segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Um presente por um Presente: Oferendas

Texto extraído do site www.gaolnaofa.com, por An Chomhairle Ghaol Naofa e traduzido por mim. Todos os direitos reservados.
-

Um presente por um presente: Oferendas

Por An Chomhairle Ghaol Naofa

Copyright © 2007-2012. All Worldwide Rights Reserved to An Chomhairle Ghaol Naofa/An Chuallacht Ghaol Naofa. Do not reproduce without explicit permission

Introdução

     As oferendas são uma das mais fáceis e melhores formas de começar uma prática de Politeísmo Gaélico. Não há muito de estudo envolvendo isso, e dar oferendas é uma das formas mais efetivas de contatar os deuses. Oferendas são simples atos que tem um significado poderoso e complexo. Nesse artigo, vamos observar a história das oferendas, as variedades que podem ser dadas, e como lidá-las e os motivos para consultar os presságios.

O Historicismo das Oferendas

     O De Gabail in tSida (A tomada do Sidhe), contido dentro de um manuscrito do século XII do livro de Leinster, fornece um interessante relato do início do paganismo na Irlanda. O conto se segue após a derrota dos Tuatha Dé Danann (, isto é, ‘deuses’) pelos Milesianos (os Gaels/a humanidade) na Batalha de Tailtiu. Os vitoriosos Milesianos agora estabelecidos na terra de Ériu, enquanto os Tuatha Dé Danann foram forçados a irem para o ‘subsolo’ e permanecem hostis aos Milesianos, envenenando suas colheitas, destruindo seu leite e causando desassossego. O Rei dos Milesianos, Eremon, foi então obrigado a se encontrar com o chefe dos Tuatha Dé, Dagda, para discutir arranjos de paz entre as duas raças. Um acordo foi feito, e os Milesianos foram obrigados a pagar tributos de leite e seus derivados para os Tuatha Dé Danann, que em troca, permitir-lhes-ia beber seu leite, desenvolver suas colheitas, e que assegurem a paz entre as duas partes¹.

     Esse pequeno conto poderia revelar-nos muito sobre como os antigos Gaels viam seus relacionamentos e interação com os deuses e espíritos, ou, no mínimo, fornecer uma base útil em que os modernos Politeístas Gaélicos podem começar a construir. Primeiro, o texto revela que quando a humanidade e os estão em desacordo, haverá desarmonia, escassez, e possivelmente uma cadeia de eventos infelizes. Então, quando o homem os se encontram em termos de paz, ambas as partes entram em um relacionamento contratual. Os contratos, mútuos acordos formais, foram literalmente, a fundação da antiga sociedade Gaélica e eram realizadas com grande respeito. Isso é bem expressado em uma citação de Di Astud Chor, ‘pois o grande mundo está assegurado/pelos contratos que são proclamados²’. Esse contrato entre o homem e os é honrado por um ciclo recíproco de mútuo respeito e acomodação, ou seja, hospitalidade, um princípio também tido em grande relação pelos antigos Gaels que aplicaram leis rigorosas sobre a forma de hospitalidade que deve ser dada de acordo com quando e para quem. Finalmente, isso mostra que a hospitalidade, expressa através de presentes (nesse caso, leite e seus derivados), promove a abundância, saúde, e a harmonia entre o homem e os (talvez, representativo de uma cosmologia harmônica). Tal relacionamento é um epíteto alternativo para os Tuatha Dé Danann, aes sídhe, ou ‘povos de paz’.

     Então, é sobre relações contratuais e a extensão da hospitalidade que o culto politeísta gaélico é fundado, e é por isso que as oferendas é um componente essencial em uma relação com os Dé ocus Andé³. Não apenas os modernos Politeístas Gaélicos honram o contrato de seus antigos ancestrais, mas eles estão em harmonia com os , fortalecendo os laços entre os homens e o divino, que então, garantirá nossa saúde e prosperidade.

Tipos de Oferendas

     Como está no De Gabail in tSida, o leite e seus derivados estão entre as oferendas dadas aos Dé. Outros exemplos que eram dados em tempos antigos incluem libações alcóolicas (hidromel ou cerveja, por exemplo), grãos, armas como espadas e escudos, joalheria, obras artísticas, carne, primeiros frutos e sacrifício animal (e possivelmente humano). Essas oferendas são frequentemente depositadas em poços ofertórios ou poços secos, queimados em focos sacrificais, atirados em rios ou lagos ou colocados perto de pedras fixas. Nas sobreviventes tradições folclóricas Gaélicas, leite, manteiga creme, caudle [NT: uma bebida alcóolica], bannocks [NT: um tipo de pão], e bolos (especialmente nos feriados), água, poesia e sons, mel, moedas, frutas, peças de roupas e velas são oferecidos ao ‘Bom Povo’ ou ‘fadas’ e colocadas perto de poços, pedras sagradas, árvores, matagais, ou deixados do lado de fora da casa.

Lidando com Oferendas

     Os Politeístas Gaélicos fazem rituais de oferendas para uma variedade de razões e ocasiões – para expressar gratidão, fazer um pedido, comemorar um evento (nascimento, casamento, morte, graduação, aquecimento da casa, etc.), para celebrar os Quatro Dias sazonais, ou para simplesmente demonstrar honra e respeito pelos Dé ocus Andé. Os itens dados como presentes votivos podem variar desde os objetos tradicionais listados acima até oferendas modernas como café e bolo de chocolate, para qualquer ato sagrado dedicado aos Dé ocus Andé. Dar uma oferenda é estender a hospitalidade, então, uma oferenda deve ser adaptada para o ou (deidade ou espírito) a quem está se oferecendo. Por exemplo, o Dagda é conhecido pelo Seu grande apetite e predileção por mingau4, então, uma grande vasilha de mingau ou ensopado pode ser uma oferenda apropriada. Ogma é conhecido como um eloquente orador, então Ele pode apreciar um prosa devocional bem escrita. Uma oferenda é acompanhada de uma oração, canto, ou poema que louva a deidade ou espírito, ou expressa a razão ou a ocasião por oferecer. Na tradição Gaélica, as palavras, especialmente na poesia, são ditas ter poderosas qualidades espirituais que podem influenciar a realidade, e quando se dá presentes e oferendas, elas expressam intenção, e dão essência e significado.

     A oferenda é então colocada onde é apropriado ou sobre o altar da casa ou um altar individual dedicado a um específico ou . Comida e bebida é normalmente deixada no altar por duas horas de um dia e então é eliminado. As oferendas eliminadas devem ser dadas à terra enterrando-as ou simplesmente as colocando no solo. Elas podem ser queimadas também, e suas cinzas serem jogadas na terra. As oferendas de comida e bebida não devem ser simplesmente atiradas no lixo depois, pois ainda continua sendo um presente para os Dé ocus Andé. Se alguém é absolutamente incapaz de eliminar oferendas através do fogo ou colocando na terra, então pode ser aceitável eliminar-se delas, colocando no lixo. É possível, manter as oferendas em uma bolsa separada ou contêiner e então eliminá-las adequadamente quando for capaz.

     Uma vez que um presente foi ritualmente ofertado aos Dé ocus Andé, o presente não deve ser perturbado mexendo neles, pois isso pode facilmente ofendê-los ou enfurece-los. Há contos de pessoas que ficaram doentes ou até mesmo morreram por perturbar os presentes Deles5. As oferendas de comida e bebida são ditas ter sua toradh (‘substância’) consumida pelos Dé ocus Andé, então, não é saudável para um humano ou outro ser vivo consumir qualquer oferenda uma vez que já tenha sido dedicada6.

A respeito dos Presságios

     Alguns pessoas sugerem realizar algum tipo de divinação depois de um ritual ofertório para ver se as oferendas foram aceitas pelos Dé ocus Andé7. Alguns podem dizer que isso é uma contradição teológica, alegando que se o homem e os estão ligados em um relacionamento contratual de hospitalidade recíproca, então eles não tem escolha, a não ser aceitar nossos presentes para honrar Seu lado do acordo.

     No entanto, a evidência aponta que a consulta de presságios é comum dentro da tradição Gaélica. Por exemplo, em Lá Fheill Brid na Escócia, os sinais são procurados para ver se Bríd os visitou durante a noite. A falta de um sinal implicava que Ela foi ofendida pelas oferendas que foram deixadas para Ela, ou talvez por ações passadas da casa, e então Ela ficou longe. Medidas então eram tomadas para fazer as pazes com Ela – junípero era queimado dentro da casa e um galo era sacrificado8. Na Irlanda, também em Lá Fheill Brid, os sinais de Brid também são procurados. Na véspera, uma cama era feita para Ela dormir – feita de palhas ou cruzes de Bríd – e ela então era cerimonialmente convidada para a casa. Na manhã seguinte, se houvesse sinais que Ela tenha dormido na cama, é dito então que ela os visitou e deu sua bênção para a casa. Caso contrário, acreditava-se que Brid tinha adiado Sua jornada, e as cruzes que foram feitas na noite anterior eram arremessadas para fora de forma que Ela pudesse abençoá-las naquela noite9.

     Outro exemplo da Escócia, fala de oferendas sendo feitas antes de ir para uma casa nova, a fim de ver se os espíritos do lugar te aceitariam. Uma cama era feita e comida era deixada pelo lado de fora, e se a comida não tivesse sido consumida na manhã seguinte, a casa devia permanecer vazia e a pessoa teria que achar outro lugar para viver. Caso contrário, os novos ocupantes sofreriam desastres e infelicidades10.

     Conceder os exemplos acima não são o mesmo tipo de presságios consultados pelos Politeístas Gaélicos hoje em um ritual ofertório, que tendem a consultar ogam, mas também mostra que os podem não aceitam qualquer coisa que tenha sido Lhes dado. A ofensa pode atrapalhar nosso contrato de relacionamento e substituir a hospitalidade, e não há necessariamente nenhum senso de obrigação em aceitar as oferendas de Sua parte. Há sempre uma chance deles recusarem o que lhes foi oferecido, especialmente em exemplos onde o ofertador está usando uma pequena GPN (Gnose Pessoal Não-Verificada) e oferecendo algo não-tradicional que ele sinta que a Deidade possa gostar.

Conclusão

     Como podemos ver, as oferendas são uma parte vital na prática de Politeísmo Gaélico. É o que nos liga aos . Esse artigo é apenas uma breve visão de oferendas, mas você pode querer saber mais chegando Getting Started: Making Offerings no Tairis.     


Notas de Rodapé

1. Wentz, Evans WY, The Fairy-Faith in Celtic Countries, 1911, pp 291.
2. MacLeod, Neill, Early Irish Contract Law, 1992.
3. Dé ocus Andé 'deuses e não deuses', apesar do uso do termo não ser tradicional, os não deuses estão sendo referidos como qualquer divindade, e não um deus ou deusa, ou seja, ancestrais, espíritos da terra, heróis e etc. Déithe agus Andéithe em Irlandês Moderno.
4. O mingau que o Dagda comia tinha muitos pedaços de carne e era mais uma caldo do que um mingau para nós, hoje.
5. Wentz, Evans WY, The Fairy-Faith in Celtic Countries, 1911, pp 33.
6. Wentz, Evans WY, The Fairy-Faith in Celtic Countries, 1911, pp 44.
7. NicDhána, Kathryn et al, O CR FAQ Brasil: Uma introdução ao Reconstrucionismo Celta, 2007, pp. 110.
8. Charmicael, Carmina Gadelica, Vol 1, 1900, pp 168.
9. Ó Duinn, The Rites of Brigid: Goddess and Saint, 2005, pp. 48-49
10. Wentz, Evans WY, The Fairy-Faith in Celtic Countries , 1911, pp 75.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário