sexta-feira, 29 de março de 2013

A deusa Brigit


BRIGIT
Deusa da lareira, da poesia, cura e metalurgia. 

Fonte: "She drums"

“A casa do inverno é escura, cortando com sua agudeza; mas no dia de Brigid, a primavera se aproxima de nós na Irlanda.”

                Esse texto foi definitivamente um dos mais difíceis de ser escrito, não pela falta de fontes ou pela complexidade do material que temos sobre essa deusa, mas pelo fato da maioria das coisas que podemos dizer sobre ela vir diretamente de fontes cristãs, onde sua imagem foi supostamente substituída pela Santa Brígida. Apesar de muitos atributos e características serem similares aos que a deusa outrora possuía – ou pelo menos, aos que se acreditava que a deusa tinha – nem sempre podemos dizer que tudo na Santa Brígida tenha incontestavelmente a origem na deusa Brigit pelo simples fato de termos pouco material sobre a deusa em si dentro da mitologia irlandesa, ou até mesmo na mitologia escocesa, onde ela tem um papel um pouco mais proeminente (sendo protagonista em um conto folclórico como veremos mais adiante), visto que na Irlanda ela apenas aparece em uma citação no Glossário de Cormac1 e em uma rápida passagem no mito da Segunda Batalha de Moytura2. Consequentemente, devemos ter um pouco de cautela ao se aproximarmos dessas duas personalidades – a deusa e a santa, e pela escassez de materiais que temos sobre a deusa Brigit pré-cristã, não podemos cair na tentação e no erro de reconstruir a imagem e os atributos de uma deusa baseando-nos nos atributos e características de uma santa, por mais que suas supostas similaridades sejam maiores que suas diferenças. Sendo assim, o motivo secundário desse texto é traçar um panorama seguro sobre o que realmente sabemos sobre essa deusa, comparando com as evidências cristãs e com a interpretação de alguns estudiosos modernos; por todo o texto, vou fazer diferenciações entre a deusa e a santa para que possa ficar mais claro quais papeis eram atribuídos a quem, e com isso, vou chamá-las aqui de: a deusa Brigit irlandesa, a santa irlandesa e a santa escocesa, a fim de estudo e maior entendimento.


                Brigit (pronuncia-se bridjed) é sem dúvida a deusa mais amada dentro da religião pagã dos gaélicos. Membro dos Tuatha Dé Danann3 e filha do principal deus do panteão gaélico, Brigit é a deusa do multifacetado fogo que queima na lareira dos homens, na forja dos ferreiros, na mente dos poetas, nas mãos dos médicos e no calor do sol que traz a primavera. Acolhedora e hospitaleira, ela é a deusa que ajuda nos partos e faz jorrar o leite nas vacas, trazendo fertilidade e riqueza para os homens e para a terra, e assim como o fogo inextinguível e renovável, Brigit foi uma das pouquíssimas divindades que persistiu desde os tempos pré-cristãos até muito depois da chegada do cristianismo na Irlanda, sendo vestida com o manto cristão e sua figura tendo sido tomada pela imagem da Santa Brígida. 

                Brigit aparentemente não foi uma divindade com muitas variações em seus nomes ou com uma abundância de títulos. Alguns estudiosos atestam que seu nome pode ser derivado do proto-céltico4 *briga ou *brigo, que significa “poder, elevação, exaltação”, que por sua vez é uma derivação de *brig, “monte ou elevação”. Se a afirmação for verdadeira, a tradução possível para seu nome seria “A Exaltada” ou “A Elevada”. No entanto, outra fonte (o Glossário de Cormac) nos diz que seu nome provém de breo-aigit ou breo-shaight, que significa “flecha flamejante”, contudo, muitos etimologistas consideram improvável a interpretação dada por Cormac. Brigit é a forma mais antiga de seu nome, mas no texto da Segunda Batalha de Moytura o nome aparece como Brígh, e mais tarde, o nome também se desenvolveu para Brigid ou Brighid. Na Escócia, ela foi conhecida como Brìde ou Bride, e na Ilha de Man, ela aparece como Breeshey.

                O primeiro atributo que estudaremos aqui é de Brigit possivelmente sendo a deusa da lareira. A única fonte que pode nos dar um vislumbre dessa teoria da deusa sendo associada com tal elemento são as práticas cristãs (possivelmente de origem pagã) da Escócia (e provavelmente na Irlanda, também) da ignição e do abafamento do fogo da lareira conhecido em gaélico escocês como Togail an Teine e Smaladh an Teine, respectivamente. O togail an teine consistia na dona de casa, pela manhã, ir até a lareira para “acordar” o fogo, orando em voz baixa pedindo por bênçãos. Por sua vez, o smaladh an teine, era igualmente feito com muito carinho e respeito: a dona de casa espalhava as cinzas na lareira, e desenhava-se um círculo, dividido em três partes iguais convergindo para um centro com uma pequena protuberância e colocava-se um pedaço de turfa em cada parte desse círculo, onde cada turfa era colocada em nome de uma das personalidades do deus cristão. Depois disso, o círculo era então coberto com cinzas o suficiente para abafar o fogo, mas nunca apagá-lo, para que na manhã seguinte a dona de casa pudesse “acordar” as chamas novamente. Quando a cerimônia é concluída, a mulher fecha seus olhos, estende sua mão para a lareira e diz uma das muitas orações da ocasião. Outro método pra guardar as brasas para usá-las na manhã seguinte era escondê-las em um buraco na terra, com 16 cm de diâmetro e profundidade (conhecido em gaélico escocês como slochd guail, “buraco do carvão”), coberto com um pano com um furo no meio por onde se colocavam ou tiravam as brasas. Outro pano era colocado por cima para proteger a casa de possíveis incêndios. Mas, afinal, o que Brigit tem a ver com isso? Em primeiro lugar, em todas as orações (ou a maioria) dessas cerimônias, a santa escocesa é chamada para conceder suas bênçãos na casa e na família. E assim, se Brigit possa ter de fato essa conexão com a lareira, podemos fazer uma breve comparação com uma divindade báltica do fogo conhecida por Gabija, cujos ritos de abafamento do fogo são bastante similares com o da santa escocesa: Gabija era colocada para “dormir”, com a dona de casa espalhando cinzas sobre as brasas para que o fogo não pudesse “sair andando pela casa”. Além disso, poderíamos citar também um dos costumes escoceses do Oímelc (um festival provavelmente dedicado à deusa, como veremos mais abaixo), onde as mulheres aplanam as cinzas da lareira na véspera do festival para que na manhã seguinte elas pudessem encontrar (ou não) as marcas que a santa deixou na casa; caso encontrassem uma marca, era uma alegria, mas se encontrassem uma pegada, era uma alegria muito maior, pois ambos os sinais significavam que a santa escocesa tinha visitado sua casa durante a noite e deixado sua bênção, e caso os sinais não fossem encontrados, significava que a santa tinha sido ofendida, e sendo assim, oferendas eram feitas para ela e incenso era queimado na lareira antes da família ir dormir. Por último, é digno de citação também o interessante culto que a santa recebia na Irlanda (registrado por Giraldus Cambrensis, em sua Topography of Ireland5), que consistia em uma chama sagrada que era protegida por dezenove freiras que impediam que a chama se apagasse, e caso um homem entrasse no recinto, ele seria amaldiçoado ou até mesmo morto. Alguns estudiosos acreditam que esse culto possa ser uma reminiscência de um culto pagão ainda mais antigo para a deusa Brigit, nos fazendo lembrar da tradição romana das virgens Vestais que protegiam o fogo de Vesta, uma deusa romana também ligada ao fogo da lareira e a domesticidade. É interessante também que a proibição masculina no recinto da santa irlandesa também ecoe nas práticas romanas, onde o cuidado ao fogo e os cultos domésticos eram reservados somente às mulheres.

                Sendo assim, se considerarmos que Brigit possa ser realmente uma deusa da lareira, faz sentido então que muitas das práticas do Oímelc sejam tarefas domésticas, o que nos remete a outra atribuição da deusa, ou pelo menos da santa, que é a domesticidade, já que em muitas religiões europeias a deusa da lareira também tem aspectos domésticos, protegendo a casa e a família (da mesma forma que a báltica Gabija). Dentro dessas práticas do Oímelc, podemos observar em especial o costume de arrumar e limpar a casa e a despensa nas vésperas do festival, e além disso, sendo associada com as atividades domésticas, a santa escocesa também presidia sobre a costura, a fiação e a tecelagem, tal associação que deu origem à proibição escocesa das mulheres fiarem ou tecerem qualquer coisa no dia da Santa Brígida, acreditando-se ser por respeito à santa que tinha ensinado as mulheres a fiar a lã para fazer roupas, mostrando então seu apreço pela santa. Vale a pena mencionar também que, segundo a tradição irlandesa, acredita-se que a Santa Brígida teceu o primeiro pedaço de pano na Irlanda. Para concluirmos a linha de pensamento então, podemos resumir que as únicas associações que temos da Santa Brígida com a lareira são a partir dos relatos cristãos da Escócia nas práticas de ignição e abafamento do fogo e a queima de incenso na lareira, caso as marcas da santa não tivessem sido encontradas na lareira durante a manhã do Oímelc. Se isso a torna associada com a lareira, é difícil dizer, mas, no entanto, a conexão é digna de nota. Como uma deusa da lareira, também é razoável dizer que ela seja associada com o lar e a domesticidade, e consequentemente, aos trabalhos domésticos, como a tecelagem (a qual está intimamente ligada, sendo ela a santa que ensinou as mulheres a fiar e tecer, e, segundo a tradição irlandesa, foi ela quem teceu o primeiro pano na Irlanda). E por último, é importante lembrar que todas essas atribuições nunca foram da deusa em si, pois todos os registros com os quais especulamos essas teorias são provenientes de fontes cristãs; embora seja bastante provável que a deusa pudesse ter tido essas características, não podemos afirmar inteiramente.

                Contudo, a associação da santa com o fogo não se limita apenas ao fogo da lareira, mas também com o fogo de um modo geral (sem mencionar o fato da deusa Brigit também ser conhecida como “a mulher da forja”, como veremos mais pra frente). A associação da santa com o fogo é bastante curiosa, não só pelo fato de que em muitas imagens nos vitrais a santa é retratada com uma lamparina ou uma espécie qualquer de chama, mas também pelas suas muitas ligações com tal elemento que aparecem em sua hagiografia, chamada de “Bethu Brigte”6, ou “A Vida de St. Brígida”. No texto citado, há uma história em que a mãe da St. Brígida, Broicsech, retorna para uma ilha onde morava e esconde a menina em sua antiga casa, mas, alguns vizinhos viram que essa mesma casa estava pegando fogo, e saía um fogo tão intenso e alto que parecia que ia até o céu. Os vizinhos vão até lá para tentar apagar as chamas, e quando chegam, o incêndio desaparece e encontra a santa bebê lá dentro, dizendo posteriormente que ela estava “coberta com a graça do Espírito Santo”. Mais tarde, Broicsech junto com um feiticeiro leva a bebê para visitar o gado, e então, Broicsech colocou sua filha ao lado de um monte de esterco que imediatamente pareceu incendiar-se, mas quando Broicsech foi estender sua mão para o fogo, as chamas desapareceram. Quando cresceu, a santa foi até a igreja para receber o véu da virgindade, mas como era muito humilde (segundo a hagiografia), ela foi para o final da fila para ser a última, deixando todas as outras virgens passarem em sua frente, mas naquele momento, uma torre de fogo saiu de sua cabeça chegando até o teto da igreja, e impressionados, os bispos então chamaram a santa para ser a primeira a receber o véu. Essa associação também não para por ai. De uma forma mais explícita, o Carmina Gadelica7 diz que a St. Brígida escocesa “presidia sobre todo fogo, beleza e arte sob o céu”, e em nível de curiosidade, no mesmo texto Carmichael (o autor do Carmina Gadelica) diz que o povo olhava para o fogo como um milagre do poder divino fornecido para seu próprio bem – aquecer seus corpos quando estivessem com frio, cozinhar sua comida quanto estivessem famintos, e lembrá-los que também, assim como o fogo, necessitavam de constante renovação mental e física. Além desses relatos que nos mostram uma incontestável conexão que a santa tinha com o fogo, temos também um símbolo muitíssimo relacionado com a santa tanto nas ilhas gaélicas que é a Cruz de Brigid, ou Cros Brìde, confeccionada no Oímelc, feita com junco ou palha (a tradição nos conta que o junco deveria ser puxado da terra, e não cortado, o que nos mostra uma possível ligação com o passado pré-cristão dos gaélicos, onde o ferro era visto como um repelente do Povo Encantando). Existiam sete modelos diferentes da Cruz de Brigid, mas os mais conhecidos é o modelo de três pontas, o do tipo “losango” e o modelo de quatro pontas ou do tipo “suástica” (nesta noda de rodapé8, há um link para as imagens), e é esse último que iremos explorar. Enquanto que alguns estudiosos sugerem que a cruz de quatro pontas seja uma referência à cruz cristã, outros estudiosos fazem uma analogia com a suástica (como símbolo pagão e não nazista, obviamente) da religião báltica, que é um símbolo associado com o fogo e com o sol. Com isso, há uma probabilidade da cruz de quatro pontas ser realmente uma reminiscência da suástica (que inclusive era um motivo comum com o mesmo significado em algumas religiões europeias, como entre os eslavos e nórdicos, por exemplo, apesar de estarem mais relacionados aos deuses dos relâmpagos – Perun e Thor, nos casos mencionados), representando o fogo, reforçando sua associação com a deusa Brigit (se levarmos em conta que a deusa pré-cristã possa ter tido estes mesmos atributos da santa); o que faz mais sentido do que a interpretação da Cruz de Brigid sendo análoga à cruz cristã, já que a primeira possui as pontas uniformes, e a cruz cristã, as pontas disformes. Por último, se considerarmos que a deusa Brigit possa realmente ter tido toda essa ligação com o fogo, poderíamos traçar um paralelo, conforme feito acima, com a Gabija báltica, a Héstia helênica e a Vesta romana – todas deusas do fogo, da lareira e protetoras do fogo sacrificial – o fogo que media o mundo dos deuses e o mundo dos homens; se Brigit possa ter tido esse papel no passado pré-cristão dos gaélicos, é impossível dizer, mas a comparação é no mínimo provocante. Concluímos então que existe uma ligação inseparável da santa com o fogo e as chamas somente com as fontes dos relatos cristãos já citados, mas no entanto, não existe nada realmente sólido que possa nos dizer se a deusa pré-cristã também tinha essa associação, apesar de ser muito tentador dizer que sim. Infelizmente, tudo o que dispomos da relação da deusa Brigit com o fogo, é com o fogo da forja, que será discutido mais amplamente nos próximos parágrafos.    

                Outra característica que aparece na deusa Brigit irlandesa, não na santa, que iremos explorar é a poesia. A primeira fonte que atesta esse fato é o Glossário de Cormac, onde curiosamente, Brigit é descrita como tendo mais duas irmãs (todas com o nome Brigit), e cada uma rege um ofício diferente. Logo no início da descrição sobre ela, Brigit é descrita como uma poetisa, e posteriormente, como uma sábia ou uma “mulher da sabedoria”, e Cormac diz que ela era a deusa a quem os poetas adoraram, pois Brigit tinha um cuidado especial com todos eles e os protegia, sendo por isso chamada de a deusa dos poetas. Apenas essa fonte já seria o suficiente para dizermos indubitavelmente que Brigit é a deusa padroeira dos poetas e preside sobre a poesia, mas além disso, há um outro fato sobre a deusa que pode dar ainda mais força para essa atestação. Um texto conhecido como O Colóquio dos Dois Anciões9 diz que Brigit era a mãe dos tri dei dana, a quem o tradutor do texto, Whitley Stokes, traduziu como “os três deuses da poesia”, e a estudiosa Mary Jones acredita que esses três deuses da poesia possa ser uma referência aos irmãos Brian, Iuchar e Iucharba, que aparecem proeminentemente no conto “O Destino dos Filhos de Turenn”10. Mary Jones não explica o porquê de ter atribuído o título aos três irmãos, mas acredito que seja pelo fato de que, no mesmo mito já mencionado, os filhos de Turenn partem em busca de vários tesouros mágicos (a mando de Lugh, como penitência por terem matado seu pai, Cian), e ao chegarem às cortes dos reis em diversas partes do mundo, eles dizem ser “homens da poesia da Irlanda”, e declamam poesias para os reis louvando-os e louvando a sua posse, que normalmente é o tesouro que buscam. A título de curiosidade, Brigit é descrita sendo a mãe desses três deuses junto com Brés, o rei com quem se casou, divergindo com o mito que descrevem os três deuses sendo os filhos de Turenn. Por último, é importante esclarecer aqui também que apesar da difusão moderna de que Brigit seja a deusa do imbas forosnai como forma de inspiração poética, deve-se explicar que na verdade o imbas forosnai era a forma que os poetas medievais (os fili) usavam para obter conhecimento de alguma pergunta cuja resposta não era poderia ser obtida através de meios “naturais” – em outras palavras, era uma técnica usada para prever o futuro, e em nenhuma fonte que consultei, o poeta usava a técnica para obter “inspiração”, como é difundido nos dias de hoje. Contudo, pode ser que a prática possa ter sido usada tardiamente para obter algum tipo de inspiração sobrenatural através de versos inspirados com a resposta desejada, como a estudiosa Francine Nicholson sugere, e, como é uma prática associada aos poetas no geral (assim como o teinm laida e o díchetal di chennaib, duas técnicas que tinham o mesmo propósito do imbas, mas por meios diferentes), pode-se especular que Brigit presidia sobre ela, e além disso, para aqueles familiarizados com o texto medieval conhecido como “O Caldeirão da Poesia”11, pode imaginar que Brigit também possa ter uma conexão com os três caldeirões que o texto menciona, que são descritos como a origem da inspiração poética e diz-se nascer em cada pessoa, sendo ativada pelas emoções ou acontecimentos cotidianos. Com isso, temos então prova o suficiente para dizer que Brigit é, sem dúvidas, uma deusa relacionada à poesia e a padroeira dos poetas da antiga Irlanda, e que presumivelmente, possa ter presidido sobre as três artes poéticas da Irlanda medieval (que possivelmente tenha uma origem muito anterior): o imbas forosnai, o teinm laida e o díchetal di chennaib12, além dos três Caldeirões descritos no último texto citado. Ademais, vale a pena citar também que a julgar pela posição privilegiada e prestigiada que os poetas tinham na Irlanda medieval (e antes da chegada do cristianismo também), podemos estimar a importância da deusa dentro da sociedade gaélica pré-cristã.

                No Glossário de Cormac, temos uma rápida citação sobre a deusa Brigit, conforme já foi mencionado. Nessa mesma citação, Cormac diz que Brigit era, na verdade, o nome dado à três irmãs, cada um regendo um ofício diferente. Um desses ofícios é a poesia, como já explicamos no parágrafo anterior, mas existem outros dois que também nos chamam atenção: a medicina e a metalurgia. Essa característica da deusa Brigit como ferreira ou presidindo sobre a metalurgia, e consequentemente, sendo a “padroeira” dos ferreiros, é atestada somente na deusa, unicamente no texto citado. Nas fontes consultadas, não encontrei nada muito consistente que ligasse à santa também com a metalurgia, então, podemos presumir que essa seja uma característica inerente à deusa, sem sombra de dúvidas, mas infelizmente dispomos de pouquíssimo material que explore mais essa sua faceta. Quanto ao fato da deusa estar conectada com a medicina, encontramos também vestígios na santa através da quantidade de poços da cura associados com ela espalhados pela Irlanda e Escócia, como em Brideswell no Condado de Roscommon (Irlanda), Kilcornam no Condado de Limerick e em Kildare, um condado muitíssimo associado à santa (que inclusive era onde as freiras mantinham sua chama sagrada queimando), todos localizados na Irlanda. Além dos poços cujas águas eram supostamente curativas, temos duas práticas realizadas no Oímelc que também pode dar força a essa imagem da santa ou deusa como médica ou curandeira: o pano de Brigid, ou brat Bríde, um pequeno pedaço de pano branco amarrado em uma árvore (normalmente o espinheiro; o motivo é incerto, mas vale lembrar que é uma árvore frequentemente associada com o outro mundo), para que quando a santa passasse durante a noite do festival, ela pudesse abençoar o pano com proteção e propriedades curativas (acreditava-se que esse pedaço de pano nunca poderia ser lavado para não perder suas propriedades, e que depois de sete anos, ele atingia o auge de seu poder. Outras fontes, no entanto, diz que o pano poderia ser renovado a cada ano) e o cinto de Brigid, ou críos Bríde, que consistia em um grande anel feito de palha com cruzes de Brigid amarradas em três ou quatro lados do círculo – o “cinto” era frequentemente desfilado nas procissões da festa junto com a boneca de Brigid, e ao ser usado (a pessoa o erguia sobre sua cabeça e o deixava cair até o chão, de forma que o círculo circundasse a pessoa), o cinto promovia as bênçãos da santa e protegia o usuário de doenças. Por último, podemos notar também os milagres de cura frequentemente associados com a santa, mas isso não é muito prova de alguma coisa já que não é necessário ser católico (e definitivamente catolicismo não é minha especialidade) para saber que a cura através de milagres era algo que qualquer santo podia fazer. Podemos constatar então que a deusa Brigit era ligada à metalurgia e a medicina, e apesar da falta ou da presença de evidências na santa que “comprovam” isso, essa ligação com a deusa pré-cristã é indiscutível.

                Segundo a mitologia irlandesa, a deusa Brigit foi a inventora dos lamentos fúnebres (ou keenings, vindo do irlandês caoineadh, que significa “gritar” ou “chorar”), após seu filho Ruadán ter sido morto por Goibniu, por ter arremessado uma lança no deus-ferreiro, e este por sua vez puxou a lança do seu corpo e a arremessou de volta em Ruadán, o matando. Brigit então veio e primeiro gritou pelo seu filho, e depois chorou, e de acordo com o mito, essa foi a primeira vez que gritos e choros para lamentar um morto foram escutados na Irlanda, nascendo então uma tradição contínua até os dias de hoje, realizada pelas mulheres, dos lamentos fúnebres. Como deusa também da poesia, faz bastante sentido que Brigit seja mencionada como a inventora dos lamentos fúnebres, pois conforme Ó Madagáin observa, em sua obra Keening and other Old Irish Music, os lamentos consistiam de vários elementos poéticos: uma listagem da genealogia do morto, um louvor a ele e a ênfase na condição lamentosa daqueles que ele deixou para trás. As “poesias” eram entoadas por uma ou várias mulheres, acompanhadas por bater de palmas, ajoelhar, e outros movimentos físicos feitos pela mulher do lamento (bean chaointe), que era paga pelos seus serviços. É importante mencionar também que durante o período pós-cristianismo na Irlanda, houve grandes tentativas da Igreja em pôr um fim à tradição dessas mulheres. Tamanha era a proibição, que até mesmo uma tríade irlandesa nos conta: “Três pessoas que não terão uma cama no céu: um homem briguento, uma mulher lamentadora e um moleiro bronco.” Isso se dá pelo fato da Igreja querer destruir uma prática incontestavelmente pré-cristã, que eles consideravam “pagãs” demais, e sem nos surpreender, essa característica definitivamente não foi “herdada” pela santa. Por último, o mesmo mito citado conta que Brigit foi a deusa que inventou o assobio para a sinalização a noite, mas o significado e a relevância disso pode ter se perdido nos dias de hoje. Essa característica atribuída à Brigit nos mostra o quão multifacetada essa deusa é, e com isso, podemos concluir que Brigit é associada com esses lamentos fúnebres, e que como uma forma de poesia, faz bastante sentido tal ligação.

                É de conhecimento geral que a St. Brígida tem uma conexão muitíssimo forte com as vacas, e consequentemente, com o leite e os produtos lácteos em geral, como queijos e manteiga. A primeira evidência dessa ligação está no Bethu Brigte na passagem que descreve o nascimento da santa, quando sua mãe Broicsech vai até a soleira da porta com um recipiente com leite, e no exato momento que passa pela soleira, ela dá a luz à santa, e posteriormente, as criadas banham a santa bebê no leite como uma forma de “batismo”. Quando a santa cresce, ela recusa todos os alimentos que o feiticeiro (que tinha comprado a sua mãe Broicsech, que era uma escrava) dava para ela, que ela considerava ser “impuro”, e ao meditar sobre o assunto, o feiticeiro propõe alimentar a santa somente com o leite de uma vaca branca de orelhas vermelhas, e essa então se torna a única fonte de alimento da santa. Mais tarde, a santa volta para a casa de seu pai Dubthach e lá fabrica a manteiga pela primeira vez (o texto não deixa claro se é a primeira vez que a santa faz manteiga ou se é a primeira vez que a manteiga foi feita, atribuindo sua criação a ela), dividindo a manteiga em treze partes e dando tudo para os pobres. Lady Gregory também nos dá uma interessante história sobre a santa em seu livro Saints and Wonders, mas não posso afirmar a veracidade da história, já que Gregory tende a aumentar ou distorcer os mitos irlandeses, pelo menos, como já visto em seu livro Gods and Fighting men. No conto, sete bispos vão visitar a St. Brígida em Kildare, mas ela não tinha nada de comida para oferecê-los. Sendo assim, ela ordenha sua vaca pela terceira vez naquele dia e começou a encher os baldes com o leite ordenhado, que começou então a vazar e criou um lago, que ficou conhecido como o Lago de Leite (não encontrei na pesquisa o nome do lago nos dias de hoje). Além desses contos (e muitos outros, já que dos quarenta e seis milagres da St. Brígida, seis envolvem o leite) envolvendo vacas e leite, a santa também é presenteada com oferta de leite e manteiga (além de sal, água, pães, mingaus e grãos) na noite do Lá Fhéille Bríghde (como o festival da santa é conhecido na Irlanda), e de fato, muita das receitas tradicionais do festival levam o leite e laticínios em seus ingredientes, ou são o prato em si, como o rolag Bríde (a manteiga de Brigid) ou o cabag Bríde (o queijo de Brigid). O estudioso Thomas Torma em seu artigo The Heroic Age: Milk Symbolism in the ‘Bethu Brigte’ nota que, dado o fato do leite ser um alimento importante na dieta irlandesa medieval e por Brígida ser uma santa que tem poder sobre o leite das vacas, é inevitável que ela seja vista como uma santa importante e poderosa para os gaélicos medievais. Por último, vale lembrar que a deusa Brigit irlandesa possuía relação com dois animais além da vaca (se levarmos em conta que a vaca também era sagrada à deusa pré-cristã), o javali e o touro. Segundo a mitologia irlandesa, Brigit tinha dois touros reais chamados Fea e Men, que originaram o nome da planície de Femen. Ela também possuía Torc Tríath que era o rei dos javalis (que provavelmente significa “Tríath, o Suíno”, análogo à criatura sobrenatural da mitologia galesa, o javali Twrch Trwyth, que foi um rei amaldiçoado com a forma de um javali).

                Esse elo que a St. Brígida tem com as vacas e o leite nos traz a tona dois aspectos da santa, que provavelmente a deusa pré-cristã também possa ter tido: o parto (e, consequentemente, a maternidade) e a fertilidade. Vamos analisar primeiro o que o fato da santa ser associada com a lactação tem a ver com o parto e a maternidade. Mais uma vez, Thomas Torma, no mesmo artigo já citado, diz que Brigid tem uma relação muito forte com o leite e a maternidade, onde ambos se relacionam. Ele diz que a conexão entre a maternidade e lactação é bastante óbvia pelo fato de uma fêmea só dar leite após ter tido seu filhote, e argumenta também que, segundo uma crença, as vacas não dão leite sem seu bezerro estarem por perto, reforçando ainda mais essa conexão. Além da interpretação de Thomas Torma, temos uma citação no Carmina Gadelica dizendo que a santa escocesa “preside sob o nascimento de um homem do maior tipo de ideal de beleza” e que ela é “a parteira das mulheres de Uist em seus lares humildades”. Além disso, não podemos também deixar de notar o fato de ter sido St. Brígida a parteira de Maria, segundo as tradições cristãs dos gaélicos. Carmichael também diz que na Escócia, quando uma mulher está em trabalho de parto, a parteira vai até a soleira da porta de entrada, com suas mãos nos batentes e suavemente suplica para Bride vir, ajudando no parto e dando alívio para a mulher. Se as coisas derem certo, acredita-se que Bride esteve presente e foi amigável com a família, caso contrário, significa que ela estava ausente, pois foi ofendida. Na Irlanda, o pano de Brigid representa toda a relação que foi explicada aqui: ele também era usado para ajudar no parto (tanto de humanos como de bezerros e potros), ajudava uma mulher a engravidar, protegia a virgindade das donzelas e ajudava na produção de leite nas vacas. Consequentemente, o parto, à maternidade e a lactação elucida outra atribuição da santa que é a fertilidade. Além do pano de Brigid que ajudava a tornar as mulheres férteis, temos a Cruz de Brigid, que era colocada debaixo da cama dos recém-casados para que o casal pudesse ter filhos. Além disso, também era usada nos campos para promover colheitas férteis. Segundo o livro Wonder tales from Scottish Myth and Legend (que será estudado mais profundamente mais para frente), a deusa pré-cristã na Escócia era chamada para abençoar as sementes a fim de promover boas colheitas. Assim, podemos resumir que a santa estava intimamente ligada às vacas, à ordenha, aos laticínios, à maternidade, ao parto e à fertilidade, e que pelo menos uma fonte escocesa nos dá algumas pistas de que a deusa pré-cristã também possa ter tido essa característica fértil, e presumivelmente, as outras já citadas da santa.

                A partir dos registros escoceses, podemos traçar mais um atributo para a St. Brígida escocesa. Donald Mackenzie em seu livro Wonder tales from Scottish Myth and Legend reúne algumas supostas lendas e mitos da Escócia antes da chegada do cristianismo. Apesar de conter muitos elementos inerentes às crenças pagãs célticas em geral e citar histórias de muitas criaturas que realmente são encontradas no folclore da Escócia, algumas de suas histórias podem parecer um tanto fantasiadas e romantizadas, e em alguns casos, até distorcidas – e infelizmente, a história que mencionarei a seguir é um desses casos, mas no entanto, apesar do conto poder não ter sido realmente como Alexander nos conta, muitos elementos presentes nele são conhecidos para os escoceses; ou pelo menos, arrisco a dizer que a “essência” do conto seja verdadeira, mas foi reescrito através das percepções de Donald Mackenzie. Resumidamente, o conto em questão se chama “A chegada de Angus e Bride”, e transforma Bríde (a Brigit escocesa) em uma divindade ligada à primavera e que anuncia à chegada dessa estação. Segundo a história, Bríde é prisioneira da Rainha Beira – a deusa do inverno – em sua montanha em Ben Nevis, localizada na Escócia. Certa vez, Beira pede para que Bríde faça uma tarefa do lado de fora da montanha, onde ela se encontra com uma figura conhecida como “Pai Inverno”, que lhe dá algumas campânulas-brancas e instrui Bríde a dizer à Beira que as campânulas-brancas floresciam, que o agrião crescia nas margens dos rios e que a grama começou a crescer novamente – sinais claros de que o reinado invernal de Beira estava no fim, e que logo, a primavera voltaria para o mundo. Angus (estamos falando aqui do Angus escocês com características diferentes do Angus mitológico da Irlanda) então sonha com Bríde e parte para a Escócia a fim de libertá-la de sua mãe Beira, pedindo três dias de bom tempo de agosto emprestado em troca de três dias de clima ruim de fevereiro, mas toda vez que Angus chega na Escócia, sua mãe o expulsa novamente para a Terra da Ilha Verde, seu lar, com uma tempestade feroz. Depois de algumas tentativas, Angus encontra Bríde na montanha de sua mãe e a liberta, e depois desse encontro, as violetas e prímulas floresceram pois no dia que eles se encontram é chamado de o “dia de Bríde”, e é considerado o primeiro dia de primavera. Nesse dia, o pintarroxo foi a primeira ave que voltou a cantar, sendo chamado de “pássaro de Bríde”, seguido pelo ostraceiro, que foi chamado de “escudeiro de Bríde”. Quando Beira descobre que eles se encontraram, ela martela a terra com seu martelo negro de ferro para que nada florescesse em sua superfície, e monta em um cavalo preto em busca de Angus para travar uma guerra, mas este foge com Bride em seu cavalo e algumas marcas dessa fuga permanecem até hoje, como a ravina na ilha de Tiree, na Escócia, que é conhecida como “o salto do cavalo”. Angus fugiu para a Terra da Ilha Verde com Bride, e sempre que voltava para a Escócia Beira os afastavam novamente mandando consecutivamente três ventos ferozes conhecido no folclore escocês como “o sibilo”, “o vento de bico afiado” e o “varredor”, e apesar de suas tentativas funcionarem por uma tempo, só a deixava cada vez mais cansada, e vendo-se incapaz de prolongar seu reinado invernal e impedir a inevitável chegada da primavera, ela se retira para a Terra da Ilha Verde no equinócio de primavera, onde “o dia e a noite são iguais”, e nesse dia, Angus e Bride voltam novamente para a Escócia. Bríde então põe suas mãos nas águas dos rios para expulsar o gelo e Angus fazia a grama crescer. Bríde carregava uma vara branca com douradas hastes de grãos entrelaçados e um chifre dourado chamado de “chifre da abundância”. Com a chegada da primavera, a lenda diz que muitos animais se regozijaram, em especial o pato selvagem e o corvo (raven) que buscou o musgo para fazer seu ninho.

                Claramente, a história retrata como a primavera chega através das ações de Angus e Bride. Conforme mencionado, Mackenzie pode ter recontado a história reunindo elementos e crenças folclóricas para juntar tudo em uma história romantizada baseada em sua própria ótica e percepção. Tais elementos e crenças folclóricas podem ser encontrados no Carmina Gadelica, que mencionarei a seguir. Nessa mesma fonte, Alexander Carmichael diz que “todos os vales ensolarados são procurados em busca de prímulas, margaridas e outras flores que abrem seus olhos na manhã do ano”. Mais adiante, ele diz que o dente de leão é chamado de bearnam Bríde, “o pequeno entalhe de Bríde”, em alusão às bordas serradas de suas pétalas. O pintarroxo é chamado de bigein Bríde, “o passarinho de Bríde”. Em Lismore, o ostraceiro é conhecido como gille Bride, “o pajem de Bride”, já em Uist, ele é conhecido como Bridein, “pássaro de Bríde”. Segundo as crenças folclóricas, “o veneno do frio” (esse tema da relação do frio e inverno como veneno será explicado mais amplamente dentro dos próximos capítulos) “treme de medo no dia de St. Brígida e vai embora completamente no dia de S. Patrício”. Carmichael cita um ditado que diz: “Bride coloca seu dedo no rio, no festival do dia de Bride (Là Fhèill Brìghde), e a chocada mãe do frio vai embora. E ela banha suas palmas no rio, no festival de Patrício, e a prenha mãe do frio vai embora.” Por último, no folclore escocês, Carmichael diz que o corvo (raven) é a primeira ave a fazer o ninho, seguido pelo pato real e pela gralha-calva. A varinha de Bride mencionada na história também aparece no folclore escocês, onde se acredita que com esta varinha, Bríde sopra a vida na boca do morto inverno (cujos meses são chamados de na tri miosa marbh, “os três meses mortos” ou an raithe marbh, “o trimestre morto”, pois acredita-se que a natureza está adormecida) e o faz abrir os olhos. E assim, como podem ter observado, todos esses elementos aparecem no conto, de uma forma ou de outra, e mesmo que a história de Donald Mackenzie possa ter sido supostamente “criada” por ele, os elementos do conto são inerentes ao folclórico escocês e todos apontam para a evidência de Bríde ter sido cultuada como deusa da primavera, ou no mínimo, como uma deusa que anunciava a chegada da primavera (devemos nos lembrar, no entanto, que Bríde é vista no folclore escocês como uma santa, e não como uma deusa, e se a deusa pré-cristã teve essa mesma característica da santa, é difícil dizer). Contudo, há uma evidência de que na Irlanda, a santa também pudesse ter sido vista como a anunciadora da primavera. A canção tradicional conhecida como Gabhaim molta Bríde, diz-se que no Dia de Brigid, a primavera está mais perto da Irlanda, e na verdade, através do folclore sabemos que o festival de Brigid é intrinsecamente relacionado com a chegada da primavera nos três países gaélicos.

                Essa luta de Bríde contra Beira e seu reinado de inverno é curiosa e digna de nota, também sendo refletida em outras práticas e crenças folclóricas como veremos a seguir. Uma interessante rima folclórica escocesa diz que na manhã do dia de St. Brígida, uma serpente (em outras variações, é uma rainha, uma donzela ou “a filha de Ivor”) sairá da terra, e que se ela não for incomodada, ela também não incomodará: “Cedo na manhã de Bríde, a serpente sairá do buraco; eu não perturbarei a serpente, nem a serpente me perturbará.” Carmichael diz que essas rimas podem indicar um suposto “culto” à serpente no dia de St. Brígida, e um dos costumes associados com o festival é a destruição de uma efígie que representa a serpente. Carmichael descreve um relato de uma mulher que, ao se lembrar de que era o dia de Bride, vai até a soleira de sua casa, pegou uma meia e a encheu de turfa a fim de imitar uma serpente, e com um tenaz, esmurrou a “serpente” enquanto repetia a rima citada acima, mas substituindo “serpente” por “rainha”. Maire MacNeill chama essa prática da destruição da efígie de “Rito da Serpente”, e Ronald Blake sugere que a serpente representa o estéril e venenoso espírito do inverno, e sendo assim, a destruição de uma efígie de serpente (que representa o inverno e o frio) no dia de St. Brígida (que representa o dia da chegada da primavera) é certamente justificável. A historiadora e estudiosa Annie Loughlinn nota que essa teoria de Blake possa fazer referência ao ditado que diz que “Maria colocou seus dedos na água na festa de Bríde e o veneno saiu dela, e no dia de S. Patrício, ela banhou suas mãos na água e todo o frio havia ido embora,” onde o veneno (oriundo da serpente citada na rima) representa o gelo, que não apresenta mais perigo no Oímelc, mas que ainda será um problema até o dia de S. Patrício, que acontece por volta do equinócio de primavera. Ela também sugere que o fato da serpente ser chamada de “rainha” ou “donzela” sejam eufemismos para aplacar o espírito da serpente, que por sua vez, é o espírito frio e venenoso do inverno. Tal tradição da destruição da serpente nos faz lembrar uma tradição da religião pagã dos eslavos, onde uma efígie representando Marzanna (a deusa eslava da morte e do inverno) é queimada e afogada para simbolizar a vitória sobre a escuridão, o frio e o inverno, e celebrar o retorno da primavera. Ainda sobre essa dicotomia de Bríde e Beira, primavera e inverno, calor e frio, de acordo com Maire MacNeill, existe uma tradição que vê Bríde e Beira (ou Cailleach, como pode ter sido conhecida na Irlanda) como uma única deusa – duas facetas de uma mesma divindade, justificado pelo fato de que quando Cailleach bebe do Poço da Juventude no início de cada primavera, onde é transformada na jovem Bríde. Annie Loughlinn dá força à teoria de MacNeill, argumentando que esse fato pode se encaixar em uma passagem na poesia mitológica conhecida como “O lamento da velha mulher de Beara”, onde Buí – uma personalidade que provavelmente é a mesma que Cailleach – diz que sua bata é renovada de tempos em tempos, e argumenta que, assim como uma deusa da soberania que aparece ora como uma terrível mulher ora como uma linda donzela, Cailleach poderia representar esse aspecto feio e hostil, transformando-se em Bríde, uma donzela bonita e jovial.  Reunindo todos esses fatos, podemos concluir que esse “Rito da Serpente” (provavelmente com raízes pré-cristãs) pode ter sido um rito que visava a destruição do frio e a expulsão do inverno, sendo apropriado no dia de St. Brígida, que era visto como um dia que representava a chegada da primavera, e que, é inseguro dizer que a deusa pré-cristã possa ter tido tal conexão com a estação, já que todos os elementos da história que Donald Mackenzie conta é oriundo do folclore escocês que fala de uma santa, e não de uma deusa, apesar de ser tentador dizer que sim, já que tais elementos possuem uma característica “pagã” muito forte.

                Deixei a última possível atribuição de Brigit por último pelo fato de não ser baseada em algo muito concreto, mas apenas em especulações e muito estudo comparativo, mas que de forma alguma é indigno de ser mencionado e refletido, já que fazem sentido. A estudiosa Hilarie Woods acredita que Brigit é uma “candidata em potencial” para preencher a lacuna de deusa da aurora gaélica, comparando-a com Ushas, a deusa hindu da aurora. Primeiro, ela faz uma conexão entre o título “bhrati”, significando “alta, grande, sublime”, que é frequentemente aplicado a Ushas nos poemas hindus, e o próprio nome de Brigit, cuja teoria do significado já foi explicada mais acima, no início do texto. Hilarie continua, citando outros estudiosos, como West, que aponta o fato da santa ter nascido no amanhecer, na soleira da porta (ambas características limiares), e que aponta também o fato dela ser filha de Dubthach (cujo nome é traduzido como “escuro”), filho de Dallbrónach (“escuro e triste”). Assim como Brigit, Ushas também é a deusa que inspira os poetas – e como uma deusa que traz a luz de um novo dia para o mundo com a aurora, é razoável a comparação metafórica para a inspiração e sabedoria, similarmente iluminando a cabeça do poeta com estes da mesma forma que ilumina o mundo com a luz do amanhecer. Assim como Brigid, Ushas também é muitíssima associada às vacas. Hilarie observa também que o festival hindu que celebra o início da primavera se inicia com um hino para Ushas, e o estudioso West comenta que muitos povos indo-europeus tinham festivais que celebravam o retorno do calor do sol, e tradicionalmente, as pessoas se levantavam ao nascer do sol para saudá-lo. Seria natural, no entanto, que a deusa da aurora fosse venerada nessa época do ano. West cita que um exemplo desses festivais é o Ostara, o festival nórdico que celebra a chegada da primavera e que é associado com a deusa Eostre, que como o nome sugere, também é uma deusa relacionada com amanhecer. O festival de Brigit também acontece no início da primavera, e se a aurora é associada com a primavera, faz sentido que bem o início da primavera seja associada com tal fenômeno, já que o amanhecer é o início de um dia – e se considerarmos Brigit como tal, a associação se torna bastante plausível. Por último, Hilarie faz uma conexão entre Brigit e a deusa helênica Eos, também deusa da aurora, igualando o fato de que na mitologia, ambas perdem seus filhos e lamentam sua morte. O filho de Eos, Memnon, é morto por Aquiles na Guerra de Tróia. Em outro relato, diz-se que Eos pediu para Hefestos, o deus da metalurgia, para fazer armas para Memmon. Similarmente, Ruadán (o filho de Brigit) vai espionar a forja dos Tuatha Dé Danann para observar suas armas e levar o relato para seu pai Brés. Chegando lá, ele pede uma arma para Goibniu, o deus-ferreiro, que a faz e dá para ele, e instantaneamente, Ruadán arremessa a lança em Goibniu, que por sua vez, tira a lança de seu corpo e a arremessa de volta em Brés, matando-o. Brigit então vem e chora pelo seu filho.

                O festival associado com a St. Brígida é o Lá Fhéile Bríde (como é conhecido na Irlanda, ou Là Fhèill Brìghde, como é conhecido na Escócia, ou Laa’l Breeshey, na Ilha de Man), que significa “o dia de Brigid”. O festival acontece na mesma data que o festival irlandês pré-cristão Oímelc ou Imbolc (segundo Cormac, significando “lactação”), que é o dia primeiro de fevereiro, e muitos estudiosos acreditam que o moderno festival da St. Brígida possa ter origem nessa antiga festa pré-cristã. No entanto, não sabemos realmente se a deusa Brigit era associada ao festival pré-cristão da mesma forma que a St. Brígida é hoje associada com o Lá Fhéile Bríde, mas quando consideramos todas as evidências citadas acima, é bem provável de que realmente a maior parte das características da deusa possa ter migrado para a santa no período de cristianização da Irlanda, e sendo assim, poderíamos dizer que a deusa possa ter tido uma conexão com a festa mencionada. Não vou me alongar muito sobre o festival, já que o assunto já foi amplamente tratado aqui no blog13, mas resumidamente, o Lá Fhéile Bríde marcava o início da primavera e da estação agrícola, além do nascimento dos cordeiros que faria com o leite das ovelhas estaria disponível por volta dessa época (mas não que fosse a fonte principal de alimento da dieta irlandesa, mas apenas um lembrete de que logo o leite das vacas já estaria disponível novamente). Além dos costumes associados com a santa no festival, na véspera do dia de Bríde as mulheres mais velhas faziam um cesto oblongo na forma de um berço que era chamado de “a cama de Bríde” (ou leaba Bríde), na qual colocam uma pequena boneca representando a santa, chamada de “o ícone de Bríde” (ou dealbh Bríde). Na “cama”, uma mulher coloca uma pequena varinha branca e reta ao lado da figura que é chamada de slatag Bride ("a varinha de Bride”), slachdan Bride (“o bastão de Bride”) ou barrag Bride (“a bétula de Bride”, sugerindo que a bétula também poderia ser usada, além do zimbro, espinheiro, salgueiro branco e outras árvores consideradas propícias e com bons augúrios). O folclore nos diz que a varinha é reta para simbolizar a justiça, e branca para simbolizar a pureza e a paz, e podemos estabelecer uma conexão entre essa varinha e a varinha que Bride empunha no seu conto folclórico e a varinha que ela usa para soprar a vida na boca do “inverno morto”, como visto acima. É importante ver a presença da hospitalidade nesse costume que ecoa em todo o festival, seja com a deusa sendo chamada para dormir em sua “cama”, ou quando as famílias deixam um lugar à mesa para Bríde. Vale a pena mencionar também o costume da procissão da brìdeag (“a pequena Bríde”), que era uma boneca feita de grãos e decorada com panos e fitas coloridas, flores, pedras ou qualquer coisa que encontrassem, desfilada pela aldeia com um grupo de meninas solteiras. No peito dessa boneca era colocado um cristal para simbolizar “a estrela que guiou Bríde” até os estábulos onde Maria deu a luz. Na Irlanda, temos algumas variações desse costume, onde a boneca poderia ser feita usando o pau da batedeira de manteiga, e meninos vestidos de mulheres também podiam se juntar à procissão. Nessas procissões na Irlanda, a menina mais bonita carregava a boneca, ou em alguns lugares, ela em si representava a santa. Nas Terras Altas da Escócia e nas ilhas escocesas, o festival também era chamado de La Cath Choileach, onde brigas de galos aconteciam, mostrando uma possível conexão da santa com o animal – é interessante observar também que galos eram sacrificados à santa na manhã do festival, caso não fosse encontrados vestígios da passagem da santa pela casa nas cinzas da lareira. Assim, podemos concluir que, apesar da santa ter atribuições que supostamente tem origens “pagãs”, não sabemos ao certo se o festival da santa possa ter tido origem no festival pré-cristão de Oímelc.

                Podemos ver que a St. Brígida possui uma abundante tradição literária e folclórica em todos os países gaélicos, mas em contrapartida, não podemos dizer o mesmo da deusa Brigit. Como já vimos, ela aparece unicamente no conto conhecido como “A Segunda Batalha de Moytura”, quando Ruadán, o filho de Brigit com Brés vai espionar o trabalho dos Tuatha Dé Danann, e contou para os fomorianos o trabalho dos deuses Goibniu, Luchtaine e Crédne. Ele pediu para esses três deuses fazerem uma lança para ele, e ao receber, arremessa a lança em Goibniu que tira do seu corpo e a arremessa de volta em Ruadán. Brigit então veio, gritou e chorou pelo seu filho, de forma que essa foi a primeira vez que os gritos e choros foram escutados na Irlanda. Na Escócia, temos um conto que Bríde desempenha um papel mais importante e proeminente, onde junto com o Angus escocês, é responsável por trazer a primavera para a Escócia e pôr um fim no reinado da rainha Beira – a deusa do inverno. De “mitologia”, isso é tudo o que temos.

                Por outro lado, a St. Brígida possui diversas lendas e histórias espalhadas por todos os países gaélicos, algumas das quais, possui uma origem supostamente “pagã”. Ela aparece principalmente em sua hagiografia, a Bethu Brigte, onde é relatado seu nascimento, os acontecimentos de sua vida, e como é de se esperar em uma santa, seus milagres. Vou abordar aqui somente os acontecimentos importantes que acredito que possam ter elementos “pagãos”, incomuns para o cristianismo, mas como para todas as outras coisas, vale a pena você mesmo ler a hagiografia de St. Brígida. Tudo começa, é claro, com o nascimento da santa. Na tradição cristã irlandesa, a St. Brígida é filha de Dubthach e neta de Demre. Certo dia, Dubthach comprou uma jovem escrava da região de Bregia chamada Broicsech, e casou-se com ela, que posteriormente engravidou. No entanto, Dubthach já tinha uma esposa, Brechtnat, que ficou com muito ciúme de Broicsech, exigindo que ela fosse vendida, pois caso contrário, exigiria seu dote de volta e iria embora. Dubhtach não queria vender a escrava, mas relutantemente, saiu com ela em sua carruagem até passar pela porta da casa de um feiticeiro chamado Mathgen, que então diz que a filha de Broicsech seria uma “maravilha para o mundo, e que ninguém igual à ela se encontraria na terra”. Ele também diz que os filhos de Brechtnat serviriam aos filhos de Broicsech, pois ela teria uma filha que seria nobre e reverenciada por todos os homens do mundo, e que “assim como o sol brilha entre as estrelas, a menina brilharia entre os homens.” Ao ouvir as profecias do feiticeiro, Dubthach desiste de vender sua escrava e volta com ela para casa. Dois bispos então vieram de Alba para a casa de Dubthach para profetizar o destino da filha de sua escrava, e então, outro feiticeiro vai até a casa de Dubthach perguntando se Dubthach a venderá, e este consente. Os bispos então o aconselham a vender a escrava, mas não o fruto de seu ventre. Broicsech é então vendia para esse feiticeiro e é levada para sua casa, mas ao chegar lá, um poeta chega e compra Broicsech, mas o feiticeiro vende somente a escrava, e não a filha que posteriormente se tornaria a santa mais famosa da Irlanda. O feiticeiro dá uma festa em sua casa, convidando o rei de Conaille e sua esposa, que também estava grávida. Um profeta tinha vindo com o rei e a rainha, e o poeta pergunta qual será a melhor hora para a escrava dar a luz, e o profeta responde que a menina nasceria pela manhã, ao nascer do sol, e que ela ultrapassaria todas as crianças na Irlanda. Então em uma manhã, ao nascer do sol, a escrava estava saindo de casa com um recipiente de leite em sua mão, e ao colocar um pé para fora da soleira da casa, deu à luz a St. Brígida, que foi banhada posteriormente no recipiente de leite que a escrava carregava.

                A forma única de alimentação da St. Brígida, através do leite de uma vaca branca com orelhas vermelhas (ecoando um tema constantemente associado com o outro mundo), já foi melhor descrito nos parágrafos acima, assim como sua associação com o fogo, com o leite e os laticínios em geral. Outro conto que não foi mencionado, no entanto, é a fabricação de ale pela St. Brígida, que também consta no Bethu Brigte: perto da Páscoa, a santa teve uma vontade de fermentar ale (um tipo especial de cerveja) para as igrejas que eram próximas a sua, e a fermentação de ale era incomum naquela época. A St. Brígida só tinha uma medida de malta e nada mais que duas tinas, mas a santa e outras virgens fizeram um tonel com uma das tinas, e encheram a outra com cerveja. Através do poder de St. Brígida, as virgens distribuíram a ale para sete igrejas durante os oito dias da Páscoa, e não importa quanto as virgens tiravam ale da tina, ela sempre permanecia cheia. Quando a Páscoa passou, a santa perguntou às virgens se tinha sobrado ale, e duas delas trouxeram para ela um tonel cheio de água, e quando a santa pensou que a água fosse ale, a água se transformou no produto imediatamente.

                Sobre a família da deusa Brigit, a mitologia nos conta que ela era a filha do Dagda, mas sua mãe era desconhecida. Ela foi dada em casamento para Brés, o filho de Ériu e Elatha (que era um fomoriano), representando então uma possível aliança entre as duas raças. Com Bres, ela teve um filho, Ruadán, que foi morto posteriormente na segunda batalha de Moytura por Goibniu. Em algumas fontes, diz-se que Brigit e Brés eram os pais de Brian, Iuchar e Iucharba, contrariando o fato mais comumente encontrado que diz que Turenn era o pai dos três irmãos, ao invés de Brés. Nesse caso, se Brigit teve um relacionamento com Turenn, é impossível dizer. Os irmãos de Brigit são Angus mac Og, Midir, Finnbarr, Cermait Milbel (ou Cermait Coem), Aed Minbhreac (ou Aed Caem, ou ainda, Aed Luirgnech), Bodb Dearg, Áine e Ainge. Na tradição escocesa, Bríde não tem pais conhecidos e é amante de Angus, uma suposta “versão” do Angus mac Og irlandês. Na tradição cristã, a St. Brígida é filha do druida Dubthach e da escrava Broicsech, e como uma virgem, não teve maridos e consequentemente, não teve filhos.

                A politeísta gaélica e estudiosa Kilmeny, em seu blog Reul-iuil Bríde, nos dá uma interessante visão moderna das cores que poderiam ter sido associadas com a deusa Brigit. Ela começa dizendo que, ao contrário da crença popular que associa a deusa com a cor vermelha (e até as representações modernas que a retratam sendo ruiva), algumas fontes nos contam que a Bríde escocesa possuía o cabelo castanho-dourado, como o Carmina Gadelica e o Wonder tales from Scottish Myth and Legend. Além disso, a maioria das fontes e associações que podemos traçar com ela aponta claramente para as cores branco e dourado: suas vestes são descritas como brancas no livro Wonder tales from Scottish Myth and Legend, o dente-de-leão que possui uma conexão muito forte com ela muda de cor, do dourado para o branco, as comidas tradicionalmente associadas com ela são brancas (como o leite) e o dourado (como a manteiga), algumas fontes descrevem a Brideóg sendo feita com panos brancos e os juncos usados para a fazer a cruz de Brigit ficam dourados quando secam. Por último, ela diz que a conexão com o vermelho acaba sendo pouco comprovada, já que não existe em nenhuma fonte a conexão de Brigit com tal cor – apenas o ostraceiro, pássaro ligado à santa, que tem vermelho como uma de suas cores, além do preto e branco. Seguindo essa linha de pensamento da Kilmeny, podemos observar também que as campânulas (planta muitíssimo associada com a santa escocesa) é branca, assim como o pano de linho da cama de Bríde. Voltando para a conexão que Hilarie Wood faz com a Ushas hindu, ela reforça dizendo que o vermelho, o dourado e o vermelho-dourado são cores frequentemente associadas com Ushas, que também é descrita sendo “branca”. Adicionalmente, Eos também está ligada com as cores rosa e dourado. Com essas informações, podemos concluir que o branco e dourado podem ter sido cores associadas com a deusa (se aglutinarmos as atribuições da santa com a da deusa pré-cristã), e que o vermelho é pouquíssimo provável de ter sido associado com ela, apesar da crença moderna que atribui a conexão provavelmente devido ao fogo. No entanto, devemos nos lembrar que esta é uma gnose14 pessoal da Kilmeny, e se tem relevância ou não, fica a critério do praticante que deseja usar isso em suas práticas.

                Em relação à árvores e plantas, já vimos que a St. Brígida possui uma relação muito forte com o carvalho (segundo as lendas, a santa escolheu um sítio onde tinha um grande carvalho para construir seu monastério Cill Dara, “a igreja do carvalho”, que posteriormente deu o nome ao condado onde se localizava, Kildare), as campânulas-brancas (a flor de Bríde segundo as lendas escocesas), o dente-de-leão (que é chamado de “pequeno entalhe de Bríde”, em referência para as suas folhas serrilhadas), a bétula (um dos materiais em que se confeccionava a varinha de Bride, assim como o zimbro e o salgueiro-branco), o espinheiro (além de ser um dos materiais com o qual se confeccionava a varinha de Bride, os pedaços de pano eram frequentemente amarrados em árvores de espinheiro), prímulas, margaridas e o junco (com o qual se faz a Cros Bríde). Donald Mackenzie também menciona o lariço e violeta, mas não encontrei menções destas plantas estando relacionadas à Bride no folclore escocês. É importante ressaltar que tais flores nascem no início da primavera, e hoje, podemos associar a ela quaisquer flores e ervas que nascem no início da primavera em sua região. A Ogham15 do carvalho, da bétula, do salgueiro-branco e do espinheiro também pode ser usada para representá-la. Ela está intimamente ligada ao condado de Kildare, na Irlanda, onde fundou seu monastério, e ao Rio Liffey, conforme mencionado em uma oração medieval para a santa; o significado de seu nome pode também significar que ela talvez estivesse relacionada à montanhas e lugares altos no geral, e como deusa da lareira, é razoável relacioná-la com a lareira e a cozinha. As oferendas tradicionais para a santa são: leite, manteiga, queijo, pão, sal, mingau, bolos, água, feixes de grãos, sowans (uma bebida escocesa), colcannon (purê de batata com repolho), bruitíns (purê de batata com manteiga e cebola), bairin-bréac (um pão doce misturado com frutas secas, tipo um panetone), torta de maçã, mingau, agulhas, alfinetes, pedaços de pano branco, cruzes de Brigit e o bonnach Bríde (um bannocks servido com manteiga, queijo ou geleia). Como a deusa pré-cristã estava ligada à poesia e metalurgia, me parece apropriado ofertar joalheria ou algum arte em metal, assim como réplicas em miniatura dos instrumentos de ferreiros, uma poesia ou chamar por ela antes de compor música, canções ou poemas. Uma chama, materiais de costura e ordenha e gestos de hospitalidade também me parecem bastante apropriados para honrar a deusa. O folclore e o creideamh-sí16 dizem que o caudle, cerveja, bolos de aveia, ovos, carne, flores, música, dentre muitos outros já citados acima, são ofertas aceitáveis para todo o povo do Sídhe, logo, qualquer uma dessas oferendas são apropriadas para qualquer divindade que pertença à raça dos Tuatha Dé Danann. Os animais que possuem uma conexão com a santa são: a vaca, o galo, o pintarroxo, o ostraceiro e o pato selvagem. A deusa pré-cristã é ligada ao boi (ela tinha dois bois chamados de Fe e Men, que originaram o nome da planície de Femen) e o javali (ela tinha Triath, que era chamado de “o rei dos suínos”). Como uma deusa/santa com fortes ligações com o fogo, me parece apropriado que as orações sejam feitas diante de uma chama, e as ofertas, queimadas; como deusa da aurora, as oferendas e orações podem ser feitas durante o amanhecer. E por último, o Oímelc é a ocasião mais propícia para honrá-la, mas se levarmos em conta que ela é uma deusa da primavera, me parece razoável honrá-la especialmente nos meses primaveris e no equinócio de primavera.

                Finalmente, com toda a informação dada acima, podemos ver o quanto Brigit é uma deusa multifacetada: seus atributos começam desde a lareira e o fogo doméstico, passando pela metalurgia, e indo até a primavera e a aurora! Sua figura foi tão importante para os gaélicos antigos que seu culto supostamente se estendeu até mesmo após a chegada do cristianismo, permanecendo até os dias de hoje na forma de uma santa. Como deusa da lareira, não é de espantar tamanha importância dessa deusa tão querida; até recentemente, a lareira era considerada ser o centro do lar e seu fogo queimava lá o ano inteiro – era na lareira que a mulher cozinhava e era na lareira que se passava o conhecimento de geração em geração através de antigas histórias e poesias. E acima de tudo, Brigit presidia sobre o calor das chamas da lareira que uniam a família em volta dela nas frias noites de inverno, dando-lhes a esperança de que logo a vida renasceria e a primavera viria consigo para o mundo.

Resumo

Nomes e títulos: Brigit (possivelmente, “Exaltada” ou “Elevada”), Brígh, Brigid, Brìde ou Bride (na Escócia) e Breeshey (na Ilha de Man).

Parentesco e linhagem divina: A deusa Brigit é a filha do Dagda com uma mãe desconhecida. Seu marido é Bres, com quem teve Ruadán, e em algumas versões, os três irmãos da poesia Brian, Iuchar e Iucharba. Seus irmãos são Angus mac Og, Midir, Finnbarr, Cermait Milbel (ou Cermait Coem), Aed Minbhreac (ou Aed Caem, ou ainda, Aed Luirgnech), Bodb Dearg, Áine e Ainge.

Características físicas e temperamento: A única descrição física que temos de Brigit é ela sendo descrita tendo cabelos castanhos-dourados (cobre?), ao invés da concepção romantizada que a retrata sendo ruiva.

Atributos: Deusa da poesia, da metalurgia, da medicina, da chegada da primavera, da fertilidade, dos partos, dos lamentos fúnebres, do fogo, da lareira, das atividades domésticas, e possivelmente, da aurora.   

Contos e histórias: Na mitologia, Brigit aparece rapidamente na Segunda Batalha de Moytura, quando seu filha Ruadán é morto e ela o lamenta, inventando então os lamentos fúnebres. Na tradição escocesa, ela supostamente aparece como o espírito da primavera, junto com o Angus escocês, trazendo a primavera para a Escócia e acabando com o reinado invernal da rainha Beira. Em sua hagiografia, há o conto que relata o nascimento da St. Brígida, seus milagres, sua relação com o fogo, e sua relação com o leite e as vacas.

Cores: Branco (provavelmente simbolizando a pureza e a limpeza), e supostamente, o dourado (fazendo referência aos itens relacionados com a deusa/santa).

Árvores e plantas: Carvalho, bétula, espinheiro, salgueiro-branco, zimbro, campânulas-brancas, dente-de-leão, margaridas, prímulas e o junco. Provavelmente, também o lariço e violetas. Em sua região, pode-se ofertar quaisquer flores que crescem na chegada da primavera.

Animais: Vacas, javalis, bois, ostraceiro, pintarroxo, pato selvagem e o galo.

Lugares: Kildare e o rio Liffey. Forjas e hospitais, e como seu nome sugere, lugares elevados. Casas, cozinhas e lareiras.

Instrumentos/armas: O bastão branco de bétula, com o qual ela soprava vida na boca do inverno morto para acordar a natureza que adormecia durante o frio do inverno. Instrumentos de ordenha e forja também podem ter ter sido seus instrumentos. 

Símbolos: O mais conhecido é a Cruz de Brigid. Algumas teorias atribuem o significado de fogo e sol para a cruz de quatro pontas, e outras, atribuem para a de três pontas a questão da triplicidade de Brigit (ela possuía mais duas irmãs também chamadas de Brigit) ou pode ser uma reminiscência da triskele gaélica.

Festival: Oímelc

Oferendas: leite, manteiga, queijo, pão, sal, mingau, bolos, água, feixes de grãos, sowans (uma bebida escocesa), colcannon (purê de batata com repolho), bruitíns (purê de batata com manteiga e cebola), bairin-bréac (um pão doce misturado com frutas secas, tipo um panetone), torta de maçã, mingau, agulhas, alfinetes, pedaços de pano branco, cruzes de Brigit, o bonnach Bríde (um bannocks servido com manteiga, queijo ou geleia), joalheria ou algum arte em metal, assim como réplicas em miniatura dos instrumentos de ferreiros, uma poesia ou chamar por ela antes de compor música, canções ou poemas, uma chama, materiais de costura e ordenha e gestos de hospitalidade também me parecem bastante apropriados para honrar a deusa. O folclore e o creideamh-sí dizem que o caudle, cerveja, bolos de aveia, ovos, carne, flores, música, dentre muitos outros já citados acima, são ofertas aceitáveis para todo o povo do Sídhe, logo, qualquer uma dessas oferendas são apropriadas para qualquer divindade que pertença à raça dos Tuatha Dé Danann.



Bibliografia e literatura recomendada
Keening and other Old Irish Musics, de Breadán Ó Madagáin. (apenas o trecho)
Wonder tales from Scottish Myth and legend: The coming of Angus and Bride
Carmina Gadelica, 70: (notes) Genealogy of Bride
Carmina Gadelica, 82: Blessing of the Kindling
Carmina Gadelica, 85: Smooring the Fire

Notas de rodapé

1. Glossário de Cormac. É um antigo glossário irlandês contendo etimologias e explicações de mais de 1400 palavras irlandesas, vista sob a ótica de Cormac mac Cúileannáin, o rei de Munster.

2. A Segunda Batalha de Moytura. A Segunda Batalha de Moytura foi uma épica batalha entre os Tuatha Dé Danann e os fomorianos. Acredita-se que essa seja uma batalha cósmica entre duas tribos de deuses que representam a ordem e o caos, respectivamente. A batalha foi vencida pelos Tuatha Dé Danann e os fomorianos foram expulsos da Irlanda. Para ler o mito original traduzido, clique aqui.

3. Tuatha Dé Danann. Uma das quatro tribos de deuses que chegaram à Irlanda, o título é traduzido como “A tribo dos deuses de Anu” ou “A tribo dos deuses das artes”. Eles personificam a civilização, a ordem, as práticas humanas de subsistência e os ofícios, como a tecelagem, metalurgia e medicina. Ao chegarem à Irlanda, lutaram contra os Fír Bolg, e depois, contra os fomorianos para se apossar da ilha, até serem derrotados pelos milesianos, onde se refugiaram debaixo da terra arruinando as colheitas dos homens até um pacto ser feito entre as duas tribos. Outras divindades dessa tribo incluem Lugh, Bóann, Goibniu, Angus, etc.

4. Proto-céltico. Também conhecido como “celta comum”, é o suposto ancestral de todas as línguas célticas conhecidas (o escocês, irlandês, manês, córnico, bretão, galês, etc.), que foi falado por volta do ano 800 a.C.

5. Topography of Ireland. Conhecido em latim como Topographia Hibernica, é um relato das paisagens e povos da Irlanda, escrito por Gerald Cambrensis, por volta de 1188.

6. Bethu Brigte. O Bethu Brigte é a hagiografia da St. Brígida, que descreve seu nascimento, os acontecimentos de sua vida e seus milagres. É de autoria desconhecida, e foi traduzida para o inglês por Whitley Stokes.

7. Carmina Gadelica. É um trabalho de Alexander Carmichael, que reuniu oralmente as orações e bênçãos dos povos das Terras Altas da Escócia, onde muitas dessas orações possuem uma origem supostamente pagã, a julgar pelos elementos presentes nas orações.

8. O link para ver os tipos de Cruzes de St. Brígida é esse.

9. O Colóquio com os Dois Sábios. Um diálogo entre dois sábios que falam sobre poesia e conhecimento. Traduzido para o inglês por Whitley Stokes.

10. O Destino dos Filhos de Turenn. É um mito irlandês do Ciclo Mitológico, que relata as viagens dos três filhos de Turenn – Brian, Iuchar e Iucharba – para vários lugares do mundo a fim de conquistarem para Lugh diversos itens encantados que serão usados posteriormente na Segunda Batalha de Moytura, em compensação pelos três irmãos terem matado seu pai, Cian.

11. O Caldeirão da Poesia. É um texto irlandês datado do século VII d.C., onde o autor (que é um poeta, provavelmente) fala sobre sua arte (a poesia) e como a inspiração é dada para as pessoas através do movimento de três caldeirões, que nascem em cada um de nós, que por sua vez são “ativados” através de emoções e acontecimentos cotidianos.

12. Para saber mais sobre essas técnicas, sugiro o maravilhoso e completo artigo da Nora Chadwick, “Imbas Forosnai”, clicando aqui.

13. Para saber mais sobre o Oímelc, sugiro esse artigo que traduzi da Annie Loughlinn, “Là Fhèill Brìghde”, clicando aqui. Também já escrevi sobre o assunto no blog “Corrente Celta”, onde sou colunista, no texto “O início da primavera e os ritos de Brigid”, que você pode ler clicando aqui.

14. Gnose Pessoal. Uma gnose pessoal é um termo usado pelos reconstrucionistas em geral (não só pelos gaélicos) para designar uma informação que foi encontrada através de inspiração, meditação ou rituais, que não tem atestação histórica, isto é, que nunca foi encontrado. Quando essa informação é confirmada pela arqueologia, mitologia ou folclore, ela se torna uma gnose pessoal verificada.

15. Ogham. Um alfabeto cuja criação é atribuído a Ogma, o deus gaélico da fala, da escrita e da eloquência. Possui 20 letras chamadas de fedas, divididas em 4 grupos de 5 fedas chamados de aicme. Um quinto aicme foi adicionado posteriormente para suprir os sons fonéticos que não existiam na língua irlandesa, mas muitos praticantes não o consideram em seus estudos e práticas por ter tido uma origem externa. Cada feda representa uma árvore e tem associações com rios, animais, ofícios e outros correlatos. Acredita-se que o Ogham possa ter tido usos divinatórios no passado, pois há relatos que os pagãos gaélicos usavam uma técnica de divinação conhecida como fidlanna, ‘adivinhação pela madeira’, ou ainda, que seja parte de um sistema mágico-religioso, onde cada feda representa um atributo mágico diferente.

16. Creideamh-Sí. É traduzido como a “Fé das Fadas”, e é um conjunto de crenças e práticas que perdura até hoje em algumas áreas rurais da Irlanda. Consiste em vários contos e práticas folclóricas como ofertar leite e manteiga para o Povo Encantado, ou o Povo das Fadas, e tomar medidas para se proteger deles.       

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