sábado, 1 de junho de 2013

Antiga astrologia irlandesa: um argumento histórico


Antiga astrologia irlandesa: um argumento histórico
Por Peter Berresford Ellis

 

Nota do editor: Esse artigo foi publicado primeiramente em Réalta (vol. 3, n. 3, 1996), a revista da The Irish Astrological Association.

 Em todas as histórias da astrologia ocidental há uma curiosa omissão. Não há referências às antigas práticas astrológicas irlandesas e nem – na verdade – dos antigos Celtas. Na verdade, o único estudo acadêmico sério sobre astrologia céltica foi publicado em uma revista acadêmica céltica em 1902.1 Essa dissertação, à luz da investigação moderna, está aberta para debate.
 A principal razão para essa negligência do assunto, pelo menos durante os últimos quinze anos, tem sido sem dúvida a influência insidiosa da obra The White Goddess (1949) de Robert Graves. Este livro fez um singular desserviço a todos aqueles que buscam o estudo das realidades da cosmologia céltica e, especialmente, a prática da astrologia. Graves não era um estudioso céltico. Suas invenções grandemente imaginárias conhecidas como ‘calendário das árvores’ ou ‘zodíaco das árvores’ inspirou uma efusão de livros que pretendiam ser considerados livros de ‘astrologia céltica’. Graves e seus acólitos, infelizmente, prenderam a imaginação popular, mas seu ‘zodíaco das árvores’ não tem nada a ver com as realidades do antigo mundo céltico.

 Este não é o lugar para dissecar as invenções de Graves. Isso tomaria um longo artigo. Nessa polêmica, eu pretendo me limitar a um breve esforço da realidade histórica da astrologia na sociedade irlandesa. A Irlanda foi, e ainda é, parte do mundo céltico. Por volta do século III a.C., os celtas haviam alcançado sua maior expansão na Europa. Eles ocuparam um território da Irlanda até a Europa, à oeste até a planície central da Turquia (Galácia), ao leste, mesmo tão longe como o mar de Azov, ao norte da Bélgica, ao sul para a Itália, tão longe quanto Ancona, e também ao sul para Cadiz na península ibérica. Eles foram uma das grandes civilizações fundadoras da Europa; a primeira civilização norte-europeia a emergir na história registrada.

 Embora nós tenhamos muitas centenas de textos e inscrições em línguas célticas continentais que datam do século IV a.C., nossas mais antigas sobrevivências de extensivas literaturas dos celtas insulares, os irlandeses e galeses, não começam a datar muito antes do século VI d.C.
 Escritores gregos e latinos mostram claramente que os celtas não eram apenas avançados na astronomia, mas também eram respeitados, especialmente pelos gregos, devido as suas ‘especulações das estrelas’. Até mesmo os romanos, de César até Plínio, prestam homenagens à sua astronomia. Um dos primeiros a notar que os antigos celtas acreditavam que o mundo era redondo (e não plano) foi Martial (séc. 40-103/4 d.C.) que alegava ter ancestralidade céltica.
 O famoso Calendário de Coligny do século I a.C. – que se pensava ser o documento mais extenso em uma língua céltica, mas que agora foi ultrapassado por outras descobertas mais fascinantes – foi datado para sua computação original através de suas observações e cálculos astronômicos. Este preditor lunar e solar altamente sofisticado foi, de acordo com um importante estudioso céltico, o Dr. Garrett Olmsted, primeiramente construído em 1100 a.C.2 É importante notar que os conceitos do calendário tem paralelos com a cosmologia védica. Voltaremos a esse assunto mais adiante.
 Foi o grego Hipólito (170-236 d.C.), usando uma fonte anterior, quem especificou que os antigos celtas previam o futuro a partir das estrelas através de cifras e números conforme a maneira dos pitagóricos. O espaço aqui impede uma discussão sobre o argumento que tomou lugar na Escola Alexandrina de escritores gregos se foram os celtas que pegaram suas ideias de Pitágoras ou se foi Pitágoras que pegou suas ideias dos cultos célticos. Esse fascinante argumento entre os estudiosos gregos começou no século II a.C., e continuou por alguns séculos mais tarde. O conceito de que os gregos pegaram emprestado dos celtas encontrou um defensor líder – o estudioso ateniense Clement de Alexandria (século 150 – 211/216 d.C.).
 Voltando para a Irlanda, as evidências mostram que os irlandeses, como o resto do mundo céltico, eram também grandemente avançado em observações astronômicas, particularmente na construção de calendários. Um dos primeiros irlandeses que podemos nomear como um reconhecido expert nesse campo foi Mo-Sinu maccu Min (déc. 610 d.C.), o abade de Bangor, Condado de Down.3 Seu aluno, Mo Chuaróc mac Neth Sémon de Munster, é registrado como tendo escrito um trabalho maior sobre cálculos astronômicos. Infelizmente, parece que nenhuma cópia deste trabalho sobreviveu, mas temos um trabalho similar feito por Cummian (déc. 633 d.C.), um professor de Clonfert, Galway.4 Temos um texto astronômico do século VII de Aibhistin (mais conhecido como Augustin e uma vez confundido com Augustine de Hippo). Aibhistin foi o mais antigo escritor medieval a discutir sobre as marés e sua relação com as fases da lua.5
 O calendário juliano parece ter sido introduzido na Irlanda por volta do fim do século V d.C., com a chegada do Cristianismo, substituindo os calendários nativos. Porém, uma descoberta recente mais excitante foi a ‘perdida’ Tabela de Páscoa do ano 84 envolvendo os anos 438-521 d.C., encontrado durante os anos 80 na Biblioteca Antoniana, em Pádua. Este foi o calendário, ou o computus, que Colmbanus se referia em sua famosa carta ao Papa Gregório para sustentar a data céltica da Páscoa.6 A partir dos estudos dos calendários e de tratados astronômicos, se torna claro que as formas de astrologia que foram praticadas na Irlanda a partir da introdução do período cristão foi substancialmente a mesma que aquela que era praticada pelos greco-romanos nessa época.
 As formas greco-latinas parecem ter substituído o nativo sistema irlandês quando o Cristianismo e os falantes de latim entraram no país. Esse sistema foi muito bem estabelecido na Irlanda por volta do século VII d.C., quando nossos antigos textos sobre astronomia e astrologia sobreviveram.
 No século XII d.C., os novos falantes de árabe foram arrastados para a Irlanda, levados para lá através de religiosos e estudiosos irlandeses que voltavam de grandes universidades  da Europa tais como Bologna, Pádua e Montpellier, onde ensinavam. O Padre Francis Shaw SJ aponta que nessa época, os médicos irlandeses, que eram conhecidos através da Europa, adotaram ideias médicas árabes. Como o Padre Shaw disse: ‘A medicina árabe tinha como irmãs a filosofia e a astrologia árabe.’7
 Durante o período entre os séculos XII e XVII, encontramos muitos trabalhos sobre astronomia e astrologia árabe que foram traduzidos para o irlandês8 e que as práticas astrológicas irlandesas pegaram formas árabes que foram também adotadas pelo resto da Europa ocidental. Uma das áreas em que os estudiosos precisam fazer mais trabalhos são os incontáveis textos médicos que ainda não foram traduzidos, uma área onde a astrologia era usada. Antes de 1800, a língua irlandesa continha a maior coleção de manuscritos médicos que sobreviveria em qualquer língua.
 Com as conquistas inglesas do século XVII, as tradições nativas de astrologia foram erradicadas e a astrologia se tornou o domínio dos colonos e de sua cultura. Um dos últimos trabalhos nativos foi escrito por um padre jesuíta do Condado de Down, o Padre Manus O’Donnell na metade do século XVII que foi baseado na Lunario de Geronymo Cortès, que tinha sido subsequentemente traduzido, introduzido e editado com notas e um glossário por F.W. O’Connell e R.M. Henry o intitulou An Irish Corpus Astronomiae (David Nutt, Londres, 1915).
 Podemos traçar esse desenvolvimento histórico das práticas irlandesas em um modo linguístico dos primeiros escritos que encontramos, onde o vocabulário usado para nomear o zodíaco, os planetas, a galáxia e as constelações foram dados em conceitos nativos.9 Por exemplo:  
 A constelação de Leão era conhecida como An Corran, que significa Uma Foice. Na próxima vez que você observar a constelação de Leão, repare a sequência de estrelas brilhantes que se levantam acima de Régulos na forma de um ponto de interrogação ao contrário, que consequentemente se assemelha a uma foice. Marte era chamado de An Cosnaighe ou ‘O Defensor’. Vênus foi identificado por pelo menos três ou quatro nomes antigos, assim como Mercúrio. Estes nomes ainda existem na língua manêsa; a Estrela Polar era An Gaelin – ‘a Viga que ilumina o caminho para casa’. A Galáxia ou a Via Láctea foi chamada de Bealach na Bo Finne (o caminho da vaca branca). Quanto ao sol e a lua, nós temos um vocabulário surpreendentemente extenso em irlandês antigo. Existem cinco nomes para o sol e seis para a lua – todos nativos.
 Talvez, é supérfluo adicionar que esses termos eram também apoiados pelo jargão técnico matemático necessário para a prática de astronomia e astrologia. Você deve notar que, enquanto esse vocabulário ainda existe na língua irlandesa, as equivalentes da língua inglesa são palavras emprestadas do grego, do latim e do árabe.
 Áries se tornou An Rea ou Reithe, uma tradução de carneiro (áries = o latim para carneiro e assim em diante); assim, a constelação de Câncer era conhecida como An Portán, o Caranguejo. Não existindo o conceito de leão em irlandês antigo, a palavra usada para a constelação de Leão aqui era – um Grande Cão; enquanto Virgem era Oighbhean, uma Jovem Menina; Capricórnio se tornou Pocán, a Cabra; Sagitário era An Saighead, um Arqueiro ou Soldado, e assim em diante.
 Podemos notar as áreas onde os conceitos nativos e importados caminhavam lado a lado, pois Órion foi nomeado An Selgaire Mhór (O Grande Caçador), mas o Cinto de Órion foi chamado de Buaile an Bhodaigh (Invólucro ou Cinto ou O Iluminado).
 O processo linguístico final em irlandês tomou lugar depois dos falantes árabes serem introduzidos no século XII e logo, as traduções dos nomes foram descartados em favor de uma simples ‘irlandedização’ [NT: irish-ising] das palavras estrangeiras. Portanto, Órion se tornou Oirion, Áries era Airges, seguido por Leo, Saigitairius, Mercuir, Uenir, Joib e Mars. O moderno vocabulário astronômico irlandês (em termos de nomes de planetas, constelações e assim por diante) é agora feito principalmente de palavras emprestadas, assim como o vocabulário astronômico/astrológico inglês.
 Durante o início do século XX, quando houve um despertar do interesse pela astrologia, os pesquisadores – vendo esse óbvio empréstimo de palavras – pularam para a errônea conclusão de que não houve uma nativa tradição de astronomia ou astrologia na Irlanda. Tanto A.H. Allcroft (The Circle and the Cross, 2 volumes, Macmillan, Londres, 1927) como Lewis Spence (The History and Origin of the Druids, Rider and Co, 1949) acreditaram que não existiu tradições nativas avançadas. Pelo contrário, era verdade. Na verdade, como o Dr. Dáibhi Ó Cróinin apontou em seu excelente livro Early Mediaeval Ireland 400-1200, Longman, 1995, os astrônomos irlandeses faziam seu trabalho – que eram de longe mais avançados e acurados que o resto da Europa. As listas de visões astronômicas de estrelas brilhantes, cometas, eclipses e assim em diante, registrados nos anais e crônicas são mais acurados que a maioria das documentações europeias.10
 Seria bizarro se os antigos irlandeses fossem tão grandemente avançados na astronomia nessa época e não praticassem a astrologia. A prova vem de nossos primeiros mapas astrológicos irlandeses que datam dos séculos VIII/IX. Estes foram encontrados em bibliotecas suíças e alemães assim como muito da literatura irlandesa desse período.11 Como um aparte, nós encontramos os signos do zodíaco gravados em algumas das Grandes Cruzes irlandesas, tais como a cruz do início do século X de Muiredach, em Monasterboice.
 Na verdade, o irlandês antigo tinha pelo menos sete palavras para um astrólogo. Rollagedagh (aquele que ganha o conhecimento das estrelas), fisatóir (aquele que ganha o conhecimento dos céus) – ainda encontrado na língua manêsa como fysseree, uma palavra para ‘filósofo’; eastrolach (aquele que ganha o conhecimento da lua), fathach (aquele mergulhado na profecia), néladoir (aquele que adivinha pelo céu), réalt-eolach (aquele versado em astrologia) e réaltóir. Sendo pedante, néladoir é argumentado como significando ‘adivinhador da nuvem’, mas está encoberto em um manuscrito do século XIV como ‘astrólogo’ assim como todos esses termos.12
 Nas Brehon Laws encontramos que os astrônomos/astrólogos tinham que ser qualificados. O grau de foirceadlaidhe era um grau da quinta ordem da sabedoria, na qual, a pessoa tinha que provar seu conhecimento de astronomia e astrologia. A mais antiga palavra irlandesa para um horóscopo surgiu como nemindithibh, notado pelo Dr. Whitley Stokes em Thesaurus Plaeohibernicus. Nem, ‘céu’, enquanto nemgnacht significa um estudo dos céus, talvez, nossa mais antiga palavra para astrologia. Indithem é um ‘ato de consideração’.
 Para se ter uma prova esmagadora de que a astrologia preditiva era pratica na antiga Irlanda, você só precisa olhar para as inúmeras referências nos textos mitológicos irlandeses e as que são depreciativamente chamadas de ‘pseudo’ histórias, que são histórias da antiga história irlandesa que caem nas mentes estudiosas nas áreas cinzas entre a mitologia e a história. Estas histórias estão cheias de mapas natais elaborados pelos druidas e também por religiosos cristãos. Em um texto atribuído ao século VII, há uma pergunta de Cillin, que refuta a teoria de alguns críticos de que os irlandeses só buscavam os presságios através das nuvens. Dénamh me an leársgáil na realtai. Cen uair rathciuil agam? (“Faça-me um mapa das estrelas. Que hora sera auspiciosa para mim?”). O termo leárgáil na realtai, uma carta ou mapa das estrelas, torna claro o que está sendo requisitado – um horóscopo.
 Mais importante que isso é a declaração dada por Felim Bocht Ó hUigiunn no século XIV: ‘bi uair ag an impidhe na reaht-eolais’ – “sempre há um momento certo para perguntar algo para as estrelas (ou ‘para ganhar o conhecimento estrelar’)”. Qualquer astrólogo horário* moderno irá lhe dizer isso.
[NT: a ‘astrologia horária’ é um dos muitos tipos de astrologia]
 Há um poema do século VIII que endossa a ideia de que os antigos irlandeses não começavam a construir suas casas até o momento certo que era avaliado pelo astrólogo. Um verso diz:
“Eu ouvi falar que existe uma construção de casa
Em Tuaim Inbhir
Não há uma casa mais auspiciosa
Com suas estrelas
Com seu sol e sua lua.”    

 Voltando a nossa pergunta mais importante: é pertinente perguntar se há alguma coisa que pode ser salva das mais antigas tradições astrológicas irlandesas antes da introdução das formas greco-latinas? Ainda é cedo para fazer afirmações definitivas, mas pesquisas iniciais indicam que os antigos irlandês e, na verdade, os antigos celtas, praticavam uma forma de astrologia preditiva que tem paralelos com as antigas formas hindus – das quais agora é conhecida como astrologia védica. Em outras palavras, um estudo de conceitos linguísticos e antigos motivos cosmológicos e filosofias relacionadas a calendários de culturas célticas (inclusive os antigos irlandeses) e as védicas/sânscritas, dão um passo de volta às raízes comuns indo-europeias de nossas culturas.
 Isto não é de surpreender. A maioria dos leitores está ciente da hipótese indo-europeia e sabem que, de todas as culturas europeias, a Irlanda preservou mais ligações com o ramo hindu da cultura indo-europeia do que qualquer outro povo europeu ocidental.  As ligações entre a antiga cultura irlandesa e a cultura védico-sânscrita têm sido comentadas pelos estudiosos desde o século XIX. Em 1814, Adolphe Pictet apontou as ligações em sua obra De l’affinite des langues celtiques avec le Sanscrit. O professor Myles Dillon (1900-1972) foi um dos pioneiros nesse fascinante campo de estudo, mostrando os pontos comuns na mitologia, no costume social e, importantemente, na lei. Há muitos pontos de referências nas Leis de Sénechus ou, como é popularmente conhecido nos dias de hoje, as Brehon laws e as Leis hindu.13 A ligação comum das línguas é óbvia.
 Como o Dr. Calvert Watkins da Universidade de Harvard apontou: “as línguas célticas, mais claramente o irlandês antigo, representam uma tradição linguística conservadora extraordinariamente arcaica dentro da tradição indo-europeia. O clássico sistema verbal e nominal do irlandês antigo do século VIII da era cristã é de longe o mais verdadeiro reflexo do estado das coisas do sistema indo-europeu do que no sistema latino. No domínio sintático da ordem das palavras, a estrutura da frase no irlandês antigo pode ser comparada apenas com as frases em sânscrito védico ou em frases hititas do Antigo Reinado.”14
 Em 1895, o Dr. Heinrich Zimmer observou as percepções cosmológicas correspondentes no calendário céltico – o de Coligny – com a cosmologia védica. A palavra final que confirma isso parece ser a análise detalhada do calendário feita pelo Dr. Olmsted.15
 A ideia de que esses ‘postes de sinalização’ possam levar ao fato de que a antiga astrologia céltica e védica também tem uma ligação comum, outro paralelo sobrevivente, foi lançada em relevo por uma pequena glosa em um manuscrito irlandês do século IX em Wurzburg. A palavra budh foi explicada como ‘ponto de fogo’ e ‘planeta Mercúrio’. Certamente, o Glossário de Cormac do século X (um antigo dicionário irlandês) explica que budh/bott significa ‘fogo de Aine’ – Aine foi uma deidade irlandesa, que se acreditava ser uma deusa da lua, embora ela apareça tanto na forma masculina como na feminina. Se budh foi um nome para Mercúrio, então, isto os coloca perto do jogo védico de bola.
 Boudi e budh aparecem em todas as línguas célticas. Elas significam – todo vitorioso, dom do ensino, talentoso, exaltado, virtude e assim em diante. Em bretão, por exemplo, boud significa ‘ser’. Você pode ver também no nome de Bouddica, mais comumente conhecida como Boadicea, a rainha guerreira céltica de Iceni que liderou uma revolta contra o domínio romano no ano 60 d.C. Uma coisa importante é que essa palavra existe em sânscrito, e Buddha é o particípio passado de budh, ‘saber ou iluminado’. Esse título é dado a Sakyamuni Gautama – o Iluminado. O mais importante disso é que nos Vedas o planeta Mercúrio também é conhecido como budh.
 O ramo céltico e o sânscrito do Indo-europeu podem reter esse mesmo conceito? Que outros conceitos os celtas e os Vedas tinham em comum quanto observavam o céu à noite? Eu acredito que essa pesquisa irá eventualmente apontar o caminho das mais antigas formas de astronomia e astrologia céltica. O nome em irlandês antigo para o mês de Julho, incidentalmente, incidentalmente, era Boidhmis (mês de Boidh). O Cinto de Órion, como mencionado anteriormente, era Buaile an Bhodaigh. E Budh na Saoghal era o termo para ‘conhecimento do mundo’.
 Mas, como eu enfatizei, eram antigos dias. A investigação está em curso e estou ciente de que meu bom amigo, o professor Gearóid Mac Eoin está atualmente inclinado a acreditar que budh em irlandês é apenas uma ‘palavra fantasma’, um elemento que deriva de bith ‘mundo, vida’, frequentemente dado como findbudh e que foi mal identificado por Micheál Ó Cléirigh, compilador do Foclóir no Sanasan Nua, o primeiro dicionário irlandês publicado, impresso em Louvain em 1643. Linguisticamente, ainda há muito para se resolver antes de podermos traçar uma linha final, mas estes estudos estão demonstrando as antigas percepções irlandesas de cosmologia.       
 Naturalmente, a maioria dos astrólogos, sem dúvidas, gostaria de ver, como uma prova final, uma coleção de antigos mapas irlandeses – ou célticos – comparáveis com os horóscopos sobreviventes gregos de Vattius Valens, Critodemus ou Antígono da Nicéia. Tais mapas ainda tem que ser encontrados e identificados. Não estou muito otimista sobre isso. Temos sorte de encontramos os mapas irlandeses dos séculos XVII e XVIII que sobreviveram em Basel. Muito material antigo foi destruído nos séculos XVII e XVIII durante as tentativas concentradas de suprimir a língua irlandesa, livros e manuscritos. Eu duvido que encontraremos qualquer coisa que data ao período medieval. Isso não quer dizer que a situação está completamente sem esperança.16  
 Este campo de pesquisa é vasto e existem, infelizmente, poucos trabalhadores nele. Para dar uma ideia do problema, a vasta riqueza de livros medicinais em irlandês ainda estão quase intocados pelos tradutores e pesquisadores. Nosso conhecimento de mitologia irlandesa é baseada em cerca de 150 contos. O professor Kuno Meyer e o Dr. Eleanor Hull estimaram que existem cerca de 400 textos identificados que não foram examinados e mais de 50-100 que ainda estão escondidos em bibliotecas. Isso deve dar uma ideia da enormidade da tarefa a ser tomada nas áreas de pesquisa de manuscritos irlandeses.
 Textos sobre os celtas do continente ainda estão sendo descobertos. Em 1993 uma tábua de bronze com 200 linhas de material legal foi encontrado ao norte de Espanha. Até agora, no entanto, o Calendário de Coligny continua sendo nosso principal texto do período pré-greco-romano que dá informações sobre a antiga cosmologia céltica.
 O que temos certeza, nessa época, é que os irlandeses (e os celtas, no geral) tem uma longa tradição de conhecimento astrológico que se alonga a uma época anterior ao cristianismo e à chegada dos falantes de grego e latim. Podemos traçar o desenvolvimento da astrologia irlandesa facilmente a partir do século VII d.C., quando nossos registros em irlandês e hiberno-latim começaram a sobreviver. Mas quanto a qualquer coisa anterior a esse período, precisamos nos voltar para o que nos resta no continente.
 Um ponto que não pode ser mais enfatizado é que essa longa e rica tradição de astrologia céltica foi sida infelizmente negligenciada, e embora talvez inconscientemente suprimida por aqueles que preferem seguir as fantasias e invenções de Robert Graves e seu ‘zodíaco das árvores’. Até recentemente, em um contexto irlandês e céltico, nós não somos capazes de ver as estrelas através das árvores!   

Notas de rodapé

1. “L’Astrologie chez les Gallo-Romains”, H. de la Ville Mirmont, Revue des Études Anciennes, Vol. 4, 1902.
2. “O calendário gaulês: uma reconstrução de fragmentos de bronze de Coligny com uma análise de suas funções como um preditor solar/lunar altamente preciso assim como uma explicação de sua terminologia e desenvolvimento,” Dr. Garrett Olmsted, Dr. Rudolf Habelt GmBh, Bonn, 1992.
3. “Mo-Sinu maccu Min and the computus at Bangor”, Dr. Dáibhi Ó Cróinin, Peritia, 1982.
4. “A Seventh century computus from the circle of Cummianus” pelo Dr. Dáibhi Ó Cróinin. Proceedings of the Royal Irish Academy, Vol. LXXXII (1982).
5. “On Augustin, an Irish writer of the 7th century” pelo Dr. William Reeves, Proceedings of the Royal Irish Academy, vol. II, 1861, e “On the pseudo Augustinian treatise De Mirabilius & etc.” por Mario Esposito, Proceedings of the Royal Irish Academy, Vol. XXXV, 1918-20.
6. “The lost irish 84 year easter table rediscovered,” pelos Drs. D. McCarthy e Dáibhi Ó Cróinin, Peritia, 6-7, 1987/8.
7. “Irish medieval men and philosophers” por Francis Shaw SJ, em Seven Centuries of Irish Learning 1000-1700 ed. Brian Ó Cuív, Mercier Press, Cork, 1971.
8. Um exemplo de um desses textos é An Irish Astronomical Tract, based on a Medieval Latin version of a work by Messahalah, editado por Maura Power, Irish Text Society, Londres, 1914. Também: “Remarks on a Cosmographical Tractate in the Irish Language in the library of the Royal Irish Academy”, Maxwell II. Close, Proceedings of the Royal Irish Academy, vol. VI, 1900-1902.
9. As referências básicas para o vocabulário de  irlandês antigo e mediano são: Dictionary of the Irish language: based mainly on Old and Middle Irish materials, Royal Irish Academy, Dublin, 1983; Cormac’s Glossary, traduzido e anotado por John O’Donovan, editado com notas por Whitley Stokes, Halle, Alemanha, 1904.
10. “The Chronological Apparatus of the Annals of Ulster AD 431-1131”, D. McCarthy, Peritia, 8(1994): ver também Chronology of Eclipses and Comets AD 1-1000b3’D. Justin Schove, The Boyd ell Press, Suffolk, 1984.
11. “Notes on the Irish Zodiac Preserved in the library of Basel”, Henry S. Crawford, Journal of the Royal Society of Antiquaries of Ireland, vol. IV, 1925. E “Illuminations and Facsimiles from the Ancient Irish Mss in the libraries of Switerland”, Dr. Ferdinand Keller, traduzido pelo Dr. William Reeves, Ulster Journal of Archaeology, vol. III.
12. Veja a nota 9.
13. Celt and Hindu, Myles Dillon, University College, Dublin, 1973, e Celts and Aryans, Myles Dillon, Indian Institute of Advance Study, Simla, Navrang, Nova Delhi, 1975.
14. “Indo-european Metrics and Archaic Irish verse,” Calvert Watkins, Celtica (Dublin Institute for Advanced Studies), 1963.
15. Veja a nota 2.
16. “On the Celtic Languages of Continental Europe”, Karl H. Schmidt Bulletin of the Board of Celtic Studies, Cradiff vol. XXVIII, 1979. “Gaulish and Celtiberian Poetic Inscriptions”, Dr. Garrett Olmsted, The Mankind Quarterly, Vol. XXVII, número 4, 1988.
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