desejar ofertar algo que seja mais simbólico e querido para o seu ente querido que já se foi, como um prato que ele gostava, um pertence dele, uma fotografia, alguma coisa que ele apreciava: um quadro, uma canção, um aroma. Qualquer coisa é válida, se falar com o seu coração e te ligar com teu ente – seja ele um ancestral de sangue, um ancestral da terra ou um ancestral espiritual. Conhecer sua família e os nomes dos seus antepassados, também é uma forma de honrá-los; lembrar-se deles com carinho é importante, já que uma hora ou outra estaremos com eles e nossos filhos e netos estarão nos honrando da mesma forma.

                Citei aqui sugestões de oferendas e culto para vários tipos de deuses (Brigid, Manannán, Dagda, Tailtiu, etc.), mas também certas divindades são homenageadas em ocasiões especiais. Angus, por exemplo, é normalmente chamado quando se deseja buscar o amor, pois ele é o deus do amor, recebendo ofertas de maçãs, por exemplo. Morrígan pode ser chamada quando se deseja vitória sobre algo, como uma ação judicial, nos dias de hoje. Ela também é uma deusa protetora. Lições de alguma língua gaélica (irlandês, escocês ou manês) – aliás, altamente recomendado – podem ser estudadas pedindo o auxílio de Ogma, o deus da fala, da escrita e da eloquência. Os que estudam medicina ou alguma outra área da saúde, podem se sentir mais atraídos para Dian cécht e Miach – deuses da cura e da medicina. Aqueles que gostam de trabalhar com ervas, podem desejar ter um jardim, dedicando-o à Airmed – a deusa das ervas que curam, pedindo as bênçãos d’Ela. Para honrar Úna, você pode dar abrigo temporário a um animal de rua, especialmente os filhotinhos, e posteriormente manda-los para adoção, assim como alimentar animais de rua ou participar de ONG de proteção animal. Os Deuses estão presentes em cada aspecto de nossa vida, só precisamos nos abrir a Eles e permitimos que eles falem conosco!                


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