sexta-feira, 17 de maio de 2013

O reinado de Bres

Fonte: Gods and Fighting Men, de Lady Gregory.

O reinado de Bres

 Nuada ganhou a batalha, mas perdeu seu próprio braço nela, cortado por Sreng, e por essa perda, vieram os problemas e o aborrecimento de seu povo.
 Era uma lei entre os Tuatha De Danann que todo rei devia ser um homem de forma perfeita, e após Nuada perder seu braço, ele também perdeu o reinado por conta disso.
 O rei escolhido para ficar em seu lugar foi Bres, o mais belo de todos os seus jovens, pois se cada pessoa quisesse louvar qualquer coisa bonita, seja uma planície, um dún, uma cerveja, uma chama, uma mulher, um homem ou um cavalo, ele diria, “É belo como Bres.” Ele era filho de uma mulher dos Tuatha De Danann, e seu pai, apenas sua mãe sabia quem era.

 Pelo fato de Bres ser tão bonito, seu reinado não trouxe boa sorte para seu povo, pois os Fomor, que habitavam além do mar, ou como alguns dizem embaixo do mar ocidental, começaram a colocar tributos sobre eles, de forma que colocaram os Tuatha De Danann sobre suas próprias regras.
 Foi há muito tempo que os Fomor vieram primeiro para a Irlanda; eles eram uma coisa horrível de ser olhar, eram deformados, tendo apenas um pé ou uma mão, e estavam sobre a liderança de um gigante e de sua mãe. Nunca veio antes para a Irlanda uma tropa mais horrível ou mais medonha que eles. Estes eram amigáveis com os Fir Bolg e ficaram satisfeitos em deixar a Irlanda para eles, porém, havia inveja entre os Fomor e os Homens de Dea.
 Colocaram uma árdua taxa sobre os Tuatha De: um terço de seus grãos, um terço de seu leite, um terço de suas crianças e que não houvesse fumaça saindo dos telhados na Irlanda. Bres não tomou nenhuma posição contra eles, deixando-os fazer o que quisessem.
 Quando a Bres, ele colocou em cada casa da Irlanda uma taxa de leite das vacas pardas sem chifres, ou o leite de vacas de alguma outra cor única, suficiente para uma centena de homens. Para enganá-lo, Nechtan chamuscou todas as vacas da Irlanda com um fogo de samambaia, manchando-as então com as cinzas de sementes de linho para que todas elas se tornassem marrom escuro. Ele fez isso pelo conselho do druida Findgoll, filho de Findemas. Uma outra vez, eles fizeram trezentas vacas de madeira com baldes marrom escuro no lugar das tetas, e estas foram preenchidas com o material escuro de um pântano. Bres então veio para olhar as vacas, e as viu sendo ordenhadas diante delem e Cian, o pai de Lugh, estava lá. Quando as vacas tinham sido ordenhadas e o material de pântano tinha sido tirado, Bres pegou uma bebida achando que era leite, e não ficou bom depois disso por um longo tempo.
 Outra coisa sobre Bres é que ele era muito mão fechada, e os chefes dos Tuatha De Danann queixavam-se dele, pois suas facas nunca eram polidas em sua casa, e sempre que o visitavam, não havia cheiro de cerveja nos seus olfatos. Não havia nenhum tipo de prazer ou alegria na casa dele, nem chamadas para seus poetas, cantores, harpistas, flautistas, tocadores de chifres, malabaristas ou bobos. Quando as competições de força que eles costumavam ver entre seus campeões, sua única força era agora restrita ao trabalho para o rei. O próprio Ogma, o poeta brilhante, lhe foi dado ordens para levar lenha das ilhas de Mod todos os dias ao palácio para toda a tropa, e ele ficou tão fraco pela falta de comida, que dois terços da lenha caiam no mar todos os dias. Quanto ao Dagda, ele foi colocado para construir raths, pois era um bom construtor, e fez então, a trincheira de Rath Brese. Ele sempre estava cansado de seu trabalho, e uma vez, ele quase desistiu por falta de comida. Ele costumava encontrar em sua casa um preguiçoso homem cego cujo nome era Cridenbél, que tinha uma língua afiada e cobiçava a comida do Dagda, pois ele achava que a sua comida era pouca. Cridenbél então diz ao Dagda: “Por conta de seu bom nome, me dê os três melhores pedaços de sua comida.” O Dagda então o dava todas as noites, e por conta disso, estava muito ruim, pois o que o homem cego pegava era do tamanho de um bom porco, e as três partes que ele pegava, era um terço de um todo.
 Um dia, quando o Dagda estava na trincheira, viu seu filho Angus Og vindo em direção a ele. “Este é um bom encontro,” disse Angus, “mas por que você está com esta aparência hoje?” “Eu tenho motivo,” disse o Dagda, “pois todas as noites Cridenbél, o cego, pede os três melhores pedaços de minha comida.” “Eu lhe darei um conselho,” disse Angus. Ele colocou sua mão na bolsa e tira dela três pedaços de ouro e deu ao Dagda.
 “Ponha esses três pedaços de ouro nos três pedaços que você dará essa noite à Cridenbél,” ele disse, “estes serão os melhores pedaços do prato, e o ouro se revirará dentro dele, matando-o.”
 Naquela noite, o Dagda fez tudo aqui, e não demorou muito para Cridenbél engolir o ouro, e depois, morrer. Algumas pessoas disseram ao rei: “O Dagda matou Cridenbél, dando-o uma erva mortal.” O rei acreditou nisso, ficando então com grande raiva do Dagda e deu ordens para mata-lo. O Dagda então disse: “Você não está dando o julgamento correto de um príncipe.” Ele então contou tudo o que aconteceu e o que Cridenbél costumava dizer, “Me dê os três melhores pedaços diante de você, pois minha comida não está boa esta noite.” “E nessa noite,” ele disse, “os três melhores pedaços de ouro são as melhores coisas diante de mim, eu dei a ele, e ele morreu.”
 O rei deu ordens para abrirem o corpo. O ouro então foi encontrado dentro dele, e todos souberam que o Dagda tinha falado a verdade.
 Angus foi até ele no dia seguinte e lhe disse: “Seu trabalho logo irá acabar, e quando você receber seus salários, não pegue nada que lhe oferecerem até todo o gado da Irlanda ser levado até você, e então, escolha uma novilha negra de juba da mesma cor, e eu lhe direi os sinais dela.”
 Então, quando o Dagda terminou seu trabalho e lhe perguntaram que recompença ele queria, ele fez o que Angus tinha mandado. Isso pareceu tolice para Bres – ele achou que Dagda pediria mais que uma novilha.
 Chegou um dia quando um poeta veio procurar por hospitalidade na casa do rei, Cairpre, filho de Etain, o poeta dos Tuatha De Danann. Ele foi colocado em uma estreita casa escura onde não havia fogo, mobília ou cama; três pequenos e secos pedaços de bolo foram levados a ele em um prato pequeno. Quando ele acordou no dia seguinte, não estava satisfeito, e enquanto ia para o gramado, disse: “Com a comida pronta em um prato, sem o leite suficiente para um cordeio crescer sem abrigo, sem a luz na escuridão da noite, com o suficiente para pagar um contador de histórias – que esta seja a prosperidade de Bres.”
 Daquele dia em diante, a boa sorte não estava mais com Bres, pois ele estava indo cada vez mais para baixo depois disso. Esta foi a primeira sátira feita na Irlanda.
 Quando a Nuada, depois de seu braço ter sido cortada, ele ficou doente por um tempo, porém, Dian Cécht, o curandeiro, fez para ele um braço de prata com todos os movimentos em cada dedo dela, e o colocou nele. Daí em diante ele foi chamado de Nuada Argat-lamh, que é, Nuada da Mão de Prata.
 Miach, o filho de Dian Cécht, era melhor na cura do que seu pai, e havia feito muitas coisas. Uma vez, ele encontrou um jovem com apenas um olho em Teamhair, e o jovem disse: “Se você é um bom médico, coloque um olho no lugar do olho que perdi.” “Eu poderia colocar o olho daquele gato no lugar,” disse Miach. “Eu gostaria disso,” disse o jovem. Miach então colocou o olho do gato em sua cabeça, mas ele logo ficou sem o olho depois disso, pois quando queria descansar e dormir, o olho de gato então começava o ranger para os ratos, para as aves voando ou para o movimento das folhas, e quando queria observar um exército ou um encontro, o olho de gato queria dormir.
 Miach não estava satisfeito com o que seu pai tinha feito pelo rei, e pegou então a própria mão de Nuada que tinha sido cortada, levou até ele e a colocou no lugar, dizendo: “Articulação para articulação, tendão para tendão.” Ele ficou três dias e três noites com o rei: no primeiro dia, ele colocou a mão no local, no segundo dia, ele colocou a mão contra seu peito até ela se cobrir com pele, e no terceiro dia ele colocou juncos enegrecidos pelo fogo nela, e no fim desse tempo, o rei foi curado.
 Dian Cécht ficou aborrecido quando viu que seu filho fez uma cura melhor que a dele, e atirou então sua espada na cabeça dele, cortando sua carne, porém, o rapaz logo se curou através de sua habilidade. Dian Cécht atirou pela segunda vez, chegando até o osso, mas novamente o rapaz foi capaz de curar a ferida. Ele então o acertou por uma terceira vez, e na quarta, ele cortou seu cérebro, pois ele sabia que nenhum médico o curaria depois desse golpe. Miach então morre, e seu pai o enterra.
 365 ervas cresceram de seu túmulo, e esse número era o de suas articulações e tendões. Airmed, sua irmã, vem até seu túmulo, estica sua capa e coloca as ervas nela separando-as de acordo com suas propriedades. Dian Cécht ao ver aquilo, foi até ela e misturou as ervas, para que a partir daquele dia ninguém mais soubesse das suas corretas propriedades.
 Quando os Tuatha De Danann viram que Nuada estava bem novamente, eles se reuniram em Teamhair onde Bres estava, e eles o ordenaram desistir do reinado pois ele o tinha por bastante tempo. Ele então desistiu, embora não de bom grado, e Nuada foi colocado novamente de volta no reinado.
 Bres ficou muito aborrecido com isso, e procurou em sua mente como ele poderia se vingar e como poderia reunir um exército para lutar contra eles. Ele então foi até sua mãe, Eriu, a filha de Delbaeth, e a faz lhe contar de que raça ele pertencia.
 “Eu sei bem,” ela disse, lhe contando então que seu pai era um rei dos Fomor, Elatha, o filho de Delbaeth, e que ele foi até ela uma vez em um grande navio que parecia ser de prata sobre o mar, porém, ela não podia ver sua forma, e ele então apareceu como um jovem homem loiro, com suas roupas bordadas com ouro e cinco anéis dourados sobre seu pescoço. E ela, que havia recusado o amor de todos os homens de sua raça, deu-lhe o seu amor, chorando então quando ele tinha que deixa-la. Ele lhe deu um anel que estava em seu dedo, e pediu-a para dar o anel somente para o homem cujo dedo se encaixa no anel, e ele então foi embora da mesma forma que tinha vindo.
 Ela então levou o anel até Bres, que colocou em seu dedo do meio e encaixou certo. Eles então foram jutos para a colina onde ela tinha visto o barco de prata vindo, e na praia, ela, Bres e seu povo viajaram para o país dos Fomor.
 Quando eles chegaram até aquele país, encontraram uma grande planície com muitas assembleias de povo nela; eles então seguiram para a assembleia que parecia a melhor de todas, e todos perguntavam de onde eles tinham vindo, e eles disseram que vieram da Irlanda. “Vocês tem cães de caça com vocês?” perguntaram a eles, pois era costume naquela época de que quando estrangeiros viessem para uma assembleia, eles deviam fazer uma competição amigável. “Nós temos cães de caça,” disse Bres. Os cães de caça então foram desafiados, e os dos Tuatha De Danann foram melhores que os cães dos Fomor. “Vocês tem cavalos para uma corrida?” eles perguntaram. “Temos,” disse Bres. E novamente, os cavalos dos Tuatha De Danann foram melhores que os dos Fomor.
 Eles então perguntaram que entre eles era o melhor com a espada, e estes disseram que Bres era o melhor. Quando Bres colocou a espada em sua mão, Elatha, seu pai, reconheceu o anel e perguntou quem era aquele jovem. Sua mãe então lhe respondeu, contando toda a história, e disse que Bres era seu filho.
 Seu pai ficou triste, e disse: “O que te expulsas do país onde tu eras rei?” Bres respondeu: “Nada me expulsou, e sim minha própria injustiça e rigidez. Eu roubei seus tesouros, suas joias e sua comida. Nunca haviam colocado taxas sobre eles antes de eu ser seu rei.”
 “Isso é ruim,” disse seu pai, “é de sua prosperidade que você tinha um direito de pensar mais que seu próprio reinado. E a boa vontade deles é melhor que suas maldições,” ele disse, “e por que você veio para cá?” “Eu vim procurar por combatentes,” disse Bres, “para que eu possa tomar a Irlanda a força.” “Você não tem o direito de toma-la através da injustiça, já que não podes mantê-la através da justiça.,” disse seu pai. “Que conselho você tem para mim?” disse Bres.
 E Elatha o mandou até o rei chefe dos Fomor, Balor do Olho Maligno, para decidir que conselho e que ajuda ele o daria.

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