sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Yule/Hogmanay

Fonte: Site ‘Tairis’, Yule/Hogmanay – Part One, disponível em: <http://www.tairis.co.uk/festivals/yulehogmanay-part-1/>. e Yule/Hogmanay – Part Two, disponível em: <http://www.tairis.co.uk/festivals/yulehogmanay-part-two/>. All content by Annie Loughlin ©2015-2016.  

Yule/Hogmanay

PARTE I

                Enquanto que o Ano Novo na Irlanda parece nunca ter sido um grande foco no calendário festivo,1 o entusiasmo para essa época do ano na Escócia é indiscutível. Apesar de nunca ter sido considerado um Dia Trimestral como Bealltainn, Lùnastal, Samhainn e Là Fhèill Brìghde, o Hogmanay – como o Ano Novo é conhecido na Escócia – é bastante tratado como tal, em termos das muitas tradições associadas com o dia.2 O Hogmanay não apenas engloba o Ano Novo (como é conhecido desde o ano 1600), ele anuncia uma época de purificação, divinação, banquetes e bebedeiras, fantasias e jogos.


                Devido à história um pouco complicada do Natal na Escócia – com a proibição das Igrejas de qualquer celebração do dia no século XVI – os costumes que podem ser encontrados nessa época do ano são frequentemente encontrados tanto no Yule como no Hogmanay, ou Ano Novo, uma vez que muitas das tradições de Yule foram simplesmente transferidas de um festival para o outro a fim de evitar punições. As ligações entre os dois festivais podem ser vistas nos nomes dados para os dias, com o Natal sendo conhecido como An Nollaig Mhor – o Grande Natal – e o Ano Novo como An Nollaig Bheag – o Pequeno Natal.3 Tendo isso em mente, estaremos vendo ambas as datas no seguinte artigo (que teve que ser dividido em duas partes):

  • ·         Yule
  • ·         Hogmanay
  • ·         O Ano Novo
  • ·         As Procissões e Fogueiras
  • ·         O Ano Novo na Irlanda
  • ·         Conclusão


Yule

                O período do Natal é geralmente conhecido como Nollaig nas partes gaélicas da Escócia, mas nas áreas onde a influência nórdica é particularmente forte, ‘Yule’ é um termo bastante permutável.

                Historicamente, e para a maioria, a ênfase de muitos costumes nessa época foi para o Hogmanay, graças em grande parte aos esforços da Igreja da Pós-Reforma na Escócia para suprimir e então abolir as celebrações do Natal. O dia não era mais uma desculpa para a embriaguez e o abuso de festas, mas uma observância séria, austera, piedosa e puritana sem o papismo do passado.4 No entanto, em algumas áreas da Escócia onde a influência nórdica era mais forte, as festividades do Yule permaneceram imperturbáveis, mas em geral, as tentativas de banir o Natal simplesmente significou que o foco mudou para o Ano Novo ao invés disso, e havia pouco o que a Igreja podia fazer para desencorajá-lo.5 A Igreja, de certa forma, conseguiu o que queria e as pessoas tinham suas festividades...

                Nem todo mundo estava tão interessado em simplesmente desistir de suas tradições de Yule e mudá-las para uma data diferente. Como resultado da proibição, as celebrações natalinas foram mantidas furtivamente, uma vez que qualquer prova evidente de celebração das festividades era uma ofença punível. Ao invés de ser uma celebração social e comunitária, o Natal veio a se tornar uma ocasião familiar, mantida discretamente dentro de casa. Aqueles que fossem descobertos ignorando a proibição da celebração do Natal eram presos e punidos, e até mesmo comprar de um padeiro o pão de Yule era uma ofensa. Em 1583, McNeill registrou que era exigido que os padeiros entregassem os nomes de qualquer um que o tivesse pedido para fazer o pão de Yule, para que as autoridades pudessem lidar com os ofensores.6 Em 1650, “a Sessão da Igreja [NT: o termo original é Kirk Session, que consiste em um grupo de anciões que tomam certas decisões para a paróquia local] denunciou... diversas pessoas acusadas de jogar jollie at the goose [NT: segundo o Dictionary of the Scots Language, jollie at the goose é um tipo de jogo escocês] no Yule, a quem eles ordenaram “esperar os próximos dois Sabás na Igreja Old Colledge para serem examinados e sentarem-se juntos de qualquer forma diante da congregação pública, e lá eles serão remarcados por suas falhas”.7

                Eventualmente, no entanto, tornou-se evidente que o lado secular das celebrações do Natal não poderiam ser proibidas e a Igreja aceitou a derrota.8 Embora o Hogmanay permaneceu como o foco principal para as celebrações da estação, o Yule sobreviveu – apesar de mais discretamente.

                Na preparação para o período de Yule (Natal), as famílias se preparavam o máximo que podiam, uma vez que era tradicional não fazer nenhum trabalho desnecessário durante o período de Yule. As paredes da casa eram pintadas de branco, assim como as vacarias e os estábulos, e todos os lugares eram limpados e arrumados e a despensa era bem abastecida para as festividades adiante.9 Quaisquer itens da casa que tivessem sido emprestados voltavam para seus donos, de forma a mostrar boa vontade.11

                As casas eram decoradas com folhagens – no interior, o abeto era a árvore escolhida, mas pela costa, algas podiam ser usadas em seu lugar. Ramos de sorveira eram penduradas acima dos lintéis da casa e da vacaria para garantir a proteção contra o Bom Povo, que diz-se estarem ativos nessa época do ano, prontos para causar problemas para qualquer um que falhasse em tomar as devidas precauções.11

                Um queijo especial – o kebbuck de Yule (frequentemente aromatizado com alcaravias) – era preparado com antecedências para a ocasião, junto com bastante cerveja do tipo “ale”. Bolinhos [NT: scones] azedos, bolos, bannocks e pannich perm também eram preparados,12 mas o mais importante de todos estes era o especial pão de Yule – frequentemente um bannock de aveia ao invés do comum bannock de cevada que formava uma parte importante da dieta – que era feito um para cada membro da família. O pão era normalmente feito da forma usual, moldado na forma de um círculo e então dividido em quatro partes para assar na chapa de ferro no fogo. Em Shetland, no entanto, os Yule-brünies eram moldados com a forma redonda com um buraco no meio, e suas bordas eram entalhadas (“para representar o sol”,13 como McNeill comenta).

                Independente de sua forma, estes bolos ecoam com aqueles que eram feitos para o merry-meht no nascimento de uma criança – aqui, é claro, feito para honrar o parto de Maria dando a luz à Jesus,14 e como uma parte integral das celebrações, a Véspera de Natal era frequentemente conhecida como Oidhche nam Bonnagan, ou Noite dos Bannocks (a Noite dos Bolos).15 Ao invés de serem comidos imediatamente, entretanto, o pão (ou os bolos) de Yule eram dados para cada membro da família guardá-los até o café da manhã do Natal, quando então era comido com um pouco do kebbuck de Yule. Se o bolo quebrasse durante esse tempo, no entanto, acreditava-se que o dono azarado daquele bolo teria má sorte ou um desastre no ano que vem. Para aqueles que conseguiam manter o pão de Yule inteiro, um pedacinho podia ser guardado para dar sorte.18

                Em Shetland, o Yule era uma série de celebrações ao invés de apenas uma única. O Tul-ya’s E’en marcava a noite em que era dada permissão aos trows para deixar seus lares subterrâneos e virem para a terra, e era seguido pela noite de Helya, quando as crianças da casa eram purificadas. Os sete dias após o Tul-ya’s E’en que marcavam o início do Yule era o próprio dia do Yule, e na semana entre os dois, havia muito a ser feito:

                “No entardecer de Tul-ya’s e’en, duas palhas eram tiradas das provisões guardadas e colocadas, na forma de uma cruz, na steggie [NT: tradução incerta] que dava para o pátio onde as pilhas de feno, grãos e etc., eram deixadas. Um pelo da cauda de cada vaca, ou outro animal de carga, era trançado e amarrado sobre a porta da vacaria, e um “lowing taand” [NT: segundo o Dictionary of the Scots Language, taand é o termo para designar um fogo, um carvão em brasa ou um tição; “lowing” significa “mugir”] era carregado através do celeiro e das outras contruções externas.

                A noite de Helya seguia o Tul-ya’s e’en. Na noite de Helya, mingau de leite [NT: o termo em inglês é milk brose, com brose sendo uma espécie de mingau feito com leite, farinha de aveia, sal e manteiga, segundo o Dictionary of the Scots Language] era partilhado e as crianças se comprometiam a cuidar da “Mãe Maria”.

                Uma nativa de Shetland me disse que se lembrava de quando era uma garotinha e viu essa cerimônia feita pela sua velha avó. ‘Minnie levantou-se e foi até o berço onde nosso bebê estava dormindo. Ela esticou suas mãos sobre a ponta do berço e disse em voz alta –

Mary midder had de haund.
Ower aboot for sleepin’-baund,
Had da lass and had da wife,
Had da bairn a’ its life.
Mary midder had de haund
Round da infant’s o’ oor laund.’

                Minnie então veio para a cama e disse o mesmo sobre nós, e no momento em que ela dizia isso, o velho estava remexendo as turfas na pedra do lar [NT: uma pedra achatada que compõe uma lareira] e falando algumas palavras, mas nunca saberemos o que foi que ele disse.’”17

                Na véspera do Yule, pães eram feitos para o dia seguinte, bolos (ou bannocks, bolos de aveia) de Yule eram feitos para cada criança da casa – bolos menores para os mais novos, e bolos maiores para as outras crianças, correspondentemente) – e todo mundo adquiria um  conjunto limpo de roupas ou (melhor ainda) uma vestimenta inteiramente nova. As roupas eram usadas e dormia-se com elas, e antes de ir para a cama, certificava-se de que a casa estivesse limpa e arrumada, e qualquer água suja era jogada fora, uma vez que nenhum trabalho deveria ser feito no Yule e nada deveria deixar a casa.

                Uma chama era deixada queimando a noite inteira e uma lâmina de ferro era colocada na mesa da cozinha, para ter a certeza de que nenhum trow tentaria entrar e causar problemas. Antes do amanhecer, o homem da casa acordava e acendia uma vela que era colocada no buraco do olho do crânio de uma vaca. Ele então levava o crânio até a vacaria, onde dava um pouco de comida para o gado – um tratamento a mais do que eles estavam acostumado, especial para a ocasião – e pela luz da vela no crânio, os animais comiam. Com isso feito, o chefe de família voltava e acordava todos, saudando-os dizendo, “Bonança de Yule e comida de Yule, que sigam você pelo ano!”

                Durante meses antes do festival, as crianças da casa guardavam tocos de velas para que eles pudessem acendê-las no café da manhã de Yule. Já que todo o trabalho tinha sido feito no dia anterior, o Yule era destinado a jogos e competições amigáveis como um jogo de futebol com todos os homens da aldeia, ou ainda, corridas, curling [NT: um jogo escocês jogado no gelo], partidas de shinty [NT: um jogo escocês semelhante ao hóquei] ou arremesso de martelo junto com muitas brincadeiras e travessuras.18 A noite era cheia de comidas, bebidas e danças, e até mesmo as famílias mais pobres tentavam economizar para comprar um bom pedaço de carne para a ocasião, que deveria ser cozido no dia anterior.19

                Em Lerwick, Black registrou a prática de fantasiar-se na véspera do Natal, com os jovens indo de casa em casa, fantasiados, pedindo por dorações para sua noite de celebrações. Estes grupos tinham vários nomes – gaisearan (fantasiados), gillean nollaig (meninos do Natal) ou nuallairean (regozijadores).20 Uma doação bastante comum era um farl [NT: um pão escocês achatado] de aveia e um pouco de kebbuck de Yule.21 Ao solicitar as doações, cânticos eram cantados e bênçãos eram dadas: Hutton dá um exemplo das Ilhas Hébridas, onde a criança mais nova da casa era colocada dentro de uma pele branca de cordeiro, sendo então carregada três vezes ao redor do fogo (presumivelmente em sentido horário, mas Hutton não especifica). A criança “representava o menino Jesus ou o Cordeiro de Deus.”22

                As fantasias podiam ser de todos os tipos – soldados, marinheiros, bispos com mitra e sobrepeliz, ou escocêses serranos, por exemplo, e garantia aos fantasiados um certo anonimato para suas travessuras. As fantasias eram as vezes espalhafatosas e extravagantes, ou ainda, feitas de palha, e os fantasiados colocavam uma barba falsa e pintavam seu rosto de preto com carvão ou de branco, com farinha.23 Por volta de uma hora da manhã, os jovens levavam para fora barris cheios de alcatrão e lascas de madeira, que eram então acessos e arrastados pelas ruas com grande comoção, enchendo as ruas com uma fumaça preta e chifres eram soados.24

                Um dos costumes mais bem conhecidos associados com o Yule é a queima da Tora de Yule na véspera de Natal. Em partes da Escócia onde madeiras podiam ser encontradas facilmente, cada família saía para encontrar a maior tora de madeira que achassem – um toco de árvore, talvez, ou parte de uma árvore derrubada.25 Era uma questão de orgulho para a família ter a maior tora da comunidade, então, existia uma grande competição com os vizinhos a fim de encontrar a melhor e maior tora para queimar, que consequentemente (na teoria) queimaria por mais tempo. Era dada grande atenção e cuidado para que a tora não se apagasse, pois caso contrário, a família teria dificuldades em pedir fogo para seus vizinhos, uma vez que era tradicional não dar nada da casa nos dias dos festivais – isso significava que a pessoa que pegasse o fogo levaria junto a sorte da família com ela.26

                A Tora era as vezes chamada de “Calluch Nollic”, A Velha do Natal, e Grant Stewart escreveu que, uma vez que a tora era levada para casa, ela era jogada em uma cama de turfas em chamas com “tão pouca cerimônia e sentimento como para uma vassoura velha.”27 Cerimônia ou não, a tora era usada para garantir calor e um pouco de luz ao longo da noite e do dia, durante o mais escuro período do ano, e nas Hébridas Exteriores em particular, o costume de iluminar todas as janelas da casa na véspera do Natal sobreviveu até o século XX, nomeando o dia como Oidhche Choinnle (Noite das Velas).28

                Na manhã do Natal nas Terras Baixas, tinha-se no café da manhã o brose de Yule – um tipo de mingau líquido feito com farinha de aveia, sal e manteiga ao invés da água que é usada para prepará-lo nos dias de hoje.29 Sowans [NT: um tipo de mingau] eram o prato preferido nas Terras Altas, no entanto, eram preparados antes do nascer do sol, e como o brose, eram preparados de uma maneira um pouco diferente do normal – “cozidos até ter a consistência de melaço” – e quando amanhecia, todos na casa eram acordados um de cada vez para ter um pouco do prato, servido com pão.30 Procurava-se sinais na porta da casa, para ver o que o clima pressagiava – “Um Yule quente significava um frio Pash [NT: não encontrei a tradução]; e um claro Yule significava um feixe pesado.” Da mesma forma, um moderado Yule sinalizava “um cemitério gordo”, ou, muita morte que viria no restante do inverno, ao passo que um Yule nevoso e ventoso significava um inverno favorável.32

Hogmanay

                Como já discuti em outros lugares, o Ano Novo é um assunto complicado em muitos aspectos, mas independente de quando ele costumava acontecer, permanece o fato de que a partir do ano 1600, o Ano Novo na Escócia foi fixado no dia 1º de janeiro, e é isso que observaremos agora.

                O nome “Hogmanay” é o termo escocês para a véspera do Ano Novo, que permanece sendo usado comumente nos dias atuais. A palavra vem do norte da França hoguinane, que pode ser traçada à palavra do francês antigo aguillaneuf, referindo-se à um presente do Ano Novo:

                “A mais antiga referência escocesa está na sessão da Igreja [NT: Kirk Session, como acima] de Elgin para 1603, quando um homem foi acusado de ‘cantar e hagmonayis’ no Ano Novo; provavelmente a prática se espalhou na Escócia por volta de 1560, quando a influência francesa era substancial em todos os nívei da sociedade nas Terras Baixas da Escócia e grandes números de tropas francesas estavam guarnecidas lá.”33

                É provavél que este relato esteja se referindo à prática de solicitar doações de comida, bebida ou dinheiro em troca de canções – bem parecido com os fantasiados no Natal ou Samhainn – e como veremos, frequentemente uma cerimônia elaborada estava envolvida na busca de tais presentes. Ao longo do tempo, a prática de presentar se tornou um pouco distanciada do Hogmanay, com o aumento em popularidade do ato de presentear no Natal do ano 1840 em diante, conforme o festival começou a ter mais ênfase como uma estação de doações e caridade, focada na família.34 Pequenos presentes também eram dados na Handsel Monday [NT: a primeira segunda-feira do ano novo], no dia 5 de janeiro, que marcava a primeira segunda-feira do Ano Novo, quando “as desgraças do Velho Ano eram enterradas”, e era principalmente um dia de celebração para os trabalhadores e empregados domésticos.35

                Assim como com os costumes do Yule, o Hogmanay observava a usual arrumação, limpeza e decoração da casa, vacaria e estábulos. Dívidas eram acertadas, itens emprestados retornavam, as roupas de cama eram trocadas por linhos frescos, quaisquer roupas ou meias que precisassem sem remendadas eram costuradas, e mexia-se nos relógios para certificar-se de que eles não parariam. Tudo o que precisava ser limpo era limpado, ou polido, se precisasse de polimento. Uma vez que nada deveria deixar a casa no Dia do Ano Novo, no caso de a sorte ir embora com o objeto, qualquer água suja ou cinzas eram jogadas fora antes do amanhecer.36 O ano velho era conduzido para fora e o ano novo era recebido, com uma casa arrumada e limpa, e de fato, essas semelhanças com as tradições de Yule podem ser vistas como evidência da mudança do Yule para o Hogmanay como uma celebração que foi suprimida enquanto a popularidade da outra crescia.37

                Na preparação para o dia (e a noite anterior), era feito o máximo de trabalho possível antecipadamente. Muito desse trabalho envolvia o preparo das comidas do festival – pão de gengibre, bannocks de melaço (nativos de Galloway, no sudoeste da Escócia),38 bolo seco friável, bolos de aveia, black bun [NT: um bolo de frutas escocês] ou pão de groselha, queijo e o tradicional bannock de Hogmanay (transferida da tradição de Yule), que era feita com farinha de aveia fresca e um pouco mais espesa que o normal.39 Bebidas eram preparadas em abundância também – não apenas o usual uísque e cerveja, mas também sowans (particularmente em Aberdeen) – um sowan líquido que era perfeito para beber, adoçado com mel ou melaço e com um pouco de uísque para dar um toque a mais – ou ainda, havia o tradicional Het Pint, que era muito mais comum. Essa bebida consistia de uma cerveja [NT: ale] mais fraca, temperada com noz-moscada e uísque, recém-feita antes dos sinos soarem.40  

                Durante a noite, um grande cuidado era tomado para que o fogo queimasse fortemente, a fim de certificar-se de que a lareira não se apagasse. Se a lareira apagasse, pressagiava-se má sorte para a família, e a chance de conseguir uma chama de um vizinho era altamente improvável – assim como nos Dias Trimestrais, ninguém dava nada da casa, para certificar-se de que a sorte não fosse levada com o objeto. Como uma precaução extra, eram acesas o máximo de velas possíveis, nomeando o dia como Oidhche Choinnle – a Noite das Velas (apesar de Black notar que este era, estritamente falando, o nome para a véspera do Natal, e sugere que o nome foi aplicado para o Hogmanay por protestantes que não observavam o Candlemas).41

                Conforme cuidava-se do fogo, um encanto ou oração era dito para manter as influências malignas longe da casa, uma vez que a transição de um ano para o outro era uma das épocas liminares quando as forças sobrenaturais estavam em movimento e podiam querer causar problemas. Apenas os amigos mais próximos e mais confiáveis eram permitidos aproximar-se do fogo, no caso de alguém tentar sabotá-lo.42 Além destas qualidades protetoras, “quanto mais brilhante era o fogo, melhor era a sorte do ano.”43

                Conforme o ano se encerrava e a meia-noite se aproximava, um pouco de cerimônia era envolvida com a despedida do ano velho e a chegada do ano novo. Em Islay, um pedaço de turfa com um pouco de pão e bebida era preparada antecipadamente e o chefe da família saía de casa na virada do ano e as trazia para dentro, para simbolizar a vinda destes no ano novo e garantir uma abundância destas três coisas no futuro.44

                Heather Dewar, de Islay, descreve uma tradição de família:

                “…eu lembro quando morávamos longe, e quando faltava apenas um minuto antes da meia-noite, meu pai abria a porta dos fundos e deixava o velho ano sair e então abria a porta da frente, e nós varríamos o ano velho pela porta dos fundos.”45

                Na realidade, o ano velho era varrido, livrando-se de quaisquer influências negativas e deixando um novo espaço para o ano novo.

                Em Harris, o ano velho era literalmente enterrado, e Black registra a Sra. Peggy Morrison perguntando ao seu pai como isto era feito:

                “Ela costumava perguntá-lo ‘Ciamar a dhei’adh ac’ air bliadhna thiodhlagadh?’ ‘Como eles enterravam o ano’?

                ‘Oh,’ ele dizia, ‘eles pegavam um queijo (mulchag chàis), uma garrafa de uísque (botal uisge-bheatha) e um bannock de cevada (bonnach eòrna), saíam com estas coisas e as enterravam em uma colina acima da aldeia. Aparentemente eles varriam e choravam (tha e collach gu robh iad a’ caoineadh ‘s a’ tuiream) pelo ano velho que tinha ido... Eu não sei, mas algumas pessoas saíam após a garrafa de uísque, mas provavelmente não (is iongantach gun deiàdh), pois eles acreditavam nisso tão fortemente (bha iad a’ creisinn cho mor ann), que era necessário enterrá-la exatamente como um corpo humano era enterrado (mar gum biodhte tiodhlagadh dìreach corp duine) e deixado lá.”46

                Há um sentido na descrição de que tanto quanto o ano era enterrado, simbolicamente (acompanhado com o tradicional lamento fúnebre), os itens usados eram tanto uma oferenda, uma propiciação para os espíritos locais ou para a antiga deidade da colina que pertencia à aldeia, como supostamente uma representação do ano velho.

                McNeill descreve como a família esperava, ao redor do fogo, os sinos soarem na meia-noite, onde o chefe da família ia até a porta da frente, a abria e esperava até os sinos pararem de tocar e o ano novo oficialmente começar. No silêncio dos sinos, ele dizia:

                “Bem vindo, ano novo!
                Quando chegar, traga bons ânimos!”47

                Com o acolhimento feito, ele então voltava para o fogo onde sua família estava esperando, se não tivesse corrido até as janelas quando os sinos começassem, para fazer uma algazarra gritando, batendo bandejas, soprando chifres e batendo qualquer coisa que estivesse perto para expulsar todas as influências negativas do ano velho. Em alguns lugares, tiros de armas também eram dados.48 Aqueles que estivessem nas ruas podiam se juntar, com o mesmo efeito para a comunidade como um todo. Dentro de casa, o Auld Lang Syne [NT: uma canção escocesa tradicionalmente cantada no Ano Novo] podia ser cantado, um brinde ou dois eram feitos para o ano novo – talvez com uma tradicional taça ou copo de Het Pint passado para todos para cada um tomar um gole49 – e pequenos presentes, os ‘hogmanays’, eram trocados.50

                Enquanto os homens estavam ocupados despedindo-se do ano velho, as meninas corriam para o poço local para obter a primeira “nata” dele – a flor (como era chamado no sul) ou o creme (como era chamado no norte) do poço. Dizia-se que quem quer que conseguisse o primeiro balde teria uma boa chance de encontrar um bom homem para se casar,51 mas presumivelmente a ideia é a mesma da remoção da nata do poço em Bealltainn – obter a primeira e a mais potente toradh do poço para garantir sorte e prosperidade no ano vindouro.52 Em alguns lugares, não eram as meninas solteiras que competiam pela primeira nata, mas as esposas, que iriam para lavar os utensílios de leiteira na “nata”, com o que sobrasse sendo dado para as vacas para garantir uma boa abundância de leite no ano que viria.53

                Durante o curso da noite, a crianças saíam para brincar e preparar-se para as travessuras, enquanto que os jovens saíam para fantasiar-se. Enquanto que o princípio era o mesmo tanto para o Yule como para o Samhain, parece que mais cerimônia tenha sido envolvida no Hogmanay, e os homens – os gillean callaig54 – reuniam todos os itens necessários antes da procissão começar.

                Um dos homens se vestia com a pele de uma vaca mart (a vaca de inverno – morta no dia de S. Martinho, no dia 11 de novembro, um pouco após o Samhainn), cheia de chifres, cascos e cauda, e eles iam de casa em casa na vizinhança enquanto todos tentavam bater na pele da vaca e causar um tumulto.55 Em cada casa que era visitada, os fantasiados giravam-na três vezes em deiseal, batendo nas paredes e chamando os ocupantes para saírem. Uma canção era cantada quando a porta se abria, pedindo para que eles entrassem. Black recorda uma de tais rimas:

“A Challain a’ bhuilg bhuidhe bhoicinn,
Buail an craiceann (air an tobhta)
Cailleach sa chill, Cailleach sa chùil,
Cailleach eile ‘m cùil an teine,
Bior ‘na dà shùil, Bior ‘na goile
A ‘Challainn seo:
Leig a-staigh mi.

A Callain da bolsa amarela de pele,
Bate na pele (sobre o parede) –
Uma velha no cemitério,
Uma velha no canto,
Outra velha diante do fogo,
Uma vara pintada em seus dois olhos,
Uma vara pintada em seu estômago,
Essa Callainn:
Deixe-me entrar, abra.”56

                A referência à Cailleach – notável no Yule também – é significativa, e Black interpreta isto como uma representação da fome. Referindo-se à prática de nomear o último feixe da colheita no outono como ‘a Cailleach’, e que era comumente visto como trazendo má sorte para o dono, Black comenta que a rima ajudava a explicar o que acontecia com o útlimo feixe quando não havia ninguém mais para quem passá-lo – ia para o o fogo. Em alguns casos, há sugestões que o feixe ia para o fogo nessa época.57 A rima, portanto, de uma maneira indireta, parece alertar aos ocupantes que o cetro da fome e da adversidade pairaria sobre a família se eles se recusarem a oferecer hospitalidade ao grupo.

                Esperava-se então que cada pessoa fantasiada dissesse uma rima a fim de ser deixado entrar, depois do qual lanches eram oferecidos, tais como uísque, queijo, pão e carne. Nenhuma bebida era tomada antes do grupo de fantasiados terem dado ao chefe da casa o caisean uchd – um bastão de shinty [NT: um jogo escocês semelhante ao hóquei] com uma tira do peito de uma ovelha enrolado ao redor dele – para ser chamuscado no fogo três vezes antes de dar uma volta três vezes no sentido horário ao redor da família, com o caisean uchd sendo colocado debaixo do nariz de cada membro da família.58 Isso, como McNeill nos conta, “era um talismã para a fertilidade e proteção contra doenças e infortúnios no ano vindouro. Se o tufo se apagasse na mão de alguém, má sorte viria para a pessoa envolvida.”59

                Grant descreve um rito similar, apesar de em South Uist ela descrever a cerimônia com a pele de ovelha ardendo sem chamas enquanto era levada três vezes ao redor do exterior da casa; se a pele parasse de queimar, era um mau presságio para a família que se encontrava dentro da casa. Ao serem recebidos pela família e com as bênçãos feitas, presentes de manteiga, queijo, bannocks e batatas eram dados ao grupo antes de irem embora, e em sua partida, uma bênção era dada para a família (se seu acolhimento tivesse sido bom), e o líder do grupo iria ao redor da lareira (que normalmente era situada no meio da sala), ou até mesmo de uma cadeira, enquanto o resto do grupo batia a pele enquanto a bênção era dada60 – muito reminiscente das batidas e barulhos feitos pela própria família quando os sinos soassem. McNeill dá um exemplo de tais bênçãos:

“Grande boa sorte para a casa,
Boa sorte para a família,
Boa sorte para cada viga dela,
E para cada coisa digna nela.

Boa sorte para os cavalos e gado,
Boa sorte para as ovelhas,
Boa sorte para todas as coisas,
E boa sorte para todos os seus recursos.

Boa sorte para a esposa,
Boa sorte para as crianças,
Boa sorte para cada amigo,
Grande boa sorte e saúde para todos.”61

                E também descreve o que acontece se o grupo achasse que havia faltado hospitalidade em seu acolhimento:

                “…eles caminhavam um atrás do outro ao redor do fogo em widdershins e caminhavam pesadamente e ruidosamente, tirando a sujeira da casa de seus pés. Em uma época, era costumeiro construir um pequeno cairn na porta de uma casa inospitaleira. Este era chamado de carna mollachd, o cairn da maldição. Quando era concluído, os rapazes entoavam uma maldição com uma voz alta o suficiente para chegar até os moradores:

‘Que a maldição de Deus e do Hogmanay esteja em vocês,
E o prejuízo do lamurioso urubu, [NT: buzzard também pode ser traduzido como ‘indivíduo desprezível’]
Do tartaranhão-azulado, do corvo [NT: raven], da águia,
E o prejuízo da raposa furtiva.

Que o prejuízo do cão e do gado esteja em vocês,
Do javali, do texugo e do ‘brugha’ [NT: não encontrei a tradução],
Do deprimido javali e do selvagem wolk [NT: wolf, “lobo”?]
E o prejuízo da imunda doninha.’”62

                Napier dá um método levemente diferente do costume de fantasiar-se – onde era um grupo de crianças que perambulavam, pedindo presentes com a rima:

“Levante-se, dona de casa, e sacuda suas penas,
Não pense que somos mendigos,
Nós somos as meninas e meninos que saíram hoje,
Para obter nosso Hogmanay,
Hogmanay, trol-lol-lay.

Dê-nos o teu pão branco, e não o cinza,
Se não, bateremos em sua porta de dia.”63

                A rima parece refletir o fato de que tais tradições, quando começaram a cair em desuso, foram herdadas e mantidas de uma forma ou de outra pelas crianças.64

                Hutton nota que o rito-do-touro foi registrado pela primeira vez pelo Dr. Johnson, em Coll, no ano 1770, e foi encontrado nas Hébridas Exteriores (exceto em Skye e Jura) até o século XIX, assim como em Lewis e em partes de Argyll.65

                O uso de uma pele de touro é reminiscente de outros ritos encontrados na Escócia que parecem ter origens pré-cristãs, sendo o mais notável o rito divinatório do taghairm, na qual (de acordo com uma descrição do rito) uma pessoa era enrolada em uma pele de vaca e deixada em um local remoto durante a noite, e durante esse tempo, a resposta para uma determinada pergunta era buscada (e se o rito fosse bem sucedido, a resposta era encontrada).66 O rito do taghairm em si parece ser relacionado com a prática do tarb-feis irlandês – a festa-do-touro – que pode ser encontrada no conto A destruição da hospedaria de Da Derga, por meio do qual buscava-se um novo rei:

                “Então o rei Eterscele morreu. Uma festa-do-touro foi realizada pelos homens da Irlanda a fim de determinar quem seria seu futuro rei; que é, um touro costumava ser abatido por eles, e com isso, um homem comia sua carne e bebia seu caldo, e um feitiço da verdade era cantado sobre ele em sua cama. Quem quer que ele visse em seu sono seria rei, e o sonhador morreria se proferisse uma mentira.”67

                Sendo usado pelos gillean callaig, a pele preservada de uma vaca de inverno pode ser um eco do cetro da fome ou abundância, uma vez que o gado era bastante visto como um indicativo de riqueza, sendo uma parte integral da economia – em essência, o desfile da pele “procurava conectar toda a comunidade com o espírito fertilizante”.68 O uso da pele de ovelha, em algumas partes, talvez tenha refletido sua importância econômica local, onde a criação de gado era menos rentável.

                Conforme Hutton observa, o elemento de “fumigação” do rito – o canto do caisean uchd, ou a pele em si – é um elemento comum dos ritos de purificação69, uma versão daquilo que veremos na sessão do “Dia do Ano Novo”.

                Peças de mummers [NT: mummers são grupos, normalmente de meninos, fantasiados que realizam peças teatrais nas ruas] também era uma parte do repertório dos homens fantasiados, com “O Goloshan” [NT: uma peça tradicional escocesa] sendo feita por muitos mummers no Hogmanay. Eles são particularmente apreciados pela nobreza escocesa, “que deleitavam na ‘antiguidade’”,70 como disse Sir Walter Scott, que também foi parte deles em sua juventude.

                A peça variava em detalhes de um lugar para outro, mas em geral, existiam os personagens chaves – o herói, o campeão e o médico sendo os principais – e elementos do enredo que os juntavam: o herói, Goloshan, era inevitavelmente morto em combate com o campeão – popularmente chamado de Rei da Macedônia em Falkirk, ou a Noite Negra em Peebles, o Guerreiro em Galloway ou William Wallace (em uma versão de Andrew Cheviot). Goloshan (também conhecido como Galatian ou Galgacus) é então ressuscitado pelo médico, depois de negociar um pouco, que é invariavelmente conhecido como Dr. Belzebu ou Dr. Brown.

                Outros personagens também poderiam estar envolvidos – estes frequentemente eram santos ou apóstolos, reis ou personagens históricos. Nesse sentido, a peça é do tipo que ecoa os temas de morte e ressurreição, ou da natureza em si passando pelas estações da vida e da abundância para a morte e frio, e então para a vida novamente.71 A peça era narrada pelo Falante (ou Homem Falante), e era acompanhada por canções e pelo menos um bom músico, normalmente um violinista. No final, dinheiro era arrecadado pelos problemas dos atores.72

                Enquanto os foliões desfilavam pelas ruas, frascos de quadril eram passados por todos, e as vezes, chaleiras de Het Pint também eram levadas para serem passados para os outros foliões. Tal como aqueles que ficaram em casa acabariam recebendo o ano novo, assim faziam os foliões, que com bons desejos, canções e bebidas, passavam pelas ruas após os sinos terminarem, antes de irem na questão bastante séria do first-footing [NT: não encontrei o termo em português da expressão em si, que traduzido literalmente seria algo como ‘primeiro pé’ ou ‘primeira caminhada’; a explicação se dará mais pra frente].73 No caminho, os homens aproveitavam a oportunidade para cumprimentar quaisquer mulheres, que podiam estarem acompanhadas de outros grupos de first-footing, com um beijo – a ocasião especial permitia um leve descanso em termos de comportamento apropriado, por conta da divulgação da benevolência.74

                O first-footing é quando as pessoas saíam de suas casas para visitar amigos próximos, vizinhos ou famílias para desejá-los um bom ano novo, e ainda é um costume popular na Escócia hoje (embora bem menos nos centros urbanos, onde tende a não ter tanto um sentido de comunidade para realizar tais costumes). Nos dias atuais, o first-footing é para a maioria das pessoas simplesmente uma forma de desejar boas coisas para aqueles mais próximos e mais queridos. No passado, no entanto, (e deve ser dito que as crenças não tinham desaparecido inteiramente nesse dia e nessa época), haviam certos costumes associados com a prática, pois ela encapsulava muito da incerteza que o povo sentia sobre o ano seguinte – ele seria bom, ruim ou desastroso?

                O tipo de pessoa que chegava na casa após os sinos terem soados no ano novo – alguém que não era um membro da família – era significativo. Geralmente falando, um homem chegando na porta da casa era considerado um bom presságio, enquanto que uma mulher, nem tanto; um homem de cabelo escuro era considerado um presságio ainda melhor do que um homem de cabelo claro, e dependendo do lugar, cabelo ruivo seja em homem ou mulher era considerado particularmente um bom e um mau presságio.

                A disposição da pessoa também era de igual consideração – “um companheiro cordial, educado e alegre”, de bom coração, generoso, bem sucedido, era o mais desejado, ainda mais se tivesse cabelo escuro e e estivesse acompanhado de uma senhora loira, e ainda melhor, se ele fosse considerado um membro da comunidade que ia para a igreja. Qualquer um que fosse considerado de mau temperamento, severo, coxo, doentio, que tivesse pés largos, mesquinho, imoral, doente mental, ou que tivesse sobrancelhas que se encontravam no meio da testa, era considerado um mau presságio. E, certamente, qualquer um que fosse considerado atingido pelo Mau Olhado [NT: Evil Eye, traduzido também como ‘olho maligno’ ou ‘olho gordo’] era um sinal particularmente indesejável.75

                Por último, existia a importância do presente. Um first-footer [NT: uma pessoa que pratica o first-footing] de mãos vazias era particularmente um mau presságio, e podia até mesmo ser considerado uma evidente indicação de má intenção com a família. Geralmente falando, uma garrafa de uísque e um bannock era considerado bons presentes, ou ainda, uma fruta exótica como uma laranja, junto com um pedaço de carvão, turfa ou uma tora, para significar a abundância de comida, bebida e calor para o ano seguinte. A turfa – ou o que quer que fosse – era então colocada no fogo pelo first-footer antes de quaisquer saudações serem feitas. Em partes rurais de Aberdeen, baldes de sowans também eram carregados pelos first-footers para que pudessem espirrar os sowans em todas as portas das casas que eles desejassem o bem.76

                Pelo fato das famílias naturalmente quererem se certificar de que receberiam o tipo mais afortunado de first-footer que pudessem, arranjos eram frequentemente feitos com os amigos e vizinhos a fim de determinar quem visitaria quem. Com os piores indo para os piores, porém, um first-footer inesperado e indesejável chegando na porta apesar de todos os arranjos podia acontecer, e existiam medidas que podiam ser tomadas para mitigar um pouco da má sorte que eles pudessem trazer – ou profetizar – para a casa: sal podia ser atirado no fogo antes do visitante entrar, o sinal da cruz era feito, o anfitrião falava primeiro, antes do visitante, e um preventivo encantamento de sorveira e lã vermelha era colocada sobre a porta, apenas como prevenção. Após o visitante azarado ter ido embora, um carvão em brasa podia ser colocado dentro da água para remover qualquer influência que persistisse.77

                Assumindo que tudo tivesse corrido bem, no entanto, e o first-footer fosse o do tipo apropriado, ele podia entrar na casa e dar as saudações e bênçãos apropriadas, tais como: “A gude New Year to ane an’ a’, an’ mony may ye see! [NT: a tradução seria algo como ‘Um bom ano novo para todos, e que vocês possam ver dinheiro!’]78 Campbell dá versões em gaélico, dadas na manhã do ano novo, que tem uma clara semelhança:

                “As saudações da estação eram devidamente dadas de uma família para outra e para cada pessoa que eles encontrassem:

Bliadhna mhath Ùr dhuit. ‘Um bom Ano Novo para você.’
Mar sin duit fhéin, is mòran diubh. ‘O mesmo para você e para muitos deles.’”79 

                Em primeiro lugar, uma bebida de qualquer tipo que tivesse sido trazida pelo first-footer era servida ao chefe da casa, e depois, o chefe da casa fazia o mesmo para o first-footer, com qualquer bebida que a casa tivesse para oferecer – o uísque era sempre popular, mas um hot toddy, ponche, sowans, Het Pint, Athole Brose (uma mistura quente de uísque, mel e farinha de aveia, as vezes com creme de leite também), também eram oferecidos. A comida então era partilhada – bannocks largos de aveia especialmente feitos para a ocasião, bolo seco friável, Scotch bun, bolo de gengibre ou pound cake [NT: um bolo feito com medidas iguais do ingredientes principais] e quaisquer outras comidas sazonais eram oferecidas – e seguia-se mais bebidas, canções, música, dança e narrativas se o first-footer ficasse.80 

                Por último, antes de ir dormir, o chefe da casa colocava uma moeda de prata na porta principal da casa. Pressagiava-se prosperidade se a moeda ainda estivesse lá na manhã seguinte, mas se não estivesse, a família não teria prosperidade no ano seguinte.81

O Dia do Ano Novo

                O Dia do Ano Novo era tratado como um Dia Trimestral, mesmo apesar de não ser oficialmente um, e por isso, inevitavelmente um dos maiores focus era na purificação [NT: saining] – a proteção da casa, da vacaria, do estábulo, do gado e das pessoas. Em Hogmanay, Grant Stewart nos conta:

                “Assim que chega a noite, é o sinal para a suspensão de todas as atividades comuns, e a atenção dos Terras Altas é direcionada aos chamados mais agradáveis e importantes. Associando-se em bandos, os homens, com correntes e machados, moldam seu curso em direção aos ramos de junípero, que são tão requeridos nesta noite como o repolho crespo é no Hallowe’en. Voltando para casa com cargas hercúleas, o junípero é disposto ao redor do fogo para secar até a manhã seguinte. Algumas pessoas cuidadosas são também enviadas aos vaus vivos e mortos, de onde tiram um cântaro de água, e estando a todo o tempo no mais profundo silêncio. Grande cuidado era tomado para que o cântaro com a água não tocasse o chão, caso contrário, ele perderia todas as suas virtudes.”82

                Essa água especial – a Usque-Cashrichd, como Grant Stewart a nomeia (uma forma anglicizada no termo gaélico) – que vem de um vau vivo e morto é tecnicamente a água tirada de um regato ou rio por onde passaram procissões fúnebres. Acreditava-se que ela tinha propriedades protetoras particularmente potentes, e assim, tornava-se um ingrediente ideal em ritos de saining [NT: purificação].83

                Na manhã do Dia do Ano Novo, conforme McNeill registrou, todos tomavam um gole do cântaro de água e o que sobrasse era usado para ser borrifado no lugar. Então, todos os cantos e fendas na casa eram preenchidos e o junípero era queimado de forma que todos os presentes pudessem sentir o cheiro do fumo que era liberado em quantidades copiosas. O mesmo era feito na vacaria, e depois, dava-se uma boa ventilação nesses lugares.84

                Pennant registrou uma prática similar em Dingwall, no nordeste da Escócia, com o junípero sendo queimado na vacaria e urina sendo borrifada no gado.85 Campbell registrou a queima do junípero na vacaria também, mas com o uso do vinho – borrifado nas soleiras e paredes, assim como no gado – ao invés da urina. Black argumenta que esse é um erro tipográfico e a palavra na verdade era para ser lida como ‘urina’.86 Além disso, os animais eram marcados com alcatrão e sorveira, azevinho ou aveleira eram trazidos para decorar a casa – novamente, todas com claramente um propósito protetor em mente. Uma parte da sorveira, ou próximo à costa, alga marinha (mais especificamente o fucus nodosus), era colocada na porta para dar sorte.87

                No Nordeste na manhã do Ano Novo, era comum os fazendeiros fazerem uma competição para ver quem seria o primeiro a trazer uma carga de alga marinha da praia. Quem quer que ganhasse pendurava uma pequena parte de alga em cada porta e então atirava o restante em um campo para garantir a prosperidade no ano seguinte.88

                Na mesma linha, Newton nota que:

                “Na manhã do Ano Novo, o chefe da casa traz um ramo de uma árvore frutífera local para casa, acompanhando-o com o ditado ‘Fàs is gnàths is toradh (Crescimento, costume e fertilidade)’.”89

                Tradições para garantir a prosperidade também são encontradas no desjejum. Pela manhã, todos tomavam um copinho de uísque e uma colher cheia de sowan meio cozido – geralmente considerado “a comida mais pobre que se pode imaginar.”90 O intento, essencialmente, era para afastar a fome e a pobreza consumindo uma boa parte do prato principal dos tempos de fome antes dele se tornar uma necessidade, apesar de Campbell notar que esse costume era limitado principalmente às Terras Altas centrais e Lorn, não sendo conhecido nas Ilhas Ocidentais.91

                Uma anedota de tal costume também parece transformar o consumo dos sowans em um rito divinatório:

                “O Ano Novo era assimilado pelos jovens tentando ver sua fortuna em ‘sooans’. Abençoe-me crianças, vocês não sabem o que os ‘sooans’ são! Não; então os ralos sooans eram feitos para beber como uma boa e espessa sopa de aveia; a densidade era como a de um mingau, mas isso nunca comemos em uma manhã de Natal ou de Ano Novo. Por volta das quatro horas eu desci para a cozinha e lá encontrei minha mãe cozinhando os ‘sooans’ e o lugar estava cheio de empregados, meninas e homens, e alguns de nossos vizinhos...

                ...os ‘sooans’ estavam prontos e todos nós, sem cerimônia, saíamos pelas portas. Em nossa ausência, as tigelas foram preenchidas. Em duas dessas tigelas, um anel foi colocado, significando, é claro, um rápido casamento; um xelim colocado em duas outras tigelas representavam o velho bacharel [NT: bachelor pode significar tanto ‘bacharel’ como solteirão, indicando uma pessoa que nunca, ou demorará, a se casar] ou a velha donzela; e uma meia coroa em outro representava as riquezas. Ao sermos chamados para entrar, tinhamos que escolher um prato, começando com o mais jovem.”92

                Walter Gregor registrou algo similar – os “Yeel sones”, mas aqui, encantamentos levemente diferentes eram usados: o anel para casamento, um botão significando uma vida de solteiro, e uma moeda de seis centavos [NT: sixpence] significando viuvez.93  

                A menção de não haver mingau para o café da manhã no Dia do Ano Novo não parece estar limitado à infância de ‘Knockfin’, pois Grant também menciona que nenhum mingau era feito nesse dia. Ao invés disso, após alimentar o gado como um luxuoso banquete de aveia, ao invés da palha tradicional (e o outro gado também era alimentado com algo especial), um banquete com bacon e ovos, com scones de soda, bolinhos de aveia e manteiga, “e um cheiroso chá chinês” era servido.94

                Este era, presumivelmente, o tipo de comida festiva encontrada nas casas que eram melhores que a maioria, mas todos tentavam fazer um esforço para começar o dia com “um desjejum mais suntuoso que o normal”, para começar o dia – e o ano.95

                O banquete continuaria pelo resto do dia, com encontros familiares e uma montanha de comida para oferecer – ganso, torta de carne, pudim de ameixa, bolinho de alcaravia e doces de todos os tipos – à qualquer um que chegasse.96 Em um esforço para procurar o raro pedaço de carne que as pessoas mais pobres não estavam acostumadas com a sua dieta diária, não era inédito em Orkney que grupos de homens se reunissem nas casas daqueles que eram considerados ricos, bem cedo pela manhã antes da família acordar. Os homens acordavam a família cantando uma estimulante canção de Ano Novo e eram então oferecida a eles a hospitalidade com um pouco de pão e ale antes de dar-lhes um presente de um ganso defumado ou um pedaço de bife.97

                Como não tinha trabalho a ser feito (sem espanto!) – exceto qualquer coisa que era absolutamente necessária – havia muito tempo livre destinado à diversões e encontros. O shinty era o jogo tradicional escolhido pelos homens,98 e a maior parte da competição era aguçada, porém, amigável. Para aqueles que preferiam ficar em casa, o tempo era gasto ao redor do fogo com charadas, jogos e narrativas, com danças à noite.99

PARTE II

As procissões e as fogueiras

                Até agora, o foco principal das tradições que foram detalhadas aqui aconteciam em casa, assim como a difusão da alegria para as outras casas na comunidade. Existiam, no entanto, ritos comunitários também, alguns dos quais ainda sobrevivem hoje como grandes espetáculos e atrações turísticas.

                Em Biggar, uma fogueira é acesa no Hogmanay – “uma despedida flamejante para o Ano Velho”100 – uma tradição que se prolongou desde muito tempo. A celebração moderna do Up-helly-aa em Lerwick e Shetland é de origem mais recente – datando de 1882 após as procissões originais terem sido banidas em 1874 devido à muita ‘barulheira’ que acontecia.101 A Queima do Clavie [NT: o termo do dialeto escocês para um barril de alcatrão, cheio de madeira de abeto e outros materiais combustíveis] em Burghead também é famosa mundialmente. Além da fogueira em Biggar, nas Fronteiras da Escócia, essas festividades comunitárias aconteciam ao longo do norte e do leste da Escócia, onde a influência nórdica foi mais forte. Todas elas são reminiscentes das fogueiras de Yule, reembaladas e reinventadas para o Ano Novo, mas que voltam às suas origens decididamente nórdicas.102

                A fogueira em Biggar ainda é acesa hoje, e tamanha é sua tenacidade que até mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, quando o país estava sob as condições do blackout (quando nenhuma luz podia ser vista do lado de fora à noite – nem a iluminação pública e nem o brilho acolhedor das janelas das casas – para evitar que os bombardeiros alemães mirassem nos alvos), a fogueira ainda era acesa. Embora em circunstâncias reduzidas, McNeill registrou que enquanto que as fogueiras foram banidas pelo blackout, a dona de casa da casa mais próxima da fogueira saía e acendia um fósforo na batida da meia-noite a fim de receber o Ano Novo.103

                Sob circunstâncias normais, a fogueira era acesa por um membro local da cidade por volta das 21h30, com a multidão aplaudindo:

                “Um antigo costume, recentemente revivido, é tostar arenques vermelhos diante das chamas e comê-los no lugar. O fogo queima por horas e não tem essa de colocar as crianças para dormir. Os vários lugares de diversão permanecem abertos e a diversão se estende até um minuto ou dois antes da meia noite, quando uma breve quietação precede o ‘chapping’ o’ the Twal’ da Torre da Igreja. Assim que a última badalada é dada, havia o ressoar dos sinos e toda a companhia se juntava no Auld Lang Syne. A maluquisse então descia para a cidade. Os rapazes faziam velhas travessuras, levantando os portões das dobradiças e jogando-os em lugares insuspeitáveis, tirando abajures de lojas e assim em diante. O ‘wee sma’ oors’ são gastos no first-footing, pelo qual o Mercat Cross faz um conveniente ponto de partida, e eventualmente, os foliões cansados voltam para suas casas e caem na cama.”104

                Tamanha era a diversão em Lerwick que as celebrações originais foram banidas em 1874, uma vez que frequentemente acabavam saindo do controle. O Up-helly-aa foi originalmente um festival onde tonéis de alcatrão eram incendiados e então puxados por correntes pelas ruas com muita diversão e soar de chifres pelos rapazes que os puxavam, e isto era seguido pela “exuberância” e “barulheira” que resultou nos padres da cidade proibindo o costume. O costume do barril de alcatrão foi revivido em 1882, no entanto, por um comitê formal. Em 1884, uma procissão de tochas foi adicionada aos eventos, e depois, uma galé em tamanho real foi adicionada também, tornando o costume muito mais que um espetáculo.105 Para esse dia, o comitê continua fazendo os preparativos para o Up-helly-aa a cada ano, com o Jarl (conde) Guizer sendo eleito anualmente para organizar tudo.

                Em Burghead, o foco principal da procissão é a queima da Clavie (cliabh, uma cesta) [NT: o barril de alcatrão]. Novamente, McNeill fornece uma descrição detalhada do que acontecia:

                “A procissão primeiro vai até o porto, onde a Clavie lança um caminho de luz na escuridão do mar, e então procede para fazer um circuito na velha cidade... Então, um feixe em chamas é arremessado através da porta aberta de uma casa. Há uma contenda para obter a posse disto, pois os feixes da Clavie são “sortudos” e não há muito tempo acreditava-se firmemente que eles protegiam do mau olhado. O portador da Clavie finalmente a leva para um grande montículo de terra gramada conhecido como o Doorie... Em uma época, uma pilha circular de pedras costumava ser empilhada com rapidez e a Clavie flamejante era fixada no centro; mas em 1809, um pilar de frestone [NT: não encontrei a tradução dessa palavra; por outro lado, fret significa ‘atrito’ ou ‘fricção’, e stone, ‘pedra’, podendo remeter à uma pedra usada para produzir fogo através da fricção. Ou, pode ser um erro tipográfico, querendo na verdade se referir à firestone, que é uma pedra capaz de suportar o fogo e temperaturas elevadas; acredito que a última opção seja a mais provável] era construído para seu recebimento, com o travão adequando-se em um buraco no centro. Após circular o montículo no sentido horário, o rei e sua tripulação conduziam a multidão até o topo. Assim que o Clavie fosse depositado, combustível fresco era pilhado, e quando o capitão, grandemente ousado, escalava e derramava uma lustração de alcatrão na massa brilhante, havia uma tremenda alegria. As grandes chamas saltavam na noite escura e lançavam um brilho fantástico ao círculo de rostos erguidos.106

                O circular dos barcos com tochas pode ser encontrado em outros portos de pesca também, e há registro da prática sendo feita desde 1655 – para a desaprovação dos ministros locais de Alves, Drainie e Duffus. Tentativas foram feitas pela igreja para banir a prática, mas estas foram mal sucedidas, uma vez que estas práticas visavam trazer a bênção para a terra e para o mar, e ninguém queria desistir delas.107 Até o final do século XIX, em Burghead, o Clavie era levado até um barco no porto, preparado para o mar, e um ou dois punhados de grãos era atirado sobre o deck, e com uma libação de um forte licor, ela era renomeada como ‘Doorie’.”108

                As qualidades protetoras e purificadoras dos fogos são óbvias, com o foco no bem estar da comunidade tanto como para os indivíduos, ainda apesar dessas tradições terem geralmente se desenvolvido para nada mais que um encontro alegre para a maioria das pessoas.

O Ano Novo na Irlanda

                O Ano Novo não era recebido com tanto entusiasmo na Irlanda como era na Escócia, e em geral, a maioria das tradições que podem ser encontradas estando associadas com o dia podem ser vistas nas áreas onde a influência escocesa é mais aparente – sendo o first-footing o exemplo principal,109 e novamente, a preferência para um homem de cabelo escuro sendo o primeiro first-footer pode ser visto, assim como a de um gato preto.110

                Em geral, a crença nos daoine sìth estando a solta na véspera do Ano Novo era o suficiente para manter as pessoas dentro de casa, mas no Condado de Down, grupos de rapazes faziam ‘punhados’ de palha e os davam para cada casa na esperança de receber um presente em troca.111 Na Ilha Rathlin, Condado de Antrim, o mesmo quase idêntico costume dos mendigos vestidos de pele de ovelha pode ser encontrado, e tal costume parece ser de origem “puramente escocesa”.119

                E assim como na Escócia, o ano era frequentemente recebido com um pouco de cerimônia. Enchia-se a barriga de comida para certificar-se de que o ano vindouro traria o mesmo, e assim, a véspera do Ano Novo era frequentemente chamada de Oiche na Coda Móire (a Noite da Grade Porção).113

                Outro rito que visava a garantia de comida e abundância no ano vindouro envolvia a solene cerimônia da trituração de um bolo, um Pão de Natal,114 na porta, e as vezes, na janela da casa:

                “No oeste do Condado de Limerick... o bolo era despedaçado na porta com as palavras:

‘An donas amch [sic]
A’s an sonas isteach
Ó’ anocht go dh’bliain ó anocht
In ainm an Athar a’s an Mhic a’s an Spiris Naoimh, Amen.’

(Felicidade dentro e tristeza fora, a partir dessa noite
Até um ano a partir dessa noite
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém.)

                Muitos fazendeiros repetiam a cerimônia na porta da vacaria, para garantir uma abundância de forragem para as vacas.”115

                As vezes, o bolo era atirado através da porta para que alguém pegasse do outro lado da soleira.116

Conclusão

                Dada à história complicada da Reforma [NT: um movimento do século XVI que visava a reforma de abusos promovidos pela Igreja Católica] na Escócia e os seus efeitos na celebração do Natal, a transferência de muitas tradições para o Hogmanay significa que há uma certa quantidade de sobreposição entre os dois festivais – as fantasias, a ênfase nos fogos, o festejo e a compra de presentes, as fogueiras, e assim em diante.

                A facilidade com que as práticas parecem terem sido transferidas e fundidas como um todo significa que é difícil não considerar a estação inteira ao invés de apenas um dia ou o outro, e a influência nórdica nos costumes e ritos não pode ser ignorada. E ainda assim, tais costumes e ritos são unicamente escoceses, e isso também não pode ser ignorado.

                A natureza recíproca dos ritos era de maior importância: o oferecimento de canções, entretenimento e bênçãos em troca de presentes ajudava a reforçar positivamente os laços sociais da comunidade, com todo mundo participando dos processos. Outros membros da comunidade traziam bênçãos para suas casas, mas também a comunidade como um todo agia junta para garantir a prosperidade e o bem-estar contínuo de todos, nos encontros e nas procissões que podem ser encontradas – muitos dos quais ainda acontecem hoje.

                Em um tempo tão liminar – na “soleira” de um ano e outro, muitas precauções tinham que ser tomadas para evitar permanecer com qualquer negatividade ou atrair novas influências malignas durante o curso da noite. O resultado da aproximação do ano pairava em equilíbrio, com as tradições cuidadosamente observadas visando a condução do ano na direção certa enquanto o fogo queimava brilhantemente na lareira em cada casa, dando uma esperança para o futuro.

Referências

1. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p259.
2. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p580.
3. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p88.
4. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p59.
5. Napier, Folk Lore, or Superstitious Beliefs in the West of Scotland Within this Century, 1879, p103. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p61.
6. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p59.
7. MacLagan, County Folk-Lore Vol VII, 1914, p141.
8. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p60.
9. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p61.
10. Napier, Folk Lore, or Superstitious Beliefs in the West of Scotland Within this Century, 1879, p105.
11. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p62.
12. Grant Stewart, The Popular Superstitions of the Highlanders of Scotland, 1823, p241.
13. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p63.
14. Ibid. Ver também “Birth and Baptism”.
15. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p64-65.
16. Napier, Folk Lore, or Superstitious Beliefs in the West of Scotland Within this Century, 1879, p105; McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p63.
17. Black, County Folk-Lore Vol III, 1903, p196-197.
18. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p66-7.
19. Black, County Folk-Lore Vol III, 1903, p198-199.
20. Hutton, Stations of the Sun, 1996, p61.
21. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p63.
22. Hutton, Stations of the Sun, 1996, p61.
23. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p87; p94; Black, County Folk-Lore Vol III, 1903, p203-204; Hutton, Stations of the Sun, 1996, p61.
24. Black, County Folk-Lore Vol III, 1903, p203-204.
25. Rogers, Social Life in Scotland, Vol III, 1884, Chapter 19.
26. Napier, Folk Lore, or Superstitious Beliefs in the West of Scotland Within this Century, 1879, p105.
27. Grant Stewart, The Popular Superstitions of the Highlanders of Scotland, 1823, p237; see also p236-p239.
28. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p73.
29. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p64.
30. Grant Stewart, The Popular Superstitions of the Highlanders of Scotland, 1823, p241-242.
31. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p65.
32. Rogers, Social Life in Scotland, Vol III, 1884, Chapter 19.
33. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p575.
34. Hutton, Stations of the Sun, 1996, p116.
35. Uma prática similar de deixar algumas tradições associadas com um Dia Trimestral até a primeira segunda-feira do novo trimester – ver Bealltainn, para um exemplo. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p122.
36. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p102; p116.
37. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p99.
38. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p104.
39. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p103.
40. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p101.
41. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p580.
42. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p535.
43. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p104.
44. Interview with Iain MacPherson, Seanchas Ìle, 2007, p69-71.
45. Interview with Heather Dewar, Seanchas Ìle, 2007, p71.
46. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p576.
47. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p104.
48. Grant, Highland Folk Ways, 1961, p361.
49. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p101.
50. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p104.
51. Thiselton-Dyer, British Popular Customs Present and Past, 1911, p183.
52. Simpkins et al, County Folklore Volume VII: Fife with some notes on Clackmannan and Kinross-shire, 1914, p16.
53. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p114.
54. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p89.
55. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p89.
56. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p530.
57. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p576.
58. As vezes, veado ou cabra podiam ser usados – uma tira de pele do peito ou da cauda. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p530-531.
59. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p91.
60. Grant, Highland Folk Ways, 1961, p360-361.
61. Highland Superstitions connected with the druids, fairies, witchcraft, second sight, Hallowe’en, sacred wells and lochs, with several curious instances of Highland customs and beliefs, 1901, p43; McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p92.
62. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p92.
63. Napier, Folk Lore, or Superstitious Beliefs in the West of Scotland Within this Century, 1879, p103. Compare with examples given by McNeill in The Silver Bough Vol III, 1961, p 95-96.
64. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p94.
65. Hutton, Stations of the Sun, 1996, p44-45.
66. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p170.
67. Stokes, The Destruction of Da Derga’s Hostel.
68. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p81-82.
69. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p81-82.
70. Hutton, Stations of the Sun, 1996, p45.
71. Hutton, Stations of the Sun, 1996, p45.
72. McNeill, The Silver Bough Volume III, 1961, p83.
73. McNeill, The Scots Cellar, 1992, p52.
74. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p100.
75. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p104-105.
76. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p101; p105; Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p536.
77. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p105.
78. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p106.
79. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p536.
80. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p107; Grant, Highland Folk Ways, 1961, p361; Grant, Myth, Tradition and Story from Western Argyll, 1925, 77.
81. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p115.
82. Grant Stewart, The Popular Superstitions and Festive Amusements of the Highlanders of Scotland, 1823, p250.
83. Grant Stewart, The Popular Superstitions and Festive Amusements of the Highlanders of Scotland, 1823, p250-251.
84. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p113-114.
85. Pennant, A Tour in Scotland and Voyage to the Hebrides, p205.
86. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p537; p582.
87. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p113; p116.
88. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p114.
89. Newton, A Handbook of the Scottish Gaelic World, 2000, p180.
90. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p536; McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p109.
91. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p536.
92. ‘Knockfin’, “New Year in the Old Style in the Highlands,” The Celtic Monthly Vol I, 1875, p107.
93. Gregor, The Folk-Lore of North-East Scotland, 1881, p157-158.
94. Grant, Myth, Tradition and Story from Western Argyll, 1925, p77.
95. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p536.
96. McNeill, The Silver Bough Vol III, 1961, p109.
97. Black, County Folk-Lore Vol III, 1903, p195.
98. Ibid; Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p536.
99. Grant, Myth, Tradition and Story from Western Argyll, 1925, p77.
100. McNeill, The Silver Bough Vol IV: The Local Festivals, 1968, p209.
101. McNeill, The Silver Bough Vol IV: The Local Festivals, 1968, p219.
102. McNeill, The Silver Bough Vol IV: The Local Festivals, 1968, p209.
103. McNeill, The Silver Bough Vol IV: The Local Festivals, 1968, p261.
104. McNeill, The Silver Bough Vol IV: The Local Festivals, 1968, p209.
105. McNeill, The Silver Bough Vol IV: The Local Festivals, 1968, p218-219.
106. McNeill, The Silver Bough Vol IV: The Local Festivals, 1968, p210-211.
107. Rogers, Social Life in Scotland Vol III, 1884, Capítulo 19.
108. McNeill, The Silver Bough Vol IV: The Local Festivals, 1968, p211.
109. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p280.
110. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p259.
111. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p259.
112. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p262.
113. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p259.
114. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p280-281.
115. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p261.
116. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p261.

Nenhum comentário:

Postar um comentário