terça-feira, 19 de março de 2013

A Segunda Batalha de Magh Tuired


A Segunda Batalha de Magh Tuired

 Após Nuada perder seu braço na Primeira Batalha de Magh Tuired, Brés assume o reinado da Irlanda e se torna um rei tirando. Os grandes Deuses como Ogma e Dagda são reduzidos a escravos, a serviço de Bres. Ficou uma situação insuportável para todos os Deuses, e o conflito teve seu pico quando o poeta Cairpre visita Brés e é maltratado por ele. Os Tuatha Dé então se reúnem com Bres, pedindo-lhe para que a situação melhore, e Brés pede por mais sete anos de reinado, dizendo que faria com que as coisas melhorassem.

 Com isso, Brés estava relutante em desistir do reinado, e resolve então ir com sua mãe Ériu procurar pelo seu pai, Elatha, para pedir ajuda aos campeões Fomoire para governar a força. Quando chegaram na terra dos Fomoire, eles viram grandes e belas assembleias, e entraram na mais nobre delas, onde estava Elatha. Lá, os cães e cavalos dos Tuatha Dé e dos Fomoire disputaram corrida, pois era costume naquela época, e os cães e cavalos dos Tuatha Dé foram mais velozes. Inconformados com a perda, os Fomoire decidem agora uma luta de espadas, e Brés luta com seu pai, Elatha, mas quando Brés levanta a mão para pegar a espada, seu pai reconhece um anel que ele havia dado para sua mãe, Ériu, e então soube imediatamente que Brés era seu filho. Eles então contaram a Elatha tudo o que tinha acontecido.

 ‘O que te traz aqui?’ perguntou Elatha. ‘Nada além da minha injustiça e arrogância. Eu vim pedir pelos teus campeões para tomar a terra por força,’ responde Brés. ‘Você não a ganhará por injustiça,’ disse Elatha. Elatha então os envia até Balor, e este concorda em tomar a Irlanda a força dos Tuatha Dé, e partem então na jornada para a Batalha.

 Nesse meio tempo, Nuada toma de volta o reinado da Irlanda por meio dos feitiços de Miach e Airmid, os curandeiros. Havia uma grande festa em Tara quando o deus Lugh chegou, e quando este chegou, Nuada vendo os poderes do jovem guerreiro, decidiu fazê-lo Rei.

 No dia seguinte, Lugh, Ogma e Dagda se reuniram em Grellach Dollaid, junto com Goibniu e Dian Cécht. Eles passaram um ano inteiro em uma conversa secreta, e por isso, o lugar foi posteriormente chamado de ‘Amrún dos Homens das Artes’. Eles então chamaram todos os Druidas, cocheiros, médicos, ferreiros, juízes e ricos donos de terras. Todos eles conversaram secretamente. Lugh então pergunta ao feiticeiro Mathgen o que ele faria na batalha, ‘Eu sacudirei as doze montanhas-chefes¹ da Irlanda para que seus picos possam cair sobre os Fomoire’, Mathgen responde. Depois, ele pergunta ao copeiro o que ele faria na batalha, ‘Eu farei com que os Fomoire sintam sede, mas não poderão beber das águas dos doze lagos-chefes e rios-chefes da Irlanda²,’ responde o copeiro.

 O Druida Figol mac Mámois então se levanta e diz, ‘Eu farei com que chova três chuvas de Fogo nas tropas dos Fomoire. Eu tirarei dois terços de sua força, coragem e habilidade. Eu os impedirei de urinar, assim como seus cavalos. Cada respiração que os Tuatha Dé inalarem aumentará sua coragem e força, e mesmo se eles ficarem na batalha por sete anos, eles não vão ficar cansados.’ O Dagda então disse, ‘O poder que todos vocês se gabam, eu tenho.’ O povo então disse, ‘Mas você é o dag-dia, o Bom Deus.’ E foi nesse momento que ele ganhou esse nome: Dagda, isto é, O Bom Deus.

 Por sete anos eles ficaram se preparando para a batalha, e o druida Figol ficava profetizando a batalha e fortalecendo os Tuatha, dizendo que ‘a batalha seria recompensadora’. Nesse tempo, Lugh manda o Dagda espionar o campo dos Fomoire, pedindo por uma “trégua”, e esta é concedida por um tempo.

 Depois disso, os Fomoire avançaram para Scétne, enquanto os Homens da Irlanda estavam em Magh Aurfolaig. ‘Os homens da Irlanda ousam querer travar batalha contra nós?’ diz Brés. ‘Deixem eles,’ diz Indech, ‘pois eu darei o mesmo, e seus ossos serão quebrados se eles não pagarem o imposto.’ 

 Devido ao grande número de habilidades que Lugh tinha, eles concordaram em colocar nove guerreiros³ ao redor dele para protegê-lo, pois seria um desperdício se Lugh morresse em batalha e perdesse todos aqueles dons. Vários Tuatha Dé então se reuniram ao redor de Lugh, e ele pergunta a cada um deles o que farão na batalha.

 Lugh então pergunta ao deus Goibniu o que ele fará em batalha, e este responde, ‘Mesmo se os Tuatha Dé ficarem na batalha por sete anos, não lhe faltarão dardos ou espadas, pois mesmo que estas quebrarem, eu providenciarei uma nova arma. Nenhuma ponta de lança que eu farei perderá seu alvo, nenhuma carne que será penetrada por ela provará da vida novamente. Dolb, o ferreiro Fomoire não pode fazer isso, mas eu posso.’ Lugh então pergunta ao deus Dian Cécht o que ele fará em batalha, e o Médico responde, ‘Eu curarei todos os homens feridos em batalha, a menos que sua cabeça seja cortada.’ Lugh então pergunta para Crédne, e o Braseiro responde, ‘Eu providenciarei rebites para suas lanças, bainhas para suas espadas e ornamentos para seus escudos.’ Lugh pergunta a Luchta, e o Carpinteiro responde, ‘Eu providenciarei os escudos e as lanças que eles necessitarem.’

 O campeão Ogma então diz, ‘Eu serei um desafio para o Rei deles e estarei contra seus vinte e sete amigos. Somente eu matarei um terço da tropa para os Homens da Irlanda.’ A Grande Rainha Morrígan diz, ‘Eu serei rápida, eu matarei, eu destruirei.’ Lugh pergunta aos feiticeiros o que elas vão fazer, e elas respondem, ‘Nós tiraremos dois terços de sua força, e os impediremos de urinar.’ Os copeiros respondem, por sua vez, ‘Nós traremos uma grande sede sobre eles, e eles serão incapazes de encontrar uma bebida.’ Os druidas começam, e dizem: ‘Nós traremos chuvas de fogo sobre suas faces, de forma que eles não poderão olhar para cima.’ O poeta Cairpre então diz, ‘Eu farei o feitiço do glann dicenn para eles, de forma que os satirizarão.’

 As bruxas Bé Chuille e Diannan então dizem, ‘Nós encantaremos árvores, pedras e torrões de terra para que estes lutem contra os Fomoire, e estes, ficarão aterrorizados com esta pavorosa visão.’ O Dagda por sua vez, diz: ‘Eu lutarei através de destruição, matança e feitiçaria. Seus ossos debaixo de minha Clava serão tão pequenos quanto pedrinhas na sola de cavalos.’ E dessa forma, Lugh continuou perguntando o que cada um faria em batalha, fortalecendo-os para que cada se sentisse com a força e coragem de um rei ou um grande senhor.

 As armas dos Fomoire eram cegas, mas as dos Tuatha Dé não eram. Se um dos Fomoire fossem mortos na batalha, eles não voltavam no dia seguinte, pois as armas dos Tuatha Dé eram tão fortes que feririam mortalmente qualquer um deles. Essas armas poderosas eram feitas pelos Deuses das Artes: Goibniu, Luchta e Crédne. Goibniu, o ferreiro, fazia os dardos, as pontas das lanças e as espadas. Luchta, o carpinteiro, fazia os corpos das lanças, e Crédne, o braseiro, fazia os rebites e os ornamentos. Os feridos mortalmente também se recuperavam no Poço de Sláine, que Dian Cécht e seus filhos fizeram.

 Finalmente, chega então dia da grande batalha. Os Fomoire marcham para fora de seus acampamentos e se formam em grandes batalhões. Não havia um soldado ou chefe que não tinha uma armadura, um capacete ou uma espada. Enfrentá-los aquele dia seria como pular de um precipício, entrar em um ninho de serpentes ou colocar a face diante do fogo. Os Fomoire eram guiados pelos seus líderes: Balor, Brés, Tuire, Goll, Irgoll, Loscennlomm, Indech, Ochtríallach, Omna, Bagna e Elatha.

 Do outro lado do campo, surgiram os Tuatha Dé. Não haviam deuses tão belos quanto eles. Lugh foge de sua guarda, junto com seu cocheiro, e corre em volta dos Tuatha Dé cantando feitiços com um olho fechado e com uma perna, a fim de fortalece-los. As tropas deram um grande grito e a batalha começou.

 Muitos belos homens caíram naquela batalha. Grande foi a matança naquele dia. Vergonha e orgulho estavam lado e lado, corriam rios de sangue naquela planície, e no chão, escudos e espadas quebrados, em meio aos corpos dos guerreiros mortos: tanto Fomoire quanto Tuatha Dé. Gritos, barulhos de espadas e gemidos era tudo o que se ouvida – terrível era aquela cena! Nuada Mão de Prata e Macha, filha de Ernmas, são mortos por Balor.

 Lugh e Balor então se encontram para um duelo. Era necessário que o olho de Balor ficasse sempre fechado, pois seu único olho que tinha em sua grande cabeça causava a morte a todos que olhassem para ele, pois seus pais eram druidas, e um dia, quando estavam fazendo uma magia, Balor olhou pela janela e a fumaça do feitiço entrou em seu olho, tornando-o venenoso.

 ‘Abram os meus olhos para que eu possa ver este pequeno insolente,’ disse Balor aos seus soldados. Quando a pálpebra de Balor foi levantada, Lugh arremessou uma pedra, fazendo com que seu olho saísse de sua cabeça, causando a morte de uma parte da tropa de Fomoire que olhou para ele. A coroa que havia em sua cabeça foi arremessada e cravou no peito de Indech, que morreu na hora. Nisso, Morrígan fortalecia os guerreiros, incitando-os para que lutassem ferozmente.

 Os Tuatha Dé então ganham a batalha, e os Fomoire são expulsos para o mar. O Fomoire Loch Lethglas é pego por Lugh, e ele pede para ser liberado. ‘Me conceda três favores e eu te libertarei,’ disse Lugh. ‘Eu farei com que os Fomoire não voltem mais para a Irlanda, qualquer julgamento de sua língua será cumprido, e isso dará conta até o fim de minha vida.’ Loch então é poupado, e Lugh o pede para nomear seus cavalos, seus cocheiros e seus incentivos. Lugh então pergunta qual foi o número de líderes e reis Fomoire mortos em batalha, e Loch responde que foi 87.897, sem contar com os camponeses e soldados comuns4.

 Depois disso, eles conseguem encontrar Brés, e tentam mata-lo, mas este responde: ‘É melhor me poupar.’ ‘E por que devemos te poupar?’ pergunta Lugh. ‘Se me pouparem, farei com que as vacas da Irlanda sempre deem leite,’ responde ele. Lugh então consulta seu sábio, Máeltne, e ele responde: ‘Brés não deve ser poupado por isso, pois ele não tem controle sobre o tempo das vacas, uma vez que, quando as vacas morrerem, este poder não será passado para sua prole.’ Brés então fala novamente, ‘Se me pouparem, eu concederei a colheita em cada trimestre’. Máeltne então diz, ‘Este não é o apropriado, pois a primavera é para plantar, o verão para a maturação da semente, o outono para colher e o inverno para consumir. Tudo tem seu tempo.’ Lugh então pede para Brés ensinar aos homens a hora certa de plantar, arar e colher. Brés finalmente ensina à Lugh as Leis da Agricultura, e é liberado.

 Ogma então encontra a Espada de Tethra: Orna. O deus Ogma então tira a bainha da espada e a limpa; posteriormente, canta feitiços sobre a espada para que esta fale todos os feitos que já fez enquanto era de Tethra, pois as espadas daquela época tinham essa habilidade.

 Depois disso, os três Grandes Deuses Lugh, Ogma e Dagda seguem os Fomoire até seu acampamento, pois eles haviam roubado a Harpa do Dagda. Eles então chegam até o Saguão onde estavam os Fomoire, e o Dagda canta um feitiço para que a Harpa venha voando até ele. A Harpa então sai da parede e voa até as mãos do Dagda, e no caminho, mata nove Fomoire. Quando a tropa vê isso, o Dagda toca a Melodia da Tristeza, fazendo com que as mulheres Fomoire chorassem. Depois disso, toca a Melodia da Alegria, fazendo com que as mulheres e crianças rissem, e finalmente, toca a Melodia do Sono, fazendo com que as tropas dormissem, e com isso, eles saíram de lá são e salvos. Quando iam embora, o Dagda também trouxe de volta à Irlanda o gado que os Fomoire tinha aprisionado, e estes, começaram a pastar.

 Depois que a sujeira e os corpos foram retirados da Irlanda, Morrígan sobe até os picos das colinas para proclamar a vitória. Badb também relata os seus atos na batalha, e também profecia o que acontecerá no fim do mundo. Depois da batalha que terminou, os Fomoire foram derrotados, e a Irlanda estava em paz – por enquanto.

Rodapé:

 1. As montanhas-chefes da Irlanda são: Slieve League, Denda Ulad, as Montanhas Mourne, Brí Erigi, Slieve Bloom, Slieve Snaght, Slemish, Blaíslíab, Montanha Nephin, Sliab Maccu Belgodon, as colinas Curlieu e Croagh Patrick.

 2. Os lagos e rios-chefes da Irlanda são: Lough Dearg, Lough Luimnig, Lough Corrib, Lough Ree, Lough Mask, Strangford Lough, Belfast Lough, Lough Neagh, Lough Foyle, Lough Gara, Loughrea, Marlóch, Bush, Boyne, Bann, Blackwater, Lee, Shannon, Moy, Sligo, Erne, Finn, Liffey e Suir.

 3. Os protetores de Lugh eram: Tollusdam, Echdam, Eru, Rechtaid Finn, Fosad, Feidlimid, Ibar, Scibar e Minn.

 4. A conta matemática é: 3 + 3 x 20 + 50 x 100 + 20 x 100 + 3 x 50 + 9 x 5 + 4 x 20 x 1000 + 8 + 8 x 20 + 7 + 4 x 20 + 6 + 4 x 20 + 5 + 8 x 20 + 2 + 40 + 91. Contando com os soldados e camponeses: 7 + 7 x 20 x 20 x 100 x 100 + 91.

Fonte: Cath Maige Tuired, “A Segunda Batalha de Magh Tuired”. (Tradução de Elizabeth A. Grey).

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