segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Là Fhèill Brìghde



Fonte: Site 'Tairis', Là Fhèill Brìghde, disponível em <http://www.tairis.co.uk/festivals/la-fheill-brighde/>. All content by Annie Loughlin © 2006-2015

Là Fhèill Brìghde

                Por todo o mundo gaélico, Brìde é uma das santas mais populares e é comumente conhecida como a mãe adotiva de Cristo e a parteira de Maria. Um conto apócrifo relata a estadia de Brìde em Belém na época do nascimento de Cristo. Ela respondeu a uma batida em sua porta e encontrou Maria e José procurando um lugar para ficar, mas ela foi obrigada a expulsá-los. Antes de eles irem, no entanto, ela lhes deu água e alguns de seus bannocks, ao ver que eles tiveram uma longa viagem. Quando eles tinham partido, Brìde virou e encontrou os bannocks miraculosamente em seu lugar e a bacia cheia de água novamente. Sabendo que algo extraordinário estava prestes a acontecer, Brìde saiu para procurar o casal e, ao ver uma estranha estrela no céu, a seguiu e os encontrou em um estábulo, onde Maria estava prestes a dar a luz. Cheia de compaixão, Bride ajudou Maria a dar a luz ao seu filho.1 


                Foi devido aos eventos citados nesse conto que foi dado à Bride o seu próprio festival no dia anterior à Candelária. A Candelária celebra o ritual de purificação de Maria após dar a luz, uma vez que se diz que Maria ficou muito agradecida a ela por sua ajuda. Em algumas partes da Irlanda, diz-se que Brìde ajudou a distrair a multidão presente quando Maria levou Jesus ao templo, desfilando na frente de Maria usando uma coroa de velas acesas, e por causa disso, Maria decretou que Bride devesse ter um festival dedicado a ela no dia anterior ao seu festival.² 

                Frequentemente existem confusões sobre a data do Là Fhèill Brìghde, que muitas vezes é dada a mesma data do festival cristão da Candelária, no dia 2 de fevereiro. No entanto, tendo em mente a tradição de Brìde sendo a parteira de Maria, o Là Fhèill Brìghde na verdade cai no primeiro dia de fevereiro (ou no dia 13, de acordo com o calendário Juliano), o dia anterior à Candelária. O Là Fhèill Brìghde e a Candelária não são, portanto, os mesmos festivais.

Origens do Là Fhèill Brìghde

                Tradicionalmente, o Là Fhèill Brìghde não é apenas dedicado à Santa Brìde, mas também marcava o início da primavera e da estação agrícola.³ O festival também – historicamente – marcava a época em que os primeiros cordeiros nasciam, e portanto, uma vez que as vacas e ovelhas eram geralmente deixadas para secar durante a estação de inverno, marcava o retorno da abundância de leite – ou a antecipação disso, pelo menos.4

                Na Irlanda, o Là Fhèill Brìghde veio para substituir, ou para se encaixar sem problemas no festival pré-cristão de Imbolc ou Oímelc. O Glossário de Cormac nos conta que o nome “Oímelc” se refere à lactação das ovelhas – “que é a época quando o leite das ovelhas vem...” – mas em um sentido literal, agora é geralmente aceito que o nome simplesmente significa ‘ordenha’.5 A referência de Cormac ao leite das ovelhas não é tão distante, dado que essa é a época quando o leite das ovelhas começava a ficar disponível, mas os saberes associados com o dia é esmagadoramente relacionado com as vacas e seu leite – talvez não surpreenda, uma vez que o gado, ao invés de ovelhas, era a fonte mais importante de renda para um fazendeiro, junto com os grãos.

                Se Brìde sempre foi associada com o dia (ou uma deusa, na época anterior a ela ser adotada como uma santa cristã), é incerto, mas a conexão entre a ‘ordenha’ de Oímelc e a riqueza de saberes associando Brìde com as vacas e ao abastecimento de leite sugere alguma continuidade na transição entre a festa pré-cristã e cristã, tanto na Escócia como na Irlanda. Uma vez que a maioria das vacas era deixada para secar durante o período de inverno, o leite fresco em janeiro seria escasso. No entanto, a partir de um ponto de vista prático, fazia mais sentido deixar as vacas secarem no inverno, onde tinha muito pouca comida para elas comerem, e de qualquer maneira seria uma necessidade, para aumentar suas chances de engravidar. Geralmente, as vacas não dariam bezerro até o final da primavera, quando a grama e outros tipos de vegetação verde começariam a se tornar abundantes novamente, o que daria as vacas uma abundância de comida para fazer leite. Isso daria tanto a vaca como ao bezerro as melhores chances de sobrevivência e também significava que a vaca teria leite por um período de tempo mais longo, permitindo que o excedente fosse usado para o consumo humano.6

                O retorno do leite, com o início do nascimento dos cordeiros, portanto simbolizava o retorno da abundância em geral. O leite de vaca – a principal fonte de laticínios – ainda estava um pouco fora de época, mas o leite das ovelhas era um lembrete de boas vindas de que o nascimento de bezerros viria logo. O leite e os laticínios se tornou um dos focos naturais em celebrar e propiciar o que esperançosamente viria – uma boa colheita e a riqueza de produção da fazenda no ano vindouro. Como um prato principal da dieta irlandesa, o sucesso do nascimento dos cordeiros e então o início do nascimento dos bezerros poderia ser grandemente antecipado, e esse sucesso poderia ser tomado como uma indicação da quão boa seria a colheita que viria mais tarde. Não obstante, as condições de bom tempo seriam necessárias para o bem estar do gado tanto quanto das plantações.

                No entanto, enquanto a produção láctea geralmente formava o foco do festival que tradicionalmente acontecia na véspera do Là Fhèill Brìghde, outros costumes são observados também. No geral, os costumes são relativamente universais entre cada um dos países gaélicos e nas comunidades da diáspora, apesar de muitas vezes existirem variações locais. A divinação (particularmente relacionada ao clima), a confecção de uma boneca de palha representando Brìde e a confecção de uma cama para ela em algum lugar da casa para que ela possa ficar se desejar, e uma forma de convite ritualístico para ela entrar e abençoar a casa podem ser encontrados em todos os países, por exemplo. Na Irlanda, no entanto, alguns costumes tais como a confecção da Crios Bride (‘o Cinto de Brigid’), parece não ter chegado à Escócia.

Os costumes na Escócia

                Sendo um Dia Trimestral, os sinais eram rigorosamente observados na manhã do Là Fhèill Brìghde na esperança de ganhar um vislumbre do que o ano guardaria. No início da estação agrícola, os pensamentos também se voltavam para como o clima estaria, uma vez que naturalmente ele afetaria a colheita (ou a produção leiteira ou a estação de pesca) que podia vir em grandes quantidades, os sinais então eram procurados nessa manhã, concentrando-se em como o tempo estava. Uma tradicional rima escocesa indica que um mau tempo significava que a estação quente chegaria em breve:

“Candlemas Day, gin ye be fair,
The half o’ winter’s to come and mair;
Candlemas Day, gin ye be foul,
The half o’ winter’s gane at Yule.”

                Alternativamente:

“Gin Candlemas be fair and clear,
There’ll be twa winters in the year.”7

                Existem muitas outras rimas também, mas todas elas englobam a mesma sabedoria: uma manhã brilhante e boa indicava uma amarga primavera que viria, enquanto que um dia de mau tempo indicava uma primavera quente.

                O foco principal das celebrações acontecia na véspera da festa, no entanto, como é o normal. Ver as fontes históricas pode nos dá uma ideia de como podemos celebrar hoje – para aqueles de nós que não tem necessariamente quaisquer tradições famílias para traçar. Para a maioria de nós, o Là Fhèill Brìghde não é mais um festival onde toda a comunidade se juntava, com as paradas ou os Biddy Boys, mas as descrições desses eventos comunais podem nos dizer muitas coisas.

                Escrevendo no início do século XX, Donald Alexander Mackenzie nos conta que as oferendas eram feitas “para a terra e para o mar.” A oferenda poderia ser leite derramado no chão, ou mingau derramado no mar, para garantir um bom rendimento de peixe e algas marinhas no ano que viria, dependendo de onde você morava.8 Como eles davam, então eles (esperançosamente) receberiam.

                Alexander Carmichael nos dá o relato completo dos ritos comunais na Escócia, nos contando como que as meninas nas cidades – chamando a si mesmas de banal Brìde (‘o bando de donzelas de Brìde’) – confeccionavam uma brìdeag (‘Pequena Bride’) feita de grãos e as vestiam tão elaboradas quanto podiam, especialmente com panos, vegetais, brilhantes e coloridas conchas, cristais ou qualquer coisa que parecia apropriado. Quaisquer flores que estivessem disponíveis poderiam ser usadas, tais como campânulas-brancas e prímulas, mas os dentes-de-leão eram especialmente apropriados já que eram conhecidos como bearnan Bride, ‘O pequeno entalhe de Bride’. Nas Terras Altas da Escócia, diz-se sobre o dente-de-leão, ‘a planta de Brìde nutre com seu leite o jovem cordeiro.’9

                Sobre o coração das bonecas, as meninas colocavam uma concha brilhante ou um cristal em particular, e este era chamado de reul-iuil-Brìde, ‘a estrela guia de Brìde’ em referência à estrela que a conduziu até os estábulos onde Maria deu a luz. Quando terminavam, as meninas vestidas em branco e com o cabelo solto para simbolizar seu status de solteira, levavam a brìdeag em cada casa na cidade. Esperava-se que cada pessoa que atendesse a porta desse um presente para Brìde, o que podia ser algo para decorar a brìdeag ou algo para as meninas comerem depois de terem visitado as casas. As mães tradicionalmente davam o bonnach Brìde (‘bannock de Brìde’ – talvez ecoando ao bannock que Brìde deu para Maria e José), o cabag Brìde (‘queijo de Brìde’) ou o rolag Brìde (um pão de manteiga dedicado à Bride). Toda a comida coletada iria para a féis Brìde (‘festa de Bride’), que aconteceria depois que todas as casas tivessem sido visitadas. Inicialmente, a porta da casa onde a festa aconteceria era barrada, e os meninos da cidade viriam batendo na porta e pedindo para entrar. Após uma boa persuasão, eles eventualmente eram permitidos entrar e a festa e a diversão começava, com muita dança e contagem de histórias acontecendo nas primeiras horas do dia seguinte. Quando a festa acabasse, qualquer comida que sobrasse era dada para “as mulheres mais pobres do lugar”.10

                As mulheres mais velhas também não ficavam paradas. Assim como os tradicionais bonnach Brìde, que eram feitos para o dia, as mulheres faziam uma leaba Brìde (‘cama de Brìde’) no formato de um berço oblongo, no qual eles colocavam um feixe de grãos que era feito no formato de uma mulher. Assim como a brìdeag que as meninas faziam para levar pela cidade, a boneca de grãos era alegremente decorada com qualquer coisa que as mulheres tinham em mãos – fitas brilhantes e coloridas, conchas, pedras e flores. Essa boneca era chamada de dealbh Bride (o ícone de Brìde), e uma vez pronta, uma mulher levava a boneca para fora:

                “…e ficando de pé com suas mãos na jamba, ela fala suavemente na escuridão, ‘a cama de Bride está pronta’. Prontamente, uma mulher dentro da casa responde, ‘Deixe Bride entrar, Bride é bem vinda.’ A mulher na porta novamente se dirige a Bride, ‘Bride! Bride, entre, tua cama está pronta. Preserve a casa para a Trindade.’ A mulher então coloca o ícone de Bride com grande cerimônia na cama que eles prepararam cuidadosamente. Elas colocam uma pequena e reta vara branca (uma vara descascada) ao lado da figura.”21

                Essa varinha é normalmente feita de bétula, mas pode ser de qualquer madeira que não esteja ‘cruzada.’ Ela é invariavelmente chamada de slatag Brìde (‘a varinha de Brìde’), slachdan Brìde (‘o bastãozinho de Brìde’) ou barrag Brìde (‘a bétula de Brìde’). Ela é utilizada para representar a varinha branca que Brìde usava para fazer com que a vegetação crescesse novamente enquanto caminhava pelo campo, ou, como Carmichael coloca, “...diz-se que sua varinha branca respira vida na boca do Inverno morto e faz com que ele abra seus olhos para as lágrimas e sorrisos, os suspiros e a risada da Primavera.”¹²      

                Com a cama já pronta, alisavam-se as cinzas na lareira e eram deixadas lá durante a noite. A família se reuniria na manhã do Là Fhèill Brìghde a fim de procurar por quaisquer sinais de que Brìde tinha visitado a casa durante a noite. A pegada de Brìde (‘lorg Brìde’) era considerada especialmente um bom sinal, mas se não houvesse nenhum sinal, significava que a santa tinha sido ofendida de alguma forma e, portanto, não visitou a casa. Ao entardecer, incenso era queimado para ela na lareira da família e uma oferenda era feita.13

                Martin Martin descreve uma prática quase idêntica que acontecia na ilha de Colonsay no final do século XVII:

                “A senhora da casa e os empregados de cada família pega um feixe de aveia, o veste com roupas de mulheres e colocam em uma grande cesta junto com uma clava de madeira ao seu lado – eles chamam isto de a Cama de Briid; então a senhora da casa e os empregados gritam três vezes, ‘Briid está vindo, Briid é bem vinda.’ Eles fazem isso antes de irem para cama, e ao se levantarem pela manhã, eles procuram entre as cinzas, esperando ver a marca da clava de Briid lá; caso eles vejam, eles reconhecem isso como um verdadeiro presságio de uma boa colheita e um ano próspero, caso contrário, eles tomam como um mau presságio.”14

                Podemos ver então que o principal foco dos costumes para o Là Fhèill Brìghde tradicionalmente envolvia mulheres ao invés de homens – quase o completo oposto de Lùnastal, que se diz frequentemente ser um festival muito ‘masculino’ (apesar de você poder fazer o que quiser com isso).

                A maioria desses costumes é razoavelmente evidente – o objetivo é aplacar Brìde e garantir um bom suprimento de leite para o ano vindouro. Nesse aspecto, faz sentido que o foco das atividades envolva mulheres ao invés de homens, que geralmente não tem envolvimento na produção do leite (ou seja, aleitamento materno), ou na ordenha e no processo de produção de manteiga a partir do leite da vaca (apesar de crianças também ajudarem, independente do sexo).

                Há uma tradição, no entanto, que não é evidente, e é chamado de ‘o rito da serpente’, como Marian McNeill o chama.15 De acordo com Alexander Carmichael, diz-se que uma serpente (provavelmente uma víbora, sendo a única cobra venenosa na Grã-Bretanha) aparece no primeiro dia de primavera. Uma rima nos conta:

“Cedo na manhã de Bride
A serpente sairá do buraco,
Eu não incomodarei a serpente,
Nem a serpente me incomodará.”15A

                Carmichael e McNeill têm pouco a dizer sobre o que a serpente pode representar, mas Ronald Black sugere: “Seria razoável se eu vesse essas rimas em termos frazerianos retratando um estéril e até mesmo venenoso espírito de inverno – o último vestígio da Cailleach do ano passado que precisa deixar o chão sem ser molestado antes de qualquer tentativa ser feita para o plantio. O que eles estão essencialmente nos dizendo é que uma vez que o dia de Santa Brígida acabou, é seguro começar a testar o solo para ver se está isair dàir (‘aquecido’)...”16

                Suportando essa ideia, podemos apontar para o ditado registrado por Carmichael relatando o início da primavera: “Maria colocou seus dedos na água na Festa de Bride e o veneno saiu dela, e no Dia de Patrício, ela banhou suas mãos na água e todo o frio havia ido embora.” O veneno aqui é o gelo, o que se supõe não apresentar mais perigo após o Là Fhèill Brìghde, mas o frio ainda é um problema até o final de março. O ditado ecoa a tradição de Brìde e Cailleach, onde se supõe que Brìde toma de Cailleach – a governante do inverno – o controle da primavera, no dia primeiro de fevereiro, mas a Cailleach não desiste da luta tão facilmente e diz-se que ela cria tempestades e destrói a vegetação com sua varinha até ser finalmente derrotada no Dia de São Patrício, ou 25 de março (que tradicionalmente era o início do ano novo antes do primeiro de janeiro ser adotado, e marcava o que se acreditava ser o equinócio). Em uma tradição, “No dia que tem a mesma duração que a noite,” diz-se que Brìde mergulha “...suas nobres mãos brancas nos grandes rios e lagos que ainda retém gelo. Ao fazer isso, a Bruxa do Gelo cai em um sono profundo do qual ela não acorda até o verão e o outono terem acabado.”17

                Comparar o veneno de uma serpente (presumivelmente uma víbora, sendo a única cobra venenosa na Grã-Bretanha) com o gelo não é exagero quando consideramos mais saberes que foram registrados. Carmichael, além disso, descreve o caso de uma Sra. MacLeod, uma convidada em Skye, que ao perceber que era o Là Fhèill Brìghde, pegou uma turfa do fogo na lareira do lado de fora, colocou em sua meia e começou a bater nela na soleira da casa com um par de tenaz. Enquanto fazia isso, ela disse um rann com um verso similar aquele registrado por Carmichael acima:

“Este é o dia de Bride,
A rainha sairá do monte,
Eu não tocarei a rainha,
Nem a rainha me tocará.”18

                Os outros versos não foram registrados, mas o uso do termo ‘rainha’ (an rìghinn) é interessante. Gregorson Campbell nota que em Argyllshire e Perthshire, as serpentes eram frequentemente referidas como “as filhas de Edward”, enquanto que em Skye elas eram chamadas de an rìbhinn (a donzela), “em ambos os casos, o nome é provavelmente um mero eufemismo sugerido pela rima para evitar uma ofenda desnecessária à criatura venenosa.”19 Ronald Black cita um correspondente de Stornoway, escrevendo em 1981, que se lembra de sua avó dizendo “Air latha Fhéill Brìghde/ Thig an rìoghann ás an toll” (No dia de Santa Brígida/ A rìoghann sairá do buraco). Aqui, a rìoghann significa ‘a flexível’, o que o correspondente quis dizer que a serpente simplesmente sairá da hibernação no início da primavera.20 A similaridade de rìoghann, rìbhinn e rìghinn é impressionante, no entanto.

                É evidente que o armazenamento da turfa é utilizado para representar a serpente, mas é diferente do que os estudiosos têm sido duramente pressionados a comentar sobre o significado da tradição. Carmichael escreve: “O esmurro na turfa armazenada representando a serpente indica destruição ao invés de adoração, talvez ferindo a cabeça da serpente.” Provavelmente, no entanto, a cerimônia é mais antiga, feita para simbolizar algo que hoje se perdeu.”21

                As serpentes geralmente não eram vistas de forma favorável na sabedoria gaélica (São Patrício expulsando todas as cobras da Irlanda, por exemplo), então presumivelmente o rito era de proteção ao invés de ser de natureza aplacadora contra eles e o que representavam. Diz-se que uma serpente deveria ser morta sempre que fosse encontrada, caso contrário, era um mau sinal, e que a cabeça deveria ser esmagada e removida do corpo, senão a serpente não morria. Diz-se que a cabeça poderia se ligar novamente ao corpo e então se tornaria um beithir, o maior tipo e o mais mortal de serpente que poderia ser encontrado. Um homem picado por uma cobra devia correr até um corpo de água o mais rápido possível, antes da cobra fazer, caso contrário, ele morreria.22 

                No entanto, as serpentes (mortas, de qualquer maneira) eram também associadas com a cura. As ‘pedras de serpente’ (clach nathrach) eram um tipo de conta usado em ritos de cura para curar doenças do povo ou do gado, ou ainda, para ajudar mulheres em trabalho de prato ou para proteção contra encantamentos. A pele removida (cochall) de uma cobra, ou a cabeça decepada, também poderia ser usada para cura de acordo com Gregorson Campbell. Tanto a pedra como a pele era colocada na água, que era então dada para o paciente – pessoa ou animal – beber a fim de ajudar na cura, presumivelmente após um encantamento ser feito sobre ele.23 Era de senso comum (na época de Campbell) que essas pedras tinham sido usadas pelos próprios druidas, e por isso, eram as vezes chamadas também de ‘contas dos druidas’.

                Poderia ser especulado, então, que as serpentes eram associadas com os druidas e com os ritos de proteção e cura por um lado, e por outro lado, eram associadas com o mal, o veneno e a morte – e como já vimos acima, com a severidade do próprio inverno. Isso poderia indicar o propósito do rito – de um lado proteção contra doenças no ano vindouro, que naturalmente afetaria a produção de leite, ou por outro lado, contra as influências sombrias da estação escura do inverno que se acreditava que as serpentes representavam? Uma vez que os Dias Trimestrais – particularmente Bealltainn e Samhainn – eram vistos sendo associados com uma indicação de perigo sobrenatural e os ritos de proteção eram comuns durante essas épocas, pode ter sido o caso de aqui termos registrado algum tipo de rito de proteção e expressão da primavera triunfando sobre o inverno, cujo significado foi perdido para a maioria das pessoas até mesmo no tempo em que havia sido registrado.

Os costumes na Irlanda

                Como o Là Fhèill Brìghde tradicionalmente anunciava o primeiro dia de primavera, assim como o início da estação de pesca, diz-se que Brìde coloca seu pé na água para aquecê-la. Por volta da época de seu festival, esperava-se que as tempestades do mar desaparecessem, permitindo que os pescadores fossem para o mar uma vez mais, e os fazendeiros e pescadores da mesma forma procuravam ver a direção de onde o vento estava soprando a fim de determinar o vento dominante no ano que viria. Os fazendeiros procuravam por sinais de melhorias no tempo como uma indicação de que um bom tempo estava por vir, apesar de um incomum tempo bom significava um tempo muito ruim que viria, assim como na Escócia. Uma vez que o ato de arar dependida de um bom clima, muitos fazendeiros viravam um ou dois torrões de terra em um ato simbólico de apressar o calor.24   

                Assim como na Escócia, as tradições históricas associadas com o dia estão esmagadoramente concentradas nos aspectos da vida tradicionalmente “femininos” – domesticidade e fertilidade – e tanto os costumes comunais quanto os domésticos foram registrados. Ainda assim, o Là Fhèill Brìghde era um ‘descanso das voltas’, então tudo o que precisava girar ou fiar era proibido – a tecelagem, arado, fiação ou o transporte em carroças eram proibidos. Alguns dizem que a razão para isso era o respeito por Brìde, que tinha ensinado as mulheres como fiar a lã para fazer roupas, e, portanto: “Nesse dia, elas evitam a fiação por reverência à Brigid e para expressar seu apreço.”25 Presumivelmente, essa proibição então se estendia para qualquer coisa que envolvia fiação e voltas em geral, e consequências terríveis eram previstas para aqueles que quebravam a tradição e a ignoravam, embora ditados como “Talvez nada cresça na terra que foi arada no Dia de Santa Brígida”26 sugere que a proibição se liga também com as áreas de especialidade de Brìde como santa e deusa – nesse caso, seu poder sobre a fertilidade, que era muitas vezes propiciado nos ritos associados com seu festival.

                Era normal que as casas estivessem limpas e arrumadas para o dia, e as donas de casa abriam seus armários e faziam um inventário dos suprimentos que ainda tinham. Muitas famílias traziam água de um poço dedicado à santa Brìde e aspergia a água ao redor da casa, das construções da fazenda, dos campos, do gado e dos membros da família, invocando uma bênção da santa enquanto faziam.27

                Mesmo nos piores anos quando os suprimentos eram poucos, as donas de casa se preparavam para fazer uma festa na véspera do festival, e as comidas favoritas tais como sowans (sempre apropriados, uma vez que não precisava de muitos ingredientes), torta de maçã, bolos e o colcannon amanteigado eram feitos, e naturalmente, manteiga – fresca, se possível – cordeiro, carne de carneiro, bacon ou frango também eram característicos. Um bolo especial chamado bairín-breac era feito, e bebida e tabaco eram passados para todos aqueles convidados a se juntar as festividades quando anoitecia. O mais importante no conhecimento tardio era fazer um tipo de purê de batatas, colcannon ou poundies (bruítín – purê de batata, manteiga e cebola), e era costume que toda a família estivesse envolvida na maceração.28  

                Acreditava-se grandemente que Brìde estava presente nessas festas, e então, um lugar era deixado para ela.29 Ainda assim, a maioria das famílias deixavam um pedaço de bolo, uma parte de mingau, manteiga, água, sal ou pão com manteiga do lado de fora para Brìde como uma oferenda durante a noite,30 ou alternativamente, era deixado para o Povo Nobre:

                “Um feixe de grãos e bolo de aveia costumava ser colocado na soleira na Véspera do dia de Santa Brígida para o povo ‘pequenino’ (as fadas) e também como um agradecimento para a abundante colheita de grãos e boa sorte durante o ano seguinte.”31

                Outra descrição das práticas descreve o bolo como sendo de três lados, presumivelmente representando a Trindade.32 Frequentemente, as oferendas eram trazidas de volta para dentro da casa à noite antes de irem para a cama, e então eram divididas entre a família a fim de conceder a bênção da santa em todos, ou também era guardado para ser usado quando fosse necessário, uma vez que acreditava-se ser imbuído com as propriedades curativas da própria santa.

                Já que se acreditava grandemente que Brìde ia de casa em casa com sua vaca branca preferida, um feixe de grãos também podia ser deixado do lado de fora para a vaca, e juncos podiam ser deixados na soleira para ela ter um lugar onde se ajoelhar enquanto deixa sua bênção. Da mesma forma que o bolo era comido pela família, o grão poderia ser usado para alimentar as vacas para conceder a bênção de Brìde nelas também. No entanto, em algumas partes, ao invés de ser um bolo a ser deixado do lado de fora, eram deixados um feixe de grãos e uma batata.  Na hora de dormir, elas eram trazidas de volta e guardadas até a começar a época da semeadura, e então, os grãos eram misturados com outras sementes e plantados, e a bata era cortada e plantada junto com o resto das plantações, enquanto Brìde era invocada para abençoar e proteger contra as doenças, a fim de garantir uma boa colheita.33

                Outros itens podiam ser deixados do lado de fora para Brìde abençoar também, o que incluía fitas, lenços, itens de vestuário ou peças de pano especialmente reservadas para a ocasião, o brat Bríde. As fitas eram amarradas em uma árvore ou arbusto, e dizia-se que quanto maior a fita crescesse durante a noite, maior seria a bênção que a santa tinha concedido. Qualquer item de vestuário era colocado em uma cesta e deixado do lado de fora.34 Uma pessoa descrevendo o costume disse:

                “Quando todos na casa tinha ido dormir, o homem da casa pegava algum artigo do vestuário pertencente a cada membro da família e o colocava do lado de fora, para que se a Santa Brígida estivesse passando, ela poderia ter uma peça de roupa para aquecê-la enquanto visitava as casas que a honrava. As portas costumavam ser deixadas abertas, também, assim como um bom fogo aceso, para que Brigid pudesse entrar e se aquecer.”35

                Seja qual for o item utilizado, o objetivo era o mesmo: que Brìde desse sua bênção neles, significando então que poderiam ser úteis para a cura, proteção contra o olho maligno ou impedir que as crianças sejam abduzidas pelas fadas, ajudar durante o parto, ajudar a engravidar ou ainda proteger a virgindade das garotas solteiras. Eles também podiam ser usadas para garantir uma boa abundância de leite nas vacas e ajudar o parto de bezerros, cordeiros e potros.36

                Em alguns lugares, diz-se que qualquer coisa abençoada por Brìde perderia suas propriedades se fosse lavada no decorrer do ano. A fim de manter seu poder por um longo tempo, no entanto, algumas pessoas acreditavam que era necessário deixar a peça para Brìde abençoar todo ano. Outros sentiam que o brat tivesse seu poder para sempre, ficando mais potente a cada ano – alcançando o auge de seu poder após sete anos.37

                O brat é um costume mais comumente associado com as mulheres e as garotas da casa, enquanto que em outros casos, frequentemente era o homem da casa que deixava os itens do lado de fora antes de ir dormir. O pano que se pretendia ser o brat Bríde não devia ser lavado. Era deixado do lado de fora em um arbusto (o espinheiro é mencionado em um exemplo, sendo frequentemente associado com o outro mundo) na véspera do festival e era então levado para dentro de casa antes da hora de dormir, após Brìde tê-lo tocado e concedido sua bênção nele. O brat então seria cortado em pedaços e dado para cada membro feminino da família para a proteção durante o ano vindouro. Algumas famílias costuravam pedaços do pano nas roupas das meninas a fim de preservar sua virgindade. Às vezes, no entanto, o brat era deixado inteiro e usado apenas pelas mulheres durante o parto de crianças ou até mesmo no parto de bezerros, e também eram usados para a cura. Durante o trabalho de parto, o brat era colocado na cabeça da mulher para ajudar a aliviar a dor, e nas vacas, era colocado em suas ancas.38

                Uma tradição que ainda hoje é grandemente observada é a confecção de uma cruz feita de juncos ou palha (ou às vezes madeira, apesar de hoje outros materiais como lã e chenille também sejam apropriados para o uso), que é chamada de cros Bríde. Ela é tradicionalmente feita na véspera do festival pelos membros da família, e se juncos forem usados, diz-se frequentemente que eles devem ser puxados, e não cortados, quando forem colhidos, “e assim, o uso de uma foice de ferro era evitado”39 – e portanto, a bênção do Bom Povo e da santa não seria desencorajada. Esse nem sempre foi o caso, no entanto, com uma pessoa dizendo: “As cruzes são feitas de juncos verdes, e a regra é que você deve cortá-los e deixa-los na soleira antes do sol se por.”40

                A forma das cruzes variava em estilo e complexidade por todo o país, e Seán Ó Duinn lista os sete principais tipos no total:

1. A de quatro braços ou o tipo ‘suástica’
2. O tipo de três braços
3. O tipo diamante ou ‘losango’
4. O tipo entrelaçado
5. O arco de Santa Brígida
6. A cruz despida de Santa Brígida
7. A cruz de feixes41

                O arco de Santa Brígida toma a forma de uma cruz dentro de um círculo, e é normalmente feito de palha. A cruz despida é claramente feita para representar a cruz onde Jesus morreu, enquanto que todas as outras são de ‘braços’ iguais. A cruz de feixes é feito com feixes de grãos ao invés de juncos ou palha.

                Algumas áreas favoreciam a cruz de três braços, enquanto que outras tipicamente favoreciam a cruz de quatro braços; os tipos de quatro braços podiam variar, se tornando mais elaboradas com diversas cruzes sendo entrelaçadas em cada braço, e assim em diante. Evans sugere que as cruzes de três braços são evidências de um tipo de cruz mais antiga decorrentes dos tempos pagãos, lembrando o triskele, e as cruzes de quatro braços sendo adotadas durante os tempos cristãos.42 Apesar do símbolo da cruz de três (ou quatro) braços parecer compartilhar seu estilo com os símbolos e a arte pré-cristã, não há evidência de tais cruzes sendo encontradas nesse período, e a evidência documentária que mencione-as são encontradas até o século XVIII.

                Uma dessas primeiras referencias, de 1735, menciona o propósito da cruz:

“A cruz de Santa Brígida pendurada sobre a porta
Que protegia a casa contra incêndios
Como Gillo acreditava, Ó encantamento poderoso
Que protegia a casa do prejuízo;
E embora os cães e os empregados dormissem,
A casa ficava aos cuidados de Brígida.”
(Hesperi-Neso-Graphia)43

                Similar às crenças associadas com as cruzes de sorveira e lã vermelha que eram feitas nos festivais escoceses, a cros Bríde também protegia contra raios, e acreditava-se que nenhum espírito era capaz de passar por ela. Tradicionalmente, a cruz era pendurada sobre a porta da frente, ou também, pendurada na chaminé.44

                Os rituais associados com a confecção e a suspensão das cruzes foram registrados, e estes tendem a variar levemente de um lugar para o outro. No sul da Irlanda, o folclorista Kevin Danaher (escrevendo nos anos 70) diz que uma cruz era normalmente feita pela família, que era então aspergida com água benta e pendurada sobre a porta enquanto se dizia uma oração para bênção e proteção durante o ano vindouro. Algumas famílias, em algumas partes da Irlanda, faziam duas cruzes, uma para a casa e outra para a vacaria, no entanto, apesar de que em outros lugares, a cruz do ano passado era movida da casa para a vacaria para deixar espaço para uma nova cruz, ou caso contrário, era colocado nas vigas do telhado junto com uma coleção de outras cruzes dos festivais anteriores. Alternativamente, a cruz do ano passado poderia ser enterrada ou queimada.45

                Danaher registra um estilo de ritual muito mais elaborado na parte norte da Irlanda, onde uma menina representando Brìde saia da casa e então pedia para entrar (embora mais comumente parecesse ter sido o homem da casa que fazia isso). Segurando juncos, ela batia três vezes na porta, todas as vezes pedindo para entrar. Na terceira tentativa ela era recebida e colocava os juncos na mesa, e então todos se sentavam para jantar e graças e agradecimento eram dados. Quando as cruzes estavam prontas, elas aspergiam com água benta e colocavam sobre a porta, assim como no sul da Irlanda. Em uma ligeira variação dessa prática, um pote de batatas era colocado nos juncos após eles terem sido colocados na mesa e o conteúdo do pote era amassado. Evans desenvolve mais algumas especificidades na sua confecção, dizendo que elas eram feitas da esquerda para a direita, assim como o sol – um tema que surgirá novamente na crios Bríde.46

                Enquanto que as cruzes normalmente eram deixadas em seu lugar durante o ano inteiro, elas poderiam ser removidas em certas épocas a fim de emprestar suas bênçãos para as atividades, como o plantio. Séamus Ó Cathaín menciona que tais cruzes eram colocadas em cestas de sementes de batatas que eram então levadas para o campo, para abençoar. A bênção da cruz era efetivamente contagiosa, da mesma forma que qualquer aveia ou batata que tivesse sido deixada do lado de fora espalharia sua bênção para o resto das plantações e garantia uma boa colheita.47

                Em uma casa onde um jovem casal se casou recentemente, uma cruz de palha poderia também ser confeccionada pela dona de casa, da qual cada extremidade era queimada. A cruz era então colocada debaixo da cama do casal para garantir os filhos aos recém-casados.48

                Qualquer material que sobrava da confecção das cruzes eram usados para fazer a cama de Brìde (que era as vezes até mesmo feita de cruzes), ou também deixados na soleira para Brìde se ajoelhar enquanto dava sua bênção, e estas então eram guardadas e usadas para curar dores de cabeça ou dores no corpo, amarrando os fios ao redor da área afetada e deixados lá durante a noite. Às vezes, as sobras de palha podiam ser usadas como forração na vacaria, mas qualquer que seja o material, ele nunca era jogado fora. Velas de palha frequentemente eram feitas para cada membro da família, e dizia-se qualquer que fosse a vela que apagasse primeiro, seu dono seria o primeiro a morrer.49

                A leaba Bhríde, ou Cama de Brìde, está presente no costume irlandês assim como no escocês. Uma mulher, descrevendo como ela era feita (registrado pela Irish Folklore Commission) disse:

                “Outra velha senhora ainda faz uma Cama de Santa Brígida, mas ela é feita das sobras das cruzes de juncos. Todas as sobras são colocadas em um canto na forma de uma cama e cobertas por um lençol de linho branco. Após a cama ser feita, essa velha senhora vai até a porta no cair da noite e diz em voz alta: ‘Venha Santa Brígida’ e retorna até a cama de junco, conduzindo imaginativamente a Santa Brígida pela mão.”50

                Em alguns lugares, a cama poderia ser feita de galhos de bétula ao invés de juncos, ou o último feixe da colheita passada poderia ser usado também. Em outros lugares, as camas eram feitas de cruzes, ao invés das sobras, e eram então aspergidas com água e o rosário era dito sobre elas. Se fosse visto nenhum sinal da santa tendo permanecido lá durante a noite, uma cruz era tirada da cama e poderia ser pendurada do lado de fora da porta na próxima noite – provavelmente, para obter uma bênção tardia no caso dela ter se atrasado na noite passada. Caso contrário, as sobras de palha ou juncos que tinham sido usadas para fazer a cama eram então incorporadas aos equipamentos para a pecuária, tais como spancels.51

                Uma brídeóg também era feita na véspera do Là Fhèill Brìghde, e novamente, assim como na Escócia, era tradicionalmente feita de palha que era então belamente decorada. Alternativamente, a boneca de uma criança podia ser usada para este propósito, e hoje, qualquer tipo de material que vem à mão pode ser usado. O pau da batedeira também era popularmente usado como a base do corpo para a efígie, que era então vestida em roupas acolchoadas para torna-la mais natural, e um nabo ou um pedaço de pano pintado poderia ser usado para fazer a cabeça.

                Enquanto que algumas comunidades faziam um esforço para deixar a efígie o mais realista possível, outras partes faziam um esforço deliberado para tornar suas efígies as mais grotescas possíveis. Outras comunidades não faziam nenhum esforço para fazer uma efígie, ao invés disso, uma garota era escolhida para representar a santa. A brídeóg era então desfilada de casa em casa, por garotas solteiras, com a mais bela delas sendo a pessoa que carregaria a imagem (ou era a imagem em si). Nas partes do sul, os meninos podiam desfilar a brídeóg, vestidos como mulheres, ou também eram um grupo de crianças, ou uma mistura de crianças e adultos, homens e mulheres.52

                Em cada casa, a trupe chamada de Lucht na Brídeoige, poderia distribuir cruzes, ou também podiam fazer entretenimentos em troca de dinheiro ou doações mais tradicionais como ovos ou bolos para a ‘Biddy’. Os meninos estimulavam as pessoas a fazerem uma doação com rimas como:

“Algo para a pobre Biddy!
Suas roupas estão rasgadas.
Seus sapatos estão surrados.
Algo para a pobre Biddy!”53

                Era considerada uma ofensa para a Lucht na Brídeoige recusar uma doação, e uma festa que o desfile havia acabado, a trupe voltava para a casa e a festa e a diversão seguia.54

                Esse tema de caridade para a pobre Biddy em suas roupas rasgadas e sapatos surrados também reflete na crença em algumas partes da Irlanda de que qualquer pessoa que chegasse em uma casa pedindo por ajuda poderia ser a própria santa disfarçada. Algumas famílias até mesmo deixavam um lugar na mesa e deixava a porta aberta à noite para qualquer um necessitado.55

                No norte da Irlanda, a brídeóg era menos popular, mas o costume do Rito da Soleira – ir até a porta para formalmente convidar Brìde – prevalecia. Ó Duinn esboça a forma geral que acontecia:

1. Antes do sol se pôr no dia 31 de janeiro, os juncos eram cortados e colocados em um feixe no lado de fora da porta.
2. Enquanto isso acontece do lado de fora, as batatas são preparadas, cozidas e amassadas em uma panela no lado de dentro da casa.
3. Quando a batata estiver pronta, o homem da casa ou outra pessoa vai para fora, fecha a porta atrás dele, pega o feixe de juncos em seus braços e recita o diálogo da soleira com aqueles que estão dentro de casa.
4. Quando o diálogo termina, a porta é aberta pela dona de casa usando um véu.
5. O homem/mulher entra carregando o feixe.
6. Ele/ela deposita o feixe de juncos debaixo da panela – presumivelmente o feixe era deixado no chão e a panela era colocada sobre ele.
7. Acontece então a janta e o purê de batata é comido diretamente da panela que está sobre o feixe de juncos.
8. Quando a janta acaba, a panela é tirada.
9. Os membros da família dividem os juncos entre eles e começam a fazer as cruzes de Santa Brígida.56

                Em alguns casos, a pessoa que segura os juncos do lado de fora da casa caminha ao redor da casa três vezes no sentido horário. Como Ó Duinn sugere, dado o fato de que o diálogo que acontecia na soleira frequentemente envolvia permissão para entrar na casa três vezes, é provável que o Car Deiseal (‘o giro no sentido horário’) fosse uma parte comum do rito na Irlanda, mas sobreviveu em apenas algumas partes.57

                Olhando para o sumário, podemos nos referir aos pensamentos de Ó Cathaín sobre o que o ritual do Rito da Soleira, a festa, e a subsequente confecção da cros Bríde representa:

                “União e renovação são temas simbólicos que dominam as três fases centrais das celebrações em honra à Brigit. A cadeia de ações simbólicas começa com o parceiro masculino – o homem da casa – pedindo permissão para entrar em sua casa em nome de Brigit. Ele ordena àqueles que estão dentro de casa a se ajoelhar, abrir seus olhos e deixar Brigit entrar – em outras palavras, para se prepararem para o processo de fecundação através dos bons ofícios da deusa que governam tais assuntos. O início desse processo é felizmente recebido por aqueles dentro de casa. A segunda fase consiste de festejos, a peça central disto sendo a manteiga, o produto de uma fabricação da mesma – uma imitação do ato sexual – representa a criação. A aparência da manteiga pode representar a chegada do tão esperado produto daquela união sexual. Os instrumentos usados para a produção da manteiga também tem suas óbvias mensagens sexuais: a batedeira e o pau da batedeira representando o órgão sexual feminino e masculino, respectivamente... A terceira e final fase das celebrações do festival, que então se centra na confecção de cruzes em honra à Brigit, é dominado pelo simbolismo da cruz como objeto que era claramente percebido na tradição folclórica como tendo o poder para promover a fertilidade.”58

                Muitos estudiosos presumem que o hábito de girar no sentido horário (encontrado na Escócia também) é um resquício pagão, mas também se encaixa satisfatoriamente com a crença cristã de que a direita é positiva enquanto que a esquerda é negativa. Outro costume que pode ter elementos do paganismo é a tradição do crios Bríde, um grande anel comumente feito de corda de palha. Estas normalmente tinham de 8-12 pés de extensão, e as extremidades onde a palha se juntava eram formadas na forma de uma cruz. Algumas tinham três ou quatro cruzes tecidas nelas (em cada ponto cardeal) de acordo com uma tradição local.59

                O crios Bríde, o cinto de Brìde, frequentemente era desfilado pela comunidade junto com a brídeóg, e as pessoas deviam passar por ele a fim de serem abençoados por Brìde e garantir a proteção contra doenças no ano vindouro. Cintos maiores podiam ser feitos para o gado passar também, pelas mesmas razões, e no Condado de Galway, eles eram pendurados na porta da vacaria para as vacas passarem por eles. A fórmula geral do ritual era simples: sendo presenteado com o crios, a pessoa beijava a cruz principal (se houvesse mais de uma), e então ele ou ela a levantaria sobre sua cabeça e a deixaria cair no chão ao seu redor, de forma que a pessoa ficasse parada no meio do círculo. A pessoa então saía do crios com seu pé direito primeiro, e repetia o rito por mais duas vezes.60

                Ó Duinn dá uma interessante interpretação do significado do ritual:

                “Está claro que o ‘envolvimento’ da pessoa pelo crios – acima, abaixo e ao redor (os quatro pontos da bússola) – é de suprema importância nesse rito... Isso parece ser uma parte da arcaica cosmologia céltica na qual o mundo está incluso entre o céu, a terra e o mar. O céu pode quebrar suas fronteiras e invadir a terra com um relâmpago, a terra pode quebrar suas fronteiras abrindo-se em um terremoto ou uma erupção vulcânica e o mar podia invadir a terra em uma inundação. Para manter a harmonia no universo, cada uma dessas forças poderosas devia ser mantida em suas próprias fronteiras.”61

                Além disso, supondo que a pessoa está parada no centro de um crios com as quatro cruzes, uma em cada ponto cardeal, isto pode ser interpretado como representando os quatro pontos cardeais e o centro – as cinco direções terrestres que podem ser aplicadas aos cinco coiceda (quintos), ou províncias da antiga Irlanda. Assim, poderia ser dito que a pessoa está reafirmando sua posição dentro da paisagem sócio-política – sua posição dentro de sua sociedade imediata da família, que se relaciona com a posição de sua família dentro de um contexto mais amplo das divisões políticas encontradas na Irlanda.62

                Os aspectos cosmológicos desse ritual também podem ser comparados com a tradição das orações do tipo lorica (lúireachaI) como o Peitoral de São Patrício (também conhecido como O Grito do Veado), que simbolicamente rodeia a pessoa com a palavra de Deus, como uma proteção. Como as palavras rodeiam a pessoa na oração, assim faz o cinto.

Resumo

                Podemos ver então que o Là Fhèill Brìghde, ou Imbolg, como já foi conhecido na Irlanda, celebrava os primeiros sinais do retorno da fecundidade à terra. Enquanto que os suprimentos na despensa eram poucos, a esperança estava nos primeiros cordeiros da estação, trazendo com eles um pouco de leite, um sinal de que logo as vacas paririam bezerros e, portanto, a principal fonte de sustento do verão logo estaria disponível mais uma vez.

                Os costumes associados com o dia – ou mais propriamente, com a véspera do festival – eram todos destinados à celebração e à propiciação da santa para garantir uma boa colheita e o suprimento do leite no ano que viria. Esperava-se que Brìde caminhava pela terra mais uma vez – isto não é algo comumente associado com qualquer santo cristão e talvez seja uma evidência de suas origens pagãs – concedendo as bênçãos sobre o povo, seu gado e as sementes para o próximo ano. Naturalmente, os pensamentos voltavam-se para a saúde e o bem estar do povo e do gado, e assim, os costumes também se centravam em torno da garantia da saúde e proteção contra doenças e maus intentos, tais como o brat Bríde na Irlanda.

                Como Ó Cathaín escreve, “Não há nada na água ou no solo que não esteja pensando em reprodução na Festa da Santa Brígida.”63  

Referências

1. Carmichael, Carmina Gadelica, 1992, p580.
2. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p38.
3. Patterson, Cattle Lords and Clansmen, 1994, p129; Campbell, The Gaelic Otherworld, 2000, p541; Danaher, The Year in Ireland, 1972, p13.
4. Hoje, o nascimento dos cordeiros geralmente começa por volta da época da Páscoa, mas antes dessa mudança no período medieval, os cordeiros vinham antes – ou pelo menos, alguns dos cordeiros nasciam antes para tornar um pouco de leite disponível para o consumo humano; mesmo se os cordeiros sucumbissem ao frio, as ovelhas ainda produziriam leite que seria usado. Patterson, Cattle Lords and Clansmen, 1994, p129; McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p19/28.
5. Ó Catháin, ‘The Festival of Brigit the Holy Woman’, Celtica 23, p243.
6. Patterson, Cattle Lords and Clansmen, 1994, p131; Ó Catháin, ‘The Festival of Brigit the Holy Woman’, Celtica 23, p238-239.
7. McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p30.
8. Mackenzie, Wonder Tales from Scottish Myth and Legend, 1917, p19.
9. Carmichael, Carmina Gadelica, 1992, p581/584; McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p28.
10. Carmichael, Carmina Gadelica, 1992, p.582.
11. Carmichael, Carmina Gadelica, 1992, p.582.
12. Carmichael, Carmina Gadelica, 1992, p.583/585.
13. Carmichael, Carmina Gadelica, 1992, p.583.
14. Martin Martin, A Description of the Western Isles of Scotland.
15. Ver McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p27.
15A. Carmichael, Carmina Gadelica Volume I, 1900, pp164-173.
16. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p379.
17. Carmichael, Carmina Gadelica, 1992, p585; McNeill, The Silver Bough Volume 2, 1959, p20; Mackenzie, Wonder Tales from Scottish Myth and Legend, 1917, p47-48.
18. Carmichael, Carmina Gadelica, 1992, p583.
19. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p122.
20. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p379.
21. Carmichael, Carmina Gadelica, 1992, p584.
22. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p122.
23. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p122/219-220; McNeill, The Silver Bough Volume I, 1957, p91-92.
24. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p270; Danaher, The Year in Ireland, 1972, p14.
25. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p177.
26. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p179.
27. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p15.
28. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p15; Ó Cathaín, ‘Brigit the Holy Woman’, p251.
29. Ó Cathaín, ‘The Festival of Brigit the Holy Woman,’ p249.
30. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p15-16; Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p27-29.
31. Citação de IFC 904; 178, Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p27.
32. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p27.         
33. Danaher, The Year in Ireland, 1972, 15/16.
34. Ó Cathaín, ‘The Festival of Brigit the Holy Woman,’ p234-235; Danaher, The Year in Ireland, 1972, p33; Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p35.
35. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p37.
36. Ó Cathaín, Brigit the Holy Woman, p235-236; Danaher, The Year in Ireland, 1972, p33.
37. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p32.
38. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p33; Ó Cathaín, ‘The Festival of Brigit the Holy Woman’, p234; Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p137.
39. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p268; Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p157.
40. Citação do IFC 904; 179, Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p97.
41. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p121. Ver também, o artigo que acompanha as ilustrações citadas acima.
42. Evans, Irish Folk Ways, 1957, 268.
43. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p18.
44. Ibid; Evans, Irish Folk Ways, 1957, p99/p268.
45. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p19; Paterson, ‘Brigid’s Crosses in County Armagh,’ em Journal of the County Louth Archaeological Society Vol. 11, No. 1, 1945, pp. 15-20.
46. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p20-21.
47. Ó Cathaín, ‘The Festival of Brigit the Holy Woman,’ p252.
48. Ó Cathaín, ‘The Festival of Brigit the Holy Woman,’ p252-253.
49. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p23; Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p33.
50. Citação de IFC 904; 310, Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p.49.
51. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p270; Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p48-49.
52. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p24.
53. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p29.
54. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p30.
55. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p37-38.
56. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p97-98.
57. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p101.
58. Ó Cathaín, ‘The Festival of Brigit the Holy Woman,’ p254-257.
59. Ó Cathaín, ‘The Festival of Brigit the Holy Woman,’ p258; Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p145; Danaher, The Year in Ireland, 1972, p34-35.
60. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p145/151; Ó Cathaín, ‘The Festival of Brigit the Holy Woman,’ p248; Danaher, The Year in Ireland, 1972, p34-35.
61. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p147.
62. Ó Duinn, The Rites of Brigid, 2005, p147.
63. Ó Cathaín, ‘The Festival of Brigit the Holy Woman’, p237.                                                                                                                  

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