sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Là Fhèil Mìcheil

Fonte: Site 'Tairis', Là Fhèill Brìghde, disponível em <http://www.tairis.co.uk/festivals/la-fheill-micheil/>. All content by Annie Loughlin © 2006-2015

Là Fhèill Mìcheil

                Enquanto que há uma abundância relativa de evidências para o solstício de verão sendo celebrado na Irlanda em comparação com a Escócia, o oposto pode ser inteiramente dito para o Là Fhèill Mìcheil, ou Michaelmas, no dia 29 de setembro.

                Caindo próximo da tradicional data do equinócio de outono (por volta do dia 25), o festival de São Miguel era o Dia Trimestral que via o início oficial do outono na Grã-Bretanha, e como tal (em um sentido secular) estava relacionado com a realização de tribunais, pagamento de alugueis e festejos.1 Sob influência anglo-normanda, a mesma prática foi introduzida na Irlanda, mas muitas partes resistiram em favor de manter o Samhainn como a época tradicional para o ajuste de tais assuntos legais.2


O Là Fhèill Mìcheil na Escócia

                De todos os festivais e os costumes associados com eles, Carmichael nos fornece os detalhes mais explícitos para o Là Fhèill Mìcheil. Ao olharmos para os detalhes do dia, podemos ver o quão ritualístico e importante eram cada ato e aspecto de dias significativos como este; as celebrações começavam com o preparo do struan na véspera, seguida por uma Missa matinal e depois, um café da manhã com o struan (strùthan, ou strùdan em gaélico escocês3) e cordeiro, especialmente morto para a ocasião. Após o café da manhã vinha a corrida de cavalos e uma procissão pela área (normalmente indo ao redor da igreja local e voltando para o centro da aldeia, mas sempre em sentido horário), seguido por uma troca de presentes, tais como struan e cenouras especialmente colhidas, e depois, uma noite de danças, músicas e mais presentes. Desde a feitura do struan até o seu consumo, desde a colheita das cenouras até a sua troca, desde as procissões no sentido horário e as corridas de cavalo até as danças, tudo tinha seus pequenos rituais e bênçãos que os acompanhavam.

                Alguns desses costumes parecem ter sido particularmente relevantes na festa de São Miguel (ou pelo menos na época na qual o festival caía), enquanto que outros parecem ter sido influenciados pela estação da colheita no geral e podem ter sido anexados ao dia após terem migrado dos Dias Trimestrais mais próximos (Lùnastal e Samhainn) para se tornar associados com um santo popular. Ao ver que São Miguel é grandemente associado com cavalos (e com o mar), não é surpresa descobrir que os cavalos constituíam uma grande parte do foco na Escócia,4 mas talvez também seja significante o fato dos cavalos serem associados com as festividades do Lùnastal. Nesse caso, como em outros (como a cozedura do struan, por exemplo), tal mudança pode ser uma forma de explicar como um dia desse tipo, que não era um tradicional Dia Trimestral no calendário gaélico, veio a ter tais peculiares costumes gaélicos associados com ele.

                Como um resultado dessas corridas, Campbell diz que o dia era frequentemente conhecido como latha na marchachd, ‘o dia da equitação’. Em Barra, as mulheres levavam os cavalos até os homens e montavam atrás deles. “Na galopada que se sucedia”, se a mulher caísse era considerado auspicioso,5 e Martin nota que os cavalos eram levados ao redor de uma igreja em Kilbar (presumivelmente no sentido horário).6 McNeill registra que as últimas corridas de cavalo que aconteceram na ilha foram em 1829.7

                Descrevendo as corridas em Harris, Martin Martin dá um relato de como elas aconteciam em seus dias:

                “Os nativos são bastante viciados em equitação, e a simplicidade do país incita tanto os homens como cavalos a isso. Eles observam uma cavalgada anual no dia de S. Miguel e todas as classes de ambos os sexos aparecem nas costas de cavalos. O lugar desse encontro é uma grande região de solo arenoso firme na praia, e lá eles realizam essas corridas de cavalos por pequenos prêmios pelos quais contendam avidamente. Existe um costume antigo onde é considerado legal qualquer um dos habitantes roubar o cavalo do vizinho na noite anterior à corrida e montá-lo durante todo o dia seguinte, na condição que ele devolvesse o cavalo são e salvo para seu dono após a corrida. O modo como as corridas acontecem é realizado por alguns jovens, que não usam nem selas nem freios, exceto duas pequenas cordas feitas de agrostis ao invés dos freios, e também não usam esporas, mas vão com seus pés nus; e quando eles começam a corrida, atiram essas cordas nos pescoços de seus cavalos e os monta vigorosamente com um longo pedaço de alga em cada mão ao invés de um chicote, que é colocado ao sol para secar muitos meses antes daquele propósito. Essa é uma feliz oportunidade para os vulgares, que tem poucas ocasiões para festejos, exceto nos domingos: os homens tem suas amantes atrás deles em cima dos cavalos, e dão e recebem presentes mútuos; os homens presenteiam as mulheres com punhais e bolsas, e as mulheres presenteiam os homens com um par de belas ligas de diversas cores, e lhes dão da mesma forma uma quantidade de cenouras.”8

                Martin também faz uma menção às cavalgadas em Skye e ao sul de Uist. Nesse último lugar, os cavaleiros vão até a praia e catam berbigões, que estão em abundância nessa época do ano.9

                Pennant, por sua vez, observou as cavalgadas em Canna: “Todo homem da ilha monta seu cavalo desprovido de selas, e leva atrás dele alguma jovem garota ou a esposa de seu vizinho, e então cavalga para frente e para trás da aldeia até um certo cruzamento, sendo incapazes de dar qualquer razão para a origem desse costume.”10 Ao escrever no século XIX, Cumming adiciona alguns outros detalhes dizendo que a corrida seguia as procissões até o cruzamento, que eram rodeados três vezes no sentido horário antes de todos voltarem para a estalagem da aldeia (onde estavam os struans – veja mais abaixo). Aqui o festival era chamado de “a Oda”, como era em St. Kilda,11 nas Uists, em Harris e em Lewis.12

                Era talvez no início da procissão que o hino Micheal nam Buadh (‘Miguel, o Vitorioso’) era cantado, como registrado por Carmichael no volume 1 do Carmina Gadelica, que claramente descreve o propósito das procissões:

“Faço meu circuito
Na companhia de meu santo,
No machair, no campo,
Na fria colina coberta de urzes;
Ainda que eu viaje pelo oceano
E pelo duro globo do mundo
Nenhum mal poderá se abater sobre mim
Sob a proteção de teu escudo;
Ó Miguel, o vitorioso,
Joia de meu coração,
Ó Miguel, o vitorioso,
O pastor de Deus és tu.”

                Após as cavalgadas vinha a troca de struans. Estes eram tradicionalmente cozidos pelas mulheres que participavam das cavalgadas para os homens com os quais elas cavalgavam,14 mas também eram feitas em casa para a família e comidas cerimonialmente antes das procissões e corridas começarem. De todas as tradições associadas com o Là Fhèill Mìcheil, o cozimento do struan era o mais solene e evocativo, uma parte integral das celebrações na Escócia. Mesmo quando a colheita era tardia e as plantações ainda não pudessem estar prontas para o esmerilar, um pouco de cada grão era tirado do campo e secado no fogo para torná-lo pronto,15 e era uma questão de orgulho e boa sorte para a próxima colheita quem quer que tentasse fazer o primeiro struan da aldeia.16 Eram muitos struans que tinham que ser feitos – o maior para a família, struans individuais para cada membro da família, assim como para cada um dos criados e pastores que fossem empregados, e mais os struans que eram dados como presentes para os amigos e para os menos afortunados da aldeia. Como tal, o esmerilar e o então cozimento podia levar a noite inteira, desde a véspera do festival até a manhã do dia em si.

                A Bênção do Struan (An Beannachadh Strùain) que Carmichael dá no volume 1 parece ter sido dita antes do struan ser comido, talvez enquanto eram feitos ou logo antes de serem comidos. O tempo não foi colocado explicitamente na descrição das celebrações que Carmichael dá nas diversas páginas antes da canção ser lida, no entanto, é a descrição mais completa e detalhada de como o struan era feito – incluindo o ritual que o acompanhava – e tal como uma raridade nesse assunto, merece grande atenção:

                “Um bolo chamado Struan Micheil é feito com todos os cerais que crescem na fazenda durante o ano. Ele representa os frutos do campo assim como o cordeiro representa os frutos dos rebanhos. Aveia, cevada e centeio são os únicos cereais que crescem nas Ilhas. Estes são ventilados no chão, moídos em um moinho de mão e sua farinha é usada em partes iguais no struan. O struan deve conter bastante farinha e deve ser assado em uma pele de cordeiro. A farinha é misturada com leite de ovelha, que é considerado o mais sagrado dos animais. Para este propósito, as ovelhas têm seu leite retido até a véspera do dia de S. Miguel, depois do qual elas são permitidas permanecerem na colina e secarem. O struan é cozido pela filha mais velha da família, guiada pela sua mãe e ajudada por suas irmãs mais ágeis. Enquanto ela mistura a farinha com o leite, a garota suavemente diz:

Progenitura e prosperidade da família,
Mistério de Miguel, proteção da Trindade.

                Uma leac struain (bandeira do struan), trazida das charnecas pelos rapazes da família durante o dia, é firmemente colocada em um canto diante do fogo, e o struan é colocado em um canto de frente para a bandeira. O fogo deve ser aceso por crionach caon (feixes sagrados) de carvalho, sorveira, espinheiro e outros. O espinheiro-negro, a figueira selvagem, a faia preta e outras madeiras ‘cruzadas’ são evitadas. Quando o struan ganha consistência, três sucessivas camadas de uma mistura de creme, ovos e manteiga são colocadas em cada lado alternadamente. Essa mistura deve ser colocada com três penas da cauda de um frangote do ano, mas em Uist isso é geralmente feito com um pequeno feixe de agrostis. Esse bolo é chamado de struan treo, o struan da família, struan mor, o grande struan, e struan comachaidh, o struan comunal. Pequenos struans são feitos para os membros individuais da família pelas mães, filhas, irmãs e empregadas de confiança. Estes são conhecidos como asstruan beag, os pequenos struans, struan cloinne, o struan dos filhos, e pelos nomes para quem eles eram feitos. Se um membro da família estivesse ausente ou morto, um struan era feito em seu nome. Esse struan era dividido entre a família e amigos especiais da pessoa ausente em seu nome, ou dado para os pobres que não tem grãos para fazer seu próprio struan. Ao misturar a farinha do struan individual, a mulher que o amassa menciona o nome da pessoa para quem ela está fazendo:

Progenitura e prosperidade para Donald,
Mistério de Miguel, proteção do Senhor.

                Os struans individuais de uma família tem o tamanho uniforme mas suas formas são irregulares, alguns tendo três pontas, simbolizando a Trindade; alguns tendo cinco, simbolizando a Trindade e mais Maria e José; alguns sete, simbolizando os sete mistérios; alguns nove, simbolizando os nove arcanjos; e alguns redondo, simbolizando a eternidade.

                Vários ingredientes são introduzidos nos pequenos struans, como uvas-do-monte vermelhas (cranberries), uvas-do-monte azuis (bilberries), amoras, alcaravias e mel. Aqueles quem os fazem e aqueles para quem são feitos rivalizam com seus amigos quem terá o melhor e os mais variados ingredientes. Muitas precauções são tomadas pela mulher que está fazendo o struan. Se ele quebrasse antes de estar pronto, significava má sorte para a família. Quando a bandeira do struan caísse e o struan junto com ela, o presságio era cheio de mau augúrio para a família. Um struan quebrado não era usado.

                A farinha seca que sobrasse na fôrma após o struan ser feito era colocado em um mogan, uma meia, e jogada nos rebanhos no dia seguinte – sendo o Dia de Miguel – para fornecê-los progenitura, abundância e prosperidade, e para protegê-los do olho maligno, azar e praga. Ocasionalmente, a farinha era guardada por um ano e um dia antes de ser usada.”17

                Em um ambiente privado, tanto Grant como McNeill registraram que os struans ainda eram feitos no século XX, embora, como McNeill lamenta, estas formas modernas são geralmente feitas sem as velhas cerimônias inclusas.18 De fato, eles ainda podem ter sido feitos atualmente, mas de um modo geral, o costume parece ter sido vítima do despovoamento e enfraquecimento dos laços comunitários que são tão importantes em sua preservação.19

                Sheila MacDonald descreve um tipo similar de prática das Ilhas Hébridas em 1903 – menos ritualística do que aquelas que Carmichael descreveu (embora ela não tenha dito que realmente testemunhou a feitura do struan) – no entanto, parece claramente que tenha existido alguns ritos associados com a feitura do struan, mesmo se a tradição original tenha sido alterada de alguma forma:

                “Os primeiros feixes da colheita eram colhidos, secados e transformados em farinha com um moinho de mão. A dona de casa então pegava alguns ovos, manteiga, melaço, misturava, e nessa mistura adicionava a farinha nova, fazendo uma massa.

                Na placa de pedra que formava sua pedra do lar, ela colocava algumas brasas quentes e quando elas aqueciam suficientemente, ela as varriam. A massa era colocada nessa pedra para cozinhar com uma panela ao contrário cobrindo-a. Durante o processo de cozimento, a massa era frequentemente molhada com ovos batidos, formando uma cobertura parecida com um flan ou quindim. Finalmente, após o bolo ter sido cozido, um pedacinho era quebrado e lançado ao fogo. Por que? Você pode perguntar.

                Bom, era como uma oferenda para Donas ou para o Old Hornie (Velho Hornie), ou qualquer que seja a designação correta do espírito que presidia lá, a quem eles acreditavam que habitava as regiões de fogo. A dona de casa fazia isso a fim de protegê-la e proteger a sua família contra o Maligno. Após reservar um pouco do Struan para o uso da família, ela ia até seus vizinhos e dava a cada um deles um pedacinho, normalmente sendo uma grande rivalidade entre aqueles que tentavam ser o primeiro a moer a farinha nova e preparar o Struan. O primeiro a fazer isso era geralmente entendido como aquele que terá as melhores colheitas durante o ano vindouro.”20

                McNeill também registrou a oferenda de uma porção do struan para “o rascal” (diabo) em Uist. Aqui, a mulher que cozinhou o bannock recolhia as sobras da mesa e a queimava nas brasas. Era jogado lá sobre o ombro com as palavras “Aqui para ti, rascal (diabo); fique atrás de mim, fique longe de minha família.”21 Como notado em outro lugar, é provável que esse ritual tenha sido feito originalmente no Samhainn, espelhando um tipo similar de oferenda que era feito no Bealltainn.

                Embora os struans sejam preparados na véspera, eles não eram comidos até a manhã do Là Fhèill Mìcheil, após a Missa matinal. Eles eram chamados de ‘biadh maidne Micheil’, a comida matinal de Miguel, e os struans eram acompanhados com um pouco de cordeiro, especialmente morto e preparado para a ocasião:

                “O pai de família coloca o struan ‘air bord co gile ri cailc na fuinn no ri sneachda nam beann’ – em uma mesa tão branca como a cal da rocha ou a neve da colina. Ele então pega:

‘Sgian gheur, ghlan,
Um punhal afiado, verdadeiro,
Gun smal, gun scour,
Sem mancha, sem poeira,
Gun sal, gun sur,
Sem borrão, sem defeito,
Gun mhur, gun mbeirg.’
Sem sujeira, sem ferrugem.

                E tendo feito o sinal da cruz de Cristo sobre sua face, o homem corta o struan em pequenos pedaços, retendo nessas partes a forma do struan inteiro. Ele corta o cordeiro em pequenos pedaços. Ele coloca a tábua com o pão e a carne no centro da mesa. A família então, estando de pé ao redor da mesa e segurando um pedaço do struan na mão esquerda e um pedaço de cordeiro na mão direita, começa a ‘Iolach Micheill’, a triunfante canção de Miguel, em honra à Miguel, que os guarda e os guia, e em honra à Deus, que deu a eles a comida e o vestuário, a saúde e a bênção. O homem e sua esposa coloca o struan em um ‘coisan’, um cesto de palha, o cordeiro em outro, e saem para distribuí-los entre os pobres da vizinhança que não tem frutos ou rebanhos.”22

                Conforme o gostou mudou e a farinha se tornou um produto mais banal – especialmente com a farinha permitindo um cozimento de melhor qualidade – a receita do struan evoluiu e mudou com o tempo. Goodrich-Freer descreve um struan feito de farinha e água, do tamanho de um moinho de mão (rudemente comparando com o dobro do tamanho de um prato de jantar médio), que era feita com uma fina cobertura de quatro ovos batidos com um pouco de soro de leite coalhado. Pennant dá uma descrição similar, especificando o leite ao invés do soro de leite,23 e Campbell registra que eles consistiam de farinha de aveia misturada com melado, manteiga, ‘etc.’24 Margaret Shaw, por outro lado, registra tanto a versão antiga como a moderna da receita (com a velha versão sendo feita com farinha, e a moderna sendo mais doce e feita usando apenas farinha).25

                Carmichael menciona diversos formatos diferentes do struan, e Shaw descreve um formato redondo tradicional moldado manualmente com uma depressão no meio.26 Goodrich-Freer descreve uma forma triangular com os cantos cortados como sendo uma forma mais antiga que é tradicionalmente associado com “o sexo feminino”,27 e apesar dela não dar quaisquer motivos, McNeill nota as similaridades no formato com o corte triangular feito com a pá durante o ritual da colheita de cenouras (como veremos mais adiante), comentando que “o simbolismo fálico é óbvio.”28 Deve-se observar, no entanto, que o simbolismo pode ser igualmente visto em um contexto puramente cristão, representando tanto a Santíssima Trindade como o escudo de três pontas de São Miguel.29 Dado o foco protetor do ritual, o formato do escudo seria uma escolha natural ao enfatizar o propósito e o simbolismo do struan, então não necessariamente significa que sua origem seja pré-cristã, apesar de ser impossível dizer conclusivamente uma coisa ou outra.

                A colheita das cenouras era outro importante costume associado com o festival, embora não caísse necessariamente no dia em si. A colheita parece ter sido exclusivamente preservada pelas mulheres e garotas, que saiam para procurá-las e colhiam o tanto quanto achassem. Como a feitura do struan, a colheita da cenoura era acompanhada por um solene ritual:

                “Alguns dias antes do festival de S. Miguel, as mulheres e garotas iam até os campos e planícies da cidade para procurar cenouras. A tarde do domingo que precedia o dia de S. Miguel é especialmente consagrada a esse propósito, e por isso é conhecido como ‘Domhnach Curran’ – Domingo da Cenoura. Quando o solo fica macio e friável, as cenouras podem ser tiradas do chão sem precisar cavar. Quando, no entanto, o solo é duro, um espaço é cavado para a mão acessar a raiz. Esse espaço é feito no formato de um triangulo de lados iguais, tecnicamente chamado de ‘torcan’, o diminutivo de ‘tore’, fenda. O instrumento usado é um enxadão de três dentes chamado ‘tri-meurach’, três pontas, ‘sliopag’ ou ‘sliobhag’. O ‘torcan’ de três lados simboliza o escudo de três lados e o ‘sliopag’ de três pontas, o tridente de S. Miguel. As muitas figuras brilhantemente vestidas movendo-se para lá e cá, como imagens em um caleidoscópio, são singularmente lindas e pitorescas. Cada mulher entoa uma canção com a sua própria melodia e a seu próprio tempo independente das mulheres ao seu redor. O seguinte fragmento foi entoado para mim em uma voz feminina suave e deprimida que tem colhido cenouras por oito anos:

‘Torcan torrach, torrach, torrach,
Fenda frutífera, frutífera, frutífera,
Sonas Curran corr orm
A insuperável alegria das cenouras sobre mim
Michael mil a bhi dha m’chonuil,
Miguel, o bravo, me dotando,
Bride gheal dha m’ chonradh.
Bride, a nobre, me ajudando.


Piseach linn gash piseach,
Progenitura notável sobre toda progenitura,
Piseach dha mo bhroinn,
Progenitura em meu útero,
Piseach linn nach piseach,
Progenitura notável sobre toda progenitura,
Piseach dha mu chloinn.’
Progenitura em minha progenitura.

                Se uma mulher encontrasse uma cenoura bifurcada, ela canta uma estrofe mais exultante que faz com que seus vizinhos a rodeiem para ver e admirar sua sorte,

‘Fhorca shona, shona, shona,
Bifurcação alegre, alegre, alegre,
Fhorca churran mo orm,
Bifurcação da grande cenoura para mim,
Conuil curran corr orm,
A insuperável dotação da cenoura sobre mim,
Sonas curran mor dho dhomh.’
A alegria da grande cenoura para mim.

                Há muita rivalidade entre as mulheres para quem conseguir ter mais das melhores cenouras. Elas carregam as cenouras em uma bolsa presa na cintura chamada de ‘crioslachan’, pequeno cinto, vindo de ‘crios’, um cinto. Quando vestiam a ‘earrasaid’, as cenouras eram carregadas em suas amplas dobras. As mulheres lavavam as cenouras e as amarravam em pequenos grupos, cada grupo contendo um ‘glac’, um punhado. Os grupos eram amarrados com uma linha de três camadas, geralmente escarlate, e eram colocados em buracos próximos às casas cobertos com areia até usarem as cenouras.”30

                Uma velha mulher entrevistada por Goodrich-Freer descreve como os rapazes tentavam roubar as cenouras antes das mulheres terem a chance de cozinhá-las ou darem com presentes, enquanto que em outras partes, as cenouras eram dadas ao companheiro de cavalgada da mulher após as corridas e procissões de cavalos.31 As cenouras eram dadas, e recebidas, com bênçãos; a mulher que dava a cenoura dizia, “Ruth agus rath air do iaighe ‘s eirigh/Progenitura e prosperidade no teu deitar e em teu levantar,” e o homem que recebia o presente respondia algo como:

‘Piseach agus pais air an lamh a thug,
Progenitura e paz para a mão que me deu,
Por agus pais dha mo ghradh a thug,
Descendência e paz para meu amor que me deu,
Piseach agus pailteas gun an airc na d’chomhnuidh,
Progenitura e abundância sem escassez em tua casa,
Banas agus brioghas dha mo nighinn duinn,
Matrimônio e maternidade para minha donzela morena.
Baireas agus buaidh dha mo luaidh a thug.’
Dotação e prosperidade para meu amor que me deu.32

                Na noite do Là Fhèill Mìcheil, após o dia de struans, procissões e corridas, havia tempo para dança e diversão. Os presentes eram trocados entre os amantes, e as cenouras, símbolos de benevolência, eram dados para os amantes e as paqueras. As mulheres carregavam as cenouras em uma bolsa chamada crioslachain, destinada à uma pessoa específica (como seu companheiro de cavalgada), e quando estivesse vazia, ela iria até seu esconderijo que tinha feito no machair (na planície próximo à praia) durante a colheita, e enchia a bolsa novamente. Quando retornasse à dança, anunciava:

“ ‘S ann agam fein a bhiodh na currain,
Ga be co bhuinneadh bhuam iad.
‘S ann agam fein a bhiodh an ulaidh.
Ge be ‘n curaidh bheireadh bhuam e.”

“Sou eu quem tenho as cenouras,
Quem será ele que as ganhará de mim.
Sou eu quem tenho o tesouro,
Quem será o herói que o tomará de mim.”33

                Das danças descritas por Carmichael, uma delas é particularmente interessante, uma vez que envolve a encenação da morte e a então ressureição da Cailleach:

                “A música e a dança, a alegria e a diversão, perduram por toda a noite, muitas curiosas encenações são feitas, muitas curiosas danças são dançadas, algumas das quais à caráter. Essas atuações e danças são indicativos de tempos muito antigos, talvez de climas distantes. São evidentemente simbólicas. Uma delas é chamada ‘Cailleach an Dudain’, Cailleach do Moinho. Essa é uma dança curiosa. O escritor a viu sendo realizada diversas vezes.

                Ela é dançada por um homem e uma mulher. O homem tem uma varinha em sua mão direita, variadamente chamada de ‘slachdan druidheachd’, varinha druídica, ‘slachdan geasachd’, varinha mágica. O homem e a mulher gesticulam e tomam atitudes um para outro, rodando e rodando, dançando para lá e para cá, cruzando-se e cruzando-se, mudando e trocando de lugares. O homem agita a varinha sobre sua cabeça e sobre a cabeça da mulher, a quem toca com a varinha e ela cai no chão aos seus pés, como se estivesse morta. Ele chora pela sua Cailleach morta, dançando e gesticulando ao redor de seu corpo. Ele então levanta sua mão esquerda, e olhando para a palma, respira sobre ela e a toca com a varinha. Imediatamente a mão flexível ganha vida e se movimenta de um lado para o outro, para cima e para baixo. O homem se alegra e dança ao redor da mulher no chão. E tendo feito a mesma coisa com a mão direita, com os pés esquerdo e direito em sucessão, eles ganham vida e se movimentam. Mas apesar dos membros estarem vivos, o corpo ainda continua inerte. O homem ajoelha sobre a mulher, respira em sua boca e toca seu coração com a varinha. A mulher ressuscita e levanta, confrontando o homem. Os dois então dançam alegre e vigorosamente como na primeira parte da dança. A melodia varia com as várias fases da dança. Ela é tocada por um flautista ou violinista, ou cantada como uma ‘port-a-bial’, melodia da boca, por um espectador ou pelos próprios atores. O ar é estranho e irregular, e as palavras são curiosas e arcaicas.”

                As ações claramente relacionam Cailleach como o espírito da colheita, e talvez tem alguma similaridade com o conto irlandês da morte de Tailtiu após seu esforço em limpar as planícies para seu filho adotivo Lugh, onde ela é comemorada no Lùnastal. Aqui, no entanto, a Cailleach tem decididamente um final feliz, e sua ressureição se relaciona com o ciclo do ano de crescimento, colheita, descanso e a então renovação na primavera. A dança entre o homem e a mulher tem tanto sobretons de uma luta, com armas, como de um ritual de acasalamento34 (talvez análogo à luta de conquista da colheita).

                O uso da varinha é particularmente interessante, dado que Cailleach é associada com uma varinha no início da primavera, quando ela tenta parar o crescimento das plantas a fim de prolongar o inverno.

A evidência na Irlanda

                Os costumes na Irlanda, no que concerne o Là Fhèill Mìcheil, parecem ser muito mais localizados, com apenas uma similaridade superficial com a Escócia. Havia a conexão com o mar e cavalos, mas como Evans nota em sua obra Irish Folk Ways, não havia tanta pompa e cerimônia como em lugares como Uist.35 Em vez disso, o dia marcava diversas coisas, a depender da área – o fim do verão e da estação turística no Condado de Waterford,36 o fim da estação de pesca no sul e no sudeste, o início da estação das maçãs em partes de Munster e Leinster, da estação de caça e da caça aos gansos, ou Fomhar na nGéan.39

                Enquanto que na Escócia normalmente o cordeiro estava no menu, a Irlanda favorecia o ganso ou o galo,40 assim como na Inglaterra, apesar do cordeiro não está completamente ausente.41 Após o abate, em algumas partes, o sangue era esfregado nas portas.42 Essa era a época do ano em que o fazendeiro começava a pensar no número de gado que sobreviveria durante o inverno, e os rebanhos eram abatidos adequadamente.43 Da mesma forma, os gansos que tinham nascido na primavera iam para o mercado e inevitavelmente, acabavam na mesa, era enviado como um presente para um vizinho ou amigo ou suas partes eram dadas aos pobres da área.44

                Na costa sul e sudoeste, o Là Fhèill Mìcheil marcava o fim da estação de pesca e todos os barcos e equipamentos eram deixados de lado até o ano seguinte.45 Em outros lugares da Irlanda, os pescadores observavam a ocasião não indo para o mar na véspera, mas de outra forma, retomavam à pesca no dia seguinte.46

                No Condado de Waterford, um dos costumes mais notáveis foi recentemente revivido na área,47 que era a confecção de bonecas feitas com alga para anunciar o fim da estação turística:

                “Em Tramore, Condado de Waterford, a temporada de férias de verão era encerrada com uma curiosa cerimônia. O costume de ‘ir para o mar’ é antigo na área; os comerciantes das cidades, assim como as famílias de fazendeiros, tem vindo para Tramore por mais de duzentos anos, resultando em muitos habitantes locais adotando muito de seu sustento a partir desse costume... Na festa de S. Miguel, essas pessoas marchavam para a praia e atiravam uma efígie chamada ‘Micil’, como uma jocosa insinuação ao grande arcanjo de que seu festival significava perda financeira para eles.”48

                O costume em si não parece ser muito antigo, mas claramente existem paralelos com outros tipos de oferendas ao mar em outras épocas do ano, seja por agradecimento ou antecipação.

Conclusão

                Apesar de existir ritos e costumes notáveis associados com o dia – na Escócia, particularmente – há pouca evidência no geral para sugerir que o dia em si tivesse algum significado além de ser uma data no calendário eclesiástico e no (tardio) calendário legal britânico que veio a se estabelecer de uma forma ou de outra na Irlanda ou Escócia. As festividades eram grandemente alegres – tais como corridas de cavalo ou com as mulheres colhendo cenouras enquanto que os rapazes tentavam roubá-las. Ou então são costumes inteiramente práticos – tais como o depenar dos gansos para obter penas, o abate do gado menos produtivo ou menos robusto para que o restante do gado tivesse comida suficiente para viver durante o inverno.

                O pouco que se tem que parece ter um tema pré-cristão, ou pelo menos decididamente gaélico, pode facilmente ser visto como tendo migrado de outros festivais. A corrida de cavalo era comum em Lùnastal; como McNeill argumenta, o struan – especialmente o ato de atirar um pouco dele para o ‘rascal’ – faria mais sentido se o víssemos como um costume que migrou do Samhainn, como um reflexo direto dos mesmos ‘sacrifícios’ feitos em Bealltainn.49

                Diferente do Samhain, Bealltainn, Lùnastal ou Là Fhèill Brìghde, não há uma ênfase na sensação de perigo sobrenatural; não há menção de sorveira ou outras árvores protetoras sendo levadas para casa ou para a vacaria (até onde vi), e onde há uma menção ao saining, este é feito com sangue ou sal, ao invés na ênfase mais comum na água ou urina. Enquanto que o ritual do struan e os seus processos em si tem um propósito claramente protetor, não há evidência de uma ameaça iminente e sobrenatural que é comumente encontrada nos Dias Trimestrais. É possível que a mudança das tradições é a causa dessa aparente separação. E talvez, embora movido para um contexto diferente, como esses costumes migraram e foram adotados em um contexto de um santo popular, isto pode ter ajudado a preservá-los de uma forma que não existia nos Dias Trimestrais, uma vez que não existia uma estrutura notoriamente religiosa (aceitavelmente cristã) para preservá-las.

Referências

1. Hutton, Stations of the Sun, 1996, p348.
2. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p187.
3. Ver Goodrich-Freer, ‘More Folklore from the Hebrides,’ Folklore Vol 13, 1902, p44-45, que comenta que o nome era aplicado apenas aos bolos feitos nessa época.
4. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p102.
5. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p558.
6. Martin, A Description of the Western Islands of Scotland (circa 1695).
7. As celebrações na verdade aconteciam no dia 25 de setembro em Barra, que era dedicada ao santo local, S. Barr. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p104.
8. Martin, A Description of the Western Islands of Scotland (circa 1695).
9. Martin, A Description of the Western Islands of Scotland (circa 1695).
10. Pennant, A Tour in Scotland, 1998, p272.
11. Para uma descrição dessas festividades em St Kilda, ver Macaulay, The history of St Kilda, 1764, pp81-83.
12. Cumming, In the Hebrides, 1883.
13. Carmichael, Carmina Gadelica Vol I, 1900.
14. Pennant, A Tour in Scotland, 1998, p272.
15. Goodrich-Freer, ‘More Folklore from the Hebrides,’ Folklore Vol 13, 1902, p44-45.
16. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p115.
17. Carmichael, Carmina Gadelica, 1992, p590-591.
18. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p115; Grant, Highland Folk Ways, 1961, p358.
19. Hutton, The Stations of the Sun, 1996, p348.
20. MacDonald, ‘Old-World Survivals in Ross-shire,’ Folklore Vol XIV, 1903, p382.
21. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p115.
22. Carmichael, Carmina Gadelica Vol 1, 1900, p200.
23. Pennant, A Tour in Scotland, 1998, p272.
24. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p558.
25. Shaw, Folksongs and Folklore of South Uist, 1977, p58.
26. Shaw, Folksongs and Folklore of South Uist, 1977, p58.
27. Goodrich-Freer, ‘More Folklore from the Hebrides,’ Folklore Vol 13, 1902, p44-45.
28. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p114.
29. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p114.
30. Carmichael, Carmina Gadelica Vol 1, 1900, p200.
31. Cumming, In the Hebrides, 1883.
32. Carmichael, Carmina Gadelica Vol 1, 1900, p200.
33. Carmichael, Carmina Gadelica Vol 1, 1900, p209.
34. Koch, Celtic Culture: A Historical Encyclopedia, 2006, p560.
35. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p276.
36. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p189.
37. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p189.
38. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p189.
39. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p188.
40. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p276.
41. Hutton, The Stations of the Sun, 1996, p348-349; Ó Súilleabháin, Irish Folk Custom and Belief, 1967, p74.
42. Ó Súilleabháin, Irish Folk Custom and Belief, 1967, p74.
43. Ó Súilleabháin, Irish Folk Custom and Belief, 1967, p74.
44. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p188.
45. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p189.
46. Ó Súilleabháin, Irish Folk Custom and Belief, 1967, p74.
47. Ver o artigo em The Irish Examiner.
48. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p189.
49. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p102.



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